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MAUS EXEMPLOS #255 -SERGIO PELAGIO

02 de maio de 20261h1min
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"Maus Exemplos" é o programa de autor de Pedro Saavedra e Rui Miguel, com entrevistas “a quem já falhou”.

Participantes neste episódio3
P

Pedro Saavedra

Co-host
R

Rui Miguel

Co-host
S

Sérgio Pelagio

ConvidadoMúsico
Assuntos4
  • Sucesso e FracassoFalhanço na Expo 98 · Impacto da música na vida · Memórias da infância · Política e ativismo · Desafios da arte contemporânea
  • Música e CulturaA importância do som · Influência do jazz · Relação com a música
  • Cultura e política em Portugal25 de Abril e suas memórias · Movimentos estudantis
  • Indústria MusicalTransição para a música profissional · Experiências com a dança
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Maus Exemplos Um programa de Pedro Saavedra e Rui Miguel Na Radar

Olá, bem-vindos aos Maus Exemplos aqui na Radar 97.8 para Lisboa e online em radarlisboa.fm. Como sempre, somos o Pedro Saavedra e o Rui Miguel e juntos, ele, som e eu, voz, estamos aqui a entrevistar quem como nós já falhou, mas sabe que não é um fracasso. Olá, Rui. Olá, Pedro. Como estás? Estou bem, estou bem. Como é que foram estas tuas semanas?

Foram umas boas semanas, foram umas semanas de recuperação de energia, concentração no trabalho e está tudo a correr bem. E a primavera, estás a gostar? Estou a gostar imenso da primavera, do 25 de abril. Tu és homem que gosta da primavera. Gosto a partir da primavera. Agora há pessoas que preferem o outono.

Mas eu também gosto do outono, porque eu nasci no outono. Isto é tudo um crescendo. A primavera dá-nos este alento para o bom tempo, para as férias, para andar na rua, para as festas. É verdade, é verdade. E quando chega o outono, nós aproveitamos ali meio outono, com calorzinho, até ao fim de outubro. O outono sabe até melhor se a primavera tiver sido boa. Exatamente. Olha, eu hoje gostava de saber se tu achas que cada pessoa tem o seu próprio som.

Sim, o corpo humano tem o seu próprio som. Nós conhecemos o andar das pessoas. Acho que aquilo que é mais característico será a mesma voz. Que é uma impressão que nós podemos dizer digital. A impressão vocal é única. Não há duas vozes iguais mesmo que existam vozes parecidas. E depois existem todos os outros sons do nosso corpo. Respirar, respirações mais ofegantes. Às vezes há pessoas que até têm conflitos com a forma como outros respiram ou como outros mastigam. Ou até como ressonam.

Que é um problema também. É um grande problema. O problema do nosso corpo. Depois, no que toca a outro tipo de atividades, em que usamos, por exemplo, instrumentos musicais, usamos, ou usa quem os toca, sem dúvida que o mesmo instrumento terá um som diferente nas mãos, ou na boca, ou seja onde for, de cada músico. De cada pessoa, pois é. Exatamente.

Bom, aqui nos maus exemplos, mesmo que não sintam que cada pessoa tem o seu próprio som, não faz mal. Mesmo que sejam daqueles que confundem o som do corpo com o som da mente, também não faz mal. Importante é que saibam que cada corpo tem a sua própria imagem, o seu próprio movimento e, inevitavelmente, o seu próprio som.

Se dissermos a palavra corpo a alguém, essa pessoa inicia um processo de imaginação que envolve uma operação de soma de todas as memórias de todos os corpos anteriores. Uma espécie de corpo conjunto acontece na imaginação e esse mesmo corpo conjunto é único de cada uma das nossas próprias imaginações. E quando vemos um novo corpo?

E quando vemos um corpo que se apresenta de uma forma completamente diferente? A nossa memória não o consegue reconhecer no passado e abre-se, com bastante atenção, a uma nova experiência. Lá está. Esse é um dos segredos da arte do espetáculo. Apresentar um corpo reconhecível, mas de uma nova forma, destacado das nossas memórias, ou pelo menos com potencial de se acrescentar às nossas memórias. Assim como a imagem de um corpo, existe o som de um corpo. Quando ouvimos um som...

Há algo dentro de nós, primordial até ao longínquo momento da sobrevivência, que nos afeta, que nos emociona. Tal como no ambiente selvagem, em que um som nos pode avisar e até salvar, tal como nos pode atrair ou enojar, os sons estão interligados aos nossos movimentos mentais. E por isso o som e o movimento estão irmanados na espécie humana.

Não só na dança, mas sobretudo na dança, a arte de juntar som e movimento tornou-se numa arte de juntar memória e emoção. Mas quem é melhor para nos falar nisso do que um corpo de 60 anos que é músico à 43. Olá! Olá, Pedro. Olá, Rui. Muito obrigado por este convite. Conta-nos então dos teus maiores falhanços.

Um dos meus maiores falhanças aconteceu em 1998 do século passado, quando fui convidado para fazer a música para um evento da famosa exposição internacional Expo 98, em Lisboa.

E na altura, vou ver se me lembro disto tudo, eu fui um dos músicos convidados já numa longa fila de outros colegas que tinham recusado o convite, não sei porquê, provavelmente suspeitaram ali de alguma coisa.

Eu era bastante mais jovem na altura, o convite foi bastante aliciante, era um trabalho que era mais bem pago até hoje na minha vida, eu precisava bastante daquele dinheiro na altura.

Embora desconfiasse, porque eu nunca sentia que fazer música para um grande acontecimento de massas, como era aquela exposição, eu ia fazer música quase para a abertura da exposição. Era um projeto coletivo, dirigido por um grupo de teatro.

E aquilo não... Enfim, eu percebi logo que aquilo não era trabalho para mim. Não estava muito habituado, mas enfim, aceitei o desafio e depois foi um fiasco. Eu, de facto, não consegui produzir naquelas condições, não me senti bem a ser tão dirigido e tão condicionado por uma série de circunstâncias.

Embora o projeto, depois eu vim a saber, já estava... era um projeto já falhado à partida, porque já... não sei se há... provavelmente já ninguém se recorda do que terá sido, mas os olharapos eram uma espécie de uns monstros que iriam circular pelas ruas da Expo e supostamente seriam...

Seriam umas máquinas altamente tecnológicas e bem produzidas, que teriam mecanismos muito sofisticados e que se movimentariam por si, controladas à distância, não sei como é que aquilo iria funcionar na Expo, mas depois o orçamento daquilo, aquilo caiu tudo, e quando eu vou trabalhar para o projeto já só restavam as carcaças desses monstros.

E decidiu-se, não eu, mas a direção, decidiu enfiar dentro desses monstros humanos umas pessoas que, coitadas, tiveram que durante não sei quantos meses carregar aqueles monstros às costas pelas ruas da Expo, em condições terríveis. E de vez em quando, para refrescar, saíam daqueles monstros e faziam umas pequenas performances na rua com música, eram músicos, atores que teriam que tocar.

e fazer assim umas pequenas performances. E eu fui convidado para, não só para fazer o hino dos olharapos, mas também para coordenar o trabalho destes músicos que estavam dentro destas máquinas. E pronto, aquilo foi logo, quanto a mim, foi logo um projeto muito falhado à partida e, de facto, eu não consegui entender-me com a direcção do projeto.

todas as minhas sugestões não correspondiam àquilo que era pretendido a música que eu sugeri foi entendida como não sei de quando um hino, não era um hino e de facto eu acho que não sou pessoa para fazer hinos e aquilo ocorreu muito mal e acabei por ser despedido a meio do projeto e substituído por outra pessoa portanto foi mesmo um falhanço

e que me deixou marcas, que me traumatizou por isso é que eu o trouxe para aqui porque houve muitos outros falhanços que não me não me marcaram tanto mas aquele de facto foi muito aborrecido e muito chato. Obrigado, Sérgio Pelagio bem-vindo à Radar

E ela me ama como um do Hold your bad hands, I cry Tis a pity she was a whore Tis my curse, I suppose That was patrol That was patrol This is the whole

Tis a pretty she was a whore She's no mind first

Man, she punts me like a dude Hold your man as I cry To the pity she was a fool Tis my fate, I suppose

E foi esta a primeira escolha musical do nosso convidado. Tiz a pity, she was a whore, um tema incluído no último álbum de David Bowie, editado em 2016. Maus Exemplos Na Radar

Uma canção ideal para te pôr a dançar? Bem, eu dificilmente sou posto a dançar. Mas o David Bowie...

consegue fazê-lo. E eu acho que tomei consciência disso quando ele desapareceu, da falta que ele... de facto, da falta que ele me fez. Quer dizer, acho que foi um músico e um artista absolutamente fora de série por toda a sua carreira, por tudo o que fez, pelo que conseguiu fazer, pelo que transformou, pelo que mudou, pelos...

pelos personagens todos que encarnou eu acho isso incrível mas acho o Black Star um disco absolutamente arrepiante absolutamente memorável absolutamente uma obra-prima da música quer seja pop, rock assumir a morte num álbum

Sim, e daquela forma... Sim, e com uma música que eu acho absolutamente... Fabulosa, genial. Acho incrível ele ter realizado ali algo que eu acho que ele desejava há muito tempo fazer, que foi... Pegou num... São músicos de jazz que gravaram aquele disco com ele. Eu sou músico de jazz, portanto sou muito...

Sou muito sensível a isso E fico muito feliz Quando há estas misturas Assim, tão conseguidas Ainda por cima Com resultado Tão conseguido Não é nada aquela coisa de Vamos experimentar, misturar O David Bowie Com o jazz Uma coisa forçada Para alguém que trabalha na música Que é o teu trabalho Sim

Em que ocasiões é que ouves música? Por prazer? Apenas por prazer? É difícil. Não a tua música. É muito difícil. Por acaso agora recuperei há pouco tempo. Há tantas parece que estás a ouvir trabalho. Estou sempre a trabalhar. Estás a ouvir como é que eu fiz isso? Sempre, sempre, sempre. Estou sempre. É muito difícil. Mas é injusto não haver o prazer de ouvir música.

Ah, mas de facto é difícil. Sobra pouco tempo para conseguir esse... É difícil conseguir esse estar. Mas tu depois, por exemplo, numa sessão de trabalho, preferes o silêncio? Prefiro o silêncio. Prefiro um valor ao silêncio. Imagino. É isso. O silêncio tem um bocado essa...

Enfim, o silêncio também se escuta. Claro, obviamente. Escutam muitas coisas, mas o silêncio, pronto, eu prezo muito o silêncio e é exatamente isso. Depois de um trabalho, de uma gravação, de um concerto, nada melhor do que desligar. Mas ainda há álbuns, por exemplo, que gostes de ouvir. O que eu estou a dizer, desculpa, é que há pouco tempo recuperei o vinil. Fui desses.

E tinha muitos, muitos, muitos vinis, porque obviamente comecei no meu tempo, sou do tempo do vinil e da cassete. E de sacar músicas dos vinis, com a agulha para a frente e para trás, e gastar os vinis para sacar a malha de guitarra, não sei o quê, pronto. Enfim, pré-história. E agora recuperei, herdei uns giradiscos, fabuloso, um técnico topo de gama, absolutamente maravilhoso, que eu nem sabia.

que o meu sogro teve a gentileza de me oferecer e eu recuperei o todo e coloquei-o na sala, um pouco sem grande esperança de ter de voltar a... ter essa disponibilidade e esse tempo para colocar um disco e de facto aquilo mudou muito a forma como consegui com o vinil voltar a sentar-me no sofá à frente das duas colunas

e transformar aquilo naquele ritual. E geralmente é jazz. E funciona. Não, ouço muito, ouço muito, tinha muitos discos de rock também, tenho filhos bastante jovens, portanto que ouvem muito rock, e muita música, tenho um filho muito ligado à eletrónica, tenho uma filha muito ligada...

Há música clássica, mas também ao rock e ao jazz. E eles trazem muitas coisas para eu ouvir. Portanto, passa-te tudo por ali. Sim, já percebi. Tu estavas a dizer que és do tempo do disco e da cassete e é por isso que achas que és velho por fora, mas não tanto por dentro. Isso foi daquelas... Tentar responder àquelas perguntas impossíveis.

Mas o que significa isso para ti? Não me sentes velho? Não me sinto velho Vejo-me velho quando vejo ao espelho Não me reconheço ao espelho Acontece-me aquela coisa estranha Quem é aquele gajo? Acontece-me essa coisa que eu vi

lembro-me sempre do Dustin Hoffman daquele autor, naquelas entrevistas às estrelas eles queixam-se dessa coisa e de facto identifiquei muito com ele eu não me sinto jovem por dentro não me sinto que tenha acompanhado os tempos mas quando me vejo de facto ao espelho muitas vezes aquilo não corresponde muito

Pronto, ao interior. De facto, não me sinto envelhecido. Não tenho ainda grandes sintomas de... Mas se tivesse que escolher a tua idade mental, qual é que seria? Onde é que ficaste? Tenho vergonha de dizer. O que está me diz? 19.

Ou seja, estás nos 19 até ao fim. Pato, continua muito por aí. E esse rapaz de 19 anos estaria feliz agora por ser este homem de 60? Sim.

Achas que fizeste esse arco de felicidade? Sim, acho que sim. Não sentes que tenha ficado nada para trás? Claro que sim. Porque aos 19 anos temos tantos sonhos. Claro que há aquelas coisas todas que tu começas a perceber que já não vais ter tempo. Sobretudo isso é mais isso que me preocupa, é saber que não vou ter tempo para...

para concluir muitas coisas que gostaria de concluir. Mas tu aos 19, o que é que idealizavas para a tua vida? Eu aos 19 estava com a pica toda, a ir para Nova Iorque, sair de Portugal, ir mesmo às fontes, às origens.

Portugal era um país muito diferente naquela altura, portanto, muito pouco informado, muito fechado ainda, e a sofrer muito ainda as consequências da ditadura, de fechamento, portanto, de isolamento total. Portanto, houve muitas pessoas da minha geração, havia muito aquela ânsia de sair, para ir, de facto, ver com os olhos e experimentar como é que era aquilo tudo que nos ia chegando aos ouvidos.

Por vias pouco. Portanto, não imaginavas ser músico em Portugal? Eu não saí com a perspetiva de não voltar. Eu saí porque... Querias aprender. Porque queria aprender. Fui estudar para Nova Iorque, exatamente. Queria aprender e foi... Não pensava muito no... Não tinha planos para se...

do que me ia acontecer. Fui à procura, expus-me isso sem grandes planos. Queria de facto expor-me a essa uma realidade completamente diferente e que eu via nos filmes e que eu ouvia dizer e que e quis viver de facto como é que era. Tu nasceste em Lisboa. Eu nasci em Lisboa. O que é que os teus pais faziam?

Sim, quando eu nasci o meu pai era advogado e a minha mãe era médica. E eram os dois muito ativistas contra o regime fascista. E ouviam música? Ouviam muita música. Havia música lá em Caio? Havia música toda a hora. Tivesse privilégio, essa sorte. Vinis. Só Vinis. O meu pai era um melómano, portanto ouvia sobretudo muita música clássica.

A minha mãe ouvia canções Ouvia canção francesa E aquelas coisas todas Muita música de intervenção Havia discos proibidos E livros proibidos Em fartura Escondidos dentro das gavetas Sentes que tiveste uma infância politizada? Totalmente politizada

Eu conto-se de ao 25 de Abril, tinha 9 anos e era uma criança que tinha uma consciência completa política naquela altura. Sabia o que era a democracia. Foste acordado aos gritos para a tua mãe nesse dia. Sabia acordar aos gritos para a minha mãe nesse dia. Felicidade, gritos de felicidade. Gritos de felicidade, êxtase total, alegria total, porque finalmente me há acontecido aquilo que...

que os meus pais queriam muito que acontecesse e a concretização, a realização de um sonho antigo Tu sentiste aquela coisa que eu te assumo que tenho ciúmes não ter sentido de uma espécie de alegria coletiva

completamente, como nunca voltei a sentir mais nada na minha vida. Portanto, foi um dia absolutamente marcante, inesquecível. O dia e o período a seguir, me arrepio quando falo disso, porque de facto foi eu senti, como tinha essa consciência muito política e sabia muito, vivia em casa esse medo do regime e das perseguições, de esconder.

esconder pessoas, esconder livros. O meu pai chegou a estar dois anos preso na Embaixada do Brasil por ter participado na Revolta de Beja em 61. Portanto, eu sabia muito bem o que era... tinha plena consciência do que era aquilo. Portanto, quando esse dia acontece, é exatamente essa coisa do ir para a rua.

quando ainda nem sequer se sabia se aquilo ia dar para o certo ou para o errado, quando tínhamos militares armados na rua, que tu não percebias de que lado é que estavam uns ou de outros, não percebias de onde é que eles estavam, porque simplesmente foste para a rua sem pensar. E foi o que a minha mãe fez, pegou em mim e na minha irmã, e pegou nas jardinheiras que tínhamos na...

na varanda, não havia cravos, não conseguíamos pôr umas chardinheiras vermelhas e fomos com umas chardinheiras, porque já se percebia que o cravo era o... já andavam cravos ali na ponta das metralhadoras, que passaram... Eu vivia na Estrada das Laranjeiras, ali em Benfica, ao pé de Benfica, e passavam por ali os chai mitos todos, que vinham do quartel lá de cima de Carnida, não sei o quê.

E desceram ali as estradas laranjeiras todas, com os soldados já em cima de Chaimites. Nós viemos da varanda aquilo e foi tudo a correr. Mas tu, nessa altura, com 9 anos, dos teus amigos, dos teus colegas da escola, não havia essa politização? Ou seja, tu eras um rapaz que sabia coisas que os outros não sabiam. Que os outros não sabiam, mas eu tive sorte, porque tive privilégios e, portanto, estudei enquanto criança, estudei numa escola que era o Fernão Mendes Pinto.

que era uma escola onde estudavam muitas crianças que eram filhos de pais, muitos que estavam exilados, era uma escola de pais totalmente contra o regime. Portanto, era uma escola que tinha problemas, que era bastante vigiada pelas polícias. Portanto, nesse sentido, eu conhecia outras crianças e tinha muitos amigos.

que estavam na mesma situação que eu. Mas isso foi uma situação, pronto, era uma escola para quem podia pagar, mas era uma escola que era conhecida por isso. Portanto, eram pessoas... Tiveste essa sorte. E depois envolveste em movimentos estudantis.

Depois, era muito criança, mas apanhei aquela fase toda do liceu muito intensa, não é? Isso, dos movimentos estudantis, das reuniões gerais de alunos. As famosas RGA's. As famosas RGA's, que eram fantásticas. Onde se discutia tudo. Onde se discutia tudo, onde se ouvia a música toda que não se podia ouvir, onde se ouvia música altos.

berres na escola, onde fumava coisas que não se podiam fumar. E fumava-se por todo lado, fumavam pessoas, fumavam alunos, aquilo foi uma coisa completamente meia anárquica, mas muito...

Incrível, foi uma coisa incrível Porque foi sempre muito Eu sempre vi aquilo De uma forma muito construtiva Uma coisa que não foi nada anárquica Fraterna das pessoas, muito incrível É tu começas a estudar guitarra clássica aos 12 anos Ah, isso comecei porque De onde é que veio essa ideia? Essa ideia veio porque a minha mãe Me ofereceu uma guitarra clássica Portanto, aquela coisa de estimular Então eu gostei E aí

qualquer coisa em mim pela música comprou uma guitarra para casa, mandou fazer na altura era uma guitarra muito bonita com o tamanho certo para uma criança aquilo entrou lá em casa e eu não sabia nada mas lembro de ter sentido logo aquilo foi logo muito fascinante agarrei no instrumento e comecei logo a tentar descodificar aquilo e a tentar tocar aquilo à minha maneira

E pronto, a minha mãe era o que havia, arranjou-me lá umas aulas com uma professora. Mas os teus pais nunca te fizeram seguir um caminho? Nada, nada. Isso aconteceu naturalmente? Absolutamente nada, nada. E não te gostou de aprender? Rapidamente desisti das aulas de guitarra clássica. Não é bem o teu estilo. Aquilo não funcionou para mim. Apesar de ter tido uma professora fantástica.

que era uma senhora já de uma certa idade, acho que eu não esqueço de lembrar o nome dela, que era a Matilde Taveira, que era uma senhora de uma certa idade, mas era fantástica, e ela tinha essa capacidade de perceber o aluno e de estimular o aluno de outra maneira. Portanto, ela não era muito rigorosa.

Demasiado naquele esquema Da carreira clássica Começas agora E vais ser Vais trabalhar para isto Para ser muito bem sucedido Porque aí nessa altura não era claro para ti Que isso era uma opção de vida Não, embora eu começasse logo a sonhar Com uma forma de

Não sei, fascinado pela cigarra. Certo. E, portanto, sair da escola. Eu nunca mudei bem na escola. No liceu, bandas? Sim, formei umas bandas, tive umas muito mal sucedidas. Que estilo de música? Indescritível. Música indescritível. Podemos dizer música experimental? Música experimental.

Alugávamos umas... Naquela altura havia umas salas que se alugavam para ensaiar. Era muito difícil ter um instrumento próprio. Os instrumentos custavam... Eram emissão, mas naquela altura era inimaginável. Ter uma guitarra elétrica era uma coisa difícil.

Eram caríssimas e não havia. E era tudo como uma bateria. Era uma coisa que só havia... Há um gajo aí que tem uma bateria. Era tudo assim. Mas tu no liceu podias ter sido outra coisa? Estudaste outra coisa? Eu sim. Eu estava direcionado para a arquitetura.

Eu ainda sou muito sensível e gosto muito... É uma área que se não tivesse sido músico acho que poderia ter sido feliz nessa área também. Então quando é que a música... Quando é que a música se torna... Foi no fim do liceu. Foi no fim do liceu. Tinha uns grandes amigos um pouco mais velhos que eu que hoje em dia estão ligados à música contemporânea o Miguel Asguim e a Paulo Asguim Então eu gostaria de ter

da Miss O Music, que eram um bocadinho mais velhos que eu, e que na altura tocavam jazz e música improvisada, e eu era muito amigo da Paula Azguim, e eles foram-me convidando a participar em umas sessões em casa deles, eu não tocava absolutamente nada.

tocava uns acordes, tocava umas músicas dos Beatles é o costume o costume que aprendi com o vizinho mas o Miguel naquela altura o Miguel já era muito determinado naquela altura e arranjou uma série de concertos nesse verão nos hotéis do Algarve para tocarmos

Não sei o que é também, uma música, uma miste jazz Não pergunto, nas discotecas Uma turnê pelo Algarve Que nos iria dar uma boa base Financeira para podermos comprar Para eu poder comprar um amplificador Para poder comprar...

E portanto aprendi, o Miguel sabia umas coisas, ensinou-me, foi incrível, foi um professor incrível para mim, pôs-me a ler música num estante, eu aprendi uns acordos assim de bossa nova, uns acordos já um bocadinho mais exigentes. Mas isso quer dizer que ele reconheceu em ti um potencial que tu ainda não tinhas reconhecido. Que eu ainda não tinha reconhecido, eu ainda não me tinha apercebido.

E eu, de facto, aderi completamente à experiência e voltei desse verão depois de que tinha 17 anos, portanto, tinha que ter uma carta dos meus pais a dizer que me autorizavam a tocar as discotecas à noite. E voltei desse verão completamente decidido a sair do liceu e ser músico profissional. E a seguir qual foi? E comendo aqui aos meus pais que não iria terminar o liceu e que a partir daquele tempo ia...

ia dedicar-me à música, ia continuar a tocar, fosse onde fosse, fosse como fosse, mas era isso que eu queria fazer. E espera, e antes de Nova Iorque, o que é que tu foste estudar? Eu antes de Nova Iorque entro para a escola, entre os 17 e os 19, entro para a escola de jazz do Otte, de clube de Portugal, onde tive a sorte de ter... Aí com a conivência dos teus pais. Sim, mas ainda estava no liceu, estava no 11º, estava ali a acabar o 11º.

e entro para a escola do Ote e sinto-me muito bem com aquele ambiente não só da escola mas depois com os concertos que havia à noite no clube, a escola funcionava no clube que era uma coisa incrível era uma coisa fabulosa porque tu vivias no clube porque tinhas as aulas à tarde tinha liceu de manhã, depois tinha as aulas no Ote à tarde e depois à noite ia para as jams ou ia ouvir os concertos dos meus professores no clube à noite, portanto aquilo era uma espécie de segunda casa Então Então

Porque eu ficava aberto até tardíssimo, era dos poucos sítios em Lisboa, onde passava por ali também muita gente não ligada à música, mas gostava daquele ambiente muito simpático, do clube à noite, muito aberto, aberto a tudo e mais alguma coisa. No fundo descobriste a tua família no jazz. Descobri a minha família no jazz, descobri, completamente. Então agora vamos descobrir outro primo teu com a tua segunda escolha musical.

Betta que ela veio por ela, disse que tinha uma palavra para dizer sobre as coisas hoje.

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Olhar lá em pó Olhar lá em pó Olhar lá em pó

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River Man Uma das faixas do álbum de Nick Drake Five Leaves Left Editado em 1969 A segunda escolha musical do Sérgio Pelagio Maus exemplos Na Radar Uma canção que te relembra Uma viagem inesquecível a Londres Uma viagem muito turbulenta Muito recente A Londres E vou descrever porquê Então

Não sei se consigo muito rapidamente, vou tentar. Foi uma viagem onde aconteceram muitas coisas... Se é tão inesquecível, queremos saber. Eu fui apresentar, fomos ao Admir a apresentar o meu projeto de histórias magnéticas. Portanto, um projeto que eu tenho para a infância, em que faço música para a narração de contos. Com a atriz Isabel Gaivão? Com a atriz Isabel Gaivão. Projeto que existe já desde 2009, com ampla circulação nacional e internacional.

Projeto muito querido para mim, que gosto muito e que tenho mantido sempre. E fomos ao Admir apresentar uma história que eu escrevi, que se chama, não se deixem enganar, um conto panfletário de 2019. E é assumidamente um conto panfletário, escrito em jeito de reação ao crescimento das forças, enfim, retrógradas que começaram a chegar ao poder nessa altura.

e a pôr em causa as democracias. E foi um conto que eu escrevi como reação a essa onda crescente e que fala das minhas memórias, uma vez que já falámos disso, mas das minhas memórias do período que eu ainda vivi antes do 25 de Abril e depois do período...

Seguinte, portanto, é mais ou menos a visão de uma pessoa que faz uma comparação entre esses dois períodos e, portanto, afirma, sem nenhuma dificuldade, que viver outra vez num regime autocrático. Não. Não, não é? Portanto, o conto fala dessa comparação de uma forma muito panfletária, explícita e óbvia.

Já tínhamos feito cerca de 65 sessões desta história em muitos lugares diferentes do país e desta vez fomos acompanhados para lá de uma jovem produtora que estava a trabalhar para nós que me acompanhou a minha e a Isabel que nos acompanha sempre nestas apresentações e que...

Foi uma viagem muito divertida no carro, porque ela era uma pessoa que estava a trabalhar para nós há pouco tempo, muito jovem, mas fazia umas playlists incríveis. E foi o caminho todo a mostrar-nos playlists feitas de uma maneira muito inteligente e temáticas e super bem feitas. E numa dessas playlists estava esta canção do Nick Drake, que eu já conhecia versões desta música, mas não sabia quem era o Nick Drake, já tinha ouvido a música, mas não sabia quem era o Nick Drake e adorava aquela canção.

Mas quando ouvi o original, fiquei completamente arrepiado com aquilo e fiquei muito tocado pela música. Gostei imenso de descobrir o original.

Fazemos a sessão em Audemira e nessa sessão fizemos duas sessões em Audemira. Numa das sessões fomos clandestinamente filmados por alguém que colocou nas redes sociais a conversa que eu tenho com as crianças a seguir à apresentação da história e fomos vítima de uma situação de bullying gigantesca, com ameaças.

à nossa integridade física, ameaças ao nosso projeto, enfim, uma coisa que se prolongou durante algum tempo depois e que nos obrigou a repensar a nossa...

a nossa presença nas redes, houve muitas atividades que tiveram que ser transformadas naquela altura, houve um espetáculo que teve que ser cancelado na semana seguinte, enfim, foi uma situação nada fácil para nós. E depois a viagem de regresso foi bastante, enfim, vínhamos no carro a pensar como é que vamos lidar com esta situação, que foi muito difícil.

E quando cheguei a casa, lembro-me que aquilo que me fez, que me assentou e que me pôs a cabeça fria a pensar com clareza em relação ao que se tinha passado e sobretudo a começar a pensar como é que se reage a esta nova realidade.

que é uma coisa que agora se tornou habitual e frequente em lançamentos de livros, sobretudo em presença nas escolas de atividades que possam, enfim, algumas dessas organizações entendem que são campanhas de doutrinação das crianças contra, enfim, com coisas muito subversivas e que podem pôr em causa valores muito tradicionais, enfim.

e supressivos é uma atividade supressiva mas este projeto das histórias magnéticas tu tens feito isto em muitos sítios portanto alguma coisa de bom este projeto tem eu acho que é um embora seja um projeto é um projeto que eu

que eu estimo imenso, porque é um projeto muito... não é um projeto que possa ser feito para grandes públicos, nem para grandes salas, é uma coisa que passa muito pelas bibliotecas, pelas escolas, pelos centros recreativos, pelos museus, pelas galerias, por espaços muito pequenos.

Também por alguns festivais, aconteceu em palcos maiores, mas é um projeto muito intimista. E isto começa com uma história do Humberto Eco? Começa com uma história do Humberto Eco, que se chama A Bomba e o General. É uma história que aborda um tema pouco...

levado, ou pelo menos naquela altura pouco levado ao mundo das crianças e que ele o faz, que eu acho, de uma forma muito inteligente, é um conto pacifista é um conto contra as bombas e contra os generais que gostam Macau, Timor, Espanha, Cabo Verde Japão, Odmira Odmira Isto é para público infantil

É e não é. Porque o projeto não é nada... É mais para os professores. É para todas as idades. Aliás, porque a minha abordagem e da Isabela é uma questão que se nos colocou logo no princípio e que é comum aos dois que é a forma de tu chegares ao público.

das crianças e jovem, não passa necessariamente por uma... precedências em termos da linguagem. E o processo criativo começou através das histórias que tu musicaste e que a Isabel conta. E que a Isabel conta, sim. Como é que surgiu essa parceria?

Eu já tinha Eu trabalhei muito com dança A fazer música para dança E a dança Sobretudo a dança mais contemporânea Usa muito, utiliza muito o texto Recorre muito à voz E eu comecei a gostar muito Quando fazia música para dança Muitos dos momentos em que tinha que terem atenção A palavra e como é que a música interagia com a palavra

E este projeto das histórias magnéticas lida muito, lida sobretudo com a palavra e com o texto narrado. Portanto, foi um projeto que me permitiu focar muito nessa questão de como é que a música se liga a uma palavra de uma forma não cantada. Mas como é que as duas convivem em ensaio? Como é que tu costumas fazer isso? Sim. Porque cada pessoa que tu trabalhaste na dança é um universo completamente diferente. Com a Isabel, como é que vocês fizeram isso?

Nós já éramos amigos de longa data, portanto já havia uma cumplicidade no tipo de texto que nos seduzia mais, na forma de contar histórias aos nossos filhos. Falávamos muito sobre a maneira como contávamos histórias aos nossos filhos, como é que era mais eficaz ou menos eficaz.

como é que o texto devia ser lido ou não lido, que tipo de histórias é que liamos aos nossos filhos. Eu, por exemplo, lembro-me do meu pai ter lido muito o Dom Quixote, liamos certos de Dom Quixote, que não eram propriamente um livro para crianças, mas lembro-me dele ler alguns episódios de Dom Quixote e daquilo me ter ficado, aquele personagem ficou para mim...

completamente marcado para mim para sempre e é um dos livros que eu mais gosto ainda bem mas pronto, ficou muito essa coisa do meu pai ter me lido enquanto eu ainda muito criança, histórias que não eram para crianças, mas que ele de alguma forma lia aquilo de uma determinada maneira que aquela imagem daquele personagem independentemente de eu não conseguir perceber todo o sentido da história, aquilo foi muito muito marcante para mim, pela positiva quer dizer, pela...

despertar da imaginação, de não ter a linguagem não ser necessariamente simplificada para eu a poder entender palavras que eu não sabia o que significavam mas isso não contava Mas há uma intuição tua perante essa observação do som, essa observação do texto Sim, eu acho que como dizia eu costumo dar muito este exemplo o poeta Jégomes Ferreira ele dizia que em cada texto escrito, ele referia-se concretamente à poesia, mas eu veia aquilo um bocadinho mais longe mas...

para qualquer texto, mesmo em prosa, mas que há uma melodia inerente escondida em qualquer texto. O texto canta. Que está lá. Olha, mas isto começa tudo com a Vera Mantero, não é?

Em 93. A tua primeira experiência. Ou não? A Vera... Sim, a Vera foi a primeira... É que tu já trabalhaste com tanta gente maravilhosa que é difícil às vezes perceber o que é que tu já fizeste. Eu próprio me confundo um bocadinho nesse momento... Qual é o momento exato? É os anos 90. Os anos 90, 80 mesmo. Mas ainda... Ou seja, como é que tu começas a pôr música em espetáculo? Muito bem. A primeira pessoa...

Eu lembro-me, a Vera se calhar não se lembra, mas a primeira pessoa que me desafiou para fazer música para um projeto, ela conhecia a Vera Manter muito bem, porque ela frequentava o Watt. E a Vera é uma coreógrafa que tem um lado musical muito, ela também canta, e é uma pessoa que tem essa sensibilidade musical hiperapurada e gosta muito de música.

E ela foi a primeira pessoa que me desafiou a fazer música para uma pequena performance dela, salvo erro, ainda para a Gulbenkian, estamos a falar mesmo, eu não sei, princípios anos 90. Não, muito antes disso tudo. Eu acho que ela ainda era bailarina da Gulbenkian, era um trabalho de coreográfico, qualquer coisa, uma coisa desse tipo. E eu acho que aceitei e depois, um mês depois, disse que não me sentia capaz de fazer aquilo. Não estava ainda...

Naquela altura era tudo muito complicado para gravar. Era tudo uma complicação. Parece fácil agora. Eu acho que não fui capaz. E depois o meu trabalho, de facto, o meu primeiro trabalho profissional para dança foi uma encomenda do Francisco Camacho. Para uma peça dele que se chamava Desperdícios. E para apresentar na Bienal de Coimbra, na primeira Bienal de Coimbra.

E essa correu bem? E essa correu muito bem, que eu tocava ao vivo e gostei imenso Uma coisa que também correu bem é a tua relação com a Silvia Real destas produções Real Pelágio desde 1997 Este encontro nasce como?

Eu conhecia Sílvia quando ela era bailarina da Vera Mantero. Era uma das intérpretes da Vera Mantero. A culpa é toda da Vera Mantero. A culpa é toda da Vera Mantero. A Vera Mantero é aquela pessoa que está sempre lá. A culpa é toda da Vera. Conheci ela, foi intérprete num espetáculo da Vera que se chamava Sobe, de 1990. Que o teu currículo diz que foi o primeiro que fizeste banda cenoura. E não foi. Não foi então. Está errado mesmo. Está errado mesmo.

Mas há aqui esta ligação. Há essa ligação. Ao ponto de vocês quererem criar um projeto. E ao ponto de nós sentimos também... Pronto, enquanto eu estava a fazer a música para esse projeto da Vera, conheci a Sílvia e foi um processo de percebermos que havia ali também uma complicidade enorme. Quanto tempo dura este casamento? Este casamento, o nosso casamento oficial...

aconteceu, foi em 96 portanto podes ter uma ideia eu não sei fazer isso mas continua a resultar é obra como o Casio Tone, que é um espetáculo lindíssimo que aconselha toda a gente a ver a dona domicília é um trabalho maravilhoso da Silvia

E que vocês continuam, aquilo continua a fazer um sentido. Porquê que achas que isso aconteceu? Ou vocês não estavam à espera disso? Nós não estávamos à espera. Este espetáculo dura há 30 anos? É isso, é de 97. Portanto, estás a ver há praticamente 30 anos. Com outras versões, mas... Teve duas... Como é que se diz duas? Há uma trilogia, não é? É uma trilogia. Certo. Foi depois seguido do Subton e o Triton, que foi o que fecha a trilogia.

O Caso de Atorno foi o primeiro, foi o mais, pronto, da trilogia foi o mais emblemático, por ter sido o primeiro. Eu acho que é um espetáculo, não sei, foi... É muito difícil, de facto, descrever aquilo, porque... É assim uma... Não sei, eu lembro que o primeiro grande desafio foi tentar fazer um espetáculo...

coubesse numa caixa com 4 por 2 metros. Esse foi o primeiro desafio. Quem não viu não sabe, mas é mesmo assim. Esse foi o primeiro... Queríamos fazer uma coisa... É difícil de...

que vinha muito do nosso desejo, que misturava uma data de ambições e desejos. Por um lado, havia muito desejo de tirar a dança contemporânea de um bocado de um certo meio, um bocado de nicho e elitista, e fazer qualquer coisa que circulasse e que pudesse ser apresentado para públicos muito diferentes.

Se calhar tínhamos a ideia de fazer um cenário que pudesse ter umas rodinhas e pudesse ser puxado e ser apresentado. Se calhar começou um bocado por aí. Mas a ideia do circular e de acreditar que a criação contemporânea e a dança assim mais alternativa...

e um pouco mais fora da... não sei como é que se pode definir mas punha um bocado em questão estava muito preocupada nisso em levar mais longe os limites e os preconceitos todos que existiam naquela altura de conseguir fazer chegar isso a outro tipo de público mas podia ter ficado a marcar uma época e no entanto o espetáculo continua a fazer bastante sentido

Eu acho que o espetáculo acabou por falar muito da condição humana, contemporânea, urbana, sei lá. E acho que continua ali uma data de questões que são colocadas que continuam a fazer sentido. E a verdade é que nos continuam a telefonar-nos e a pedir então quando é que repõem o Casio Autónomo? Quando é que o Casio Autónomo vem... Olha, mas no meio de tantas coisas que tu fazes, tantos coreógrafos, tantos espetáculos, incluindo filmes, como é que sobra tempo para fazeres um disco?

quando é que vamos ter um disco? teu, a solo a solo ainda não tenho mas eu trabalhei de facto tive muitos anos seguidos dedicado à dança completamente, quase que me especializei nessa área e a certa altura

acho que foi quando o meu primeiro filho nasceu senti um enorme desejo de voltar a dedicar mais tempo ao instrumento, senti saudades do instrumento aquela coisa da prática do instrumento que eu tinha muito essa rotina de praticar, de tocar todos os dias de fazer essa procura criativa coisas novas com instrumentos e que na dança de facto eu não estava a fazer estava muito ligado também ao lado da concepção da concepção de espetáculos eu gostaria

Por exemplo, me meter nos cenários, na iluminação, no guião, na música, por isso e tal. E, de facto, quando o meu filho nasceu, aconteceu-me uma coisa muito orgânica e corporal, muito intensa, para o acalmar, para o adormecer, de pegar na guitarra e começar a tocar para ele. E aconteceu-me isso, de facto, pegar na guitarra, começar a tocar para ele, depois ele adormecia e eu pegava na guitarra. E continuava a tocar para ti. A ver, afinal, eu preciso disto. Portanto, isto foi...

Em 2003. Mas desde aí até agora eu voltei de facto a tocar. Há minha atividade mais como músico. Fazer música pela música. Mas o disco vai ter também o Mário Franco? Eu editei já. Eu já tinha alguns discos, tinha algumas das gravações que tinha feito com bandas sonoras. Mas o primeiro disco que fiz em meu nome foi este. Foi o Riff Out.

que é de 22 em que de facto é a música original escrita por mim é um disco é o primeiro disco em que eu ponho o meu nome é comigo e com esta banda incrível é só em teu nome olha, o que também é original é sempre a pergunta do Rui Miguel Rui, tens alguma pergunta original ou não para o Sérgio?

Sim, a minha pergunta é mais no sentido técnico. Aproveito que estás a falar da tua guitarra, porque tu és guitarrista, e gostava que nos descrevesse. A tua guitarra, isto é mais para aquele pessoal que tem aquelas curiosidades e sobretudo também os guitarristas.

Tu usas uma Gibson, uma guitarra elétrica. Explica-nos que modelo é esse? Qual é o amplificador que usas? Se usas efeitos, não usas? Já sabes qual é a conversa. Sei. Na verdade, neste momento, não estou a usar essa Gibson. A Gibson que eu usei... Eu usei várias guitarras, mas a primeira guitarra elétrica que eu tive...

que foi comprada também em circunstâncias incríveis, me seria outra história. É uma Gibson SG de 1971. Tive a sorte da minha primeira guitarra elétrica ter sido logo uma guitarra de topo, que hoje vale milhares de euros, que me foi trazida de França, ilegalmente, escondida, não sei como, não sei, comprada em segunda mão, não sei o que, não me interessa, uma aventura. E é a minha guitarra. É uma guitarra que eu nunca deixei de tocar.

Portanto, aprendi quase a tocar com aquele instrumento e fiquei completamente ligado àquele instrumento. E, portanto, é a minha guitarra de eleição. Gosto sempre de pegar naquela guitarra e de tocar. É uma guitarra que tem muitos problemas de afinação. Portanto, eu conseguia tocar afinado naquela guitarra, mas quando emprestava aquela guitarra a alguém, muitas pessoas não conseguiam afinar na guitarra, porque o braço mexe por todos os lados, aquilo é muito instável.

Mas eu habituei-me a compensar isso, não me perguntes como, e eu conseguia afinar o instrumento. Lembro-me de um grande guitarrista que foi o meu professor, uma pessoa que eu muito estimo, que é o John Abercrombie, ter estado em Portugal.

a meu convite a certa altura e de ter tocado naquela minha guitarra eu lembro que foi numa jam no auto, eu tinha tocado um bocado antes e aquilo soava afinado e depois ele tocou na minha guitarra e ele disse, mas como é que tu consegues tocar naquela coisa? aquilo é completamente impossível de afinar mas essa é a minha guitarra durante muito tempo, sempre gostei muito de efeitos, de usar efeitos mas sempre achei que o som que tu tiras do instrumento eu gostei eu gostei eu gostei eu gostei eu gostei eu gostei

o teu som deves conseguir fazê-lo sem o recurso a nada, portanto deves primeiro porque foi o que me aconteceu, quando eu tive a guitarra eu queria reverb mas não havia o amplificador, não tinha reverb

portanto queria sustém, aquilo não tinha sustém nenhum era tudo uma... portanto tu tens que conseguir sem esses recursos, conseguir simular isso de alguma maneira inventar uma maneira qualquer de tirar isso que tu queres do instrumento e isso foi muito importante para mim, foi o facto de não ter os efeitos como ok, comprar uma caixinha que me dá essa solução não, é conseguir simular isso no instrumento isso determina imenso a tua maneira de tocar por exemplo uma coisa que...

que muitos guitarristas ambicionam, é o Sustenha, é aquela coisa do Conseguidos, que uma nota se prolongue, não é? Como um instrumento de sopro, não é? Que é muito frustrante na guitarra, que morre o tom rapidamente. E conseguir simular isso, de alguma forma, sem o recurso e efeitos, é interessante, não é? É impossível, mas é... Mas consegue-se, de alguma maneira, fazê-lo.

Mas depois pronto, depois comecei a usar que efeitos é aquilo, o reverb sobretudo, o delays, sempre gostei muito de usar o delays, comecei com os clássicos pedais da boss, o reverb da boss, era tudo o kitzinho da boss, o delay, depois os loopers que foram introduzidos mais tarde, que é um...

Um pedal importantíssimo para mim. Eu hoje uso um loop para compor, uso em palco, é uma ferramenta fabulosa para mim. Amplificadores nunca fui assim muito exigente. Mas agora atualmente tenho um Fender Deluxe Reverb. Pronto, a Transistors, não é válvulas, que são muito mais levezinhos. Hoje em dia já tenho que pensar nisso, não dá para amplificadores pesados.

continua a carregar, a ser eu levar-me um amplificador para os gigs. Bom, vamos então à tua lista de maus exemplos. Pedir-te bons maus exemplos e começamos pelo Edward Snowden, um analista de sistemas da CIA e da NSA, conhecido por ter revelado vários sistemas de vigilância global. Pessoa, mau exemplo porquê? Sérgio.

Bom, porque fez algo que é considerado ilegal, denunciou de uma forma ilegal, mas uma coisa que, algo que pôs à mostra escutas que eram feitas pelas companhias de telefones americanas a todos os cidadãos.

Portanto, foi muito importante, eu acho, para nos revelar algo que acontecia e que agora todos sabemos que acontece à descarada, mas que naquela altura foi muito importante para desmascarar, no fundo, um sistema instalado.

que violava completamente a privacidade das pessoas. Portanto, foi um ato, no fundo, que o lixou para sempre. Oh, não, agora está exilado na Rússia. Entrada de estopia pós-apocalíptica, escrita pelo Cormac McCarthy em 2006. Eu só conheço o filme, mas estamos a falar do livro. Livro mau exemplo, porquê? Recomendo o livro altamente. Eu não vi o filme, nem quero ver. Porque o livro...

o livro chega-me e sobra o livro é fantástico foi um livro que quando eu acabei me pôs, estava em lágrimas não consegui parar de chorar durante bastante tempo e é isso é um livro que contando um livro

que fala de tantas coisas, mas sobretudo eu acho que o confrontarmos com o fim de ausência total de esperança, o livro é uma caminhada para uma procura...

De uma réstia, de uma saída De uma luz, qualquer coisa E de facto é chegar lá e não há luz nenhuma Não tem um final de triste Laranja Mecânica Um filme agora sim Em 1971 dirigido pelo Stanley Kubrick Baseado também no romance Num livro homónimo do Anthony Burgess Um filme mau exemplo porquê?

Porque é um filme Que tem uma história Que fala sobre a violência Inerente ao ser humano De uma maneira que eu acho Que ninguém em cinema Pronto, sou fã Do Stanley Kubrick E que consegue fazê-lo Quer dizer, é um filme belíssimo Visualmente Sonoramente Também distópico Como a estrada Gostas de distopias Então

Natália de Andrade, cantora lírica portuguesa, nasci em 1910, ficou conhecida pelas suas originais, interpretações vocais, é uma música mau exemplo, porquê? Eu descobri a Natália de Andrade através do Francisco Camacho, o coreógrafo, que usou a música dela para uma peça dele. E fiquei fascinado pelas suas interpretações.

E acho incrível que este... Alguém que, de facto, interpreta daquela maneira, só conhecendo, só ouvindo, não sei se... Está no YouTube. Está no YouTube. Vou ter a oportunidade de ouvir. Há um filme, por acaso, recente de um fenómeno parecido, um filme... Da Florence Jenkins. Exatamente. Com a interpretação da Meryl Streep, que é um filme que foca alguém com as mesmas características. Portanto, é alguém que, de facto...

Não tem grandes dotes para cantar, mas o amor à música é tão grande que não se preocupa com isso. É como é dito neste filme. Neste filme isso é muito bonito. Eu acho que isso é incrível. Ela, no fundo, ama a música. Ama uma partitura. Ama cantar aquelas... Com uma vantagem extraordinária. Atraiam imensas pessoas para ouvir canto lírico que nunca iriam ouvir canto lírico. Olha, vamos ter que ficar por aqui. Muito bem. Obrigado, Sérgio. Foste um excelente mau exemplo. É uma inspiração ouvir-te.

Portanto, agora passas a ser oficialmente um mau exemplo. Pode ser, temos autorização. E lembrem-se, nem tudo o que nasce torto não se endireta de volta. Somos o Pedro Sávedrio e o Rui Miguel e este foi mais um mau exemplo da nossa sexta temporada. Para quem nos quiser seguir, ouvir os podcasts do programa ou enviar mensagens, estamos, como sempre, no Instagram dos Maus Exemplos e na App Radar. Bem hajam por nos terem ouvido.

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