EXÍLIO – R.A. Salvatore | A Lenda De Drizzt Vol.2 | A SOLIDÃO E SEUS EFEITOS NA IDENTIDADE | Nitroleituras
A SOLIDÃO E SEUS EFEITOS NA IDENTIDADE
A Lenda de Drizzt Vol. 2: Exílio
Autor: R. A. Salvatore
Páginas: 368
Editora: Jambô
Ano de publicação no Brasil: 2017
Tradução: Carine Ribeiro
Dez anos de solidão resolveram um problema de Drizzt Do’Urden. Ele aprendeu a sobreviver no Subterrâneo, encontra alimento, evita criaturas que não pode enfrentar, mata aquelas que precisa enfrentar e desaparece em túneis onde quase qualquer outro viajante morreria. Essa competência, porém, cobra alguma coisa dele. Quanto melhor Drizzt se torna em permanecer vivo, menos reconhece o homem que permanece vivo. R. A. Salvatore começa Exílio justamente depois do gesto aparentemente libertador que encerrou Pátria: Drizzt abandonou Menzoberranzan, mas descobrir que sua cidade era moralmente intolerável não apagou décadas de treinamento, condicionamento e violência. Longe dos drow e sem uma sociedade contra a qual possa definir diariamente suas escolhas, ele encontra um inimigo que não pode derrotar com as cimitarras.
Salvatore dá um nome a essa versão de Drizzt: o Caçador. É o estado em que cálculo, instinto e agressividade ocupam espaço demais, comprimindo pensamento, hesitação e qualquer coisa que possa retardar uma reação necessária. A ideia poderia facilmente virar uma divisão psicológica simplória, uma espécie de alter ego acionado quando a aventura precisa de violência, e o romance às vezes chega perto dessa facilidade. O que o salva é o fato de o Caçador não vir de fora. Ele não é uma influência de Lolth, não constitui uma possessão e tampouco oferece a Drizzt a desculpa confortável de ser outra personalidade. Trata-se do próprio Drizzt adaptado com assustadora eficiência ao lugar em que escolheu viver. O Subterrâneo não precisa corrompê-lo por doutrina porque consegue algo mais simples: recompensa diariamente os comportamentos que ele passou a vida tentando rejeitar.
Essa mudança altera o conflito estabelecido em Pátria. No primeiro livro, Drizzt precisava descobrir que não pertencia a Menzoberranzan e reunir coragem suficiente para romper com ela. Em Exílio, a ruptura já aconteceu, e a pergunta se torna menos confortável. Sem a crueldade dos outros drow funcionando como contraste permanente, o que sustenta aquilo que Drizzt decidiu ser? Sua moral deixa de existir apenas como negação da cidade natal e passa a ser testada num ambiente em que compaixão, demora e confiança podem reduzir suas chances de sobrevivência. O romance encontra força quando percebe que fugir de uma sociedade não significa retirar do corpo tudo aquilo que essa sociedade ensinou.
SINOPSE
Exílio começa cerca de dez anos depois da fuga de Menzoberranzan. Drizzt vive sozinho nos corredores do Subterrâneo, acompanhado por Guenhwyvar, a pantera mágica que convoca através de uma estatueta. Os anos de isolamento o tornaram mais competente e mais perigoso, mas também intensificaram o Caçador, estado em que sua consciência parece se estreitar ao redor da necessidade imediata de sobreviver. Drizzt começa a entender que venceu muitos dos perigos externos daquele mundo sem encontrar uma maneira satisfatória de viver nele. A solidão não o mata como um monstro poderia matar, mas corrói precisamente a parte de si que ele tentava preservar quando deixou Menzoberranzan.
A necessidade de contato o leva novamente a Blingdenstone, cidade dos svirfneblin, os gnomos das profundezas, onde reencontra Belwar Dissengulp. Os dois carregam uma história difícil. Belwar perdeu as mãos durante uma expedição atacada pelos drow, e Drizzt esteve entre os responsáveis por aquele desastre, embora tenha impedido que o gnomo fosse morto. Agora Belwar possui instrumentos encantados no lugar das mãos, uma picareta e um martelo, e se torna uma das primeiras relações adultas que Drizzt estabelece fora de sua própria raça. A amizade que nasce daí não apaga o passado nem transforma o gnomo em simples guia moral. O valor de Belwar está justamente em obrigar Drizzt a voltar a negociar com outra consciência, algo que dez anos de sobrevivência solitária quase eliminaram de sua rotina.
Menzoberranzan, entretanto, continua tratando a fuga de Drizzt como um problema que precisa ser resolvido. A deserção compromete a posição da Casa Do’Urden e ameaça, sobretudo, a relação de Matriarca Malícia com Lolth. Matar o filho renegado torna-se necessidade política, religiosa e pessoal. Depois de outras tentativas fracassarem, Malícia recebe a possibilidade de usar o zin-carla, ritual capaz de devolver movimento a um guerreiro morto enquanto outra vontade dirige suas ações. O corpo escolhido é o de Zaknafein, pai de Drizzt, seu antigo mestre de armas e uma das poucas pessoas de Menzoberranzan que compartilhavam sua repulsa pela sociedade drow. A perseguição deixa então de ser apenas física. O homem que ajudou Drizzt a construir sua identidade volta como instrumento de uma ordem que ambos rejeitavam.
Depois de deixar Blingdenstone, Drizzt e Belwar encontram Estalo, um pech transformado por magia em ganchador. A alteração não atingiu apenas sua aparência. Aos poucos, os impulsos da criatura invadem aquilo que resta de sua personalidade anterior, modificando desejos, reações e sua relação com o próprio corpo. Drizzt insiste em procurar uma maneira de devolvê-lo à forma original, e a viagem dos três atravessa alguns dos trechos mais perigosos do Subterrâneo, inclusive o domínio dos illithids, os devoradores de mente. A partir daí, fuga, tentativa de cura e perseguição passam a ocupar a mesma linha narrativa. Enquanto Drizzt tenta impedir que Estalo desapareça dentro do corpo que recebeu, Zaknafein se aproxima carregando outra forma, ainda mais cruel, de perda da vontade.
O CAÇADOR NÃO É OUTRO DRIZZT
A melhor decisão de Salvatore na construção do Caçador é não tratá-lo como entidade separada. O romance poderia simplesmente afirmar que dez anos de isolamento tornaram Drizzt mais duro, mas prefere transformar essa adaptação em comportamento. O corpo reage antes do pensamento, calcula ameaças, escolhe posições vantajosas e responde à violência com uma rapidez que começa a escapar do controle consciente. A habilidade marcial que desde cedo funciona como sinal de excelência passa a admitir outra leitura. Drizzt luta tão bem porque foi treinado desde criança para isso; o mesmo treinamento que garante sua sobrevivência pertence ao mundo do qual ele tentou fugir.
Em Blingdenstone, uma representação de um basilisco aciona esse mecanismo de maneira especialmente clara. Drizzt revive um confronto anterior e entra novamente no estado do Caçador. O que começa como memória corporal se transforma em agressão, e os svirfneblin que tentam contê-lo passam a ser percebidos como ameaças até que Belwar consegue alcançá-lo. A cena funciona porque não precisa diagnosticar Drizzt. Ele está seguro, cercado por pessoas que não pretendem machucá-lo, mas seu corpo continua reagindo como se estivesse sozinho nos túneis. A ameaça terminou e a resposta permaneceu. Essa distância entre circunstância e reação diz mais sobre o custo da sobrevivência do que qualquer explicação direta poderia dizer.
Belwar importa porque sua presença diminui a necessidade do Caçador. Ele não cura Drizzt nem o convence, por meio de uma lição, a abandonar uma versão violenta de si mesmo. A convivência faz um trabalho mais concreto. Com alguém ao lado, Drizzt precisa conversar, discordar, dividir decisões, aceitar resistência e pensar na segurança de outra pessoa antes de agir. Guenhwyvar já representa afeto, lealdade e companhia, mas Belwar exige uma forma de relação que a pantera não exige. Entre iguais, intenção precisa virar linguagem, e linguagem pode ser contestada.
Essa diferença ajuda a tornar a conhecida bondade de Drizzt menos abstrata. A oposição moral estabelecida em Pátria era muito clara: os drow ao redor dele aceitavam crueldade, manipulação e violência como instrumentos comuns de sobrevivência e poder, enquanto Drizzt rejeitava esse sistema. Em Exílio, agir de acordo com essa rejeição passa a ter custo concreto. Quando decide ajudar Estalo, Drizzt prolonga a exposição do grupo ao perigo por alguém que pode perder a capacidade de controlar a própria violência. A escolha deixa de funcionar como simples confirmação de que o protagonista possui bom coração. Ela interfere na logística da viagem, compromete segurança e obriga Belwar a participar de um risco que não escolheu sozinho.
É nesse ponto que a ética de Drizzt se torna mais interessante. Salvatore o compreende melhor quando sua compaixão provoca dificuldades reais, porque então a bondade deixa de ser decoração moral e passa a ocupar espaço dentro da ação. Nem sempre o romance confia nessa força. Os trechos reflexivos de Drizzt frequentemente explicam sentimentos e dilemas que as cenas já deixaram claros, e há momentos em que solidão, amizade ou consciência recebem formulações mais organizadas do que o material exigia. Essa voz reflexiva se tornaria parte importante da personagem, mas aqui produz algum atrito entre o aventureiro que precisa reagir e o narrador interior que tende a interpretar a reação logo depois. Quando Salvatore confia no corpo de Drizzt, na agressão desmedida, na hesitação tardia e na necessidade de conter a própria habilidade, o livro ganha tensão.
TRÊS CORPOS EM DISPUTA
A partir da segunda metade, Estalo se torna uma das peças mais importantes de Exílio. Sua função ultrapassa a de companheiro excêntrico encontrado durante a viagem, porque seu corpo transforma em problema físico aquilo que Drizzt vinha experimentando de maneira psicológica. Estalo era um pech e foi convertido em ganchador por magia. A transformação não preservou uma mente intacta dentro de uma aparência monstruosa esperando pacientemente por cura. O novo corpo interfere em seus impulsos, em seus desejos e no modo como percebe o mundo. Aquilo que ele lembra ser começa a disputar espaço com aquilo que seu corpo o pressiona a fazer.
Drizzt se recusa a abandoná-lo porque ainda acredita que a pessoa pode resistir à transformação. A escolha é moralmente coerente, mas também revela uma necessidade pessoal. Se Estalo desaparece por completo dentro da criatura em que foi transformado, a confiança de Drizzt na própria capacidade de resistir ao Caçador também perde alguma segurança. A busca pela cura do pech passa a carregar uma espécie de defesa indireta: Drizzt precisa acreditar que condicionamento, ambiente e corpo exercem pressão sem necessariamente decidir tudo. A ajuda oferecida a Estalo, portanto, não nasce de pura generosidade. Existe ali um medo que Drizzt reconhece porque já o sente dentro de si.
Salvatore poderia desenvolver todo o livro apenas com essa aproximação, mas Zaknafein desloca a questão para um lugar ainda mais violento. O zin-carla não devolve ao morto uma vida em sentido pleno. Ele recupera seu corpo e suas capacidades enquanto outra vontade tenta governá-lo. Malícia escolhe precisamente o homem que ensinou Drizzt a lutar e que, dentro de Menzoberranzan, representava uma rara confirmação de que sua repulsa pela cidade não era delírio juvenil. O corpo do pai retorna com a técnica necessária para matar o filho, mas sem a autonomia que tornava aquela técnica parte de uma pessoa. Aquilo que Drizzt teme no Caçador aparece então levado ao extremo: a possibilidade de continuar executando perfeitamente os gestos aprendidos depois que o motivo para executá-los foi substituído.
Estalo e Zaknafein cercam Drizzt por caminhos opostos. Em Estalo, a mente ainda resiste enquanto o corpo altera gradualmente seus impulsos; em Zaknafein, o corpo permanece reconhecível e extraordinariamente capaz, mas a vontade foi sequestrada. Drizzt ocupa um ponto menos extremo entre os dois. Ele ainda escolhe, ainda percebe quando o Caçador avança e ainda possui pessoas capazes de trazê-lo de volta, mas já descobriu que consciência não significa controle absoluto. O romance constrói sua melhor unidade justamente aí, porque três tramas aparentemente diferentes começam a se iluminar sem exigir que algum personagem pare para explicar a correspondência.
O confronto entre Drizzt e Zaknafein funciona por causa dessa preparação. A força da cena não depende apenas da ideia de um filho obrigado a lutar contra o pai morto. O que está em jogo é a possibilidade de que memória e afeto sobrevivam onde a autonomia parece ter sido eliminada. Quando algo de Zaknafein resiste ao controle exercido sobre ele, Salvatore retoma o problema que acompanha Drizzt desde as primeiras páginas: até onde alguém continua sendo a mesma pessoa depois que violência, hábito ou magia assumem parte de seus gestos? A resposta oferecida pelo romance é sentimental, mas não inteiramente fácil. Relações anteriores deixam marcas, e essas marcas podem sobreviver à tentativa de apagar a vontade.
Estalo impede que essa resposta se torne confortável. Nem toda resistência vence e nem todo vínculo repara o dano recebido. Seu destino é especialmente cruel porque aquilo que o ameaça não pode ser separado de seu próprio corpo. Ele carrega o problema para onde for, e a tentativa de cura precisa enfrentar uma transformação que já começou a reorganizar sua maneira de existir. Quando Zaknafein o mata, as duas linhas se encontram de maneira brutal: um corpo controlado destrói outro corpo que estava destruindo lentamente a mente de seu ocupante. A recuperação da forma original de Estalo depois da morte transforma a cura desejada durante boa parte da viagem em constatação tardia. O corpo pode ser restaurado quando já não existe ninguém a salvar.
Essa perda corrige uma facilidade que poderia ter tomado conta da moral de Drizzt. Sua decisão de ajudar Estalo era defensável, mas o fato de ser correta não obrigava o mundo a produzir um resultado igualmente correto. Drizzt pode escolher compaixão, assumir risco e insistir na cura sem receber recompensa por isso. Salvatore não permanece tanto quanto poderia nas consequências desse fracasso, pois o romance precisa continuar avançando, mas o efeito permanece. A ética do protagonista ganha um limite importante: fazer o que considera certo não lhe concede poder suficiente para impedir todas as perdas.
QUANDO A AVENTURA COMEÇA A PARECER UMA SESSÃO DE RPG
A arquitetura temática de Exílio é mais firme do que sua arquitetura narrativa. Pátria possuía um centro muito claro em Menzoberranzan, onde família, religião, educação, política e violência faziam parte da mesma estrutura. Mesmo quando Drizzt mudava de ambiente dentro da cidade, os conflitos permaneciam ligados à mesma ordem social. Exílio rompe essa concentração porque seu protagonista está em movimento, e o romance acaba assumindo parte dessa instabilidade. A liberdade geográfica amplia o Subterrâneo, mas também espalha a energia da narrativa por episódios que nem sempre possuem o mesmo peso.
Há basiliscos, corvos atrozes, duergar, ganchadores, magos, svirfneblin, illithids e outras ameaças. Alguns encontros mudam Drizzt ou alteram diretamente sua compreensão do próprio problema; outros parecem existir porque aquele mundo está cheio de criaturas capazes de matar um aventureiro. A origem de Forgotten Realms como cenário de RPG fica mais visível nesses trechos. O grupo entra numa região, encontra uma ameaça organizada por regras próprias, descobre como sobreviver a ela e segue adiante. A perseguição conduzida por Malícia fornece uma linha contínua, e a tentativa de restaurar Estalo dá direção à viagem, mas nenhuma das duas elimina por completo a sensação de episódios encadeados.
Os illithids mostram bem tanto o problema quanto a inteligência com que Salvatore às vezes consegue aproveitá-lo. A sequência possui presença física forte, perigo imediato e uma mudança brusca na relação de forças, pois os devoradores de mente tornam inúteis várias competências que normalmente favorecem Drizzt. Belwar, Guenhwyvar e Estalo ganham funções próprias, e o aprisionamento cria uma situação em que velocidade ou domínio com as cimitarras não resolvem tudo. Como peça da trama, porém, o episódio ainda conserva algo de aventura inserida dentro de outra aventura. Poderia ser deslocado ou reduzido sem destruir a linha principal.
Tematicamente, a escolha é muito mais precisa. Illithids controlam mentes, escravizam corpos e reduzem indivíduos a funções. Em um romance preocupado desde o início com aquilo que acontece quando alguém deixa de governar inteiramente a si mesmo, eles ocupam um lugar quase inevitável. Salvatore encontra o monstro certo para aquilo que está discutindo, mesmo quando não encontra uma maneira igualmente elegante de fazer esse monstro surgir da cadeia causal da história. Essa diferença explica boa parte do funcionamento de Exílio: alguns episódios parecem acidentais enquanto acontecem, mas depois revelam uma proximidade inesperada com o problema central do livro.
As cenas de combate também vivem dessa ambiguidade. Salvatore é muito bom em organizar movimento. Mesmo com vários participantes, normalmente sabemos quem está em perigo, qual habilidade pode mudar a situação e de que forma o espaço interfere na luta. Drizzt não luta como Belwar; Belwar não possui a velocidade de Drizzt; Guenhwyvar altera distância e mobilidade; Estalo traz outro peso físico. As capacidades dos personagens entram na ação em vez de permanecerem como informação de ficha. Isso torna muitas batalhas legíveis e tensas mesmo para quem não possui interesse especial nas regras ou criaturas de Dungeons & Dragons.
O problema aparece quando o prazer do combate dura mais do que sua necessidade dramática. Algumas confrontações poderiam desaparecer sem modificar muito aquilo que sabemos sobre Drizzt ou sobre sua viagem. Nas melhores, porém, a luta deixa de funcionar como intervalo e passa a revelar personagem. A maneira como Drizzt reage, a velocidade com que o Caçador assume espaço e a dificuldade de distinguir eficiência de perda de controle transformam técnica marcial em material psicológico. O corpo que sabe lutar é também o corpo que ele não controla tanto quanto gostaria.
A prosa acompanha essa prioridade. Salvatore escreve para orientar o movimento, estabelecer atmosfera e permitir que a ação seja compreendida. Não há grande interesse em obscurecer motivações ou produzir ambiguidade por meio da linguagem. Os diálogos são claros, as descrições tendem a servir ao espaço ou à ameaça e a interioridade aparece de maneira direta. Essa clareza acelera o romance, mas às vezes retira das cenas a possibilidade de permanecerem abertas por mais tempo. Drizzt pensa bastante sobre aquilo que acontece consigo e, em algumas passagens, o livro chega à própria interpretação antes que o conflito tenha terminado de produzir seus efeitos.
Estalo e Zaknafein se beneficiam, curiosamente, de uma limitação contrária. Os dois possuem dificuldade para expressar integralmente o que acontece dentro deles, por motivos diferentes, e por isso seus gestos acabam carregando mais peso do que muitas reflexões de Drizzt. Salvatore, que costuma explicar bastante, encontra alguns de seus melhores momentos quando a própria situação impede explicação plena. O silêncio involuntário desses personagens cria espaços que a voz de Drizzt raramente deixa abertos.
MENZOBERRANZAN AINDA NÃO SOLTOU DRIZZT
O título Exílio sugere distância, mas Menzoberranzan continua interferindo na vida de Drizzt mesmo quando ele está muito longe da cidade. A narrativa retorna à Casa Do’Urden, a Malícia e às consequências políticas e religiosas da fuga, impedindo que o romance se reduza a uma sequência de sobrevivência. Drizzt saiu, mas sua ausência produziu um problema dentro da estrutura que deixou para trás. Para a família, ele não é apenas o filho que partiu. Sua deserção cria risco, atrai o desfavor de Lolth e exige uma resposta capaz de restaurar a posição da Casa.
Malícia permanece presa à mesma lógica que Drizzt recusou. A vida do filho importa principalmente pelo efeito que sua morte ou sobrevivência produz sobre poder, prestígio e relação com a deusa. A própria estrutura de Menzoberranzan torna difícil separar maternidade de posse, família de posição política e fé de sobrevivência. Malícia é cruel por decisão própria, mas também pertence a uma ordem em que qualquer fracasso pode colocar toda a Casa em risco. O culto a Lolth intensifica esse mecanismo porque suas exigências nunca precisam ser inteiramente estáveis. Favor e desfavor dependem de sinais, interpretações e demonstrações de força, de modo que a incerteza ajuda a manter obediência.
O zin-carla resume bem essa relação. O ritual chega como privilégio concedido a Malícia, mas esse privilégio também a compromete ainda mais com a vontade da deusa. O corpo de Zaknafein torna-se arma contra Drizzt e, ao mesmo tempo, demonstra o tipo de poder que sustenta Menzoberranzan: alguém pode continuar útil depois que sua vontade deixa de importar. Existe uma ironia forte na perseguição. A sociedade que trata Drizzt como traidor por buscar liberdade mobiliza, para trazê-lo de volta ou matá-lo, pessoas cuja liberdade foi igualmente reduzida por outras formas de controle.
Mesmo assim, Salvatore continua tendo dificuldade em conceder variedade moral suficiente aos drow. Drizzt e Zaknafein funcionam em grande parte porque são exceções, e quanto mais monstruosa Menzoberranzan parece, mais fácil se torna reconhecer a grandeza dos dois. A estratégia é eficiente para uma narrativa de formação moral, mas cobra um preço do mundo ficcional. Uma sociedade dominada por traição, sadismo religioso, violência e ambição corre o risco de parecer construída principalmente para produzir o herói que a rejeita. Em Pátria, essa limitação pesava ainda mais porque praticamente todo o romance permanecia dentro da cidade.
Exílio reduz o problema ao mostrar outras culturas do Subterrâneo. Os svirfneblin são importantes porque quebram a associação entre escuridão física e corrupção moral. Há comunidade abaixo da superfície, e Drizzt precisa descobrir isso depois de uma infância inteira em que aprendeu a enxergar outras raças através dos interesses de Menzoberranzan. Blingdenstone amplia o mundo moral da série e, com Belwar, faz algo ainda mais desconfortável: coloca Drizzt diante de alguém que possui bons motivos para desconfiar dele.
Belwar perdeu as mãos numa expedição atacada pelos drow e não precisa fingir que a história entre seus povos é irrelevante para aceitar Drizzt como indivíduo. Essa distinção dá à relação uma tensão que o romance poderia explorar por mais tempo. Drizzt sabe que não corresponde àquilo que os outros imaginam quando veem um drow, mas também precisa reconhecer que essa imagem não nasceu do nada. Sua raça produziu razões históricas concretas para o medo e a hostilidade que ele encontra. Quando Belwar decide julgá-lo por suas ações, a escolha ganha valor porque não exige que o passado desapareça.
Salvatore, em alguns momentos, resolve rápido demais esse tipo de conflito. A virtude de Drizzt é suficientemente evidente para que várias relações avancem com menos resistência do que poderiam ter. A confiança reconhecida substitui a confiança conquistada em passagens nas quais o romance prefere manter a viagem em movimento. Ainda assim, a passagem por Blingdenstone modifica o personagem porque oferece uma primeira experiência de pertencimento que não depende de negar aquilo que ele é. Drizzt continua sendo drow, carrega a aparência, a formação e a reputação de seu povo, mas encontra alguém capaz de distinguir origem de escolha sem fingir que a origem não tem consequências.
O QUE DRIZZT CARREGA PARA FORA DO SUBTERRÂNEO
Exílio é menos organizado que Pátria. O primeiro romance possuía uma progressão quase inevitável: quanto mais Drizzt compreendia Menzoberranzan, menos conseguia permanecer nela. Aqui, o movimento geográfico é irregular, alguns encontros deixam evidente a estrutura de campanha de RPG e certas ameaças entram e desaparecem rápido demais. A mudança constante de cenário dispersa pressão e faz a narrativa alternar entre drama psicológico, exploração, combate e perseguição sem esconder totalmente as emendas.
Mesmo assim, o romance encontra uma coerência que não depende da linearidade da aventura. O Caçador, Estalo, Zaknafein, os illithids e a própria relação entre Malícia e Lolth colocam Drizzt diante de formas distintas de controle. Nem todas funcionam da mesma maneira, e essa diferença é importante. O Caçador nasce de hábito e adaptação; Estalo sofre uma transformação que começa a reorganizar seus impulsos; Zaknafein tem o corpo sequestrado por uma vontade externa; os illithids transformam dominação mental em sistema. O romance não precisa reduzir essas situações a uma equivalência simples para que uma ilumine a outra.
É também aqui que Drizzt começa a funcionar como personagem capaz de sustentar uma saga longa. Em Pátria, uma parte muito grande de sua identidade dependia da negação: ele não era como os outros drow. Essa diferença podia sustentar uma fuga, mas dificilmente bastaria para dezenas de livros. Exílio começa a construir uma identidade positiva por meio das escolhas que Drizzt faz quando já não existe uma cidade inteira diante dele oferecendo o exemplo contrário. Belwar, Guenhwyvar e Estalo revelam por quem aceita correr riscos, de que tipo de companhia sente falta e quais partes de sua própria violência está disposto a tolerar para continuar vivo.
O romance também impõe limites úteis a um protagonista extraordinariamente competente. Belwar não cura sua solidão. Guenhwyvar não substitui uma comunidade. Estalo não pode ser salvo porque Drizzt acredita com força suficiente que merece salvação. Zaknafein não retorna à vida que tinha antes. Esses limites impedem que habilidade com as cimitarras resolva o problema central. Drizzt pode vencer muitas criaturas do Subterrâneo e continuar incapaz de garantir que as pessoas que ama saiam intactas de seus encontros com aquele mundo.
Salvatore ainda o protege moralmente. O livro quase nunca permite que a dúvida sobre a posição ética de Drizzt permaneça por muito tempo. Há culpa, medo e perda de controle, mas pouco espaço para um erro deliberado grave que obrigue o personagem a conviver com a responsabilidade por uma escolha moralmente indefensável. O Caçador ameaça aquilo que Drizzt é, embora não o empurre até um ponto sem retorno. Essa limitação se tornaria mais visível à medida que a série transformasse o personagem numa figura cada vez mais mítica. Em Exílio, porém, a proximidade do abismo ainda produz tensão porque Drizzt conhece muito bem as ferramentas necessárias para se tornar aquilo que despreza.
O segundo volume da Trilogia do Elfo Negro não possui a mesma concentração de Pátria, nem constrói o mundo com a mesma eficiência. Em compensação, encontra uma pergunta mais difícil para seu protagonista. Fugir de Menzoberranzan era doloroso, mas o sentido do movimento era claro: havia uma cidade atrás dele e a possibilidade de liberdade adiante. Exílio destrói essa clareza ao mostrar que algumas partes da cidade aprenderam a acompanhá-lo. Elas aparecem na maneira como luta, na rapidez com que suspeita, no estado de alerta permanente e na facilidade com que o Caçador assume espaço quando o corpo acredita que não existe ninguém por perto para ajudá-lo.
Por isso, a saída do Subterrâneo no fim do romance carrega mais peso do que uma simples mudança de cenário para o volume seguinte. Drizzt não deixa aquele mundo porque os monstros terminaram, pois o Subterrâneo poderia continuar oferecendo monstros indefinidamente. Ele parte porque começa a perceber que sua forma de sobreviver ali exige alimentar todos os dias uma versão de si mesmo que conhece bem demais. Menzoberranzan ficou para trás muitos anos antes. O Caçador, não.
Escrito por Newton Nitro 06/10/26
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