Episódios de Papo de Veterinária! com Thais Rocha

A história da oftalmologia veterinária no Brasil

06 de julho de 20261h11min
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Venha saber mais da história e das percepções de uma das principais referências da Oftalmologia veterinária no Brasil, o professor José Luiz Laus. Nesse papo incrível, nós conversamos sobre o surgimento da especialidade no Brasil, pilares e mitos da área, quais são as principais doenças que todo médico veterinário deveria conhecer, e muito mais!

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Participantes neste episódio2
T

Thaís Rocha

HostApresentadora
J

José Luiz Laus

ConvidadoProfessor titular aposentado da Unesp de Jaboticabal
Assuntos6
  • Conselho Brasileiro de Oftalmologia· SaudeSurgimento da especialidade no Brasil · Pilares e mitos da área · Principais doenças oftálmicas · Cenário atual e mercado de trabalho · Desafios da área · Viver como especialista · José Luiz Laus
  • Reflexões sobre o Passado e o FuturoAcesso à informação e polarização · Importância de buscar referências confiáveis · Avaliação de instituições e corpo docente · A importância da base clínica para especialistas · Perda do sentido do todo · Unesp de Jabuticabal
  • Trajetória Profissional de Gustavo HardtInfância e ambiente agrário · Escolha pela medicina veterinária · Formação acadêmica e início de carreira · Docência na Unesp · Pós-graduação e especialização em oftalmologia · Pós-doutorado em Londres · Estruturação do serviço de oftalmologia · Peter Bedford
  • Oftalmologia como especialidadeImportância da base clínica · Doenças sistêmicas com manifestações oftálmicas · Doenças endócrinas e metabólicas · Doenças neoplásicas · Doenças renais e hepáticas · Não olhar apenas para a doença
  • Diagnóstico e Tecnologias OftalmológicasAlto custo de equipamentos · Comparação com dermatologia · Importância da bioengenharia · Parcerias com a indústria · Necessidade de atualização constante · Carlos Eduardo Larson
  • Especialização e CompromissoDefinição de especialista · Definição de generalista · A necessidade do especialista ser generalista · A virtude está no meio termo
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TRThaís Rocha

Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. Nesse episódio eu converso com o professor José Luiz Lausch, professor titular aposentado da Unesp de Jaboticabal. Você já parou para pensar como a oftalmologia veterinária se desenvolveu no Brasil? E quem ajudou a construir tudo isso?

No papo de hoje conversamos sobre isso. Falamos também sobre a história da especialidade no país e também sobre o cenário atual, mercado de trabalho, desafios da área e se é possível, de fato, viver como especialista. Além disso, ele trouxe um ponto fundamental: quais são as principais alterações oftálmicas que todo médico veterinário, independente da área, precisa saber e reconhecer na prática. Se você quer entender melhor a oftalmologia veterinária, construir uma visão mais sólida da carreira e aprender com quem ajudou a formar gerações na área, esse episódio está imperdível.

?Voz B

Então seja muito bem-vindo, professor.

JLJosé Luiz Laus

Obrigado, quero agradecê-la pelo convite. Tem muito de longeato porque esse seu programa tem uma qualidade incrível. Eu acompanho já tem bastante tempo, desde as primeiras edições. E quando você me propôs e me convidou, eu fiquei muito lisonjeado, volto a dizer, fiquei muito honrado com o convite. É com muito prazer que eu tô aqui.

?Voz B

Obrigada, professor. E aí, pensando na escolha da medicina veterinária como carreira, o senhor pode trazer um pouquinho de como foi essa história da sua vida?

JLJosé Luiz Laus

Bem, é uma história muito interessante porque eu sou filho Meu pai foi médico, né, foi médico, um dos criadores fundadores da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, do campus da USP. Eu nasci dentro do campus, eu com meus outros 6 irmãos. E embora meu pai fosse médico e a expectativa era de que pelo menos um dos 7 filhos fossem se dirigir para essa especialidade, Nenhum deles seguia essa especialidade. E hoje eu tenho uma explicação bastante plausível para isso, porque nós crescemos, nascemos e crescemos num ambiente essencialmente agrário.

O campus da USP, quer dizer, o ensino básico de medicina era feito dentro do campus, mas o ensino clínico era feito na cidade. E o campus da USP de Ribeirão, ele é uma antiga fazenda agrícola. E quando a faculdade foi criada e que os professores que foram trazidos, a maioria de São Paulo e alguns do exterior, eles foram levados a residir dentro do campus da USP. Inclusive era uma iniciativa, era algo bastante convidativo que atraía também para alguns a possibilidade de uma vida, digamos, fora de um ambiente mais agitado, para criação dos filhos, etc.

E nesse ambiente, que era um ambiente essencialmente agrário, eu me lembro de crescer junto, junto com e aos animais, né? O tempo todo junto, junto dessa vida agrária. Então, me lembro o tempo todo de estar em cima de um cavalo andando para lá e para cá. Na minha casa havia sempre animais, cães, tivemos até cabrito, criávamos galinha, criávamos pato, isso tudo dentro de casa. E o meu pai, a despeito de ser médico, ele tinha um carinho muito grande pelos animais.

Isso ele passou pra gente, tanto que na minha família são dois veterinários, eu e o meu irmão mais velho. E tenho também um irmão que é engenheiro agrônomo, de modo que esse ambiente agrário é que fez com que nós encontrássemos, ou nos encontrássemos profissionalmente. Eu pelo menos me vejo dessa maneira. Não houve momento algum na minha vida em que eu pensei em fazer outra coisa, quando eu comecei a amadurecer a ideia de começar a procurar algo para minha formação profissional que não fosse a medicina veterinária.

Eu confesso que eu me realizei profundamente nela, eu me sinto muito realizado, não só com a profissão, que quando nos perguntam qual é a sua profissão, minha profissão é professor universitário aposentado, né, quando eu estava na ativa, professor universitário, mas a minha formação é medicina veterinária. Então são coisas diferentes, né? E eu me sinto assim muito, como eu dizia, muito gratificado, muito, muito satisfeito com aquilo que eu escolhi, sabe?

E não só com a minha formação em medicina veterinária, como também com a possibilidade que veio depois de eu me tornar um docente nesta casa que também me orgulham muito.

?Voz B

E aí, professor, quando o senhor foi atrás da medicina veterinária como uma formação, né, como uma profissão, o senhor já pensava em alguma área específica ou naquela época já tinha esse olhar mais amplo para as possibilidades que a profissão oferece?

JLJosé Luiz Laus

Olha, quando eu fui estudar medicina veterinária, a minha expectativa é de que eu viesse a ser um clínico ou cirurgião. Porque naquela época, nas áreas clínicas, você tinha duas opções: ou você fazia clínica ou você fazia cirurgia. E aí, tanto dentro da clínica quanto da cirurgia, você fazia um geral, não é? Então, quando eu entrei na faculdade, eu sabia que eu queria ir para as cadeiras clínicas, não é? Não tinha ainda a menor noção de que um dia me tornaria um professor universitário, mas no ambiente liberal da profissão, eu queria ser um clínico e/ou um cirurgião, que era o que a veterinária oferecia naquela época, né?

Ou então uma área que ficava um pouco também bastante especializada na época, que era reprodução animal, né? Reprodução animal, como ainda hoje, é muito destacada, não é? Então as áreas clínicas eram essas: clínica, cirurgia, e a cirurgia englobava tudo, inclusive obstetrícia, etc., que era uma subárea da cirurgia geral, não é? E reprodução animal. Então, quando eu entrei, eu entrei na faculdade pensando nisso, em fazer cadeira clínica.

E assim eu fui dirigindo a minha, digamos, a minha formação dentro do curso de graduação.

?Voz B

Sim, e aí naquela época também a gente tinha um olhar muito voltado para as áreas de produção e para grandes animais, né, questão de produção de alimentos, etc. Hoje em dia a gente já vê as faculdades de medicina veterinária com perfil bem mais voltado para animais de companhia, né, que inclusive se tornaram parte das famílias. Então como é que o senhor percebe essa mudança histórica dentro do olhar da própria medicina veterinária para atuação dos médicos veterinários?

JLJosé Luiz Laus

É, isso é uma coisa bastante interessante. Eu quando comecei a fazer o curso veterinário, que eu, como eu disse, queria fazer as áreas clínicas, a minha ideia era que eu iria trabalhar com espécies de grande porte. E dentro desse nicho eu gostaria de trabalhar, quando eu estava na graduação, com cavalos. Então a minha intenção era essa, porque como eu disse, na minha infância nós, aqueles que eram contemporâneos meus lá no campus da USP, nós todos, se não tínhamos, emprestávamos ou vivíamos em cima dos cavalos, né?

E eu me lembro na minha infância de ter visto casos de cólica equina que Eu não tinha a menor ideia do que era, e lá no campus ninguém sabia o que era também, mesmo as pessoas que lidavam com os animais, né? Sabiam que tinha alguma coisa a ver com questão nutricional, mas nada além disso, né? Não se agia mais diretamente nesses casos. Bem, então quando eu entrei eu falei, não, eu quero fazer clínica ou cirurgia e equina. A minha ideia era essa.

Porque também, e de consoante com a sua pergunta, as espécies domésticas de pequeno porte, como cães e gatos, normalmente quando adoeciam eram cuidadas pelas pessoas da família e eventualmente até por médicos. Eu me lembro, meu pai, nós tínhamos sempre os cachorrinhos, as coisas em casa, que ele não raro agia sobre algumas questões, né? Me lembro casos de vômito, casos de diarreia hemorrágica, coisas desse tipo. Eu me lembro de canes e tudo mais.

Então, o número de clínicas veterinárias especializadas em animais de pequeno porte na minha época, na minha cidade, que é Ribeirão Preto, Eu me lembro da existência de uma, uma. É bem verdade que naquela época Ribeirão Preto devia ter cerca de 200 mil habitantes no máximo. Hoje tem perto de 1 milhão. Claro que proporcionalmente as coisas cresceram, mas Ribeirão Preto hoje, em relação ao número de habitantes, tem muito mais, oferece muito mais possibilidades veterinárias do que há naquela época, né?

Então, quando se falava em veterinária, se falava em alguém que ia se formar para lidar com grandes espécies. Notadamente era isso, pelo menos essa era a minha visão. Mas dentro do curso essas coisas foram se modificando. Eu comecei a perceber que a minha aptidão era mais voltada para as pequenas espécies. Era mais voltado. E eu comecei a me dirigir espontaneamente para essas áreas, a medicina felina e a medicina canina, que na verdade eram coisas uníssonas, eram a mesma coisa, não é?

Depois, hoje, é que nós temos toda essa diversidade de especializações maiores e menores dentro da medicina veterinária. E assim foi, eu, e assim eu me formei e comecei a pensar no que fazer. Foi quando veio a oportunidade de um convite que me foi feito. Na minha época, os concursos não eram feitos a exemplo do que se fazem hoje. Os docentes eram contratados da universidade por indicação do departamento e da própria instituição, com anuência da instituição.

O departamento indicava, a instituição anuía ou não. Bom, e eu me lembro que o chefe do departamento agora, na época, professor Luiz Eustáquio Lopes Pinheiro, e o diretor do Hospital Veterinário, professor Walter Becker, Eles me chamaram um dia, eu já estava em Ribeirão Preto pensando numa pós-graduação e começando a buscar onde fazer, porque também o número era muito exíguo de possibilidades e normalmente elas eram abertas lá para quem estava na carreira docente.

Para o indivíduo que viesse da vida liberal, essa chance era muito pequena. E eles me chamaram, eu não sabia por quê, vim à faculdade e me reuni com eles na sala do professor Walter Becker, no hospital, na direção do hospital, e eles me falaram da vaga, da vacância de um docente que tinha se demitido, saído da faculdade, o professor Catellan, inclusive, que tinha sido concursado no Banco do Brasil e a proposta era bastante convidativa e ele então resolveu sair da carreira docente.

Mais tarde ele voltou para a faculdade. E eu então assumi a vaga dele na disciplina de técnica. Assumi não, eu me submeti a um concurso interno com mais um candidato e tive a sorte, enfim, de sair vencedor nesse concurso interno. E aí então fui indicado pelo departamento e pela congregação da faculdade, mas a disciplina era de técnicas cirúrgicas. E a técnica cirúrgica na época era de grandes e pequenos animais, portanto eu estava exatamente dentro da onde eu queria, exatamente dentro da onde eu queria.

E aí comecei a desenvolver minha vida acadêmica, mas oftalmologia naquele momento não era algo que passava pela minha cabeça.

?Voz B

Sim, essa perspectiva histórica é muito interessante, né, porque eu ainda sou de uma geração que pegou essa mudança dos professores que atuaram, até na minha época de graduação também tinha esse perfil, as pessoas eram convidadas a serem docentes e aí o mestrado, a pós-graduação normalmente vinha depois de já estarem dentro da universidade nessa posição. E aí a questão das especialidades ela é ainda posterior a isso, né, professor? Então como é que foi o surgimento da oftalmologia na vida do senhor?

JLJosé Luiz Laus

Então, quando eu me tornei docente da disciplina de técnica cirúrgica, nós tínhamos um estágio probatório. E esse estágio probatório, para aqueles que não sabem, é você tinha que ficar durante 3 anos na universidade provando que a sua indicação para docência tinha sido correta pelo departamento. Então, naquele estágio, durante aquele estágio probatório, a sua situação na universidade era muito, muito tênue, assim quer dizer, ou você mostrava a que tinha vindo, ou então você perdia essa oportunidade.

E nesse período probatório você tinha que desenvolver um trabalho científico, e esse trabalho científico deveria depois ser mostrado ao final do período probatório. Bem, aí então eu recorri aos préstimos do meu pai. Por quê? Porque O ambiente científico mais perto de Jabuticabal que existia era Ribeirão Preto, senão ele teria que deslocar a Botucatu para buscar orientação de alguém para desenvolver esse trabalho, né? Bom, então eu fui ao meu pai, perguntei a ele: escuta, pai, eu preciso fazer isso.

Ele já sabia, ele era docente, ele era o mesmo sistema dentro da USP, Unesp, Unicamp, era exatamente a mesma coisa. E ele disse: então eu vou conversar com um colega e vou ver se ele pode lhe receber. E ele falou com o professor Afonso Luiz Ferreira. O professor Afonso Luiz Ferreira era um docente do Departamento de Morfologia, mas que tinha na vida profissional dele uma experiência tremenda com orientação de docentes das cadeiras clínicas e principalmente da gastroenterologia do Hospital das Clínicas, na Faculdade de Medicina.

E particularmente do pessoal da proctologia. Aliás, um deles hoje é meu proctologista, é meu médico, o professor Aprile. Bem, e eu me lembro que o primeiro trabalho científico que eu li foi exatamente do professor Aprile, quer dizer, como a vida dá voltas, né? E era com suturas intestinais. Naquela época havia uma introdução no mercado de materiais novos para suturas não só relativo a tipos de agulha, etc., mas também a variantes de fios cirúrgicos.

Porque eu, quando estudei veterinária, as suturas internas e externas eram feitas ou com fio de algodão ou com fio de seda, e as reações eram tremendas, né? As reações tecidoais eram tremendas, inclusive com dehiscência, etc. Então, naquele momento estavam sendo introduzidos os materiais sintéticos, para sutura. Normalmente se utilizava era o mononylon ou o nylon multifilamentado ou multifilamentar. E os estudos eram feitos na comparação desses fios e também com técnicas de sutura em anastomose do intestino delgado e do intestino grosso.

E o professor Afonso falou, olha, eu posto na sua área, porque A minha área é a morfologia, mas eu trabalho com esse pessoal, eu posso lhe orientar nessas questões. E qualquer dúvida que a gente tenha, a gente pode buscar com eles também. Então eu desenvolvi um trabalho com anastomose intestinal comparando técnicas e comparando suturas, a exemplo do que esses profissionais do HC vinham fazendo também. Era exatamente a mesma coisa, eles faziam uma coisa lá e eu fazia alguma coisa aqui.

Não que nós estivéssemos cotejando resultados, mas o Dr. Afonso, como era o orientador de todos, Na verdade, ele trazia os resultados e depois verificava. Bom, e aí eu tive que sair para pós-graduação, porque terminou o estágio probatório, eu fui mantido na universidade, e aí eu teria que fazer a pós-graduação. No passado era assim, quer dizer, você entrava na carreira docente e depois você ia se pós-graduar. Hoje não. Hoje, para você entrar na carreira docente, você tem que ser no mínimo doutor, não é?

E algumas áreas já exigem o pós-doutorado, né? Bom, e aí o que eu fiz? Eu fui procurar um programa de pós-graduação que pudesse me oferecer isso. E para minha sorte, porque eu digo sorte porque parte da minha família era de São Paulo e ainda é, a USP em São Paulo, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, tava abrindo uma área de concentração em cirurgia dentro de um programa de pós-graduação maior. E eles iam receber duas pessoas, um vinculado à área docente e um vinculado à iniciativa privada, porque a intenção do coordenador desta área de contratação, professor José de Alvarenga, a quem eu devo muito pelo tanto que me ofereceu e pelos exemplos que me passou e que me deu, eu então fui conversar, fui me informar, e o professor José de Alvarenga não disse, olha, Então nós vamos selecioná-lo.

Essa foi a seleção. Seleção foi uma conversa que eu tive com ele. E eu me lembro que foram dois selecionados, eu e um colega que eu mantenho contato até hoje, não muito próximo, mas ainda mantenho, o Mauro Landsmann. Fomos os dois pós-graduandos da cirurgia. E embora o meu trabalho fosse ainda dentro desta área, e aí comparando também efeito de antibióticos, anastomoses intestinais com proteção antibiótica e sem proteção antibiótica, com diferentes fios, como eu disse, com diferentes técnicas de sutura, eu me aproximei muito de um docente do departamento, professor Paulo Sérgio de Moraes Barros, que se iniciava naquela época na oftalmologia.

Ele se iniciava com orientação e com a participação do grupo da Escola Paulista de Medicina, que era e ainda é até hoje um grupo fortíssimo em oftalmologia. E eu, dentro da pós-graduação, quer dizer, a minha vida era uma vida em que eu tinha acesso às coisas, fazia os meus créditos, mas ficava dentro do hospital. E sempre que eu podia, eu ia acompanhar o professor Paulo Sérgio nas atividades dele. E aí eu me encontrei mais ainda dentro da cirurgia.

Eu falei, não, esse é o meu negócio, eu preciso trabalhar com isso. Mas de óptica abal, nós tínhamos absolutamente nada em termos de parque de equipamentos em relação a essa especialidade. E mais do que isso, ela não havia praticamente no Brasil. Nós tínhamos alguns nichos que trabalhavam com isso. Eu vou citar nomes porque são nomes históricos dentro da oftalmologia veterinária, e que me perdoem aqueles que eventualmente eu já esqueci Mas o pioneiro, o professor Derbis, da UFMG.

Ele foi quem trouxe a oftalmologia veterinária para o Brasil, estudando no exterior. E depois dele sobrevieram o professor Felipe Vulchi, da Universidade Federal do Paraná, o professor Mippi, da Universidade Federal de Santa Maria, o professor Kavinsky, da Universidade Federal do Paraná também, E o professor Barros, professor Paulo Sérgio Moraes Barros. Esses foram, essa foi a geração que realmente iniciou a acustalmologia veterinária no Brasil e que incentivou a vida de outras pessoas, porque todos eles eram, e são, muito notórios, muito notórios.

Todos eles de uma competência incrível e de uma, de uma, de um interesse na formação de recursos humanos Tremenda, tremenda. E eu então me segurei no Paulo, professor Paulo Sérgio, pela sua competência, pela proximidade, como outros tantos se fixaram na figura de outros professores. Esses docentes, à exceção do professor Beres e do professor Kavinsky, que já faleceram infelizmente, esses todos ainda estão no nosso meio, alguns em atividade.

Com quem eu mantenho contato frequente, particularmente com o professor Felipe Wulff, em que semanalmente nós trocamos mensagens pelo WhatsApp. Sempre que ele encontrar algo interessante dentro ou fora da área, ele compartilha comigo e vice-versa, né? E então foi nesse momento que eu, digamos, me vi dentro de uma, digamos, de um nível de especialização maior. Mas aí eu terminei o meu mestrado, precisava fazer meu doutorado, e o professor Paulo Sérgio ainda não orientava na pós-graduação na oftalmologia no âmbito do doutorado.

No mestrado ele já estava iniciando, e eu tive que fazer, então tive não, eu fiz o meu mestrado. Como eu já queria me envolver com oftalmologia, eu digo, bom, eu vou ter que fazer meu doutorado. Não tem, ou eu faço fora ou eu faço em alguma coisa no Brasil que me permita treinamento em oftalmologia. Eu não queria fazer numa escola médica por questões relacionadas à realidade entre as espécies. Eu falei, eu não quero me especializar ou fazer um treinamento específico em oftalmologia médica porque o interesse deles não vai ser o meu interesse e vice-versa.

Então eu me submeti a uma prova de seleção e fui selecionado para um programa de pós-graduação dentro da Faculdade Veterinária de São Paulo, ainda da USP, de patologia experimental e comparada. Eu disse, aqui eu vou tentar, dentro desse curso, desse programa de pós-graduação, trabalhar com patologia em oftalmologia. Mas nesse interregno eu conheci um docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Ricardo Ribeiro dos Anjos, da imunologia.

Eu já o conhecia, mas não pessoalmente, e que ele soube da minha, do meu interesse em trabalhar com procedimentos microcirúrgicos. Até porque depois eu me reuni com ele, eu conversei e disse isso a ele. E ele me propôs desenvolver um trabalho que havia sido tentada a técnica, havia tentou-se reproduzi-la, o modelo experimental no Brasil, mas até então não tinham conseguido por alguma razão. Não tinham conseguido do grupo dele, porque era esse grupo que estava trabalhando com isso, que era um transplante de coração em camundongo.

Imagina, não é, eu digo entre aspas porque Tecnicamente hoje impossível, mas a verdade era um implante de miocélulas cardíacas entre camundongos isogênicos e, portanto, geneticamente idênticos, porque se estudava um modelo de moléstia de Chagas, modelo de miocardite chagásica crônica. Completamente fora da minha área, mas muito dentro da minha área, o procedimento microcirúrgico, que era extremamente delicado. E eu treinei muito para isso.

E o professor Ricardo disse, se você conseguir reproduzir esse modelo, eu vou recebê-lo para fazer o doutorado comigo. E eu consegui, eu consegui. Então nós colhíamos o coração de um camundongo e implantávamos esse coração no subcutâneo da orelha do outro camundongo. E o que acontecia é que esse coração sobrevivia, porque o coração é um órgão todo, ele sobrevivia inclusive com os batimentos, etc., com as câmaras cardíacas, muito interessante.

Esse trabalho inclusive depois, quando concluído com esse modelo, nós publicamos no Journal of Ecoprenatal Medicine and Surgery Experimental Surgery nos Estados Unidos, na época a revista de maior conceito em cirurgia mundialmente falando, em função, claro, não só do modelo experimental, mas também do que o modelo proporcionou em termos de estudo da miocardite chagássica crônica experimental. Bom, aí eu voltei para a faculdade e digo, agora eu vou ter que começar realmente a trabalhar naquilo que eu quero.

E comecei a tentar estruturar um serviço de oftalmologia, mas para isso eu precisava treinamento. Eu digo, bom, então agora chegou a hora de eu ir embora do Brasil, eu vou buscar isso fora do Brasil. E fora do Brasil nós temos centros bastante desenvolvidos. Um dos mais desenvolvidos do mundo até hoje é da Universidade de Londres, do Queen Mother Hospital for Animals. Verminary College da Universidade de Londres. E lá havia como coordenador, como, digamos, o boss do serviço, alguém com quem eu me mantenho em contato frequente até hoje.

Aliás, construímos uma amizade extremamente frutífera. Anualmente, praticamente todos os anos, viajamos nós quatro, eu, minha mulher, ele e a esposa. Depois veio a COVID, a coisa deu uma segurada, e eles vinham muito ao Brasil, eu ia muito a eles. Isso depois, né? Mas eu fiz contato com ele, com o senhor Peter Bedford, do Royal Veterinary College, e já o conhecia, já o conhecia, e pedi a ele se ele poderia me receber para eu pós-doutorar.

Ele disse que os critérios de seleção eram importantes. Muito grandes e que as tuition fees, as taxas escolares, eram altíssimas. Eu teria, na hipótese de vir a ser selecionado, eu teria condição de pagar. Eu disse, bom, eu não tenho, mas nós temos instituições de fomento aqui no Brasil públicas que teriam condição. Eu vou submeter a minha, o seu aceite a essas instituições e vou ver se eles patrocinam o meu pós-doutorado aí. E eu consegui junto ao CNPq e a FAPESP.

Eu dei preferência à FAPESP porque era um órgão do Estado de São Paulo e naquela época, salvo engano, a bolsa tinha um valor um pouco maior. Então eu dei preferência à FAPESP, que financiou todo o meu estudo menos a instituição de FIIs, que foram pagas, porque as feijõezinhas eram caríssimas. Para usar de Londres, elas são caríssimas. Primeiro porque são naturalmente caras, é, e depois a moeda, a libra, a moeda mais cara do mundo.

Então tudo era muito caro. E eu fui ao reitor da Unesp e disse, olha, eu tenho tudo isso aqui, eu só preciso deste fomento. Ele disse que nós vamos patrocinar. Graças a Deus, menino! Ele abraçou a minha causa. Não era comum naquela época a universidade fazer isso, os órgãos de fomento faziam, mas em função do valor, provavelmente, provavelmente eu não tive aprovação pelos órgãos de fomento. Eles me davam, o CNPq eu acho até que dava, mas como eu já tinha feito opção pela FAPESP, talvez por inobservância também na época, eu me vi naquela situação, mas a Unesp me patrocinou.

Então eu fui com dois patrocínios, o da FAPESP, a quem eu devo a partir daí toda a minha formação, e da reitoria da Universidade Paulista, da Unesp. Fui para lá e lá eu fiz meu pós-doutorado e lá realmente pude dizer que eu aprendi. Aprendi, aprendi demais, me dediquei integralmente àquilo, de corpo e alma, tanto que a minha relação com o meu orientador passou a ser uma relação assim de amizade mesmo, embora a diferença de idade seja grande, de aproximadamente 20 anos.

Hoje ele tem 85 anos, imagina, ele está na ativa, não mais na universidade, mas ainda, ainda visível. Bem, e aí quando eu voltei do pós-doutorado, e aí já com alguma bagagem e com produção científica, porque durante o período em que estive lá produzimos bastante também, eu comecei a recorrer à FAPESP e ao CNPq para poder estruturar um parque de equipamentos mínimo que pudesse me proporcionar o exercício da atividade. E aos poucos eu fui conseguindo, e com isso os pós-graduandos começaram a chegar, não é?

E aí, através dos projetos, né, dentro das variadas áreas da oftalmologia, nós fomos levantando recursos, recursos, recursos, e montamos um serviço de oftalmologia que na época estava entre os 2 primeiros os 2 melhores da América Latina, né? Tanto é que formamos durante aquele período, entre mestrandos e doutorandos, mais de 60 pós-graduandos e pós-doutorandos também. E assim as coisas foram se encaminhando.

?Voz B

Professor, a gente percebe que dentro da oftalmologia veterinária a gente tem uma inter-relação muito próxima com a tecnologia. Com a necessidade de equipamentos muito específicos que têm um alto custo, com cirurgias muito delicadas, então uma abordagem que tem que ser realmente ultra especializada para conseguir desenvolver atividade nessa área. Então como é que o senhor percebe esse desenvolvimento da oftalmologia e esses pré-requisitos para atuação mais estruturada dentro da área?

JLJosé Luiz Laus

Bom, a oftalmologia talvez seja Talvez não, com certeza ela tá entre as 3, 4 especialidades médicas e médico-veterinárias que mais exigem recursos. Porque eu comparo sem qualquer tipo de avaliação de valores, né, absolutamente não isso, até porque um dos melhores amigos que eu que eu tive na minha vida acadêmica, infelizmente hoje é falecido, o professor Carlos Eduardo Larson, era um dermatologista, aliás, um dos notórios que o Brasil já fez, talvez o mais.

Então eu comparo um recém-pós-graduado ou alguém que saiu da residência em dermato e em oftalmo para iniciar um serviço. O dermatologista um bom olho clínico, um bom dermatoscópio e um bom patologista ao lado, ele faz boa parte do que precisa ser feito em termos de diagnóstico e de terapêutica. Claro que tem a sua competência, que tem que ser a maior de todas em relação a isso. Mas eu pergunto: o que faz um oftalmologista sem uma lâmpada de Fennel, sem um tonômetro, sem um microscópio cirúrgico?

Sem os oftalmoscópios diretos e indiretos, passados, presentes e futuros, sem um retinógrafo. Se você coloca tudo isso no papel, os valores são exorbitantes, exorbitantes. E na minha época, para tê-los, só com auxílio de órgãos de fomento. E a tecnologia, ela veio acompanhando as necessidades técnicas da formação de recursos humanos naquela especialidade. Então, como é que eu poderia imaginar formar alguém capaz de realizar uma cirurgia para extração do cristalino no olho, numa lente cataratosa, se eu não tinha o equipamento para ensiná-lo a fazer?

E se eu não soubesse usar o equipamento que eu aprendi no exterior? Porque lá onde eu estive O parque de equipamentos era completo. Então esses recursos foram chegando e à medida que nós, nós que eu falo o mundo, foi encontrando dificuldades técnicas para diagnóstico de determinadas situações, porque aquilo que se supunha fosse o diagnóstico correto mostrava-se na prática que não era, isso foi mostrando que nós precisávamos de nos aprofundar na investigação.

E para isso o parque tecnológico era importantíssimo. Por isso a bioengenharia na oftalmologia, nas áreas médicas todas, mas na oftalmologia ela é de uma participação inequívoca, inequívoca. Não fossem eles, nós estaríamos a pé, completamente a pé. Porque tudo que se faz em termos de oftalmologia hoje é baseado no uso de equipamentos. Tudo que se faz é baseado equipamentos. E se você pretender dispensar parte deles e se atrever a fazer diagnóstico sem eles, é muito provável que você vá cometer muitos equívocos, muitos equívocos.

Então, a formação nessa especialidade, quer dizer, embora ela desperte o interesse de muitos, Quando essas pessoas caem dentro de uma instituição que oferece e quando elas olham em volta o que elas vão precisar para depois começar a praticar, isso às vezes é um desincentivo. Mas o que eu tenho visto, felizmente, pelo menos aqueles que nós formamos aqui em Jardim de Cabal, é que com raríssimas exceções, raríssimas exceções, todos vivem da oftalmologia na iniciativa pública ou privada.

Todos continuaram nessa especialidade, praticamente todos. O que faz a gente ver que, primeiro, ela é autossustentável e que, claro, você levanta recursos à medida em que você mostra competência. E na medida em que você mostra competência e levanta recursos, você vai se equipando também, né? Você vai se equipando. E a indústria também tá muito aberta a conversar com esses profissionais, desde que ela veja no profissional capacidade.

Porque eu me lembro aqui na faculdade que alguns dos equipamentos que nós tínhamos foram equipamentos doados por empresas que às vezes desenvolviam, às vezes não desenvolviam alguns equipamentos, ou variantes técnicas de equipamentos que no exterior eram caríssimos para você trazer no Brasil e que elas nos ofereciam para a tese, que eram equipamentos muito bons. São Carlos, nós tivemos uma parceria com São Carlos muito boa, muito boa, né?

Havia lá um grupo, acho que até hoje, muito envolvido com isso, né? Então, embora a oftalmologia obrigue a que se tenha um conhecimento técnico aprofundadíssimo, ela também não pode dispensar o uso de um parque tecnológico atual, não pode ser sucateado absolutamente, porque as coisas novas vão aparecendo a cada momento. E mesmo com aqueles equipamentos que você usava no passado e que fazia determinados diagnósticos, hoje com equipamentos mais modernos você vê que aquele diagnóstico que você fazia ficava um pouco aquém do que deveria ter sido. E assim vai ser o tempo todo, né? O ser humano não há limites, né?

?Voz B

Sim, com certeza. E considerando essa especialidade técnica para atuação na área, principalmente relacionada à cirurgia, a gente tem uma outra questão que eu acho que os alunos às vezes perdem um pouco durante o desenvolvimento acadêmico, que é pensar que embora você possa ter a destreza e os equipamentos para fazer os procedimentos, você precisa de uma boa base clínica para também direcionar esse diagnóstico, porque o problema oftálmico nem sempre tem origem nos olhos.

Às vezes ele vem de questões sistêmicas importantes. Então, como é que o senhor percebe essa questão do direcionamento para uma especialização sem uma base clínica bem concreta?

JLJosé Luiz Laus

Bom, aqueles que estiveram conosco no serviço aqui na faculdade sabem muito bem o que eu dizia a todos eles. Eu dizia: o oftalmologista tem que ser antes de tudo um clínico, né? Porque se você olhar para o doente Se você olhar para doença e não olhar para o doente, você vai se equivocar na maioria das vezes. É sempre mais importante o doente do que a doença, que quando você dá importância para o doente, você vai descobrir a base da doença.

A doença de base— existem capítulos e capítulos de livros sobre manifestações oculares de doenças sistêmicas. E aí eu posso enumerar, eu posso passar aqui horas com você falando das muitas doenças sistêmicas que produzem repercussão oftálmica e, portanto, a causa de base não é o olho, tá distante dele, e que se o oftalmologista não for um clínico e não estiver aberto para saber que essas coisas existem, ele vai tratar a doença, mas não vai tratar o doente.

E o que vai acontecer é que ele vai, às vezes, ganhar um pouco na doença que ele tá vendo, mas ele vai perder o doente que ele tem. Isso é absolutamente puro, não há, não há como contestar. Então vamos imaginar algumas coisas. As doenças endócrinas e metabólicas, quase todas elas são potencialmente capazes de produzir manifestação oftálmica, e você precisa conhecê-las. Você precisa conhecer a manifestação oftálmica e saber correlacioná-la com a doença sistêmica.

As doenças neoplásicas são potencialmente capazes de produzir manifestação oftálmica. E vou dar um exemplo: os linfomas, de maneira geral, não são primários no olho. Quando você faz um diagnóstico de linfoma oftálmico, você tem que ter a certeza de que existe um linfoma primário em alguma parte do corpo. Existem outras neoformações que não são assim, por exemplo, melanoma. Você tem um melanoma de íris, por exemplo, de corpo ciliar, ele pode ser primário, ok?

Mas se você encontra um melanoma, é bom que você investigue o paciente. Vamos falar de doenças endócrinas e metabólicas, como eu falei. Por exemplo, as hiperlipidemias, elas produzem doenças corneais importantes. O diabetes produz retinopatias importantes e catarata. No homem, a retinopatia e a catarata extremamente importantes. Nos animais, notadamente nos cães, o diabetes é muito mais, ele repercute muito mais na lente, produzindo catarata do que retinopatia.

Mas seja, mas embora, mas apesar disso, ele é potencialmente capaz. Se você pensar em doenças renais, as doenças renais podem produzir manifestação hospitalar. As doenças hepáticas podem produzir manifestação hospitalar. Então, toda a gama de enfermidades a que o paciente está sujeito, boa parte desta gama de enfermidades, é potencialmente capaz de produzir manifestação hospitalar. De maneira que essa atenção tem que ser dada assim, de maneira, de modo muito, muito concreto.

Porque, como eu disse, se nós não fazermos isso, você olha para doença, mas não olha para o doente. E esse é um erro primário que nenhum profissional pode cometer. Nenhum profissional pode cometer. Porque a tendência que nós temos sempre é de ver naquele doente aquilo que você conhece. Quer dizer, você gosta daquilo que você domina. Mas não é assim a vida, não é? Notadamente quando você tá lidando com uma outra vida.

?Voz B

Sim. E professor, o que que o senhor percebe como falhas quando a pessoa tem um direcionamento para uma especialização de forma muito precoce dentro da carreira?

JLJosé Luiz Laus

Bom, essa é uma questão. Eu definiria isso da seguinte maneira. Uma vez eu ouvi, eu guardei, nunca mais me esqueci, porque isso é muito, é muito interessante, ele é muito bem pensado. O que é o especialista e o que é o generalista? Então, o especialista, me dizia essa pessoa, não sei se ela que cunhou esse pensamento, mas ela trouxe para mim, eu não pude mais esquecer. Especialista é aquele que sabe cada vez mais do menos até saber tudo do nada.

E o generalista, aquele que sabe cada vez menos do mais até saber nada do todo. Então você tem que estar no meio termo, ou seja, ainda que você seja um especialista, você é obrigado a ser um generalista. O generalista talvez não seja obrigado a ser um especialista, mas o especialista é obrigado a ser um generalista, porque senão ele vai olhar para doença e não vai olhar doente. E ambos são importantes. E como dizem os orientais, a virtude tá no meio.

?Voz B

E considerando toda a bagagem que o senhor tem de formação de recursos humanos, a gente sabe que as especialidades elas vêm com custo atrelado a esse atendimento. Então toda vez que a gente tem um direcionamento, por exemplo, de um responsável por um animal, né, para necessidade de um procedimento oftálmico, uma cirurgia de catarata, algo que é realmente muito oneroso. Esse mercado da oftalmologia, suponho eu, aí o senhor me disse sim ou não, ele acaba sendo mais restrito a regiões em que é possível você ter esse fluxo monetário que vai sustentar uma especialidade dessa magnitude.

Então, como é que o senhor percebe o mercado da oftalmologia veterinária hoje em dia nesse aspecto?

JLJosé Luiz Laus

Bem, olha, se nós olhássemos para o passado, eu acho que essa seria uma verdade incontestável. Mas hoje, as especialidades, o desenvolvimento e aplicação das técnicas, dos parques de equipamento que você tem, eles estão muito centrados nos maiores centros. Isso vale para oftalmologia, mas vale para outras tantas especialidades, né? A não ser o veterinário de família, né? Não tem um médico de família, tem um veterinário de família.

Aquele que vai lá na casa, que examina, que faz a consulta no local, etc. e tal. Isso é extremamente importante, mas ele vai chegar no momento em que ele vai ver que ele vai precisar derivar esse caso para alguém, ele vai ter que referir esse caso para alguém. Mas isso não é só na oftalmologia, não é? Imagine qualquer outra especialidade, na cardiologia, por exemplo, mesma coisa, né? Eu me lembro quando eu estudei se fazer diagnóstico de enfermidade de cardiopatias no Instituto Psicólogo.

Hoje, claro, muitas delas ainda são feitas assim, mas quantas outras demandam necessidade de equipamentos sofisticados que só os grandes centros têm, né? Isso vale para todas as especialidades, mas vale muito para aquelas que realmente demandam de um parque tecnológico disponível e qualificado, né? E a oftalmologia é uma delas. Então, se pensar em praticar oftalmologia ou em ver oftalmologia sendo praticada em locais com recursos sociais pequenos, isso nós não vamos ser um país, nós não vamos ser um país tão cedo, né?

Isso é próprio de todos os países que ainda estão em desenvolvimento, né? Mas mesmo fora do Brasil, em países desenvolvidos, há rincões em que você não tem lá um especialista capaz de fazer o diagnóstico e capaz de de tratar o paciente. A diferença é que nesses rincões, embora eles não tenham esses recursos para esse tipo de aplicação, os tutores, os proprietários, têm o recurso para, uma vez sendo o caso referido, levarem o caso até aquele profissional, aquele centro que pode dar andamento ao caso.

Então eu não vejo assim tão cedo que nós venhamos a ter qualquer das especialidades que existem hoje na medicina veterinária, qualquer delas desenvolvida em centros que não são muito desenvolvidos. Isso é impossível.

?Voz B

E aí, professor, considerando que os casos, mesmo aqueles que exigem uma maior especialidade para o atendimento, eles precisam muitas vezes ser referidos por outros profissionais. Quais são as doenças oftálmicas que o senhor considera que todo médico veterinário deveria conhecer? E para essas doenças, o que seria necessário de recurso para chegar até um diagnóstico pelo menos aproximado, para você entender a necessidade do atendimento do oftalmologista veterinário?

JLJosé Luiz Laus

Bom, eu acho que o exemplo maior é o que a gente chama de olho vermelho. O olho vermelho, ele, ele Ele se baseia em 4 grandes vertentes. Quer dizer, quando você tem um paciente com olho vermelho, isso em linhas gerais, né? Claro, se nós formos tratar desse assunto com outros especialistas, a conversa seria diferente. Mas em linhas gerais, olho vermelho é glaucoma, ou é uveíte, ou é ceratite, ou é conjuntivite. Agora, onde é que está a importância disso?

Se você souber que é uma uveíte, Isso o clínico tem que saber, ele tem que saber. Se você souber que é uma uveíte, você já pode começar a pensar em doença sistêmica, porque uveíte e doença sistêmica andam muito juntas. Não que todas as uveítes são de origem sistêmica, e nem todas as doenças sistêmicas haverão de produzir, mas andam juntas. Muitos dos casos de glaucoma têm origem a partir de uma doença sistêmica que provoca uma uveíte, por exemplo, e essa uveíte Muitas maceratites que produzem o olho vermelho vêm de doença sistêmica e às vezes são puramente oftálmicas.

Mas se você é um clínico, você tem que reconhecer essas enfermidades. Por exemplo, uma distrofia corneal, você tem que saber o que é. Não é difícil fazer diagnóstico, você não precisa de um equipamento sofisticado para isso, você consegue a olho desarmado com um bom foco de luz no ambiente escuro. Vermelho, você consegue fazer isso. O olho vermelho é olho vermelho, basta você olhar para um olho vermelho que você sabe, não é? E aí, bom, olho vermelho, se é uveíte, se é glaucoma, se é ceratite ou se é conjuntivite, bom, aí você tem alguns recursos que você pode se valer para fazer essa diferenciação.

Por exemplo, se você tem uma uveíte ou uma ceratite ou glaucoma e tá em dúvida, e se você instilar ingolir o vasoconstritor e esse olho vermelho deixar de ficar vermelho, provavelmente você está diante de uma ceratite ou de uma conjuntivite ou de ambas. Agora, se você usar esse vasoconstritor e o olho continuar vermelho, notadamente os vasos epitelerais, no caso do glaucoma, bem engurgitados, você está diante provavelmente de uma uveíte ou de um glaucoma, e você vai diferenciar isso avaliando a pressão Se a pressão tiver diminuído um pouco, provavelmente é um ouvido.

Se ela tiver aumentado um pouco, provavelmente é um oco. Eu digo provavelmente porque às vezes não é, às vezes é uma situação de momento, não é? Mas o clínico tem que reconhecer o olho vermelho e ele tem que saber, o clínico tem que saber que nem tudo é conjuntivite. Porque eu me lembro, hoje eu não sei, mas eu me lembro quando nós estávamos lá em atividade no hospital Muitos dos casos que chegavam de olho vermelho, que eram tratados, medicados por colegas que não eram da especialidade e que não redundavam em bons resultados, eles vinham com o diagnóstico de uma conjuntivite.

E você olhava e via que passava longe de uma conjuntivite, não é? Por quê? Porque essa é uma forma, é um erro que a gente comete de uma formação que vem de dentro de casa. Eu me lembro, quer dizer, você vê alguém com o olho vermelho, ah, ele tá com uma conjuntivite. Você vê um amigo na escola, eu me lembro disso, a gente só, para nós tudo era conjuntivite, não é? E na verdade não é. Então o olho vermelho para mim é o, digamos, o exemplo mais bem acabado que, em que o clínico tem que se basear e saber diferenciar, porque isso começa, ele começa bem em relação a isso.

E a partir daí ele fechou com o diagnóstico: é um glaucoma, pelo menos parece ser, a pressão tá aumentada, o olho tá vermelho, eu usei um vasoconstritor localmente, né, uma gotinha, e ele não reduziu. Agora eu vou referir, porque glaucoma é uma urgência, é uma emergência, perdão. Uveíte também é, ceratite, se for ulcerativa, também é, de maneira que Se ele tem esse primeiro diagnóstico, ele já refere para alguém, não é? Eu me lembro, isso eu vi lá no Hospital de Londres, você chegava de manhã, tinha uma louça, não é?

E todos os casos que iam ser atendidos naquele dia, não é? Enumerados pelas technicians. E muitos dos casos que iam para o serviço de oftalmologia, o que vinha referido do veterinário generalista era red eye. Olho vermelho. Ele pelo menos viu que tinha um olho vermelho, ele pelo menos viu isso. Então ele já referiu, porque nos países mais envolvidos essas questões são muito levadas a sério. Quer dizer, ninguém vai botando a mão em cumbuca que ele não conhece, não é?

Quer dizer, não pode. É um olho vermelho, olha, eu até posso fazer aquilo que eu acabei de dizer para você, mas daí para frente Eu não devo me atrever porque pode ser que eu me equivoque e que eu vá perder esse paciente às vezes, porque se tem uma base sistêmica...

?Voz B

Professor, o que ninguém conta pra gente sobre ser especialista em uma área?

JLJosé Luiz Laus

O que ninguém conta pra gente sobre ser especialista numa área? Essa é uma pergunta incrível. Eu me pergunto... Eu não sei o que é ser especialista numa área. Eu sei que você é saber o máximo que você pode, que você consegue, que tá às suas mãos acerca daquele caso ou daquele paciente. Mas é aquilo que eu disse, quer dizer, o especialista é o que sabe cada vez mais do menos até saber tudo do nada. Vai chegar no momento em que as subespecializações vão ter que desaparecer porque não dá mais para ir A cada momento hoje é comum um profissional, um tutor levar um PET a um clínico, o clínico refere para um endócrino, o endócrino examina e fala, não, mas esse caso tem também um problema no olho, vai para o oftalmologista, vai para cá, vai para lá.

E claro, para o paciente isso é muito bom, é muito bom sem dúvida nenhuma, porque em algum momento as coisas vão ser resolvidas. Mas o Os níveis de especialização hoje estão num grau de aprofundamento tal que eu não sei onde é que nós vamos parar, né? Portanto, a sua pergunta, a resposta é muito difícil, é muito difícil, não sei dizer, não sei dizer.

?Voz B

É porque eu acho que tem um pouco desse aspecto, né? O que eu percebo hoje em dia dos alunos é que eles já entram preocupados em seguir uma especialização, então não vejo ninguém entrando na graduação Eu tenho o hábito de fazer essa pergunta no primeiro dia de aula para todas as turmas que eu ministro clínica de ruminantes, que é a minha área. E aí eu falo, gente, o que que vocês querem fazer da medicina veterinária? Qual é a área que vocês têm foco?

E muitas vezes eles já vêm com uma especialidade em mente. Ah, eu gosto de oncologia, eu gosto de cardiologia, eu gosto de oftalmologia. E aí esse direcionamento já acontece de forma muito precoce, porque por pressões do mercado inclusive, Já existe essa aura de que o médico veterinário cai no mercado ganhando muito pouco e se você não buscar uma especialização, um direcionamento para uma área, sua chance de ser bem-sucedido financeiramente vai se prorrogar durante muitos anos.

E aí eles não têm tanto esse olhar para a importância de focar naquilo que é mais geral, naquela base mais sólida, mais ampla. E aí acontece muito isso, Graduando, né, quando tá próximo de pegar o seu diploma, já tá pensando em fazer um curso para se especializar em um mercado que às vezes ele não tem nenhuma vivência. Então ele não sabe nem se a área, o lugar que ele deseja viver, se ele tiver essa questão geográfica muito sólida ali, né, eu quero morar nessa região aqui, se o mercado vai absorver essa especialidade, se é algo que realmente vai se desenvolver de forma plena.

Então eu acho que é muito bacana a gente pensar, né, que Dentro do histórico que o senhor veio contando, faz muito mais sentido você começar sendo docente numa instituição e aí você buscar uma pós-graduação para estruturar melhor, inclusive, uma linha de pesquisa que vai se perpetuar durante muitos e muitos anos até a sua aposentadoria e que você vai deixar um legado para uma instituição e que o investimento que foi feito tanto pelos órgãos de fomento quanto pela própria reitoria gerou a formação de recursos humanos de uma forma tão importante para o país, né?

O senhor tem orientados que atuam internacionalmente, inclusive. Então eu acho que a gente perdeu um pouco dessa visão mais geral para profissão e quais são os passos que fazem sentido dentro de uma carreira. A gente vem sendo levado por esse fluxo, né? Então hoje em dia, como é que a gente faz? Por exemplo, a minha história: eu fiz graduação, aí eu quis fazer residência, eu fiz residência e falei, bom, para a área que eu quero, eu acho que a docência é o melhor caminho.

Eu fiz mestrado, eu fiz doutorado e eu fui atuar na carreira docente, eu já tinha mais de 10 anos de formada. Então poderia acontecer de eu chegar na carreira docente e falar, não é isso aqui, né? E às vezes isso faz com que a gente permaneça na profissão insatisfeito, né? E às vezes perpetuando essa fala de que a medicina veterinária é muito difícil, As pessoas são muito frustradas, as pessoas não conseguem chegar onde elas querem.

Então acho que a importância inclusive da gente trazer personagens como o senhor no canal é exatamente a gente mostrar que existem formas diferentes disso se desenvolver e que é possível você passar sua vida toda dentro de uma profissão e buscando uma área e se sentir feliz e realizado com isso. Então acho que tem todas essas nuances que hoje em dia, principalmente com as redes sociais, os alunos ficam tão focados em vídeos de 30 segundos que contam ou histórias de pessoas muito bem-sucedidas ou histórias de pessoas muito infelizes com a profissão, que fica muito difícil eles terem uma referência, né?

Por isso que eu acho que a gente trazer figuras icônicas, né, para o canal, que já tem toda uma trajetória e que tem toda uma visão sobre áreas específicas enriquece tanto, né, o rol de informação que a gente tem sobre a profissão.

JLJosé Luiz Laus

É verdade. Agora, uma coisa é importante, e o alunado, ele não tem obrigação ainda de saber isso, mas quem recebe o alunado, somente no âmbito da pós-graduação, eu me refiro a tudo que acontece depois da graduação, especialização, residência, pós-graduação lá, estrito senso, etc. Aquele que é o nucleador, aquele que é o que vai receber esse aluno, cabe a ele mostrar isso, porque o aluno não tá preparado para isso. Cabe a ele mostrar, e cabe a ele, dentro daquela unidade em que ele está inserido, fazer o aluno frequentar as outras áreas, buscar.

Porque, por exemplo, Vou dar como exemplo o nosso caso lá. Digamos, quando nós pegávamos um caso em que havia uma suspeição de uma doença sistêmica, nós não referíamos esse caso para um serviço dentro do hospital incumbido disso. O responsável por esse caso ia com o paciente e acompanhava todo o processo de avaliação por parte dos colegas das outras áreas. Então isso ia dando a ele a formação clínica necessária para que ele viesse a ser um especialista.

Porque quando você me pergunta o que é um especialista, o especialista é também alguém que se especializou, mas que não perdeu a base daquilo que o tornou profissional, não é verdade? Isso ele adquire com a base clínica. Você não, você não é especialista se você não tem essa formação básica. Você não é especialista. Você não aprende a andar de moto se você não, um dia, não andou de bicicleta. Ou até aprende, mas é bem mais difícil, vai cair muito mais, né?

Vai levar muito mais tombos. Então, às vezes, a falha pode estar naquele centro nucleador que recebe o aluno que quer fazer uma especialização, mas que não dá a ele a chance de ele pelo menos perceber que necessariamente outras coisas, né? E às vezes até me atrevo a dizer, aquele centro no criador, ou aquele no criador, já perdeu o foco do sentido sistêmico da coisa. Sistêmico me refiro ao generalista, a doença sistêmica, a doença de base.

Ele se tornou tão especializado que ele também não consegue mais ver isso. E não consegue mais contar isso para os outros, né? E essa é uma tendência, infelizmente, provavelmente, provavelmente, porque na nossa formação, e você também faz parte dela, eu sou de uma geração bem anterior, nós todos começamos como generalistas, todos, sem exceção, sem exceção. Hoje já menos, né? Mas você se referiu, por exemplo, ao serviço de Oncologia.

Vamos pensar que o professor Anderinho na faculdade, é por óbvio que ele dá formação básica e clínica para o pessoal dele, não é? Como o pessoal da Ortopedia dá também, e como o pessoal da Cardio dá também. E isso eu falo aqui dentro do nosso hospital, como o pessoal de Ruminantes dá também. Agora, fora do hospital, eu não sei o que que tá acontecendo. Em outras instituições e outros serviços de especialização. Porque se outros serviços de especialização estão dando atendimento ultraespecializado a esse alunado e se esquecendo da base, eles estão, a meu ver, cometendo um equívoco tremendo, porque está formando um especialista que eu não sei se de fato é especialista, né?

Enfim. E outra coisa, a questão de especialista e não especialista é muito relativa. É um outro lance. Mas infelizmente é o que nós estamos vendo. Infelizmente é o que nós estamos vendo. As pessoas estão perdendo o sentido do todo.

?Voz B

Nesse aspecto, eu acho que o surgimento aqui no Brasil acaba sendo bem mais recente do que em outros países, né, dos colégios e das associações que oferecem esse tipo de esse título de especialista tem como pré-requisito um tempo de atuação importante dentro daquela área, toda uma bagagem de atuação, de formação. Então isso acaba sendo mais estruturante dentro de uma especialidade, diferente do que a gente tem desses cursos que a pessoa vai lá um final de semana por mês, às vezes não implementa aquilo na sua rotina, então acaba não tendo uma bagagem tão ampla quanto deveria, né, quanto seria proposta.

E a gente sabe que a medicina veterinária é um grande foco de captação de recurso financeiro, porque a medicina veterinária é uma atuação de sonho para muitas pessoas. Quando eu converso com médicos veterinários de diferentes áreas, mais de 90% me dizem, eu sonho em ser médico veterinário desde que eu era criança. E isso vem se perpetuando e a gente percebe esse perfil nos alunos que entram hoje em dia também. Então, para uma instituição que tem um foco no financeiro, que para mim acaba afastando muito dessa questão da formação com uma qualidade, com uma solidez, é um nicho sensacional para você captar recurso, né?

Mas aí a preocupação na qualidade do profissional que você tá colocando no mercado e que carrega o nome daquele curso de formação deveria ser o foco, né? A gente ter profissionais de fato capacitados. E aí pensando em tudo que a gente já conversou até agora, que foi bastante coisa, eu acho que Existe uma riqueza muito grande nessa troca, ainda a gente poder ter essa perspectiva inclusive histórica sobre uma área de atuação e inclusive uma instituição como é a Unesp de Jabuticabal.

Que mensagem o senhor gostaria de deixar para as próximas gerações de médicos veterinários?

JLJosé Luiz Laus

Bom, hoje o acesso à informação é muito grande, você busca a informação que você quer, inclusive a que você quer ouvir. Que não necessariamente é a informação incrível, né? E no mundo tão polarizado como o nosso, você vê isso nas pessoas. As pessoas veem, assistem aquilo que elas querem ouvir, né? E qual é o melhor médico? O melhor médico é aquele que diz aquilo que você quer ouvir. Qual é o melhor veterinário? Aquilo que o tutor quer ouvir, etc. e tal.

Então você fica muito vulnerável a receber por essas vias aquilo que você quer ouvir, e você fica muito cativo a essas coisas. Mas o que eu digo é: busquem por informações críveis, não acreditem em tudo que veem e que ouvem, porque as redes sociais hoje, elas, se elas se prestam a isso que nós estamos fazendo e é algo muito sério que nós estamos fazendo, elas se prestam a coisas muito pouco sérias, porque há também pessoas que não são sérias, não é verdade?

Então, quando você for buscar uma especialização, quando você for buscar um curso de graduação, procure se informar com todo cuidado qual é a origem disso tudo, quem é que coordena, qual é a formação dessa pessoa, por onde ela já passou, qual é essa instituição? Quem é o seu corpo docente? De onde vêm essas pessoas, não é? Essas pessoas são fixas? Não, elas estão em tempo integral na instituição? Elas estão em tempo parcial? Elas fora da instituição, onde é que elas estão?

Onde é que elas trabalham? Busque saber, procure, procure se informar, porque senão você pode vir a ser enganado, não é verdade? Eu me lembro, eu durante muitos anos fui da Eu me lembro que nós fazíamos visitas, a CAPES nos mandava fazer visitas em instituições que queriam gerar um curso de pós-graduação, tanto públicas quanto privadas. E a nossa função era ir lá ver o parque de equipamentos, a infraestrutura, e principalmente a qualificação do corpo docente, né?

Se assim não fosse, você não poderia ter o seu curso de pós-graduação. Mas então vejam que uma vez me disseram, eu não fui testemunha disso, portanto eu não vou dizer se isso é verdade ou não, eu vou dizer que me disseram isso, então supostamente aconteceu. Mais de uma instituição, mais de uma instituição recebia visita da CAPES, na qual em muitas delas eu estava presente, e depois nós dávamos o parecer que essa instituição não estava apta ainda a gerar um curso de pós-graduação.

Pouco tempo depois aparecia lá no site da instituição: programa de pós-graduação visitado pela CAPES. Bom, visitado foi, sim, mas não foi chancelado. Aí o aluno fala: visitado pela CAPES, ora, muito bom, então esse é o programa em que eu posso ir. Então não mentia a pessoa que fazia aquela publicidade, Mas enganava aquele que queria ir em busca de uma pós-graduação. Então, você quer fazer uma pós-graduação? O primeiro caminho que você tem que, que você tem que, a primeira fonte que você tem que buscar é o seguinte: esse curso é reconhecido pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior vinculada ao Ministério da Educação?

?Voz B

É.

JLJosé Luiz Laus

Bom, então, se é, isso já é um bom começo. Se não é, Não que não seja um bom programa, pode vir a ser um bom programa, mas você já sabe que ele não é. Você não sabe nem se ele já foi visitado pela CAPES, não é verdade? Então, se o acesso à informação hoje é amplo, o risco de você cair do cavalo é grande também. Portanto, busque por boas referências. E se aquilo que está sendo informado ali ainda lhe produziu alguma dúvida, Fale aos seus professores, volte a eles, fale: escuta, o que que o senhor acha?

O que que a senhora acha de eu me matricular nesse programa ou naquele? Ali, a portas fechadas, você pode dizer: olha, eu conheço o corpo docente, é um corpo docente a que eu submeteria um filho meu a esse curso. Ou então: olha, eu conheço esse corpo docente, eu não acho que ele seja ruim, mas eu acho que ele não está ainda preparado para produção de um programa de pós-graduação no âmbito do que ele tá pretendendo oferecer, não é?

E às vezes, por não conhecer outros programas de pós-graduação mais qualificados, a pessoa acha que tá, quer dizer, que tá no centro do universo da produção de ciência e tecnologia dentro daquele programa. Isso vale também para instituições públicas. Você tem as boas, você tem as excelentes. Isso é assim no mundo inteiro, não é? Então sempre procurar buscar por aquilo que é onde excelência. Foi o que eu pelo menos tentei fazer na minha vida.

Graças a Deus consegui, e em função disso pude realizar todos os meus sonhos dentro da minha atividade profissional.

?Voz B

Sim, professor, muito obrigada pela sua presença, pela sua participação, por todo o corpo de informação que o senhor trouxe. Por compartilhar parte da sua trajetória, da sua vida. A gente sabe que dentro de todo esse histórico aconteceram muitas outras coisas, tem muitas outras questões ali e que é tão importante a gente ter acesso, inclusive deixar esse registro do que é o histórico profissional do senhor, como é que foi essa formação e como é que o senhor criou e consolidou um setor tão importante para oftalmologia no Brasil.

Como foi aqui em Jabuticabal. Então, muito obrigada mais uma vez pela sua participação e a gente volta, né, em outro episódio com mais um ícone da medicina veterinária. Obrigada, professor.

JLJosé Luiz Laus

Quem é grato sou eu, viu? Eu é que agradeço pela oportunidade que você me deu e me coloco sempre à disposição. E também me proporcionou a oportunidade de incentivar a vir à faculdade aqui fazia algum tempo que eu não vinha, de rever colegas, ex-alunos que hoje estão no departamento como docentes. E é sempre muito bom voltar à casa da gente. Afinal de contas, aqui é onde eu fiz a minha graduação, aqui é onde eu fiz a minha formação profissional, exceção, claro, dos programas de pós-graduação a que eu pertenci fora.

E aqui foi o meu único emprego, eu não tive outro emprego na minha vida. E foi esse durante toda a minha vida profissional. Mas é que eu devo muito a essa casa e sempre que ela me solicitar, eu venho com muito prazer.

?Voz B

Obrigada, professor.

JLJosé Luiz Laus

Obrigado.

TRThaís Rocha

Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a profissão. Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papo-de-veterinaria e às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!