Como enxergar a Medicina Veterinária de uma nova forma
Os olhos podem revelar muito mais do que problemas de visão. Em muitos casos, eles são a primeira pista de doenças sistêmicas e desempenham um papel fundamental no diagnóstico e na qualidade de vida dos animais.
Neste episódio do Papo de Veterinária, conversamos com o Prof. Felipe Wouk, uma das grandes referências da Oftalmologia Veterinária, sobre os desafios, avanços e particularidades dessa especialidade que exige conhecimento, precisão e um olhar atento aos detalhes.
Ao longo da conversa, exploramos a importância do exame oftálmico na rotina clínica, as doenças oculares mais frequentes, a evolução da especialidade e o papel do médico-veterinário na preservação da visão e do bem-estar dos pacientes.
Mais do que falar sobre os olhos, este episódio convida a refletir sobre a importância do raciocínio clínico, da atualização constante e da busca pela excelência profissional.
🎙️ Neste episódio você vai descobrir:
- Como a Oftalmologia Veterinária evoluiu nos últimos anos;
- Quais são as principais doenças oculares em cães e gatos;
- A relação entre alterações oculares e doenças sistêmicas;
- Os maiores desafios enfrentados pelos oftalmologistas veterinários;
- Conselhos para estudantes e profissionais que desejam seguir essa especialidade.
Se você é estudante de Medicina Veterinária, médico-veterinário ou simplesmente deseja compreender melhor uma das áreas mais fascinantes da profissão, esta conversa traz conhecimento, experiência e reflexões que vão muito além da visão.
💬 Queremos saber sua opinião: qual especialidade da Medicina Veterinária mais desperta sua curiosidade? E qual tema você gostaria de ver nos próximos episódios do Papo de Veterinária?
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Te encontro na próxima segunda-feira às 7h.
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Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/RYr47MIFxJU?si=aNCb-ckFM9dj4vyX
Thaís Rocha
Prof. Felipe Wouk
- Desafios e Precarização Profissional· SociedadeAlta competição e baixa remuneração·Adoecimento mental e fadiga de compaixão·Diferença salarial entre gêneros·Formação prática insuficiente·Perda de valores éticos e morais
- Pilares da Oftalmologia Veterinária· SaudeOlhos de ver (atenção aos detalhes)·Tempo é crucial na evolução·Visão sistêmica do paciente·Microcirurgia oftalmológica
- Medicina Veterinária Baseada em Evidências· SaudeFeminilização da profissão·Mudança no perfil do profissional·Importância do animal de companhia·Conceito de Saúde Única
- Formação e Realidade Profissional· EducacaoIdealismo vs. Realidade do estudante·Profissão tentacular (diversidade de áreas)·Importância da emoção no aprendizado·Ensino mascarado de competências
- Oftalmologia Veterinária· SaudeEscolha pela Medicina Veterinária·Formação em Cirurgia·Especialização em Oftalmologia·Colégio Brasileiro de Oftalmologia Veterinária
- Medicina Veterinária Integrativa e Sistêmica· SaudeMedicina comparada·Terapia assistida por animais·Base científica de práticas integrativas·Visão holística do paciente
- Mitos Oftalmologia Veterinária· SaudeCorreção de refração (óculos para pets)·Limites da especialidade·Cirurgia de segmento posterior
Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. Ele ajudou a construir a oftalmologia veterinária no Brasil e formou gerações de médicos veterinários. Conheça a trajetória e as reflexões do professor Felipe Volck, nesse episódio especial do Papo de Veterinária. Ao longo da conversa, falamos sobre a evolução da profissão, os desafios da formação dos médicos veterinários, o crescimento da oftalmologia veterinária, a importância da atualização constante e as perspectivas para o futuro da nossa profissão.
Também discutimos o trabalho realizado pelo Observatório da Medicina Veterinária, iniciativa que contribui para compreendermos melhor o perfil dos profissionais e os rumos da profissão no país.
Seja muito bem-vindo, professor. Muito obrigado, Thaís, é uma alegria ímpar estar com você e com a sua audiência.
Professor, vamos começar lá pelo início, né, conversando um pouquinho sobre como foi a escolha do senhor pela medicina veterinária como profissão.
Um amigo de infância meu, ainda na primeira infância, 7 anos de idade, o pai dele era médico veterinário, era clínico de cães e gatos, tinha a clínica no subsolo da residência, então era uma clínica na própria residência, E eu frequentava a casa desse amigo e acabei acompanhando o trabalho do Dr. Pedro Pimpão de Azevedo, também professor da universidade, veio a se tornar meu professor de anatomia na universidade. Mas a minha grande inspiração surgiu desse contato com um médico veterinário ainda na minha infância, trabalhando na clínica de cães e gatos.
A medicina veterinária tinha um caráter um pouco diferente do que a gente percebe hoje em dia. Então hoje em dia a gente sabe que nos cursos a gente tem majoritariamente mulheres, né, avançando. A gente sabe que tem uma, uma medicina voltada muito para pequenos animais, né, acaba sendo a área de preferência da maioria das pessoas. E antigamente esse perfil era bem diferente. Então, quando o senhor entrou no curso, tinha um pouco desse aspecto do médico veterinário que se forma trabalhar com todas as espécies, ou já tinha algum nível de direcionamento para escolha de área?
Havia um certo direcionamento. Eu entrei na universidade em 1973, e me graduei em 1977. Já nesse período, como eu acabei de mencionar, já havia uma área de animais de companhia, não era chamado assim, mas a clínica de pequenos animais, que já existia e já era forte, já havia algum direcionamento para essa área. Mas sem dúvida nenhuma, a formação generalista ela preponderava e o médico veterinário que deixava a universidade, na sua maioria, não se dirigia para a área de pequenos animais.
Era para área de produção animal, era para área de nutrição animal, enfim, mais voltado a grandes animais. Equínios sempre foi uma área de medicina veterinária de elite, era um pequeno grupo que se direcionava para essa área. E quem ia para a área que é onde você milita, da clínica de animais de produção, naquela época havia ainda uma clínica individualizada, havia clínica de pequenas propriedades leiteiras, as vaquinhas tinham nome, era uma outra realidade mesmo na área de produção animal.
E sem dúvida alguma, a absoluta maioria eram homens, não era uma profissão feminina. Então, efetivamente, algo que culturalmente acabou mudando a profissão foi a participação feminina. Aliás, a esse respeito, houve uma pesquisa alguns anos atrás na cidade de São Paulo, foi até capitaneada pela Anclivepa São Paulo, onde consultaram os clientes, né, as pessoas que levavam cães e gatos às clínicas, qual era a preferência deles, ser atendido por um homem ou por uma mulher.
E a maioria sinalizou por uma mulher. E o fator da resposta mais presente nessa avaliação foi porque as mulheres sabem ouvir mais. Veja que coisa importante. Então, efetivamente, a feminilização da medicina veterinária, no meu entendimento, trouxe mais humanidade no exercício da, para o exercício da profissão.
E aí o direcionamento da sua carreira para a área de cirurgia, ela aconteceu em qual momento? Porque houve um tempo em que inclusive os professores entravam na universidade para dar aula antes de ter feito pós-graduação ou apenas com mestrado, né? E aí esse caráter também vem mudando um pouco ao longo do tempo. Então como é que foi esse seu direcionamento para cirurgia?
Na metade do curso, eu então, quando houve a disciplina de técnica operatória, eu conheci o Dr. João Kleiner e o Dr. Sílvio Bove. Sílvio Bove, um grande cirurgião que era do grupo do professor Ernesto Antônio Matera, da USP, tinha muito relacionamento. Era um homem extremamente culto, isso também me encantou, era um cidadão do mundo, uma pessoa que tinha viajado muito, falava várias línguas. Então, para além de ser um médico veterinário, cirurgião competente, ele encantava por esse aspecto.
E a partir daí, e eu me reconheci, sou muito autocrítico, perfeccionista até. Eu me reconheci com, porque cirurgia é ciência, mas é arte, e eu me reconheci com uma parte dessa arte que me favorecia nas aulas, na execução de procedimentos, e eu decidi perseverar. Depois que eu me graduei em 77, eu fiz uma residência de 1 ano na Federal em cirurgia com o professor Bove, e no final desse ano eu prestei a seleção para o mestrado em Santa Maria.
Eu havia conhecido ainda em 78 o professor Neilo Spipp, que tinha acabado de retornar do doutorado nos Estados Unidos, no Colorado. Ele veio fazer um curso em Curitiba, ele me falou do mestrado, então eu fui prestar seleção para o mestrado e iniciei o mestrado então em fevereiro de 79. Eu fiz o mestrado em 18 meses. Em setembro de 80 eu defendi minha, na época chamava tese de mestrado, cirurgia torácica em cavalo, lobectomia pulmonar e pericardiostomia.
Quando eu retornei para Curitiba coincidiu da abertura de um concurso para professor assistente. Então para professor assistente exigia-se o mestrado, eu tinha mestrado e fiz concurso para professor assistente de técnica operatória e depois passei a lecionar clínica cirúrgica. No ano de 82, já para resumir a história, fiz a seleção da CAPES, porque naquela época não havia doutorado no Brasil, então fiz a seleção da CAPES e optei por ir para a França.
Tinha TOEFL e tinha a carta de aceitação até no Colorado, mas optei por ir para a Europa, fui para a França. Paralelamente ao meu doutorado, eu fiz essa especialização em oftalmologia na própria escola de Toulouse com o professor Francisco Leschke. E ao retornar em 86 desse período do doutorado, já vinculado à universidade, juntamente com outros colegas que também tinham tido uma experiência em oftalmologia no exterior, professor Paulo Barros da USP, professor Luimar Kavinsky da minha própria Universidade Federal do Paraná, professor Pipe, que no Colorado esteve com o professor McGrane na área de oftalmologia.
Aliás, meu primeiro incentivador na oftalmologia foi o professor Pipe durante o mestrado. Foi por isso que no doutorado eu fui fui buscar e coincidentemente tinha essa formação em Toulouse de 2 anos. Então, junto com o doutorado, eu fiz esse treinamento em oftalmologia. Então, retornando, professor Paulo, professor Pipe, professor Bernes da Federal de Minas Gerais, que havia sido orientador do professor Pipe, mas também tinha tido treinamento em oftalmologia no exterior, fundamos o Colégio Brasileiro de Oftalmologia Veterinária.
Rapidamente se agregaram outros, como professor Joaquim Ranzani, saudoso professor Ranzani, que nos deixou, professor Laus, Professor José Luiz Laus, e construiu-se assim um núcleo, vamos dizer, inicial dessa oftalmologia acadêmica no âmbito do colégio. Alguns anos depois também foi fundado o Colégio Latino-Americano de Oftalmologia, 90, 91. Então aí a especialidade no país e no continente latino-americano começou a se consolidar.
Então essa foi a minha trajetória de formação e pós-graduação. Tendo sempre a cirurgia geral, pequenos animais, equinos, animais de produção. A gente selecionava a clínica cirúrgica geral e a oftalmologia de todas as espécies.
Professor, o senhor acredita que a gente vem vivendo uma transformação cultural na medicina veterinária no Brasil?
Não apenas no Brasil. Você sabe que hoje a gente, quando fala da profissão, a gente fala mundialmente. A OIE, e eu tive o prazer de ser membro dessa comissão ad hoc da educação da OIE, ela num dado momento se preocupou considerando a medicina veterinária um bem público, com a formação do médico veterinário. Foi um momento em que especialistas de todo mundo discutiram padrões de ensino. Então vários documentos surgiram a partir do OIE, que felizmente é do conhecimento de muita, pelo menos do âmbito da academia, da maioria, as competências que o médico veterinário tem que ter no primeiro dia.
E todas elas falam dessa profissão tentacular que toca várias áreas, que cuida da saúde do homem, do animal e do ambiente. E para fazê-lo você tem que ter essa formação generalista, que em alguns países, até particularmente nos Estados Unidos, estava sendo deturpada. Ou seja, um direcionamento precoce à área hospitalar, à área de clínica, e a área de saúde pública, a área de inspeção de alimentos, tudo isso, defesa sanitária, ficando para um segundo plano.
Então tudo isso fez com que algumas escolas tivessem que retornar a esse conceito dessa medicina veterinária tentacular. A sua escola, a Unesp de Jabuticabal, a Unesp de Botucatu, são exemplos, ao meu ver, de escolas que têm isso muito bem estruturado. Tanto é que são escolas que, à luz das novas diretrizes curriculares, podem efetivamente, para todos os seus estudantes, promover estágio profissional no âmbito da própria escola.
Isso não é comum, quer dizer, permitir que em todas as áreas da profissão o estudante possa realizar aquilo que a diretriz preconiza dentro da própria escola. Isso é ouro, porque hoje, falando então das mudanças culturais e temizando, se eu posso dizer dessa forma, a primeira você mencionou logo no início: a feminilização da profissão. Agora, ao mesmo tempo que culturalmente realmente trouxe esse olhar mais humanista, como eu dizia, expõe também em países particularmente como o nosso, onde a cultura machista predomina, algumas dificuldades persistem para as mulheres.
E o que eu estou dizendo é à luz do estudo da demografia da medicina veterinária, tanto a de 2022 como essa que vai vir à luz agora de 2025, em que as mulheres continuam tendo uma remuneração inferior ao homem, que elas continuam tendo menos acesso a postos de comando em relação ao homem, ou seja, que algumas áreas são obstaculizadas a elas porque entendidas ainda culturalmente como áreas absolutamente masculinas. Mas enfim, a mulher é guerreira e esse é um processo que a gente pode dizer maior nesse processo de mudança cultural da profissão.
A outra, sem dúvida alguma, é um fenômeno social que repercute na profissão, que é a importância que passou a ter o animal de companhia no seio da família. Então são entes, são seres que passaram a ser considerados membros da família. E você sabe que uma profissão é impulsionada por uma demanda social e que traz consigo também a capacidade econômica junto com ela. E a gente sabe que a clínica de animal de companhia segue sendo uma medicina veterinária, vamos chamar assim, de elite, porque ela não é socializada na sua maioria, ela tem que ser paga, e ela é bem paga, pelo menos nos grandes centros do país.
Constitui efetivamente a área de atuação predominante da medicina veterinária, não apenas no Brasil e no mundo. Então esse seria o segundo aspecto. O terceiro aspecto, e o que mais me encanta, para ficarmos nesses três, entre outros que existem também, é que o médico veterinário entendeu, incorporou e vivencia a questão da saúde única, entendendo que ele é um agente de saúde não apenas para o animal, mas muito para o homem e também para o ambiente.
E isso não com uma fala gratuita, é porque os programas de ensino tem contemplado essa questão de maneira transversal, felizmente. Houve ações políticas que colocaram o médico veterinário nessa cena de atenção à saúde única interprofissional. Falo do NASF, do Núcleo de Assistência à Saúde das Famílias, onde o médico veterinário, junto com outros profissionais da saúde, é chamado a interagir em prol da saúde da comunidade. E à luz, sobretudo, dessa grande pandemia que nós tivemos, esse conceito de zoonoses e das doenças emergentes em ser humano ter origem nos animais conferiu culturalmente, em senso amplo, global, muita importância ao médico veterinário nas equipes de saúde.
Então foi preciso, infelizmente, um mal maior para que culturalmente quem está nos destinos e no comando das áreas de saúde nos diferentes países têm entendido que é imprescindível a presença do médico veterinário nessas equipes multidisciplinares de saúde.
E professor, pensando nessas mudanças que vêm acontecendo na medicina veterinária, a gente sabe que a medicina veterinária integrativa e um olhar diferenciado para o cuidado com os animais, principalmente os pets, vem em uma crescente. Então os próprios responsáveis pelos animais já têm às vezes uma questão relacionada A querer diminuir o uso de medicamentos, a querer alguma abordagem um pouco mais cautelosa e que olhe o animal como um todo, e muitas vezes são inclusive afetados pelo tratamento do próprio animal em termos emocionais.
Então, considerando essa questão da medicina veterinária integrativa e também da medicina veterinária sistêmica, como é que o senhor percebe essa mudança da interação tanto do responsável com o animal quanto do próprio médico veterinário com esse núcleo?
Na realidade, a nossa profissão, lá na origem dela, já com Claude Bourgelat, ela nasceu como uma medicina comparada. Nós é que não demos atenção àquilo que o próprio Bourgelat, que era um profissional do direito, escreveu na ocasião. E tal como as coisas evoluíram, a medicina veterinária sempre se beneficiou daquilo que acontece na medicina. As pesquisas que aconteceram de médicos com médicos veterinários sempre ocorreram ao longo dos anos.
Isso acabou crescendo. Mas esse é o primeiro aspecto: a medicina veterinária sempre foi uma medicina comparada. Agora, eu quero citar dois exemplos. A gente sabe que ainda na metade do século passado, Nise da Silveira revolucionou o tratamento psiquiátrico quando introduziu o animal como agente terapêutico de distúrbios psiquiátricos humanos. Ela que tanto batalhou pelo fim dos manicômios, e da internação nessas situações, entendiam como ele é efetivamente como uma antena, quer dizer, um ser.
E a gente sabe disso, que ele reage ao ambiente, ele reage à pessoa com quem ele convive. E eu daria um outro exemplo nesse sentido de um projeto que eu participo, de uma querida colega, Doutora Letícia Castanha, aqui em Curitiba, que há 14 anos tem o projeto Amigo Cão. Que leva cães a orfanatos, hospitais, para fazer terapia assistida por animais. E eu, quando fui diretor da PUC, porque eu não fui só da Federal do Paraná, eu tive oportunidade de ajudar a estruturar um serviço de ecoterapia no Regimento de Polícia Militar, onde nós fizemos o nosso hospital de equinos.
Então também quem conhece o papel de um cavalo, que é outro animal que interage de uma maneira muito linda e espetacular em relação ao ser humano, sabe que essa interação homem-animal, aliás, uma pesquisa que o observatório tá fazendo e que também virá à luz, um estudo da interação homem-animal no âmbito de animal de companhia, é como as pessoas se relacionam com seus animais, é por causa disso, porque efetivamente aquilo que a medicina começa a preconizar já há algum tempo para o ser humano, ele também, quando olha para o seu animal de companhia como um filho, deseja o mesmo.
Esse é um aspecto. Agora, do ponto de vista científico, já não é mais tempo de nós falarmos de medicina alternativa. Não, nós temos que falar de medicina para todos esses gestos que têm uma base científica, mesmo que inicial, mas que tem alguma base científica, e eu me reporto à acupuntura. Quando iniciei na medicina veterinária, a acupuntura, tanto na medicina quanto mais na medicina veterinária, era considerado algo, quase uma bruxaria.
E foi preciso dois fisiologistas, Melzack e Hall, que descreveram a Gate Theory, a teoria do portão, que é a teoria que verificou que pela ação da acupuntura Havia um derrame de endorfina na medula oblonga, na ponte, fazendo com que o fenômeno doloroso transmitido pela medula não tivesse realização central. Então, quando isso foi demonstrado pela ação da acupuntura, a acupuntura passou a ser aceita na medicina. E aí quebrou-se um paradigma.
E eu me lembro que quando eu cheguei lá em Toulouse, em 82, eu vi o meu orientador fazer uma laparotomia de flanco numa égua, com acupuntura. Ele só fez o uso de um chumaço de algodão com xilocaína no pedículo ovárico por conta da dor visceral pelo tracionamento, mas fez todo o procedimento pele e parede com acupuntura. Aquilo para mim foi de cair o queixo. Então o que eu quero dizer, Thaís, é assim: nesse aspecto da visão sistêmica, nós ganhamos muito porque Nós sabemos que aquele animal interfere na família, você trata do animal, você olha para a família, ao olhar para a família você ajuda o animal, ajudando o animal você ajuda a família.
Esse é o conceito para mim mais interessante e maior, porque olhar para o animal como um todo, Thaís, é dever de todos nós como clínico. Como oftalmologista, a primeira coisa que o oftalmologista tem que saber é que por trás daqueles olhos tem um organismo. E que quando você olha para as doenças oftálmicas primárias, a casuística é inferior a 5%, mas quando você agrega as repercussões oculares de doença sistêmica, isso vai a 20%, 22%.
Então vejam que você não pode, mesmo numa subespecialidade hiperespecialista, deixar de olhar para o animal como um todo, de realizar um exame clínico geral. Então a hiperespecialidade, a hipersegmentação da profissão vai em detrimento do paciente. Então, culturalmente, essa visão eu vejo com muitos bons, muito bons olhos.
E aí, considerando então a hiperespecialidade que o senhor tem na oftalmologia, né, e que o senhor é cirurgião, né, geral, de todos os sistemas, enfim, mas pensando na oftalmologia em si, se o senhor tivesse que resumir essa especialidade em pilares, quais seriam esses pilares?
Primeiro, olhos de ver. Porque a oftalmologia é feita de detalhe, e por óbvio nós nos valemos de luz e de instrumentação de magnificação, mas o mais importante é que por vezes você passa por um sinal, passa por um achado, e você não vê. Você olha, mas não vê. Então, olhos de ver. Segundo aspecto: em oftalmologia, as horas de evolução de um processo contam. Ou seja, Em 24 horas você pode perder um olho, você pode ter o óbito ocular, que é a perda da visão.
Então as horas contam. Então nesse sentido, bom, o terceiro eu acabei de dizer, que por trás de um olho existe todo um organismo. E o quarto, eu diria, como oftalmologia, e quem faz oftalmologia como especialidade faz oftalmologia em medicina veterinária, faz oftalmologia clínica e cirúrgica, lembrar que Na oftalmologia cirúrgica existe a microcirurgia, e esta microcirurgia, cirurgia da superfície ocular, da córnea, cirurgia intraocular, aquele que adentra essa especialidade tem que ter claro que a primeira coisa que a gente aprende quando transita da cirurgia convencional para microcirurgia é desaprender o gesto da cirurgia convencional, porque é outro mundo.
E essa curva de aprendizado da microcirurgia é muito particular é muito de cada um e tem que haver muita consciência profissional de saber o momento em que você pode se posicionar como pronto para ajudar um animal nesse território da oftalmologia microcirúrgica.
E pensando também que todas as áreas, né, são cercadas por algum tipo de mito, quais seriam mitos importantes relacionados à oftalmologia veterinária?
O primeiro deles, mas que são mitos construídos não por nós médicos veterinários, mas construídos pela clientela que que nos procura. O primeiro deles é imaginar que seria natural e importante nós cuidarmos dos problemas de refração dos cães e dos gatos e dos cavalos. E a gente sabe que isso não é um problema efetivamente para eles. Nós sabemos que, por exemplo, equinos têm uma tendência à hipermetropia, que gatos têm uma tendência à miopia, que cães também uma certa tendência à hipermetropia.
Mas eu costumo brincar com o meu cliente dizendo, olha, eles não leem, né, eles não leem livros, eles não assistem, enfim, as necessidades visuais de um cão, de um gato, de um cavalo são outras. Aliás, falando em animais de companhia, cães e gatos são mais olfato do que visão, inclusive. Então É um mito achar que cão teria que usar óculos, né? Por exemplo, um deles. A gente tem óculos que a gente usa em pós-operatório para proteção, até óculos escuros para evitar muita luz, mas não óculos de uso contínuo, muito menos lente de contato.
Agora, fora as questões de refração, o outro mito é achar que nós temos limites na oftalmologia. Eu digo que até recentemente nós tínhamos um território que nós não adentrávamos, que era a cirurgia vítreo-retiniana, a cirurgia do segmento posterior. Hoje não mais. Nós temos no Brasil o Dr. João Alfredo Kleiner, que foi fazer um curso com médicos de cirurgia vítreo-retiniana na Europa, na Alemanha, e entre nós é aquele que tem a maior experiência nessa área, fez um grande investimento material e desbravou, e é pioneiro no nosso meio junto com uns poucos profissionais no mundo inteiro que fazem a cirurgia do segmento posterior.
Mas todo o restante que é feito em oftalmologia humana, nós fazemos em oftalmologia veterinária, e com os custos e com as dificuldades até agravadas. Porque enquanto se opera a catarata no ser humano com anestesia local, e o cliente às vezes acha que a gente pode fazer isso no animal, nós temos que submetê-lo a uma anestesia geral. Por óbvio, é uma microcirurgia. Se o animal se mover, o ser humano colabora com uma sedação, mas enfim.
Ou seja, nós temos na oftalmologia a diferença de cuidar de várias espécies, dentro de uma mesma espécie olhos muito diferentes. Então os mitos são de uma simplificação por parte da clientela e cabe a nós explicarmos a complexidade e a extensão do gesto que nós fazemos em oftalmologia veterinária.
E professor, mudando um pouco de âmbito, né, o que que seria o Observatório da Veterinária e por que que ele surgiu?
O observatório surgiu da minha cabeça porque quando nós concluímos o primeiro estudo da demografia e com os dados que emergiram, no meu entendimento, nós teríamos que criar um organismo que permanentemente estivesse monitorando os fatos da profissão em diferentes ambientes, que estivesse compilando dados e publicações confiáveis a despeito desses fatos da profissão, mas mais do que isso, produzindo informação estratégica para tomada de decisão pessoal do indivíduo, do profissional e de instituições como um todo, como universidades, órgãos de classe.
Então assim surgiu o observatório, face aos resultados do primeiro estudo da demografia. Foi um grupo de profissionais, professor Mondadori, Marcelo Pacheco, eu e a doutora Camila Marinelli Martins, que tem, que é uma colega que faz epidemiologia veterinária, que tem uma empresa de ciência de dados, que foi a responsável tanto por o primeiro estudo da demografia como esse. E criamos o observatório. Observatório foi morar na Associação Nacional de Médicos Veterinários como um braço da NMV, e por essa razão o presidente da NMV, Márcio Mota, juntou-se a nós.
E observatório desde esse então primeiro estudo demográfico, vem realizando estudos, não apenas a demografia que vai sair agora, eu mencionei um estudo agora há pouco, o estudo da interação homem-animal, mas tem um estudo em curso extremamente importante que é o da avaliação de egressos, tanto avaliação dos profissionais egressados como do público que contrata, as empresas que contratam esses profissionais. Então nós fizemos dois estudos pilotos com uma universidade privada e uma universidade pública, Deveremos, deveremos proximamente fazer um novo estudo numa universidade pública muito importante do país e queremos dessa maneira introduzir algo que está na legislação do Ministério da Educação, mas que pouquíssimas escolas fazem, que é criar no âmbito das suas instituições um observatório do egresso para ter essa informação estratégica tão importante para correção de percursos e de aperfeiçoamento do sistema acadêmico, por exemplo.
E quais são os dados que mais chamaram a atenção pensando no perfil do médico veterinário brasileiro? E o que que esses dados revelam sobre os desafios atuais que a gente encontra na profissão?
Bem, eu vou adiantar inclusive alguns dados que emergiram já dessa, desse novo estudo da demografia. Veja que o hiato foi de apenas 3 anos e o crescimento do número de profissionais foi de quase 26%. 26% em 3 anos. Então eu aqui vou rememorar algo que foi dito não por um observador brasileiro, mas alguém que eu convidei, que foi presidente da OIE, que é o Dr. Bernard Vallat, que foi quem fez o prefácio da primeira edição. Então quando ele leu o estudo, porque nós já publicamos naquela ocasião bilíngue e novamente será publicado em português e inglês, quando ele leu o estudo e ele redigiu o prefácio o fio condutor do que ele disse foi, infelizmente, precarização.
Precarização da profissão na acepção da palavra, ou seja, baixa autoestima, baixa remuneração, alta competição, ambiente de trabalho pouco saudável. Enfim, esses são aspectos que esse número absoluto e relacionando com qualquer parâmetro, por habitante, rebanho, animais de companhia, nós somos o país do mundo com a maior relação médico-veterinário e todos esses outros parâmetros, incluindo, começando pela população. E é uma profissão que está crescendo a uma velocidade muito acima do crescimento populacional.
E nós sabemos, como foi dito há pouco, que a maioria desses jovens, particularmente mulheres, porque a maioria são mulheres e mulheres jovens, dirigem-se para a área de animal de companhia, que não é nos primeiros anos da profissão a área que remunera melhor. Então você veja, mais de 40% se dirigem para essa área nos primeiros anos da profissão, quase 50%, e possuem nos primeiros anos de profissão até chegar aos seus 40 anos de idade, então jovens até 30 anos ganhando menos de R$5.000 por mês.
Então esse é um aspecto que preocupa. Preocupa muito por fatores inerentes à profissão, ao exercício profissional. Aqui então eu estou falando de fadiga de compaixão, eutanásia, luto, situações estressantes, conflito entre profissionais. Nós somos uma profissão com adoecimento mental muito grande. 48% dos profissionais em algum momento tiveram que se afastar do exercício profissional para buscar auxílio à sua saúde mental. Isso é alarmante.
E isso também afeta mais mulheres, mais uma vez, jovens. A gente sabe que as mulheres têm a mesma carga de trabalho que os homens no ambiente profissional, mas culturalmente no nosso país, quando elas retornam aos seus lares, elas têm mais um período laboral em casa, não frequentemente ajudadas por seus companheiros. Enfim, Esses aspectos fazem com que o profissional também olhe para sua formação com preocupação. Então, a despeito de ter um sentimento de pertencimento muito grande, onde a maioria chega a dar nota de 0 a 10, 8, a formação que recebeu, mais de 80% diz que o aprendizado prático que ele recebeu não foi suficiente.
Então existem alguns paradoxos que esse tipo de pesquisa revela. Porque às vezes, como existe um grau de pertencimento muito grande de quem opta por ser médico veterinário, e a maioria se orgulha disso, muitas vezes, a despeito de todas essas dificuldades, o custo emocional de abandonar a profissão é muito grande. Então a maioria permanece na profissão, é resiliente, persevera, resiste esses anos iniciais de baixa remuneração, porque quando ele chega lá na quarta década A maioria, mais da metade, ganha mais de R$10 mil por mês.
Então quem segue na profissão acaba lá na frente tendo uma percepção melhor sobre a qualidade de vida da profissão. Mas repito, é uma profissão que no início da carreira, e com esse número de profissionais, e com essa competição, leva a um adoecimento precoce, a uma situação de percepção de um futuro difícil com a profissão. Enfim, mas eu queria encerrar sobre essa questão, as questões que me preocupam. E eu já havia dito isso ao final do primeiro estudo demografia, e não vem apenas de dados, vem da observação do comportamento dos colegas.
O que mais me preocupa, Thaís, é que nós estejamos perdendo o que há de mais caro na profissão, que são os princípios éticos e morais que governam qualquer profissão, porque isso leva um tipo de comportamento devido a essa precarização da profissão que destrói a imagem da profissão, né, perante a sociedade, perante os colegas. E o que é mais grave, em algum momento, com a tomada de consciência, quando o auto-engano deixar de ser atônica, tocará a pessoa, né, que se comporta dessa maneira. Então essa é a minha maior preocupação nessa situação que nós vivemos no país.
A gente percebe assim, né, eu no papo eu já conversei com 154 profissionais diferentes, e para todos eles eu pergunto né, o porquê da escolha da medicina veterinária como profissão. E assim, a esmagadora maioria fala que é algo que vem desde criança, né. Então a medicina veterinária tem esse caráter de ser uma profissão de sonho, né. Acho que a maioria das crianças, se não todas as crianças, têm esse desejo de cuidar dos animais, de salvar os animais.
Algumas permanecem, né. E a gente sabe que com a oferta de vagas nos cursos de medicina veterinária no Brasil, praticamente não existe uma pessoa queira fazer veterinária que não tenha realmente como, é. Mas há um custo muito alto, E aí existe toda uma questão entre o que a gente imagina antes de estar dentro desse mundo, que é ser médico veterinário, e a realidade que a gente encontra, né, depois de passar por uma graduação, de enfrentar os desafios do mercado, desafios emocionais, e uma série de questões que às vezes a gente não contabilizou lá na nossa lista de prós e contras de querer ser médico veterinário.
Então o senhor percebe de forma claro essa diferença que existe entre o que um estudante que tá lá na graduação imagina da profissão, imagina que vai ser o futuro dele, e o que ele realmente encontra depois da formação?
Eu diria, Thaís, para lhe responder, que é muito difícil como médico veterinário você ter um comportamento ético, já que há pouco eu falei de ética na profissão, e equânime. E eu me explico: tem um livro que eu recomendo, infelizmente ele não está em língua portuguesa ainda, que é do Horowitz. A capa desse livro traz uma, traz a imagem de um cão, traz a imagem de um rato e traz a imagem de um porco, e traz os seguintes dísticos: os animais, alguns nós amamos, outros nós odiamos e outros nós comemos.
Então o médico veterinário, quando chega na universidade com esse ideal emocional, e a maioria efetivamente pode chegar assim, não era no meu tempo. No meu tempo havia uma, uma visão como como eu comentei anteriormente, muito voltada à produção animal e com um olhar natural para isso. Nós não desconhecemos os movimentos de hoje. Temos na Universidade Federal do Paraná a professora Carla Mulento, que trabalha muito com a carne artificial já.
Enfim, então existe por vezes esse drama de consciência com o jovem que chega à universidade, que por um lado ele acaba entendendo que o médico veterinário por vezes é aquele médico que come literalmente o seu paciente, né? Então, de novo, é uma profissão tentacular que toca várias áreas, não é apenas a medicina do cão e do gato e do animal de companhia. E isso leva efetivamente, volto a dizer, a conflitos durante a formação, para não poucos na universidade.
E não se trata de uma visão romântica da profissão que esses jovens trazem consigo. Mas uma visão emocional. Mas a gente também tem que lembrar que a gente só aprende pela emoção. É por isso que eu digo que não há possibilidade de ensino à distância causar efetivamente aprendizado, porque o exemplo arrasta. Observar as situações, conversar com uma pessoa, nada substitui isso, né? Então Eu costumo dizer: excelência no fazer exige humanidade no ser.
Então, isso tudo é complexo. E veja, as gerações atuais, eu não estou lecionando mais para graduação, eu eventualmente leciono em nível de pós-graduação para profissionais mais maduros, mas converso com colegas e essas questões geracionais têm de ser incorporadas, essas mudanças geracionais, à nossa maneira de atuar, e de trabalhar esses jovens, não é? Mas eu diria, Thaís, que os desafios são crescentes nesse aspecto, no que toca a nossa produção.
E o que que o senhor percebe que realmente diferencia um profissional comum, aquele que vai ter um desempenho satisfatório, que de repente vai conseguir lá depois de alguns anos de profissão, né, ganhar um valor suficiente para se manter, para ter uma vida às vezes até modesta, de um profissional de excelência que alcança grandes feitos dentro da veterinária?
Bom, em primeiro lugar, ter claro que ele é muito mais do que um médico veterinário, que ele é um cidadão, um cidadão do seu país em primeiro lugar, cidadão do mundo. Então eu me refiro a uma formação humanística, uma cultura geral imprescindível, que inclui algumas coisas como obrigatoriamente falar inglês, entender inglês, porque a maior parte do conhecimento organizado está na língua inglesa. Eu costumo dizer que quem não lê inglês é um analfabeto intelectual, que não tem acesso à maior parte do conhecimento organizado e publicado no mundo.
Se ele quer, e é importante, ir a congressos e se beneficiar disso, ele tem que ter a conversa de corredor com aquele palestrante que fala inglês, porque é o esperanto de hoje, é o latim de outrora. Então, e uma formação humanística, Então veja, hoje eu diria que o que mais nos falta ao profissional que se diferencia são as competências humanísticas: comunicar bem, empatia, saber ouvir. E isso pode ser trabalhado na universidade.
A Comissão de Ensino do Conselho Federal, na época era secretário-geral do Conselho, criou um documento de como ensinasse as competências humanísticas de forma transversal com metodologias ativas. Infelizmente, isso não foi apropriado da forma como deveria ter sido pela academia no país. E a gente vê também no estudo da demografia que o jovem clama, e ele percebe que o mercado exige essas competências humanísticas. Então eu diria que, para além da técnica, que exige, por óbvio, o entendimento da absoluta necessidade da educação continuada, cultuar princípios e valores éticos, porque o bom profissional, Thaís, é aquele que não precisa de regra, é aquele que não precisa ser tutelado.
Quando ele atinge esse estado de maturidade, de maturidade profissional, que ele sabe escolher o que é bom, fazer o bem, porque ele entende os consensos nesse sentido, eu diria que esse conjunto de aspectos que eu aqui sumariamente mencionei fazem o profissional diferenciado.
E professor, quais são os maiores riscos emocionais e profissionais para os veterinários hoje em dia?
São aqueles ligados à saúde mental, porque eles estão imbricados com a questão da satisfação profissional, com diferentes agentes estressantes que são sociais, que pertencem à sociedade como um todo, mas existem aqueles inerentes, como ainda disse há pouco, à profissão. Então, até você é da área de produção, isso é falado pouco, porque todo mundo fala do burnout, da fadiga de compaixão do clínico do animal de companhia, mas o clínico do animal de produção, ou médico veterinário zootecnista, médico veterinário exotecnista que trabalha com produção animal, por vezes ele passa uma semana dirigindo com seu carro, pouco interagindo com pessoas, ou se ele interage são pessoas não no mesmo status cultural seu, a interação é fragmentada, ou seja, vive momentos de muita solidão, de estresse, sozinho ele com ele mesmo.
Então existem relatos também de profissionais que atuam na sua área, por fatores, repito, inerentes à profissão, que têm agravos à saúde mental. Então eu diria que no âmbito das universidades já passou da hora de nós provermos uma formação que permita essa autorregulação emocional, que permita ao jovem ainda na universidade saber como lidar com essas questões e saber reconhecer naqueles indivíduos que por uma questão individual e do indivíduo precisa de apoio psicológico, psiquiátrico, que seja encaminhado da forma mais correta, ou seja, que não permita que essas situações culminem naquilo que é mais triste, que é um jovem terminar com a própria vida.
Eu achei interessante há um tempo atrás, que é uma visão que eu ainda não tinha, eu não tinha parado para pensar sobre, né? Eu recebi um email de um seminário internacional que ia acontecer, em que ia ser discutido o impacto emocional da eutanásia de bovinos para os trabalhadores da fazenda. Porque principalmente quando a gente pensa em bovino de leite, aquele funcionário tá ali lidando com aquele animal todos os dias, já conhece aquela vaca, já tem todo o acompanhamento.
E aí de repente esse animal adoece, às vezes por questões realmente da saúde, por questões econômicas, ele acaba sendo eutanasiado, descartado. E os trabalhadores também têm que lidar com esse tipo de situação. Então são coisas para as quais às vezes a gente realmente não tá muito atento, mas que tem um impacto importante, né? Eu acho que a gente tem conseguido às vezes puxar alguns conceitos, por exemplo, que vem mais até de pequenos animais, quando a gente pensa, por exemplo, na teoria do elo, né, da questão da violência contra os animais, a gente sabe como é a violência a campo com animais de grande porte, como a vaca apanha, né, como o cavalo apanha, como às vezes a doma é feita de forma violenta.
Então eu acho que é interessante a gente começar também a incentivar os alunos a terem esse olhar um pouco mais ampliado para o que que esse tipo de comportamento significa em um âmbito maior, quando você pensa na família daquele funcionário, daquele domador, daquele tratador, né? O que que isso pode estar representando ali em termos sociais também, né?
Veja, até esqueci seu comentário em seja, e foi por mim esquecido há pouco, com a mudança cultural da profissão foi a incorporação dos conceitos de bem-estar animal e de bem-estar único. Quer dizer, bem-estar animal, bem-estar do profissional, de bem-estar único, mas mas particularmente o bem-estar animal, que colocou a profissão em outros rumos. Eu lhe falei que eu comecei com concurso na disciplina de técnica operatória e nós ensinávamos técnica operatória em cães apreendidos pela prefeitura e todas essas questões.
E isso mudou, felizmente, e essas abordagens mudaram. Então veja que realmente as mudanças culturais elas se fazem a partir de pressões da sociedade, né, e que regula as profissões. Sem dúvida alguma, seja na demanda por serviços, mas também por comportamento.
Existe essa questão da licença social, né? E com o crescimento, por exemplo, do veganismo e essa visão, né, que acaba impactando muito a minha área, das pessoas verem às vezes a produção animal como uma forma de exploração. A gente precisa realmente procurar formas cada vez melhores, né, de lidar com essa produção que é necessária, né, que sustenta e que alimenta milhões de pessoas, e também pensar numa digna para esse animal, independente da destinação dele eventualmente ser um matadouro. Então assim, são questões que a gente tem que estar atento, sem dúvida.
Agora veja como às vezes os animais, particularmente os de companhia, acabam sofrendo por essa cultura. Você falou do veganismo, vou tomar esse exemplo. Eu há muito tempo, Thaís, eu não via atrofia retiniana em gatos por déficit de taurina, porque gatos comem ração para gato, ou como carnívoro que é tem acesso à fonte proteica carne. Só que tem gatos de pessoas veganas que impõem ao seu animal de companhia, ao seu gato, a sua dieta.
Por exemplo, um animal que é carnívoro passa a ter uma dieta vegana, então eu passei a ver atrofia de retina por déficit de taurina, que eu não via há muitos anos, em gatos de pessoas veganas. O que eu quero dizer é que essas influências da sociedade na profissão, no objeto do nosso trabalho, que são os animais, pode ser benéfica, ou pode ser um retrocesso. Exatamente. Então, por isso que eu disse, essas interações da nossa profissão com a sociedade também passaram a se tornar mais complexas por conta da conotação que os animais de companhia passaram a ter, né?
E professor, o que que mais preocupa o senhor, né, tendo esse acompanhamento aí de anos da formação de gerações de médicos veterinários, quando o senhor pensa no futuro da nossa profissão?
O que mais educa é o exemplo. Hoje nós temos o maior número de cursos de veterinária no mundo. Me preocupa a qualidade do ensino a partir do próprio exemplo de quem ensina, porque muitas vezes quem tá ensinando poderia ter passado por um treinamento maior, poderia estar numa etapa da formação profissional mais consolidada, e muitas vezes muito jovem, com uma formação ainda não consolidada, ele passa a ensinar os outros, sem ter acumulado experiência, sem ter acumulado prática, repetindo o que ele lê.
E tudo isso acaba criando uma sensação que a mim me preocupa muito, que é quase de um auto-engano coletivo. Quem ensina faz de conta que ensina, quem aprende faz de conta que aprende, e busca-se um diploma, busca-se um certificado, e uma formação de verdade fica pelo caminho. E de novo a gente cai naquilo que em suma é a perda dos valores éticos e morais que governam a nossa profissão. Mas tem algo bom acontecendo, Thaís, e que o estudo da demografia revela, é que a maioria dos jovens está começando a tomar consciência dessa situação.
E, por exemplo, mais de 80% pleiteiam por uma avaliação mais rigorosa pelo MEC da qualidade dos cursos. A maioria pleiteia pelo retorno do exame de certificação profissional. A maioria pleiteia pela pela extinção da possibilidade de ensinar por EAD medicina veterinária na graduação. Ou seja, a percepção de uma saturação do mercado, de baixa valorização pela sociedade, de baixos salários, de adoecimento mental, tudo isso tá chegando a um ponto que a tomada de consciência está se fazendo.
E é claro que apenas de forma corporativa e com essa sinergia entre colegas, que as mudanças necessárias poderão acontecer. Algumas podem acontecer rapidamente na formação, como eu disse há pouco, introduzir esse treinamento para autorregulação emocional, para saúde mental e outros aspectos. Mas algumas, infelizmente, Thaís, não ocorrerão rapidamente, até porque a gente sabe que há interesses econômicos muito importantes por detrás dessas instituições privadas.
E hoje a maioria dos jovens se gradua em instituições privadas no país. E por vezes o que se caracteriza é efetivamente um estelionato, porque se cobra por algo que não é entregue, e o jovem só vai perceber que ele não tem aquela formação que, se ele não se autoenganou, que ele desejaria, quando às vezes está sendo processado por imperícia no sistema CFMV, CRMV. Então eu temo, eu me preocupo com as gerações atuais de jovens, né, com esse médico veterinário até 30 anos que tá no mercado de trabalho.
Nós precisamos agir rapidamente para minimizar os estragos nessas gerações de jovens.
Esse movimento coletivo, ele é importante. Eu acho que o papel das instituições também é fundamental, mas também existe uma questão dos médicos veterinários enquanto indivíduos perceberem a importância do seu papel, né? Porque eu acho que existe um pouco dessa terceirização da responsabilidade de quem vai fazer essa nossa realidade ser E na realidade é um trabalho de formiguinha e cada um de nós tem o papel a cumprir nesse âmbito, né?
A gente não tem muito como só ficar deixando e algo é um trabalho a ser visto em um longo prazo. É como aquela questão de plantar uma tabareira que você não vai comer as tâmaras, enfim.
Exatamente, exatamente. Agora veja, tudo passa, Thaís, pelo conhecimento e o jovem precisa saber que a gente não aborta etapas. Eu há pouco na conversa fora do ar com você eu dizia ter claro que não existe verdade absoluta. A gente usa em prol do nosso paciente, do nosso trabalho, a verdade disponível, porque amanhã, mês seguinte, ela pode mudar. E isso exige então atualização constante, responsabilidade profissional, cultura médico-profissional e cultura geral.
Eu dou um exemplo, Thaís. Tem um laboratório que produz uma molécula, uma das mais vendidas no mundo, que chama benazepril. Benazepril, inibidor de enzima conversora da angiotensina. Como é que é o nome do medicamento na farmacopeia humana? Lotensin, low tension, baixa tensão arterial, nome internacional. Qual é o nome na farmacopeia veterinária? Forticor, é forte para o coração. Então veja como a indústria farmacêutica nos vê como médicos veterinários em relação ao médico.
E infelizmente, se você perguntar sobre o sistema renina-angiotensina-aldosterona, função metabólica do pulmão, para o médico veterinário médio, ele vai ter dificuldade em falar sobre isso. Então você tem toda a razão, o compromisso é pessoal. O primeiro empreendimento que a gente faz na vida é da gente mesmo. A primeira empresa que a gente tem que empreender é a si mesmo, não é? E é claro que a mudança de uma profissão se faz pelo trabalho de todos, pelo exemplo de todos, pela sinergia de todos em torno de consensos.
Né, que podem não ser também definitivos, mas que naquele momento parecem ser os mais adequados. Então temos que aprender a conviver, Thaís, ombro a ombro e não cotovelo com cotovelo. Médicos veterinários ainda convivem de uma maneira pouco sinérgica. Veja o número de processos no sistema CFMV, CRMV, de profissionais contra profissionais. Entre médicos, eles têm um aforisma, Eles dizem: corvo não come corvo. Porque a gente nunca viu um urubu comer carniça de outro urubu.
Então, médicos entre quatro paredes se digladiam, discutem em congresso, é até bonito de ver. Mas abriu a porta da sala do congresso, acabou. E nós não. Nós temos que nos apropriar dessa cultura de que se eu falar mal do meu colega, eu estou falando mal da minha profissão. Então, de fato, há movimentos culturais do indivíduo que repercutem, que ressoam na classe como um todo, que precisam ser aperfeiçoados.
E, professor, como o senhor enxerga o papel do Conselho Federal de Medicina Veterinária e dos conselhos regionais também dentro dessa transformação da profissão?
Veja, o papel essencial desses órgãos a gente sabe que é proteger a sociedade, né? Então muitos médicos veterinários desconhecem a essência do papel desses conselhos. Eles existem como tribunal de classe para regular o exercício da profissão, mas ao mesmo tempo é papel deles, e acredito que essa gestão esteja fazendo isso. E eu menciono as ações que foram setadas junto ao Congresso Nacional, Ministério da Educação, para a regularização do Exame Nacional de Certificação Profissional e a proibição do EAD, e a instituição de um piso salarial para medicina veterinária, assim como a criminalização do exercício ilegal da profissão.
Foram ações agora dessa última gestão do Conselho Federal. Muito marcantes e que contribuem para o aperfeiçoamento cultural e do próprio exercício da profissão no país. Além disso, é função desses conselhos criar comissões assessoras de educação, de outras especialidades, para municiar todos os atores, a começar pela academia, que interagem com a profissão, no aperfeiçoamento, mais uma vez, da cultura profissional. Então é um papel fundamental, é o órgão maior da nossa classe.
A eles também, de forma sinérgica, podem agir os sindicatos, as sociedades. Mas enfim, vejam que nós corporativamente estamos sim nos fortalecendo. Afinal de contas, temos um número muito grande de profissionais em exercício, quase 200 mil médicos veterinários. Então somos uma força, né? Somos uma força política, que ainda não conhecemos por vezes os meandros, os caminhos, dos melhores caminhos políticos de fazer política. Mas estamos nos politizando, aprendendo com outras profissões que se politizaram antes de nós.
E quais discussões sobre a nossa profissão o senhor acredita que são fundamentais para os próximos anos, né? Porque a gente tem que fazer essa análise retrospectiva, tem que entender como tá o mercado hoje em dia, sabendo que essa construção vem sendo feita, né, nos últimos anos, mas ao mesmo tempo olhando para o futuro e para o que que pode ser feito para que as próximas gerações sofram menos esses impactos, né, dessas questões complicadas aí com relação à veterinária.
Veja, a gente falou muito de especialidade, você falou de oftalmologia, ao mesmo tempo você fez uma questão da questão sistêmica. Veja, há um movimento nas profissões em geral que, claro, as especialidades sempre existirão, mas que movem o médico veterinário para esse olhar mais sistêmico, mais abrangente, que justamente toca o homem, o ambiente e o animal em todos os seus aspectos, né? Questões emocionais, questões orgânicas, questões gerenciais.
Então veja, eu dou um exemplo: eu só fui encontrar na Universidade de Buenos Aires um grupo de estudos num curso de medicina veterinária de água. E veja que água, na área que você atua, qualquer área de produção animal, água é um insumo fundamental. As doenças transmitidas pela água, e médico veterinário lida com saúde da água, sim, mas perceba que na nossa formação, nas universidades, essa é uma questão. Então existem alguns elementos que são trazidos dessa comunicação da saúde única, que nos levam para olhares diferentes tocando as doenças emergentes do homem, as zoonoses, crise climática.
Então cuidar do campo, dos aspectos ambientais da produção animal, tudo isso já não é futuro, isso já é realidade, vai ganhar cada vez mais contornos mais complexos, e o médico veterinário vai ter tem que estar preparado para esses cenários. Cada vez mais o médico veterinário será chamado para atuar na saúde do homem, em grupos interdisciplinares, atuando com outras profissões da área de saúde. Sem dúvida alguma, a área de animal de companhia continuará forte, com áreas de hiperespecialização muito grande, porque esse fenômeno social de casais sem filhos tendo gatos e cães e outros animais animais menos usuais como animais de companhia vai continuar existindo, assim como o cavalo pela própria figura desse animal, não mais um cavalo de esporte, mas cavalo entendido como animal de companhia.
Os laboratórios já entenderam isso há algum tempo. Então algumas mudanças já estão mapeadas, já são consensos, já existem publicações Mas as mudanças, Thaís, estão acontecendo com tamanha rapidez nessa interação com a sociedade, que por isso mesmo a importância de um observatório e de organismos que permanentemente estejam monitorando essas situações e com dados e informações estratégicas para, em tempo real se possível, prover a classe e as instituições de informações para enfrentar essas mudanças.
E quais habilidades o senhor acredita que são indispensáveis para esse médico veterinário do futuro?
Bom, mais uma vez, curiosidade intelectual, pensar reflexivo, resolução de problemas. Eu diria que essa tríade que hoje é pouco exercitada, os comportamentos são quase às vezes, eu diria, autômatos, repetitivos. As pessoas pensam pela cabeça dos outros, repetem conceitos, enfim. Essa tríade acho que governa tudo mais, porque às vezes me pergunto o que que um currículo, uma matriz curricular, o que um programa de aprendizagem tem que ter.
Tem que ensinar a pensar e tem que ensinar a resolver problema. Então veja, no mundo em que se lê pouco, um mundo de rede social, um mundo em que se redige pouco, se escreve pouco, onde as pessoas perdem horas em redes sociais, mas não tem a paciência Eu brinco às vezes, a superfície glútea, a capacidade de sentar e ler 3 páginas e entender o que leu. Nós temos um caminho aí também desafiador face à maneira como a sociedade se comporta, para que hábitos reflexivos de ter uma gestão do tempo, gestão do tempo Tempo, que é um bem finito.
Eu, na minha idade, Thaís, entrei na sétima década, sei que tenho muito pouco futuro pela frente. O passado já faz mais parte da minha vida. Então, tempo é, para o jovem, às vezes ele pensa que é infinito. Então, ter gestão do tempo, uma agenda organizada, educação continuada, cultura geral, e importante, Thaís, Lembrar que ele não é apenas um médico veterinário, ter um hobby, ter uma vida saudável. Enfim, é procurar o equilíbrio.
Nem sempre é fácil, né? Mas é isso. E espiritualidade, na minha opinião, seja lá de que forma, a espiritualidade é muito importante.
Eu acho que a gente, durante a graduação principalmente, né, fica tão focado às vezes nessa questão da formação técnica que a gente deixa de olhar para todos os outros aspectos que nos tornam um ser humano integral. Então às vezes a gente vai largando mão de estar na presença da família, de se cuidar, de fazer uma atividade física, de ter um hobby, porque é difícil gerenciar esse tempo de um curso tão intenso quanto é a medicina veterinária, principalmente as instituições que são sérias, que tem um curso integral.
Então manhã e tarde, 5 anos, aula o dia inteiro, é pesado, né? A gente sabe como é que é essa rotina. E chega um momento da vida que isso acaba fazendo falta, né? Então às vezes a gente tem que tentar despertar esse interesse para esse equilíbrio um pouco mais precoce, né? Para a gente não começar a ter esse olhar só quando a coisa realmente começa a apertar e ficar complicada para o nosso lado, né?
Toda razão.
E professor, a gente acaba discutindo muitas vezes, isso é uma fala que eu enquanto aluna tinha bastante, né? Que é aquela questão de dizer assim, ai, mas o médico veterinário às vezes tem tantas demandas emocionais, mas a gente a gente não aprende isso na faculdade. Ah, o médico veterinário às vezes tem que lidar com as questões econômicas do responsável pelo animal, né, e com a gestão às vezes de um, enfim, de um local de trabalho, né, um relacionamento interpessoal.
E isso a faculdade não ensina para gente. Então, o que que o senhor percebe que a faculdade de fato ainda falha em ensinar? E aí assim, isso eu queria trazer um pouco de uma percepção que eu vim construindo também sobre isso, né. Acho que conforme a gente vai ganhando uma maturidade, a gente vai entendendo que a instituição, a universidade oferece isso para gente de formas mascaradas. Então ninguém vira para você e fala assim: hoje eu vou ensinar você a gerir conflito.
Mas ele coloca você para fazer um trabalho em grupo com uma pessoa que você não gosta muito, né? Ah, hoje eu vou ensinar você, ah, enfim, lidar aqui com essa situação financeira. Mas você tá no meio ali que que você tem que se organizar, às vezes você vai morar longe da casa dos seus pais, você tem que pagar conta, então existem formas indiretas pelas quais a universidade nos ensina muita coisa, mas eu acho que como não é uma cadeira dentro, né, das disciplinas que a gente cursa, às vezes o aluno não percebe isso como algo que tá sendo desenvolvido ali naquele momento.
Então o que que o senhor percebe que a gente ainda falha um pouco em ensinar esses alunos?
E nesse sentido, Thaís, há pouco nós dizíamos que face a esse problema tão grande, de quase 50% dos profissionais com agravo à saúde mental, que nós temos que trabalhar assim de uma forma mais organizada no âmbito da universidade. Vou te dar um exemplo que há pouco ainda eu conversava com um membro do observatório, tá trabalhando na demografia, professor Walker Chagas. Ele tem uma filha que tá no primeiro ano de medicina e ele me dizia: minha filha hoje chegou em casa e me contou que houve uma teatralização, uma representação para treinar o jovem no primeiro ano do curso de medicina a comunicar más notícias.
Quer dizer, como comunicar um mau prognóstico, como comunicar um óbito. Ou seja, existe sim maneira de ensinar maior autorregulação emocional para o jovem, e não apenas de forma subliminar ou indireta, como você disse, ou mascarada. Não, tem que ser explícita. Isso tem que ser trabalhado efetivamente Agora, é muito errado, Thaís, imaginar que sempre tem que criar uma disciplina. Eu há pouco dei o exemplo do ensino de humanidades.
Em qualquer disciplina você pode, por metodologia ativa, treinar comunicação, liderança, escuta ativa. Existem vários métodos ativos onde você pode tratar e ensinar humanidades, pode ensinar autorregulação emocional. Enfim, isso tem que sim que ser incorporado aos programas de aprendizagem. E não apenas de forma indireta.
Até porque é isso, né? Eu acho que dentro dessa construção de conhecimento, muitas vezes a gente só se dá conta de que aquilo é importante, precisa estar presente, quando isso é verbalizado de uma forma mais direta, né?
Sem dúvida alguma.
Professor, e o que a prática ensinou ao senhor que o senhor gostaria que todo mundo soubesse?
Assista um procedimento, realize o procedimento, e ensine isso a uma outra pessoa. Essa é a tríade do aprendizado prático. Assista quantas vezes forem necessárias até que você se sinta seguro a repetir esse gesto. Faça, execute, e tão logo quanto possível ensine o outro, porque no topo da pirâmide da aprendizagem está ensinar o outro.
E o que que o senhor acha que seria importante que um estudante de medicina veterinária soubesse ou compreendesse sobre a nossa profissão ainda antes de chegar ao final dessa graduação?
Não apenas sobre a nossa profissão, mas que nada pode ser construído sem uma construção sistemática, pacienciosa e comprometida do conhecimento, e que nesse caminhar não se abortam etapas. Não se pode chegar a um grau de proficiência sem passar por diferentes degraus que são na maioria das vezes em complexidade crescente. Entender mais uma vez que não existe verdade absoluta, que a verdade de hoje pode se modificar amanhã. Ter isso claro como base de um fio condutor que é a educação continuada.
Eu costumo dizer, Thaís, que se a gente tiver consciente no momento em que nós morrermos, nós vamos ter a última lição em vida, que é aprender como é que morre. Então há uma frase que não tem autor que diz assim, que a sabedoria é você ampliar os limites conscientes da sua ignorância. Então é isso, quanto mais você vai aprendendo e sabendo, mais você vê que pouco você sabe. Então essa humildade de saber que você não é detentor do absoluto conhecimento também é fundamental.
Porque por vezes existe aquele profissional com baixa autoestima, mas existe também aquele com uma estima deturpada, que se acha, o jovem diz, a última bolacha do pacote, né? E ele pouco agregou ainda como profissional, enfim, como ser humano. Então tudo isso acho que o jovem precisava refletir a respeito.
E professor, chegando ao final do nosso papo, infelizmente, né? Mas o senhor já falou sobre a importância da gente ter uma vida mais rica e ter um hobby, fazer outras atividades para além da profissão. Então eu queria perguntar se o senhor tem um hobby.
Tenho, tenho mais de um, mas talvez o preferido é ler, né? Então eu tenho uma, e gosto do livro mesmo, não me adaptei a ler em telas. Às vezes no avião, no celular e tal, mas eu gosto de manusear o livro Jornal eu assino ir na físico no final de semana para manipular o jornal. Então eu gosto muito de ler, eu gosto muito também da natureza, de viajar, de caminhar, de andar. Viajo bastante também como lazer. Enfim, acho que seria isso: viajar, ler.
E hoje com os netos, né, neto é filho com mel, né? Então tem urgência nesse amor, porque a gente sabe que não vai acompanhá-los por muito tempo.
Tempo.
Não é exatamente um hobby, mas ocupa boa parte do meu tempo conviver com os meus netos.
E já que o senhor gosta tanto de ler, o senhor tem algum livro assim predileto, daquele que o senhor já releu várias vezes, indica para todo mundo?
O encontro dessa nossa realidade demográfica da profissão, que é um livro que o economista Eduardo Gianetti escreveu há, creio que há 20 anos. Esse livro só se encontra acho que em PDF ou em sebo, que Autoengano. Eduardo Gianetti, como economista, tornou-se um filósofo também, porque ele escreve muito sobre o pensar humano. E esse livro é lapidar, porque eu acho que hoje nós temos um comportamento, dizia ainda há pouco, que para ter conforto emocional nós nos autoenganamos.
Não que isso aconteça deliberadamente, mas acontece de forma não consciente, outras vezes deliberadamente. Então frequentemente nós estamos nos autoenganando né? E isso tem um preço, porque lá na frente a tomada de consciência pelo pior caminho ela acaba acontecendo. Então esse é um livro que tem gratuito em PDF, Eduardo Gianetti, Autoengano.
E professor, eu sei que é uma pergunta difícil porque eu recebo essa, esse retorno de todos os convidados, mas tem algum profissional que te inspira, que o senhor acredita assim que seja né, um nome.
Até hoje foi meu grande inspirador, já quando eu conheci no mestrado, é o meu eterno mentor, professor Ney Luiz Pippi, minha absoluta admiração.
E para a gente, né, terminar o nosso bate-papo, se o senhor tivesse que definir ou trazer uma palavra sobre a medicina veterinária, qual seria?
A profissão mais tentacular que existe, uma profissão que toca as mais diferentes áreas e ao mesmo tempo como nenhuma outra faz, a profissão mais tentacular que existe.
Professor, muito obrigada pela sua participação, fiquei muito feliz com aceite desse convite. Eu acho que é muito importante a gente ter essas trocas, eu sempre fico muito realizada assim ter contato com pessoas que têm tanta história para compartilhar, né, e que tem esse acompanhamento inclusive histórico, né, de áreas da profissão. Então acho que é muito bacana a gente ter essa troca. Eu acho que é algo que eu sinto falta assim, que eu acho que não é positivo nas gerações atuais, é muito essa falta de referências, né, de pessoas concretas, né, éticas, que são marcantes assim, que marcaram gerações, que formaram muitos colegas.
A gente fica muito nessa coisa hoje, né, de ser o influenciador, de ser aquela pessoa que tem muito seguidores, e às vezes é tão vazio, né, quando a gente vai olhar de uma forma mais ampla. Então fico muito feliz pela presença do senhor aqui hoje. Queria agradecer mais uma vez.
Aí, eu estou muito feliz. Você me proporcionou um momento muito especial da minha vida, porque eu sei que isso vai, vai ficar gravado. Eu não posso deixar de parabenizar você por estar transformando com seu trabalho, com estas entrevistas, com a qualidade do que você está trazendo por intermédio das perguntas e das interações que você faz com seus entrevistados, como você está contribuindo para esse aperfeiçoamento cultural da nossa profissão e trazendo também informações e insights estratégicos para que os nossos colegas, a título pessoal e coletivamente, possam conduzir o seu caminhar na profissão de forma mais harmônica e sustentável. Foi um prazer e uma alegria estar com você. Muito obrigado!
Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papo-de-veterinaria e às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!