Episódios de Papo de Veterinária! com Thais Rocha

Os maiores mitos sobre a alimentação de cães e gatos

10 de agosto de 202642min
0:00 / 42:12

A alimentação é um dos pilares da saúde dos animais de companhia, mas você sabe se está fazendo as melhores escolhas para o seu pet?

Neste episódio do Papo de Veterinária, recebemos o Prof. Aulus Cavalieri para conversar sobre nutrição de cães e gatos, um tema que desperta muitas dúvidas entre tutores e profissionais da Medicina Veterinária.

Ao longo da entrevista, discutimos como a alimentação influencia a prevenção de doenças, a qualidade de vida e a longevidade dos animais, além de abordar mitos, tendências e os desafios de oferecer uma dieta equilibrada em cada fase da vida.

Também falamos sobre a importância da nutrição baseada em evidências científicas e do acompanhamento veterinário na escolha da dieta mais adequada para cada paciente.

🎙️ Neste episódio você vai descobrir:

  • Como a alimentação impacta a saúde dos pets;
  • Quais são os erros mais comuns na alimentação de cães e gatos;
  • Quando uma dieta deve ser adaptada às necessidades do animal;
  • O que considerar ao escolher a alimentação ideal para um pet;
  • O papel do médico-veterinário na orientação nutricional.

Se você é estudante de Medicina Veterinária, médico-veterinário ou tutor de cães e gatos, esta conversa reúne informações valiosas para compreender como a nutrição pode contribuir para uma vida mais saudável e longa.

💬 Agora queremos saber sua opinião: qual é a maior dúvida que você tem sobre a alimentação dos pets? Conte para nós nos comentários!

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Te encontro na próxima segunda-feira às 7h.

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Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/DUXTh-JYYpY?si=FBvc_nDMnMCtRTKO

Participantes neste episódio2
T

Thaís Rocha

HostApresentadora
P

Prof. Aulus Cavalieri

ConvidadoProfessor
Assuntos6
  • Alimentação e Cultura Humana· CulturaDietas Vegetarianas e Veganas·Dietas Grain-Free·Antropomorfismo na Nutrição Pet·Fisiologia Animal
  • Mitos Alimentação Pet· SaudeDieta Caseira vs. Ração·Desinformação e Influenciadores·Opinião vs. Fato Científico
  • Medicina Veterinária Baseada em Evidências· SaudeMarketing de Opiniões·Qualidade da Observação Científica·Nutrientes vs. Alimentos
  • Nutrição Pet· SaudeCrescimento e Senectude·Doenças Nutricionais·Envelhecimento e Imunidade
  • Nutrição Veterinária· SaudeFundamentos Científicos·Mercado de Trabalho·Indústria Pet Food·Dietas Caseiras vs. Comerciais
  • Trajetória Profissional· NegociosMedicina Veterinária·Nutrição Animal·Animais Silvestres·Mercado Pet Food
Transcrição29 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TRThaís Rocha

Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. No episódio de hoje eu converso com o professor Aulus Cavalieri Carcioffi, uma das maiores referências nacionais e internacionais em nutrição de cães e gatos. Professor da UNESP e pesquisador renomado, ele compartilha sua trajetória profissional os desafios da área e os avanços que vêm transformando a nutrição veterinária nos últimos anos. Então seja muito bem-vindo, professor.

PAProf. Aulus Cavalieri

Obrigado, Thaís. Um prazer muito grande a gente estar aqui com você no seu programa aqui de entrevistas.

TRThaís Rocha

Obrigada, professor. Vamos começar conversando um pouquinho sobre como foi a sua escolha pela medicina veterinária enquanto profissão.

PAProf. Aulus Cavalieri

Eu acho que eu sempre quis ser veterinário, desde criança. Eu lembro só que durante um curto período um primo meu ficou dizendo que eu devia ser biólogo. Mas fora esse pequeno período que ele me influenciou, eu sempre quis ser veterinário. Eu me via cuidando dos animais. Então em casa eu sempre tive muitos animais diferentes, né? Tartaruga, coelho, vários tipos de passarinho, peixe. Até hoje eu tenho todos esses bichos em casa.

E eu sempre particularmente gostava de alimentá-los. E eu não que eu tenha racionalizado isso, porque a gente sabe que Cada profissão tem um nível de, uma característica diferente de escolha. Então algumas profissões, as escolhas são muito racionais, voltadas em mercado, parte financeira, social. Mas veterinária é uma daquelas profissões onde a gente vê que a maior parte dos alunos escolhe por sentimento. E nem sempre ele entende o que aquilo vai ser pra vida dele.

Então a gente vê muito aluno chega na graduação, ele nem sabe como vai trabalhar direito, porque não planejou essa parte. Porque ele veio porque ele gostava daquilo, né? E acho que comigo foi assim.

TRThaís Rocha

E aí, como foi que a nutrição animal surgiu dentro dessa sua trajetória? Porque a nutrição animal, há muitos anos atrás, ela tinha um caráter muito mais voltado para animais de produção, bovinos, suínos, aves. E aí a nutrição de cães e gatos, ela começa a se tornar um expoente e ter mais destaque até de mercado relativamente recente. Então como é que foi esse seu encontro com a nutrição de cães e gatos?

PAProf. Aulus Cavalieri

Como eu já entrei achando nutrição algo bastante especial, então eu gostei de fisiologia, bioquímica é uma matéria que eu gostava bastante. Quando chegou em nutrição, né, eu achei muito interessante. E aí, como você tinha dentro desse cenário, como você falou, que eu me formei em 91, já tem bastante tempo, a produção animal era e ainda é algo bem relevante dentro do curso de veterinária. E aí eu engajei-me nessa área pensando em produção, leite, bovinos, que era onde eu exerceria a nutrição dentro da veterinária, o manejo dos animais.

Só que desde o meu final do primeiro ano, segundo ano de graduação, eu sou vegetariano. E então já tem aí, sei lá, 35 anos de vegetariano. E aí começou na minha cabeça um conflito. De eu estudar uma coisa que não me fazia, eu não me sentia bem naquele ambiente, né? E eu também gostava muito de silvestres, eu tive sempre essa dicotomia. Então naturalmente eu caminhei para animais silvestres e eu fiz o meu mestrado no Zoológico de São Paulo.

A gente montou uma unidade experimental lá com apoio local, eu trabalhei com papagaios e no doutorado eu trabalhei em vida livre com arara azul, Anodorhynchus hyacinthinus, aquela que é toda azul, não a que tem a barriga amarela, né? E ela— então foi um trabalho bem interessante sobre a interação nutrição-ecossistema e o indivíduo. E nesse mecanismo, nesse processo, inclusive eu terminei o meu doutorado, eu já era professor aqui na UNESP.

Isso já acabou, né? Você entrar só com mestrado hoje em dia, a competição aí acadêmica Mas logo no final do meu mestrado, o meu orientador, que já faleceu, o professor Dr. Flávio Prada lá da USP, ele me mostrou que o mercado pet era muito promissor. Tinha duas empresas de ração só no Brasil, não tinha nenhuma instituição pública cuidando disso. E a indústria pet, ela tem uma associação que na época chamava ANFAR, hoje chama ABENTET.

E a UFRJ lançou um edital para patrocinar um estudo. Eles queriam chamar a universidade para um contexto dentro do setor pet food. E a gente, eu submeti um projeto com fibra para cães e a gente ganhou. Então aquilo foi o meu início. Então mesmo durante o mestrado eu tava trabalhando no Gostava de Animais Silvestres, mas eu me dividi nas duas áreas. Por quê? Na área de animais silvestres e na área de cães e gatos, a nutrição tem como objetivo final o bem-estar do animal.

Isso para mim era o que eu sempre quis, né? Não produzir um animal para o consumo humano. Esse é o meu ponto de vista filosófico. Então eu comecei dessa forma e eu não imaginava para onde iria o mercado pet, né? Ninguém imaginaria que ele chegaria nessa relevância e inserção social, né?

TRThaís Rocha

E considerando que a gente tem muitos mitos relacionados a diversas áreas da vida, né, que dirá da veterinária, qual mito sobre alimentação de cães e gatos o senhor gostaria de extinguir da face da terra?

PAProf. Aulus Cavalieri

Eu acho que se a gente trabalha um mito, surge outro. O que eu acho que é importante, e eu acho que eu sinto falta disso na escola, a gente teve um período nos Estados Unidos e nos chamou muita atenção que meu filho mais velho, ele tinha na época, acho que de 11 anos, e ele teve várias aulas que ensinava na leitura do texto a separar opinião de fato. E isso é uma coisa que a escola deveria nos ensinar. Então, toda vez que você não sabe distinguir opinião de um fato, você está sujeito a, mesmo que eu me esclareça sobre um mito, eu assumir outro.

E a falta desse diferencial hoje que torna uma figura social muito expressiva no Brasil tão destacada, que é o influencer. O influencer foi um termo criado, né, na mídia. Não tenho nada contra essas pessoas, todos temos direito à nossa opinião, isso é muito importante, isso faz parte do respeito ao ser humano e das coisas. Mas é muito importante quando a gente está se comunicando com alguém, a gente separar, a gente ter essa ética de separar.

Essa é a minha opinião e esse é um fato. Quando as coisas se misturam, fica tudo nublado e a gente perde a clareza. Então, quando eu me formei, não se falava em dieta caseira. A dieta caseira tinha até um certo preconceito, acredito que muito pela inserção das empresas no cenário. E quando eu comecei o serviço de nutrição clínica aqui, eu vou dar isso como exemplo, Eu vi que eu precisava usar dietas caseiras. Hoje nós usamos de 8 a 15% dos pacientes que a gente maneja no nosso hospital são com dietas caseiras.

Sempre foram utilizadas, eu sempre usei em aula, os livros clássicos de nutrição têm, mas como a gente entrou numa evidência onde opinião e fato se perderam, a distinção se perdeu. Hoje nós vemos uma corrente dizendo que dieta caseira é melhor e que ração faz mal. E a gente tem visto muitos problemas clínicos que não existiam mais, de desnutrição, voltando, porque as dietas caseiras, na maior parte das vezes, são desbalanceadas.

Porque mesmo que o cara tenha o título de veterinário ou de zootecnia, Poucas faculdades têm a formação adequada para esse profissional. Então hoje nós vemos como um mito pessoas indo atrás de opiniões que às vezes a gente consegue comprar muito fácil porque ela casa com o sentimento que eu tenho, um sentimento de natural, por exemplo, e eu não sei bem o que é isso, mas isso não é uma verdade, nem um fato, nem um conhecimento científico É só um sentimento, então, mas aquilo reverbera em mim e eu aceito aquilo?

Então nós temos aí todo tipo de dieta alternativa sendo propagado e animais deixando de comer alimentos industrializados de ótima qualidade e comendo esses alimentos que às vezes vão fazer mal para o animal, são mais caros, tem um impacto ambiental que é um outro aspecto muito importante. Então nessa resposta um pouco longa, desculpa, Nós trouxemos aí um grande mito e a causa do porquê eu acho que tem, que é essa falta da gente perceber e usar da ciência, que é o grande motor que fez a humanidade avançar tanto, né?

TRThaís Rocha

Desde a pandemia, né, a gente tem essa questão dos mitos surgirem com uma força enorme e desmerecendo o papel da ciência dentro da evolução do conhecimento. Então acho que é uma questão que é bem importante, a gente lida muito com isso na academia, né? A gente Grande parte do nosso trabalho é exatamente desmistificar questões que as pessoas repetem de forma exacerbada, principalmente em redes sociais, né? E professor, qual foi a pergunta que o senhor gostaria que tivessem feito mais vezes para o senhor ao longo da sua carreira e que quase nunca fizeram?

PAProf. Aulus Cavalieri

Eu acho que essa questão que eu trabalhei agora seja talvez por aí, sabe? É como nós buscarmos uma estratégia Quando as pessoas buscam conhecimento, isso é natural do ser humano. E como a gente buscar esse conhecimento de uma forma que eu esteja sujeito a menos riscos de adquirir informações equivocadas e que vão contra aquilo que eu busco? E é o que eu vejo hoje. E até na nossa— nós temos um Colégio Brasileiro de Nutrição Animal que ele faz O maior evento pet da América Latina, ele ocorre todo ano em maio, e esse ano nós tivemos na nossa mesa redonda isso: a desinformação, tanto propagada por influencers quanto por veterinários.

Então existem muitos sites onde veterinários fazem um grande desserviço divulgando a opinião deles e indo contra a ciência. Eles não leram, não se apoiaram em nenhum artigo, nenhuma experiência, eles não tiveram nem esse treina às vezes no curso de veterinária. E as pessoas, elas acabam se apegando às coisas pelo sentimento, como eu falei. Eu acho que esse é o nosso grande problema, é a gente criar uma estratégia nossa que depende de coisas que a gente tem se afastado, que é ler e estudar.

Mas se a gente não faz isso, fica— é muito fácil a gente entrar numa corrente de pensamentos e ser enganado mesmo, né? Então talvez essa pergunta discute mais como nós adquirimos conhecimento de uma forma coerente e que não nos leve a erros.

TRThaís Rocha

E alinhada a essa mesma questão, hoje a gente fala muito sobre medicina veterinária baseada em evidências. O senhor acha que esse tipo de embasamento mudou a forma como a nutrição de pequenos animais é? Vista. O que teria impulsionado essa mudança principalmente? Seria uma questão da evolução do próprio conhecimento ou se seria inclusive uma pressão de mercado? Porque eu acho que dentro do discurso das pessoas que às vezes pregam uma crença ao invés de um conhecimento, muitas vezes um dos argumentos é o fator econômico.

A empresa está pressionando porque o interesse do marketing e esse olhar não está sendo feito para o bem-estar do animal e sim para a questão da manutenção dessa empresa no mercado, etc. Então, como é que o senhor percebe essa problemática?

PAProf. Aulus Cavalieri

Essa questão de medicina baseada em evidência, eu sou um pouco mais antigo, eu acho que isso é só um nome de um processo que sempre foi assim. O problema é: que evidência? Evidência é uma coisa subjetiva, o que é evidente pra mim pode não ser pra você. E a evidência vem de uma observação. E a qualidade da observação é a base de todo treinamento em ciência. Então a pessoa, depois de ser veterinário, ela faz 2 anos de mestrado, 4 anos de doutorado, então são 7 anos para ela aprender a reconhecer uma evidência.

E existe uma estrutura observacional que envolve tratamentos controle, número de amostras, repetições estatísticas. Sem esse suporte, a evidência pode ser a minha opinião. Eu já alimento 10 cães, 100 cães com dietas caseiras e todos estão ótimos, estão felizes, o pelo está brilhante. Mas ela não fez uma avaliação na profundidade ou com critério para reconhecer os problemas. Então eu vejo que isso, se fora de uma estrutura de conhecimento mesmo que a ciência traz, não nos ajuda.

E por outro lado, o que a segunda parte do seu comentário, da sua pergunta, o que mais cresceu foi a área de marketing de opiniões. E eu posso dar o seguinte exemplo: imagine que você é um produtor de caprinos ou ruminantes, como é o seu caso. Eu tenho lá 1000 vacas, eu vou fazer uma escolha do manejo alimentar muito técnica, eu vou contratar um zootecnista, um veterinário, Ele vai ter diálogo com um clínico. Às vezes um animal morre, chega um patologista.

Então é feito sim uma evidência concreta e eu vou escolher custo-benefício em termos de valor e desempenho, saúde dos meus animais. Como o decisor da compra de uma ração é uma pessoa que não tem nem esse preparo, na maior parte das vezes é a dona de casa, Às vezes é o homem, mas ele também não é nutricionista e ele não tem tanto onde se apoiar e entender o que está ocorrendo com o animal dele. Ele acaba se baseando num veterinário que às vezes ele tem uma relação mais simples à distância ou nem tem.

Na maior parte das vezes as decisões são feitas pela pessoa. Então ele acaba sendo totalmente influenciado pelo marketing e o marketing Ele é a base do capitalismo e todos fazem marketing. Eu acho que a gente tem que ter pelo menos a democratização desse reconhecimento. A indústria faz marketing, mas aqueles que são contra soluções industriais e querem soluções caseiras, as dietas caseiras, também fazem marketing. Os blogs desses veterinários são lotados, tem centenas de pessoas onde eles falam mal das rações, criam uma briga desnecessária e eles também estão influenciando as pessoas por marketing.

E com que base em evidência? Que eles também não têm. Então nós vivemos uma situação onde grande parte da sofisticação do mercado é marketing e menos ciência. E há uma desinformação científica cada vez maior no mercado. Isso tem nos preocupado. E como eu já citei duas vezes essa questão de dieta caseira e alimento comercial, só para colocar claramente, né, o que a ciência diz da nutrição dos animais. Então os animais, pessoal, não precisam de alimentos, eles precisam de nutrientes.

Então um cão e um gato precisam de 40 a 45 nutrientes. É bem complexo, por isso que a gente usa um software para formular. Então são 12 aminoácidos, 12 vitaminas, 13 minerais, 5 ácidos graxos. Tudo isso tem que estar controlado. O alimento é a forma de eu fornecer esses nutrientes. Então eu preciso fornecer os alimentos combinados numa receita que garanta os 45 nutrientes. E se ele é digestivo e palatável e tem todos os 45 nutrientes, aquilo é adequado.

Então uma boa dieta caseira, ela é tão adequada quanto um bom alimento comercial. Às vezes as pessoas perguntam, você não perguntou, mas é muito comum a gente perguntar: qual é melhor? Não tem melhor. Os dois podem ser bons e os dois podem ser ruins. Quando eles serão ruins? Se faltarem um dos nutrientes ou se a qualidade dos alimentos, a digestibilidade não for boa. E nós temos alimentos comerciais, rações que às vezes não são 100%, mas a maior parte delas é adequada porque tem equipe técnica, tem veterinários lá dentro.

E nós temos, pelo contrário, uma grande quantidade de receitas caseiras desbalanceadas. E nós vemos muitas pessoas gastando o seu tempo, ou seja, cozinhando horas, comprando ingredientes. As dietas caseiras sempre saem mais caras do que as rações. Então ela tá investindo tempo, recursos financeiros Mas ela não foi orientada e aquilo está trazendo prejuízo nutricional ao animal. Isso é o que a gente mais vê hoje no mercado. Mas nós também podemos ter boas ações, né?

Tudo isso porque no marketing nós distanciamos da ciência e nós trabalhamos as opiniões.

TRThaís Rocha

E o senhor acredita que a nutrição de pets, né, a nutrição veterinária no geral, ela ainda é negligenciada pelos próprios médicos veterinários como uma parte essencial desse cuidado com a saúde dos animais?

PAProf. Aulus Cavalieri

Bastante. Esse é um processo de crescimento que ele vem ocorrendo, ele é lento. Até eu posso te comentar que a nossa faculdade aqui, a FCAV, foi um pouco pioneira, porque existia lá na USP a disciplina de doenças nutricionais dentro do departamento de clínica, e aí aqui abriu também. Então eu fui contratado para essa interface, mas as outras UNESP e poucas faculdades, muito poucas, seja público ou privadas, tem esse curso na graduação.

Então o aluno, ele tem uma visão da nutrição básica, que faz parte do currículo mínimo obrigatório, e das criações das espécies zootécnicas ele tem uma abordagem, mas ele não tem uma abordagem nutricional de cães e gatos que tem uma vertente única, que é a interface clínica. Porque nós, quando os nossos cães e gatos adoecem, eles permanecem na nossa casa e eles vão ter não só necessitar de um tratamento medicamentoso ou cirúrgico, como de uma abordagem nutricional diferente.

Então eu acredito que ainda hoje isso é insuficientemente trabalhado dentro dos currículos veterinários nutricionais de uma forma geral.

TRThaís Rocha

E o senhor poderia pontuar para a gente de forma mais específica, assim, o senhor já falou bastante sobre isso, mas se existe uma diferença entre alimentar bem e formular ou prescrever corretamente uma dieta?

PAProf. Aulus Cavalieri

Essa é uma diferença enorme, porque o organismo ele busca calorias e isso controla a ingestão. Então eu vou matar a fome usando o termo popular, do animal quando ele comer calorias. Se ele comer só pão, amido, gordura, ele vai matar a fome dele, mas ele vai estar desnutrido. Algumas pessoas não entendem, mas se eu der só carne, também. A carne ela tem é musculatura, é uma parte do seu corpo só, né? Ah, o carnívoro come carne. Não, o carnívoro come um outro organismo inteiro.

Então quando a gente vai no mercado, eu vou encontrar só o tecido muscular, a carne de frango, de peixe, ou a carne bovina. Só que na natureza ele comeria o sistema nervoso, as vísceras, a pele, mastigaria os ossos. Então é muito comum as pessoas, principalmente filhotes, quererem melhorar a dieta deles e darem bastante carne para eles, misturada ou não com rações, eles chegarem aqui com as pernas frágeis, os ossos moles e com fraturas, porque não tem cálcio, não tem fósforo, não tem várias vitaminas que estão em outras partes do corpo.

A carne é só um tipo de tecido, né? Então é bem possível que a gente alimente, dê alimentos. Se esses alimentos eu der na quantidade que ele não tenha mais fome, ele vai parar de comer. Você vai ter uma sensação de que tá tudo bem, mas ele pode estar caminhando para uma profunda desnutrição. Então é completamente diferente alimentar de nutrir. E para que o animal seja nutrido, como que a gente trabalha cientificamente? Nós estimamos quantas calorias o organismo necessita.

Então esse cão, esse gato, ele precisa de 300, 1000 calorias. A fome dele vai interromper quando ele atingir o consumo de 1000 calorias. Então todos os 45 nutrientes que nós comentamos, eles têm que estar atrelados àquelas 1000 calorias que é o que ele come. E é por isso que quando a gente também oferece alimentos balanceados, tem que evitar excesso de petiscos. Toda indústria faz o alimento com sobras, principalmente se é um alimento prêmio, super prêmio.

Então a gente não precisa ser super radical, dá só ração e água. Você pode dar algum petisco, o problema é a quantidade. Se os petiscos, né, arroz, bife, pão com mortadela, se isso daí for a maior parte do que o animal come, ele vai interromper a fome sem atingir a ingestão dos demais nutrientes, né? Então esse é o conceito hoje que a gente trabalha na ciência da nutrição.

TRThaís Rocha

E aí tem uma outra questão que tem se fortalecido recentemente, que é essa projeção de um ideal humano sobre a nutrição, principalmente dos pets, né? Que são os animais que estão ali com a gente dentro de casa. Então como é que o senhor vê o crescimento dessa, além das dietas entre aspas naturais, caseiras, as dietas vegetarianas, veganas, livre de grãos, enfim, essas dietas que às vezes têm um apelo para pessoas, porque a gente vê inclusive seres humanos, a pessoa não é celíaca, mas evita comer glúten, a pessoa não tem intolerância à lactose, mas evita comer derivados do leite, por questões diversas, né? E como é que o senhor percebe isso com relação aos pets hoje em dia?

PAProf. Aulus Cavalieri

Um exemplo que eu posso dar para abrir essa questão é a questão do grain-free, sem grãos, né? Isso começou porque nos Estados Unidos as empresas captaram que alguns proprietários começaram a associar: bom, grão é uma coisa que eu dou para porco, galinha, não quero milho, né? Eu dou para porco, galinha, não quero dar para o meu cachorro. E aí algumas empresas captaram esse sentimento das pessoas, que é uma opinião, não é um fato, e transformaram numa solução de um produto.

Aparentemente pareceu bom, saíram vendendo rações grain-free. Só que essas formulações grain-free não foram estudadas cientificamente, foram aventuras, e elas começaram a dar nos Estados Unidos uma doença de coração dos cães, que é a cardiomiopatia dilatada, que era uma doença descrita em gatos por deficiência de um aminoácido chamado taurina. Começou-se todo um debate. No auge da crise, o Ministério da Agricultura, o FDA dos Estados Unidos, recomendou fortemente no site deles não dar mais essas rações.

Criou-se uma crise, e aí as pessoas corrigiram as fórmulas e viram que o problema não era ser com grão ou sem grão, era que elas não foram bem feitas, porque não se conhecia aquelas matérias-primas de forma adequada. E hoje nós temos rações com grãos, rações grãos-free, sem grãos, mas todas hoje já conseguem ser adequadamente formuladas. Então isso mostra como que uma decisão baseada numa falsa evidência, porque não tinha respaldo científico, às vezes é desastrosa, né?

E por que surgem essas situações. Porque a nutrição, pessoal, é uma, é um hábito cultural. A gente não come só para se alimentar, a gente não é robô, a gente come culturalmente. Toda festa tem a sua comida. Agora teve a festa junina, tem a comida. Na Páscoa, todas as festas. Então todas as comemorações, celebrações têm a sua comida. Você convida alguém para sua casa, Pelo menos um copo d'água, né, você tem que dar alguma coisa pra pessoa.

Então as pessoas, quando os cães e gatos começaram a ficar dentro de casa cada vez mais, quiseram naturalmente, isso eu entendo como um processo natural, transferir pra eles valores culturais e éticos delas. Eu sinto um pouco mais confortável em falar nisso porque eu sou vegetariano, como eu falei, há mais de 30, 35 anos. Agora, eu tenho os meus valores culturais de não comer carne. Agora, minha cachorra adora, quando ela consegue, ela mata uma pomba.

Ontem mesmo eu tirei um filhotinho de pomba da boca dela, ainda tava vivo, coitadinho. Aí eu tentei pôr no ninho. Ela não partilha comigo as minhas opções culturais. Então eu penso que, dentro do respeito, eu deveria respeitar o animal como ele é. Esse é o meu ponto de vista. Agora, tecnicamente, eu consigo fazer uma ração vegetariana para cães? Consigo. Haverá uma vantagem? Não. Ela vai ser pior ou no máximo igual. Melhor? Impossível.

Porque o hábito natural fisiológico dele é comer carne. Para gatos é muito mais difícil, muito mais difícil. Existem alguns nutrientes que seria muito difícil você encontrar. Então não teria para eles nenhuma vantagem. E então eu penso que são essas, essas situações, né, e que nos cabe orientar esses proprietários, esses responsáveis, né, pelos animais, que é fundamental, se a gente realmente respeita e gosta deles, respeitar a fisiologia, as necessidades deles, e tomar um pouco de cuidado quando a gente faz a extrapolação das nossas aspectos culturais, filosóficos e alimentar, quando chegam na questão alimentar, para eles, sabe? Eu coloco esse alerta assim.

TRThaís Rocha

É porque tem essa questão, né? Eu acho que por mais que a intenção seja a melhor possível, ela precisa ter um embasamento, porque às vezes na nossa melhor intenção a gente prejudica a vida daquele animal que a gente tanto preza. Então é uma dicotomia, né? A gente tem um antagonismo ali de situações.

PAProf. Aulus Cavalieri

Então eu penso isso, né? Houve um período onde as pessoas passaram a não chamar o animal de— a pessoa de proprietário, mas de tutor, né? Eu nunca tive essa postura, sempre chamei de proprietário. E agora o Conselho Federal recomenda responsável, porque as pessoas se consideravam tutor, elas tinham dificuldade às vezes de disciplinar o animal que tinha uma atitude ruim, por exemplo, de brigar, de não sei o quê. Mas ao mesmo tempo elas impunham a eles coisas que eles absolutamente não queriam.

Qualquer cachorro vegetariano, se a gente der uma carninha mal passada ali, não tem dúvida que ele vai querer. Então veja como é complicado e como que nós devemos trabalhar. Esse é o meu ponto de vista. Mas do ponto de vista técnico, é possível fazer uma formulação vegetariana para cães. Que seja nutricionalmente completa. A vantagem disso é que a gente precisa pensar para o animal, para o meio ambiente, se esse valor cultural para ele é válido. Cada um decide, né?

TRThaís Rocha

Sim. E professor, considerando médicos veterinários que desejem atuar na área de nutrição, o que o senhor considera indispensável para uma atuação séria, bem embasada e bem coerente e ética? Dentro dessa área?

PAProf. Aulus Cavalieri

A nutrição, ela, como qualquer área da veterinária, ela depende de muitos anos de treinamento. Então essa pessoa, ela tem que se dedicar bastante aos fundamentos: fisiologia, bioquímica, e ao curso de nutrição básica. E o que eu vejo é que muitas vezes a pessoa pula para o fim. Então já quero entender ração, fazer a formulação, aí ela tem um software que apoia ela, mas no fundo, se você questionar sobre os nutrientes, ela não os conhece, qual é o metabolismo, como eles participam nas respostas fisiológicas.

Então pula pro fim. Eu acho que a gente tem que criar uma base sólida bem grande. O interesse tem aumentado demais e a gente mede isso não subjetivamente, que seria uma opinião, objetivamente, porque nunca teve tantos cursos de pós-graduação lato sensu em nutrição. Deve ter uns 5 no Brasil ou mais. Então existem uma população muito grande de pessoas hoje reconhecendo que na graduação não foi possível, né, eu ter essa base, eu quero ter essa base e praticar essa base.

E as pessoas têm reconhecido a necessidade dessa especialidade de diferentes formas, tanto integrando nutricionistas em grandes hospitais ou clínicas que são complexas, que têm muita especialidades, mas ainda é um trabalho inicial. A gente vê muitas UTIs, muitas internações que não tem nutricionista. Acho que é esmagadora maioria, são uma ou outra que tem. E dentro do Hospital Humano, por exemplo, tem a figura do nutricionista e nutrólogo.

Então você tem que dar um apoio, né, nessa parte. Eu vejo que a aceitação do mercado para contratação desses profissionais, ela ainda é delicada. Muitos têm acabado fazendo muita opção de dieta caseira, que eu não gosto de usar o termo natural porque ele não representa a realidade, tanto do ponto de vista evolutivo, né, dar arroz, batata cozida, cenoura não é natural para um carnívoro, quanto muitas vezes quando a gente põe suplementos eles têm conservantes, então não segue esse princípio, e também porque nós temos muitos alimentos comerciais que são naturalmente preservados, sem químico nenhum.

Então o natural serve para os dois, ou não, né? Mas então nós temos visto que muitas vezes o veterinário que quer especializar em nutrição, ele acaba ficando nesse cenário, que é um cenário restrito, sabe, que eu penso, e tá inflacionando isso daí, que são a venda dessas receitas, orientação das dietas caseiras, que não é necessário. Aqui no nosso serviço de nutrição clínica Nós já atuamos há 21 anos, 22 anos, e a maior parte das prescrições como nutrólogos que nós fazemos são com dietas comerciais.

E outro mercado que essas pessoas podem ocupar, e para isso elas devem se preparar, e eu vejo que o mestrado valoriza, às vezes o doutorado também, é a indústria. Porque a indústria brasileira, ela assumiu um bom protagonismo. Poucos países no mundo tem a indústria nacional tão forte quanto as grandes multinacionais. E o Brasil é único nesse aspecto. Não só a indústria nacional tem uma forte participação no mercado em vendas, como em soluções tecnológicas.

Então nós temos empresas nacionais que têm grupos de pesquisa e desenvolvimento interno, com pessoas com mestrado, doutorado, Elas fazem pesquisa e tem uma base técnica de produtos, principalmente os coadjuvantes, que são aqueles para animais doentes, muito respaldada técnica e cientificamente. Então a gente vê que o mercado está aberto, mas ele não cresce numa velocidade tão grande quanto de outras especialidades, até por ainda nós estarmos vendo, como você já perguntou, né, a importância da nutrição, mas é um conhecimento que vem ocorrendo.

E nós temos a pessoa que se dedica a isso, ela encontra oportunidades tanto na indústria quanto nessa atividade junto ao animal em clínicas e hospitais. Mas segundo, especialmente essa segunda parte, eu acho que ela tem crescido bem, de uma forma bem mais modesta. E eu imagino um potencial para ela grande, mas se vai se efetivar ou não A gente só vai ver com o tempo, né? Não sei prever isso.

TRThaís Rocha

Então, dentro dessa tendência de mercado, o senhor acredita, traçando um paralelo, né, do que acontece hoje com o que potencialmente poderia ser o futuro, os proprietários eles se veem convencidos a pagar por uma consulta nutricional especializada? O senhor acha que isso acaba sendo embutido dentro de um serviço mais completo e mais complexo?

PAProf. Aulus Cavalieri

Na maior parte das vezes está embutido. Mas em grandes centros onde nós temos pessoas que já têm muitas vezes um poder aquisitivo, uma maior concentração de pessoas com maior poder aquisitivo, nós já temos profissionais que vivem mesmo só de atendimentos nutricionais, que os proprietários os procuram. Só que geralmente quando as pessoas procuram esse tipo de suporte é que elas querem algo não usual. Se eu quero uma alimentação muito especial para o meu animal, mas eu pretendo usar soluções comerciais, é mais simples porque as soluções estão no mercado.

Quando eu quero uma dieta caseira ou meu animal tem uma doença muito, compromete o metabolismo muito, muito forte, por exemplo, doença renal, chante-parte sistêmico, que é uma doença hepática que causa, que necessita de uma dieta muito específica, urolitíase. Então aí ele procura o veterinário. Ainda nós temos uma necessidade de mostrar benefícios de se procurar mais a orientação veterinária. Por exemplo, em alguns países a gente sabe que é bastante comum quando você adquire um filhote você fazer a puericultura, acompanhar o crescimento junto a um profissional.

Aqui no Brasil isso é bem mais difícil de ocorrer ainda. Ocorre, mas é bem pouco, né, uma porcentagem pequena dos filhotes. Então todos esses são aspectos que eu tô, né, trazendo, que mostra que o mercado, por mais que ele cresceu, ele ainda é imaturo. É nesse sentido que eu digo que há potencial de ampliar a absorção de profissionais nutrólogos, nutricionistas, mas é um caminho que a gente precisa ver como ele vai se trilhar.

TRThaís Rocha

E aí, considerando que a gente tem essas duas extremidades, né? A gente tem os animais jovens, que você falou que internacionalmente já existe um acompanhamento médico veterinário, mas a gente também tem a realidade do crescimento da geriatria, né? Com aumento do acompanhamento, diagnóstico precoce, qualidade de vida, esses pets ficando cada vez mais velhos dentro da nossa casa. Então o senhor acredita que esse envelhecimento dos animais, essa idade mais avançada, tende a tornar a nutrição ainda mais relevante?

PAProf. Aulus Cavalieri

Sim, eu acho que Todas as fases da vida onde você tem grandes mudanças, por exemplo, durante o crescimento ou durante a senectude, só que a senectude é uma mudança para o lado negativo, né, é muito importante o aspecto alimentar e o manejo de forma geral. E se a gente fizer uma conta simples, né, vamos imaginar que um cão viva pelo menos 16 anos, um gato vive também perto de 16 anos, Então ele é filhote 1 ano, depois ele é aí uns 10, 9 anos adulto, depois ele vai ser idoso quanto uns 4 a 6 anos.

Então a população primeira, sim, é manutenção. A segunda população é a de animais idosos. Essa é uma fatia muito grande do mercado e eles absorvem grande parte da prática veterinária porque a gente começa a ter mais doenças de modo geral quando tá idoso, todas as doenças, inclusive as nutricionais, né. Então sim, tem sido muito interesse, há muito interesse científico no entendimento dessas questões. Nosso laboratório trabalha com isso, metabolismo de proteína, de água, energia, com envelhecimento e imunidade também, né.

Eles têm um processo chamado imunossenescência e Inflamaging, que é uma o aumento da inflamação em relação à idade. E se aproxima muito da nutrição humana, das abordagens fisiológicas e metabólicas do ser humano também, que tem envelhecido cada vez mais e tem sido uma preocupação para a saúde pública, para as estruturas públicas de saúde. E eu acho que essa é uma área também onde as pessoas podem e deverão atuar bastante.

TRThaís Rocha

Empresas também têm soluções para isso, alimentos, Qual mensagem o senhor deixaria para as próximas gerações de médicos veterinários que estão em formação, que estão se formando, que estão chegando a esse mercado?

PAProf. Aulus Cavalieri

Acreditar na ciência. A humanidade saiu da Idade da Pedra pela ciência. Vou dar um exemplo para vocês. Existem estudos paleontológicos muito interessantes, inclusive tem uma pesquisadora da Unicamp, humana, que é um dos líderes nisso, que mostra que no momento que o homem dominou o fogo, ele conseguiu ampliar o leque do que ele comia. Coisas que crus você não conseguia comer, não conseguia comer muito, cozidas você conseguiu ampliar e ter um acesso de calorias e nutrientes muito grande.

Mesmo a carne, né, você não tinha como preservar aquilo, então quando você assava ela mesmo, você já melhorava até a qualidade sanitária dela, né. E existe uma coincidência enorme entre o domínio do do fogo e o hábito alimentar e o crescimento do cérebro. Então os hominídeos foram ficando com o cérebro mais amplo, porque o cérebro, pessoal, gasta muita energia. Mesmo que você fica no Netflix ali, ó, não quer nem prestar atenção em alguma coisa.

Então o que acontece, ao par de tudo isso, algumas pessoas, uma corrente inventou do crudismo. Não, não pode processar, tudo que é cru é natural, é melhor. Só que não é possível, pessoal. Então os hominídeos que desinventaram o fogo vieram até aqui. Se a gente for comer tudo cru, nós vamos ser igual gorila. O gorila é um animal enorme, tem uma barriga desse tamanho porque ele fica comendo folha, e ele come mais de 10 horas por dia porque ele não tem, ele não tem alimentos que tenham calorias suficientes para ele coma um pouco e use o tempo dele para fazer outras coisas.

Então, o cozimento, que foi algo, uma descoberta da humanidade, que tornou viável a sociedade hoje, as pessoas do nada falam: não, cozinhar faz mal, perde isso, perde aquilo, denatura isso, acaba com isso. Mas não é isso que nós estamos vendo, né? Nunca cães e gatos viveram tanto. Agora aumentou o câncer, por quê? Porque os organismos fisiológicos não tem essa longevidade programada pela natureza. Então eles começam a ter problema e o câncer é muito associado à idade.

E aí o pessoal fala, tá vendo, ração dá câncer. Não, a ração permitiu que o animal vivesse tanto tempo que ele surgiu câncer. Então é uma consequência, mas não da ração. A ração foi um lado positivo, mas é muito difícil as pessoas entenderem isso. Então o meu conselho para essas pessoas que foi o que você perguntou nesses dois exemplos que eu dei, é: entendam ciência, separem fato de opinião, baseiam-se na estrutura que nós criamos para o crescimento social.

Se nós não fizermos isso, vocês vão ser profissionais confusos, mal informados, que tentando agregar algo de bom poderão, sem o estar sabendo, trazer problemas. Esse é o meu conselho.

TRThaís Rocha

Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a profissão. Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papodeveterinaria e às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!

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