Quem cuida dos animais que fazem parte das pesquisas científicas?
O que acontece dentro de um biotério de animais aquáticos? Quem cuida desses animais e qual é o papel do médico-veterinário nesse ambiente?
Neste episódio do Papo de Veterinária, conversamos com Maria Alcina sobre uma área essencial para o avanço da ciência, mas ainda pouco conhecida por estudantes e profissionais: os biotérios de animais aquáticos.
Durante a entrevista, exploramos a rotina de trabalho nesses ambientes, os cuidados necessários para garantir a saúde e o bem-estar dos animais, os princípios éticos que orientam a pesquisa científica e a importância do médico-veterinário na produção de conhecimento de qualidade.
Também discutimos como os biotérios contribuem para pesquisas que impactam a saúde animal, a saúde humana, a conservação das espécies e o desenvolvimento de novas tecnologias, sempre respeitando os princípios do uso responsável de animais na ciência.
🎙️ Neste episódio você vai descobrir:
- O que é um biotério de animais aquáticos;
- Como funciona a rotina de manejo e monitoramento desses animais;
- Qual é o papel do médico-veterinário em instituições de pesquisa;
- Como o bem-estar animal influencia a qualidade dos estudos científicos;
- Quais oportunidades de carreira existem nessa área da Medicina Veterinária.
Se você é estudante, pesquisador ou médico-veterinário e quer conhecer uma área estratégica, multidisciplinar e em constante crescimento, este episódio vai ampliar sua visão sobre as possibilidades da profissão.
💬 Agora queremos ouvir você: você já conhecia o trabalho realizado em biotérios de animais aquáticos? Acredita que essa é uma área mais valorizada hoje do que há alguns anos? Compartilhe sua opinião nos comentários!
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Te encontro na próxima segunda-feira às 7h.
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Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/nqtLqFykiv0?si=5Xj_yhscUKCSv5W7
Thaís Rocha
Maria Alcina
- Carreira em Biotério AquáticoDesafios e particularidades · Manejo e pesquisa · Oportunidades de atuação
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- Hobbies e Estilo de Vida· SociedadeVôlei como hobby · Livro 'Uma Revolução Sutil' · Avatar · Inspiração em Paola Barato
Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. Hoje eu converso com a médica veterinária Maria Alcina Martins de Castro, profissional que atua com animais aquáticos em biotério e compartilha sua trajetória, os desafios da profissão e as particularidades de uma área ainda pouco conhecida por muitos estudantes da medicina veterinária.
Ao longo da entrevista, falamos sobre o papel do médico veterinário na pesquisa e no manejo de animais aquáticos, a importância do bem-estar animal, as oportunidades de atuação profissional e os conhecimentos necessários para quem deseja seguir esse caminho. Também exploramos curiosidades sobre espécies marinhas e discutimos como a medicina veterinária contribui para a saúde, conservação e o uso ético desses animais. Então seja muito bem-vinda, Maria Alcina.
Muito obrigada, é um prazer imenso estar aqui conversando um pouquinho da medicina veterinária, da medicina veterinária na área de aquicultura, na área com animais aquáticos. Um prazer imenso, Thaís, muito obrigada.
Então vamos começar falando um pouquinho de como foi a sua escolha pela medicina veterinária enquanto profissão.
Eu, na minha família, eu fui desbravadora. Eu desde pequenininha já sabia que eu tinha uma empatia um pouco exagerada por animais, Então, enquanto na minha família assim era comum colocar sal em sapo, isso há muito tempo atrás, eu ficava extremamente chocada de ver aquela cena. Aquilo me perturbava já pequenininha. E eu fui crescendo, eu sentia muita pena dos animais, do sofrimento dos animais, de ver a exploração que o ser humano fazia com os animais.
Eu não conseguia, eu não me sentia bem em zoológico, eu não me sentia bem de de ver algumas práticas que para outras pessoas era comum, era rotina, era cultural, e eu tinha muito desconforto de presenciar algumas cenas. Eu tinha desconforto de presenciar, de ver um peixe sendo fisgado por um anzol. Então eu achava que, olha, eu vou cuidar desses animais, eu vou tentar estudar e proteger eles para que eles não sofram. E assim eu fiz, fiz o curso de medicina veterinária.
Minha mãe queria que eu fosse médica de seres humanos. Eu já tinha passado na Universidade de Lages, né, no CAVE, para fazer veterinária, quando eu recebi a notícia que eu tinha passado em outro curso para medicina. Mas eu não queria medicina humana, eu queria medicina veterinária. Então eu sabia direitinho o que eu queria. Já pequenininha e levei aí para minha, para minha graduação, né, para minha escolha na graduação.
E durante o curso, como foi que você teve contato com essa área de aquicultura, de modo que isso acabou sendo a área principal de atuação para você hoje?
Durante o curso, o meu envolvimento com aquicultura foi zero, nenhum, em hipótese alguma. Em algum momento na minha graduação eu pensei em trabalhar com animais aquáticos, e principalmente com produção de proteína, produção de pescado. Na verdade, a inspeção de produtos de origem animal nunca me atraiu, então eu nunca pensei em trabalhar com o setor de agricultura. Eu, o meu foco na 4ª fase, quando eu entrei para medicina veterinária, eu tive contato com a disciplina de farmacologia.
E na disciplina, a professora ali foi a minha primeira inspiração, né? Eu adorava entender como é que os remédios funcionavam no corpo, independente se era um corpo de um ser humano ou se era um corpo de um animal. Então saber que existem receptores, que existem proteínas que os medicamentos, fármacos se ligam e que modificam a forma que as nossas células respondem, né, que ou agonizam ou antagonizam, aquilo, aquele mundo, aquele universo me fascinava.
Na quarta fase fase, assim como eu decidi ser veterinária muito cedo, na 4ª fase de veterinária eu decidi que eu seria professora de farmácia. E eu me aprofundei de tal forma, eu gostava, era um hobby para mim ler bula de medicamento. Eu adorava a disciplina, eu adorava, eu devorava os livros de farmácia. Eu fui monitora de anestesiologia sem ter feito a disciplina de anestesia, de tanto que eu estudava a parte de farmacologia do sistema nervoso central.
Aí eu ia para dentro do hospital, aprendi a fazer anestesia antes mesmo da disciplina. Então eu estava bem submersa e bem convicta que era aquilo que eu queria para mim e que me dava muito prazer. Pois bem, eu me formei, vim para Florianópolis porque eu fiz faculdade em Lages. Na época, em Santa Catarina, a nossa, o único curso de medicina veterinária, ele em Lages, era na nossa serra aqui que dá umas 3 horas, 3 horas e meia de Florianópolis, um lugar frio do lado de São Joaquim, de Urupema, frio, frio e chuva.
Mas quem queria fazer veterinária tinha que se deslocar até lá e morar lá. Então eu terminei a graduação assim, ó, não vou ficar aqui em Lages. O curso de veterinária em Lages, por ele estar, por ele ser lá, ele tinha uma tendência em puxar o interesse dos alunos para ruminantes, principalmente ruminantes, e a parte de equinos também. Reprodução de equinos lá é muito forte. Só que eu não me deixei seduzir por isso, eu queria ser professora de farmacologia.
Então eu retorno para Florianópolis junto dos meus pais e eu começo a acompanhar as disciplinas de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. Primeiro como aluna ouvinte, e depois eu percebo que eu tinha condições de fazer um mestrado, que lá em 2002 era um grande degrau você fazer um mestrado, era um grande desafio. E eu como veterinária fazer um mestrado de farmacologia voltado quase que exclusivamente para medicina humana, então eu não, eu vou encarar esse desafio.
Aí eu fiz o mestrado em farmacologia Escolhi a área de dor, que também eu sentia a proximidade com a medicina veterinária em estudar mecanismos de dor e entender como é que os analgésicos funcionavam e o descobrimento de novos analgésicos, enfim. Depois eu emendei um doutorado na mesma instituição e terminei o doutorado, eu já comecei a lecionar, voltei para Lages e fui professora na minha instituição, voltei para casa que me graduou E aí eu fui professora lá durante 6 semestres de farmacologia.
Durante esse período, uma amiga minha me avisou de um concurso que ia ter para UFSC, para ser veterinário da UFSC. A gente fala, né, aqui como servidor público dentro da universidade, que ou tem a carreira de professor, né, de servidor docente, e servidor técnico-administrativo, que é o profissional que vai trabalhar na sua área, né, de atuação. E eu já tava bem consolidada como professora, tava começando uma carreira de docente lá em Lages, já estruturando um laboratório para desenvolver pesquisa.
E me veio essa minha amiga, que eu falo que não é amiga, é um anjo, que me incentivou muito. Faz, porque em Florianópolis, ela dizia, eu sei que você gosta, você quer ser professora, mas faz. Aí é para tu trabalhar aqui perto do teu marido. Na época eu já estava casada, mais perto dos teus pais. E eu fiz o concurso e passei, mas passar é uma coisa, tomar posse é outra. E aí veio a grande primeira dúvida da minha vida em relação à profissão: bem, eu sigo a minha carreira de docência que tá no início, ou eu começo como veterinária lá na universidade, perto de casa, aquele conforto da família?
E aí eu optei pela família. Porque eu disse, olha, eu queria muito ser professora de farmácia, eu amo ser professora de farmácia, e eu fui, e tá bom. Agora eu quero ficar perto do meu marido, eu quero ficar perto da minha família, e se eu achar que tá me faltando alguma coisa, eu presto outro concurso para professora, por que não? E voltei para Florianópolis e fui ver qual era o meu trabalho aqui na universidade. E quando eu cheguei na universidade, eu me deparo com o seguinte cenário.
Olha, primeiro, antes disso, eu acreditava, eu não sabia com o que que eu ia trabalhar, mas eu acreditava fortemente que eu iria trabalhar com animais de pesquisa roedores, porque na minha época de pós-graduação, ali onde eu tava, eu era a única pós-graduanda veterinária. E naquela época ainda não tinha Lei Arouca, não tinha toda essa proteção com os animais, as exigências. E eu olhava aquele ambiente cercado por animais e eu perguntava: onde é que estão os veterinários?
E logo em seguida veio os comitês de ética, as SEUAs, né? Veio a Lei Arouca, exigência de ter um médico veterinário. Então, quando eu fui chamada para trabalhar na universidade, eu pensei que ia trabalhar no biotério, e eu tava bem tranquila porque eu trabalhei na minha pós-graduação com roedores. Então, assim, Nossa, eu tenho muito o que fazer lá na universidade, muito o que contribuir. E vim, mas para minha surpresa eu chego aqui e eu me deparo com o setor de animais aquáticos.
E aí a pergunta foi: então você até pode ir trabalhar no biotério, porque foram chamadas duas veterinárias. A primeira menina que foi chamada estava no setor de aquicultura Mas ela queria muito ir para o biotério, ela não estava se adaptando com a aquicultura. E aí a minha chefe na época disse, mas eu só vou liberar ela se você ficar conosco, porque senão, se você for para o biotério e ela também, a gente vai ficar sem um veterinário.
E o meu objetivo com a tua vaga aqui, a universidade precisa de um veterinário para que a gente consiga transformar o laboratório de diagnóstico de de patologia de animais aquáticos num laboratório de referência, e a gente só vai conseguir isso com médico veterinário. Aí eu, opa, quanta novidade! Eu topo, eu topo, vai ser bem desafiador, mas vamos, é uma construção, né? Isso em 2010, novíssimo para mim. Eu não tive contato nenhum na graduação e era a primeira vez que eu me via diante dessa oportunidade E eu agarrei e eu aceitei.
Eu acho interessante na sua fala que assim, né, se a gente começar desde quando você era criança, você já tinha esse olhar que não tinha esse nome na época para o bem-estar dos animais, né, para essa questão da dor, do abuso, né, de uma série de situações ali que eram muito mais comuns lá na época da nossa infância e que graças a Deus hoje já vem mudando bastante. Então a hora que você tava falando, eu falei, nossa, já faz um link com currículo assim, né, tipo uma coisa bem relacionada a outra.
Então, questão do meu bem-estar, né?
Sim.
Quando eu era criança, eu me senti extremamente desconfortável com certos usos dos seres humanos em relação aos animais. E eu ficava assim, será que eu sou diferente? Será que eu sou estranha? Porque todo mundo aceita as coisas, né? Engraçado essa tua fala, porque quando quem me convidou para trabalhar no setor foi a professora Aimée Magalhães, que é uma referência em molusco bivalve. É ela junto com o professor Jaime que é o esposo dela, trouxeram para Florianópolis toda a questão ligada à maricultura, a produção de ostra em lanterna.
Então ela era uma referência assim. Ela chegou para mim assim: então a gente quer transformar o laboratório no laboratório de referência, já que Florianópolis é o maior produtor de molusco bivalve, por que não nós não termos aqui em Florianópolis um laboratório também para dar esse suporte? Aí eu olhei para ela assim, olha, eu topo, mas eu não sei nada de peixe, eu não sei nada de molusco, e eu tenho pena deles, eu tenho muita pena de peixe, eu não consigo pescar peixe, eu não consigo, não gosto.
Eu resgatei aquele desconforto e eu já coloquei na mesa para ela, mas eu topo. Porque logo em seguida vem uma frase da Temple Grandin que ela fala, né? Que por que que ela, sendo ela uma defensora da causa animal, do bem-estar animal, ela trabalhava justamente na indústria da carne? E logo me veio isso na cabeça assim: bem, eu não suporto, né, me dá um desconforto de ver peixe sendo pescado, animal sendo produzido de maneira muito exploratória dessa forma.
Mas já que eu tenho esse desconforto, o que eu puder fazer para dar uma boa vida para eles, eu vou fazer. E eu comecei assim, com isso na cabeça: eu não sei como é que eu vou fazer, mas eu vou seguir o que eu tenho aqui dentro, sabe?
E assim, se a gente parar para pensar, na própria faculdade de veterinária a gente tem muito pouco contato com animais aquáticos de uma maneira geral, exceto naquelas instituições em que essa área é muito forte. Aí o aluno de veterinária às vezes tem até como opção fazer uma disciplina optativa, né? Muitas vezes não tá nem na grade regular do curso. E é engraçado porque o outro papo que eu tive sobre a parte de biotério, a veterinária teve exatamente essa experiência.
Só que no caso dela, ela achou que ia trabalhar com roedores e chegou lá e trabalhou com pombo, que mal ou bem pelo menos é um animal de sangue quente, né? E aí você vai, faz todo um mestrado, um doutorado em farmacologia, e a gente sabe a interferência, por exemplo, que a temperatura corporal do animal e o metabolismo tem sobre a de fármacos. Então assim, é quase como se você tivesse que ir para a estaca zero, digamos assim, para ver como trabalhar com espécies que têm toda a sua fisiologia muito diferente do que a gente está habituado a ver na faculdade, né?
Então você pega um animal aquático, né, enfim, temperatura corporal diferente, metabolismo diferente, e molusco então muito mais distante da gente até do que o peixe, né? E é interessante porque tem essas questões de percepção inclusive, Que para a gente, como acho que biologicamente são espécies distantes, eu até conversei sobre isso com Santiago Roussin, que eu falei, eu acho que é mais difícil a pessoa às vezes ter esse olhar para necessidade de bem-estar de um peixe, já que olhando para o peixe a gente muitas vezes não consegue saber se ele tá com dor, se ele tá triste, se ele tá deprimido, se ele, né, a gente não consegue ter essa informação muito palpável, a não ser a pessoa que já direcionou um pouco mais para esse nível de conhecimento assim do que que a gente é capaz de inferir sobre aquele animal com base numa inspeção, né?
E molusco, então, gente, não faço ideia. Então acho que é interessante isso, né? Essa questão de topar o desafio e de, ao invés de se sentir desestimulada pelas coisas acontecerem de uma maneira com a qual você não concorda, você se propor a ser o agente de mudança daquele cenário.
Sim, mesmo não sabendo por onde começar e como fazer, mas eu vi assim, não, então eu avisei, eu avisei eles, assim, eu não sei, mas Mas eu topo, sim, eu vou ficar com essa área e eu ajudo vocês no que for preciso, né? Mas lá já pensando o que que eu posso fazer para tornar isso diferente.
E aí, considerando então o que você adquiriu de experiência nesse período, né, se você tivesse que resumir a sua área de trabalho em 4 pilares, quais seriam esses pilares?
Primeiro pilar para trabalhar com animais aquáticos, com peixes, é a biologia. Eu acho que é o pilar que tem que estar muito sólido, porque a gente trabalha com animais. Vamos falar em peixes, dando exemplo de peixes. Peixes é um grupo. Dentro desse grupo existem milhares de espécies. Então tu saber como é que essas espécies, cada espécie sobrevive no ambiente Se é temperatura de 26, se é temperatura de 27, se é temperatura mais fria na água, se é uma água dura, se é uma água mais mole, como é que é o tipo de reprodução, como é que é o tipo de alimentação, se eles são carnívoros, se eles conseguem se alimentar de outra fonte de proteína.
Então tu tem que saber muito da biologia, do comportamento desse animal. Então, ah, na natureza ele fica só no fundo. Aí eu trago ele para um ambiente controlado e eu quero que ele suba para comer a ração na superfície da água. É estranho. E a gente daí começa a achar, ah, é a ração que não tá funcionando, é o peixe que tá com problema, o peixe que tá doente, que tá lá no fundo. Não, é apenas o comportamento dele. Então o conhecimento, quanto mais você conseguir saber sobre a biologia daquela espécie, esse, ela já te coloca na frente de entender o que que ele precisa, quais são as necessidades dele para ele sobreviver.
E aí, se você vai se aprofundando em outros pilares, aí você já consegue ir aumentando um pouco o nível até de bem-estar dele, né? E que às vezes não dá para aumentar muito. Eu costumo dizer que ser humano tem essa facilidade de buscar os animais e prendê-los e usá-los da maneira que ele acha que ele precisa, seja para produção de proteína animal para consumo, seja para entretenimento, seja ou na pesca ou com aquário. Hoje é tão agradável, as pessoas se sentem bem quando é para um ambiente hospitalar, um consultório, tem um aquário lá, se sentem calmas, isso faz bem, enfim.
Então o ser humano ele gosta e pratica isso, ele traz o animal do ambiente natural e leva para o cativeiro. Que é um cativeiro. E o animal no cativeiro, ele vai estar sempre perto de adoecer porque ele nunca tá naquele ambiente ideal. Não é o— não que na natureza ele não adoeça, ele adoece, ele fica, ele pode até viver menos na natureza, mas a vida que ele tem na natureza é a vida ótima dele, é tudo que ele precisa. E no cativeiro não.
Então saber biologia é trazer esses detalhes da natureza para o cultivo, para o cativeiro. Essa palavra cativeiro às vezes ela é forte, né? Ela dá uma que nós somos muito perversos como cuidadores de animais, mas é realmente a palavra. A gente aprisiona os animais, seja um sistema de cultivo intensivo, que eles estão extremamente densos, ou mesmo num aquário minúsculo, numa beteira minúscula que se coloca um betinha ali naquele ambiente extremamente apertado para ele, sem movimento suficiente para ele explorar as capacidades dele.
Então, biologia, primeiro pilar. Segundo pilar, aí eu trago bem forte a fisiologia, saber como que esse organismo funciona, como que os olhos que não tem pálpebras funcionam, como que o ouvido de um peixe que não tem orelha, do animal que não tem orelha, funciona, ou como é que ele respira. Ele não, ele não capta o oxigênio. Alguns sim, né, tem alguns peixes que captam, mas a grande maioria das espécies, então saber como funciona esse esse organismo já te ajuda para outras grandes áreas, né?
Vai te ajudar para área de clínica, de semiologia, vai te ajudar para área de farmacologia. Então, se eu sei os sinais, eu sei o órgão que tá envolvido, ou eu já sei quais são transmissores que estão envolvidos, quais são os fármacos que eu posso utilizar. Então, a fisiologia Ela é uma ciência básica, mas de básica ela não tem nada, ela é importantíssima. Outro pilar é o bem-estar animal. Então o bem-estar ele te ajuda na tomada de decisão, seja quando você vai decidir por um tratamento, qual o melhor tratamento para aquele animal, que é possível, lógico, dentro das condições que se tem financeiramente, de estrutura, Se é uma medicina populacional, se é uma medicina de um animal só.
O bem-estar, ele direciona: não, esse é o momento de tratar. Não, esse, o animal está bem, não é interessante alterar a homeostase dele, ele está bem, embora ele tenha uma condição, ele está bem. Ou então, eu tô trabalhando com aquicultura, favorecer, né, as condições mínimas para esse animal sobreviver bem, desde o início de uma larvicultura até uma eutanásia muito bem feita. Então o bem-estar, ele é um pilar importantíssimo para a gente ter um resultado mais limpo, tanto para aquicultura, que eu vou ter um pescado de qualidade, uma proteína de um animal que não sofreu, quanto para o indivíduo.
Se você olhar o peixe como um animal que você está tratando como um pet, e você consegue garantir que ele viva melhor, que ele tenha qualidade de vida com tratamento que você aplica. Então biologia, é fisiologia, bem-estar. E para quem quer trabalhar com animais aquáticos, sanidade é muito forte, muito forte. Então tem que estudar muito, aprender muito sobre sanidade aí, doenças infecciosas, doenças não infecciosas. E aí eu junto esses dois eixos com qualidade de água.
O nosso animal, ele tá no meio aquático aonde ele se alimenta, aonde ele urina, aonde ele defeca, aonde ele libera substâncias químicas para se comunicar com os outros indivíduos. Então você entender daquele meio aquático, em algumas situações, é muito mais importante do que até encostar no animal. Então, antes de encostar no peixe ou no camarão ou no molusco, aquele ambiente aquático, universo aquático, é um universo que você precisa entender, você precisa conhecer o que que tem agora nesse universo.
E talvez isso esteja ocasionando os sinais ali, o comportamento, a doença, a lesão, a bacteriose. Que o animal tá se manifestando. Então são esses 4 grandes pilares, né?
Se a gente pensar, né, que geralmente existe uma visão social sobre a medicina veterinária, então a minha experiência, acho que a experiência da grande maioria dos médicos veterinários, é que qualquer ambiente social que te perguntem: oi, tudo bem? Prazer, o que você faz? E você diz: eu sou médica veterinária. Logo vem a história de um cachorro com otite, com uma coceira, um gato com uma pereba. Então a pessoa imediatamente relaciona a gente com saúde animal, principalmente de pet.
Então como é que é nessa sua vivência, né, você explicar para as pessoas o que é que você faz no seu trabalho, já que a maioria das pessoas não entende o trabalho que você faz como um trabalho do médico veterinário? Ah, trabalha no laboratório com animais aquáticos e tal. E para muitas pessoas isso é muito abstrato.
Isso, eu acho que antes da minha atuação, da minha profissão, realmente o pessoal já liga medicina veterinária com cachorro e gato aqui em Florianópolis, é bem comum. Mas antes disso ainda, eu carrego uma necessidade como universidade federal de mostrar para as pessoas o que que a gente faz, porque é uma instituição gratuita que sobrevive com recurso público. Então a gente tem que devolver para quem tá investindo, que são as, que a sociedade O que que a gente faz?
Por que que a gente trabalha nessa instituição? O que que a gente tá fazendo para receber por isso? Aí eu falo, eu tento fazer uma linguagem que alcance de uma maneira muito fluida. Então eu começo pela minha família, porque às vezes a gente trabalha e a própria família não sabe em que que você trabalha, teus primos não sabem. E aí eu começo dizendo, olha, eu trabalho com animais dentro da UFSC. Eu sou veterinária da Universidade Federal de Santa Catarina e hoje nós temos um quadro de 12 ou 13 veterinários aqui.
Eu fico com a parte de animais aquáticos. Pronto, eu começo assim: ai, mas na universidade tem animais aquáticos? Tem curso de veterinária? Eu assim: olha, tem curso de veterinária, mas é em outro campus. Mas eu não tô, não estou no curso de veterinária, eu trabalho num departamento que tá capacitando, formando alunos para serem engenheiros de aquicultura, para trabalharem nessa área de aquicultura. Mas mais ainda, eu trabalho com, principalmente com peixes.
Aí o pessoal pergunta: com peixe na UFSC? Um veterinário, mas ainda não entendi. Eu assim: ah, é bem fácil a gente entender. Olha só, se a gente falar de peixe, vocês lembram de pesca. Aqui em Florianópolis é bem comum, é uma tradição falar em tainha, né? Agora estamos inclusive na safra da tainha, né? Aqui em Florianópolis a gente não tem as estações do ano, a gente tem verão, outono, temos a safra da tainha e temos a primavera.
Aí eu falo, a tainha, por exemplo, ela existe inclusive cotas porque existe uma ameaça de de ocorrer um possível número dos estoques naturais. Então, o que que a universidade faz? A universidade estuda uma forma de produzir esse animal no ambiente controlado para que a gente tenha tainha sem precisar estar pescando, extrapolando as reservas que a natureza oferece. Ou então, ah, um determinado rio tem algum peixe nativo que tá sendo ameaçado de extinção, ora por uma instalação de uma hidrelétrica, ora pelos impactos que a gente tá sofrendo com as alterações climáticas.
Que que a universidade faz? Então vamos estudar esse peixe, vamos trazer para universidade, vamos ver uma forma de reproduzir esse peixe e devolver esses animais para o meio ambiente. E aí eu tô lá para cuidar que esses animais, enquanto fiquem na universidade, fiquem bem cuidados. Se ficarem doentes, eu cuido. Se tiver uma forma de melhorar essa pesquisa, a gente entra com alguma sugestão. Se tiver uma forma da medicina veterinária também correr junto nessas pesquisas, trazer tecnologia, trazer algum sistema inovador, eu também tento achar essas ligações.
E aí eu tento me fazer entender essas ligações de cultura da tainha, outros peixes, cavalo-marinho. Cavalo-marinho sempre funciona. É, o cavalo-marinho ameaçado de extinção, e ele é um animal que a universidade tem projetos de conservação. Então a gente estuda o cavalinho para saber o que que ele precisa para a gente poder, quem sabe um dia, devolver para os nossos mares aí bastante filhotinhos e que eles cresçam e repovoem bastante no mar, né?
Então cavalo-marinho sempre funciona, e a tainha aqui para o nosso Fora Metropolitano também sempre funciona.
E aí, pensando que toda área de trabalho tem alguns mitos, né? Então às vezes as pessoas acreditam que a coisa funciona de uma determinada maneira e talvez até antes de você começar a trabalhar com peixes em biotério você também tivesse um pouco dessa percepção, digamos assim, deturpada, né? Porque a gente não tem vivência, não sabe, não passou por aquilo. O que que seriam mitos da sua área de trabalho que você gostaria assim de derrubar?
O primeiro grande mito: que peixe não é um animal senciente, né? Que peixe não tem memória, E aí eu vou fazer uma fala que a Disney não vai gostar muito, né? A Disney não ajuda muito nessa questão, né? Quando a gente tem um filme que mostra que a Dory tem uma memória de 3 segundos. Então assim, a criança é apaixonada por um filme que o peixinho não tem memória. Então ela cresce acreditando que o peixinho não tem memória. Que o peixinho não tem.
A gente come, né? A gente já fez uma fala ali que é um alimento, é um animal que a gente tá diante de uma proteína que serve de alimento. Então a gente faz essa disrupção, a gente separa. Uma coisa é meu alimento, outra coisa é sentir, ter emoções. Não, o que eu me alimento não tem emoções. Eu não tô escutando, eu não escuto. O animal não tem pálpebra para piscar, ou testa para franzir quando tá com dor. E é um animal que sente dor.
Então o maior mito nessa área de aquáticos é que o peixe não é um animal senciente, que ele não tem sentimentos, que ele não tem emoções, que ele é desprovido de sensações. E muito também atrelado, né, então a cultura, filmes, a pesca, alimentação. Então é difícil quebrar isso. Mas a ciência vem cada vez mais trazendo dados e cada vez mais batendo nessa tecla. A gente aqui no Brasil ainda, a gente tá deficiente na nossa legislação em relação a isso.
Isso também prejudica, sabe, Thaís? Porque se a gente tem uma lei que rege a forma como produzir os animais e a forma como abatê-los, conservá-los, a linha de peixe, de aquáticos, o pescado, ele precisa ser melhor interpretado nessa questão de sem ciência. A nossa legislação ainda ela é fraca, mas a ciência tá batendo ali na tecla e tá dizendo, ó, tem que mudar isso, tem que mudar com essa visão. Olha, cuidar do animal por esse ângulo de entender que ele é um animal que tem emoções, a forma como ele é abatido para produção de proteína ela precisa ser revista, porque essa proteína vai ser de outra qualidade.
Por isso que é um mito tão grande, porque ela tem muita— esse mito tem muita força. Parece que a gente tá ali com martelinho lá no início ainda, né? Mas já se fala. Outro mito também que eu me deparei com isso, hoje nem tanto, nem tanto, mas me deparei muito, muito, que veterinário não sabe de peixe. E veterinário, por não ter visto nada na sua formação, na sua grade curricular, quem sabe ali 6 meses de aquicultura, como você bem disse assim, exceto aqueles cursos que têm um departamento, né, um curso de aquicultura muito forte que acaba trazendo os alunos de medicina veterinária para fazer estágios, pesquisas.
A grande maioria dos cursos de veterinária não traz isso na grade, mas isso não tira a capacitação de um médico veterinário de atuar na verdade, atuar em qualquer área. Porque o curso de medicina veterinária, como outros cursos numa faculdade, eles não vão trazer todas as disciplinas e todas as áreas, explorar todas as áreas de maneira tão mastigada. Não, não seria possível. O que um curso faz é mostrar para o aluno, para aquela pessoa que tá em formação, que ele tem condições de se capacitar, que existem as disciplinas básicas, os caminhos básicos que a partir dali ele vai ter condições sozinho de buscar o conhecimento, as informações.
Então o fato da gente não ter na grade, ah, eu não trabalhei com peixes, né, não estudei peixes. Isso me assustou no primeiro convite, né, com a professora, mas em muito pouco tempo eu percebi, não, espera aí, mas eu consigo estudar a fisiologia de animais aquáticos porque eu tive uma fisiologia básica. Eu sei como funciona uma troca gasosa, eu sei como funciona a produção de ácido clorídrico, então eu vou só ver como que funciona nessa espécie que eu tô trabalhando.
Eu vou ver como é que funciona uma bexiga natatória, porque eu não vi bexiga natatória na minha graduação. Para que que ela serve? Ah, é importantíssimo para o animal aumentar ou diminuir a pressão e se deslocar na coluna d'água. Então eu só preciso ver como que isso funciona. Como que é essa física, não é? Então, um mito que a gente derruba fácil, fácil. É só a gente mostrar trabalho, envolvimento, paixão. E é muito interessante porque o setor que eu trabalho, eu presto serviço para um setor de aquicultura, que a grande maioria são engenheiros de aquicultura, tem zootecnistas, tem uns biólogos.
Oceanografia, né, alguém formado em oceanografia. E o que que eu percebi rapidinho? Que a medicina veterinária, ela tava trazendo para o setor aspectos bem diferentes, tava trazendo aspectos, era um outro olhar, é aquela, é uma forma de agregar informação, de trazer um ponto de vista diferente, ou que às vezes as pessoas não olhavam Isso, né, desconheciam uma possibilidade terapêutica diferente, uma possibilidade diagnóstica diferente.
Então eu via exatamente ao contrário, eu via como a veterinária poderia contribuir para essa área de animais aquáticos, seja de cultivo, seja de conservação, seja de clínica médica em aquários, em pets. Então mito derrubado, e a gente precisa derrubar se isso ainda aparecer. E outra coisa, puxando ainda um pouquinho mais de sardinha para o que eu faço, é que se a gente pensar assim, ó, vamos fechar os olhos e imaginar um pesquisador num laboratório de pesquisa trabalhando com animal de pesquisa.
A gente imagina um senhor parecido com Einstein mexendo num ratinho. Peixe também é animal de pesquisa, animal. A partir do momento que eu estou dentro de uma instituição E dependendo da pergunta que eu quero investigar, o meu modelo pode ser um peixe. E aí a gente tem no Brasil o crescimento maravilhoso do uso de zebrafish para desenvolvimento de fármacos, para estudo de doenças, desde doenças neurodegenerativas, Parkinson, Alzheimer, com câncer, doenças genéticas, Então o peixe, ele é um excelente modelo de pesquisa.
Outra área interessantíssima para o médico veterinário atuar, com peixes utilizados em pesquisa, pesquisa biomédica. Mas eu, quando eu falo, falei ainda pouco de cavalo-marinho. Aquele cavalo-marinho que a gente tá avaliando se ele prefere um alimento A ou um alimento B, ou se ele prefere colocar uma correntinha para ele se fixar, ou se ele prefere um arbusto. Ele tá sendo testado, ele tá sendo avaliado, ele também é um animal de pesquisa.
E por que que eu trago isso como mito? Porque às vezes o próprio pós-graduando, o próprio pesquisador, professor, não vê aquele animal como um animal de pesquisa. Eles falam: animal de pesquisa? É, ele é um animal de pesquisa, é um peixe. Mesmo aquele lá que trabalha com a tainha, que tá tentando reproduzir ela em cativeiro, a tainha ali é um animal de pesquisa, certo? Eu acho que são, no que eu trabalho, são 3 mitos que ou todos os dias ou uma vez por semana eu tenho que falar alguma coisa sobre isso.
A parte de dor é toda semana, né? Toda semana dizer: não, o teu animal pode estar com dor. Não, esse peixe pode estar assim porque ele tá com dor.
É, e assim, é uma área que a gente acaba infelizmente tendo pouco contato, mas é o que você disse, né? Eu acho que a medicina veterinária fornece uma base muito sólida para a partir daí a gente poder desenrolar, né, as nossas gavetinhas em qualquer momento. E fica mais fácil esse acesso, né, essa interpretação da informação a partir da formação básica que você teve. Então eu acho que às vezes é muito conflituoso para o aluno que entra no curso Essa questão do ciclo básico, porque a pessoa entra na expectativa de saber tratar uma sinomose na primeira semana de veterinária, e aí ela lida com uma bancada cheia de ossos e um microscópio cheio de células na histologia, e talvez uma citologia e uma biologia, né, celular.
E aí fica um pouco, é um pouco frustrante às vezes para o aluno esse início de curso, porque essas disciplinas geralmente não oferecem para ele aquilo que ele imaginou que o médico veterinário é, que faz. E na realidade, eu acho que principalmente para mim, pelo menos, né, a fisiologia e a farmacologia eram disciplinas fantásticas assim. Eu tive esse mesmo encantamento que você com a farmácia. Eu falei, gente, que incrível saber que funciona receptor e tal, como é que esse mecanismo.
Então é algo que é muito interessante assim. E eu acho que tem não só muito campo para descobrir, né, como também essa enorme possibilidade de médicos veterinários eventualmente entrarem no curso voltados para essa área, porque todas as áreas de interseção de pesquisa médica, elas são áreas em que as pessoas podem ir muito bem, né? Então eu acho que a gente já teve vários papos assim com cardiologistas, pessoas que trabalham com peixe também, essa questão do zebrafish, que às vezes a gente não tem muito essa visão.
No fundo, no fundo, a gente não tem coragem de dizer, mas todo mundo faz 5 anos de faculdade e quer ganhar dinheiro. Né? A gente quer, a gente quer ganhar dinheiro suficiente, pagar nossas contas e ter uma certa tranquilidade. E às vezes essas áreas não são vistas com tanto glamour, e na realidade você pode estar trabalhando em projetos extremamente importantes que vão ajudar no desenvolvimento de soluções para doenças que acometem milhões de pessoas.
Me arrepiou, Thaís! É bem isso, é bem isso. Quando eu fiz o meu mestrado, que eu olhava aqueles ratos assim e ratos que não estavam bem fisicamente. Eu dizia, gente, por que que não é o veterinário que tá desenvolvendo essas pesquisas? Porque primeiro que o animal ia estar melhor, mas eu, é o veterinário que precisa estar aqui. Veterinário precisa estar fazendo pesquisa, ele precisa. Então tem que ter mais veterinário nas bancadas estudando.
Olha, tu fala, fez uma fala agora que me arrepiou, é bem isso. Em relação à profissão, hoje um veterinário de biotério, né, de animais que são usados na pesquisa, nas nossas instituições públicas eles não ganham mal. É uma carreira muito boa, uma carreira sólida e muito boa. Então quem já tem uma certa afinidade na graduação e quiser se aprofundar já na graduação Eu acho que financeiramente vale muito a pena, vale mesmo. Não vai ter um glamour de um cirurgião, veterinário cirurgião, ou um veterinário que atende os cavalos lá no Catar, né, em termos de status, mas vai ter uma vida tranquila, dá para viver bem sim.
Eu nem sei se tu ia me perguntar isso, mas eu acho que, como tu falou, a gente não pode achar que a gente tem que fazer só o que a gente ama. A gente tem que sempre colocar na balança também se dá para viver daquilo, né? Sim. E veterinário de biotério é uma profissão que hoje no Brasil ela ainda vai crescer mais, mas ela paga bem, é uma profissão que vale a pena.
É isso, linka com a nossa próxima pergunta, que é sobre mercado de trabalho, né? Que quando você falou, né, aí eu comecei como professora, depois eu passei no concurso para técnica, e fica naquela dúvida. Mas muita gente não tem essa percepção, e eu inclusive no início da minha carreira eu recebi isso como dica de um colega. Ele falou, Thaís, faz concurso para técnico, porque se você gosta muito da prática profissional, o técnico chega, faz o trabalho dele e vai para casa.
O professor trabalha antes, durante, depois, aí tem que fazer gestão, tem que fazer projeto, tem que pedir dinheiro, tem que dar aula, né, para graduação, para pós-graduação. Então assim, é muito mais do que o dar aula, tem muitas outras coisas que às vezes a gente não gosta tanto assim de fazer, não tem tanta afinidade. Às vezes, ah, eu queria fazer isso aqui, mas, né, dentro de uma instituição pública, por exemplo, a gente não tem muito como dizer, ah, simplesmente não farei, né?
Existe todo um departamento, toda uma equipe ali que precisa que você bote certas coisas ali para funcionar. Então assim, tem um pouco dessa diferença, né? E até em termos, às vezes dependendo da instituição, de progressão de carreira, o técnico alcança patamares maiores com, não vou dizer que mais facilidade assim, mas mais rápido, né? Porque são outras exigências e o trabalho dele gera outros frutos, né? Diferente do trabalho do professor.
E acaba sendo uma questão que deve ser analisada assim, né? Eu tenho colegas próximas, né, que entraram esse cargo de responsáveis técnicos por setores e tal. E é um trabalho que assim, todo mundo que eu conheço que faz ama muito, né?
A minha decisão de largar, né, de largar a UDESC como professora e vir para a UFSC para ser servidora técnica, pesou isso. Nossa, mas eu tenho toda uma carreira de professora que eu tô começando. E aí eu pensei, mas eu vou ver o salário era interessante, na minha casa, Florianópolis, que não é nada mal, com os meus pais, com meu marido. Eu viajava muito, então isso me atraiu. Então trabalhar como responsável técnico em biotérios com animais aquáticos tá crescendo, assim como as pesquisas com zebrafish.
Não só zebrafish, porque a gente tem lambaria, a gente tem tilápia, a gente tem diversos peixes hoje. Sendo utilizado para pesquisa biomédica, além dos peixes usados, né, não só biomédica, né, o zebrafish também para ecotoxicologia. Zebrafish dá uma aula, uma hora só falando dele, e olhe lá, não dá mais. Mas tem toda essa questão de outros peixes que a gente estuda, né, para conservação, enfim. Então é uma área que tem essa demanda que é responsabilidade técnica de biotério, trabalhar com animais aquáticos aí diretamente com o setor de aquicultura, que a responsabilidade técnica através do Conselho, né, Federal de Medicina Veterinária é atribuída ou ao médico veterinário ou ao zootecnista.
Então tem uma área também aberta para o médico veterinário ainda, ela ainda tá numa fase mais que precisa ser melhor trabalhada, porque o aquicultor, a pessoa que produz o organismo aquático, ele ainda não sabe da real necessidade de ter um técnico com ele. Então precisa do técnico dizer que eu sou importante para o teu negócio funcionar, para você ter uma produção que te traga dinheiro, que te traga lucro, e que os teus animais não morram, que a gente trabalha com prevenção, a gente vai trabalhar com bem-estar, a gente vai atrás de selo, a gente vai agregar valor.
Então o aquicultor, assim como as outras cadeias, ele não sabe que precisa de um especialista, de um técnico, e o veterinário encaixa muito bem, ele é necessário. E aí tem também o trabalho do médico veterinário em aquários. Recentemente eu recebi uma mensagem no WhatsApp: Maria, me indica um veterinário para trabalhar aqui no aquário. Eu não conheço. E aí vai jogando uma mensagem para outro para ver quem gostaria, quem consegue trabalhar num aquário de visitação particular.
Difícil achar. Então é outra área também que tá crescendo, porque esses aspectos ligados à conservação, né, cada vez mais a gente vai precisar de ambientes que tragam essa ideia, esse que oriente a população sobre a importância de conservar os animais aquáticos e as espécies aquáticas, espécies de aves, enfim. Aí eu posso falar de todos os outros animais devido aos impactos ambientais. Então essa área de aquático, seja para produção de proteínas, seja para trabalhar com aquário, seja para trabalhar numa clínica de selvagens ou de silvestres, né, melhor a palavra que mais se aplica é silvestres ou pet não convencionais.
Aí entra o peixe, de vez em quando aparece um peixinho para pessoa atender. Então tem mercado, tá crescendo, já foi muito mais difícil, principalmente a parte de pet né? As pessoas não tinham esse costume de levar o Betinha para ser atendido, ou o Quindo. Hoje é muito mais comum. Eu mesma ali na UFSC, eu não presto atendimento à sociedade, eu não presto atendimento, a gente não tem um projeto de extensão ainda, mas os alunos me procuram: professora, eu me chamo Maria, eu tenho um um dourado em casa, né, um peixinho, um peixinho dourado, e ele tá assim, assim.
Então eu vejo como isso cresceu, como as pessoas agora olham o peixe em casa no aquário e se preocupam. Não é aquela peça de reposição, quebrou eu vou lá e compro outra. Não, meu peixe não tá bem, eu quero cuidar dele. Ou eu vou adquirir um peixe, eu tenho que fazer quarentena, como é que eu faço a quarentena? Então é uma área bem promissora. Eu acho que dessas 4 que eu falei, que eu tenho proximidade, essa área de bioterismo para peixe vai precisar de muito veterinário, né?
Então deve abrir mais concurso nas universidades. A exigência não só universidade, não só instituição pública, né, mas as privadas também. Zebrafish fora do nosso país, a gente tem hospitais que tem laboratório de zebrafish. Para fazer, que usam como transplantes de células para fazer tratamento individualizado. Então é uma tendência a usar cada vez mais o Zebrin. Então vai precisar de profissional, sim, Thaís.
E nesse aspecto, o que que você percebe que diferencia um profissional que vai ok do profissional 5.0, assim, profissional que realmente se destaca, que se desenvolve bem?
Olha, nessa área com peixes, que que eu percebi? Eu posso dar essa dica para os alunos e para quem tem interesse, né? Tanto o tratamento de peixes como outras formas de manejo e cuidado com esses animais, eles foram aparecendo de uma forma de resposta muito fácil, imediata e barata. O que que eu tô falando? Por exemplo, o produtor precisava anestesiar o peixe. Aí as pesquisas começaram a ver essa demanda, academia viu essa demanda e começaram a testar produtos não convencionais, produtos que o produtor poderia utilizar, que não tinha controle.
E o produtor começou a usar, ou a universidade começou a usar Exemplo disso: o óleo de cravo, que é usado para peixes, é um anestésico amplamente utilizado. Por que que eu tô citando esse, esse exemplo? Quando o médico veterinário entra nessa área, para ele ser visto como diferenciado, como excelência, ele tem que olhar para aquela metodologia e dizer: como assim, óleo de cravo? Todo mundo tá usando, tá, mas será que ele anestesia?
Será que eu não tenho coisa melhor? O veterinário nessa área de aquáticos, ele vai se destacar se ele trouxer inovação. Inovação não é tecnologia, não é uma sala equipada, não. Às vezes é na hora que ele tá diante de um surto de uma bacteriose, ao invés dele prescrever uma oxitetraciclina porque todo mundo prescreve, é ele falar assim: não, a gente vai coletar e a gente vai fazer um antibiograma. É isso, é trazer esse olhar da medicina veterinária, esse olhar de epidemiologia, é trazer esse diferencial.
Bem, pessoal usava porque era cômodo, era fácil usar o óleo de cravo, ou todo mundo usa oxitetraciclina para tratar bacteriose, mas será que eu já não tenho uma resistência aqui? Por que que eu preciso passar por isso? Eu vou propor diferente. E a gente quebrar paradigma gera um barulho. Quando eu cheguei no departamento, que eu comecei a fazer antibiograma para tudo, o pessoal dizia: ah, meu Deus, a Maria demora muito para dar um diagnóstico!
Ai, a Maria demora muito! Porque eu dizia: gente, para mim para mim não é fechar um diagnóstico. Para mim é eu ver o que que tá acontecendo, é estudar, é ver uma epidemiologia do que tá acontecendo. Desde quando a gente tem esse surto? Quais são os fatores que levaram ao aparecimento? Será que essa bactéria tá resistente? Por que que não funcionou? Como é que vocês usavam o medicamento? Era na ração? Era na água? Era no animal?
Então vamos dosar isso, vamos medir. Pronto, a partir de agora ninguém mais usa antibiótico sem o antibiograma. Isso é um exemplo, Thaís. Então é trazer o que a gente aprendeu com a medicina veterinária, trazer para a área de peixes, que ela foi crescendo, a aquicultura foi crescendo. A gente tem hoje já aquicultura superando a pesca na produção de proteína. Então ela foi crescendo, as necessidades de produção pediram: ó, eu preciso tratar uma bacteriose, tem que ser rápido.
Eu preciso tratar uma parasitose, que que eu vou usar? Formalina. Como que eu, médica veterinária, farmacologista, vou deixar usar formalina? Ah, mas todo mundo usa. Não, vamos tentar definir quem é o parasita e vamos tentar usar um antiparasitário específico que não agrida o peixe, que não agrida você, que não— formalina é cancerígena. E que não agrida o meio ambiente, porque eu como veterinária tenho que ser responsável por aquele efluente.
Onde é que eu vou botar aquela água depois que eu terminar o tratamento? E aí eu olho para quem tá na minha frente, eu falo: a gente não vai tratar com formalina, a gente vai tratar com praziquantel. E aí eu vou fazer uma receita, e aí eu vou ver a biomassa, vou ver quantos animais tem. Então a gente vai trazer para veterinária e para aquicultura A gente vai juntar essas duas e vai trazer alternativas, inovação. E aí tu vai se destacar, mesmo que todo mundo tenha, esteja fazendo lá o que todo mundo sempre fez.
Tu vai trazer algo novo, é mais desafiador, mas tu vai trazer algo novo. E que tu vai errar, muitas vezes tu vai errar, mas tu vai crescer com teus erros, tu vai aprender.
Não, é excelente, porque na realidade assim, isso é uma demanda para aquicultura, que é uma área que tá em plena expansão e vai crescer muito mais. E eu vejo que a gente tem áreas muito clássicas da nossa profissão que a gente também precisa dessa postura, porque não é porque existe muito mais pesquisa em mamífero que todas as respostas estão disponíveis. E o que a gente faz é o melhor possível, é o perfil de quem consegue se incomodar com a forma como as coisas são feitas, entender que deve existir uma maneira melhor, e suporta, né, e sustenta esse incômodo.
Porque é isso, né, provavelmente em algum momento da sua vida você ouviu: ah, mas por que que não faz logo aquele negócio que todo mundo faz e já dá certo mesmo? E vamos embora, né? Agora eu fico muito curiosa assim, porque como não é uma área que eu tenho tanta vivência, né, essas questões, quando a gente pensa, por exemplo, em vias de administração de medicamentos, né, tudo você joga na água, como que faz, né, para o peixe ter contato com aquele antiparasitário, com aquele antimicrobiano, né?
Como é que você percebe o quanto o animal vai ter acesso àquilo? Será que alguém não vai ter sobredose enquanto outro vai ter subdose, né? E como é que são esses estudos assim da própria farmacologia, da farmacocinética, da farmacodinâmica para esses medicamentos que a gente tem acesso? Tem essa questão de resíduo de antimicrobiano, né? Porque hoje isso é uma coisa que tá muito em voga, né, a gente ter essa preocupação assim E eu também precisei me recondicionar dentro daquilo que a gente tava mais habituada a fazer, porque eu ainda tenho o privilégio de viver uma rotina hospitalar em que eu tô ali, tem gente olhando aquele animal com um olhar de tratamento o tempo todo.
E numa propriedade, o médico veterinário que vai atender vai olhar aquele animal durante um tempo, vai embora, e tem que torcer para aquele tratamento que ele receitou fazer efeito. Às vezes, por precaução, já faz antibiótico mesmo que não tenha certeza que tem uma infecção, que tem uma necessidade, né? Então como é que funciona isso com relação a peixes, moluscos? A gente não sei.
No início ainda era mais difícil para mim porque eu não, eu não tinha experiência, né? A gente não tinha livros, sequer livros que nos orientasse de sobre toda a parte de clínica, toda a parte de sanidade, de doença. Aí eu usei o que eu estudei, sabe, que a gente acha, ah, mas a Maria é farmacologista, né, sempre estudou farmacologia. E aí a gente abre aquela gavetinha que eu abro todos os dias e a gente começa a utilizar para os peixes.
Então quando eu vou tratar os animais Várias coisas são levadas em consideração. Quem que vai tratar, se é um animal, se é um plantel de 3.000 peixes, se o animal tá comendo, se a gente consegue botar na ração. Aí a gente vai calcular a dose do medicamento via ração. Todos vão comer de maneira uniforme? Não. Então aqueles que conseguirem se alimentar, eles vão começar a ter os sinais de recuperação mais rápido. Então, se eu tô falando, por exemplo, de uma bacteriose e eu entrei com tratamento, eu sei que aquele antibiótico ele tem uma meia-vida de 12 horas.
Eu calculo que em 72 horas eu tenho que ter parado a mortalidade, eu tenho que ter, que eu vou alcançar, né, um platô no nível sanguíneo desses animais Então as bactérias não vão mais se dividir e eles não vão mais morrer. Mas não é bem assim que acontece com aquáticas, porque nem todos os animais vão comer aquela ração. Se eles estavam comendo, beleza, mas nem todos que estão comendo vão comer em quantidade suficiente e a quantidade de antibióticos suficiente.
Então, se em 3 dias eu tiver pelo menos uma redução significativa da minha mortalidade, opa, Ah, tá funcionando o meu antibiótico. Agora, se eu não tenho uma redução significativa em 72 horas, não adianta eu continuar. Eu insistir num tratamento que eu não tive um efeito observando, né, a meia-vida desse fármaco, e se tratando de antibiótico, eu tô ajudando uma possível resistência. Ah, mas aí agora eu não consigo tratar na ração, tem que ser— hoje eu É mandar a foto de um cavalinho nosso.
Ele tava com uma nodulação na ponta da cauda. A gente já fez terapia tópica, porque o cavalinho, animal muito sensível à manipulação, ele não gosta de ser manipulado. Ele não gosta porque é você manipular para ele adoecer. Então ele tem que ficar no ambiente dele, mas quando ele adoece, a gente tenta fazer essas interferências. Ele tinha uma nodulação desde janeiro e eu não quis mexer nessa nodulação. E essa minha tomada de decisão foi baseada no bem-estar dele.
Ele tinha um nódulo, mas ele estava bem, ele tava comendo, ele tava se reproduzindo, que o cavalinho ele fica grávido, né? Ele tava nadando na coluna d'água, comportamento igual aos demais. Então eu não interfiri. Essa semana, na terça-feira, me disseram que ele adoeceu, que ele ficou no fundo e que parecia que ele tava, o estado dele tava deteriorando. Aí eu falei, olha, então a gente vai fazer injetável, a gente vai ter que segurar ele.
Aí eu capacito os alunos, que eu não consigo estar em todos os laboratórios. Quando o aluno nunca viu, eu vou, eu demonstro como é que faz, e a gente faz uma injeção intramuscular no cavalinho. Aqui em cima nas costas, faz intramuscular. Maria, e a dose? Bem, eu sei que a dose, por exemplo, de uma enrofloxacina para algumas espécies de peixes— eu tô falando isso no meu setor, é que eu posso utilizar enro. Num setor de aquicultura eu já não posso utilizar enro porque são animais que vão para consumo.
Mas no meu setor, que os animais não vão ser consumidos, eu posso utilizar uma Enroo e eu vejo na literatura que a dose é de 5 a 10mg por quilo. Eu faço o cálculo para aquela, para aquele peso daquele animal, vai dar um volume ínfimo porque as nossas medicações são para animais que têm pelo menos 1kg. E um cavalinho hoje, eu te falo, Thaís, que o máximo que tu vai conseguir é 15g, são 15g de animal.
Nossa, gente, é muito mínimo, é 0,015g.
Gramas, né, em correlação a 1000 gramas de um animal que tenha 1 quilo. Então a gente dilui os medicamentos e ainda, a partir dessa diluição, faz a injeção. Então tudo depende, mas tudo é feito um estudo. Eu tenho referência. Se não tem cavalinho, eu pego um peixe mais próximo ou da família. Não tem da família, aí eu pego outro peixe. E mas eu preciso Eu preciso fazer alguma coisa. A questão de dose, eu uso muito a literatura de livros e artigos científicos que já tenham visto alguma coisa de farmacocinética para eu saber se eu faço de 12 em 12, de 8 em 8.
Se eu for botar na água para tratar um plantel, qual é a dose que eu tenho que utilizar na água baseado nessa literatura, e de quanto em quanto tempo eu tenho que repor, tirar um pouco dessa água e repor água nova? Qual é a meia-vida do fármaco? Aí a gente tem muitas questões. Quando a gente prescreve um tratamento, vai tempo, não é uma receita rápida de se fazer, não. Depende várias, até o objetivo daquele animal, se ele vai ser solto no meio ambiente, eu não posso entrar com a medicação forte.
Porque ele vai contaminar o meio ambiente, se ele vai, se ele, ah não, Maria, para produção de proteína animal, então não adianta eu ficar usando antibiótico. E por aí vai, Thaís.
Lidar com espécies tão diferentes, né? Você fala assim, ah não, aí tem um cavalo-marinho, mas aí senão eu vejo um outro peixe que é de uma família próxima. Então até essa questão filogenética, né, você tem que ter uma ideia ali, né? Quem que é mais próximo? Porque às vezes morfologicamente não é tão parecido, né? Apesar de talvez o comportamento farmacológico ser próximo.
Tem uma doença em cavalo-marinho que eu descobri nos nossos aqui. Eles não desenvolveram mais, mas no início, assim, lá faz uns 10 anos que eles tinham dificuldade de levantar o focinho. Chegava um certo momento da vida, eles não conseguiam levantar o focinho para comer. E eu fui estudar e eu vi que o cavalo desenvolve isso. Cavalo, que não tem nada a ver com cavalo-marinho, mas é por uma deficiência de vitamina E, né? Leva uma lesão na musculatura, uma degeneração mesmo muscular com o passar do tempo.
Essa, se você não suplementar essa vitamina E, o cavalo desenvolve isso. E o cavalinho-marinho também. Então às vezes não é nem ali no mundo aquático, eu consigo tentar buscar, extrapolar para outros animais, assim como a gente extrapola dos animais terrestres para os seres humanos, né? Quando a gente fala em Alzheimer canino, quando a gente fala em depressão, e não só em cães, né? A gente permeia por outras espécies, né, para nos ajudar a responder algumas hipóteses, né?
Mas será que pode ser isso? Por que não? Eu tenho hoje um peixe que eu tô suspeitando que ele tem demência.
Eu tô suspeitando.
E aí precisa investigar, precisa ter esse olhar. E como eu tô dentro de uma instituição de pesquisa, eu sou privilegiada que eu consigo dar andamento. Muitas perguntas dessas minhas hipóteses malucas eu consigo responder, e isso contribui de certa forma, né? Contribui muito para mim e eu deixo aí um legado aí para medicina de aquáticos, né?
Aí tem esse aspecto que você trouxe, né? Acho que as pessoas hoje em dia têm um olhar diferente para quem gosta de aquarismo, né, do peixe ou os animais aquáticos ali não serem descartáveis. Tipo, ah, que pena, morreu, joga na privada e compra outro, né? E aí eu acho que vai haver uma tendência, como acontece com pets, desses animais viverem mais, da a gente chegar mais próximo, oferecer uma qualidade de vida ali compatível com a longevidade.
E a partir daí a gente tem que aprender a lidar com problemas da idade avançada num peixe, né, enfim, num caramujo, sei lá que outras espécies ali a pessoa pode ter, pode estar criando e ter esse interesse. Então, não, eu quero saber se tem alguma coisa que possa ser feita, né?
É por aí.
E Maria, o que que você recomendaria para um aluno em termos de busca, né, de cursos, de vivências? Que tem desejo de trabalhar nessa área, que tem essa curiosidade, e às vezes tem um pouco de dificuldade na própria instituição que ele estuda em ter essa proximidade com a área?
Recomendaria para o aluno deixar a timidez guardada mesmo e ir atrás de locais, de instituições que trabalham com essa área, fazer estágio durante a graduação, se possível, depois fazer estágio depois de formado, Hoje a gente tem profissionais trabalhando. Quem quer trabalhar com essa parte de clínica, de cirurgia de animais aquáticos, a gente tem alguns profissionais no Brasil que trabalham. A gente tem aquários. Fazer estágio é o que eu faria, né?
Se eu tivesse já essa visão lá atrás de trabalhar com aquáticos, eu faria estágio em aquários, viajaria, tentaria viajar, conseguir recurso para para ir para locais em que tenha profissionais, médicos veterinários, para tentar pular etapas. Que tem coisas que a gente aprende na nossa prática, né? Mas o estágio, ele favorece, ele vai te dar essa visão. Então, ó, aquele veterinário tá trabalhando com aquele peixe, já sabe que quando aparece isso, a forma de melhor tratar é assim.
Então é deixar a timidez de lado e conversar com o pessoal que possa oferecer um estágio, né, ou pedir ajuda, trocar informação. Essa é a dica que eu daria.
E aí, considerando tudo que você já viveu dentro da medicina veterinária, o que que a prática te ensinou e que você gostaria que todo mundo soubesse?
Eu aprendi com os meus erros. Não que eu acho interessante errar, que é importante errar para aprender, não. Eu digo que eu aprendi com meus erros o seguinte, que quando a minha escolha de tratamento, por exemplo, não deu certo, eu me culpo. Aonde que eu errei? Eu começo assim: bem, eu errei na dose do medicamento?
Não.
Eu errei na via? Eu errei no medicamento?
Não.
Eu errei porque eu deixei o tratamento por pessoas que não têm esse compromisso de respeitar horário? Então, o que que eu tô dizendo? De quando a situação sai fora do que do teu objetivo. Teu objetivo era esse, tu não alcançou. Primeiro tu se culpe. Aonde que eu errei? Olhe para você mesmo. O que que eu faltou? Faltou eu fazer o quê? Eu deveria ter entrado mais rápido com tratamento. Mas teve situações, por exemplo, na minha vida com os animais aquáticos, porque eu errei no sentido de eu não olhar o bem-estar do animal.
Eu tive um paciente, né, o William, que ele tinha um aumento do globo ocular, que por muitos anos eu tentei convencer o responsável, que na época era um pós-graduando, que a gente tinha que tirar o olhinho do William, porque aquele olho mais para fora iria causar uma possível infecção, iria causar um trauma. E isso era possível. A gente sabe que o olho para fora, um animal que é de Recife, ele tende a bater mais né, quanto mais que o tanque dele tinha rochas, tinha um enriquecimento que mimetizava os corais, ele podia bater aquele olhinho.
Então eu ficava, olha, a gente tem que tirar o olhinho do William, fazer uma enucleação. Esse doutorando, esse pós-graduando, pós-doutor, saiu, trocou, né, o responsável, e eu convenci, vamos tirar o olhinho do William? Vamos tirar. E a gente fez a cirurgia no William, a gente tirou o olhinho, foi tudo bem. Só que o William não se adaptou com um olho só, ele não conseguiu comer sozinho. Então, para nossa realidade ali na instituição, ficar alimentando ele na boca não foi muito bom, porque eu não tinha alunos ou pessoas comprometidas para fazer isso todos os dias, sábado e domingo.
Então eu errei, porque o William tava bem. Ele tava vivendo com aquele olhinho para fora, mais para fora, mas ele comia, ele não reproduziu, ele não chegou a reproduzir, mas ele nadava bem, ele tava bem, ele tava com bem-estar garantido. E eu pensando muito em terapia para resolver o problema dele, eu causei um desconforto nele, e a gente teve que optar pela eutanásia do William. Então eu aprendi muito com isso. Isso não foi no início, não, isso foi recentemente.
Tanto é que hoje eu penso assim, bem, eu sei que tem uma alternativa cirúrgica, mas será que eu preciso submeter esse animal a uma cirurgia, né? Que é muitas vezes que acontece com pet dentro de casa, né? Será que realmente ele precisa passar por esse tratamento se ele já tá no final da vida, que ele tá vivendo bem com as limitações dele? Então aí vem a questão do pilar que a gente falou, do bem-estar, né? Que que é importante agora para o animal?
Existe o risco de— existe, mas é um risco, não é um problema real. Trabalhar com o problema real. Então olhar para os seus erros, e aí vai fazer com que você não erre na próxima, e você vai evoluir um pouquinho. Ó, aquela vez eu não medi qualidade de água, vou medir. Ah, aquela vez eu não fiz isso, agora eu vou fazer. Antes de dizer que, ah, não funcionou porque o peixe não respondeu bem o tratamento, ah, não funcionou porque o medicamento mudamos de laboratório e o laboratório não é confiável, ou laboratório era mais barato.
Então não culpe as outras coisas, primeiro culpe você. Mas eu não tenho culpa. Tem alguma coisa, você pecou, porque isso vai fazer você ficar melhor e melhor e melhor e melhor. Primeiro olhar para você e depois tentar outras hipóteses, mas primeiro você.
Essa questão da autorresponsabilização, ela é importante, né? A gente precisa assumir os nossos B.O.s, né? E entender quando, mesmo bem-intencionados, a gente também falha. Então acho que dentro de um cuidado de saúde existem muitos fatores que interagem para o sucesso ou não daquele tratamento, e alguns falham apesar da nossa melhor intenção. Então são coisas que a gente tem que reavaliar, né? Não tem muito jeito assim, numa próxima oportunidade, né?
Mas fica aí, o William é um caso marcante, né, que te trouxe um aprendizado que talvez se você não tivesse tido a oportunidade de fazer, você talvez fizesse em um outro paciente, né, em outro momento. E Maria, se você tivesse oportunidade de voltar e conversar com a Maria Alcina que acabou de entrar no curso de veterinária, O que que você diria para ela?
Ah, Maria Alcina, eu agradeço muito ela, sabe, porque ela era muito curiosa. Eu aproveitei muito a minha graduação, muito. Eu sempre vivia nos laboratórios. Mas eu diria para ela, vendo que onde eu estou hoje, eu diria assim para ela: fica mais tempo no laboratório de patologia, por favor, fica aí com essa parte de patologia. Eu fiquei muito envolvida com anestesiologia, Eu foquei muito cedo, né? Eu decidi muito cedo que eu queria muito trabalhar com farmácia, com anestésio.
Então outras áreas eu até ia, mas eu não tinha, não gastava tanta minha energia. E cursos, congressos, eu meio que fechei. Eu hoje aproveitaria mais assim os congressos. Por que não assistir uma palestra de inspeção? Por que não assistir uma palestra de de pets não convencionais. Ou eu sempre falo para os meus filhos que eu trabalharia com zoológicos, eu trabalharia com animais silvestres, né? Porque é tão interessante esse mundo do desconhecido que a gente não tem no dia a dia.
Eu acho tão fabuloso tu saber uma fisiologia diferente. Então eu, se eu voltasse no tempo, eu ficaria mais tempo nos laboratórios de patologia, que é a minha dificuldade, onde eu gasto mais energia hoje. Sentar na frente do microscópio para tentar entender o que tá acontecendo, associar aquelas alterações macroscópicas com as microscópicas. Eu estudaria mais patologia. A Maria hoje necessita mais disso.
E tem alguma situação assim marcante, desafiadora, estranha, engraçada, atípica que você tenha passado assim, que você conta para as pessoas, fala, gente, nossa, você não acredita o que eu passei no meu trabalho. Tem alguma assim que te marcou bastante?
Ai, tem várias, né? Quando eu cheguei, trabalhar com peixes em 2010 era— ninguém trabalhava, né? E qual era o veterinário no Brasil que eu poderia— a gente não tinha essa rede de comunicação. Então eu passei por muitas situações diferentes assim. Uma bem desafiadora, mas que foi um divisor de água, e eu acho que vem com uma fala minha do veterinário trazer algo diferente, né? Essa coisa que eu tenho, eu tenho um impulso de botar tudo que é da veterinária dentro da aquicultura ali, né?
Trazer de tudo. Exame de retina eu faço, coleta exame de sangue, tudo que eu puder fazer para melhorar diagnóstico, melhorar a qualidade de vida, eu tento trazer. Mas uma vez eu fui muito audaciosa, e aí tinha um grupo de pesquisa muito forte aqui na universidade que queria trabalhar com uma espécie de peixe que tá ameaçado de extinção e que ele não tem dimorfismo sexual. E aí eu falei assim, se a gente fizesse uma laparotomia para saber quem é macho, quem é Aí eles olharam assim para mim, laparotomia, o que que é isso?
Não, na verdade no peixe vai ser celiotomia, né, porque o peixe não tem abdômen, né, ele não tem a divisão de tórax e abdômen. Se a gente anestesiasse ele, abrisse e visse se é macho ou fêmea, que como vocês não conseguem ver porque não tem características externas, e eles precisavam coletar sêmen desses animais, e coleta-se os gametas e faz a reprodução separada, né. Fora do animal. Então eles precisam dos gametas femininos e do gameta masculino, mistura, para acontecer ali a fecundação e a possível larvicultura.
Para eles tirarem o sêmen dos peixes machos, eles precisavam primeiro achar um macho. E para achar um macho, eles matavam os peixes na natureza e coletavam os possíveis machos e tiravam as gônadas e levaram para o laboratório. Então era um problema que eles tinham há muito tempo de Nós estamos matando um peixe que está ameaçado de extinção. E aí eu vim com essa possibilidade. E Maria, é possível fazer isso e manter o peixe vivo? Porque depois a gente vai querer reproduzir. Sim, é possível, é possível.
Em tese tudo é possível, é possível.
O papel aceita tudo. E aí, Thaís, eu fui estudar. Naquela época não, não se tem literatura assim detalhada de uma cirurgia. É, quanto tanto é que quando eu falei que eles perguntaram, tá, mas é possível tirar o peixe fora d'água e manter ele vivo? Eu assim, não, isso aí é mais fácil. O difícil realmente vai ser abrir, cortar e costurar, né, suturar e manter ele vivo, porque é um peixe que se arrasta no fundo. Enfim, eu só sei que todo foi criado uma expectativa muito grande, uma cobrança muito grande mas eles acreditaram que a gente poderia trazer isso, investiram nisso, e a gente conseguiu na época— o projeto foi um projeto de doutorado— e a gente conseguiu na época fazer em 53 peixes a celiotomia.
A gente conseguiu fazer, desenvolver um sistema de anestesia inalatória para esses peixes. A gente entubava os peixes e a gente mantinha eles fora d'água durante 30 minutos, 40, 1 hora se fosse necessário, até mais. Expôs gônadas, tirar foto, registrar, depois suturar as camadas e acordar esse peixe, ele se recuperar, e depois a gente colocar nos nossos tanques de terra. E eles estão lá até hoje, estão grandes, cresceram, estão até hoje.
A gente mantém os reprodutores com a gente. Agora a gente sabe quem são os machos, quem são as fêmeas, porque eles têm microchip. Então, para mim, assim, foi um, foi um, não digo um divisor de águas, mas eles começaram a acreditar que dá para fazer coisas diferentes na aquicultura, dá para trazer a medicina veterinária para dentro do setor. E a partir daí outras coisas surgiram. E hoje eu vejo os congressos trazendo cirurgia para diferenciação sexual.
Acho muito legal que eu tive essa audácia, e desafiadora para mim, mas que foi muito bom para o meu trabalho, para minha profissão. Foi, ai, quando deu tudo certo, a menina defendeu o doutorado dela O pessoal da banca disse, nossa, eu vou ter que te trazer para cá para tu operar os nossos peixes, que ideia fantástica! Assim, foi muito legal, sabe? A gente continua fazendo, agora é mais, já mais fluido, né? No início a gente anestesiava com a pisceta, eu não tinha um sistema de anestesia, e a gente botava o anestésico numa pisceta com água do tanque do animal e ia bombeando essa água para dentro do animal para ele se manter com oxigênio, com anestésia.
E hoje já tá melhorzinho assim, a gente já consegue anestesiar um animal grande, um animal pequenininho, enfim. Então foi, e aí aquele espetáculo, todo mundo querer ver um peixe, né, uma cirurgia de peixe, era aquela sala, todo mundo olhando lá de fora e E foi muito legal. Eu acho que é um dos momentos mais marcantes da minha carreira ali na universidade, foi essas cirurgias com esses peixes.
Não, é uma audácia que compensa, né, que compensou. Mas assim, ainda que talvez não tivesse dado tão certo quanto você desejava, quanto você imaginava, ainda assim ia trazer muito aprendizado, né? E talvez se convertesse em um benefício em uma outra situação. Eu acho que é muito importante, né, trazer esse olhar da possibilidade de uma forma diferente de fazer, ainda mais quando você tá lidando com uma espécie em extinção, né?
A gente padronizou na época, a cirurgia foi o modelo ouro, não tinha erro, ela ia te dizer macho ou fêmea. E aí a gente padronizou a ultrassonografia, e a ultrassonografia vem como uma ferramenta muito útil para essa espécie. Então agora eles não precisam mais sacrificar, eutanasiar os animais, E a Maria, mas não é muito óbvio que o ultrassom ia funcionar? Não é, porque essa espécie, o testículo, ele é ramificado, ele não é fusiforme, ele parece um pinheiro, ele é diferente, ele tem raminhos.
E esses ramos, eles são colados na bexiga natatória, então ele não faz sombra acústica para o ultrassom. Na hora que se passa o ultrassom, você não identifica o testículo. E aí, o que que a gente padronizou? Então vamos identificar o ovário. Então a gente sabia quem eram, pela cirurgia, quem eram as fêmeas, estabeleceu o padrão da ultrassonografia. E aí essa menina no doutorado, ela conseguiu mostrar que toda vez que a gente faz ultrassom, né, pelo menos 82%, 83% das vezes que tu passa ultrassom e que tu não vê o ovário— o ovário dá para ver bem, É o macho.
E vai fazer esse ultrassom, anestesia o peixe?
Esse peixe não precisa anestesiar, ele tem um temperamento bem tranquilo. Você mantém ele em água, submerso em água com oxigênio, porque você tira ele do tanque que ele tava, você coloca no recipiente menor com água, cobre ele. E esse peixe é uma espécie, um peixe muito tranquilo, ele é muito calmo, embora ele tenha uns espinhos. Então você só tem que se proteger com luva Mas para outras espécies, o cavalo-marinho, por exemplo, eu sou— embora ele seja tranquilo, ele é muito calminho, ele se estressa.
Se você não anestesiar, ele adoece. Então o cavalo-marinho, mesmo sendo tranquilo, precisa passar por uma anestesia para ele não ter o bem-estar dele prejudicado e vir estresse e infecção.
Enfim, a gente faz muita operação em cavalo-marinho também. Muito, gente, que incrível! Ai, eu quero ver essa imagem. E é uma área que é muito importante, né, o diagnóstico por imagem. Assim, ele ajuda muito a gente a evitar, né, às vezes tomar medidas mais drásticas para visualizar certas coisas. Às vezes a gente fica na dúvida e não tem muito para onde correr, precisa de uma laparotomia, né, uma celiotomia para poder chegar a um diagnóstico definitivo, mas ele poupa, né, muito esforço e às vezes muito investimento e sofrimento para o animal também, que às vezes você insiste em tratar algo que não vai ter uma boa expectativa de melhora, né, de resposta.
Exato. A gente fez um estudo cronológico de maturidade, de maturação dos órgãos do cavalinho. A gente conseguiu que a gente produzia o cavalinho e a gente fez o estudo quando que, quando que a gente consegue identificar o rim, quando que a gente consegue identificar as gônadas. A gente tá descrevendo as gônadas. E o último ultrassom que a gente fez, faz um tempinho que eu não faço nos cavalinhos, que eu dependo dessa minha colega maravilhosa, a Ingrid, que é uma baita ultrassonografista.
E ela, eu chamei ela porque eu tinha um cavalinho marinho grávido, e ela fez ultrassom no grávido. E para nossa surpresa, Thaís, os filhotinhos de cavalo-marinho, eles nascem prontos, né? Eles são mini cavalinhos. As larvinhas já tem o formato do adulto, só que são larvinhas. Quando ela passou ultrassom, deu para ver cada cavalinho dentro da sua bolsinha e eles mexendo o focinho.
Ai, que incrível!
Eu tenho um vídeo, mas eu não posso mostrar ainda porque eu acho que não existe nenhuma filmagem dessa. Nenhum vídeo. Ela conseguiu registrar o cavalinho dentro do saquinho gestacional ali dele. Provavelmente deviam ter quantos? Uns 600 cavalinhos. É porque a aparição de um cavalo, ela é múltipla, né? Vai de 600 a 1.200, 1.300. Ela, esse cavalinho, ele pariu depois de 5 dias do ultrassom. A gestação é de 15 dias, então ele tava, é, a gestação tava, tava no 10º dia, a gente fez ultrassom, mas a gente ficou com medo porque a gente ia submeter uma anestesia, o próprio ultrassom poderia ser ruim.
Então a gente teve todo esse cuidado e foi tudo bem. A gente não viu efeito tóxico, a gente não viu efeito da, do próprio anestesia, mas a gente conseguiu esse registro de pegar o cavalinho dentro, né, mexendo o pescocinho. A gente filmou. Então, ultrassom. Só que assim, pessoal que quer trabalhar com imagem, hoje em dia cada vez mais tem gente trabalhando com imagem. E eu falo para Ingrid, para ela não se preocupar em termos de competitividade, porque tu tem que ter um olho muito bom.
Porque não é simplesmente o aparelho, não é o aparelho que fala o que o animal tem, É a pessoa que interpreta, e a interpretação depende de muito estudo, de muita experiência. Então é uma área que pode ter muitas pessoas fazendo, mas se tu for bom naquilo que tu tá fazendo, tu não vai perder o teu espaço, né? Tu não vai perder os teus clientes, porque eu posso comprar hoje um aparelho de ultrassom e colocar no cavalinho marinho que eu não vou saber nada. Eu preciso do olho da Ingrid.
E aí, Maria, considerando que a gente fala muito da profissão, mas a vida não se resume a isso, né? Eu tenho trazido dos meus últimos convidados perguntas sobre questões assim um pouco mais particulares. Então, você tem algum hobby?
Ah, sim, a Maria ama muitas coisas além da profissão. Eu amo ser veterinária, amo ser veterinária de peixe, mas eu amo também jogar vôlei, adoro jogar vôlei. Ali jogando vôlei não é a Maria mãe, eu tenho dois filhos, não é a Maria esposa, sou casada, vai fazer já já mais de 20 anos. Não é a Maria irmã, não é a Maria filha, a Maria que gosta de jogar, de se divertir, de competir, de superar limites. Eu amo, meu hobby é jogar vôlei.
E tem algum filme ou algum livro assim que seja marcante para você, que você assistiria mil vezes ou leria mil vezes?
É, tem um livro que eu li várias vezes e quando eu preciso eu leio. Ele não é um livro de autoajuda, É o livro Uma Revolução Sutil, de Ael Brescetat. É um livro de— ela é espanhola, mas tem uma versão em português. É um livro que traz sobre autoconhecimento, não na forma de autoajuda, mas um livro que fala sobre como quando a gente começa a se conhecer, como é doloroso se conhecer. Então é um livro que eu precisei ler várias vezes para entender, e cada vez que eu conseguia decifrar o que ela queria o que ela dizia, o que ela trazia, parece que servia como uma chave para mim entender.
Eu li várias vezes esse livro e eu comecei a perceber que fazia sentido para mim. Tem vários outros livros, filme eu gosto muito, eu gosto muito de natureza, tenho essa sensação que eu faço parte da natureza e que enfim, eu amo Avatar, parece um filme de ficção científica, que não. Mas o primeiro Avatar, então, eu amei quando ela, a Neytiri, fala que eu vejo você, quando ela olha, né, o outro ser e diz que eu vejo você. É exatamente isso que a gente deveria sentir quando vê outras pessoas, quando vê os animais, é sentir as pessoas, né, é ter essa sensibilidade. Então eu gosto muito de Avatar. Também.
E tem algum profissional, eu sei que geralmente essa pergunta às vezes as pessoas sofrem um pouco para responder assim, então você pode trazer várias referências, mas tem algum profissional que te inspira?
Tem sim, eu teve fases na vida, tiveram outras pessoas por a gente tá, né, conhecer outras pessoas. Tô no momento da vida que tem uma patologista que eu gosto muito, que é a Paola Barato, que ela é colombiana, Ela trabalha com sanidade de animais aquáticos, principalmente de tilápia. Ela tem um laboratório inclusive de diagnóstico lá na Colômbia. Ela trabalha também na Organização Mundial de Saúde Animal. Enfim, ela é uma referência hoje no mundo em sanidade.
Mas não é isso que me atrai nela. O que me atrai nela é que me inspira. Ela tem, ela gasta energia para passar, para ajudar as pessoas. Por ela ter esse nível de reconhecimento, qualquer pessoa que chegar para ela e falar do que tá acontecendo, aí, eu tô com esse problema no meu plantel, eu tô com esse problema no meu biotério, ela vai te escutar e vai tentar te ajudar. A Paola sempre me ajudou, eu vejo ela ajudar outras pessoas, e nesse sentido, sabe, de passar o conhecimento.
Isso eu admiro muito ela. Uma coisa que hoje é uma moeda, né, tu passar conhecimento. Hoje que a gente abre a internet, clica aqui, clica aqui, como fazer isso, clica aqui, né, um curso, e a gente acaba pagando porque a gente quer se capacitar. E ela vem e traz isso de uma maneira assim Não, a gente precisa favorecer e melhorar o setor. Então eu tenho que ajudar essas pessoas, esses profissionais, a atender. Como atender uns animais? Como atender o aquicultor? Ela é fantástica, eu sou muito fã da Paola.
E aí, você gostaria de deixar alguma mensagem final para o pessoal que tá nos assistindo, nos escutando?
Ah, eu espero que eu que eu tenha conseguido passar nas minhas falas o quanto eu amo a minha profissão. Eu amo ser veterinária, eu amo trabalhar com peixes. Quando me convidam para falar sobre anestesia de peixes ou sobre farmacologia, aí eu falo, ah, e aí vocês estão assim, estão me deixando muito confortável, porque são áreas que eu me sinto muito confortável e gosto de falar. Então espero que eu tenha passado isso para quem tá nos assistindo.
E que vocês tenham essa curiosidade, deixem a timidez guardada, vão em busca da informação, vão em busca de estágio, vão em busca desses conhecimentos, dessas pessoas que podem te ajudar. Sejam audaciosos também, não tenham medo do novo. Se tiver que sugerir alternativas não convencionais ou não usuais, sugiram. Se preparem para isso, né, estudem muito, É isso, Thaís.
Maria, muito obrigada, foi maravilhoso conhecer um pouquinho do tanto que você faz e do tanto que você conhece. Eu tinha umas umas 45 perguntas para te fazer assim, porque eu fico muito curiosa com essa questão dos bivalves, da anestesia de peixe, mas eu acho que é isso assim, né? Fica uma porta aberta para as pessoas que eventualmente ainda não te conhecem terem um contato com seu trabalho e saberem mais uma das várias coisas sensacionais que o médico veterinário pode fazer.
Então muito obrigada pela sua participação. Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a profissão. Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papodeveterinaria e às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!