Episódios de Papo de Veterinária! com Thais Rocha

O bem-estar dos animais aquáticos vai muito além da água | Santiago Rucinque

27 de julho de 202649min
0:00 / 49:39

Os peixes sentem dor? Como avaliar o bem-estar de um animal que vive debaixo d'água? Quais são os maiores desafios para garantir qualidade de vida aos animais aquáticos na produção, na pesquisa, nos aquários e na conservação?

Neste episódio do Papo de Veterinária, recebemos Santiago Rucinque para uma conversa sobre um tema que vem ganhando cada vez mais importância na Medicina Veterinária: o bem-estar de animais aquáticos.

Ao longo da entrevista, discutimos como os conceitos de bem-estar evoluíram, quais indicadores podem ser utilizados para avaliar a qualidade de vida desses animais e por que compreender seu comportamento é fundamental para promover saúde, produtividade e manejo responsável.

Também falamos sobre os desafios enfrentados por médicos-veterinários, além das mudanças culturais e científicas que estão transformando nossa relação com os animais aquáticos.

🎙️ Neste episódio você vai descobrir:

  • O que caracteriza o bem-estar de animais aquáticos;
  • Como avaliar se um peixe ou outro animal aquático está em boas condições de bem-estar;
  • Os principais desafios na produção, manejo e conservação;
  • Mitos e verdades sobre a sensibilidade dos peixes;
  • O papel do médico-veterinário na promoção do bem-estar animal.

Se você é estudante de Medicina Veterinária, médico-veterinário, pesquisador ou simplesmente se interessa por ciência e bem-estar animal, esta conversa traz reflexões importantes sobre uma área em plena expansão.

💬 Agora queremos saber sua opinião: qual você acredita ser o maior desafio para garantir o bem-estar dos animais aquáticos?

Deixe seu comentário, curta este episódio, compartilhe com seus colegas e inscreva-se no Papo de Veterinária para acompanhar novas conversas sobre as diversas áreas da Medicina Veterinária.

Te encontro na próxima segunda-feira às 7h.

Para entrar no nosso grupo de Whatsapp e receber os novos vídeos e conteúdos semanalmente, clique no link: https://chat.whatsapp.com/ILPpwyh0howEsU102woToV

Siga-nos nas redes sociais!

IG: @canalpapodeveterinaria | FB: @papodeveterinaria | YT:youtube.com/papodeveterinaria | TkTk: @papo.de.veterinri

Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/bBf5ECmilFg?si=GcQgoRXLNTttsWmH

Participantes neste episódio2
T

Thaís Rocha

HostApresentadora
S

Santiago Rucinque

ConvidadoMédico veterinário
Assuntos5
  • Bem-estar animal em sistemas de criaçãoSensibilidade à dor em peixes · Avaliação de bem-estar em peixes · Bem-estar em crustáceos e moluscos · Métodos de abate humanitário
  • Trajetória profissional de Santiago RucinqueFormação em Medicina Veterinária na Colômbia · Estágio no Brasil e pós-graduação · Especialização em bem-estar animal
  • Multiplicacao dos paes e peixesDesafios na produção e manejo · Mercado de trabalho para veterinários · Mitos sobre a produção de salmão · Uso de antibióticos e vacinação
  • Aprendizado contínuo e a carreira do futuroImportância do inglês para a ciência · Cursos online e gratuitos · Valorização da experiência prática · Habilidades de comunicação e trabalho em equipe
  • Mitos e verdades ambientaisDificuldade em sentir empatia por peixes · Mitos sobre a produção de salmão e tilápia · Importância da prática e experiência
Transcrição59 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TRThaís Rocha

Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. Hoje eu converso com o Dr. Daniel Santiago Russink, médico veterinário graduado na Colômbia e que atua como consultor de bem-estar animal aplicado no Brasil, Colômbia e Chile, com enfoque especial em animais aquáticos.

Falamos sobre importância de pensarmos no bem-estar mesmo em animais biologicamente distantes de nós e sobre como são recentes as descobertas sobre a senciência de animais aquáticos como peixes, crustáceos e moluscos. Uma conversa super importante sobre uma área da medicina veterinária que poucas pessoas conhecem e que representa um campo de atuação vasto e muito promissor. Esse episódio foi gravado pela plataforma Zoom em 5 de junho de 2026 e o episódio completo está disponível no YouTube Então seja muito bem-vindo, professor Ataísa.

SRSantiago Rucinque

É um prazer estar aqui com você. Para mim é uma honra participar desse bate-papo, né, de veterinária, e tenho certeza que vai ser muito proveitoso para os ouvintes.

?Voz C

Santiago, vamos começar conversando um pouquinho sobre como foi a sua escolha pela medicina veterinária enquanto profissão.

SRSantiago Rucinque

Eu acho que é legal, né, porque todo veterinário tem sua historinha de por que que quise estudar Medicina Veterinária. Eu sempre gostei de animais, desde criança sempre gostei de animais, e por também ter contato um pouco com parte da minha família, tinha fazenda no campo, enfim, sempre tive contato próximo com pequenas granjas, né, mais a parte de agricultura familiar e tal. E eu vi que realmente Veterinária era o que eu queria estudar e consegui ser aprovado na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá, na mesma cidade onde eu nasci, onde eu sempre morei.

Isso foi em 2006 e de lá para cá muita coisa aconteceu, enfim, então sempre, sempre muito animado de poder ajudar os animais de alguma forma, né?

?Voz C

E aí quando você entrou no curso, por já ter essa vivência um pouco com campo, né, com animais, com criação, que às vezes a gente entra na medicina veterinária animal tem um animal de estimação em casa, né? Você já tinha alguma área da medicina veterinária em mente ou você foi vendo o que que a universidade oferecia, o que que o curso oferece de possibilidade e foi se achando dentro dessas possibilidades?

SRSantiago Rucinque

Não, realmente não tinha uma área específica, né? A gente vai descobrindo na medida que vai participando da diferente disciplina, diferentes especialidades, mas eu percebi que eu gostava, já no final do curso, né, gostava de várias áreas, né? Tanto que por isso, fui fazer estágio em distintas áreas para a gente conhecer e ter um contato um pouco mais profissional sobre isso. Então eu tive área na parte de saúde pública e na parte de aquicultura e também um pouco na parte de clínica de pequenos animais.

?Voz C

E aí, como é que foi essa questão de você vir para o Brasil fazer pós-graduação? Você já ficou, você ficou um tempo trabalhando depois de graduado, você já veio direto? Porque o Brasil, né, aqui em Jabuticabal, por exemplo, a gente tem convênio, né, com países da América Latina. Então era muito comum a gente receber pós-graduandos da Colômbia, eles vinham desde estágio na graduação, na verdade, e depois ficavam para pós-graduação, mestrado, doutorado.

Alguns voltam para Colômbia, outros não. Então como é que foi a sua história com relação a isso?

SRSantiago Rucinque

Em relação a isso, foi muito interessante porque quando eu tava mais ou menos na metade da faculdade foi criado um grupo de estudos em bem-estar animal. Então eu me interessei por essa área e a partir daí a gente trabalhou em vários projetos, tanto na Colômbia, no campus universitário. O campus é muito grande e tinha cães ferais. Então a gente tava fazendo um controle humanitário desses animais, porque o pensamento, enfim, de modo geral era fazer basicamente uma matança desses animais sem nenhum tipo de de consideração ética.

Então a gente trabalhou durante basicamente 2, 3 anos com esse projeto e os colegas que lideravam esse grupo de estudos, eles conseguiram fazer o estágio final de curso, que é basicamente um estágio aqui no Brasil. Então eles meio que fizeram essa ponte entre o Brasil e a faculdade na Colômbia. E eles trabalharam tanto na parte de bem-estar animal e na parte de saúde pública, né, de epidemiologia. Então, então quando já foi meu momento de chegar no estágio final do curso, eu fiz todos os contatos, enfim, fiz toda a preparação antes para vir aqui no Brasil e fazer estágio na parte de saúde pública e na parte de bem-estar animal.

?Voz C

E aí você continuou aqui ou você voltou? Porque eu tenho amigos que vieram para cá, fizeram mestrado, voltaram para Colômbia, voltaram para cá, fizeram doutorado. Então às vezes tem um pouco desse vai e volta, né, antes da pessoa resolver de fato ficar.

SRSantiago Rucinque

Então inicialmente eu fiquei 6 meses do tempo do estágio, daí retornei para Colômbia, me formei, trabalhei um tempo. Isso acho que é importante também para você conhecer o mercado de trabalho, enfim, aplicar todo o conhecimento que você acumulou. E também eu fiz essa parte de trabalho após me formar para juntar dinheiro, porque eu sabia que eu queria fazer mestrado e enfim continuar estudando. Eu sempre falo para o pessoal que gosta da área acadêmica que realmente você tem que gostar de estudar, fazer pesquisa, enfim, ler muito, se dedicar muito e não somente fazer um mestrado, doutorado por uma bolsa, né?

Então quando eu terminei no estágio final do curso, eu sabia que eu queria continuar estudando isso, me aperfeiçoando, me especializando na área. Conhecia a área do bem-estar animal, né, que até o momento era uma área muito nova, enfim, né. Então tive a oportunidade de participar do Laboratório de Bem-Estar Animal da UFPR com a professora Carla Molento. E posteriormente eu voltei para o Brasil, fiz a prova do mestrado, tudo para tentar uma vaga com ela.

Então deu tudo certo, isso já foi em 2014 que eu comecei o mestrado com a professora Carla no Laboratório de Bem-Estar Animal.

?Voz C

E aí essa escolha pelo trabalho com bem-estar na aquicultura, como é que ele foi embasado assim? Porque o bem-estar ele é uma cadeira relativamente recente, né? Quando a gente pensa cronologicamente comparando com clínica, cirurgia, essas áreas entre aspas mais clássicas, né? A própria parte de produção, manejo, são bem mais antigos. E aí o bem-estar chega para dar uma arrumada nessa casa, porque a gente percebe que a gente faz muita coisa de uma maneira que não é nem adequada e nem ética.

E aí isso vem crescendo muito em diversas espécies. Então a gente tem o olhar, por exemplo, do manejo cat-friendly para gatos, a gente tem, né, o impacto do bem-estar na produção animal pensando em ruminantes, em suínos, em aves. Mas quando a gente pensa em animais aquáticos, né, Como existe essa distância biológica entre a gente, mamífero, e um peixe, por exemplo, às vezes a gente tem uma dificuldade maior em perceber essas espécies como espécies que precisam ter o seu bem-estar atendido também. Então, como é que foi essa sua trajetória?

SRSantiago Rucinque

Antes de vir para o Brasil para fazer estágio, a gente tem alguma disciplina de ênfase na faculdade. Então você dedica uma carga horária extra a algumas disciplinas em específico. E eu fui na disciplina de saúde pública, que era um pouco relacionado com a parte de bem-estar animal, e também eu fui na disciplina de aquicultura. Por quê? Porque na disciplina de toxicologia aquática, de toxicologia na verdade, o professor utilizava os peixes como modelo de estudo de toxicologia aquática.

Então a gente fazia testes, por exemplo, observando alterações dos peixes expostos a poluentes ambientais, fazia necrópsia, enfim. E eu gostei gostei muito de trabalhar com peixes. E eu fiz estágios, enfim, fiz também meio que um TCC junto com esse professor, o professor Jaime Fernando Gonçalves, no Laboratório de Toxicologia Aquática. E a gente estudou então nessas horas de ênfase do meu TCC, a gente estudou o uso de anestésicos para peixe e seu efeito, por exemplo, em marcadores de estresse como cortisol, glicose, lactato.

E dada essa minha experiência, quando já comecei, quando entrei no mestrado e conversei com a professora Carla Molento, ela me falou: Santiago, aproveita que você tem um conhecimento de base com peixe e trabalha com peixe, porque o peixe termina sendo uma espécie muito negligenciada na área do bem-estar animal. Tem pouca gente que trabalha e tudo para estudar. E aí eu gostei da ideia, propus um projeto para trabalhar com o método de abate, que o abate é o principal ponto crítico de pensar na aquicultura, e foi se dando nesse sentido.

?Voz C

Eu morei alguns anos no Espírito Santo, né, a gente estando no litoral a gente tem um contato muito próximo com essa questão da pesca principalmente, né, e lá era bem tradicional as pessoas comerem caranguejo. Então eu lembro que na época que eu morava lá foi quando eu vi as primeiras notícias assim na mídia falando, ah, descobriram que esses animais sentem dor também, então não é adequado você simplesmente pegar uma panela de água fervendo e tacar o caranguejo lá dentro para cozinhar e comer como se nada estivesse acontecendo, né?

E quando a gente pensa na pesca também, a gente geralmente pensa, a pessoa vai tirar o peixe da água, o peixe vai morrer por asfixia. Agora, quando é um sistema de produção, né, existem métodos para esse abate, né, e essa visibilidade cada vez maior que tá se dando para questão do bem-estar e da forma ética de fazer esse abate também. Então, como é que você poderia trazer para gente assim informações concretas, né, sobre essas esferas?

A pessoa que gosta de comer, por exemplo, frutos do mar, né, tipo de preocupação ela pode ter com relação a esse consumo, ao bem-estar desse animal que tá chegando até o prato, né? O que você preconiza com relação a isso?

SRSantiago Rucinque

Legal, muito interessante essa pergunta. E a gente sempre faz a diferenciação dos dois cenários: o da pesca, principalmente pesca artesanal, enfim, onde realmente são pescadores ali numa balsa que é para sustentar sua família, né? Uma forma de sustento muito, muito tradicional, né? Muito cultural e milenária, né? Então, basicamente, nosso desenvolvimento também como humanidade partiu por isso, né, por buscar no mar, né, alguma fonte de alimento.

E a gente tem o cenário de aquicultura, onde realmente a gente controla todas as variáveis, todo ciclo de vida desse animal, alimentação, enfim. E desde o ponto de vista de bem-estar animal não tem essa diferenciação, mas sim desde o ponto de vista normativo. Então quando a gente revisa, por exemplo, a legislação internacional da OMSA, a gente vê que no código de animais aquáticos tem um capítulo específico para peixes de cultivo.

Então, pelo menos a gente na parte da aquicultura, a gente já tem uma base. Não significa que a gente não se preocupe com os peixes da pesca, mas nossa prioridade seria nos preocupar com aquicultura, né? Mas com as pessoas que gostam muito de frutos do mar, enfim, a gente sempre tem que lembrar do conceito de sem ciência, que essa capacidade do animal de experimentar emoções tanto positivas como negativas. E portanto, esse animal é considerado nas preocupações ou nas discussões de bem-estar animal.

E a ciência mostra muito recentemente, isso nos peixes foi demonstrado a partir do ano 2000, imagina, há 26 anos só, de que peixes realmente sentem dor. Porque antigamente se pensava que eram atos reflexos, enfim, que como eles não tinham um neocórtex desenvolvido, não podiam processar esse tipo de informações neurológicas. Mas já foi demonstrado desde os anos 2000 que os peixes, embora tenham um cérebro muito menos complexo em comparação ao nosso, contêm todas as estruturas para processamento de grandíssimo dolorosos, né?

Tanto que os estudos mostram que eles respondem mudando o comportamento, respondem também mudando quando recebem analgésicos externos, como por exemplo morfina, que é um analgésico exclusivamente de ação central, né, do sistema nervoso central. Então toda essa base científica mostra isso nos peixes. Quando a gente já vai para outro grupo de animais, que são os invertebrados, então que seria distinto, né, você tem os moluscos, que os moluscos têm dois, basicamente dois grupos: os moluscos bivalves e os moluscos cefalópodes, que são os polvos, as lulas, né?

Então, dentro desse grupo de invertebrados, então os moluscos cefalópodes, eles embora sejam invertebrados, têm capacidades cognitivas sumamente complexas. Tanto que na regulação de animais de experimentação na Europa, eles entram junto na mesma consideração e na mesma preocupação de animais vertebrados. Então, lulas, polvos são seres sencientes. Seu bem-estar deve ser garantido principalmente no momento do abate. Então, já se estão pesquisando métodos.

Não é nada fácil porque os polvos são animais sumamente complexos de estudar. Do ponto de vista do seu sistema nervoso. Eles têm basicamente 9 cérebros, ou seja, o núcleo central que comanda tudo, mas já se sabe também que cada braço tem um núcleo neuronal que atua e processa informação de forma autônoma, sem passar ao cérebro central. Então, quando a gente pensa no método de abate, infelizmente a gente não, a gente não tem um método, por exemplo, de abate humanitário de polvo, urso, de lulas.

É bem complicada essa parte. E no outro grupo de invertebrados, a gente tem os crustáceos. Então, dentro dos crustáceos, a gente tem o grupo dos decápodos, que são os siriis, os camarões e as lagostas. E todos esses animais também entram na consideração de senciência por estudos muito mais recentes. Então, se a gente falar em peixes do século 2000, a parte de crustáceos, a gente entra a discutir com artigos realmente muito mais recentes, do ano basicamente 2008, 2010, tá?

E neles então tá se estudando também métodos de abate humanitário. Então principalmente lagostas, já tem países que estão querendo proibir a imersão na água fervente de lagostas. Por quê? Porque já existem, por exemplo, métodos ou algumas outras alternativas para não colocarem em sofrimento esses animais antes da, da condução, né?

?Voz C

E como é que você percebe essa cronologia? Porque a gente sabe que quando a gente trabalha com pesquisa, às vezes existe um gap muito grande entre o que é descoberto pela ciência e isso de fato se tornar aplicável no dia a dia, e até essa informação chegar para um público leigo assim. Então a dona de casa que vai lá, tá passando na praia, vê um cara vendendo aquele monte de caranguejo pendurado numa cordinha um pendurado no outro assim, todo mundo, né, esquisito.

Fala, ai, que ótimo, vou comprar, vou levar para minha casa para fazer um almoço fresquinho, né? Tá fresquinho, é o bicho lá debaixo, aquele sol escaldante assim, o isopor meio esquisito. Então a gente sabe que existe esse lapso de tempo assim, né, entre essas questões serem descobertas e às vezes até estarem sendo aplicadas, por exemplo, a nível de indústria, e o consumidor final ter essa percepção. Quanto tempo mais ou menos leva para que isso aconteça, as pessoas comecem a ter essa noção, até porque muitas vezes a cobrança do consumidor final é que vai fazer com que haja uma aceleração na busca por formas mais adequadas de fazer esse processo.

SRSantiago Rucinque

Exatamente. Isso é a parte mais complexa do que eu vejo em relação a trabalhar com bem-estar animal na parte de animais aquáticos ou da aquicultura, porque realmente em outras cadeias já tem certas práticas que não são aceitáveis, mas sei também Pela questão da empatia, a gente é muito mais difícil sentir empatia por um peixe que por uma ave, que por um suíno, um bovino, enfim. E isso é natural porque o peixe vive num ambiente aquático totalmente diferente do nosso, né?

A gente tem uma distância filogenética muito ampla, ele não tem expressão facial, ele não vocaliza, né? Se peixe gritasse, por exemplo, seria um pouco, um pouco diferente. Então realmente Estimar esse tempo é muito difícil, mas as coisas vão mudando, né? Principalmente na aquicultura. No cenário de pesca, realmente a pressão, por exemplo, para evitar certas práticas consideradas cruéis, como colocar os animais na água fervente, bem mais de ONG e tal, focado, por exemplo, a um público muito específico, por exemplo, restaurante de luxo, enfim, que utiliza lagostas e tal.

E na aquicultura Então já tem a normativa, né, da OMSA. Isso dá um suporte legislativo para os outros países, né? E a gente vê que tá evoluindo bastante isso na Europa. Aqui na América Latina, por exemplo, pela minha experiência, o Chile é um país líder, né, na aquicultura, não somente pela produção do salmão, mas também porque leva em consideração também todas essas questões de bem-estar animal muito a sério.

?Voz C

E se a gente pensar na área de bem-estar animal, Se você pudesse resumir essa área em pilares, quais seriam esses pilares?

SRSantiago Rucinque

Lembrando, como a gente já conversou, a área do bem-estar animal é muito recente, né? A gente está falando de basicamente 50 anos de pesquisa especificamente em etologia aplicada, em comportamento animal, no estudo do estresse sobre as emoções e sobre o estado emocional desse animal, né? Que ao final é esse o conceito de bem-estar animal. Que se referem à qualidade de vida desse animal. Então, quando a gente compara, por exemplo, com genética, a gente tem estudos muito recentes, por exemplo, agora, de que a gente está sabendo sobre os animais.

Então, por exemplo, dando um exemplo para vocês em animais terrestres, né, então devido a toda pesquisa realizada em etologia, comportamento e as implicações de certas práticas pecuárias sobre os animais, foram banidos, por exemplo, algum sistema de produção. Então, por exemplo, a manutenção de galinhas poedeiras em gaiolas de bateria sem nenhum tipo de enriquecimento já foi banido na Europa desde o ano 2017. E foi banido também a manutenção de fêmeas suínas, né, durante todo o período de gestação nas gaiolas individuais, tá.

E essas mudanças foram realizadas principalmente por pressão popular, mas se isso leva também a uma mudança do sistema produtivo. A indústria do ovo não quebrou na Europa, a gente ainda acha ovo na Europa. A mesma coisa a indústria suína. Então, por exemplo, eu que fiz o podoquim na Espanha, não porque proibiram certos tipos de prática é que acaba com a indústria. Quando a gente pensa as pessoas que não sabem sobre isso pensam que o bem-estar animal vem só para isso, para atrapalhar ou para querer acabar com a produção animal, e não é verdade.

E quando a gente pensa nos 4 pilares de bem-estar animal, eu penso também nas famosas 5 liberdades, né? Então muita gente fala que as 5 liberdades estão defasadas, provavelmente não defasadas, mas na sua época, quando foi instaurado o Comitê de Monroe para tentar estudar se realmente os animais estavam em sofrimento nos sistemas produtivos foi a melhor resposta que eles tiveram nesse momento. Imagina, isso foi nos anos 70. Agora esse conceito das 5 liberdades a gente já estudou muito bem e evolucionou para os 5 domínios, tá?

Porque não significa que o animal seja livre de alguma coisa que ele tem um alto grau de bem-estar animal. Animal, não necessariamente, tá? Então o conceito dos 5 domínios leva em consideração tanto a parte negativa, né, que foi estudada pela área do bem-estar animal durante muitos anos, como é que o animal sofre, enfim, a dor, o estresse, mas também a parte de emoções positivas, que isso tá sendo estudado muito recentemente e é conhecido como Positive Welfare.

Então quando a gente pensa nas 5 liberdades que se transformaram nos 5 domínios, Desses 5 domínios, a gente tem 4 domínios que são os domínios físicos ou funcionais, que são a nutrição, o ambiente, a saúde e o comportamento dos animais. Então, eu acho que a pessoa que quer estudar bem-estar animal tem que estudar essas 4 áreas de uma forma muito mais ampla, né? Então, por exemplo, na nutrição você não tem que saber de cor qual que é o nível de proteína, enfim, por exemplo, para uma alevina, mas você tem que saber de que as práticas nutricionais, o manejo dos animais durante a fase de alimentação é muito importante para garantir certos critérios de bem-estar animal.

?Voz C

E como é que você explica para pessoas que às vezes não têm um contato com a área que você trabalha o que você faz?

SRSantiago Rucinque

Porque às vezes para algumas pessoas, por exemplo, ah, eu faço consultoria, aí a pessoa fica assim, Bom, eu sempre ressalto que veterinária não implica necessariamente trabalhar só na clínica. Então eu sempre falo, não, olha, eu trabalho com sistema de produção animal, cadeia de produção animal, bovinos, suínos, aves ou peixes, e eu trabalho para melhorar a qualidade de vida desses animais dentro do sistema produtivo, tanto na fazenda ou já seja na parte da indústria, no momento do abate.

Então aí a pessoa meio que liga os pontos de, ah, tá tudo bem, de que realmente, por exemplo, um frango, frango chega no prato porque veio de um animal, né? Às vezes a pessoa não faz essa relação da carne no prato veio de algum animal, né? E esse animal passou por todo um processo de produção e pelo processo também de abate, né?

?Voz C

E aí, considerando que todas as áreas da veterinária, eu acho que todas as áreas de tudo, tem alguns mitos, né? A gente sabe que às vezes as pessoas têm alguns conceitos que já estão muito enraizados e às vezes a pessoa não tem muito nem recurso ou talvez acesso à informação para modificar aquilo. Aquilo. Então quais seriam mitos importantes da área?

SRSantiago Rucinque

Um mito assim muito, muito recorrente é que, ah não, você trabalha com bem-estar animal, então você trabalha com cães e gatos. Às vezes não faz o link também com as espécies de produção. Ou, ah, você trabalha com bem-estar animal, então você quer, você é abolicionista, você quer acabar a produção, tá? Então esses são alguns mitos. Mas um mito, por exemplo, muito frequente na área da aquicultura cultura. E por exemplo, como o Brasil compra muito salmão do Chile, né, basicamente o 98% do salmão vem do Chile, as pessoas não fazem ideia de como é o sistema produtivo.

Fala: não, não, esse salmão passam tinta no filé antes de vender, de empacotar o filé. Então as pessoas têm muito preconceito, por exemplo, com a produção do salmão. Fala: não, não, o salmão só cresce na base do antibiótico, né. Então várias, muitas, muitos mitos. Por exemplo, no caso dos peixes, da tilápia, a tilápia tem gosto de barro, eu não gosto, enfim. Então, então as pessoas têm muitos mitos em relação à aquicultura.

?Voz C

E aí, mas o salmão é colorido ou não é colorido?

SRSantiago Rucinque

Não, assim, ele recebe na verdade um pigmento que é natural, que na natureza esse animal, o salmão, ele é um peixe livro. Ele consome outros peixes, consome crustáceos, enfim. E na natureza ele consome uma substância chamada astaxantina, tá? E essa substância que dá a coloração natural do filé do salmão, tá? Tanto que tem estudos mostrando que quando você retira essa astaxantina como fonte ter de ingrediente na alimentação do salmão de cativeiro, você causa muitos problemas, porque a astaxantina é um potente antioxidante.

Então, além dele não colorir, ele tem muitos problemas metabólicos por causa de não ter esse antioxidante natural, né?

?Voz C

E pensando em termos de mercado de trabalho, você percebe esse mercado em que você tá inserido, né, do bem-estar, e principalmente puxando para aquicultura também como mercado promissor para o médico veterinário?

SRSantiago Rucinque

Olha, eu acho que sim. Por quê? Porque aquicultura, de todas as cadeias de produção animal, é a que mais cresce todo ano. O Brasil já ultrapassou o valor de 1 milhão de toneladas de produção de peixes vindo da aquicultura, e as empresas cada vez tendem a crescer mais. Quais que são os principais, por exemplo, estados que teria na capacidade de receber esses profissionais especializados na aquicultura. O Paraná, então, de longe o Paraná é o estado com maior representatividade na aquicultura.

Posteriormente vem São Paulo, Minas e Santa Catarina. Então, sul, sudeste do Brasil está crescendo muito. É uma atividade, quando é bem gerenciada, enfim, é economicamente viável. Tanto para pequenos produtores quanto para indústria, né? Então termina sendo uma área que atrai muito veterinário. Por quê? Porque tilápia, por exemplo, para precisamente você evitar o uso de antibióticos, você vacina, né? Então a tilápia ali com uns 15, 20 gramas recebe uma vacinação intracelômica, né, ou intraperitoneal.

Então por trás de tudo isso tem veterinários fazendo protocolo de biosseguridade, né, muito importante, fazendo protocolo de anestesia, né, é uma atividade exclusiva do médico veterinário fazer um protocolo de anestesia mesmo nos peixes, e toda a parte tanto de qualidade e de segurança dos alimentos na indústria, né. Então tem um mercado muito, muito promissor para atuação do médico veterinário.

?Voz C

E o que que você percebe como diferenciais importantes para um profissional que consegue se destacar nessa área?

SRSantiago Rucinque

Olha, eu acho que esse profissional tem que ter um conhecimento muito bom do sistema produtivo. Como geralmente também tem os colegas da sutenia, então é sempre bom que na medida do possível essas pessoas consigam fazer, por exemplo, disciplina de produção de peixe, de aquicultura, de nutrição, enfim, de forma geral do sistema produtivo, porque muitas das questões relacionadas, por exemplo, ao manejo, vem do conhecimento do sistema produtivo, né?

Mas que, por exemplo, da parte de patologia, de doenças, enfim, termina sendo um pouco mais deixado para a parte, por exemplo, de diagnóstico, né? A parte, claro que o veterinário em campo pode fazer a parte inicial do diagnóstico preventivo, mas conhecendo toda a essa parte de manejo, ele consegue ter um planejamento sanitário muito melhor, muito mais preventivo, né?

?Voz C

Quando eu conversei com o André Moniz, né, sobre essa parte de aquicultura, o que eu comentei com ele é que assim, eu tenho essa percepção de que aquicultura é uma das áreas em que o médico veterinário precisa ter um conhecimento bem mais amplo. Então não basta você ser só patologista de peixe, geralmente você tem que ter um conhecimento conhecimento de outras cadeiras ali da veterinária também para conseguir uma atuação mais efetiva assim.

Então a pessoa que trabalha com produção, com nutrição, também pega um pouco a sanidade. Então essa base de conhecimento mais ampla acaba sendo importante, né?

SRSantiago Rucinque

Sim, com certeza. Então toda a parte de nutrição, a parte de sanidade, mas é uma sanidade preventiva, né? A gente dificilmente pode fazer tratamento, né? Em sistemas produtivos, mas termina sendo muito mais caro, né? E termina também causando essas preocupações meioambientais, por exemplo, uso de antibióticos. Então, realmente, o veterinário tem que sair do seu círculo de sanidade, ir para nutrição e para o sistema produtivo, para conhecer todo o manejo desse ciclo de vida do animal, né?

?Voz C

E o que que você percebe que o mercado mais valoriza nos profissionais hoje em dia?

SRSantiago Rucinque

Olha, eu acho que o mercado valoriza muito muito experiência, estágio, né? Mais que cursos, participações em congressos e tal. Ajuda, claro que ajuda, porque participação em congressos te dá networking, enfim, você conhece ali professores referentes na área. Mas eu acho que a prática é o que faz a total diferença, de realmente a pessoa dedicar tempo para fazer um estágio, ficar em campo fazendo, acompanhando, por exemplo, exemplo, uma, uma despesca que ele aumenta o seu som de madrugada, enfim, né?

Então fazendo tudo, todo esse acompanhamento dos manejos é o que faz a diferença no mercado. E encontrar mão de obra, imagino que isso é comum de todas as cadeias, mas encontrar mão de obra qualificada tá sendo cada vez mais difícil, tá? Tanto a mão de obra operativa, né, é muito, muito difícil encontrar, mas também a própria qualificada, pessoa que tenha pelo menos um conhecimento básico da área. Para trabalhar diretamente na produção tá sendo bem difícil.

?Voz C

Esse é um bom, é uma boa abertura para aquela pessoa que tem interesse na área entender que se ela se dedicar bastante, ela tem bastante campo para atuar e tem a possibilidade às vezes de escolher a melhor oportunidade que tá disponível ali no momento, né?

SRSantiago Rucinque

E tem muita grande empresa trabalhando na agricultura, né? Então são empresas, enfim, que garantem condições de trabalhos muito diferenciadas, né?

?Voz C

E aí O que você recomendaria então para um aluno que começa a despertar um interesse para essa área de aquicultura, para ele se desenvolver e conseguir oportunidade na área? Porque a gente sabe que quando a gente pensa nos cursos de medicina veterinária, existe uma diferença de perfil entre as regiões. Então muitas vezes quando você tem oportunidade, por exemplo, de estudar aqui em Jabuticabal, que tem o CAUNESP, você tem um contato próximo com o centro de aquicultura que é referência.

Mas às vezes você tá numa outra instituição que não tem um professor da área, né, ou não tem uma dedicação ali, uma atuação vasta ali, né, dentro da aquicultura especificamente, para o aluno vai ter que ser um pouco mais difícil, porque ele tem que se deslocar, às vezes ele não consegue trabalhar num projeto de pesquisa, então ele vai ter que achar outras formas de conseguir se desenvolver. O que que você recomendaria para os alunos que têm interesse na área?

SRSantiago Rucinque

Olha, hoje em dia tem muito curso, inclusive eu fiz também, muitos cursos online de graça. Então, por exemplo, se a pessoa gosta, sabe, será que eu vou gostar da área, não vou gostar? Tem muito curso, por exemplo, do Senar, que é um serviço brasileiro de extensão rural, né, com uma plataforma excelente. Tem vários cursos lá de aquicultura, de nutrição, enfim, alguns cursos bem interessantes para que a pessoa pelo menos tenha um básico de conhecimento e decida se será que vale a pena investir um estágio nessa área.

Porque a gente entende, né, que para você conseguir experiência, enfim, tem que se deslocar, sair da tua cidade e para outro lugar, fazer um investimento importante, né, para essa formação. Mas eu acho que hoje em dia tem muito curso gratuito, enfim, tem, por exemplo, essas lives, né, tem muitas lives, muito, muito conteúdo no YouTube, né. O professor André também, ele tem uma plataforma enorme onde tem basicamente uma biblioteca com conhecimento gratuito para todos, né.

Então é sempre importante que a pessoa, se não tem a possibilidade de, por exemplo, fazer um de estudar, se dedicar um pouco, ver se realmente é essa área que ele gosta.

?Voz C

E Santiago, o que que a prática te ensinou sobre a área que você trabalha e que você acha que todo mundo deveria saber?

SRSantiago Rucinque

É, infelizmente a prática às vezes vem quebrando preconceito, não preconceito, mas conceitos que você tinha, o que os livros trazem. Ah não, por exemplo, um peixe com, sei lá, com 2mg por litro de oxigênio já tá basicamente morrendo. E às vezes você vê na prática o oxigênio tá mais baixo ainda e às vezes o peixe tá comendo, né? Então é meio que curioso às vezes algumas práticas de manejo que não estão nos livros, né? E que também que traz essa parte de campo e que é muito importante, que a gente não tem, por exemplo, na veterinária uma disciplina específica, por exemplo, de de oratória, de trabalho em equipe, embora você trabalhe em equipe durante todas as disciplinas, mas realmente em campo que você vê e coloca em prática tudo isso, né?

O relacionamento com as pessoas, né? É muito importante você saber falar, que você não fala os mesmos termos que você fala para um gerente, para um técnico, que fala para um colaborador que está ali na parte operativa, né? Então Então essa diferenciação, esse, a gente fala no espanhol, esse juego de cintura, né, esse jogo de cintura, né, é bem importante para a gente ter um relacionamento muito mais harmonioso em campo.

?Voz C

Eu acho que é bacana assim o aluno ter essa percepção, né, de que os relacionamentos interpessoais eles são importantes para qualquer área, porque também a gente não consegue saber tudo. A gente não consegue ser a grande biblioteca de todo conhecimento necessário para atuar profissionalmente. Então a gente precisa ter troca com colegas, trocar, né, experiências, vivências, percepções, para poder desenvolver o trabalho de uma maneira mais efetiva também, né? E aí tem coisas que na verdade só a prática vai mostrando, né?

SRSantiago Rucinque

O quanto pega é só a prática, porque tem também perfil de pessoa diferentes. Então tem, por exemplo, um aluno que ele, por exemplo, se sente se sente bem trabalhando de forma fixa com o famoso CLT, né, que se sente bem com isso. Tem talvez uma pessoa que gosta, por exemplo, de viajar, né, então fazendo consultoria, fazer auditorias, é muito comum que a pessoa tenha que viajar muito. Tem também a pessoa que é mais empreendedora, então tem uma pessoa que fala, não, eu não quero ter chefe, eu quero ser do chefe é super válido também.

Eu acho que a pessoa tem que realmente ir para o campo e ver realmente o que que ela gosta, né?

?Voz C

E se você pudesse voltar no passado e ter uma conversa com Santiago que entrou no curso de medicina veterinária, talvez não tivesse muita certeza do que que ia ser da vida dele no futuro, que caminhos a medicina veterinária ia apresentar para ele, e deixar uma mensagem para esse Santiago, o que que você falaria?

SRSantiago Rucinque

Olha, acho que eu faria da mesma forma, né? A pessoa falar, você faria veterinária de novo? Eu faria. Se eu se eu voltasse, sei lá, 15 anos atrás, eu faria veterinária novamente. Foi um curso assim que eu aprendi muito, né? Conheci colegas que são amigos até hoje, né? Então talvez que eu investiria, por exemplo, ah, você quer ir para área acadêmica? Investe no inglês. Porque quando eu entrei no curso de medicina veterinária, eu nunca vi realmente a importância do inglês como uma oportunidade para você crescer profissionalmente e para você, por exemplo, ler um artigo, sei lá, em 20 minutos e não em 2 horas se tinha que traduzir, né?

E que na época não tinha IA, nada, era no dicionário. Então investir no inglês, o inglês é uma parte principalmente para pessoa que gosta da parte acadêmica, né? A ciência se escreve inglês. Então acho que eu falaria, ó, se você quer continuar estudando tal, investe no inglês.

?Voz C

Tem alguma situação desafiadora ou curiosa, né, estranha que você passou profissionalmente que você queira compartilhar com a gente?

SRSantiago Rucinque

Olha, acho que profissionalmente nunca passei por uma situação curiosa ou estranha, mas eu vou contar, por exemplo, duas situações de que a gente tem que vivenciar todas as etapas de nós como pessoas em formação profissional, né? Então, por exemplo, quando a gente fazia visitas nas granjas de piscicultura lá na Colômbia e o pessoal falava, ah, tem uma despesca aqui, vocês querem entrar? Tipo, todo mundo queria entrar, fazer despesca, se sujar, enfim.

Acho que isso faz parte da vivência né? E também, por exemplo, com isso é um exemplo muito claro no hospital de pequenos, por exemplo, tem que limpar, por exemplo, a gaiola que se ele montava, enfim, estava com diarreia. Eu acho que é importante o próprio aluno ter essa iniciativa, né? Não esperar alguém falar, enfim, ah não, espera que venha a pessoa que faz isso e tal, porque eu vejo que por exemplo, aqui no Brasil a pessoa fala: não, isso aí não é minha função, eu não faço, né?

Se limita muito, né, em algumas funções. Então acho que como profissional a pessoa tem que saber, por exemplo, fazer alguma coisa para você indicar, né, uma pessoa também de fazer, né? E de situação curiosa, por exemplo, eu faço auditorias também de bem-estar animal, no Salmão, no Chile. E a gente vai para lugares assim incríveis que parecem de filme, assim parecem que não são reais, né? Inclusive tem algumas fotos no meu Instagram de realmente lugares que eu nunca pensei que eu ia conhecer graças a todo esse, essa minha carreira acadêmica, né?

Então são lugares que inclusive nem pagando os turistas vão em lugares assim tão bonitos, tão cheio de natureza, de neve, enfim, umas paisagens realmente incríveis.

?Voz C

E Santiago, para quem não está familiarizado, o que que é despesca?

SRSantiago Rucinque

Ah, sim, desculpa falando ali, mas a despesca é quando se retira os peixes, por exemplo, para levar para outro tanque, ou enfim, ou para embarcar no transporte, né? E esse transporte leva esses peixes ao abatedouro, né, ou a outra Então a despesca era isso, passar a rede no tanque, né? Então era no viveiro escavado e todo mundo entrava e ia passando a rede ali com esse contato ali com a água, com os peixes, com tudo.

?Voz C

E aí, considerando que a nossa vida não é feita apenas de profissão, né? Eu tenho perguntado para os meus convidados o que que eles têm de hobby, né, que pode ser interessante para tornar a vida um pouco mais rica. Também?

SRSantiago Rucinque

Sim, claro, gente. A gente fala que a gente tem que pensar no bem-estar humano também, e o nosso bem-estar é fundamental, né, para a gente se desenvolver como um profissional bom, né, que atende às expectativas. Então, por exemplo, de hobby eu gosto muito de ter contato com a natureza. Por exemplo, eu moro aqui em Florianópolis, tem muita trilha, então a gente aproveita algumas épocas do ano para fazer trilhas, para ir a lugares novos, praias que chega só de trilha, enfim.

Então esse contato com a natureza para mim é fundamental, acho que é minha terapia.

?Voz C

E tem algum livro, algum filme que você goste muito, que você recomenda? Porque às vezes a gente tem, né, aquele filme de estimação, aquele livro de estimação que você começa a conversar com as pessoas e fala, você tem que ler isso aqui, você tem que assistir esse filme aqui? Você tem algum?

SRSantiago Rucinque

Olha, de filmes eu tenho diversos tipos de filmes para todos os gostos. Acho que eu vou falar mais do livro. Do livro eu comecei a ler quando saiu os livros do Dan Brown, um escritor muito famoso, enfim, que tem o filme do Código da Vinci e tal. Mas os livros são muito bons assim, você meio que entra de imersão na leitura e quer, não quer terminar de parar de ler. Eu Eu acho que quando um livro te cativa assim é muito, muito interessante, é muito legal, de que você quer ir até o final da história, enfim.

Então fica muitas horas lendo, né, investindo tempo lendo essas histórias. Eu acho muito legal os livros do Dan Brown.

?Voz C

E tem algum profissional que seja uma inspiração para você, ou alguns, né? Geralmente quando eu faço essa pergunta, a maioria das pessoas diz assim, ah, mas eu tenho pensa assim, não, são vários, tem muitos, tenho medo de deixar de falar de alguém, mas tem algum profissional que seja, tenha sido marcante na sua trajetória ou que seja uma inspiração?

SRSantiago Rucinque

Sim, olha, vou falar dois. Eu acho que professores assim que mudam teu chip, né, do teu modo de pensar, de você dar outra olhada para as coisas. O primeiro, meu professor da faculdade, o professor Remy Fernando, com Eu tive o contato com os Peixes, um profissional excelente assim, doutorado, mestrado, doutorado nos Estados Unidos, enfim, professor excelente e como pessoa também uma pessoa excelente. Então eu tenho um grande carinho por ele e também a professora Carla Molento, a professora Carla Molento realmente também meio que mudou minha vida quando me falou de que trabalhasse peixe.

?Voz C

E aí, Santiago, tem algum livro técnico, né, específico da área que você acha que é uma grande referência, que é meio que o livro de cabeceira assim que você consulta sempre?

SRSantiago Rucinque

Sim, olha, tem vários. O problema é que a maioria são em inglês, mas tem, por exemplo, um livro chamado Fish Welfare. É só isso, já é um livro um pouco antigo. Já teve um livro, por exemplo, novo de faz 2 anos que foi editado pelo meu supervisor da Holanda, dos países baixos, que é bem-estar animal aplicado a peixes, né? Então em distintos cenários, tanto em aquicultura, em animais como pet, animais no uso de pesquisa. Então é muito, muito interessante, por exemplo, esse livro para a gente revisar questões básicas, de conceitos básicos, pontos críticos, né, em alguns cenários.

Então esse eu recomendaria, esse livro Fish Welfare, e outro é bem-estar animal aplicado a sem limites, né?

?Voz C

E tem alguma mensagem final que você gostaria de deixar para os nossos espectadores e ouvintes?

SRSantiago Rucinque

Olha, eu acho que se eu fosse aluno, eu gostaria muito, por exemplo, de nos tempos vagos, né, de transporte e tal, escutar teu podcast, né? É muito legal a gente escutar essas experiências de outros colegas em outras áreas. Acho que seria essa recomendação.

?Voz C

Achei excelente a sua recomendação, muito bom. Santiago, muito obrigada pela sua participação. É sempre muito bacana a gente ter essa troca de experiências com áreas tão diversas, né? Eu acho que a aquicultura acaba infelizmente não sendo uma área que desperta tanto interesse dos alunos. Eu acho que nunca em uma turma eu vi alguém levantar a mão e falar, quero trabalhar com peixe, o que é uma pena porque é uma área com potencial gigantesco, né?

A gente já trouxe alguns profissionais da área para falarem aqui no canal e a gente sabe o quanto é importante ter pessoas qualificadas, bem embasadas, com conhecimento bem amplo para desenvolverem áreas que são tão importantes, inclusive em termos econômicos, para o país. E é interessante que os alunos comecem a despertar o olhar para essas áreas de produção em geral, e ainda mais com esse olhar mais específico, né, do bem-estar também, que eu acho que é algo que vem a falar bastante com o que a sociedade vem pedindo hoje.

A gente vê o crescimento do veganismo, das pessoas preocupadas com o bem-estar dos animais em geral, né. Às vezes algumas pessoas muitos até chamam a produção animal de exploração. Então acho que a gente como técnico também é responsável por trazer essa informação, quebrar esses paradigmas e deixar claro para as pessoas que existem formas éticas de fazer isso tudo, né?

SRSantiago Rucinque

Exato, sempre existe uma forma correta, melhor, de melhorar os processos, e com certeza nisso sempre tem profissionais envolvidos, né? A gente não pode desconhecer isso. Então é bem importante também de que as pessoas saibam de que as pessoas que trabalham com bem-estar animal não é que apoiam a exploração dos animais, mas elas sabem que existem formas de melhorar esse sistema produtivo, que claro que não depende delas essas mudanças, mas melhorar o dia a dia, por exemplo, dos animais, do manejo, de você treinar uma equipe, por exemplo, de manejadores que façam uma despesca, um abate, já muda a vida de todos os animais que passam por esses colaboradores, né?

TRThaís Rocha

Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a profissão. Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papodeveterinaria. Rocha de Veterinária. E às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!

O bem-estar dos animais aquáticos vai muito além da água | Santiago Rucinque | Castnews Index — Castnews Index