Como saber se a cirurgia veterinária é a área para você?
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Thaís Rocha
Paola Castro Moraes
- Saúde veterinária e seguros para petsAnatomia cirúrgica · Técnica cirúrgica · Comunicação com o tutor · Habilidade manual · Tomada de decisão clínica
- Trajetória na Medicina VeterináriaEscolha profissional · Formação acadêmica · Carreira acadêmica · Docência
- Síndrome Braquicefálica em CãesConformação anatômica · Problemas respiratórios · Reprodução e bem-estar animal · Diagnóstico e tratamento · Humanização de pets
- Mercado de saúde animal no BrasilResidência veterinária · Diferenciação profissional · Desafios da profissão · Remuneração
- Mitos e Verdades sobre Animais de EstimaçãoGlamour da profissão · Necessidade de conhecimento clínico · Potencial de ganho financeiro · Corpo estranho em animais
- Equilíbrio entre Vida Profissional e PessoalSaúde mental · Hobbies e lazer · Importância da família · Amizades
Olá, vai começar mais um episódio do podcast Papo de Veterinária. Eu sou Thaís Rocha e uma vez por semana eu converso com profissionais da medicina veterinária sobre trajetória e escolhas que moldaram sua carreira. Nesse episódio eu converso com a Doutora Paola Castro Moraes, docente da área de cirurgia de pequenos animais na UNESP de Jaboticabal. Falamos sobre os bastidores da cirurgia de tecidos moles em pequenos animais, os desafios da formação, a pressão da rotina cirúrgica e as habilidades que vão muito além da técnica.
Falamos ainda sobre a síndrome do cão braquicefálico, desafios da graduação em medicina veterinária, carreira acadêmica e especialização, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e como construir uma trajetória mais leve, coerente dentro da veterinária. Uma conversa sincera para quem ama cirurgia, está em dúvida sobre qual caminho seguir ou quer entender melhor a realidade da profissão além do centro cirúrgico. Então seja muito bem-vinda, Paola.
Obrigada, Thaís, muito obrigada. É uma alegria eu estar aqui. Eu acompanho o seu canal e eu estou realmente muito feliz de poder participar hoje.
Paola, vamos começar então do começo. Como foi na sua trajetória escolher a medicina veterinária enquanto profissão?
É bom, na minha família não existe nenhum veterinário, na minha família a maioria advogado, e eu Quis ser veterinária, não tive nenhum, nenhuma pessoa que realmente me inspirou na família. Eu sempre quis, eu sempre gostei de animais e eu sempre achei que era uma profissão que eu queria seguir. E desde muito nova eu trabalhei até para ajudar na minha casa. Então eu, aos 13 anos, eu trabalhei numa doceria, aí depois eu era babá de 3 crianças lá no prédio onde eu morava, enfim.
E aí eu fui Acabei a escola, fui fazer um ano de cursinho e aí quando surgiu a aprovação, né, aí que eu fui descobrir onde era Jabuticabal. Eu nem sabia onde era Jabuticabal. Eu peguei no mapa, eu lembro até hoje, eu peguei no mapa e falei pra minha mãe, mãe, olha onde eu passei na faculdade, agora como que eu vou? Bom, e aí vim pra Jabuticabal com várias dificuldades que hoje o pessoal não tem. Hoje você pega um aluno que quer prestar veterinária ou quer prestar qualquer outra área, ele consegue ver a faculdade por dentro, ele consegue saber tudo sobre a profissão.
A gente naquela época não tinha, né? Faz 30 anos, 32 anos. Eu entrei aqui em 1994, então faz 32 anos, então isso faz muito tempo. Isso é bem antes da época, a gente ainda tava na época analógica, né? Então aí eu fiz a graduação, que foi assim sensacional, porque a gente muda totalmente a cabeça da gente. É quando a gente encontra os nossos melhores amigos, é quando a gente começa a entender como que é a vida adulta, Apesar que eu tive que amadurecer bem cedo por conta de toda a situação lá na minha casa, mas eu acredito que a partir daí e a partir do terceiro ano foi quando eu realmente vi que eu queria cirurgia.
É interessante porque da mesma forma que eu falei agora há pouco, eu nunca tinha visto um bisturi na minha frente, eu nunca tinha visto um centro cirúrgico, então era tudo muita novidade. E eu, a partir daí, eu realmente falei, não, é isso que eu quero fazer. E aí eu comecei realmente a aprender sobre a cirurgia. A professora Cíntia, que me deu aula, que era extremamente brava, mas que eu guardo no meu coração porque me inspirou, mesmo sendo super brava.
E aí eu comecei realmente a fazer estágio, comecei a me inteirar um pouco mais sobre a cirurgia, estudar. E na verdade, desde o terceiro ano eu fiz estágio dentro do hospital, na época tinha plantão. E aí eu entrei na residência. Todo o meu trabalho desde a graduação, quando eu comecei na cirurgia, foi com a parte de ortopedia, tanto da parte ortopédica. Eu tenho formação ortopédica, depois que eu mudei para área de tecidos moles.
E aí eu fiz a residência, e depois, no meio da residência, eu já fui chamada pelo professor João Guilherme Padilha Filho, que é um nome na ortopedia, para fazer o mestrado. Fiz o mestrado, fiz o doutorado, e a partir daí foram tantas coisas, né? Porque eu comecei a dar aula ainda no mestrado, então Em 2001 eu comecei a dar aula em Ribeirão, na Barão de Mauá. Dei aula lá durante 7 anos. Nesse meio tempo nasceu minha filha, em 2006 nasceu minha filha, e fiz o mestrado, fiz o doutorado, dei aula durante todo esse tempo.
E depois, durante 1 ano, eu fiquei em Campinas, eu fiz um pós-doutorado tanto em Campinas quanto em Ribeirão com biomateriais. E depois eu passei como professora substituta aqui. E desde então o meu sonho era ficar aqui, ser professora. Na verdade, meus colegas de classe, né, de sala, eles falavam pra mim que eu tinha que ser professora. Isso não era uma vontade até então. Era um... A gente não tinha tanto assim essa... A gente não sabia muito o que a gente queria fazer, porque não é igual hoje que você vê todas as opções, é muito diferente.
E aí eu lembro que minhas amigas falavam assim, você tem que ser professora, porque eu ensinava elas, né? Então conforme eu ensinava, eu aprendia também. E isso foi assim, acho que um dos motivos que eu percebi que realmente eu sabia fazer aquilo. E aí quando eu comecei na Barão de Mauá, e eu tenho, eu tive e tenho até hoje assim um carinho muito grande pelos alunos. Eu acho que a gente faz uma diferença na vida deles. E não só profissional, mas pessoal também.
Então isso para mim hoje, né, dividir a minha área como docente, como cirurgiã, é uma mistura porque elas se complementam. E então desde 2013, 2008 como substituta e 2013 que eu tô como professora efetiva aqui na UNESP de Jabuticabal na área da cirurgia veterinária de pequenos animais.
A docência muitas vezes é algo que nos encontra no meio do caminho. A gente tanto tem pessoas que têm o perfil e que já vêm desde a graduação com esse olhar, esse desejo de serem docentes, e para outras pessoas isso é algo que surge, você fala, sim, de repente é uma possibilidade para mim. Como é que você percebe assim esses caminhos que a gente precisa percorrer dentro da docência e como isso conversa com uma noção em tempo real ali de como é que está o mercado na nossa área naquele momento?
Como professores, a gente também tem um pouco esse papel de orientação de, ó, o que você provavelmente vai encontrar no mercado, como é que isso se configura. Eu acho que uma pergunta que vem muito, né, que os alunos hoje em dia têm muito mais esse perfil de saber, eu vou ganhar dinheiro nessa área? O quanto eu vou ter que trabalhar para viver bem?
Exatamente. É exatamente, vai ao encontro do que a gente estava comentando. O não saber as coisas, o não ter o conhecimento que no caso é o que aconteceu quando eu entrei na faculdade, é o que realmente vai te movendo pelas surpresas, porque a cirurgia era uma surpresa, pensar em docência era uma surpresa. Hoje a gente vê um perfil de aluno que chega já muito determinado e muito já com direcionamento do que vai fazer na vida. Eu acho precoce isso, porque eu acho que eles são muito imaturos.
Eu vejo pela minha filha, que agora tá fazendo o primeiro ano de faculdade de medicina veterinária, que vai fazer 20 anos já, minha filha, né? Então eu vejo assim, eles são imaturos, eles já chegam com uma necessidade de fazer milhões de coisas, o que reflete intimamente na saúde mental deles. Então a gente observa pessoas ansiosas, nervosas, e nesse momento é que você vê que eles não conseguem muitas vezes manter essa retidão de pensamento, porque eles Eles já pensaram antes o que vão fazer e tudo que aparece no meio do caminho, ou eles querem fazer tudo, porque tem esse perfil também, o aluno que quer participar de todos os grupos de estudo, quer fazer iniciação científica aqui, monitoria ali, enfim, e isso também não é bom para eles.
Então eu percebo que hoje, quando eu vou orientar meus alunos, para você ter uma ideia, Thaís, Eles chegam na minha sala a partir do segundo ano de faculdade com o edital de residência, pra saber o que que eles precisam pontuar, como eles pontuam tudo aquilo. Tanto que a gente tá pensando em rever como fazer esse edital de uma forma que várias coisas pontuam, sabe? Porque eles chegam nessa ansiedade. Antes de mais nada, né, eu acalmo, falo que a minha sala de médico também devia ter uma porta de uma placa de psicólogo.
Porque assim, conforme eu vou conversando com eles, eu vou percebendo essa ansiedade neles. Eu falo, e todos os meus alunos que já foram meus alunos, que foram com esse objetivo na minha sala, já ouviram que existe um sol para cada um. Se você for honesto, porque para mim é fundamental honestidade, é a pessoa dedicada, que estuda, que quer bem, que ajuda o próximo, que quer bem. Então assim, Essa pessoa, ela vai ter um excelente caminho.
Às vezes não é o que as pessoas pensam, né? Ah, eu quero fazer residência aqui no Nescafé Joel Cabral. Não necessariamente você vai fazer residência aqui, porque às vezes o seu caminho é fazer lá em, sei lá, em Botucatu. Eu falo que a minha história tem uma situação dessa, se você me permite falar, que eu, quando eu vim pra cá, pro Joel Cabral, eu não queria vir. Eu vim meio Forçada, porque em São Paulo eu tinha passado numa faculdade particular e que eu não ia ter condição de fazer.
Quando eu já tava em Jabuticabal, eu tava acho que na 4ª, primeiro, segundo mês, eu acho, eu passei na lista da USP em São Paulo e eu quis voltar. Inclusive porque eu tinha namorado lá, enfim, queria voltar, né, com aqueles 18 anos de idade. E meu pai falou, não, você não vai voltar. Hoje, sendo mãe, eu sei o quanto meu pai abriu mão Ele falou, você não vai voltar, você lá você vai ter uma vida muito melhor porque é uma cidade do interior, você vai conseguir alcançar muito mais do que aqui, tendo que a gente morava muito longe da USP, né, tendo que acordar, sei lá, 5 horas da manhã para pegar metrô, trem, enfim.
E eu fiquei muito brava com meu pai, achava que meu pai não me amava, aquelas coisas todas. Enfim, no primeiro ano de faculdade eu já terminei esse namoro, e no terceiro ano de faculdade eu precisava pintar a minha república lá que a gente ia sair, e eu falei para minha amiga, vamos pegar um ônibus lá na Nova que a gente morava. Falei, vamos pegar um ônibus. E aí a gente vai no centro para achar uma casa de tinta. E aí eu parei, o ônibus parou na esquina de uma casa de tinta, e eu entrei, a gente entrou, e a casa de tinta é, era, né, hoje do meu atual marido.
Então eu conhecia, então a gente começou a namorar. Então olha, e no dia do meu casamento, né, faz 25, vai fazer 26 anos que eu sou casada, no dia do meu casamento eu falei para ele, para o meu pai, né, Falei, olha só como a vida é. Então eu conto isso pros meus alunos porque eu acho que a gente precisa dar a possibilidade da vida te mostrar outros caminhos, entendeu? Ai, desculpa, falei demais.
Imagina! Não, mas eu acho que na verdade isso é muito rico assim. Eu acho que uma das coisas que eu gosto, por isso que eu conversei com você no início, às vezes eu sou meio vida livre pra roteiro, apesar de eu tentar manter às vezes as perguntas pra todo mundo.
Mas eu acho bom, né?
É isso assim, porque assim, a vida apresenta possibilidades pra gente que se a gente não estiver aberta e disponível, a gente deixa passar. E a gente perde a possibilidade de coisas que seriam maravilhosas. Então assim, hoje você tá aqui, você tá feliz aqui, você gosta, você construiu sua vida, você casou. Então são coisas que se você tivesse ficado em São Paulo teriam acontecido de uma outra maneira, outra forma, né?
Nunca saberemos, né? Nunca saberemos.
Mas assim, acho que o importante é isso: se tá bom aqui agora onde você tá, é porque o caminho era por aí mesmo, sabe? Então acho que é bom isso. A gente percebe muito realmente essa ansiedade. A gente tinha um pouco, né? Mas eu acho que é isso, o acesso à informação ele tem os dois vieses, né? Ele tanto é muito bom, então a pessoa já chega um pouco mais preparada, com menos dúvida, mas ela chega muito mais fechada. Eu acho que os jovens hoje chegam muito mais fechados dentro daquilo que eles imaginam que seria o ideal.
E aí a gente fica um pouco nessa esfera, né, de olha, tem que abrir a cabeça, tem que experimentar outras coisas, porque na hora que a pessoa se depara com uma área, e você não chegou a comentar se você tinha alguma área em mente, né, quando você entrou na faculdade, Ou se você queria ser veterinária, ponto, que era o meu desejo. Eu quero ser veterinária, como eu vou trabalhar?
Eu não sei.
E na verdade depois eu descobri que 90% das coisas que o veterinário faz eu não tinha nem ideia.
Exatamente.
Mas assim, eu não tinha uma área específica em mente. Então a pessoa que chega com uma área específica, às vezes quando ela chega na disciplina, na vivência e fala, nossa, não é isso aqui, desaba o mundo.
Decepciona, né?
E aí fica aquela coisa, se o que eu queria tanto não é do jeito que eu imaginei, então nada dentro dessa profissão serve pra mim. Exatamente. Acho que é o primeiro movimento. Depois, às vezes, a gente consegue migrar para o caminho do meio e falar, não, vou experimentar outras coisas, vou ter outras vivências. Porque existem muitas possibilidades. A gente não precisa jogar fora o que a gente fez até aqui. Isso acaba se integrando de alguma forma naquilo que a gente vai se tornar e na área que a gente vai atuar.
Eu acho que essa abertura de mente é importante, né? E um dos objetivos do canal é exatamente esse, falar, gente, tem tantas áreas, tem tanta coisa que dá para fazer. Olha como tem tanta gente maravilhosa fazendo coisas incríveis e feliz desse jeito.
É verdade, é verdade. Tantas coisas diferentes que às vezes a gente nem sabe, né? Sim. Até hoje tem coisas que assim, eu acho que a veterinária ela é de um mercado muito amplo, um caminho muito amplo e eu acho que cada um vai ter o seu caminho e que seja feliz nele, né? Sim.
E uma riqueza, né, de possibilidades assim. Então eu acho que uma das questões que sempre é importante a gente pensar, né, é dentro da área de cirurgia veterinária. Quais seriam 4 pilares assim que você poderia nomear da atuação nessa área?
Eu acho que pra gente se tornar cirurgião, né, eu acho que tem vários pilares, várias coisas que são obrigatórias. Uma delas é que um cirurgião ele precisa obrigatoriamente saber aonde ele tá, né? Então a anatomia cirúrgica é fundamental. Não adianta a gente só saber o que fazer e a gente tem que saber também tudo que vem desse paciente. Então eu falo que a maior virtude de um cirurgião é saber não indicar uma cirurgia, saber quando não fazer uma cirurgia.
Isso leva tempo e eu acredito que a comunicação com o responsável— a gente vive num mundo muito questionador. Os animais Lógico, sempre muito bem tratados, mas hoje em dia eles são mais considerados como realmente parte da família. E isso também faz com que essas pessoas que cuidam deles sejam mais questionadoras por conta também da internet. Então, quantos, né, que chegam pra gente falando, ah, eu já vi o que ele tem, eu já sei, eu já sei o tratamento, ou já comecei a tratar e aí deu problema.
Então, a comunicação é muito importante. Então a técnica cirúrgica, saber anatomia, saber a clínica que esse paciente tem. Por isso que na época que eu cheguei a morar em Campinas eu era cirurgiã volante. Isso realmente foi quando eu vi que não era pra isso que eu servia. Porque o cirurgião volante, em sua maioria, ele vai para o procedimento cirúrgico e muitas vezes não tem todo aquele contexto. Tem por mensagem, por telefone.
Então eu acho que, eu acho não, eu tenho certeza Que é anatomia, técnica cirúrgica e principalmente você saber se comunicar, o que hoje em dia também tá difícil, né? As pessoas estão com dificuldade de se comunicar. E eu lembro que eu tenho uma frase que não é minha, né, que é uma frase que cabe muito bem nisso, que é: tudo que você fala antes é explicação, tudo que você fala depois é desculpa. E na cirurgia cabe muito bem isso, né, porque a gente precisa realmente falar de todas as possíveis complicações Mesmo que não aconteça, mas se acontecer, nossa, realmente você me falou que poderia acontecer.
Agora, se não, se você não fala, então assim, isso é muito importante, a comunicação, e realmente saber, né, saber indicar ou não indicar uma cirurgia. Eu acho que é um pilar muito importante.
E pensando nessa questão, né, que quando a gente diz para as pessoas que a gente é professor, a pessoa acha que você só dá aula. Então, se o aluno tá de férias, por que que você tá indo trabalhar, né? O que que você tá fazendo no seu trabalho se você não tá dando aula, o aluno tá de férias? É verdade. E aí a gente trabalhando, né, em áreas aplicadas da medicina veterinária num hospital veterinário. Tem toda uma rotina de atendimento, tem orientação de residente, tem toda a parte de gestão que a gente faz dentro de uma universidade pública, orientação de pesquisa, né, projetos de extensão, enfim, são muitos...
Comissões. Comissões, são muitas atividades. Então assim, quando uma pessoa que tá mais interessada, tá a fim de ouvir toda essa conversa, pergunta para você o que que você faz, como é que você explica para pessoa?
A primeira coisa que eu acho que a gente tem que responder, e é uma verdade minha, as pessoas até às vezes falam que é assim, tipo, eu sou muito feliz, tudo para mim tá bom, mas não é. Acho que a primeira coisa é você ser feliz no que você faz. Então isso é um ponto. Lógico que tem desafios, lógico que tem dias que você tá mais ou menos a fim daquela situação, mas eu acho que a gente tem realmente Ser feliz no que a gente faz.
O que eu falo, né? Eu já dei aula tanto em faculdade particular quanto em faculdade pública. As obrigações são muitas, são diferentes, mas são muitas. Então, realmente, né? Um monte de gente fala assim: nossa, mas tá todo mundo de férias, o que você vai, né? Você vai, tipo, o que eles acham que a gente fica fazendo? Fica sentado lá olhando pro céu? Então não, a gente tem na universidade pública principalmente, a gente tem muitos cargos de gestão.
Então hoje eu estou como supervisora do Hospital Veterinário O que realmente é um desafio gigantesco, porque além de ser um hospital grande, com muitos funcionários, muitas questões, é uma logística, é uma engrenagem que tem que funcionar. Então isso hoje em dia é o desafio maior que eu tô passando. Oriento e orientei milhares, sei lá, milhares não, né, mas um monte de pós-graduandos. Então são iniciações científicas, mestrado, doutorado, que estão ainda também sob minha orientação.
Então cada um tem um projeto. Eu falo, se cada um vier conversar comigo durante meia hora não dá a semana, né? Porque realmente são muitas ideias. Então são os de TCC, de iniciação científica, de mestrado e doutorado. Além disso, surge um paciente que a gente tem que correr para acudir dentro da cirurgia. Ainda bem que hoje em dia eu formei uma equipe, essa equipe de pós-graduandos que a gente acaba treinando, me socorre muito lá dentro do centro cirúrgico, que às vezes eu tô em reunião porque tem as comissões também que a gente participa e dá aula, que no meu entendimento é o que eu mais gosto de fazer e muitas vezes é o que a gente acaba fazendo menos.
Por quê? Porque dar aula faz com que você tenha mais contato com o aluno, então em aula teórica, aula prática. Então esse é o dia a dia corrido que a gente tem, mas muito, muito bom, é o que eu gosto muito de fazer.
E pensando que a maioria das áreas tem ou mitos ou ranços, né, eu brinco que tem área que tem ranço. Então assim, essa brincadeira acontece muito entre cirurgiões e anestesistas, né? Se o animal morrer, a culpa é do anestesista, né? Ou o pessoal que trabalha com alimentos, ah, mas cefageação de cachorro não, trabalha com produtos de origem animal, né? Então assim, tem várias áreas da veterinária que tem essa aura que as pessoas não sabem muito bem explicar, né?
Pessoal que é de fora, que não tem essa vivência, o que que é exatamente aquela área. Então quais seriam mitos da cirurgia veterinária?
O mais assim, um mito mais sério, vamos dizer assim, né, que é que o cirurgião não precisa saber clínica, né, porque o cirurgião só tá lá com o bisturi. Então até eu acredito que isso seja um mito, porque a gente precisa, como, né, igual ao encontro do que eu falei, a gente precisa saber o contexto todo do paciente. Até porque, por exemplo, você vai fazer uma cirurgia, sei lá, de um corpo estranho intestinal E de repente, durante a laparotomia, você encontra uma formação em rim, por exemplo.
Então eu acredito que a gente tenha que saber todo esse contexto. A clínica, ela tem todo o tempo, a gente precisa ter esse conhecimento. Um mito que eu acho que tá vindo muito agora dos tempos das séries médicas é que cirurgião é glamour, né? O cirurgião, ele, nossa, assim, é o o ser supremo. E eu falo que quanto mais tempo, quanto mais velha eu vou ficando, quanto mais tempo vai passando, é mais— não é que é mais respeito, mas assim, parece que cada vez a gente vai tendo mais comprometimento com aquilo.
E eu vejo muitas pessoas sendo muito assim, sabe? Ai, nossa, ser cirurgião e achar também que vai ficar milionário. Porque aí também, de novo, falando de rede social, Porque hoje em dia a gente percebe muitas postagens, muitas coisas na internet falando que o cirurgião ele vai ser um multimilionário e não é bem assim. Eu acho que sim, realmente existem pessoas muito bem-sucedidas, muito boas, mas para isso tem um caminho e o caminho ele é um caminho árduo.
E quando a gente pensa em questões de perfil, né? Porque a gente, dentro da docência, a gente acaba participando, por exemplo, de processos seletivos também. Então às vezes a gente tem que selecionar um aluno para uma determinada atividade e a gente precisa desenvolver essa capacidade de avaliar se a pessoa tem ou não tem perfil para fazer determinadas atividades. Você percebe algum tipo de perfil mais específico de uma pessoa que vai trabalhar e vai se desenvolver bem na cirurgia?
Bom, a primeira coisa é a pessoa não gostar de rotina, né? Porque se a pessoa quer rotina, por exemplo, eu não gosto daquele negócio que você vai todo dia, senta lá, faz tanta coisa, enfim. Não pode gostar de rotina, porque cada dia é um dia. E às vezes você tá no centro cirúrgico, de repente lá fora já, ó, chegou outro. E aí você, putz, combinou. E aí você não pode, você tem que ser meio que focado nisso. Hoje, claro, por conta de eu ter essa equipe, eu consigo organizar melhor.
Mas já teve tempo de você ter que pegar o telefone e pedir para não sei quem buscar a Luiza, minha filha, porque não tem hora para acabar. Tem hora para começar, mas não tem hora para acabar. Então não pode gostar de rotina, tem que saber lidar com essas adversidades, saber que você está lidando com uma vida e com o amor de alguém, e você pode sim perder, porque na vida a gente não ganha tudo, que a gente consiga que essa pessoa tenha a capacidade de transformar as situações ruins em aprendizado e não simplesmente se acabar e desistir, mas principalmente e sempre ter a vontade de aprender mais.
A gente vê a evolução da cirurgia, eu dou uma aula na pós-graduação que é a evolução do ensino da técnica cirúrgica, da cirurgia. Então a gente vê hoje, se você vê na medicina humana, a cirurgia robótica, a gente na veterinária ainda um pouco engatinhando, mas eu acho que a pessoa tem que realmente saber que existe muito um caminho longo a ser percorrido.
E aí na cirurgia, além da questão do conhecimento teórico e técnico, né, essa questão indicar ou não indicar, né, saber quando não intervir, também tem a questão de habilidade manual, né? E eu acho que essas gerações que estão vindo, eu tenho um filho de 12 anos, então é uma preocupação que eu tenho. Inclusive botei ele para fazer livro de caligrafia, porque eu falei, gente, você usa celular o dia inteiro, não sabem mais escrever, né?
E aí, para o cirurgião, isso é extremamente deletério, porque a pessoa tem que ter uma habilidade manual, uma destreza, exatamente, uma destreza ali para fazer um procedimento, porque se Você não pode não ser bem-sucedido porque você não conseguiu fazer um nozinho do jeito que tinha que fazer. Então, como é que você acha que é interessante para um aluno que gosta dessa área, que tem esse desejo, que quer ser um bom cirurgião, quais seriam as técnicas que ele poderia utilizar para treinar esse tipo de habilidade mais específica manual?
Uma coisa interessante quando eu dou aula de técnica, e é uma das disciplinas que eu mais gosto de dar, é porque a gente pega um aluno que que em teoria nunca segurou num bisturi, no porta-agulha, mas isso hoje em dia não é verdade. E eu vejo isso muito, eu falo na primeira aula de técnica, vocês precisam esquecer, ou então pelo menos começar agora outro caminho, porque muitos deles já fizeram estágio, já participaram de campanha de castração, ou já, então assim, ele já vem às vezes até com vícios que não necessariamente são ali da técnica cirúrgica mesmo.
Então quando eu começo a dar aula e a gente faz treinamento tanto em bastidor quanto em língua, né, então eu falo para eles: treinem. Então treinamento ali naquele, na parte que não é, né, não é um paciente, isso é muito importante, o treinamento para você ir conseguindo, conquistando a destreza a rapidez, mas a rapidez, lógico, de forma responsável, porque uma das coisas que a gente tem que pensar, não só quando a gente fala na técnica, tem que pensar no ambiente.
Então, por exemplo, quanto mais eu demoro, maior a chance de eu ter uma infecção pós-operatória. Então esses alunos, eles precisam realmente treinar, não achar que já sabem tudo, treinar e treinar e treinar. Eu acho que treinar é a palavra treinar com fios mais finos, treinar com fios mais grossos, cada ponto. Então eu gosto muito, eu pego na mão literalmente deles para ensinar, porque eu acho sensacional o olho deles brilhando assim naquele primeiro contato.
Não são todos que seguem pela cirurgia, mas pelo menos eu sei que eles sabem fazer um nó com a mão ou fazer um ponto adequado, porque eu fico ali, ó, eu fico no pé.
E pensando em termos de mercado, né, de trabalho, A gente sabe que pequenos animais é uma das áreas mais visadas pela maioria dos alunos que entram na medicina veterinária e dentro das sub-áreas ali dos pequenos animais está a cirurgia, que já de antemão é vista como uma área que remunera melhor. Então como é que você percebe o mercado hoje em dia nessa área para o aluno que cai, chega lá no mercado de trabalho com seu canudo na mão, com seu diploma, o que você percebe que eles têm encontrado nessa realidade?
Pela quantidade de faculdades de medicina veterinária que tem no Brasil, cada dia mais você tem profissionais no mercado que muitas vezes não tem nenhum caminho para seguir. Falando em cirurgia, eu acho que a residência é fundamental. A residência te traz uma rotina cirúrgica, te traz essa mão, e a residência você sempre tem uma pessoa trás. Você não tá sozinho, você não tá largado. A gente tem os residentes aqui que, ou lógico a equipe de pós-graduandos ou a gente, nós estamos sempre ali.
Então isso faz com que você vá criando maturidade para entrar realmente no mercado da cirurgia. Só que não tem lugar para todo mundo, né? Então hoje em dia tem os cursos, tem os aperfeiçoamentos que são feitos, que são propostos, e o mercado, no meu entendimento, ele nunca é saturado para quem realmente é um diferencial para quem realmente foi atrás de aprender, de estudar e ser realmente diferente, fazer a diferença dentro da tua área.
Mas infelizmente, né, nos dias de hoje, esse imediatismo, né, você é mãe, eu também sou mãe, então eles querem tudo para ontem, eles acham que já vão sair e já vão realmente ter esse glamour, que é o mito, vão ter esse glamour de ser ser cirurgião. E pelo contrário, eu falo, inclusive eu falo para os responsáveis quando eu tô às vezes explicando o procedimento cirúrgico antes da cirurgia, que eu fico muito mais feliz quando eu falo que não precisa operar.
Eu fico muito mais feliz porque eu acho que é, e as pessoas querem mesmo é operar, operar, e não necessariamente às vezes você consegue resolver aquele problema clinicamente. Que bom para o dono, né, de falar, nossa, meu cachorro não vai passar por um período pós-operatório. Então assim, Nada é saturado se você conseguir se destacar. E destacar, no meu entendimento, é estudo, dedicação e lá o dia a dia, prática, né?
É muito a prática. E falando em prática, o que que a prática e a vivência dentro da medicina veterinária te ensinou que você gostaria que todo mundo soubesse?
Bom, primeiro é realmente que você tem que cada vez estudar. Você não precisa saber tudo, tudo de tudo, né? Eu acho que parece que as pessoas acham que precisam saber tudo e eu até brinco, né? Você não precisa saber tudo, você tem que ter o telefone de quem sabe. E eu sou muito feliz quando eu dou aula ou quando eu tô conversando com colegas que eles falam alguma coisa pra mim e eu tô aprendendo. Então a gente tá vivendo e aprendendo.
Então uma das coisas realmente é sempre estudar mais. A prática, né, a rotina te leva a amadurecer muito, principalmente no contato com a pessoa que está na sua frente, que no caso é o responsável pelo seu paciente. Então eu acho que isso faz a diferença no nosso dia a dia, na prática.
E uma das linhas que você trabalha é Brachicefálicos. Então o que que você acha que são informações importantes para estudantes, para médicos veterinários que trabalham com pequenos animais e que é necessário que a pessoa saiba sobre especificamente essa categoria de animais que a gente sabe de forma genérica que tem uma série de questões respiratórias, né, por conta do focinho muito curto, mas existem alguns outros conhecimentos que são um pouco mais específicos e que você acha que a pessoa que vai atender um braquicefálico precisa saber?
Bom, o mundo dos braquicefálicos ele é fascinante e ao mesmo tempo triste, né, porque conforme foram passando as décadas a conformação deles foi piorando, Então cada vez mais eles têm o focinho mais achatado. Então a gente tá falando de cães braquicefálicos: Shih Tzu, Bulldog Inglês, Bulldog Francês, Pug, Boxer, mas principalmente os que a gente chama de braquicefálicos extremos, que são Pug, Bulldog Inglês e Francês. E durante esse tempo, né, durante décadas, eles têm sido reproduzidos de tal forma, isso para mim é impressionante, isso já existem trabalhos falando e com fotos, que as pessoas querem um cão que se pareça com bebê.
Então se você observar um pug, rosto redondo, olhos redondos, se você pegar uma foto de um pug bem braquicefálico extremo e colocar um bebê do lado, você vai ver que tem uma semelhança, isso é proposital. Então isso para mim acaba sendo uma uma situação muito desafiadora, porque as pessoas que escolhem ter um animal como esse muitas vezes não entendem a imensa repercussão sistêmica que isso pode causar. Para a gente ter uma ideia, um Collie, um labrador, eles têm exatamente a mesma quantidade de tecido mole.
Então estamos falando aí de turbinados nasais, de língua, palato, a mesma que um totalmente braquicefálico. Então imagina isso tudo achatado e eles tentando respirar. Então assim, o principal é saber que tudo que eles demonstram não é normal. Roncar, então eles acham legal. Ai, olha, meu cachorro ronca que nem minha avó. Eles acham normal. Outra coisa que a gente tem visto muito: dormir com um bichinho de pelúcia na boca. Ai, que gracinha!
Olha só que fofo! Mostra foto. Olha aqui meu pug. A gente tem um paciente, o Benjamin, que ele dormia apoiado na, na cumbuca de ração ou dormir com bichinho de pelúcia na boca, que isso significa o quê? Ele tá tentando manter a boca aberta para respirar. E muitos, né, assim, ainda existe aquele mito que o braquicefálico ele tem apenas o nariz fechado e o palato alongado. E não é só isso, é muito mais. Então, para quem realmente quer fazer cirurgia, né, de braquicefálico, isso aí eu recomendo realmente que estude e vá atrás para entender tudo que move esse mundo braquicefálico, que é muito, muito além do que a gente imagina.
E só, só entre aspas, essa respiração, nossa, tem componente de sistema digestório, ixi, por aí vai, muita coisa, muita coisa.
Essa informação que você me falou agora de parecer com beber algo, que eu não tinha a menor ideia.
E depois eu vou te mostrar uma foto, você vai ver.
Existe um componente inconsciente dessa escolha, né? E aí a questão vai se tornando muito mais complexa às vezes do que apenas realizar um procedimento para aumentar um pouco a abertura nasal.
Exatamente, exatamente. Uma coisa, você me desculpa, mas só para acrescentar, hoje não só os braquicefálicos, mas eles acabam respondendo pior pela conformação. Hoje a síndrome de ansiedade de separação dos donos, dos responsáveis, tá muito em alta na pesquisa, porque eles chegam a ter alterações assim muito, muito importantes quando o dono sai de casa, quando vai trabalhar. Então a gente vê uma humanização muito, muito grande e a gente precisa saber lidar com isso, com as duas partes, com o paciente e com o responsável.
E aí ainda nesse mundo do brexo cefálico, porque eu acho que assim às vezes a gente tem uma visão um pouco simplista sobre problemas complexos, então sabendo que Existem uma série de complicações, mas que algumas delas podem ser manejadas com cirurgia. A cirurgia é algo que é resolutivo ou o ideal seria de fato se pensar ou, enfim, numa restrição da reprodução desses animais que são braquicefálicos extremos. Existem questões de proibição de reprodução desses animais, né, de meio que extinguir a raça porque o nível de complexidade dos problemas é tão alto que acaba sendo uma questão bem difícil de lidar.
Porque às vezes é isso, né? Às vezes a pessoa pensa, ah não, mas o meu cachorro apresentou isso aqui, ele é desse jeito, mas eu amo muito, então eu vou fazer cirurgia e vai resolver.
Na verdade, em alguns países já tem essa restrição. Existem grupos, inclusive a gente atualmente tá começando a fazer parte de um grupo que realmente estuda essa parte do bem-estar. Em alguns países já existe essa restrição. É importante que um paciente braquicefálico filhote já seja acompanhado, porque Nós temos os componentes primários, que é aqueles que nascem com ele. Então quando a gente fala de palato alongado, estenose de narina, então há componentes que são primários que vão se transformar, vão acabar por consequência resultando nos secundários, que é por conta dessa respiração difícil, essa inflamação, esse processo inflamatório.
Dificilmente você vai conseguir um 100% de cura. É um paciente que tem que ser manejado multidisciplinarmente. Então, claro, se você pegar um paciente mais jovem que tem, porque ele é graduado em 4 graus, né, os braquicefálicos, então quando você tem uma síndrome mais severa é mais difícil que esse paciente realmente, quando tem principalmente comprometimento de laringe, é mais difícil que ele retome a vida normal, vamos dizer assim.
Mas eles se recuperam bem. Eles melhoram demais a qualidade de vida deles quando bem diagnosticados e quando bem tratados, porque o mais importante, assim, se é uma palavra para esse mundo aí do braquiocefálico, é o diagnóstico correto, que é feito com laringotráqueobronquoscopia, ou seja, enxergando não só o que tá ali fora, mas enxergando realmente laringe, traqueia, brônquios, e tomografia, enfim, O diagnóstico é muito importante para você direcionar correto.
E se você pudesse voltar no tempo e ter uma conversa com a Paola que entrou na faculdade de medicina veterinária, que chegou em Jabuticabal, veio de São Paulo para Jabuticabal, não sabia nem onde Jabuticabal era.
Nossa, não fazia ideia.
Que foi exatamente o que eu passei quando eu pedi estágio aqui. Eu pedi estágio e aí depois quando veio, ah, foi assim o seu estágio? Eu falei, bom, então onde é Jabuticabal? Vamos descobrir.
Exatamente, foi o que eu passei.
Então pensando nessa possibilidade de você ter um encontro com a Paola estudante que entrou no curso, concurso. O que que você diria para ela?
Eu acredito que eu diria, bom, se bem que eu vou falar uma coisa para você, né? Alguém podia falar assim, ai, aproveita mais, né? Não fica só pensando. Não, eu aproveitei bastante a minha faculdade. Então assim, criei amizades eternas. Então eu aproveitei bastante. Eu acho que eu diria para ter calma, porque apesar de não ser da geração atual, a gente sempre tem aquela ansiedade. Eu sempre tive vontade de poder, e isso é uma coisa muito verdadeira do meu coração, eu sempre tive vontade de mostrar para o meu pai, para minha mãe, para minha irmã que eu realmente tava feliz, porque é difícil você sair de casa, né?
E realmente tava feliz. Então eu acho que eu ia falar para mim: fica calma que as coisas vão acontecer, que eles estão bem, né? Porque eu tinha essa essa preocupação muito constante com eles. Na época a gente ligava do orelhão porque não tinha telefone, enfim. Então eu acho que é isso, é falar que pode viver um pouco mais tranquila porque eles estão bem. Acho que é isso. Não tem nada a ver com a profissão, mas eu acho que é uma coisa que eu senti aqui pra falar.
Sim, mas é porque a gente é composto por essas várias esferas, né? Eu acho que Jabuticabal é uma universidade que tem, é uma faculdade que tem esse perfil do aluno muitas vezes vir de outras cidades e ser aquele primeiro momento em que o aluno momento que você sai de casa. E a partir do momento que você sai de casa, que você vai para uma república ou vai morar sozinho, aí depende, né, da condição e da possibilidade de cada um.
Você é— isso força o amadurecimento. Então acho que em termos de desenvolvimento para o aluno é excelente. Mas existem pessoas que têm muita essa preocupação com relação à família, porque você desmonta um núcleo, né? A partir do momento que você sai da sua casa, acho que é o primeiro desmoronamento, né, daquela estrutura familiar, daquela convivência diária. Então São questões que geram ansiedade, são questões que são importantes a gente ter uma atenção também.
E às vezes a pessoa se sente dividida, fica lá e fica cá, né? Principalmente se tem alguma questão de saúde na família, né? Se tem alguém que tem uma necessidade maior de uma assistência. Então essa mensagem de que você tem a possibilidade de viver a sua vida, se desenvolver, e ainda assim você é uma mãe.
Criar o meu núcleo familiar, porque aí, né, a partir do momento que eu criei o meu núcleo, eles juntaram-se do núcleo. Isso é muito bom. Isso é muito legal.
E você não tá deixando de fazer parte daquilo, né? Você vem sendo parte daquela sua família, assim. Então isso é super importante. E Paula, tem alguma situação assim que te marcou muito em termos profissionais, de um caso muito desafiador ou uma situação muito atípica, muito inesperada assim, que você teve que lidar ali, tanto na docência quanto na própria cirurgia?
Olha, eu acho que desafiador Todos os casos cirúrgicos são desafiadores porque a gente sabe como começa, mas muitas vezes a gente não sabe como termina, né? Porque muitas vezes você tem as intercorrências que podem acontecer ou as surpresas, né? Porque eu brinco que nossos pacientes, eles são uma caixinha de surpresa, né? Muitas vezes até eu brinco nas aulas que eu dou, principalmente quando a gente fala de cão com corpo estranho, Kinder Ovo, que eu acho que são as mais curiosas.
Para mim são os animais que chegam com corpo estranho, porque eu até falo como que eles conseguem engolir. Tirar você vai lá, tira por endoscopia, por cirurgia aberta, enfim. Mas eu fico imaginando, eu tirei, nós retiramos uma vez do cachorro, do Fila, tudo bem que é grande, mas mesmo assim, né, o cachorro Fila, inclusive do irmão da professora Annelise, a Tulipa, que ela tinha engolido uma toalha de rosto. E assim, gente, então assim, não é o problema da tirar, o problema é você pensar como que engoliu, sabe?
Já tirei duas havaianas de dentro de paciente, já tirei um pente. Ixi, mas tem tanto, tem tanto, tá? Fora as calcinhas, né, que às vezes os pacientes engolem, meia, e tem assim diversos. Isso acho que acaba sendo porque não são normalmente, são casos que você consegue resolver se isso não veio de um tempo e já causou uma obstrução importante. Então normalmente são casos que são não fáceis, mas são resolutivos, a gente consegue resolver.
E são curiosos porque nunca é igual, por isso que eu falo, não pode gostar de rotina. Cada dia é um dia, cada corpo estranho é um corpo estranho. E a gente já, na época que eu era residente, eu lembro que a gente tirava bastante, eles engoliam chupeta, e a chupeta era um problema porque dependendo do jeito que ela tava se travar por conta dos gases no intestino, ela podia causar uma obstrução muito importante porque ela inflava, sabe?
Então, ah, eu acho que são os— mas tem um monte, né? Parar aqui vai ficar o dia inteiro falando.
E sabendo que a gente não é só vida profissional, né? Existem muitas outras esferas que a gente precisa dar conta e são importantes também até para nossa saúde mental. Você tem algum hobby?
Antes de eu falar, eu só queria falar coisas. Eu falo para os meus alunos e para quem conversa comigo que a nossa vida profissional é realmente nosso tesouro, mas eu particularmente, eu assim, eu só estou feliz na minha vida profissional porque realmente eu tenho uma retaguarda muito, muito, eu sou muito feliz na minha vida pessoal. E a gente precisa tentar, né, se encontrar na vida pessoal para realmente poder repercutir repercute.
Não adianta, por mais que às vezes realmente acorda não tá muito bem, tudo, mas acaba repercutindo. Então eu acredito que a gente estando bem com nós mesmos, com os colegas, sendo uma pessoa assim que tá tudo de boa, sabe, conversando, a gente consegue ir bem na vida profissional. Aí vamos lá, um hobby. Um hobby, eu gosto de jogar beach tênis. Eu comecei a jogar na pandemia, gosto bastante. Inclusive sexta-feira passada eu ganhei um campeonato.
E aí eu gosto bastante, sempre que eu posso, né, não é sempre, mas sempre que eu posso eu vou treinar e vou jogar.
E aí essa pergunta é meio questionável assim, problemática, porque quando a gente pede assim, fala um profissional que te inspira, geralmente a gente tem um rol, né, a gente tem Muitas pessoas. Então assim, eu vou deixar em aberto. Profissionais que te inspiram?
Tá, realmente é injusto, né, a gente falar de um. Eu vou falar de, vou falar de dois, mas assim, na verdade eles estão representando todo o contexto. Então o primeiro que eu vou falar é a professora Rosângela Zacarias Machado. Professora Rosângela, quando eu tava no segundo ano, que tava complicado assim, tava até perigando de eu ter que ir embora daqui, ela me ofereceu uma bolsa de iniciação científica que era, eu ainda não tinha feito cirurgia, que era com toxoplasma em ovinos e caprinos.
Eu sabia que eu queria pequenos, então não tinha muito, né, a ver, mas foi uma época de aprendizado técnico, foi, mas assim, é como se fosse uma segunda mãe para mim até hoje. Ela me ajudou demais emocionalmente. Ela e a professora Márcia Machado são as duas desse contexto, claro que me ensinaram tecnicamente, mas esse contexto mais coração. E outra, ai, eu poderia falar um monte, né, mas assim, representando a parte profissional, a parte inclusive de jeito de ser, jeito de conversar, de atuar, é o professor José Luiz Laus, que esteve aqui, né, também no Seu Papo, porque ele também me ajudou muito quando eu era substituta lá Ele não foi meu professor porque na época eu cheguei a fazer um pós-doutorado, mas é uma pessoa que eu me espelho muito e que eu acredito que espelhe vários também da época dele.
Mas eu poderia falar tantos, professor Canola, que já nos deixou, o professor João Guilherme que me trouxe na ortopedia, porque eu fiz ortopedia até 2013. Nossa, acho que eu não posso porque eu posso esquecer de alguém, então todos todos os professores.
É, mas assim, eu acho que além dessa possibilidade, né, de deixar público o carinho que a gente tem por alguns profissionais, eu acho que essa pergunta também tem um pouco essa questão da gente saber a importância de ter referências.
Sim.
Porque eu acho que hoje em dia às vezes a referência tá onde? Tá no Instagram, aquele cara que bomba, que tem muita projeção, e às vezes em termos pessoais e às vezes até técnicos também, né? Porque A gente como professor lida muito com isso de, ai, professora, olha esse perfil, que incrível que a pessoa tá fazendo o celular fora do lugar.
Nossa, é isso na cirurgia, tem muito isso. Isso é super comum, infelizmente.
E eu acho que é importante os alunos hoje, né, que tem um pouco mais às vezes até de uma dificuldade social de lidar, de criar vínculos, de criar relações por conta dessa questão da tela, né. E eu acho que a geração do meu filho me preocupa muito mais nesse quesito. É a gente saber a importância de ter referências assim. Então a gente ter essas pessoas que às vezes, seja emocionalmente, seja tecnicamente, vão pegar na nossa mão e vão ajudar a gente, vão servir como um exemplo e uma orientação ali que vai embasar muito do que a gente vai fazer pro resto da vida, né?
Sim, exatamente.
Então acho que assim, não é tanto uma pegadinha do tipo, ah, quero ver se vai esquecer alguém que não vai reclamar.
Não, porque na verdade eu esqueci a maioria, todos, né? Todos da minha, professores de infância, professores de tudo, né? Então assim, Eu fico, mas eu fico feliz de poder falar assim dessas pessoas que realmente tiveram essa importância na minha jornada.
E você tem algum filme que te marcou muito, um livro, algo assim, né, dessa esfera, às vezes até da distração, né, de você viver uma outra realidade?
Com certeza, eu leio bastante livro nada técnico, livro Eu assim, eu brinco que eu leio à noite antes de dormir. Então às vezes eu leio umas duas páginas só porque eu já vou dormir, né? No dia seguinte eu tenho que voltar o capítulo porque eu não lembro nada que eu li. Mas eu leio bastante. Mas eu gosto de livro mais de ficção assim, mais livro de suspense, de mistério. Eu não, esse tipo de livro que eu gosto. Agora filme que eu posso falar também tem vários, né?
Porque é uma coisa também que eu gosto. Mas eu acho que eu podia falar A Espera de um Milagre. Que é um filme que eu, que eu, toda vez que eu assisto, e quando passa eu assisto de novo, que é muito emocionante. E Forrest Gump também, que eu acho muito, muito interessante. E livros, todos esses de mistério, são vários.
Em termos de livro técnico, qual que é a sua bíblia assim? Aquele livro você fala, nossa, esse aqui eu tenho até ciúme do meu livro.
Aí existe uma competição, né? Depois, agora mais recentemente, o livro da Tobias Topias, Tobás, enfim. Mas a minha Bíblia desde o começo foi a Teresa Fossum, né? Porque eu lembro que quando eu entrei na residência, ou quando eu tava na aula de cirurgia, minha tia, minha tia Regina, me deu o livro da Fossum, que eu tenho até hoje. Era uma das primeiras edições, que não tem capa mais, ele tá todo estragado, mas tá lá em cima da minha, lá na minha casa, em cima da minha mesa do escritório, ele fica lá.
Óbvio, hoje em dia você tem imagens online, você tem um mundo, mas eu acredito que o livro, principalmente físico, faz a diferença. E muitas vezes os alunos de hoje nem sabem o que é isso, né? Você tá dando aula, eles já estão no computador ou no tablet, enfim. E eu sempre fui essa pessoa, você disse, né? Eu realmente fiz a livre docência no final do ano e eu escrevi escrevi todos os meus resumos, todos os meus pontos à mão. Depois eu digitei, mas eu escrevi todos à mão porque eu acho que assim você aprende, né?
Sim, você aprende quando você tá. Porque tinha até um professor que na época foi meu professor de cursinho, Pierre Luide. É um professor que até tem várias histórias dele na internet. Ele já é falecido e ele fala muito de como você estudar. E uma das coisas que ele fala, que quando você tá digitando, você apertar o A, o B, o C, o D, tanto faz. O seu cérebro, para o seu cérebro tanto faz, mas quando você tá escrevendo faz a diferença. Então eu sou daquelas que tô sempre ali, eu gosto do papel, do físico.
Aí a gente pensa ecologicamente que a gente não pode imprimir as coisas para ler, dá uma tristeza.
Eu tô tentando me adaptar, mas a gente continua. E você sabe que eu aderi ao Kindle, né, por conta da leitura noturna, Até pelo fato de eu conseguir ler às vezes, meu marido tá dormindo e às vezes eu tô lendo, então eu consigo sem atrapalhar, mas eu gosto também do papel mesmo.
E Paola, a gente, a parte triste agora, né, porque a gente tem uma riqueza tão grande de experiência para compartilhar e tanta informação bacana para compartilhar, mas a gente também tem uma restrição de tempo.
Sim, não tem, eu entendo.
Então eu gostaria de saber se você tem uma mensagem final assim, uma amarração aqui do nosso papo para deixar para os nossos espectadores?
Ah, eu acho que eu posso deixar a mesma mensagem que eu deixo para os meus alunos quando eles vão me procurar na sala desesperados porque querem entrar na residência, porque querem fazer iniciação científica, uma, duas, três, quer preencher. Tem alunos inclusive que trancam disciplinas para poder fazer as outras coisas, então a graduação deixa de ser, né, o realmente o que é. Que é o mais importante quando eles estão fazendo a graduação.
Então é realmente para você ser uma pessoa honesta, né, um bom caráter, estudar, entender o que o outro está passando, porque eu acho que se colocar no lugar do outro é o melhor exercício que a gente faz. Quando a gente se coloca no lugar do outro, a gente consegue muitas vezes mudar a nossa perspectiva das coisas. Então os alunos, mas não só os alunos, né, qualquer um serve para todo mundo. E acho que estudar, estudar, estudar e ser feliz e fazer esporte e viajar.
Eu acho que a gente também tem que ter essas, essas outras coisas fora do nosso mundo dentro da faculdade. Ou de qualquer serviço. Sim.
Paula, muito obrigada pela sua participação.
Ah, eu que agradeço.
Eu adorei, conheci várias coisas. A gente trabalha juntas, né? E agora eu conheço muitas coisas sobre a sua história que antes eu não conhecia.
A gente precisa fazer ao contrário então para eu poder conhecer da sua, que aí vai ser no próximo episódio, Paula entrevistada. Não, é porque a gente realmente acaba, se encontra, conversa, mas nunca consegue realmente conhecer, né?
Sim. E é muito importante assim, né? Eu acho que conhecer essas trajetórias também, além de ser uma inspiração, É uma forma da gente saber que existem caminhos diferentes e que o objetivo final acaba sendo possível, né? Você ser realizado na sua profissão, você entregar algo pro mundo, que eu acho que a gente como professor tem muito esse papel também, né? Quando eu conversei com a Regina Takahira, eu falei sobre isso com ela, eu falei, às vezes a gente tem pessoas que admiram a gente e a gente nem sabe.
A gente tem pessoas que se sentem melhor com relação às escolhas que fazem por conta de coisas que a gente falou e a gente nem lembra, não sabe. Exatamente. Às vezes uma frase sua numa sala de aula contando uma história, compartilhando uma vivência vai fazer um aluno ter aquele clique e falar, nossa, é isso, né? Então a gente tem muito desse papel também que vai para além do técnico e a gente tem que ser muito humano no que a gente faz, né? Então acho que você é um excelente exemplo disso.
Ah, muito obrigada!
Queridíssima, todo mundo te ama!
Obrigada!
Não sem razão! Obrigada!
Mas eu acho assim que é importante que as pessoas não desistam porque surgem obstáculos, né? Vamos em frente, caça, acolhe a poeira, levanta e vamos para frente. E que vai dar tudo certo para todo mundo, com certeza. Muito obrigada, viu? Fiquei muito feliz. Você é uma excelente colega de departamento, uma excelente amiga, e eu fico muito feliz de poder participar aqui. Eu tava nervosa, mas eu tô feliz. Obrigada, viu? Obrigada mesmo.
Obrigada, Paola. Este foi o Papo de Veterinária. Obrigada por ficar conosco até aqui e não esqueça de compartilhar com seus colegas que também gostariam de saber mais sobre a profissão. Toda quarta-feira temos vídeos novos no youtube.com/papo-de-veterinaria. E às segundas-feiras estarei aqui com vocês para mais um episódio. Até lá!