Copa do Mundo 2026: participação do Irã reacende tensões no esporte e na diplomacia global
A cerca de 40 dias do início da Copa do Mundo de futebol, a participação do Irã no torneio voltou a expor tensões diplomáticas no cenário internacional. Nesta semana, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmaram que a seleção iraniana estará presente na competição, apesar das controvérsias geopolíticas que envolvem o país.
Durante um congresso da FIFA realizado em Vancouver, no Canadá, Gianni Infantino foi direto ao confirmar a presença da seleção iraniana no Mundial: “Quero confirmar que o Irã participará da Copa do Mundo”, declarou o presidente da FIFA. “E, é claro”, acrescentou, “o Irã jogará nos Estados Unidos”.
Pouco depois, questionado por jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, o presidente norte-americano, Donald Trump, respondeu em tom irônico, citando diretamente o dirigente da FIFA: “Se o Gianni disse isso, então estou de acordo”.
Para analisar o contexto político por trás desses anúncios, a reportagem da RFI ouviu Raphaël Le Magoariec, doutor em Geopolítica pela Universidade de Tours, na França, e especialista em Oriente Médio.
Segundo ele, Donald Trump foi colocado “diante de um fato consumado” e se mostra incomodado com a postura da FIFA, que tenta se afastar das disputas geopolíticas, especialmente em um momento de forte tensão na região.
“O presidente americano foi colocado diante de um fato consumado e, sobretudo, ele está muito incomodado com o discurso da FIFA, que deseja, como vimos na última quinta-feira (30), sair da geopolítica, especialmente desta geopolítica regional do Oriente Médio, que está atualmente pegando fogo”.
Interesses da FIFA acima dos conflitos internacionais
Le Magoariec lembra que Gianni Infantino tentou, durante a assembleia da FIFA, aproximar os presidentes das federações israelense e palestina, em uma tentativa de mediação simbólica. “Vemos claramente que o presidente da FIFA, que atribuiu o primeiro Prêmio da Paz da FIFA a Trump em dezembro, está incomodado com os desdobramentos e com toda a política de Donald Trump no Oriente Médio atualmente”.
Para o especialista, a iniciativa não teve sucesso, mas revela ambições políticas do dirigente máximo do futebol mundial. “Não funcionou, mas vemos muito bem que ele está tentando; podemos até nos perguntar se ele não tem vontade de obter ele próprio o Prêmio Nobel da Paz”, sugere.
Le Magoariec destaca ainda que, para Infantino, os interesses financeiros da instituição têm prioridade sobre os conflitos internacionais. “Para ele, o que conta é o lucro e enriquecer cada vez mais a FIFA. Portanto, todas as rivalidades geopolíticas devem silenciar para que o lucro prevaleça. Essa é a realidade dele”, opina.
Futebol e poder político no Irã
De acordo com o especialista, Gianni Infantino insiste em assumir um papel político no cenário internacional. Nesse contexto, o futebol iraniano não pode ser dissociado do poder político, nem dentro do Irã nem em outros países do Oriente Médio e do Golfo Pérsico.
Raphaël Le Magoariec lembra que a seleção representa oficialmente a República Islâmica do Irã e que a estrutura esportiva está diretamente ligada ao regime, já que “a federação iraniana é dirigida por Mehdi Taj, um ex-membro da Guarda Revolucionária”, detalha o especialista.
Segundo ele, o esporte é utilizado como instrumento simbólico de controle social.
“É preciso compreender que o futebol, a luta ou o voleibol são para o Irã elementos simbólicos de controle social.” Esse vínculo entre esporte e política não é exclusivo do Irã, afirma Le Magoariec. “Mesmo em outros países da região, nos países do Golfo Pérsico, não está dissociado da política e faz parte do simbolismo do poder, da encenação da potência e do controle social.”
Le Magoariec cita ainda declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que demonstrou preocupação com a composição da delegação iraniana que viajará aos Estados Unidos. “Foi por isso que Marco Rubio insistiu que o problema não eram os jogadores, mas sim a delegação. É preciso ver quem fará parte da delegação que irá viajar. É isso que causa preocupação”.
Onde o Irã vai jogar?
Apesar da confirmação da presença do Irã no Mundial, permanece a dúvida sobre os locais dos jogos da seleção. O Irã está no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, com partidas previstas para Los Angeles e Seattle.
Para Raphaël Le Magoariec, uma alternativa seria transferir os jogos para outro país-sede da Copa, como México ou Canadá. “Essa é realmente a solução: que sejam deslocados para outro país. Sabendo que o Irã deveria jogar especialmente em Los Angeles, onde vive a maior comunidade iraniana nos Estados Unidos.”
O especialista ressalta, no entanto, que a seleção iraniana não conta com apoio unânime da diáspora. Segundo ele, “uma parte da diáspora é contra esta seleção”.
Precedentes e riscos de contestação
Le Magoariec lembra que a Copa do Mundo de 2022, no Catar, ocorreu após a morte da jovem Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade iraniana por supostamente não usar o hijab de forma adequada. Na ocasião, muitos torcedores iranianos vaiaram a própria seleção, vista como representante do regime.
Para o especialista, a FIFA não demonstra a mesma preocupação neste novo Mundial.
“A FIFA tentou organizar os jogos em locais onde houvesse muitos torcedores, mas existe essa questão da contestação, pois grande parte da diáspora vê a seleção hoje como a seleção da Guarda Revolucionária”.
Casos recentes, como a desistência da delegação iraniana de participar do congresso da FIFA no Canadá, alegando problemas migratórios, reforçam como a Copa do Mundo que se aproxima segue profundamente marcada pela geopolítica.
Luísa Ramos
Donald Trump
Gianni Infantino
Marco Rubio
Medji Taj
Raphaël Le Magoariec
- Participação do Irã na Copa do MundoTensões diplomáticas e geopolíticas · Declaração de Gianni Infantino · Resposta de Donald Trump · Análise de Raphaël Le Magoariec · Interesses financeiros da FIFA
- Papel político do futebol iranianoFutebol como elemento de controle social · Preocupação com a delegação iraniana · Medji Taj e a Guarda Revolucionária
- Local dos jogos do Irã na CopaPossibilidade de transferência para México ou Canadá · Comunidade iraniana nos Estados Unidos · Contestação da diáspora iraniana
- Copa do Mundo 2026Morte de Massa Amini · Vaias à seleção iraniana
Esporte em Foco. Luísa Ramos.
Há cerca de 40 dias para o início da Copa do Mundo de futebol, esporte e diplomacia continuam causando tensão internacional por conta da participação do Irã no torneio. Esta semana, o presidente da FIFA, Diani Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmaram que a seleção iraniana estará presente na competição.
Em um congresso da FIFA realizado em Vancouver, Infantino foi incisivo em sua mensagem. Quero confirmar que o Irã parte separada da Copa do Mundo, declarou o presidente da FIFA. E, é claro, ele fez questão de esclarecer.
O Irã jogará nos Estados Unidos. Questionado por jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, Donald Trump confirmou em tom de ironia e citando Gianni Infantino.
Se o Diane disse isso, então estou de acordo. Para entender o que está por trás desses anúncios, a reportagem da RFI conversou com Rafael Lemagoariek, doutor em Geopolítica pela Universidade Francesa de Thur e especialista em Oriente Médio.
O presidente americano foi colocado diante de um fato consumado e, sobretudo, ele está muito incomodado com o discurso da FIFA, que deseja, como vimos na última quinta-feira, sair da geopolítica, especialmente dessa geopolítica regional do Oriente Médio, que está atualmente pegando fogo.
E vemos claramente que Infantino, como atribuiu o primeiro prêmio da paz da FIFA a Trump em dezembro, está incomodado com os desdobramentos e com toda a política de Trump no Oriente Médio atualmente. Não funcionou, mas vemos muito bem que ele está tentando. Podemos até nos questionar se ele não tem vontade de obter ele próprio o prêmio Nobel da paz. Para ele, o que conta é o lucro e enriquecer cada vez mais a FIFA.
Portanto, todas as rivalidades geopolíticas devem silenciar para que o lucro prevaleça. Essa é a realidade dele. Segundo o especialista, Gianni Infantino insiste em assumir um papel político no cenário internacional.
Nesse contexto, Rafael Lemagoriek destaca que o futebol iraniano não pode ser dissociado do poder político, nem dentro do Irã, nem em outros países da região. Ele destaca ainda até a declaração do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que expressou preocupação com a escalação dos membros da delegação do país e não com o futebol.
quem vai estar nos gramados. É por isso que é preciso lembrar que a seleção do Irã é a seleção da República Islâmica do Irã. A federação iraniana é dirigida por Medji Taj, um ex-membro da Guarda Revolucionária. É preciso compreender que o futebol, a luta ou o voleibol são, para o Irã, elementos simbólicos de controle social.
Mesmo para os outros países da região, os países do Golfo Pérsico, não está dissociado da política e faz parte do simbolismo do poder, da encenação, da potência e do controle social. Foi por isso que Marco Rubio insistiu que o problema não eram os jogadores, mas sim a delegação. É preciso ver quem fará parte da delegação que irá viajar. É isso que causa preocupação.
Com a confirmação da presença do Irã, permanece a dúvida sobre onde a seleção jogará. A seleção iraniana, vamos lembrar, está no grupo G, ao lado da Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os jogos estão previstos para Los Angeles e Seattle. Para o especialista Rafael Lemagoariek,
uma opção seria transferir os jogos para outro país sede da Copa, ou o México, ou o Canadá. Essa é realmente a solução, que os jogos sejam transferidos para outro país, sabendo que o Irã deveria jogar especialmente em Los Angeles, onde vive a maior comunidade iraniana nos Estados Unidos. Mas também é preciso ver que a seleção iraniana da República Islâmica não é necessariamente apoiada pela diáspora.
Uma parte dessa diáspora é contra essa seleção. O especialista em Oriente Médio também lembrou que a Copa do Mundo de 2022 no Catar aconteceu após a morte da jovem Massa Amini, detida pela polícia da moralidade iraniana por supostamente não usar o seu hijab de forma adequada.
Na ocasião, ressalta Le Magwariek, boa parte dos torcedores iranianos vaiou a própria seleção porque representava a seleção da República Islâmica. Para essa Copa, a FIFA não tem esse tipo de preocupação, como afirma o especialista.
A FIFA tentou organizar os jogos em locais onde houvesse muitos torcedores, mas existe esta questão da contestação, pois grande parte da diáspora vê a seleção hoje como a seleção da guarda revolucionária.
Casos recentes, como a desistência da delegação iraniana em participar do Congresso da FIFA no Canadá, após alegar problemas migratórios, também reforçam como a Copa do Mundo, que se aproxima, segue profundamente marcada pela geopolítica. Assim terminamos nosso programa Esporte em Foco. Até a nossa próxima edição.
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