Grada Kilomba (parte 2): “Interessa-me o chão comum. Na arte quero criar um senso de humanidade, revelando e desmantelando a violência”
Na segunda parte da conversa, a artista multidisciplinar Grada Kilomba reflete sobre como a violência e a desumanização se banalizam quando surgem novas crises e guerras, ao mesmo tempo que surgem novas forças de solidariedade. Grada nomeia Bell Hooks e Angela Davis, como vozes negras que a inspiram.
A artista recorda depois o que a levou a deixar a academia, e a deixar de dar aulas em duas universidades de Berlim, para se afirmar apenas artista e como as suas obras levam outras comunidades aos museus.
Grada afirma que o amor, assim como a arte, são atos políticos e de resistência e alerta para o facto de que os corpos femininos negros são ainda alvo dos maiores silenciamentos e violências.
No final, lê um pequeno excerto do seu livro “Memórias da Plantação”, partilha algumas das músicas que a acompanham e fala do seu regresso a Portugal, depois de duas décadas a viver em Berlim. Boas escutas!
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Bernardo Mendonça
Grada Kilomba
- Violência no MaliSolidariedade em tempos de crise · Corpos femininos negros
- Descolonização e arteImpacto da arte na sociedade · Acesso à arte e inclusão
- Politica EmocionalAmor como ato político · Ativismo negro
- Memórias da Plantação
- Experiências de artistas locaisRelação entre corpo e arte · Fragmentação do conhecimento
Eterna gentileza, companhia Cabem todos nessa travessia Fala leve que a delicadeza Também se assenta à nossa mesa E ela vem daquele estranho
Contam mais as palavras bonitas É nesse encontro que começa a ganhar No entretanto das palavras ditas Ela vem daquele mundo estranho Das conversas boas e fiéis
Uma conversa com Bernardo Mendonça.
Olá, bem-vindas e bem-vindos à segunda parte da conversa com a artista plástica Grada Quilomba. Depois, no final da primeira parte, termos ouvido um áudio surpresa do músico Dino Santiago, que trouxe aqui um testemunho e um olhar que comoveu aqui o estúdio. Antes de mais um comentário ao que ouviste, Grada, antes da resposta à pergunta.
Eu não tenho realmente palavras, eu estou muito comovida porque Dino Santiago é uma grande pessoa e um grande artista. Verdade, obrigado Dino.
Muito obrigada. As palavras, o gesto é imenso. Eu realmente não consigo ordenar os meus pensamentos. Ele começa logo com esta frase certeira. Há artistas que criam obra e artistas que deslocam o chão onde a obra acontece. É forte. Muito forte, muito poderoso.
Bom, ele recorda Bell Hooks, o amor é um ato político. E aqui amar é recusar que a dor seja a única linguagem possível.
Exatamente. Belo que se fala do amor como um ato político, lembrando-nos também que nesta história colonial e neste grande projeto de escravatura e neste grande projeto de colonialismo, as identidades não só eram separadas, os corpos não só eram separados, mas muitas das vezes eram proibidos de amar.
As mulheres engravidavam mercadorias, as crianças trabalhavam como mercadorias, os homens trabalhavam para criar mercadorias.
E havia uma segmentação da humanidade, do corpo negro. Não poderia ser humano. E não se poderia relacionar a um nível humano. Nesse sentido, o amor, o amar, o se relacionar, o estar em família, o estar em comunidade.
O apoiar e a solidariedade tornam-se, de facto, um acto político. Conseguir amar numa história de absoluta violência e violência cíclica que se perpetua, sempre com versões e facetas diferentes e mais atenuadas ou não, mas que se repete. E essa lembrança da humanidade e do amor através do amor através do amor.
a humanidade através do amor, sempre foi também o grande centro do ativismo negro e da negritude globalmente. Eu recordo grandes atores do ativismo e da humanidade como Martin Luther King.
apelava não só à libertação da comunidade negra, mas, acima de tudo, da humanidade por inteiro e de todas as comunidades pelo mundo. Angela Davis era uma das primeiras a apelar pela libertação da Palestina.
Isso vem do movimento negro, que atualmente é completamente apagado. Nos mídia ninguém sabe, mas há um apelo pela humanidade como um grupo quase divino e sagrado, que é a condição humana. A pergunta do Dino, o que fazemos agora que sabemos?
Como é que se responde a isto? Agora que sabemos, temos que fazer decisões radicais. Falaste do amor, o Dino também, o amor como ato político. Eu vou ler aqui um excerto de Bell Hooks, Tudo do Amor, livro da Orfeu Negro, e fala da importância do amor nos tempos de hoje.
Uma palavra desconsiderada até pelos jovens. E ela diz, Quando percorro o país para discursar sobre como pôr fim ao racismo e ao machismo, o público, em particular jovem, fica agitado quando me refiro ao papel do amor em qualquer movimento em prol da justiça social. Todos os grandes movimentos por justiça social têm destacado a ética do amor.
No entanto, os jovens continuam relutantes em abraçar a ideia do amor como força transformadora. Para eles, o amor pertence aos ingênuos, aos fracos, aos eternamente românticos. Como é que comentas isto? De facto, isto retrata estes tempos?
Absolutamente. Eu acho que há um esquecimento. Eu acho que quando entramos nestes momentos críticos da história de grandes conflitos e guerras, há por um lado um esquecimento à humanidade, do que é o humano, do que é o amor. Do que nos une. Do que nos une. O brutal, o violento torna-se banal.
Mas eu tenho esperança e acho que ao mesmo tempo e simultaneamente há um ato de crescido do que é a solidariedade e do que é o amor e da importância de estarmos solidários e em relação de amor com quem está em sofrimento.
E eu acho que isso, ambas as situações são prevalentes neste momento. Estão em simultâneo, são duas forças. Eu acho que são simultâneas.
Já te ouvi dizer algo, não te consigo citar, que é não estás interessada nas diferenças, mas no que nos une. Eu achei isso também valioso. Quando, bom, nestes tempos em que há as trincheiras, as divisões, o ódio que procura dividir mais, estás interessada no contrário.
A mim interessa-me acima de tudo o comum. O comum. O chão comum. E o chão comum. E eu acho que nas obras que eu crio, acima de tudo interessa-me despertar esse comum. Interessa-me acima de tudo criar um senso de humanidade.
desmantelando o que é violência, expondo e revelando o que é violência e como a violência tem formas quase matreiras de habitar os nossos dias e os nossos percursos e que é muito importante saber desmantelar e saber ver e ler e analisar o que está perante nós.
com todas essas complexidades, mas acima de tudo as minhas obras estão à procura do poético e do humano, sem repetir a violência, que eu acho que é um exercício extremamente difícil, mas extremamente importante para qualquer artista, que é como tematizar a violência sem repeti-la, sem repetir e expor de novo o brutal e a barbaridade.
Sem afastar as pessoas, eventualmente, que se ficam desconfortáveis. E sem traumatizar. Pois, como é que... E sem traumatizar. É uma linha. Eu acho que isso é extremamente importante. É uma linha difícil, mas importante. Eu acho que isso é o fundamento de ser artista, é conseguir trazer temas difíceis e violentos.
sem repetir essa violência e trazê-los de uma forma poética e trazê-los de uma forma humana que pode ser, que abala de facto porque nos faz lembrar e que tematiza situações que são complicadas e difíceis e conflituosas e para as quais nós não temos a narrativa como já disse anteriormente mas que as faz com um novo vocabulário poético.
E que nos faz sentar à mesma mesa a conversar. E que se nos faz sentar à mesma mesa a conversar e a pensar e a contemplar e, acima de tudo, a ouvir. Eu acho que é extremamente importante aprender a ouvir. O poder da escuta.
O poder da escuta. E os lugares de fala, não é? Absolutamente. Eu acho que um dos grandes exercícios de violência e de repetição é exatamente não saber e nunca ter aprendido a escutar. É muito importante escutar. E especialmente quando nós falamos de narrativas e de histórias que têm sido silenciadas ao longo dos séculos. Vividas em certas comunidades, em certos corpos.
Exatamente, e que são silenciadas e que não são reveladas e que são apagadas. É extremamente importante aprender a ouvir, simplesmente a ouvir. Tenho mais um áudio, grada. Desta vez do músico Alex Dalva. Vamos? Olá, Bernardo.
E olá, querida grada. Daqui é Alex Dalva. Eu tenho que começar por admitir que eu não sei como iniciar esta mensagem, que é profundamente saudosa, sem expressar a minha sincera gratidão pela oportunidade que eu tive de integrar a tua performance, o barco, e por tudo aquilo que aprendi contigo nesse processo. Eu aproveito também este momento para partilhar que a influência do teu trabalho está profundamente presente no meu mais recente projeto de discográfico, que se chama Livre.
em particular aquilo que tu partilhaste com o Sambl sobre a importância de pensar com o corpo e como a academia tende a privilegiar um intelecto que está desligado do corpo quase como se o pensamento fosse a única coisa que merecesse ser eternizada ao esculpir um busto e tudo aquilo que está abaixo do pescoço fosse dispensável.
O teu trabalho ensina-nos a fazer o contrário. O teu trabalho restitui ao corpo um lugar como uma verdadeira tecnologia de criação e pensamento. Bem, eu não sei se ainda há tempo útil neste episódio para nós explorarmos esta dimensão da tua prática artística.
apesar de, é facto, eu adoraria ficar horas a ouvir-te, mas a minha questão é outra, é uma questão que é inspirada na oportunidade que tive de ouvir-te refletir num Museu Rainha Sofia, onde foste a primeira artista portuguesa a ter uma exposição em nome individual, onde estavas a refletir sobre a tua trilogia O World of Illusions, onde através do recurso a figuras da mitologia grega
Tu fazes um diálogo profundo com a memória e a desconstrução de narrativas, então permita-me a ousadia de colocar a seguinte questão. Tal como o Édipo se debruça sobre o seu próprio reflexo e nele se perde, que questões é que a sociedade eurocêntrica ainda não teve a coragem de se perguntar ou sequer refletir por permanecer tão fascinada com a sua própria imagem?
E o que recusa ainda latente nesse prolongado estado de negação é que sustenta a dificuldade de confrontar o seu próprio mito antes que nele se afogue. Eu peço desde já perdão se esta pergunta for assim um bocadinho too much, mas foi como surgiu. Tenho imensas saudades tuas, grada, um beijinho enorme e um grande abraço para ti, Bernardo. Até já.
Bom, desta vez então ouvimos o músico Alex Dalva. Bom, ele fez parte da obra O Barco, na performance, e fala aqui de... Traz outras camadas e outros olhares sobre ti e sobre a tua obra. Fala disto, da tua exposição em nome individual no Museu Rainha Sofia, a trilogia A World of Illusions. Então, que comentário antes da resposta à pergunta?
Mais um momento muito emocionante para mim. Como Dino, eu adoro eternamente Alex. É muito bonito ouvir esta mensagem, de facto.
Alex fala de Édipus, mas de facto é Narciso. São três obras, uma trilogia que foi mostrada no Reino e a Sofia em Madrid.
Pois, Narciso é que fica a olhar para a sua imagem. Mas eu compreendo perfeitamente a sua questão, porque a questão que o Alex traz é a trilogia é uma instalação arquitetónica, na qual se gira em torno de três mitos, sendo um deles Antigona, outro Édipo.
E o primeiro, Narciso. E Narciso é uma história, como toda a mitologia, extremamente bela, de alguém muito lindo. Que é amado por todos, mas não ama ninguém. E que deixa os deuses extremamente zangados.
E Zeus fica extremamente zangado e decide castigar Narciso. Narciso é castigado com o facto de que se irá apaixonar por alguém, pelo qual alguém que nunca se irá apaixonar por ele.
E, de facto, Narciso chega perto de um lago e olha na superfície das águas e vê uma imagem refletida nessas águas, que é ele próprio, e ele fica admiradíssimo por ver alguém tão belo. E não se apercebe que essa é a reflexão dele próprio.
o reflexo da sua imagem pensando que é uma terceira pessoa pela qual ele se apaixona e ele começa a contemplar e a namorar essa imagem que ele vê
Ele, de facto, firma e confirma este amor por si próprio, pela imagem, tendo a ajuda de uma terceira figura, que é Eco. Eco era apaixonada por Narciso.
E eco era uma ninfa que corria atrás de Narciso e que também foi castigada com o facto de apenas repetir as palavras que houve, houve, houve, houve, a última palavra.
Então, o que Eco fazia, apaixonada por Narciso, escondia-se por trás das árvores, a olhar para ele, enquanto Narciso namorava a imagem e dizia coisas como como és tão belo, ela repetia aquilo que Narciso é belo, és belo, és belo, és belo.
Portanto, é uma constelação extremamente interessante porque é a mulher neste mito eco que vai confirmar ou consenso.
da sociedade que vai confirmar o narcisismo de Narciso. E esta comparação como é que reverbera sobre Portugal? Esta comparação vem para um estudo que se chama o estudo da branquitude e do colonialismo, desta obsessão pela imagem de si próprio.
E do seu passado, não é? E do seu passado. A glória do passado português. A glória, o corpo, a narrativa que é apenas uma e única e que é minha e que eu repito constantemente e que é afirmado com a voz de eco.
que são as mulheres, a mulher eco que apoia o sistema patriarcal colonial e que de facto confirma a Narciso de que a imagem está também apaixonada por ele.
Então, esta foi uma obra que eu fui uma comissão para a Bienal de São Paulo e eu lembro-me de fazer esta obra primeiro como uma performance e instalação e lembro-me nessa noite ter ido para o hotel e ter visto as notícias.
E as notícias do dia eram Donald Trump era o presidente dos Estados Unidos da América. Isto foi 2016 para 2017, a 32ª Bienal de São Paulo. E 53% dos votos de Donald Trump foram dados, foram votos de mulheres brancas. Eco. As eco.
É muito importante como a arte, de novo, e a mitologia e a literatura traz todos os instrumentos para nós pensarmos e repensarmos como é que a violência pode ser perpetuada, mas também como é que pode ser interrompida e desmantelada.
E Alex viu essa obra Mas Alex também faz parte De outras obras E muitas outras pessoas Que vão estar agora na Albuquerque Uma delas é Opera to a Black Venus Na qual Que é um requium
um réquium, uma instalação de vídeo com uma coreografia, com bailarinos e com todo o ensemble de Lisboa, com David Amado, que é um dos bailarinos com quem eu trabalho há já vários anos, assim como Alex, Luciani Cabral, que é uma das bailarinas que faz parte do ensemble de Pina Bausch na Alemanha.
Portanto, eu tive o privilégio de trabalhar com pessoas sempre muito queridas e muito inspiradoras. E nesta instalação de vídeo, que é uma ópera, é de facto um lamento, um requium. É um lamento aos horrores do agora.
E nessa coreografia as vozes do ensemble são reduzidas ao mínimo e por cima, de facto, tem uma improvisação de piano tocado a quatro mãos em que eu toco com a minha filha mais pequena. Ah, sim? Nós temos o hábito de tocar o piano. Sim. Como é que se chama essa tua filha?
A que anda, a que anda sereia do mar. Nós temos o hábito de tocar piano improvisado a quatro mãos e eu gravo, porque eu penso sempre que eu vou utilizar as obras e esta obra, quando eu comecei a fazer esta obra, para que?
O Rainha Sofia Constala Baden foi o início do genocídio na Palestina, que se questionava o que é um genocídio, que não é quem é cúmplice, quem não é. Quando se começou, de facto, a ser revelado que as grandes vítimas do genocídio são, acima de tudo, mulheres e meninas e crianças.
E eu utilizei exatamente esse piano tocado a quatro mãos, a improvisação, como a base sonora dessa obra. E essa improvisação é extremamente importante porque eu amo jazz. E jazz é improvisação, é essa desobediência à linearidade da música.
Vai fazer parte desta exposição O Fundo do Mundo, que pode ser visitada a partir de 30 de maio e daí para a frente na Fundação Albuquerque, com várias obras tuas em Sintra. Chegaste à psicologia e à psicanálise porque te atraía ou porque era uma possibilidade que vias para ti?
Talvez ambas as opções. Eu acho psicanálise absolutamente fascinante. Também acho. Acho absolutamente mágico. Assim como eu acho a arte absolutamente mágica. Então foi quase um casamento de interesses.
obviamente que a arte é um grande privilégio poder estudar arte. Não é para todas as pessoas? Não é para todas as pessoas, eu venho de um lugar periférico, da linha de Sintra, em que eu me recordo ser a única que foi estudar na universidade, portanto era algo muito único, maior parte.
dos jovens e das crianças, era um lugar extremamente, eu diria hoje, olhando precário, eu diria, porque em que maior parte dos jovens desistiam de estudar e começavam a trabalhar muitos jovens e não tinham acesso à educação em casa. A educação sempre foi algo extremamente importante. Eu lembro-me sempre de ouvir que a educação é o ouro da humanidade.
O meu pai disse que isso é o mais importante Falar o máximo de língua Ler o máximo Estudar o máximo Escrever Fazer tudo Eu queria ser bailarina Foi dos primeiros desejos Sim Dançar sempre foi o meu elemento principal Por isso a performance é tão importante Também na minha obra Eu sempre vi E humorizei E se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se se
Tudo através da forma e do movimento e da coreografia. O corpo, o corpo. O Alex falava da academia, a teoria costuma isolar o corpo e a cabeça, tu não. Exatamente, exatamente.
Isso é uma história muito engraçada que eu sempre contava ao Alex e a todos no ensemble para perceberem o que é o conhecimento, em que base é que o conhecimento ocidental foi construído, que é absolutamente a partir da fragmentação, em que tudo é fragmentado, como as identidades são fragmentadas, ou és uma coisa ou és outra, não se podem ser...
Várias e múltiplas complexas coisas. E essa fragmentação também é um exercício do colonialismo para poder controlar, dominar e definir. Engavetar. Engavetar quem é e quem não é, quem pertence e quem não pertence. O que cria feridas extremamente profundas para imensas biografias.
Mas, um dos exercícios, uma das histórias que eu lhe contava muito era, eu dei aulas na Humboldt Universität e na Universidade em Viena de Arte, durante muitos anos.
E eu explicava que eu ia sempre com os alunos para dar um passeio por dentro da universidade e nós íamos observar o que era aquele palácio do conhecimento, o que é o conhecimento, quem é que pertence e produz conhecimento de facto. E nós percorríamos os corredores e eu perguntava aos alunos o que é que eles viam e começávamos por discutir que eles viam uma série de bustos de homens.
E que tinham uma cabeça e que tinham um pescoço e por vezes tinham parte dos ombros. E eu perguntava a essas seminárias, eu tinha sempre muitos alunos, de 80 a 120 alunos, eram sempre seminárias muito visitados. E eu perguntava o que é que essa fragmentação corporal quer dizer na produção de conhecimento.
Não só quem é que está a produzir conhecimento, mas como é que o conhecimento é produzido. E nós chegávamos à conclusão que é produzido através da cabeça. Ou seja, conhecimento é algo cognitivo apenas. Cognitivo que fica na cabeça e que é produzido na cabeça. E que essas cabeças produzem conhecimento sem lugar. E sem corpo.
Sem mãos, sem braços, sem coração, sem pernas, sem sexualidade, sem genitais, sem pés por onde andaram. E esse conhecimento fragmentado que é depois oferecido como conhecimento universal.
e depois a partir daí começávamos a desconstruir o que é o conhecimento e a validação de conhecimento que era sempre um exercício muito importante quando nós estávamos a ensaiar para as performances ou para os 18 versos e para as várias obras que vão ser apresentadas agora eu falava sempre para o ensemble pensem com o corpo, pensem com o corpo
Pensem com o corpo. Que interessante. E, curioso também, pelo que sei, houve uma decisão radical a determinado momento da tua vida. Tu deste aulas em duas universidades em Berlim, não foi?
Sim, na Humboldt Universität, eu estive durante muitos anos, às vezes dava aulas paralelamente na Humboldt Universität Berlin e Freia Universität Berlin, porque fui convidada por ambas, então dava aulas em ambas as universidades, em Viena, na Áustria, no Gana, em Acre, em Johannesburg.
Já dei umas voltas. E a determinado momento decidiste rescindir, deixar de dar aulas, ousado, porque é um lugar de privilégio, é um lugar de passar conhecimento, não é? Mas percebeste que não era ali que podias provocar mudança, realmente, porque também não era o espaço mais inclusivo do mundo, então.
Foi de facto uma decisão radical e sempre lembrando que radical é mesmo uma terminologia muito bonita e muito bela e muito positiva, especialmente mudando o paradigma quando se vem de um lugar de precariedade. A radicalidade é fundamental, é muito importante.
E eu apercebi-me que é lindo trabalhar com 100 alunos todos os semestres e dar vários seminários. É extremamente bonito. Mas eu também me apercebi que eu estou a trabalhar com pessoas que têm acesso à universidade e que há um mundo de pessoas que não têm acesso ao meu trabalho.
E foi um momento muito importante em que eu decidi desistir do meu contrato de professorship na Humboldt University e desistir do contrato e comecei a trabalhar somente nas artes como artista.
Simultaneamente, nesse momento, tive um convite também da Máximo Gog e Teatro, que curiosamente fica em frente a um bode universitete e que me convidou para fazer uma intervenção artística naquele teatro, que é um teatro extremamente importante na Alemanha e em que fiz um trabalho também, aí eu reiniciei o meu trabalho.
E foquei-me simplesmente às artes. E apercebi-me que, através da arte, eu chego a muito mais pessoas. Para além de fazer aquilo que eu realmente amo, eu chego a muitas pessoas simultaneamente no mapa. Portanto, nós estamos aqui sentados, mas as obras estão em exposição em vários países.
neste momento, em vários continentes, neste momento em looping e a ocupar espaços públicos. Embora estejamos aqui, portanto, há quase uma realidade paralela que a arte contemporânea permite, que uma artista produza uma obra e que depois esta obra se multiplica em quatro ou três ou cinco edições e que está exposta pelo mundo inteiro e que é visitada.
e vivida por vários públicos simultaneamente. Eu acho isso extremamente democrático. Também me apercebi que, quando as minhas obras entram num museu, também entra uma comunidade e grupos e coletivos que geralmente nunca teriam a coragem de entrar dentro do museu. E eu tenho uma história muito, muito bonita, que eu não sei se temos tempo para contar.
da minha primeira exposição individual em Portugal, que foi no MAT, de facto. Em 2017. Em 2017, foi a primeira exposição em que o MAT foi o primeiro museu a adquirir para a sua coleção uma obra minha. E nós fizemos toda uma exposição em torno dessa obra.
E eu ia montar todos os dias, na altura de montagem, entrava no museu e havia um senhor que estava na porta do Museu do Mate, um senhor angolano, que me dizia todos os dias, bom dia, bom dia, como está, como está, como está? Ah, bom dia, adeus, bom trabalho, bom trabalho. Bom dia, bom dia, como está, como está? Ah, bom trabalho, bom trabalho. Chegou um dia que ele me perguntou, mas o que é que você vem aqui fazer todos os dias?
E eu disse, eu sou artista. E ele ficou perplexo. Artista? Sim, eu sou a artista que vai expor a próxima exposição, vai fazer a próxima exposição. E ele, de facto, ficou em silêncio, olhar para mim. Artista? Sim, vai expor.
No museu, sim. Todo, sim, numa grande parte. E a perplexidade com a qual ele reagiu à minha presença naquele espaço, naquela arquitetura, mostrou uma importância que é, a radicalidade que é, ocupar um espaço como um museu. E ele disse-me uma coisa muito bonita e disse, sabe que eu nunca entrei no museu?
Nunca entrou? Não. Eu entro por um lado, vou vestir a farda, saio, estou aqui na porta, controlo quem entra e sai, e depois no fim do turno volto de novo, para mudar a farda para roupa. E eu disse, então, nós vamos abrir no dia X e Y, venha e venha com a sua família. E ele veio.
E disse-me que foi a primeira vez que entrou num museu e que viu uma exposição. Isso para mim foi um momento de absoluta beleza radical.
Que história. E faz-nos refletir quem tem acesso aos espaços, mesmo de um museu, não é? Exatamente. E quem se sente seguro e que pode ocupar esses espaços ainda, não é? Exatamente. E eu acho que Dino de Santiago colocou a questão, o que fazemos quando sabemos?
E quando nós sabemos, isso também implica que a programação do museu, quem é convidado, quem recebe os prémios, quem recebe uma plataforma para exposições, quem recebe os catálogos para serem publicados e etc. São decisões extremamente importantes porque nós estamos a criar novas narrativas. Novas possibilidades. Porque se não as criarmos, vivemos sempre no passado.
Tenho mais um áudio para ouvires. Este é da professora Jaimília Ribeiro, vindo do Brasil. Claro. Grada, querida. Aqui é a Jaimília.
Primeiro, que eu achei lindo o nome do podcast, A Beleza das Pequenas Coisas, porque eu acho que isso tem muito a ver com o seu trabalho. Você é uma pessoa que dê coreografias do impossível ou a partir do barco. Você traz essa beleza, muitas vezes, em coisas que a gente passa despercebida. O seu trabalho nos conecta com essa delicadeza.
da vida, apesar de todas as durezas que existem nela. Quando eu, em Oti, assisti a performance do barco, fui tomada por uma emoção muito grande, impossível de controlar, porque muitas vezes a gente não percebe que mesmo...
nessa história que a gente tem do colonialismo, nós somos esses sujeitos que constroem beleza a partir desse cotidiano. Eu acho que você faz com que a gente enxergue isso, que a gente enxergue os nossos corpos como sujeitos capazes de trazer essa beleza através...
da sua arte, através do seu olhar. Isso, para mim, é algo que o seu trabalho, no seu trabalho, me toca muitíssimo. E desde a primeira vez que eu tive contato com ele e depois o contato que eu tive contigo, que é uma relação de muito amor, de muita admiração pela mulher que você é.
pelo trabalho que você faz, que toca o mundo e faz a gente enxergar essa beleza das pequenas coisas. Grada, uma pergunta para você. O seu trabalho tem tido uma recepção muito importante, interessante no Brasil. Você esteve recentemente agora no podcast, no Mano a Mano, você já veio lançar livros, já veio apresentar...
exposições e performances, como que você enxerga o impacto do seu trabalho e a recepção com o público brasileiro. Um beijo.
A Jamila, minha querida Jamila, é incrível. Eu estou muito sempre surpreendida com estas surpresas. É uma pessoa muito, muito querida, uma pessoa muito íntima no meu coração. Jamila, nós temos feito juntas um grande percurso nessa consciência que somos muito poucas.
que caminhamos sem cair, às vezes com empurrões e pés que nos colocam à frente para nós tropeçarmos. Ainda? Sempre. Eu acho que é algo que sempre acontece, é preciso saber contornar e ter essa dignidade e essa força e essa beleza e essa visão, essa paixão.
Firmeza? Essa firmeza de qual é o propósito, que não nos deixamos derrotar por pequenos idiotas. É muito importante essas conversas que nós tivemos. Eu tenho grupos de artistas, amigos, que são muito importantes nestas comunicações, como nós ultrapassamos e contornamos.
Às vezes, os pequenos dificuldades deste caminho, porque nós falamos dos sucessos, mas o sucesso não vem por si só. Nós caímos muitas vezes, trabalha-se muitas vezes em grande isolamento. Quanto mais intelectual e quanto mais internacional e mundial, o trabalho é mais único, únicas nós somos.
mais solitário portanto as pessoas em nosso redor são escolhidas a dedo são pessoas muito profundas a Jamila é uma dessas pessoas muito profundas por quem eu tenho uma grande admiração e um grande amor também e o Brasil como Jamila tem sido extremamente importante para mim eu amo o Brasil
como amo muitos outros lugares também e eu digo eu amo o Brasil porque tem sido um lugar extremamente generoso para comigo extremamente generoso o público tem sido extremamente generoso porque eu acho que o Brasil já está num outro lugar diferente de Portugal e eu acho que o Brasil já está num outro lugar
Que lugar é esse que o Brasil está? É um lugar de absoluta, voltamos à palavra, radicalidade, ou de absoluta desconstrução, descolonização. É urgente, não é um tema passageiro que um ou outro traz para a mesa de discussão, mas que é uma urgência, uma necessidade.
e que é impossível construir uma exposição sem ter determinados princípios. Então, o trabalho, por exemplo, a exposição na Albuquerque é feita com a Giacobbo Visconti, que é um curador que eu muito admiro há muito tempo, que é um grande curador.
italiano, que já fez a Bienal de Veneza, a Bienal de São Paulo e que vive em São Paulo. Portanto, há uma linguagem já em São Paulo, no Brasil, que nos é um pouco desconhecida ainda na Europa, eu diria.
que é uma linguagem descolonizadora que já é corrente e normalizada para poder entrar dentro de estruturas e servir-se no público. Por exemplo, quando nós abrimos na Pinecoteca de São Paulo, ou, por exemplo, em Nhotim,
O museu disponibilizou 30 autocarros para transportar pessoas, para virem ver a disposição. Os 30 autocarros gratuitos estavam superlotados. Pessoas que vinham de outras localidades. As pessoas vêm às centenas. As pessoas vêm...
de distâncias que poderíamos comparar com vir de Berlim para Lisboa da Suécia para Lisboa pois que o Brasil é gigante porque o Brasil é um continente portanto há ali um nível de intelectualidade de conhecimento
de paixão. De inclusão. E de inclusão também, de responsabilidade. Eu estava a falar com o Jacopo quando fazer o fundo do mundo também esta questão da responsabilidade. Voltamos outra vez, o que fazer quando soubermos. Quando soubermos, temos que tomar responsabilidade. Uma exposição não pode simplesmente ser mais uma exposição.
Eu lanço-te a pergunta, espero que não incómoda, como fazer isso cá? Ou seja, falaste dos tantos autocarros que te trazem tanta população para Minas Gerais, não é? Exatamente. Como fazer isto para uma exposição grande que tens agora na Fundação Albuquerque, em Sintra? Como fazer com que muitas pessoas possam ir de várias localidades?
Eu acho que nós estamos a fazer, ou o museu está a fazer um trabalho incrível, que faz parte de todo o nosso conceito, de conceito de exposição, que é, primeiro, nós vamos trazer, de facto, obras que nunca foram vistas aqui e que refletem muito o início da nossa conversa ou da tua introdução, que é o fundo do mundo. E é uma visão muito futurística do que...
Se o mar desaparecesse, o que é que ele iria revelar? E nesta exposição, assim como nas últimas obras que eu tenho feito, nos últimos anos, eu exploro muito como a natureza e, de facto, a materialidade das obras conseguem ser um arquivo de memória, um arquivo da humanidade. Se nós vaziassemos o oceano...
O fundo do oceano iria-nos, ou o fundo do mundo, iria-nos revelar uma série de corredores humanos que atravessam um continente para o outro, que atravessam um país para o outro, que mostram as feridas humanas e que mostram...
como milhões de pessoas foram atiradas ou caíram ao mar para fugir a guerras, a genocídios, crises climáticas, ou porque foram tornadas mercadoria para enriquecimento de um império. Portanto, é extremamente complexo.
São as grandes dores do mundo que foram parar ao fundo deste oceano. Exato, mas Bernardo, a beleza é que a natureza consegue fazer algo, a flores em particular, consegue fazer algo que mesmo que os humanos tentem apagar e politizar a história e apagar ou negar a história, de facto a natureza revela sempre, ela é revelada. Vai lá de cima.
Quando nós estávamos a fazer o barco, ou, por exemplo, começamos com uma obra que começa fora, no espaço de fora, para dentro, a madeira, por exemplo, que é queimada, fizemos uma grande pesquisa e apercebemos quando mostramos em Kondstahla Baden-Baden que...
À volta do museu, nós estamos rodeados pela Floresta Negra e a Floresta Negra era o grande fornecedor de madeira para o Mediterrâneo, para Portugal, Espanha e Itália, para criar, para construir os barcos chamados barcos negreiros para a escravatura.
Ou seja, quando nós hoje, em 2026, vamos à Floresta Negra, a floresta pode-nos revelar esta ferida, este momento histórico, tendo em conta que uma árvore, e por isso as árvores eram importadas da Alemanha, uma árvore que tem 200 a 300 anos de idade e que é cortada e é transportada da Alemanha para Portugal para criar os barcos.
Essa árvore, quando é plantada de novo, nós conseguimos na floresta ver quais são os pedaços, as cicatrizes na floresta que revelam essa história. E depois, ainda mais complexo, esses barcos são construídos aqui, navegam.
navegam para o continente africano e navegam do continente africano passam por São Tomé e Príncipe que era usado como uma ilha de depósito de troca de corpos, de descanso para que os corpos não morressem para que as pessoas para que não houvesse perda de mercadoria tão brutal e cruel é a realidade e atravessa para o outro lado se faz se puede se puede
E volta exatamente de Minas Gerais, recheado de ouro e de minérios de Minas Gerais, mas também de sementes e plantas e árvores como palmeiras e as belas plantas que depois vão construir os jardins botânicos dos palácios em retor de Lisboa, incluindo Sintra.
Do tal exotismo, não é? Exatamente. Então há essa complexidade, essa coreografia histórica que se repete e que está presente na natureza, que eu acho extremamente bela. Depois refletir de uma outra forma.
Vamos dar a música à nossa conversa Que músicas nos troceste Para arranque Nils Fram says E depois mais Tens agora Miles Davis, Blue and Green Porque é esta
Miles Davis é essencial. E termo, não é? Eu ouço muito música eletrónica, assim como jazz. E trabalhas às vezes a ouvir Miles Davis? Sempre. Kind of Blues. Esse faz parte desse álbum.
Ele talvez tenha sido um dos primeiros concertos que eu vi aqui no Coliseu de Lisboa e talvez um dos últimos que ele deu antes de falecer. Foi um momento histórico para mim, com aquela figura absolutamente stylish, com os seus óculos escuros a tocar, o trompetista a tocar de costas para o público, muito, muito envergonhado, muito sereno.
depois trouxeste também a artista Veneram que no fundo é uma soprano do Mauricio de França, é uma das sopranos da da diáspora africana mais importantes e ela canta a obra de Henry Purcell que é King Arthur e tem essa música que é uma das que
das partes mais belas que eu ouvi que é The Power Art Though que no fundo é o espírito do inverno a ser acordado e a dizer, por favor não me acordem que eu não consigo não consigo acordar deixem-me congelado na morte
mas que de facto tomou outras dimensões quando uma mulher negra, uma soprana, canta esta ópera e fala sobre Eu quase não consigo respirar Deixem-me morrer, deixem-me congelar até à morte e que depois toma uma outra dimensão quando nós falamos.
de violência atualmente e de violência racializada e de femicida e de violência nas comunidades LGBTQI e comunidades migrantes e essa grande frase, I can hardly breathe.
Lembra de George Floyd Exato E como clássico Como estas obras Porque é uma obra de Purcell de 1650 Eu acho Do século XVII E eu amo ouvir ópera E depois a outra obra É de Robert Hood Que é um clássico
A Minas, que é o grande pai do techno, da eletrónica e da música minimalista, que vem de facto de Detroit, Michigan e de Chicago, e que eu vivo em Berlim e techno e eletrónica é extremamente importante e que se pensa que é uma música que vem da Europa, mas que vem de facto da comunidade afro-americana.
e da comunidade queer afro-americana, e que é extremamente importante. E é forte. Essa comunidade em Berlim... É, mas Robert Hood vem dessa comunidade. Foram eles que criaram, nos anos 90, o minimalismo eletrónico, que foi uma inspiração para Nils Fram, depois.
E eles, de facto, tematizam a violência e tematizam a beleza também, e a criação de beleza através do minimalismo. E é muito bonito porque, quando eu descobri o trabalho de Robert Hood, Minus, também foi uma altura em que eu estava a dar aulas em Accra, no Ghana, num departamento de Performing Arts e Música.
E eu aprendi algo fundamental, que foi que a música em África não é escrita linearmente, com começo e fim, em linhas, numa pauta, mas em círculos. É circular.
E o que o Tecno e a Eletrónica mostra exatamente é como circula a música. Vem um beat e circula como aos planetas e movimenta-se. E depois vem um ou outro beat e movimenta-se em ciclos.
Eu trabalhei com um professor, um compositor do Ghana, que mostrava como escrevia a música em ciclos e como estes ciclos se tornam elos e assim se compõe uma música. O que mostra todo o trabalho artístico que é temporal, que ultrapassa essa ideia do passado, presente e futuro. E que aquilo que nós pensamos que é passado realmente pertence ao presente.
e sempre pertencerá ao presente e que essa segmentação, essa separação de tempo é mais uma vez uma construção colonial para ter acesso ao que passou, já passou não se fala, agora é ou agora e assim pode-se controlar o tempo e o espaço e o que as culturas e os povos originários e ancestrais falam é de a temporalidade, o tempo é comum e o tempo coincide se faz
falar sobre a escravatura é tão importante como falar do Black Atlantis que é o que depois Robert Wood e muitos músicos da eletrónica constroem esta ideia, este mito do Black Atlantis e dizem que todas as mulheres grávidas que foram deitadas na travessia atlântica todas as crianças de facto sobreviveram se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se puede se
E conseguiram desenvolver um sistema respiratório debaixo d'água e construíram uma sociedade de paz futurística que está para além da humanidade sobre a Terra. Isso é o Black Atlantis.
Que imagem. Obrigado. E já agora pedi-te um excerto para leres de Memórias da Plantação. Não sei se queres ler algum dos excertos.
Falamos sobre ferida e talvez dois pequenos parágrafos que pertencem a este livro. Um deles é o colonialismo. É uma ferida que nunca foi tratada. Uma ferida que dói sempre. Por vezes infeta e outras vezes sangra. Por vezes também mata. Pois.
E por isso, o passado colonial é memorizado de uma forma em que não é esquecido. Às vezes é preferível não lembrar. Não queremos saber, mas a teoria da memória é na verdade uma teoria do esquecimento. Não podemos simplesmente esquecer e não podemos evitar lembrar.
Obrigado pela partilha. Sugestão cultural, tens um filme, não é? De 2009, eu não sei dizer este nome, da Shirin Nechad.
Shirin Nechat é uma extraordinária artista do Irã. Nós, curiosamente, estamos na mesma galeria na África do Sul e em Londres. É uma das artistas mais extraordinárias que eu conheço e ela trabalha com a imagem e com o filme.
E um dos filmes mais bonitos e que é muito atual, que é Women Without a Man. Mulheres sem homem. E ela faz um retrato do que é o pós-colonialismo, como os países da...
A Pérsia, onde é hoje Irão, e todos os países do Golfo Persa e Árabe, que é tão atual, e a relação com Palestina e com todos os outros países, como há uma ocupação e como há uma mudança de regime e um controle da identidade e como isso afeta as mulheres e qual é o refúgio das mulheres.
E ela retrata quatro mulheres diferentes que não têm homem e quase como quatro formas diferentes de viver a violência patriarcal e as mudanças políticas.
e também de atuar sobre elas. E como se libertam. E como se libertam dessa violência. Eu acho que é algo muito... É uma história que poderia ser contada em Portugal, podia ser contada em Angola, podia ser contada em qualquer lugar, mas é contada neste momento no Irão e num espaço geográfico que eu acho que tem uma urgência neste momento que é singular.
Estamos perto do final desta conversa. A vida tem sido boa para ti.
Eu sou, quando eu trabalho, eu geralmente trabalho com muitas pessoas, especialmente na montagem, nas performances. E um dia eles sorriram para mim e disseram, Grada, estás sempre a dizer uma frase. Eu sou a artista mais feliz do mundo.
E perguntaram-me porquê. E, de facto, eu sinto-me muitas vezes muito feliz. Porque eu faço, de facto, o que eu absolutamente amo. E ao fazer e criar aquilo que eu amo, vejo também que desperto humanidades e bondades e contemplações noutros humanos. E isso faz-me extremamente feliz.
Se a vida foi sempre boa comigo, não. Mas eu acho que a vida nunca foi boa com toda a gente, sempre. A vida tem altos e baixos e tem tropeços e lama e afundes. E pequenos idiotas.
E idiotas, pequenos e grandes E tem pessoas lindíssimas E inteligentíssimas E boas E carismáticas E visionárias E depois eu acho que o grande exercício da vida É saber escolher Com quem nós estamos E trabalharmos Com as pessoas Que têm essa grande visão E essa grande beleza E essa grande humanidade E essa grande humanidade
E assim eu torno-me uma das artistas mais felizes do mundo, de facto. Que bom. Que grandes sonhos tens para ti e para o país e para o mundo, não sei. Eu tenho sonhado muito com a paz. É algo que eu acho muito urgente. Pensar na paz, na humanidade, nas transformações radicais e nas decisões radicais que eu acho que são urgentes serem tomadas.
e eu quero muito criar trabalho e continuar sempre a criar trabalho que eu sei que me faz feliz e que transforma também muitas outras pessoas e que depois é exposto pelo mundo inteiro
Mas também me faz extremamente feliz mostrar, ter esta mostra, esta exposição individual aqui, porque é um pouco como voltar às origens, não só porque é em Portugal, mas porque também é em Sintra. E Sintra é um conselho muito sentimental para mim, porque foi onde eu cresci, e é um conselho extremamente belo e mágico.
mas também pode ser muito urbano e que tem uma das populações mais jovens do país e é um dos conceitos mais povoados. E voltando um pouco à pergunta que fizeste anteriormente, nesta exposição nós temos um programa que acompanha toda a exposição que traz muitas pessoas dentro do museu e traz muitas escolas dentro do museu.
Traz cozinheiras para dias de comida, traz workshops de dança com bailarinos como David Amado, que desmantela o que é o ballet clássico.
traz workshops de som e de voz e pessoas que trabalharam comigo no ensemble vêm ativamente fazer parte desta exposição e isso faz-me extremamente feliz. Eu acho que muitas pessoas podem vivenciar a arte e ocupar o museu.
Abrir um museu às comunidades. Exatamente. E a várias e múltiplas pessoas e a várias e múltiplas gerações. E isso eu acho que é o mais belo do espaço do museu. Porque na arte, realmente, tudo pode acontecer, especialmente na arte contemporânea, tudo é possível.
Como sabes, este podcast chama-se A Beleza das Pequenas Coisas a que pequenas coisas do dia-a-dia atribuís agora interesse, beleza e tens gosto em dedicar tempo e atenção. Pequenos grandes prazeres atualmente.
Eu agora movimento-me entre Berlim e a Vila de Sintra. Tem um pé em cada lado. Tenho um pé em cada lado, o coração nos dois lados. Eu voltei às origens, estou a preparar espaços aqui. O meu estúdio e equipa ainda está em Berlim.
Mas tenho trabalhado entre a Vila de Sintra e a Berlim. E uma das coisas que me tem encantado mais é, de facto, a força da natureza, que é uma coisa inacreditável.
às vezes vejo-me ouvir os pássaros e desenhar folhas e o movimento dos animais. Encontrei há pouco tempo um colibri no jardim que vinha.
que vim a beber o sumo das flores. E depois encanta-me apanhar o comboio e atravessar toda a linha e ver, olhar as pessoas, ouvir as diferentes.
línguas, o crioulo de Cabo Verde o forro de São Tomé ouvir o português, ouvir línguas que eu não conheço ver a complexidade da humanidade ver os turistas, as pessoas que vêm em visita, as pessoas que vão trabalhar encanta-me observar, encanta-me parar no tempo e observar o que me rodeia
Eu gosto muito de estar aqui E de reatar com muitas pessoas Que eu acho que são muito especiais E hoje vieram muitas pessoas especiais Ao podcast, à conversa Assim como tu também És tão especial destes momentos Obrigado
Eu acho que quando eu trabalhei, eu falei 25, mas foram 27 anos de facto fora internacionalmente, eu apercebi-me do poder que a arte é e dos grandes museus e grandes coleções em que movimentamos e eu acho extremamente interessante começar a produzir daqui e criar as plataformas aqui. Às vezes quando eu vejo os jovens servir às mesas os cafés.
E a construir, eu imagino, eu acho que este jovem quer ser arquiteta, ou quer ser camerawoman, ou quer ser muitas outras coisas que não pode. Eu acho que quando temos uma carreira internacional assim, podemos reconstruir estas cartografias de novo, radicalmente.
Bem-vinda de volta Obrigada E obrigado Por esta partilha Obrigada pela beleza, pela conversa Obrigado E visitem esta exposição O Fundo do Mundo Na Fundação Albuquerque A partir de 30 de maio E daí para a frente Em Sintra Podem conhecer um pouco do tanto Que a grada tem feito na arte Obrigada
E terminou assim este episódio com a artista plástica Garada Quilomba. Espero que tenham gostado, certo que sim. Se assim digam coisas, enviem críticas, sugestões, opiniões. Partilhem o podcast com a malta que vos rodeia. Podem encontrar-me por aí nas redes sociais. Gosto sempre de ter o vosso feedback. Como sabem, nesta temporada o genérico é da autoria da garota não. E as historias desta vez foram do José Fernandes.
A edição áudio foi como é hábito do Francisco Marujo. E pronto, é tudo por agora. Volte para a semana com mais uma pessoa convidada. Até lá, tenham boas conversas com empatia. Grada, como é que tu despedes das pessoas? Uma ideia, uma frase, uma partilha. Breve. Eu estou simplesmente muito feliz de voltar a mostrar aqui e aqui em Portugal. E eu acho que vai ser um momento único e bonito.
E portanto, juntem-se. Apareçam. Sim. Obrigado. Juntemos. Isso. Obrigado. Obrigada. Obrigada.
La la la la la