Atina Pra Isso #129 [VIDEO]: Ògún
Neste episódio olhamos para um dos orixás mais celebrados das matrizes africanas, Ògún! Para além da perspectiva da guerra, refletimos sobre outras virtudes e infortúnios do que Ògún ensina enquanto lição e legado.
O Atina pra Isso está no Ar!
Escute, compartilhe, e continue essa conversa com a gente!
📢 Apoie o projeto → apoia.se/atinapraisso
📱 Siga o Pai David Dias nas redes sociais → @davidumbanda
⭐ Avalie o podcast com 5 estrelas no Spotify
📥 Siga o Terreiro Aruanda → @terreiroaruanda
🔗 Indique para mais pessoas!
- Ògún para além da guerraSincretismo com São Jorge · Dia de Ogum em 23 de abril · Descolonização da Umbanda · Crítica ao cristianismo na Umbanda
- Deus do ImpossívelA dificuldade de celebrar vitórias · A luta contra o capitalismo e a uberização · A importância do descanso e do lazer
- Itã de Ogum e a transformação da terra em ferroEbó e a consulta a Orumilá · Ogum como ferramenteiro · Ogum como orixá da criação e transformação
- Interpretação de Textos SagradosA leitura ocidental e cristã · A subjetividade das matrizes africanas · O problema do sincretismo estrutural
- Ogum e a celebração das vitóriasA guerra que termina em celebração · A necessidade de comemorar conquistas · O descanso como virtude de Ogum
- Cultura e SociedadeOrixás como ancestralidade que se baseia no futuro · Ogum como orixá da tecnologia e do futuro · A necessidade de encontrar o orixá no cotidiano
- Ogum como orixá do arrependimento e do aprendizadoO erro de Ogum ao matar seu povo · A necessidade de superar traumas e limitações · A importância de não se banhar com sangue
- A beleza da cantiga e dos pontos cantados de OgumPonto cantado 'Ogumbachona, nação Tupi' · A amarração dentro do terreiro
Mais forte que o tronco do baobá, intenso como o bafo do armatã, com a força do leão enfurecido, o negro baixou nas areias de tupã.
Chegou mais um, ô grande Ogum. Chegou mais um, ô grande Ogum. Símbolo fiel da lealdade, orixá do ferro, irmão de Exu.
Preso foi para trás das grades Ou dentro da senzala Kizungu Chibata deu banho de sangue
Mas não cala a voz do orixá. Que lombo fez Saraferida grande. E o rabo de arraias uniu no ar. O gumbachô na nação tupi. Gê-me, birimbaucho, calheu cá, xixi. O gumbachô na nação tupi. Gê-me, birimbaucho, calheu cá, xixi.
O Deus voltou para o seu ilê, para o seu vinho de palma, para o seu batuqueje, mas do ouro um bradou.
Que não abandonou seus filhos, não. Enquanto houver batuque de batalha, Ogum de longe gargalha na ponta do meu facão. Enquanto houver batuque de batalha, Ogum de longe gargalha na ponta do meu facão.
Ogumegê é naruê, ogum de ronda, na linha de choroquê, malungo vem se demanda. Ogumegê é naruê, ogum de ronda, na linha de choroquê, malungo vem se demanda. Patacuri ogumie, pro general da banda. Ogumie moie.
Esse ritmo binário é a macumba que come solta, o galão do banto para um bando afro-brasileira. Saravá Umbanda, a China pra isso tá no ar. E de onde? Do Dia do Trabalhador. Na verdade, o final de semana, o feriado. A emenda de feriado do Dia do Trabalhador. E eu tô gravando num estúdio hoje completamente diferente. Na verdade, não. Tô gravando dentro de casa mesmo. Por quê? Porque eu tô em retiro.
Eu decidi nesse final de semana Eu não vou pra estúdio Eu não vou pro Arwanda Studios Eu não vou pro terreno, eu não vou pra lugar nenhum Hoje vai ser um retiro em que eu vou me enclausurar Dentro da minha casa Porque chega dessa vida de ter que fazer um monte de coisas Inclusive
Eu tô aqui há muito tempo pra falar sobre esse orixá, mas eu esperei passar esse monte de coisas, esse monte de textos, de publicações, de ideias, de compartilhamentos, enfim. E aí chegou o momento em que eu aqui decidi gravar esse episódio em vídeo, porque eu tô me sentindo muito à vontade aqui em casa, e eu acho que é um episódio que pede com que a gente fale um pouco sobre esse orixá, que principalmente está pra além desse estereótipo construído socialmente.
Semana passada foi publicado um texto meu, no Alma Preta, como sempre, todo mês eu publico, há um texto em que eu falo sobre o orixá civilizatório Ogum para além da perspectiva da guerra. E acho que é um pouco disso que eu quero falar hoje, por isso que eu me atentei, inclusive, em não construir nenhuma ideia que esteja roteirizada.
Por quê? Porque eu tenho muita coisa para falar sobre isso. Eu estou gravando aqui de casa, então acho que é um momento mais tranquilo para falar de Ogum, para além da guerra, inclusive, para além da guerra, nesse cenário aqui da sala de casa. E acho que podemos muito bem encontrar possibilidades de falar de Ogum para além desse orixá da guerra, porque em algum momento, em alguma dimensão, Ogum também vai ser lido como...
Um orixá que esteticamente, mas também ideologicamente, sobretudo, está sincretizado com o santo católico São Jorge. E várias coisas aqui para dizer, várias coisas. E como eu estou sem roteiro hoje, então, eu gosto de dizer, igual a Renata costuma dizer, eu gosto de dizer, esse nosso papo talvez preencha uma circularidade. Então eu vá e volte.
em algumas dimensões aí, para que a gente possa entender, como numa gira mesmo, qual é a perspectiva, além da guerra, que se pode perceber de Ogum. Então, eu quero pensar aqui com você o seguinte. Quando chega abril, é inevitável. Então, vamos começar daí. É inevitável a gente olhar para o mês de abril e não falar de Ogum. Por quê? Porque é uma ressignificação.
dessa data, que obviamente está para o dia de São Jorge em virtude do sincretismo com o santo católico, que é o que eu no meu livro vou chamar de sincretismo de resistência, mas que não se basta, que não se termina, não se conclui nesse lugar. Pelo contrário.
É um cruzo que se faz com a ideia sincrética de São Jorge, mas que atravessa isso, que, inclusive, acessa outras dimensões. E aí eu quero começar pensando nesse abril de São Jorge e, na data sincretizada com o abril de Ogum, muitas vezes a gente vai cair na ideia de não vou mais sincretizar ou não vou mais...
me relacionar com o Ogum no mês de abril para não responder ao sincretismo com o São Jorge. Não está errado. Eu acho que é válido essa perspectiva, como também eu acho que é válido trazer uma contrarresposta para o dia em que se comemora São Jorge e que se anulou, muitas vezes, a ideia do orixá africano por meio dessa data. E aí, uma outra perspectiva.
A data de São Jorge é uma data construída. Então se cria, a partir do calendário católico, a ideia de que, bom, a partir de então, em virtude desse dia, será o dia de São Jorge. E eu não estou aqui para falar do santo da Igreja Católica, por isso que eu não quero me ater a esses detalhes.
mas também há uma noção em que é possível pensar na data de Ogum também. Ogum também pode ser celebrado nesse dia e nesse ano, tanto é que há um projeto de lei que é aprovado, então há uma lei que institui o dia de Ogum, que é uma lei, inclusive, aprovada pela deputada Alice Brandão, que vai dizer, sim, o dia de Ogum também é comemorado dia 23 de abril. Portanto, aqui há uma ideia de que Ogum também pode muito bem ter uma data instituída.
para ser celebrado. E não necessariamente precisa ser em dezembro, em 25 de dezembro ou em 1 de janeiro. Pode ser em 23 de abril. Porque, de novo, é uma forma de contracolonizar, é uma forma de apresentar uma outra proposta, uma outra noção de mundo para as matrizes africanas, uma outra perspectiva de divindade para as matrizes africanas que não esteja atrelado a um santo da Igreja Católica. Porque, creia, nós estamos em 2026.
ainda há, hoje, aqueles e aquelas que vão dizer ser a Umbanda uma cultura cristã, ser o candomblé uma cultura cristã. Muita gente há de dizer isso, muita gente há de cultuar símbolos da Igreja Católica. E é importante que se diga que a identidade é também estética, ela não é somente ideológica, e a ideologia também é atravessada pela estética. Então, perceba isso.
Não tem como eu desvincular dos valores da Igreja Católica se eu continuar com os símbolos da Igreja Católica dentro dos meus espaços. E São Jorge é um desses símbolos. Portanto, muitas vezes, a gente fica preso na ideia de que a Umbanda tem que ter uma noção própria, autóctone, uma noção que não é atravessada pelo cristianismo, ou ainda, no meu terreiro não há nenhuma imagem de santo, como se...
o sincretismo estivesse somente por meio da ideia estética dos santos, a imagética dos santos, quando, na verdade, o sincretismo está em vários aspectos, não só estéticos, não só imagéticos, não só ancorados pelas imagens dos santos, como também por todos os outros fatores, como, por exemplo, você separar.
Homens e mulheres, você está relacionando o seu terreiro a uma ideia maniqueísta cristã. Você separar na sua gira, ou você escrever, por exemplo, o silêncio é uma prece, não há nada fora da caridade, fora da caridade e na salvação. Você está atravessando a ideia do seu terreiro, que é uma cultura de matriz africana, ao espiritismo, ao cristianismo, ao catolicismo, que são culturas cristãs.
Então, acho que o primeiro passo é entender que há muito que se explorar de Ogum para além dessa noção mítica e até razoável de ser rasa, medíocre mesmo, no tocante de ser mediano e não se aprofundar do orixá da guerra. Ogum está distante dessa ideia do orixá da guerra.
Está distante dessa ideia. Ogun não é, inclusive, essa guerra que tanto se fala. Ogun é o orixá da guerra? Ou encerrar a discussão aí é fazer uma leitura medíocre, uma leitura cristã, uma leitura que se encerra num orixá que não guerreia, que não nasceu. Aliás, ninguém nasceu para guerrear.
Ninguém nasceu para... Ah, não, eu quero nascer para viver em guerra. Que saúde é essa que se propõe não só para os seus filhos, quanto também para a imagem, para a ideia estabelecida de ser Ogum? Estão pensando aqui? O que é possível pensar ser Ogum para além da guerra? E aí, como você bem viu, eu trago essa ideia do texto, em que eu vou dizer assim. Olha só, vou contar um item bem breve aqui para vocês, até porque, se você quiser se aprofundar, você vai lá na matéria.
Mano, Ogum é um orixá que, junto de dois outros amigos, vão até Orumila, consultar Orumila, para saber como se tornarem relevantes, importantes, reconhecidos como autoridade dentro dos seus povos, dentro das suas comunidades. E aí Orumila dá uma noção a partir de um ebó para dois dos seus amigos e para Ogum também.
Os seus dois amigos fizeram o que Orumila havia pedido e se tornaram reconhecidos pelo seu povo. Mas olha que curioso, Ogum não. Por quê? Porque Ogum não fez tudo o ebó. Ogum não fez o ebó completo. E aí, é que depois de um tempo, Ogum volta até Orumila e diz, ó, o ebó não funcionou. E aí Orumila disse, você fez tudo o que eu pedi.
Você comeu o cachorro e compartilhou com o seu povo? Yogun não tinha feito isso. Então, Orumila disse, volta lá. Volta, faça o ebó completo, coma o cachorro, sacrifique o cachorro, compartilhe com o seu povo e depois aguarde a chuva.
Quando vier a chuva, você vai no pé do morro de uma areia preta, colha um pouco e queime essa areia. Olha o ebó. Mano, muitas vezes a gente fica nessa ideia de que o ebó é muito místico, e é místico mesmo. Há coisas que se faz no ebó.
A gente fica perguntando, como é que alguém chegou nesse lugar? Por exemplo, como é que chegou-se na ideia de medir uma corda e colocar ela em determinado ebó? A corda em si, em determinado ebó. Como isso se dá? Por meio das ideias dos itãs, dos contos, das passagens que estão contadas por Orumila no Corpus Literário de Ifá. Mas aí, voltando. E aí, então, algum fez esse ebó e aí, voltando.
E aí a chuva caiu, Ogum vai até o pé de um morro, colhe a terra preta e queima essa terra e a terra vira ferro. A terra vira ferro. Então acho que a gente já tem aqui um ponto muito importante que é entender. Ogum é aquele que aprende a transformar a terra em ferro.
vira um mineral e não somente, é a partir dessa transformação, é a partir dessa criação que Ogum dá sentido para o ferro. Então Ogum transforma a terra em ferro, o ferro em um outro metal, que dá sentido para que seja utilizado. E aí Ogum se torna conhecido não só pelo seu povo, como todo ao redor e entorno, porque agora Ogum é o grande ferramenteiro.
É, portanto, a partir desse lugar... E aí, então, o Gumbum dá as ferramentas e concede ferramentas, ensina, dá habilidade, dá as ferramentas para tantos outros orixás. Mas eu quero dizer que é, então, a partir desse lugar...
que Ogum é conhecido como o orixá, não só da criação, mas principalmente o orixá das transformações. Olha que interessante isso. Olha como a gente consegue, então, destacar a ideia daquele que monta num cavalo branco, sabe? Em seu cavalo branco, de espada na mão, Ogum vem se demanda... Mano, para além disso...
Ogun é o orixá das transformações. Ogun é o orixá que faz algo que o indivíduo considera impossível. Ninguém até hoje, depois de Ogun, conseguiu pegar a terra, queimar e transformar em ferro. Por isso, uma outra virtude de Ogun. Ogun é o orixá do impossível.
Ogun é o orixá que vai fazer aquilo que você, indivíduo, não dá conta de fazer com a própria sapiência, com a própria capacidade. Percebe como é importante pensar ogun a partir dessa chave? Percebe como a gente consegue, aos poucos, ir aprofundando a ideia desse orixá para além do cavaleiro? Ah, mas, David, isso só é um Itã, isso só é uma outra história. Ogun é também o orixá da guerra. É, mas não somente e muito pouco o orixá da guerra. Porque, olha só, um outro Itã.
Ogum, esse é muito popular, esse item é muito conhecido. Ogum vai a uma guerra. Ogum vai guerrear, vai representar seu povo. Ogum vai combater seus inimigos e deixa o seu povo em Irê.
Então Ogum vai para a guerra e passa longos tempos na guerra, guerreando. E aí Ogum, como sempre, sai vitorioso dessa guerra e volta ao seu povoado. Depois de muito tempo Ogum volta ao seu povoado. Quando Ogum chega, todo banhado de sangue, todo rasgado, cicatrizado, com outros guerreiros, Ogum vem para o seu povo, Ogum chega ao seu povo e Ogum nota que está tendo uma grande celebração, uma festa.
bebida e todo mundo bebendo aquele negócio. E algum povo, prepararam essa festa pra mim. Estamos celebrando a vitória. Quando algum se aproxima do seu povoado, tá todo mundo em silêncio. Embora todo mundo ali e tal, tá todo mundo em silêncio. E algum... E aí, família? Alguns chegaram aí. Ei, ganhamos a guerra. Tudo bem? Felicidades aqui. Vamos celebrar. E todo mundo em silêncio. Ninguém abriu a boca.
Um silêncio absoluto. Ninguém deu uma salva de palmas. Ninguém falou, Ogum, que da hora, hein? Como é que foi lá? Da hora mesmo? Mano, ninguém falou nada. E Ogum olhou meio cabreiro. Ogum fala com um. Fulano não fala nada. Cicrano não fala nada. Ninguém fala nada. Nessa. Ogum vai até a cozinha. Percebe que pessoas haviam bebido. Então, o vinho de palma havia sido distribuído para as pessoas. E ninguém havia servido Ogum.
E aí o Ogum começa a ficar cabreiro, conversa com um, conversa com outro. Todo mundo ignora o Ogum. O Ogum se irrita, arranca o seu obé. O Ogum arranca o seu facão e começa a passar. O facão aonde? No pescoço do seu próprio povo. Ah, não vai falar comigo? Então toma. E toma. Ogum pá. Ogum pá. Ogum começa a cortar as cabeças. Tanto que há um Ita que diz assim. Um é céu do...
Enfim, que diz assim, Ogum é aquele que mata o ladrão, mata quem teve a coisa roubada e mata quem achou ruim. Então, e eu já vou falar de tudo isso. Aquele que vai à casa de Ogum sai morto. Aquele que vai matar Ogum em sua casa sai morto.
São aí passagens que falam sobre Yogun, que ditam um pouco sobre quem é esse orixá. Mas enfim, e aí Yogun começa a passar faca em todo mundo, começa a matar todo mundo porque todo mundo ignora tudo. Até que em algum momento Yogun vai para matar o seu filho. E aí que seu filho dá um grito e Yogun desperta desse lugar de ira. Yogun percebe o que ele tinha feito e o filho dele diz.
Hoje é o dia de celebração dos ancestrais. Hoje é o dia de celebrar os mortos. E se celebram os mortos com silêncio. Você esqueceu disso. E aí Ogum se vê ali naquela situação em que ele matou boa parte do seu povo. Ele mesmo passou a lambida, meteu a faca, o Obé no pescoço de geral. E muita gente, ele mesmo que matou. E Ogum arrependido. Ogum crava seu Obé no chão com tanta força que abre um buraco.
E Ogum é engolido pro centro da terra. E é aí que Ogum vira um orixá. Eu acho que a beleza desse Itã, ele por si só já é muito bonito, mas é preciso a gente tomar cuidado com a burra.
E o que eu estou dizendo? Não se é possível acessar uma história dessa com a burrice da literalidade, com a leitura ocidental das coisas. Não é possível você falar, viu, olha aí o Itã que fala que Ogum é o orixá da guerra. Pô, é muito medíocre ler esse Itã a partir dessa perspectiva, entende? O que a gente está dizendo aqui é que Ogum, olha só.
é o orixá que gosta de ser celebrado. O gum é o orixá que só considera vitória a guerra que termina em celebração, que se encerra em celebração. Não se é vitória, é uma guerra que não se celebra vitória.
Não se é vitória uma guerra que se tem, que se vence o inimigo, mas que não se celebra. Isso é uma tina para isso, para a realidade atual que a gente vive. Eu digo muito isso, eu já olhei muito isso para as sessões de terapia, que é o seguinte, a gente muitas vezes, acho que você vai me entender agora. Me lembro que uma vez, vou te contar essa história. Uma vez eu comprei um carro.
Uma vez, e essa uma vez não faz muito tempo. Isso aí deve fazer o quê? Uns quatro anos. Pouco menos, eu acho. Então é isso. Um pouco menos, uns quatro anos.
E foi tão difícil comprar esse carro, sabe assim, aprovação do crédito, dinheiro da entrada, e espera o carro aprovar os documentos, agora tem os documentos aí, tem que transferir. Mano, mas foi tão difícil segurar o dinheiro para comprar esse carro, um carro que jamais eu imaginei que eu poderia comprar em virtude da minha condição financeira. Então, sabe assim, um negócio tão complexo, e olha que não era um carro, meu Deus do céu, entendeu? Mais...
Quando eu entrei no carro, quando o vendedor da loja deu a chave, ele falou, olha, nós já transferimos o documento do antigo dono pra você. Não era nem um carro zero quilômetros. Então tá aqui a chave. Tá aqui, o carro é seu. Eu peguei a chave assim. E, mano... E foi pro carro. Foi pegar o carro. E aí, sabe, eu entrei no carro. Eu pus a mão no volante assim.
Eu suspirei e parece que eu tava tão exausto que eu não tinha força. Manja, eu não tinha força pra celebrar a conquista do carro, mano. Eu comecei a andar com o carro e aquela conta não fechava na minha cabeça. A ponto de eu pensar assim, ó. Mano, de que é esse carro que eu tô dirigindo? Como é que eu cheguei até aqui? Esse carro é meu? Como foi isso? E parece que a gente tá acostumado com a luta. E não com a vitória.
E parece que a vitória é um negócio que a gente acha tão supérfluo perto da luta que a gente já parte pra outra guerra. Isso acontece. Outro exemplo. Eu também vivi isso aí. Cara, a gente tem tanta dificuldade pra alugar uma casa. Essa cena é muito louca. Com certeza você vai me entender.
Aí procura a casa. Aí não é a que você quer. Dificilmente é uma casa que é a que você quer, que você aluga. Geralmente é a casa que dá. Geralmente a gente procura a casa a partir do valor. E não a partir da casa que a gente quer.
A gente tem um limite para alugar casa, não uma ideia de casa. Está ligado? E aí, sei lá, estamos lá no aplicativo de locação, no site, procurando casa. E aí, aquele negócio vai e visita a casa. Aí o...
O proprietário não quer esse inquilino. E aí tem outra ficha, passou na frente, a pessoa já tinha dado a ficha. E aí não pode tal coisa. E aí esse lugar é ruim. E uma série de coisas. E aí manda documento. E aí só aceita fiador ou não aceita fiador. Só aceita seguro fiança. Seguro fiança é caro. E, mano, é uma... Nossa, eu estou vivendo um filme aqui. Estou falando para você. E estou vivendo um filme. Mano, que quando alguém fala a ficha foi aprovada,
Você fala assim, ó. Não vou comemorar ainda. Só vou comemorar quando eu tiver com a chave na mão. Mano, quantos de vocês que estão assistindo isso não passaram por isso? Tenho certeza que uma pá de gente vai escrever aqui no comentário desse vídeo. Mano, passei por isso. Acabei de viver isso. Eu vivo isso frequentemente. Cara, por quê? Porque pra muita gente...
E a gente sabe que gente que é gente parecida com esse orixá, para muita gente, a luta completa é difícil. E não é só sobre ganhar a guerra, mas a possibilidade de celebrar. Então você percebe que para algum então...
Não basta você conseguir alugar a casa, você precisa celebrar essa casa. Você precisa conquistar. Então, Ogum também é o orixá das conquistas, mas não somente. Ogum é o orixá da celebração. É necessário que nós entendamos Ogum enquanto um orixá que exige celebração. Uma vez conversando com o Rufino...
Rufino querido, um grande abraço, Rufino. O Rufino que escreveu um livro, e está em que livro? Está no... De ponta cabeça. Não, acho que não é o ponta cabeça. Acho que é o Vence e Demanda. Em que um dos textos do Rufino fala sobre Ogum. E aí diz o Rufino que uma vez conversou com um amigo dele e...
O amigo perguntou, Rufino, quando é? Acho que foi mais ou menos essa história. Já contei isso aqui em algum episódio. Quando é que Ogum descansa? Porque essa é a grande pergunta. Essa é a grande pergunta. Quem é de Ogum, muitas vezes já ouviu. E não só quem é de Ogum, quem trabalha nessa escala 6 por um louca da vida ou quem se entende enquanto autônomo, dono do seu próprio negócio, mas na verdade é funcionário de um aplicativo. E eu não estou falando só de você que é...
do iFood ou do Uber, tô falando você que inventou agora a ideia de ganhar pelo Instagram de, ah, eu preciso do Instagram pra trabalhar, então você também é uberizado então, olha só que muito louco você também é uma pessoa que vai precisar se entender como alguém que exige a presença de Ogum na sua vida, ou melhor precisa da presença de Ogum na sua vida não só em virtude do trabalho, mas em virtude do descanso e aí
E é comum com que as pessoas olhem pra você, até porque, e vão perguntar assim, mano, você não para nunca? Mano, você não descansa? E a grande pergunta é, quando é que Yogun descansa? De novo, não só pra você que é de Yogun, mas pra você que vive essa vida louca.
Quando é que você descansa? E você não precisa ser de Ogum para entrar nessa reflexão. Basta você ser uma pessoa consumida pelo capitalismo do dia a dia. Então, quando é que você descansa? Você, eu não sei. Mas eu sei que Ogum descansa quando ele brinca. Ogum descansa quando ele brinca. Essa foi a conclusão que o Rufino chegou e a conclusão que eu comprei para mim.
E também entendo isso, porque isso me remete a quando é que eu estou descansando. Então, hoje eu estou descansando.
Mas não somente porque eu tô parado, mas porque eu tô brincando. Porque eu tô aqui brincando com o meu cachorro. Porque eu tô aqui tomando uma com a minha esposa. Porque eu tô aqui... Vou dar um rolê, vou encontrar uns amigos. Vou falar de outras coisas. Vou assistir um show. Nossa, fui ontem. Meu Deus, gente. Vou assistir um show. Vou curtir uma música que eu gosto. Vou jogar um videogame. Vou... Vou pegar um senhor.
assistir uma série. Cara, entende esse bocado de coisas que é possível entender enquanto conquista, mas celebração da conquista também. Porra, David, eu estou numa vida que eu não consigo em nenhum momento parar na possibilidade de celebrar minha própria conquista. Cara, se pá, então você está muito longe de Ogum. Vê como Ogum não está somente para essa noção de guerra.
Então, Ogum descansa quando ele brinca. Se você não tem conseguido saúde, saúde mental, psíquica, para celebrar as suas vitórias, as vitórias da guerra que você coloca... E não precisa ser uma guerra gigantesca. Pode ser aquilo que você instituiu enquanto guerra. Se você não tem conseguido tempo para isso, esse passe também está muito longe de Ogum. E você tem que voltar a fazer novos pactos com Ogum. Refaça os pactos com Ogum.
Refaça os pactos com Ogum. Não é atoa que Ogum é celebrado com uma cerveja. Então veja só como é importante a gente ler esse orixá para além do santo católico, que nunca comemorou nada. Não se tem noção de mundo em que São Jorge tomou as brejas. Está ligado? Essa é a noção que a gente precisa se distanciar. Quando eu falo sobre desembranquecimento da Umbanda, eu estou falando disso. Sobre recriar, ou melhor, reinterpretar.
As histórias dos orixás e das entidades. Porque com as entidades também não é diferente. Tá ligado? Então, a gente já tem aqui duas informações. Ou mais até. Ogum é o orixá das transformações. Três. Ogum é o orixá do impossível. Entendeu? O orixá das transformações. O orixá do impossível. E Ogum é o orixá das celebrações. Olha como isso é importante. Não é atual que Ogum é irmão de Exu.
Vê, eu tive agora em uma celebração, da qual tive a oportunidade também de ser homenageado.
pela deputada Alessi Brandão, foi muito bonito. O reconhecimento das lideranças de matrizes africanas é sempre muito bonito. Acho que é uma celebração, aliás, era a celebração do dia de Ogum. Então, foi uma noite muito bonita. E como a gente ainda percebe como há pessoas que são lideranças de pessoas, porque não dá com esse tipo de discurso que eu vou falar aqui.
para imaginar que são pessoas que são lideranças de comunidades. Como ainda há pessoas embebidas de um cristianismo, e aí, lógico, quem é de centro espírita, normalmente vai estar embebida de um espiritismo mesmo, só não entendo porque está lá falando de Ogum. Beleza. Mas como vai ter gente que ainda vai dizer assim, não, Ogum é o orixá da guerra, sim. Que noção medíocre.
Que noção medíocre dizer que ele é o orixá da guerra. Que interpretação fraca e que inabilidade de olhar para a subjetividade das matrizes africanas. Dá para entender, né? O quanto é necessário desembranquecer a ambana. Para além disso, há pessoas que vão procurar interpretar alguma parte de São Jorge.
E, gente, veja, uma coisa é você ser, como é que é? Crente? Não é. Você ser devoto, que é uma palavra muito católica. Você ser devoto de São Jorge, ok. Ah, eu sou devoto de São Jorge, ok, é mó legal, é cultural. Ah, não, São Jorge é isso, São Jorge operou um milagre na minha vida. Meu, beleza.
Tudo bem. Outra coisa é você achar que esse orixá tem relações com algum. Para além daquilo que a gente vai entender enquanto sincretismo. Outra coisa é você atribuir, ainda que inconscientemente, valores de São Jorge a algum. É isso aqui que eu estou tentando chamar de sincretismo estrutural. Mano, atina para isso. Meu choque, quando eu falo sobre sincretismo estrutural,
é dizer às pessoas que o sincretismo não está, infelizmente, somente no espectro estético, mas ele está, sobretudo, sequelando as subjetividades das pessoas que são de terreiro. Vou te dizer por quê. Porque o que tem de gente...
que ainda pensa, sente e incorpora um cavaleiro templário com roupa de cavaleiro romano, com roupa de soldado romano, com vestes, mas com hábitos, com jeito, com marcha de cavaleiro romano. Não está escrito, parça.
E aí joga no lixo toda e qualquer interpretação subjetiva desse orixá a partir do orixá em si. E aí vive na brisa do orixá que é o São Jorge.
Saca? Então eu quero que você entenda. Aqui eu estou muito despreocupado em fazer uma crítica a quem tem São Jorge no terreiro. Eu não estou nem aí, mano. A quem gosta de São Jorge, a quem acha que São Jorge... Eu não estou interessado nisso. Eu só estou dizendo que há uma sequela.
Uma sequela que, quando a gente precisa olhar para esse orixá, a gente vai olhar para o santo. E a gente não vai olhar porque a cultura desse orixá diz. Percebe? Então, eu acho que, para além da guerra, há muito o que se explorar.
quando a gente pensa sobre o Gung, quando a gente sente esse Gung no corpo, quando a gente percebe a presença desse orixá no corpo, quando a gente muitas vezes nem está aqui virado no orixá, mas quando a gente vê esse orixá no terreiro...
É muito importante, então, aprender a se relacionar com ele. Eu brinco que muitas vezes eu falo assim, eu falo para as pessoas, se passa, você está rezando errado. Se passa, coisa não acontece na tua vida porque você está rezando errado. Manja, você está pedindo para algum abertura de caminho.
É muito pouco. Ogun é o orixá do impossível. A abertura de caminho. Mesmo se você aqui, agora entende que a abertura de caminho é um lugar a ser pedido a algum, caminhar para onde? Ogun é o orixá do impossível.
O que se pede a algum é que você não está tendo mais condições de obter. Não aquilo que o tempo ainda não decidiu lidar. Não aquilo ainda que não está maduro para você, mas é aquilo que você não tem visto mais. Caminho, possibilidade. Então não se trata só de abrir o caminho, se trata de encontrar o impossível e de realizar ele na sua vida. Mano, isso é muito importante.
Isso é muito importante. Isso enriquece a noção e o relacionamento que se tem com o orixá. E aí, muitas pessoas vão dizer, porra, o Ogum é o orixá, então, da violência. O Ogum é o orixá da destruição. O Ogum é o orixá da guerra. O Ogum é o orixá que, mesmo tendo água em casa, se banha com sangue. Será mesmo que o Ogum vê prazer nisso?
Onde está essa interpretação que vai elaborar a ideia de que banhar-se com sangue é bom?
Será que o que a gente está dizendo aqui não é uma... Ou o que a gente vai dizer, numa leitura mais técnica, não é um ossobo de Ogum? Será que banhar-se com sangue não é um problema? Não é um desafio que Ogum precisa vencer?
Porque o Gunn quer mesmo é sentar com o seu povo e tomar cerveja e celebrar as vitórias. O Gunn não quer se morder. O Gunn é aquele que feito cachorro se morde de raiva. De ira. Mano, isso não é legal. Isso não é legal. Pá, não é legal. A não ser que você esteja olhando tudo isso como um olhar muito romântico. Ou romano. Aí eu vou te entender, parça.
Só que eu estou olhando para isso como uma pessoa que vira no Ogum e tem uma comunidade inteira de velhos, jovens, adultos e crianças. Que não faz sentido eu dizer para o meu filho, Otávio, para o meu filho, Guilherme, para as crianças do meu terreiro. Não faz sentido eu dizer, meu filho, vai para a escola sabendo que Ogum é aquele que se morde todinho de raiva. Para essas crianças não faz sentido dizer isso.
Não faz sentido dizer que Ogum é o orixá da guerra. Se lá na escola ele dá um tapa na cara de uma criança, ele vai ser condenado. Mesmo que ele está certo. Porque a cor da pele dele é a mesma que a de Ogum. Então eu não posso ensinar para essa criança que Ogum foi somente isso. Inclusive eu devo ensinar, Ogum errou aí.
Então, se Ogum é tudo isso que a gente vem falando, há um ponto que a gente também deve elucidar aqui. Ogum é o orixá do arrependimento. Olha isso. E aí sim, é um ossobo, é um problema, é um desafio a ser superado por Ogum. Então, você que é filho, filha, filha de Ogum, não vá para esse lugar. Não se banhe com sangue.
se banhe de festa, de alegria se banhe de comemoração e aprenda se você vive uma vida de tortura se você vive uma vida uberizada
Tá ligado? E de novo, não pense vida uberizada somente se você anda em um transporte ganhando dinheiro por um aplicativo, porque se você se colocou enquanto alguém que precisa do Instagram pra ganhar dinheiro, você também vive uma vida uberizada. Então se você vive uma vida em que você precisa de algoritmos, você também tem uma vida uberizada. Se você é de Ogum, aprenda a comemorar. Aprenda que descanso também é uma virtude de Ogum.
Caso contrário, esse orixá na sua cabeça não vai fazer vitória alguma. Porque não basta vencer os inimigos. Você precisa vencer seus traumas. Suas limitações. E uma das limitações das pessoas que só trabalham é poder comemorar sem culpa.
Está entendendo? Uma das limitações das pessoas que tem um monte de coisa para fazer, tem livro para ler, coisas para fazer, cuidar da casa. Uma das limitações é, por exemplo, sentar num sofá e ligar um videogame ou sentar no quintal da sua casa e tomar uma cerveja sem culpa.
tá ligado? É ligar o videogame ou fazer alguma coisa inútil sem culpa, sem a cabeça ficar assim, olha quanto tempo eu tô aqui, eu poderia ter lido, quantas páginas de livro, quantas horas eu poderia ter produzido de trabalho se eu tivesse fazendo um, ido pra rua e ligado o aplicativo. Mano, essa é a reflexão que ser filho de Ogum exige. Caso contrário, nós vamos passar a vida inteira aqui achando que Ogum é o orixá da guerra e uma guerra mítica que nem mesmo São Jorge batalhou, tá ligado?
Não vale a pena. Ler Ogum como o orixá da vitória é muito bonito.
Mas ler o Gung como o orixá da celebração é mais ainda. Principalmente porque a noção de orixá não se aplica somente a um passado mítico. Ah, Oxum foi tal coisa. Oxum matou afogado. O Yá queimou toda a sua plantação. Não, quando é que Oxum ainda mata afogado? Quando é que O Yá continua a ter medo do espelho? Quando é que Oxalá continua procrastinando? Quando é que o Gung continua matando os seus? Qual é o problema que o Gung precisa vencer até os dias de hoje?
Cuidado com o obé. Cuidado com a faca. Quanto mais amolada a faca de Ogum, mais preparado Ogum está para a guerra necessária. E não a guerra inútil. E não a guerra atua. Portanto, o melhor lugar para Ogum colocar o seu facão é embainhado ao seu lado.
A beleza do facão de Ogum é um facão que tem o fio perfeito. Ogum é quem escolhe, eu sempre falo isso. Ogum é quem escolhe o pescoço de quem cortar. Não é o pescoço que se escolhe cortar. Não é o inimigo que determina que vai ser morto por Ogum. É Ogum que escolhe, eu vou matar você. Ou não, não vale a pena perder o fio do meu facão com o seu pescoço.
Ogum tem habilidade, ou ao menos, deve desenvolver a habilidade de entender quem merece ser morto pelo seu facão. Ser morto pelo facão de Ogum é um privilégio que não é qualquer inimigo que merece. Quando é defunto ruim, nem facão de Ogum merece para cortar o pescoço. Deixa que morra sozinho.
Eu sou de Ogum, né? Não sei se você sabe, eu sou de Ogum. E eu tenho muito que aprender com esse orixá. Então, quanto ele tem que aprender com seus desafios, eu também tenho que olhar para os desafios de Ogum e entender que, muitas vezes, eles se aplicam a mim também. O momento de ira não é bem-vindo na vida de Ogum. O momento de ira na vida de Ogum é um desequilíbrio, não é uma virtude. Cortar a cabeça do seu próprio povo não é um sinônimo de vitória. Pelo contrário, é nesse momento que depois Ogum se arrepende. Sabe?
Essa cantiga que eu cantei no começo, que eu já coloquei aqui nos créditos, que é do Luiz Antônio Simas e do Musa, se eu não me engano, tem o trecho que diz, né? O Deus voltou para o seu Ilê. Ou seja, voltou para Irê, esse lugar mítico também de Ogum. E aí, para o seu vinho de palma...
Para o seu batuqueje. Ou seja, está dizendo que ele enfia a faca no chão e ele morre. E aí que ele vira orixá a partir do seu ire. A partir do seu lugar de validade, de virtudes. O seu lugar de orixá. Então, o Deus voltou para o seu ire. Para o seu vinho de palma. Para o seu batuqueje. Mas do ourumbrador. Que não abandonou seus filhos, não. Está vendo?
Então, o Ogum some e desaparece, mas do Orum, ele brada, que não abandonou seus filhos, não. Pelo amor de Deus, você é lindo demais. Enquanto houver batuque de batalha, Ogum de longe gargalha, na ponta do meu facão. Gente, Simas, na moral, vê de gravar isso aí, cara. Passa pra alguém gravar, dá um jeito.
Enquanto houver batuque de batalha, Ogum de longe gargalha na ponta do meu facão. Olha esse Ogum que tá pintado. Olha a beleza desse orixá, porra, gente.
Ogumbachona, nação Tupi, GM, birimbal, chocalha, xixi. Porra, isso é muito bonito. Eu fiz questão de cantar esse... Isso é um ponto cantado, cara. Isso é um ponto cantado. A gente pode muito bem cantar pra algum ouvir a beleza que são essas palavras, que é essa amarração dentro do terreiro. Sabe? Isso é muito bonito. Isso é muito bonito. Muito mais bonito do que Cavaleiro Supremo mora dentro da lua. Sua bandeira divina é manto da virgem pura. Oh, na moral.
Entendeu? Entendeu como tem muito que se discutir? E a gente pode passar aqui horas e horas falando sobre Ogum, falando sobre esse orixá que é importantíssimo para as culturas de matrizes africanas, que é importantíssimo para o candomblé, que é importantíssimo para a Umbanda, que é importantíssimo para a civilização das pessoas.
importantíssimo, porque, de novo, para mim, a cultura de terreno não está baseada num ato de fé. Não pode ser concebida como religião porque não dá conta.
O termo religião não dá conta de abranger tudo o que isso ensina para as pessoas de terreiro. Então, a cultura de terreiro é riquíssima e ela deve ser aplicada ao dia a dia. Se você não encontrar o seu orixá no dia a dia, alguma coisa você ainda deixou de aprender. Ou alguma coisa você ainda precisa aprender com ele. Ou alguma coisa você deixou de aprender com ele. Se você não consegue ver o Oxum no dia a dia...
Se você não consegue ver Oya no dia a dia, se você não consegue ver Oxós e tantos outros orixás que estão presentes no candomblé, mas estão presentes em tantas outras culturas de matrizes africanas, como, por exemplo, na capoeira, que se canta muito para algum, que se canta muito para orixá. Sabe? Então, se você não consegue ver esses orixás no dia a dia, alguma coisa você perdeu. Porque é necessário entender que esses orixás não contam uma época que aconteceu. Orixá é uma ancestralidade que se baseia no futuro.
E aí, inclusive, dá para pensar, algum enquanto esse orixá dá tecnologia. Um orixá que olha para o futuro das coisas. E olhar para o futuro das coisas é uma tecnologia ancestral. É o que os nossos guias continuam fazendo até os dias de hoje. É o que os nossos orixás continuam fazendo até os dias de hoje. Tem muita coisa.
A gente poderia aqui passar horas e horas, ainda mais chamando, quem sabe, muito mais falar de Ogum do que eu, poderemos chamar aqui e aí ficaremos horas e horas ouvindo, discutindo, debatendo, encontrando Ogum nas coisas e como é importante, como é importante da gente traduzir a subjetividade desse orixá para o dia a dia da nossa vida e não só para o momento do transe no terreiro.
Que Ogum acompanhe o seu final de semana. Que em algum momento, até domingo, até os próximos outros finais de semana, você encontre possibilidade de tomar uma cerveja com Ogum. Nem que seja para encontrar uma rota de fuga. De alguns minutos, poucas horas, que você possa parar a loucura do seu dia a dia, da guerra que você trava. Você com o mundo e o mundo contra você.
E você possa encontrar um tempo para brindar uma cerveja com o GUM. E celebrar as conquistas da sua vida, ainda que poucas, ainda que pequenas. Vitória só é vitória quando ela é celebrada. O GUM IEMOIÉ, Saravá. Esse ritmo binário é a macumba que come solta. O galundu banto para um bando afro-brasileiro.
Uni Ateneu