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O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas - Parte 23

03 de maio de 202647min
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Neste episódio fazemos a análise dos seguintes capítulos de O Conde de Monte Cristo:- O Baile- O pão e o sal- A senhora de Saint-Méran- A promessaObs.: os nomes e as numerações dos capítulos variam um pouco dependendo da edição e tradução.Materiais citados:Fanny ElsslerO Diabo Coxo

Participantes neste episódio2
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Glênio Madruga

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S

Suzane Madruga

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Assuntos4
  • O BaileOrganização e ambiente do baile dos Morcef · Danças populares: valsa, galope e polca · A baronesa d'Anglard e o Conde de Monte Cristo · Fanny Elsler e sua apresentação em 'O Diabo Coxo' · Marie Taglioni e a rivalidade com Fanny Elsler · A dança Cachucha Espanhola · O balé 'O Diabo Coxo' · A Monarquia de Julho na França · O crime de vagabundagem na França · A música 'Partindo para a Síria'
  • A Senhora de Saint-MéranA confusão mental de Viefort · Alusão a Hamlet de Shakespeare · A história bíblica de Belsazar e a mão na parede · A evolução da farmacologia no século XIX · A desconfiança de envenenamento · A senhora de Saint-Méran e seu pedido de adiantar o casamento de Valentini
  • Promessa SeguraO chamado de um médico para a senhora de Saint-Méran · O desespero de Valentini e seu plano de fuga com Maximilian · A intervenção de Noirtier para impedir o casamento de Valentini com Franz · A descoberta da morte da senhora de Saint-Méran · A possibilidade de envenenamento com brucina ou estricnina · A frase 'Errare humanum est' e suas origens · A pintura Madalena de Correggio
  • O Pão e o SalO costume árabe de dividir pão e sal · O simbolismo do pão e do sal · A conversa entre Mercedes e o Conde de Monte Cristo · A morte do avô de Valentini, senhor de Saint-Méran
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Olá, livrólicos de plantão. Sejam muito bem-vindos a mais um episódio da Rádio Caractere. Eu sou Suzane Madruga. E eu sou Glênio Madruga, com saudades do interior, com saudades da terra, com saudades de montar a cavalo. Então, talvez hoje eu faça algumas metáforas rurais no episódio, mas, assim, não é certeza, pode ser só.

Aguentaremos. Episódio de hoje. Leitura detalhada de O Conde de Monte Cristo, episódio 23. E quais são os nossos capítulos? São quatro. É o capítulo 13, intitulado O Baile. 14, O Pão e o Sal. 15, A Senhora de Samerã. E 16, A Promessa.

Começando com o baile. E o que temos então? Um baile, pois é, um baile na casa dos Morcef, do conde, da condessa e do visconde de Morcef. Tudo muito bem organizado, a senhora de Morcef fez tudo no fino trato, como diriam muito antigamente, isso nem é do meu tempo. Inclusive, lá na página 837.

Edição da Zahar, tomo 2. Nas salas do térreo ouvia-se a música sussurrando e a valsa e o galope num turbilhão, enquanto feixes resplandecentes de luz atravessavam como facas os vãos das persianas.

Ou seja, temos um baile sendo preparado com dois ambientes, interno e externo. O externo é aquele jardim onde tudo ficou bem iluminado e, segundo o senhor Dumas, as alheias do jardim estavam iluminadas com lanternas coloridas, como é costume na Itália. Pois é, um dado interessante, a gente observando em filmes, séries, livros.

Inclusive, o Glênio tem leituras bem interessantes sobre Toscana. Há sempre essa relação com o lado exterior. Por isso que o pessoal na Europa gosta muito de primavera, verão, porque dá para fazer tudo na parte de fora as coisas, né? Jantar, almoçar, botar uma mesa. É bem esse o clima que a senhora de Morcef coloca ali em julho no seu baile. Um baile de verão.

Mas há alguns dados interessantes, além desse de o jantar ser feito. Do lado de fora, a moda italiana é uma questão de valsa, dança, remelecho. E é uma tradição muito mediterrânea. A gente vê isso na Grécia, a gente vê isso no sul da Espanha, a gente vê isso no sul da França. E que diferença essa montagem gigantesca, toda elaborada da festa, da agora, senhora de Morcef.

comparando com as simples, mas muito animadas festas do bairro dos catalães no início do livro.

quando a gente percebe aquele entrosamento entre os catalães num bairro separado lá em Marcélia. Vê como é interessante fazer esse paralelo de montagem. Mas, sobre a dança, valsa, todo mundo sabe o que é a valsa. Faça um favor para si, ouvinte da Caractere, pegue uma playlist de valsa depois que você ouvir esse episódio e deixe tocar para fazer os seus afazeres domésticos ao som de boa música. Mas o galope...

É um tipo de dança que chegou em Paris na década de 1820 através da duquesa de Berry, também conhecida como Maria Carolina de Bourbon e das Duas Sicílias. E por esse sobrenome já inteiro, né, esse sobrenome já dá para entender a imensa influência que ela tinha nos altos círculos culturais.

Ela era uma princesa italiana, evidentemente, que se casou com um membro da realeza francesa e até tentou uma articulação para que o filho dela assumisse o trono francês, isso no início da década de 1830. Ela era uma frequentadora assídua de teatros, era colecionadora de arte, estava sempre na moda quando a coisa era dança. O galope era uma versão mais acelerada da valsa. Já era sucesso em Viena, Londres e Berlim quando a duquesa trouxe essa novidade para Paris.

Pensando em uma evolução e aceleração dos ritmos, depois do galope veio a polca, que chegou em Paris nos anos 1840, vindo da Europa Central, e dentro da França, o galope ganhou uma versão ainda mais ligeira, conhecida atualmente e já no final do século XIX como cancan. Você, ouvinte da caractere, já imaginou pernas e saias voando. Exatamente, é esse processo de dança.

Dentro de um evento... Mulan Rouge. Mulan Rouge, exatamente. Faça um favor para si, assista um filme também.

Dentro de um evento social, era muito comum que o galope fosse a última dança da noite, para terminar o evento com todo mundo bem animadinho. Neste caso, o baile só estava começando. E entre os convidados, quem compareceu? Quem? Quem? Sim, a baronesa d'Anglard. Mas ela não estava um tanto preocupada, cansada, assim, um pouco triste? Sim, estava. Mas ela se encontrou com o Viefort, ao melhor estilo romance francês.

Trocando informações pela janela dos coxes, ela ficou sabendo que precisava estar naquele baile, para não levantar suspeitas, obviamente. Hermínia é recebida por Albert e ela pergunta a ele sobre o Conde de Monte Cristo. Ao que ele responde, 17. Por quê? Porque ela era a 17ª pessoa a perguntar sobre o homem do momento.

Então ele responde, não, ele vai aparecer e tudo mais. A baronesa menciona que Monte Cristo esteve no Ópera, aquele importante teatro de Paris, na noite anterior. E que lá, segundo palavras da baronesa, colocadas em sua boca pela pena de Dumas.

Elsler dançava em O Diabo Cocho. A princesa grega estava entusiasmada. Depois da cachucha, ele enfiou um magnífico anel no buquê e o lançou para a encantadora bailarina, que no terceiro ato reapareceu para homenageá-lo com seu anel no dedo.

Vamos então a alguns fatos interessantes a respeito de balé. Nós aqui adentrando novamente o palco do balé, sem saber nada, nenhum passinho e nem colocar o pezinho no modo de bailarina. E contrariando quem? Quem que não é muito afeito a esse tipo de apresentação, porque diz que já passou do momento.

Que ninguém dá bola. O sujeito do Duna. Como é que é o nome dele mesmo? De Marte Supreme. Ah, pois é. Timothy Chalamet ou qualquer coisa parecida com isso. O guri que faz o Duna. Pois é. Fanny Elsler. Nascida em 1810. Falecida em 1884.

uma bailarina austríaca, muito famosa, e que começou sua carreira se apresentando com a sua irmã, Therese. Além de ser vista como uma excelente bailarina, ela passou por alguns momentos complicados em sua vida e por alguns escândalos. Nunca se casou, teve dois filhos de pais diferentes. Um deles foi o Franz, nascido em 1827. Consta que ele se desviveu aos 47 anos, inclusive.

Este era filho, segundo os registros que eu encontrei pela internet, deixarei inclusive um site muito interessante a respeito disso, na descrição do episódio, ele era filho de Leopoldo, príncipe de Salerno.

E o menino nasceu em Viena e foi deixado para a adoção. Então, talvez ali os traumas comecem nesse momento para o jovem Franz. E ela também teve uma filha chamada Teresa, Teresa von Ouenbenau, que nasceu em 1833, que era filha de um rapaz.

Anton, agora vocês vão ficar assim impressionados com o meu linguajar, com a minha capacidade de pronunciar sobrenomes. Stumbler. Pronto, acabou.

Era um colega do balé, ou seja, ninguém relevante para a época, porque ela ficou famosa e ele não. Diante do escândalo, Fanny e a irmã foram para Londres, onde a filha dela nasceu. Elsler realmente se apresentou no Teatro Ópera de Paris. Sua apresentação foi em 1836, causou um furor na sociedade parisiense.

À época, quem dominava aquele importante teatro era Marie Talione, nascida em 1804 e falecida também no mesmo ano que Fanny, em 1884. Só que ela era sueca. Ela perdeu um pouco de seu brilho quando Fanny subiu ao palco, no ano de 1836.

Mas a gente já explica isso rapidinho. Primeiro, é importante dizer que a Marie Italione, ela tinha um problema, ela nasceu com uma corcunda. Quem aí lembrar da Yennefer, de The Witcher, pode fazer uma associação. Ela tinha essa corcunda desde criança e...

Sempre teve problemas, diziam que ela não tinha chance para o balé, só que seu pai era teimoso e colocou ela para treinar de forma bem rigorosa até se tornar uma bailarina de sucesso. É atribuído a ela aquele passinho na ponta dos pés, realizado pelas bailarinas. Mais precisamente, em 1832, com a apresentação do balé La Sylphide.

Mas, voltando ali à relação dela com a Elsler, ela perde espaço para a Fanny, porque a bailarina austríaca tinha um modo muito específico de dançar. Ela fazia o danstakete, vou chamar dessa maneira. E trata-se de um estilo com passos curtos, rápidos e precisos. Lembram muito os do flamenco. E ao se apresentar...

como uma personagem do balé O Diabo Cocho, mais especificamente como uma personagem florinda, de autoria de Jean Corale e com música de Casimir Gide, ela ganhou aquele espaço totalmente. Essa apresentação, é interessante dizer, eu já vou falar um pouquinho do Diabo Cocho, mas antes é interessante falar desse tipo de dança que retirou totalmente o brilho da outra bailarina.

A cachucha espanhola era uma dança que teve sua origem em Cuba. É atribuída à Espanha por causa de toda a sua relação de colonização, mas a origem mesmo é em Cuba, e geralmente ela é dançada por uma bailarina, sozinha no palco e com castanholas.

Era muito comum na região da Andaluzia e a dança ficou realmente conhecida por causa da apresentação da Fanny Elsler. Se você procurar por Cachucha Espanhola, é este o nome que você vai encontrar, porque ela foi aquele tipo de bailarina fora do comum.

E isso explica porque, apesar dos escândalos de relacionamentos em que ela não casou, que teve filhos e tudo mais, ela se tornou um fenômeno do balé na sua época. Voltando à questão do Diabo Cocho, que é essa obra apresentada no Ópera de Paris.

Esse Diabo Cocho, especificamente, é um balé baseado na obra de Alain René Lizage. A gente tem uma tradução de 1810, vou deixar também na descrição do episódio, gratuita na internet. A obra é inspirada na obra El Diablo Caruelo. Agora, neste momento...

Os hispanohablantes vão me trucidar, mas tudo bem. Essa obra real, que foi inspiração para o Lesage, é de 1641 e pertence a Luis Vélez de Guevara. Lesage faz uso do início da obra, que ficou realmente inacabada, mas dá um direcionamento diferente do proposto pelo escritor espanhol. Vamos falar um pouquinho da trama, porque ela nos interessa.

A obra apresenta uma sátira social adotando o elemento fantástico para expor os vícios da sociedade. Trata-se de uma história que se passa em Madrid, com um protagonista chamado Dom Cleófas, que era Leandro Pérez Zambulho, um estudante da Universidade de Alcalá, que entra por acidente em um determinado sótão.

que pertencia a um mago, ele está fugindo de alguns homens, porque eles estão tentando forçá-lo a se casar. No local, o Dom Cleófas, ouve uma voz vinda de uma redoma de vidro. Quem estava na redoma de vidro?

Um espírito, o diabo coxo. É um espírito que se identifica como Asmodeu. Ao contrário de outros demônios que cuidam de guerras e política, o Asmodeu afirma ser o demônio do luxo, do jogo, da dança, da comédia. E, claro, ele diz que ele é o deus cupido dos poetas.

Cleófas liberta essa criatura, quebrando a garrafa. Em gratidão, o demoninho ali, o dito cujo, leva o estudante para o alto da torre de São Salvador e, utilizando seu poder, claro, diabólico, levanta os telhados das casas de Madri e permite que Cleófas observe a intimidade e os segredos dos habitantes.

revelando a discrepância entre a aparência pública e a realidade privada. Está falando de O Conde de Monte Cristo? Não, mas tem tudo a ver. Uma das histórias reveladas, inclusive é uma das histórias principais dessa história, é de Dona Leonor e o Conde de Belflor. Mas não direi mais nada porque, a partir desse momento, pode ser que seja um spoiler do romance de Dumas que estamos lendo.

Deixarei por aqui, você procure, ou então vai ler a versão que eu vou deixar na descrição do episódio. Recomendo fortemente. Bom, vamos ao autor da inspiração da dança no teatro Ópera de Paris, Le Sage.

Olha, dito isso tudo, com este talento, com essa desenvoltura, cabe-me ser enxuto. Ele foi um romancista e dramaturgo francês, nascido em 1668, ano bissexto e ano da primeira apresentação de O Avarento, de mulher, e morrido em 1747, ano que aparentemente não aconteceu nada de interessante.

As principais obras dele são essa comédia, O Diabo Cocho ou O Diabo Manco, a comédia Turcare e o romance Gilbla. É isso. Este é o homem, mas a sua obra é melhor que o homem.

Outros personagens entram em cena, como Valentini Morrel. E este texto é uma das olhadelas apaixonadas, que é um dos mais bonitos momentos da literatura, pelo menos da literatura francesa. Morrel. E aí agora eu entro com o texto de Dumas.

viu no umbral da porta um rosto branco e belo, cujos olhos dilatados e sem expressão aparente não desgrudavam dele, enquanto o buquê de miozotes subia lentamente a seus lábios. Aquela saudação foi tão bem compreendida que morreu em resposta, com a mesma expressão no olhar. Aproximou o lenço de sua boca.

E as duas estátuas vivas, cujos corações batiam tão celeramente sob o mármore aparente de seus rostos separados um do outro por toda a amplidão da sala, esqueceram-se por um instante, ou melhor, por um instante esqueceram-se de todo mundo naquela muda contemplação.

Para acabar com tudo isso, chega o homem do momento, o Conde de Monte Cristo. E mais um pouquinho do texto do Dumas, porque isso é importante para a gente entender determinadas coisas. Do porquê esse homem chama tanto atenção? Não era a finura de sua vestimenta que chamava atenção. Mas...

Era sua pele fosca, seus cabelos negros cacheados, seu rosto calmo e puro, seu olhar profundo e melancólico. Era, enfim, sua boca, desenhada com um refinamento maravilhoso, capaz de assumir com enorme facilidade uma expressão de altivo desdém que fazia todos os olhares grudarem nele.

Vejamos que tudo é intencional no conde. Dumas deixa isso muito claro. Podia haver homens mais belos, mas, de certo, não os havia mais significativos. Que nos perdoem a expressão. Tudo no conde queria dizer alguma coisa e tinha seu valor.

pois a prática do pensamento útil dera a seus traços a expressão de seu rosto e ao mais insignificante de seus gestos uma docilidade e firmeza incomparáveis.

e os coaches de hoje em dia vendendo uma vida com propósito e intencionalidade, para que você se torne o quê? Um conde de Monte Cristo? Não, irresistível, como ele. Sua recepção também é um espetáculo de narrativa, porque é o ser recebido por Mercedes.

Alguns corações agora, neste momento, pararam com a leitura deste trecho, principalmente na primeira vez que você lê este livro. Porque o Conde e a Senhora de Morcef não dizem nada. E segundo deixa claro o texto do Dumas, porque não era preciso. Então, neste momento, Albert apresenta ao Conde algumas figuras, algumas celebridades das quais ele prefere distância. Acho que talvez todos nós.

Chega Danglar, eles passam a falar de determinados títulos, porque o Danglar não quer saber dos títulos e tudo mais. Diz preferir o título de milionário sob a monarquia de Júlio. E o conde dá a entender que determinados milionários acabaram de perder dinheiro, deixando o barão preocupado, porque esse fazia negócios com aqueles senhores, e o conde até começa a fazer somas de quanto o seu caro inimigo estava perdendo. Mas...

Por que ele fala que seria interessante para ele melhor ser um milionário sob a monarquia de Julho? Aqui a gente vai olhar com calma duas cenas. Primeiro essa, essa questão da monarquia de Julho. A monarquia de Julho é esse período do governo francês. Entre a Revolução de Julho de 1830, que derrubou Carlos X, e a Revolução de 1848, que derrubou a monarquia e instalou a Segunda República. A gente já comentou isso em outros episódios.

O comentário de que um título de milionário ser o melhor título nesse governo monárquico pode parecer um pouquinho estranho, mas é que essa monarquia de judo era bem liberal, deu muito espaço para o crescimento da burguesia francesa e o próprio rei Luiz Felipe I era chamado de o rei burguês.

Então, por mais que, como a gente viu, uma revolução em cima da outra, desde 1789 até o final da Guerra Franco-Prussiana em 71, títulos monárquicos vêm e vão. Ah, o dinheiro continua na conta, se você estiver cuidando bem. Então, você sendo um milionário, você não vai.

se abalar tanto assim. Consegue inclusive comprar outro título que você para fazer parte daquela sociedade. Exatamente. E um outro momento interessante é o Albert conversando com alguém sobre o Conde, eu acho que um pouco antes do Conde chegar no salão, ou logo depois que o Conde chega no salão, que fala assim, só faltava prender o Conde como vagabundo a pretexto de ele ser muito rico.

Então vamos para essa questão do vagabundo. Quem é esse vagabundo? A vagabundagem na França era crime na época da nossa história. E na verdade continuou sendo crime até 1994. Desvagabundaram a criminalidade em 94. Desvagabundaram muita coisa nessa época. Nossa! Mas é melhor não entrar nesse assunto. Você aí que nasceu depois dos anos 2000?

É, inocente. Não sabe o que aconteceu nesse período. A pessoa não ter casa fixa, não ter renda fixa, não ter emprego, podia levar a pessoa a punições como a prisão, exílio e trabalhos forçados. A nômade seria o quê? Ou, nesse caso ali, o conde. O conde faz o quê? Que emprego que ele tem? Não tem. O dinheiro dele tá onde? Tá na França? Não. Vagabundo. Pelo código.

penal de 1810, aprovado lá no regime do Napoleão Bonaparte, aquele lindo, crime de vagabundagem podia ser punido com 3 a 6 meses de prisão, ou 2 a 5 anos, se armas fossem achadas com referido vagabundo. E com a possibilidade de trabalhos forçados pra todo vagabundo fisicamente apto pra tal.

livros de registro de trabalhadores eram usados com frequência pela polícia, por autoridades da cidade, para identificar os trabalhadores de cada departamento, bem como para identificar mercadores itinerantes e para sondar quem não está fazendo nada de útil, sendo cotado para se tornar um vagabundo oficial reconhecido por lei.

Bom, tendo essa explicação de que o conde poderia ser visto como um vagabundo presente em um baile de um conde de Morsef, depois dessa conversa dele com o Danglar, temos a observação de uma certa personagem.

acerca dos modos desse senhor vagabundo ou não, porque agora é a Mercedes, a partir desse momento da história, Mercedes começa a observar que o conde não ingere nada, nem bebida, nem comida, nada.

Inclusive, ele está suando um pouquinho e ela manda abrir todas as janelas e até convida os demais presentes ali para irem para o jardim. Aí, neste momento, tem um certo general que diz Ah, senhora, não iremos sozinhos para o jardim.

E segundo o texto do Dumas, este velho general cantara Vamos para a Síria em 1809. Mercedes concorda e agarra o braço do conde para ir com ele para o jardim.

Essa música, também traduzida como Partindo para a Síria, foi composta pela filha da Josefine, esposa do Napoleão, ali por 1807. Filha do Napoleão? Não, filha. Já era filha nascida da Josefine quando os dois se juntaram. E a filha da Josefine...

se inspirou na campanha napoleônica da Síria e do Egito. Por isso, o nome fazendo referência à Síria. Essa música ficou muito famosa entre os bonapartistas durante a restauração Bourbon e acabou virando o hino nacional francês no Segundo Império, entre 1852 e 1870. Ainda hoje, ela faz parte do grupo principal de músicas militares francesas. É uma música bem bonita.

O Dumas registrar que ele teria cantado Partindo para a Síria é um meio poético-cultural, é nada discreto, de dizer que ele era bonapartista até o cabelinho da perna. Pois é.

Fecha um comentário interessante, bem sem vergonhinha. Entramos no capítulo 14, intitulado O Pão e o Sal. Acho que é o capítulo sobre o qual falaremos bem pouquinho, porque é um capítulo muito rápido também. Trata basicamente da conversa e de certas aproximações e distanciamentos. A conversa não é muito clara entre Mercedes e o Conde de Monte Cristo.

Isso porque Mercedes tenta acessar aquela figura que ela conhecia há muito tempo e muito bem, e que agora se apresentava na sociedade como Conde de Monte Cristo.

Ela recorre ao sentimento de amizade para pedir, mesmo que não de forma explícita, que o conde considerasse a ela e a Albert como amigos. Isso porque, segundo ela, Senhor conde, há um comovente costume árabe que torna eternos amigos aqueles que dividiram o pão e o sal sob o mesmo teto.

Lembremos que ela está fazendo essa conversa, acessando determinadas informações, e que ele tenta passar batido para não chegar em informações que ela já conhece muito bem. O conde vai responder, conheço, minha senhora, mas estamos na França e não na Arábia. E na França não existem mais amizades eternas, apenas a divisão do pão e do sal. E o pão e o sal, que é o próprio título deste capítulo,

E isso não é uma tradição só árabe. Em várias regiões da Europa, em outras tradições culturais, é um sinal de hospitalidade, de boas-vindas, receber visitas com pão e sal. O pão tem o simbolismo de alimento do corpo, fartura, prosperidade, união entre as pessoas e até de bondade divina. O sal tem o simbolismo de sabedoria, preservação de costumes, proteção contra o mal e, às vezes, de severidade.

Por isso, em algumas situações, o pão temperado com sal é um equilíbrio entre a bondade e a severidade de Deus. E esse capítulo eu acho tão interessante, aproveitando que eu abri o microfone agora, porque a gente vê a Mercedes se apresentando socialmente agora como senhora de Morcef, então ela também trocou de nome na prática.

Falando com o conde, ela sabe que ele é ele, ele sabe que ela é ela. Normal, eles já se reconheceram naquela primeira cena. Faz um bom tempo. Exatamente, faz um bom tempo. Só que ela quer, ainda que num ambiente um pouco separadinho, eles vão ali, sei lá, com uma estufa, com um canto do jardim, não lembro onde que eles vão conversar. É um grande xadrez argumentativo. Exatamente. Porque ela não fala diretamente... Exatamente.

as coisas que ela quer e ele entendendo toda a conversa se nega a dar as informações diretas que ela gostaria de receber é muito bonito e é muito intrigante porque nenhum dos dois dá o braço a torcer completamente e até o conde conta um pouco

da história do lado dele, mudando o lugar e olhando na cara dela. Assim, ah, achei que a minha amada de uma outra época ia me esperar e ela casou em tal lugar, ela assim, em tal outro lugar. Em Malta? Em Malta. Ela, em Malta? Em Malta. E ele olha sério na cara dela. Em Malta. Bem cara de pau. Bem cara de pau. Eu falo, mas...

Só que a gente entende nesse ponto, ainda mais no baile, que qualquer, ou a gente infere, pelo menos eu tenho essa impressão, que se qualquer um dos dois ali puxasse um centímetro para o lado pessoal, desandaria toda a história, desandaria o casamento dela nesse momento.

a vingança inteira do conde ia embora. É nesse ponto que entra o lado fã. Porque é nesse ponto que os corações estão tudo quentinho, porque afinal de contas, um casal mercedantes se fez lá no início da história e finalmente eles estão conversando a sós.

E é nesse momento que o Dumas quebra todas as expectativas e faz, inclusive, a história tomar um rumo com um tom até melancólico e triste, porque dá a entender que esses dois não têm mais jeito juntos.

Quem ainda não leu, a gente não vai contar agora, mas são elementos que o Dumas vai colocando na história e que faz com que esses dois personagens tenham trajetórias muito diferentes. Mas a gente chega lá no momento certo. Porque, voltando ali a essa questão, dessa relação dos dois, dessa conversa que estão ditos e não ditos, desculpa.

É importante a gente perceber que ela faz um pedido muito especial. Ela, inclusive, ela pega a mão do Albert e a mão do Conde e diz, olha, somos amigos. Ela está fazendo um pedido, ela já entendeu o que o Conde está fazendo. Ela já sabe o que ele está fazendo. E ela diz, olha, não mexa com ele, sabe? Não... E aí

Considere-nos amigos. Ele não faz parte do teu plano. Isso, da tua tramóia. E o capítulo termina de modo dramático, porque anuncia-se a morte do avô da Valentini, o senhor de Sameran. E duas personagens são levadas pelo Viefort para casa, que é Valentini, que passa mal e...

a própria senhora de Vierfort. Neste momento, Albert faz uma piadinha sem graça, que diz que avô de outra pessoa podia morrer, mas, claro, puxado pela orelha pela mãe, mas entramos então no capítulo 15, intitulado A Senhora de Samerhan. E este capítulo 15 é muito interessante.

porque ele apresenta um contraponto, dando a imagem de linearidade da história para a nossa cabeça, para o leitor, porque ele narra a confusão mental em que se encontra

Viefford, o senhor de Viefford, antes da chegada da senhora de Saint-Méhan, dando a notícia da morte de seu marido. Viefford se perguntava quem estaria por trás das suas desgraças e por que tudo estava acontecendo daquela maneira com ele. Qual dos seus inimigos tinha conseguido furar o bloqueio e acessar os seus segredos mais íntimos? Essa era a questão que torturava Viefford.

Ele não acreditava na paciência de seus inimigos para esperar o momento exato, para que realizassem uma vingança. Ele cita, então, um determinado trecho fazendo referência a Hamlet. Ele diz, às vezes, como diz Hamlet, o barulho das coisas mais profundamente sepultadas sai da terra e como o fogo do fósforo corre loucamente pelo ar, mas são chamas que iluminam apenas por um momento para depois se extinguerem.

Segundo a nota de Rodapé, presente na edição da Zahar, trata-se de uma paráfrase, da fala A vilania mesmo oculta há de vir à luz do dia, que é o ato 1, cena 2, da peça do Shakespeare. E isso faz uma alusão aos golpes que o procurador do rei não sabia de onde estavam vindo. Quem era o autor dos seus dissabores?

Depois disso, Dumas faz uma referência muito interessante, já mencionada no capítulo 15 da parte 1 do Conde de Monte Cristo, quando Dantes se encontrava no mesmo estado de espírito que Viefor, neste ponto da história. A frase que Dumas coloca neste capítulo para descrever o sentimento do Viefor é o mais terrível para ele ainda não era a revelação, pois podia negar ou mesmo responder.

Preocupava-se pouco com aquele Menetekel Pérez, que aparecia de repente em letras de sangue na parede. O que o preocupava era conhecer o corpo a quem pertencia a mão que as traçara.

Eis que estava o rei Baltazar da Babilônia, oferecendo um banquete na inauguração do seu palácio, com dois mil convidados. Baltazar tomou todo o vinho que podia e mais um pouco. Mandou trazer os vasos de ouro e de prata que o pai dele, o rei Nabucodonosor, tinha saqueado de Jerusalém e mandou servir vinho nesses vasos. Honraram os deuses da Babilônia.

Riram, se divertiram e, de repente, surge uma mão que escreve na parede umas palavras estranhas. O rei ficou apavorado, o álcool evaporou na hora, os sábios vieram para tentar decifrar aquela escrita e uns outros vieram só para ver a novidade e contar fofoca.

O rei Baltazar, desesperado, mandou anunciar que qualquer pessoa que conseguisse desvendar a escrita seria vestido de púrpura, que era uma cor de tecido reservada só para a realeza, caríssima, e ganharia um colar de ouro e ainda ganharia autoridade sobre um terço do seu reino. Sem saber o que fazer, o homem fez o que todo homem sábio deve fazer, consultar a sua esposa.

A rainha lembrou que tinha um pessoal cativo da Judéia e um sábio que já tinha decifrado os mistérios para o Nabucodonosor. O rei chamou esse tal de Daniel, repetiu a oferta de riquezas e Daniel decifra as palavras escritas na parede como foi numerado, foi calculado e foi removido. O sentido é que Deus dá e retira as coisas a todas as pessoas.

O rei fez festa, profanou os itens do templo de Jerusalém e não honrou o Deus verdadeiro. Portanto, o tempo deste reino foi calculado, tudo foi pesado e o reino deveria ser dividido e chegar ao fim. O rei cumpriu sua palavra de riquezas de púrpura e de colar e logo depois o reino da Babilônia cai.

Este é o significado das palavras que Dumas menciona sobre o sentimento profundo de inquietação que tem Viefort. No meio de suas reflexões, chega a senhora de Sameran em estado de miséria. Ela fala do falecimento do marido após ingerir determinadas pastilhas.

porque a farmacologia no início do século XIX estava evoluindo a pleno galope. Falei que eu ia fazer metáforas rurais. Pronto, começamos. É isso aí. Quer dizer, já continuamos, né? Continuamos. Vários compostos químicos estavam sendo isolados das suas fontes naturais, a industrialização ainda era pouca, e os apotecários, farmacêuticos, boticários, tinham suas coleções de compostos, todos guardadinhos em jarra.

e dependendo da demanda, a mistura era feita na hora. Bem numa lógica de farmácia de manipulação de hoje em dia, só que um pouco mais rústico. Uma das novidades do século XIX foi prensar essas misturas em pequenas pastilhas duras para que o consumo ficasse mais fácil. A novidade foi tão boa, tão eficiente, que a gente vê exemplos de pastilhas sendo anunciadas em jornais aqui de Santa Catarina no século XIX.

e até gracinhas literárias disso como argumento final na discussão entre o narrador e a múmia do conto Pequena Palestra com uma Múmia, de 1845, do Edgar Allan Poe. Voltando ali à nossa história, seria relativamente fácil colocar algum outro composto prensado ali na hora da mistura com o devido incentivo financeiro ao boticário.

Pois é, a desconfiança, então, já está plantada neste momento da história. Valentina e a senhora de Viefort voltam do baile e tentam acudir àquela senhora que estava desesperada e dizendo que vai desviver. A senhora de Samir Han vê um vulto mexer em seu copo durante a noite. Ela estava muito febril e consta a informação de que havia um suco na mesinha ao lado de sua cama.

Bom, quem mexeu, não é mesmo? Todos os indícios estão ali. E você já deve ter detectado, porque este não é um romance da Agatha Christie que o Poirot chega e diz que foi o carteiro. A partir disso, a senhora de Sameran diz ter certeza de que iria morrer e exigiu que o casamento da pobre Valentini fosse adiantado para que ela pudesse estar viva até o acontecimento.

Festeira, senhora. Entramos no capítulo 16, A Promessa, e teremos realmente uma promessa que dará título a este capítulo. Mas, antes disso, precisamos retomar a história. Um médico é chamado para ver o que a senhora de Samerhan tem. Valentini se dirige para a cerca aquela.

Afinal de contas, ela está desesperada porque vai ser casada sem a sua vontade. E desesperada, ela vai procurar quem? Na cerquinha? Aquela cerquinha que a gente já ouviu falar em outros episódios? Em outros capítulos? Ele mesmo, Maximília Morrel. E ele aparece realmente preocupado com o destino dos dois. Isso porque o próprio Morrel conheceu o rival, o Franz de Piné, na casa do Conde de Monte Cristo.

Neste momento, Maximilian sugere que os dois fujam. Há aquele, se tu não fugir comigo, eu vou me desviver. Então temos a Pax dos enamorados, rapidamente estremecida, porque a Valentina se nega a constranger sua família.

Com a sua fuga, ela ia colocar vergonha sobre a casa dos Vierfort. O rapaz, então, diz que vai desviver, sim. E pronto. E um dramalhão sem fim começa. São páginas e páginas e páginas de um drama inacabável, sem fim, eterno. Até que a Valentina aceita o plano. Jovens pós-adolescentes fazendo o drama. Pois é. É, tem que ter paciência com o jovem mesmo.

Valentini aceita o plano do modo mais dramático possível, porque ela não fala com ele, ela fala com o universo, dizendo que realmente vai fugir com o Morrel. Combinam tudo, um bilhetinho seria entregue a Morrel na data da assinatura do contrato de casamento e assim foi. Dois dias depois, ele recebe um bilhetinho de alguém lá específico que a Valentini mencionou. Combinados data e horário, ocorre uma tensão.

com o não comparecimento da jovem ao encontro e com a crença por parte de Morrell que o plano deu errado. Entrou água. Sobre o moço. Então o moço sobe uma escadinha, atravessa a cerca.

entra no terreno dos VFOR ao ponto de ouvir uma conversa muito séria entre o pai da Valentini e o médico da família. Pense no apavoro do rapaz quando ele ouve a respeito de uma morte. Pronto, ele já achou que a Valentini desviveu.

Finalmente descobre que a falecida era a senhora de Sameran, que veio a perder a vida. De um modo muito dramático, muito assustador, e que o médico acreditava ter ocorrido um envenenamento.

E ele cita especificamente que tem quase certeza... O médico, né? É, que a senhora de Samerhan possa ter sido envenenada com brucina ou com estricnina, que são dois compostos alcaloides muito parecidos e originalmente isolados a partir da planta Stricnus Nux Vômica. Hoje você está muito boticário. Eu estou, Arthur.

A brucina é C23H26N2O4. A estricnina é C21H22N2O2.

Nossa, agora os nerds da química ficam oriçados. Ambos os compostos causam a estimulação severa do sistema nervoso central, rigidez na nuca, espasmos musculares e convulsões conscientes, além de serem substâncias extremamente amargas. Então, se você ouvinte da Caractere sentiu saudades das aulas de Química Orgânica do Ensino Médio, comente hidrocarboneto ali na aba de comentários.

E completando esse diálogo ali entre o médico e o VFOR, o médico não quer se comprometer e diz assim, olha, no meu conhecimento como observador, pode ser, eu tenho quase certeza, mas eu estou falando para o VFOR, para um amigo, não estou falando para o procurador do rei. Um depoimento oficial seria diferente.

Então, o Vietfor vai dizer, vai ficar um tanto estupefato, e vai dizer a frase célebre, Errare humanum est. Então, a gente tem mais uma questão de duas edições diferentes do Conde de Monte Cristo.

A versão da Zahara aponta para Sêneca. A versão da Martim aponta para Cícero. Dizendo quem foi que escreveu essa frase. Eu vou puxar o histórico da frase aqui, porque em Cícero a referência é nas filípicas. Como a gente curiosa, a gente vai atrás e enfim. A gente também acabou de fazer um episódio sobre Cícero. Se você não ouviu ainda, faz favor, vai lá ouvir. É uma questão de bom senso.

As filípicas do Cícero são uma série de 14 discursos feitos pelo Cícero contra Marco Antônio nos anos de 44 e 43 a.C., logo depois do covarde assassinato do divino César. De acordo com Cícero, o Marco Antônio também deveria ser considerado uma ameaça à república e um inimigo do Estado.

No 12º discurso, o Cícero manda um Qualquer pessoa pode errar, mas só os tolos persistem no erro. Não é exatamente a mesma coisa, mas a ideia é a mesma. Se a gente quiser literalidade, a gente de fato tem que ir para Sêneca, conforme aponta a edição da Zahar, com Errar é humano, mas perseverar no erro é coisa do demo. É diabólico.

Santo Agostinho recupera isso uns séculos depois, nos sermões. Mais para frente, o poeta inglês Alexander Pope, já em 1711, dá uma aliviada na barra. Errar é humano, perdoar é divino. Então a gente vê um falando em 44 ou 43 a.C., o outro falando em torno do ano 60, alguma coisa depois de Cristo, que é o Sêneca.

mais ou menos para a época do Nero. Aí a gente tem Santo Agostinho lá para os anos 400 e um falando em 1711. Só que nas citações de Cícero, Sêneca e Agostinho, a gente costuma ouvir só o início da citação. Errar é humano. Então, se errar é humano, eu posso errar à vontade, porque eu sou humano.

Só que tem uma sequência... É um raciocínio lógico. É um lógico. Só que tem essa sequência que o povo convenientemente esquece. Se você continuar errando, ou você é burro ou está sendo atiçado pelo demônio. Mais dicas pedagógicas em Radio Caractere.com

A partir disso, temos um morrel muito espantado e preocupado. E agora ele vai fazer o quê? O que o jovem faz? Ele vai tentar entrar na casa dos Viefó e encontra Valentini no quarto da avó. Segundo o texto do Dumas.

Ao lado da cama, de joelhos, a cabeça enterrada nas almofadas de um amplo sofá, Valentini, arrepiada e sacudida pelos soluços, estendia acima da cabeça, que não se via, suas duas mãos juntas e irtas. Ela saíra da janela, onde ele tinha visto ela antes, ainda aberta, e rezava bem alto com ênfases, que teriam comovido o coração mais insensível.

A palavra escapava de seus lábios, rápida, incoerente, ininteligível. Tanto a dor apertava sua garganta com tenazes incandescentes. A lua, deslizando através do vão das janelas, empalidecia a luz da vela e azulava, com seus matizes fúnebres, esse quadro de desolação. Morreu. Não pôde resistir a tal espetáculo.

Não era de uma devoção exemplar ou fácil de se deixar impressionar, mas Valentini sofrendo, chorando, retorcendo os braços diante dele, era mais do que podia suportar em silêncio. Maximilian soltou um suspiro, murmurou um nome e a cabeça afogada nas lágrimas e marmorizada no veludo da poltrona.

Uma cabeça de Madalena de Corédio ergueu-se e permaneceu voltada para ele. Vamos comentar a beleza de Azulava com Matizes Fúnebres. Pô, mas espera aí, né? Madalena de Corédio. Depois disso, como é que eu falo, não é mesmo? Tá louco.

A Madalena é uma pintura de 1517 do pintor renascentista italiano Antonio Alegre da Corredio, mestre da técnica de chiaroscuro. E é uma obra simples, mas muito bonita. A Madalena, nessa tela, olha diretamente para quem está olhando para a tela.

E tem a impressionante característica de não ter expressão nenhuma. Nada. Não tem um leve sorriso. Não tem uma testa franzida. Não tem um olhar de dúvida. Nada. Nada. E incomoda justamente por isso. Ela olha seco. Para você que está olhando a tela, você não consegue ler absolutamente nada. Se ela estivesse...

desvivida, talvez tivesse mais expressão do que isso. Essa é a força do corredio de fazer uma pintura com uma figura viva que não passa nada no olhar. E a descrição do Dumas deixa claro que esse era o ambiente, essa era a apresentação feita daquela jovem desesperada, sem feição, sem respostas.

Não tinha mais nada para dar ali. Não. Isso porque, como o Hél vai descobrir logo em seguida, ela fala que o último desejo da avó era que ela se casasse com o Franz. O mais rápido possível. A partir do desespero da jovem, os dois conversam e resolvem pedir a ajuda de alguém. A única pessoa que passou na mente dos dois.

que era o avô de Valentini, o outro avô da Valentini, que era o Noirtier. De um jeito um tanto cômico, Maximilian consegue conversar com o idoso ao modo como ele podia se comunicar, lendo as piscadelas dos olhos. E então Noirtier faz a promessa, palavra que dá título a este capítulo, de que ajudaria na solução do problema do casal, não permitindo que Valentini casasse com Franz.

A partir de agora, a gente dá até logo e nos encontramos no próximo episódio.

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas - Parte 23 | Castnews Index — Castnews Index