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“Maternidade”: Hélder Bata filma o luto sem corpo e a dor invisível

14 de outubro de 20267min
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Na curta-metragem moçambicana “Maternidade”, apresentada no FESTin, Hélder Bata parte do roubo de um bebé para explorar uma perda sem despedida e um sofrimento psicológico invisível. Entre depressão pós-parto, luto ambíguo, burocracia e tradição, o realizador interroga a forma como uma sociedade reconhece ou desvaloriza a dor das mulheres depois da maternidade.

O nascimento de Lia deveria ser o princípio de uma vida nova para Amara e João. Porém, torna-se o início de uma ruptura quando uma mulher que se apresenta como voluntária entra no hospital e leva a criança. João procura respostas através das instituições, Amara fecha-se num sofrimento que altera a sua relação com o marido, com a família e com a própria realidade. Atormentada pelo choro da filha desaparecida, acaba por transferir o afecto para uma boneca que acredita ser Lia.

A origem do filme está numa história real ouvida por Hélder Bata num podcast, a história que uma mulher relatava como quase perdera o bebé e descrevia as consequências psicológicas da experiência. O realizador começou a investigar casos de crianças roubadas em diferentes países e encontrou elementos que se repetiam. “Vi que havia muitas coisas semelhantes. Não acontecia somente em Moçambique, acontecia em vários países ao redor do mundo”, recorda.

Foi durante essa pesquisa que Hélder Bata chegou a uma das ideias centrais de “Maternidade”, o luto ambíguo. Ao contrário de uma morte confirmada, o desaparecimento não permite uma despedida nem oferece uma certeza a partir da qual seja possível começar a reconstruir a vida. “Nunca se sabe se o bebé está vivo, se está morto, se está bem ou se está mal”, explica.

A investigação levou-o também à depressão pós-parto, realidade que o próprio realizador admite desconhecer antes de preparar o filme. A descoberta alterou o centro da narrativa. Mais do que contar apenas o roubo de uma criança, interessava-lhe observar aquilo que acontece à mulher depois do parto e depois do trauma. “São problemas que estão ocultos e que eu queria tentar trazer à tona: a saúde mental da mulher após um parto, a saúde mental da mulher após o roubo de um bebé.”

Hélder Bata associa esse silêncio à dificuldade de levar a sério o sofrimento psicológico feminino. “Ainda vivemos, infelizmente, num mundo machista”, afirma. Na sua leitura, certos comportamentos da mulher depois da maternidade são muitas vezes reduzidos a “drama”, em vez de serem entendidos como sinais de um problema real. “Maternidade” procura contrariar essa banalização, colocando a experiência interior de Amara no centro da história, sem a reduzir à condição de vítima de um crime.

O filme introduz ainda outra dicotomia, entre as respostas institucionais e as formas tradicionais de enfrentar a perda. Enquanto João se confronta com burocracias e buscas que não produzem resultados, a irmã de Amara propõe rituais ligados ao curandeirismo, que a protagonista rejeita. Hélder Bata diz não pretender decidir se essas práticas funcionam ou não. Interessa-lhe antes mostrar uma tensão que, segundo afirma, continua presente na sociedade moçambicana: “Temos de conciliar essas duas partes”, diz, referindo-se à medicina e às crenças tradicionais.

Essa fronteira entre o exterior e o interior da personagem condicionou também a linguagem do filme. O realizador não quis reconstruir os acontecimentos como se estivesse perante um relato documental. A deterioração psicológica de Amara exigia, explica, recorrer à ficção e à imaginação para tornar visível aquilo que não pode ser observado directamente. A boneca que ocupa o lugar da filha desaparecida torna-se, nesse sentido, uma extensão do trauma não substitui Lia, mas materializa a impossibilidade de aceitar uma ausência que nunca foi explicada.

O realizador participa no festival desde 2023 e esteve em Lisboa, no ano passado, numa residência artística. Considera que continuam a existir poucas plataformas internacionais dedicadas ao cinema independente de língua portuguesa, sobretudo quando comparadas com os circuitos disponíveis para obras em inglês. “O FESTin é um espaço que permite que realizadores independentes de língua portuguesa possam mostrar os seus trabalhos”, concluiu.