Batida - do "Kuduro da Tuga" para novo género musical: retrospectiva
É um género musical recente, que já começa fazer vibrar os clubes e as cenas alternativas de várias capitais europeias. Nasceu nos subúrbios de Lisboa, nos anos 2000, criado por artistas da diáspora africana. Batida, é ritmo, é pulsação, é cadência. É o bater do coração transformado em música. 140 BPM para os mais entendidos. Como o kuduro de Angola. Rápido. Enérgico. A batida mexe com as regras da música electrónica. Mas o que é e de onde vem?
"A batida para mim é tudo", diz DJ Marfox, um dos pioneiros do género. "É vida, é ar, é sol, é lua e noite, é dia. Para mim, é uma continuação da minha personalidade".
É na Quinta do Mocho, norte de Lisboa, que tudo começa em 2004-2005, nomeadamente com a compilação DJs do Gueto Vol. I, produzida pelos DJs Marfox, Pausas e Fofuxo, e considerada uma das primeiras edições de Batida.
"Entre 2001 e 2004, a coisa foi-se construindo, primeiro com o DJ Nervoso, depois eu também entrei em cena, com o DJs do Gueto, e depois expandiu para todos os guetos de Lisboa e tornou-se uma febre", conta Marfox.
As raízes são múltiplas, com um destaque para o kuduro angolano, mas também outros ritmos africanos, todos misturados com sons electrónicos.
"A batida é inspirada essencialmente no kuduro. Só que nós tínhamos muita dificuldade em ter kuduristas, éramos muitos produtores, poucos kuduristas. Então a coisa foi-se fortalecendo cada vez mais no beat, na construção mais melódica. Fomos sempre atrás de uma fusão entre kuduro e techno e como não tínhamos um nome para dar, as pessoas foram falando batida, batucada. Ficou batida", diz ainda Marfox.
Para realizar os sons, recorriam a um programa de produção musical no computador, o Fruity Loops. Não era preciso muito equipamento, um computador, alguns samples e muita experimentação.
"Tínhamos o som, mas não tínhamos ideia como era feito um kuduro. Acho que essa experimentação é que deu um certo groove, um certo encanto. O facto de tentarmos replicar o que era feito em Angola, mas não conseguirmos. Então criávamos coisas novas e experimentávamos nas festas aqui na Quinta do Mocho".
Em 2004, quando se ouvem os primeiros sons da batida na Quinta do Mocho, nos arredores de Lisboa, o DJ Lycox ainda é um miúdo na altura. Dança e descobre este novo som na escola, através dos mais velhos.
"Eu conhecia a batida através de amigos meus da escola. Os mais velhos surgiam nas escolas com aqueles Nokia Express Music e aí metiam esse subgénero. Na altura a gente dançava kuduro. A nossa comunidade do PALOP's fazíamos as rodinhas de dança e ficávamos só a meter kuduro. Mas depois veio essa wave da batida um pouco mais agressiva do que aquele kuduro que a gente estava habituado a ouvir nas cassetes em casa dos nossos pais", recorda Lycox.
Mas a batida não vem só do kuduro, até porque os seus criadores são filhos da diáspora de todos os PALOPs, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Moçambique.
Em 2011, surge em Lisboa a Príncipe Discos, editora independente. Nasceu para dar voz a uma música que já fervilhava nos subúrbios da cidade. Uma música electrónica criada em grande parte por artistas afrodescendentes, que misturava kuduro, batida, funaná e outros ritmos africanos.
Com artistas como DJ Marfox, Nídia, DJ Nigga Fox, DJ Firmeza, a editora acabou por levar estes sons muito para lá de Lisboa, até aos clubes de todo o mundo hoje. Os seus DJs tocam em Paris, Londres, Berlim, Viena, Roterdão. Mas ainda assim, a batida continua relativamente discreta.
Marfox: "É uma luta, não é? Mesmo aqui em Lisboa nós ainda temos algumas resistências em circuitos mais conservadores. Mas não me posso queixar de todo. A coisa está muito melhor do que estava há dez, 15 anos atrás. Mas ainda há muito a fazer, há muito a trilhar, há muito a construir. Acho que estamos no bom caminho e acho que vem aí um futuro brilhante para a batida. Eu já toquei em Luanda, Angola. Já toquei na cidade da Praia, em Cabo Verde. Já toquei em Nairobi, no Quênia. Já toquei no Uganda. Acho que é importante a batida também a olhar para o Sul global. É importante levar o som da batida para para esses sítios, para o hemisfério sul".