675: A Hora da Estrela – Clarice Lispector – Literário 087
Paulinho
Carol
Dri
TAM
- A experiência de leitura de 'A Hora da Estrela' e a figura de Clarice LispectorClarice Lispector·A Hora da Estrela·Primeiro contato com a autora·Genialidade da autora
- A estrutura narrativa de 'A Hora da Estrela' e a figura do narrador Rodrigo S.M.A Hora da Estrela·Rodrigo S.M.·Narrador personagem·Insegurança do autor·Falta de capítulos
- A personagem Macabéa e a crítica social presente em 'A Hora da Estrela'Macabéa·Invisibilidade social·Pessoas marginalizadas·Ditadura militar·Olhar para o pobre
- A vida e a personalidade de Clarice Lispector e sua influência na obraClarice Lispector·Nacionalidade brasileira·Infância e juventude·Problemas na fala·Timidez e antipatia·Última entrevista
- O final de 'A Hora da Estrela' e a interpretação da morte de MacabéaMorte de Macabéa·Atropelamento·Mercedes-Benz·Significado do título·Carpe Diem
- O relacionamento de Macabéa com Olímpico e a cartomanteMacabéa·Olímpico de Jesus·Glória Rolissa·Cartomante·Previsões
Olá, pessoas! Podcastirmãos.com literário entrando no ar. Eu sou o Paulinho, estou aqui com a Carol, que hoje vai precisar me ajudar a defender a Clarice como pessoa. Porque assim, como autora, a gente sabe a genialidade, mas como pessoa, provas que a gente teve assim, foi meio diferente. E eu preciso da Carol para me ajudar nisso.
Tudo bem, tá certo, farei aqui advogada da Clarice, porque essa essa mulher, ela mora assim no meu coração de um jeito, olha, ali dividido com Agatha Christie, sabe?
Meu Deus!
Eu sou a Carol Simão e eu tô aqui com a Dri. Dri, eu vou te falar uma frase de Clarice, tá bom? Renda-se como eu me rendi.
Olha isso, se rendeu ao quê, minha amiga?
A genialidade dessa tia.
E eu sou Adriana, eu estou aqui com o Tã. E Tã, eu espero que você demore muito para ouvir os sons do violino, viu? Obrigado.
Olá pessoal, eu sou o Tã e antes de falar com quem que eu tô aqui, eu tenho umas coisas para falar de umas coisas que eu tenho pensado sobre a vida, sabe? Eu não sei se eu deveria fazer alguma coisa ou não, eu não sei se talvez você não devia fazer essa introdução. Não, eu vou fazer, eu vou fazer essa introdução, mas eu vou, é que a gente tem pensado umas coisas antes, sabe?
Vai ser muito melindroso, né?
Então é Eu não sei, acho que semana que vem eu volto e aí eu faço a introdução do Paulinho.
Gente do céu, esse é o sentimento da primeira metade do livro, pelo menos.
Meu Deus do céu, cara, eu ficava só lembrando o Chaves naquele, eu vou, chuta, chuta, ou do Chapolin.
Eu lembrei tanto Chaves, tanto que até, olha só, eu achei que só eu lembrava.
São da mesma época, inclusive, né?
Tanto que teve uma frase aqui no livro que fala, eu falei mentira, gente, eu li umas 3 vezes, eu falei, você é idiota, você só se faz de idiota. Eu fiz que é idiota. Eu falei, olha aí, não é Clarice Lispector editou o Chaves, cara.
Ó, então nós estamos aqui, gente, de volta com o Literário depois de um tempinho sem, né? Porque nós fomos para o Brasil. Eu imaginava que eu ia conseguir editar podcasts lá, mas o computadorzinho que a gente levou não dá conta. Agora que a gente tá em vídeo também, nem abriu o Premiere direito. Aí decidi me concentrar no tempo do Brasil E deixamos a gravação pra depois. Então, esse livro de, sei lá, 100 páginas, a gente levou quase 3 meses pra publicar aqui, pra gravar sobre ele, pra publicar o Literário, porque tivemos esses contratempos.
Mas estamos aqui pra falar da Hora da Estrela, da Clarice Lispector. Pra mim, pelo menos, foi o primeiro contato com Clarice Lispector, tá? Não sei se vocês tiveram antes. A Carol, eu sei que tem ela como uma deusa. Na Terra, uma feiticeira.
Mas assim, ela é demais.
A gente vai falar sobre a nossa experiência de leitura, né? Não como especialistas em Clarice Lispector, mas como pessoas que estão descobrindo muita coisa da literatura mundial, especialmente a brasileira, aqui no Literário desse mês.
Brasileira entre aspas aí, não é bem brasileira.
Vai, a gente vai falar sobre isso. Vamos lá então, gente. Clarice Lispector. A pouca referência que eu tenho de Clarice Lispector era uma época que no Twitter eles colocavam qualquer frase e atribuíam a ela, e Clarice se escrevia com dois S, né, como zoeira e tal. Qualquer coisa era Clarice Lispector com dois S e tal. Eu sei que ela foi uma escritora muito importante para literatura brasileira. Eu sabia, né, agora eu sei um pouco mais.
Uma das maiores escritoras brasileiras do século passado. Uma referência para muitos outros que vieram depois. E tem essa polêmica, né, de que ela não é brasileira, mas na verdade ela é brasileira porque ela somente nasceu na Ucrânia e ela disse que ela nunca pisou na Ucrânia, né? Ela veio de colo para o Brasil e onde ela cresceu—
Mas ela teve que pedir carta solicitando a nacionalidade brasileira.
É, depois que ela se casou e tal. Porque ela é filha de russo Eu não sei se a mãe era russa ou o pai era russo, e o outro cônjuge judeu, né? Então eles tiveram que fugir da Ucrânia por conta da perseguição aos judeus, foram parar no Brasil e foi morar no Nordeste. Então ela tem esse sotaque nordestino, com uma pequena dificuldade na fala, enfim. Então, por causa da dificuldade na fala, as pessoas não reconheciam muito ela como brasileira, pensando que era um sotaque estrangeiro, mas na verdade era um sotaque nordestino, né? Da região onde ela cresceu lá e desenvolveu toda a sua carreira no Brasil.
Exatamente. Posso começar então?
Brilha, Carol!
Vamos lá. A Clarice, tem até um programa que eu gravei há alguns anos no Ictus Podcast, é o Veio na Maré. Naquele momento eu queria muito enaltecer as autoras brasileiras e eu comecei por ela porque talvez ela seja uma das mais famosas. Talvez nem todo mundo conheça assim as suas obras, mas todo mundo já ouviu falar em Clarice Lispector, exatamente porque tem essa brincadeira na internet que essas frases mais filosóficas são atribuídas a ela.
Como o Paulinho falou, ela não é brasileira, né? Ela nasceu na Ucrânia, veio pra cá muito jovem. E como muitos judeus que vieram fugidos da Europa na época ali da Segunda Guerra Mundial, eles migraram pro— migraram, né? É isso. Eles migraram pro Nordeste brasileiro. Então até hoje tem muitas famílias judias que moram lá no Nordeste. A família dela ficou ali.
Besteira, mas só pra— a gente aprendeu na escola o que que é emigrar, imigrar e migrar, né?
Imigrar, né? Imigrar, eu fiquei na dúvida.
Imigrar é quando você sai, imigrar é quando você chega, e imigrar é dentro do país.
É, ela veio de lá para cá, né? Eles moraram ali algum tempo em Maceió, depois eles foram ali para Alagoas, até que eles se mudaram para o Rio de Janeiro.
Aí sim, migraram para o Rio de Janeiro.
Exatamente. De início veio ela com os pais e duas irmãs. A mãe dela faleceu, ela ainda era muito pequena, tinha 10 anos, né? Eu vi. É por aí, mais ou menos. E aí depois ela com o pai, as duas irmãs vieram para o Rio de Janeiro. E assim, era uma família muito bem de vida. Eles não eram ricos, mas eles tinham condições. Tanto que Clarice falava, sei lá, pelo menos 4 idiomas. Então ela é sempre, desde a primeira infância, ela foi muito bem instruída.
Suas irmãs também, todas de alguma forma se tornaram escritoras, mas a Clarice foi a que levou fama em vida. Uma das irmãs dela escrevia, mas era textos mais técnicos. Uma outra irmã escrevia, mas era mais poesia, umas coisas assim que ficava mais entre eles, não ficava, não era uma coisa tão exposta. E a Clarice também teve a oportunidade de conhecer o mundo através do casamento, né? Ela casou com um diplomata brasileiro, só que o cara era muito ciumento com ela.
Então isso causou vários problemas na vida pessoal dela. Ela teve dois filhos e um deles tinha, hoje a gente sabe que é o autismo, né? Naquele tempo não era tão propagado assim. Então eles tinham muita dificuldade de lidar com o menino. E aí, por causa disso, ela não queria ficar viajando. E aí o marido dela não curtia muito ela ficar sozinha, porque ela tinha essa beleza exótica, né? Quando fala beleza exótica, é a feia bonita, né?
Eu acho que chamava mais atenção. Ela era bem diferente do padrão, mas a personalidade dela era muito atrativa, né? E aí ela tinha um problema na fala. Na verdade, assim, foi graças a uma doença que a mãe dela teve durante o parto essa— agora eu não vou lembrar qual era a doença, mas é isso.
Pelo menos assim, você disse no Vê na Maré que era assim. Isso, exatamente.
Eu mesma, né, me parafraseando. E aí isso causa um problema no desenvolvimento da fala. Se tiver alguém aqui que conhece mais do assunto, pode depois falar com a gente. E ela era muito tímida, então algumas pessoas achavam que ela era um pouco antipática porque ela demorava para responder algumas perguntas.
Aí que tá essa questão, Carol, porque assim, nós lemos o livro e fomos procurar no YouTube Clarice Lispector, A Hora da Estrela.
Aí, para mim, foi um pouquinho antes ainda. Só desculpa te interrompendo, amor, mas porque é muito importante isso. Eu tava lendo o livro, daí eu, como o livro é pequeno e eu li muito rápido a primeira metade, eu falei, não, vou parar de ler porque senão eu vou esquecer para gravação, vou deixar para terminar de ler quando eu tiver mais perto. Só que daí eu falei, quer saber, eu vou ouvir de novo toda a primeira metade que eu li no audiobook, alguma coisa assim.
E aí eu digitei no YouTube audiobook Clarice Lispector, A Hora da Estrela, e cara, terceiro lugar, eu acho, na busca tem uma entrevista dela. Só que eu nunca dei muita bola. É na TV Cultura. Aí eu nunca dei muita bola para essa entrevista porque eu falei, a qualidade tá meio ruim, eu também não quero tomar spoiler e tal, não vou ver essa entrevista não. Enfim, aí que entra o marido.
E depois eu também fazendo essa busca eu vi lá Clarice Lispector fala sobre A Hora da Estrela. Falei, que legal, ela falando sobre o próprio livro.
Sim, eu já tinha lido a metade do livro.
Eu já tinha terminado.
Legal e tal.
Então a gente entra na entrevista E depois eu descubro que foi a última entrevista que ela deu, né? Logo depois ela morreu. E esse era o livro que foi o último livro publicado em vida dela, né? Que é A Hora da Estrela. Então ela, que legal, ela vai falar sobre esse livro, né, nessa última entrevista. E ela é super antipática nessa entrevista. Arrogante, eu não diria arrogante, mas antipática.
Você quer falar sobre o meu livro? Eu não quero.
E evasiva. Não, ela não, eu não achei nesse tom. Eu achei ela evasiva, ela não quis responder. É, parecia que ela tava de saco cheio, ela não queria dar Mas vocês assistiram toda a entrevista?
Então, aí, o que que eu fiz? Eu fiz um exercício. Eu falei, vamos lá, eu tenho que terminar de ler o livro. Eu tava gostando do livro, agora estragou para mim. Só que eu não vou terminar de ver a entrevista, porque se eu terminar de ver a entrevista, eu não vou conseguir nem terminar de ler esse livro. Aí eu falei, então vou parar de ver a entrevista e vou terminar de ler o livro, porque daí eu faço uma dissociação entre a autora e o livro.
E eu falei, é isso que eu vou fazer. Aí eu falei, eu não quero pesquisar, não quero conhecer conhecer mais sobre ela, vou terminar de ler o livro.
Então vamos deixar bem claro que todo esse nosso preconceito foi a partir de 2 minutos de vídeo de entrevista, que podia ser uma hora, um dia ruim dela ou alguma coisa que aconteceu naquele momento.
Eu não tenho preconceito nenhum e tô de boa com a pessoa, com a autora, com qualquer coisa, e só curtir a paisagem.
Muito melhor. Porque quando você vai pesquisar sobre a vida de um cara, tem, eu lembro que era cantor cristão assim, sabe? Eu gostava muito da música. Aí você ia pesquisar sobre a vida do cara, o cara já tinha traído a mulher, era um safado, cara.
Você não consegue nem ouvir mais a música, cara.
Só que assim, eu acho que no caso da Clarice não seja isso, né?
Seja só uma impressão ruim que a gente teve, porque ela tava nos bastidores da entrevista.
Nossa, eu fui lá, foi assim emocionante.
Exato.
Não, gente, tem assim, obviamente eu não conheço ela pessoalmente, né? Não tive esse talvez prazer de conhecê-la. Mas o que eu pesquisei bastante é que em 66, mais ou menos, ela sofreu um acidente muito sério, dormiu com um cigarro aceso, o apartamento que ela morava pegou fogo e ela ficou com problemas muito sérios na mão direita, quase teve que amputar. Então se você assistir essa entrevista, ela tá sempre com a mão, ela tem, ela não consegue mexer a mão direita.
E isso não fez ela parar de fumar, né? Porque ela tava fumando nessa entrevista.
Exatamente. Só que isso deixou ela um pouco mais reclusa, então ela não ela já não dava muitas entrevistas, porque as pessoas— eu acho que é normal— as pessoas eram curiosas em relação às obras dela, eram curiosas em relação à vida pessoal dela. Ela, imagina, né, se hoje com a internet a gente tá sempre ali querendo saber— nem todo mundo, mas muitas pessoas estão muito interessadas na vida dos outros— imagina num tempo em que você não tinha o advento da internet, você não tinha redes sociais.
Então a pessoa realmente se tornava muito misteriosa, né. Ela teve toda uma polêmica quando ela se divorciou do marido dela. Como eu falei, ela era exótica, ela tinha com grandes autores, e ela não gostava de dar entrevista. Essa que é a verdade.
E ela ficou um tempo grande reclusa também, né? Eu acho que um processo de depressão, alguma coisa assim. Então ela ficou até para se recuperar, né, com relação às pessoas, né? E a imprensa talvez, como que tratou a situação na época. Então ela evitou por muito tempo, né, esse tipo de contato.
E se você assistir a entrevista, tem momentos assim muito divertidos. Tem uma hora lá que o entrevistador pergunta para ela Mas por que você escreve? E ela tá acendendo o cigarro, ela: Sei lá.
É isso!
Ela é muito espontânea, sabe? E aí ele pergunta...
Eu fiquei com dó do entrevistador, gente. Ele tava se esforçando, sabe? Ele tava tentando, assim, a coisa não rolava. Eu já estive nesse lugar, sabe? Quando a pessoa não quer te responder.
Ai, não, gente. É muito ruim.
Eu fiquei com dó.
É ruim.
É, a pessoa acaba ficando com uma fama, assim, complicada. Mas é isso. E aí tem um momento que ele pergunta sobre a novela que ela escreveu. Que no caso ela tava falando sobre A Hora da Estrela. Mas nem o título ela dá.
Ela não fala o nome da... Não, ela fala assim, ah, tem 9 títulos.
É, ela fala 9, 10 títulos.
Não, não vai falar nenhum? Não, não vou.
Como é o nome da protagonista? Prefiro não falar.
Prefiro não falar. É isso! Aí você fica, meu, como assim? Mas aí o mais interessante é que é assim, aí eu não vi, né, o resto da entrevista. E eu acho que foi bom até, porque daí eu terminei de ler o livro. E no final do livro que a gente tem aqui dessa versão da editorial da Rocco, no final tem um pós-fácio. Que é escrito por Paulo Gurgel Valente.
O filho dela.
Ah, ele é filho dela? Ah, então eu vou desconsiderar o que ele falou, porque filho quando fala, tá falando bem da mãe. Aí pronto, tiqui, me vale.
Ué, estragou a única inspiração.
Devia ter ficado quieto. Estragou, porque meus filhos têm que falar bem de mim mesmo, né?
Pelo amor, né?
Depois de morto ainda fala bem dela.
Não, e aí ele falou, eu gostei que ele conta toda a parte, né, da De quando ela veio, da adolescência, todos os paralelos de vida que ela tem. E é muito engraçado isso, porque... Bom, eu não sou escritora, óbvio, né. Mas eu fico pensando que o escritor, ele vai pegando todas as coisas que tem no caminho deles, assim, sabe? Tipo, a protagonista mora na mesma rua, trabalha lá no mesmo lugar. Aí, tipo, as pessoas que ela conhecia, os personagens, era sempre alguém que ela conhecia ou que lembrava alguma coisa.
Um paralelo de nome que tem a ver com a infância dela, tudo isso. E é interessante que ela morava no Leme. E aí, isso o Paulo Gurgel, ele fala aqui, né, que ela morando no Leme, mesmo assim eles moravam bem, mas ela sempre teve esse olhar pro pobre, sabe? Esse olhar de a gente tem que olhar pra essas pessoas que são invisíveis. Então, isso eu gostei muito, sabe? Porque ela tava bem, numa classe alta, média alta, se relacionando com pessoas de nome, de peso, e mesmo assim, a impressão que eu tive, até pela fala do Paulo, de que ela não se esforçava pra olhar pra classe pobre.
Ela simplesmente era natural. Isso era uma coisa que ela já fazia e era muito natural. E aí tem uma parte aqui no livro que ele fala sobre a questão lá da época do golpe, da ditadura. Ele fala assim: em 1º de abril de 1964, quando a classe média colocava lençóis na janela e batia palmas para o golpe, Clarice se abatia com tristeza no seu apartamento do Leme. Então assim, ela tava num lugar super bom, mas mesmo assim ela tava triste porque sabia de todas as coisas que estavam acontecendo por ali, né?
Então eu achei muito legal isso, sabe? Essa questão é me identifiquei muito, não com a parte classe média alta, tá, marido? Mas de que a gente, essa é uma coisa que a gente gosta de sempre olhar também para as minorias, que no caso às vezes é muito mais maiorias do que minorias, né?
As pessoas marginalizadas.
É, exato. Igual a gente leu Capitães da Areia e vê que isso tem muito do Jorge Amado e agora da Clarice Lispector também. E foi o único livro dela que a gente leu.
Então, e vocês pegaram já, a gente pegou já um livro que hoje talvez seja o mais conhecido dela, né? A Hora da Estrela. Mas é um livro em que o autor é um homem, né, o Rodrigo S.M. E também é uma forma de protesto da Clarice, porque ela sempre nessa entrevista inclusive ela fala que ela é muito maternal, que ela gosta de escrever para criança, que ela se identifica, que ela teve a ideia dessa história porque ela foi numa feira que tem no Rio de Janeiro com nordestinos e ela olhou aquilo ali, ela falou, por que que eu não posso escrever sobre isso, né?
Ela viu uma pessoa na rua, ela se identificou, só que E por ser mulher, ela ainda tinha muito esse estigma, né? Ah não, mulher vai ser melosa, vai ser— a gente fala aqui, né, às vezes é livro de menininha.
Então ela até brinca com isso no livro, né?
Exato. Porque ela falou assim: não, eu posso escrever como homem. Você quer que eu seja dura? Você quer que eu consiga ser ali incisiva? Então quem vai escrever esse romance aqui, essa novela, é o Rodrigo. E aí, porque ela fala assim: Porque daí o Rodrigo tá escrevendo, né?
Eu poderia pedir pra uma mulher escrever essa história, mas daí vocês não iam aguentar, porque ia ser muito melodramática.
Exatamente, entendeu? E é muito legal, porque o Rodrigo, ele é a Clarice, obviamente, né? Mas ele também é um cara privilegiado, que tem empregados, que ali, né, tem acesso à cultura, à literatura. E ele vai escrever sobre uma nordestina que é semianalfabeta, que não tem família, não tem recursos, que come cachorro-quente todo dia, sabe? Que não tem uma alimentação balanceada, mortadela, vamos lá, que nunca foi amada, que também não sabe amar.
Então assim, é toda uma grande, não é, não vou falar uma alegoria, mas é uma, é um paralelo, né? Exatamente, é um paralelo aí do que é a vida, né? E isso é genial, gente, genial.
E esse livro sendo escrito assim, né, como se fosse um autor, inclusive eu não sei se eu li ou se eu vi alguém comentando que ela escreveu como homem para tentar publicar um livro livro que não fosse em nome dela. Mas eu acho que não foi isso. Desde aquela entrevista a gente percebe, ela falou, ela já tá falando daquilo e tal. Eu acho que ela só quis brincar com isso mesmo, de publicar como uma outra pessoa, né? Eu não li os outros livros dela, e você disse que esse é o mais famoso.
Então, um narrador personagem, né?
Muito, muito.
Eu ouso dizer que aquilo tudo, ele se incomoda com aquilo, ele fala, meu, não pode passar em branco, já passou em branco a vida inteira.
Sim, mas o que eu tô querendo perguntar para Carol, o que o pessoal diz é que esse livro é uma, ou até ela mesmo disse que é uma mudança bem grande no estilo dela como autora, né? E é o último livro escrito por ela. Em contraste com os livros anteriores, o que que você vê de grande diferença, Carol?
Acho que para vocês entenderem um pouco mais, sabe C.S.
Lewis?
Tem aqueles livros dele que a gente lê, a gente fala, nossa, que delícia! Crônicas de Nárnia, vocês aí da trilogia cósmica tal, né? E tem aqueles livros de ensaios que são mais pesados, né? Cristianismo Puro e Simples, que são livros um pouco mais densos. Então a Clarice é isso, eu acho que ela não era uma autora tão acessível assim de você ler e você fala assim: não, entendi, entendi o que essa mulher tá escrevendo aqui. Não, ela é, acho que por causa também de toda a erudição dela, a educação que ela teve, não tem jeito, ela vai ser o que ela absorveu, né?
Quem é ela? Então nem todos os livros dela são fáceis. O Laços de Família, eu acho que depois do da Aura da Estrela, é um dos menos complicados.
Mas isso é mais Tá mais para um ensaio ou é ainda um romance?
O Laço de Família?
Ah não, é o Laço de Família, acho que é uma coletânea de vários contozinhos dela.
São contos, tá.
Tem nada a ver com a novela, né, só para deixar claro.
Não, não, não, não. Mas aí tem A Paixão Segundo GH, que também já é um ali um pouquinho mais popular. Mas eu acho que foi assim, tudo estilo. Ela começou com uma coisa muito séria, ela escrevia em jornais, né, tal. E depois acho que ela foi amolecendo, ela escreveu livros para crianças, né. Então ela Ela gostou muito de escrever pra criança. Então assim, acho que são fases da autora. A Hora da Estrela é hoje o mais, entre aspas, fácil.
E talvez o que, se você quer começar a ler Clarice, a porta de entrada, sabe? Você vai ler e você vai falar assim, ok, entendi o que ela quis dizer. Ou pelo menos não saiu de lá tão, nossa, o que que ela tá falando aqui, sabe?
Mas também não é um livro pra qualquer um, né? Inclusive tem uma booktuber que eu vi um vídeo dela e ela, aquela, ler antes de morrer.
A Isabela, a gente vê juntos vídeos.
Ué, a gente não conseguia no podcast que você viu. Na verdade, eu ouvi, ouvi passeando com a cachorrinha o tempo que eu consegui fazer alguma coisa. E ela disse que ela já tinha tentado ler esse livro uma vez, ela parou porque ela não se identificou com o estilo de escrita. Porque se você não está preparado, nós não estávamos preparados, eu não sabia do que se tratava o livro. Mas mesmo assim, né, a gente vai com o objetivo de gravar o Literal depois, então a gente vai adiante.
O começo você Você espera começar a história, ela não começa. Foi a brincadeira que o Trump fez no— até assim, para eu saber que era Macabeia, né, o nome dela, porque eu já tinha lido em algum lugar sobre isso. Mas você vai descobrir o nome da personagem na metade do livro só.
Até então você vai descobrir que a história é de uma mulher, que alguma coisa da história da mulher lá na metade do livro.
O livro que tá na minha mão, ele Ele tem 80, ah não, 87 não, porque ainda tem o pós-fácil. Ele tem 78 páginas e o nome dela fala na página 38.
Então, porque ele está se apresentando como Rodrigo S.M., é por isso que eu digo que o livro é muito mais, muito mais não, mas é mais sobre o Rodrigo do que sobre a própria Macabeia, porque ele está, né, se espelhando a vida dele nela durante todo o livro. Então essa primeira metade é ele mais falando e se justificando por que que ele quer contar essa história. Do que propriamente contando a história. E parece muito assim que não vai, que não vai, que não vai.
E é um livro sem capítulos, só tem um capítulo único. Então não tem pausas, você vai lendo, vai lendo, vai lendo, vai esperar que hora que essa história vai começar. Mas depois, sei lá, depois de um terço do livro, você percebe: eu acho que o livro é isso, ou o livro é sobre isso. Não é necessariamente sobre a história dela, é sobre as entranhas desse próprio autor.
E o Rodrigo, ele tem essa angústia tão forte que ele é muito, ele é muito duvidoso no que ele vai falar. Ele fala, ó, eu vou falar isso aqui para vocês. Não, não vou falar não. Aí dali 2 parágrafos ele já falou. Eu falo, pera aí, ele vai falar, não vai falar? Ele quer falar, não quer falar?
Mas é genial, né?
Segurança dele, sei lá o quê. Talvez uma insegurança até como escritor, que ele fala, não sei se nem se eu tenho condições de escrever esse livro aqui, mas eu não posso não escrever.
Não, é por isso que é legal da história de ter sido escrito como se fosse uma outra pessoa, porque o próprio autor é personagem do livro e ele pôde colocar enxergar nela coisas que não são propriamente dela, apesar de ter muitas coisas dela também. Então essa insegurança não é própria dela, Clarice, mas é própria do Rodrigo.
Não, e eu achei interessante porque ele fala: não, no fim das contas a história é simples, mas eu devo contar para vocês. Inclusive, de novo falando para o Paulo, que agora eu já sei que é filho, aqui ele fala a última frase, gente, a última frase, tá? Mas é pós-fácil, não tem problema não. Ele fala com relação ao livro, ele fala: nada e tudo são pensados intuitiva e sugestivamente envolvendo o leitor. Este aqui pelo menos absorve, relê, repensa, ri e volta frase por frase em admiração constante.
E é bem isso mesmo, porque tem coisa que eu fiquei assim, cara, por que que ele— primeiro ele fala que não gosta, que destrói, cara, com a personagem principal feia, não sabe comer direito, ela é uma companhia péssima, é magra, Não tem peito, não tem bunda, sabe? Assim, não é, então não consegue fazer uma frase.
Até a profissão dela, que é didatilógrafa, ela não é tão boa, não sabe didatilografar.
A pessoa de quem eu vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua, ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olha.
E sabe o que eu achei mais pior?
Que tem gente para caramba assim na rua.
Nossa, eu achei muito legal porque assim, ele desde o princípio deixa claro que essa personagem não existe, a Macabeia não existe, só que ele tá criando ela e ela está nascendo de dentro dele. E de repente ela é tão importante para ele quanto a própria vida dele. É muito legal essa viagem que a gente faz dentro da cabeça desse autor, né, o tempo todo.
E ele é assim, de onde surgiu a inspiração para ele, Rodrigo ver. Ele viu uma mulher passando na rua e aí ele levou 2 anos, 2 anos e pouco, para finalmente vomitar essa história, né? E aí tem uma parte que ele fala, né? Só eu a vejo encantadora, só eu, seu autor, a amo. Eu sofro por ela e só eu é que posso dizer assim: que é que você me pede chorando que eu não lhe dê cantando? Maravilhoso, sabe? E olha que engraçado, Nessa mesma entrevista que a Clarice deu, pergunta, né, de onde ela, qual foi a inspiração para escrever esse livro.
E aí ela respondeu: nenhuma.
Não, ela ainda explica, ela foi boazinha, ela acendeu o cigarro.
Não, não tem inspiração, você vai ter que ler para descobrir.
Mas é exatamente a história da Macabeia. Clarice foi a uma cartomante, a cartomante falou lá várias coisas para ela, gente. E tem o filme O filme, o filme, a cartomante no filme.
A Fernanda é muito boa, gente, é maravilhoso.
Assim, eu fui apresentada a Clarice na época do vestibular, então eu tinha 16 para 17 anos. Isso que eu gosto da literatura, você nunca é velho demais para ser apresentado alguma coisa, sabe? Então realmente, e eu assisti o filme na faculdade e tal, e minha cabeça assim explodiu porque eu tava conhecendo um mundo novo, né? Então eu saí da casa dos meus pais no sentido de absorver apenas o que os meus pais proporcionavam e comecei a absorver outras coisas da faculdade, textos, ensaios, e descobri Clarice.
E essa, essa mulher, ela mudou assim a forma como eu penso na literatura junto com Agatha Christie, porque foram as duas que moldaram o meu gosto pela literatura. Então talvez o carinho que eu tenha por ambas seja porque foi através delas que eu conheci outros mundos Entende? E perdi a inocência, entre aspas, da menina para jovem Carol, sabe? E assim, não, obviamente não vou falar o final, apesar de ser de 77, mas o final, eu queria, na zona do spoiler, porque eu queria falar um pedacinho só do negócio do final que eu fiquei chateada.
Não lembro, spoiler, tá bom, tem que ter, tem que ter, viu?
Mas sabe uma coisa, sabe uma coisa que eu achei muito legal que eu consegui ter nesse livro? É, por exemplo, quando a gente leu 15, de Raquel de Queiroz, era sobre a vida de uma família muito sofrida. E só desgraça dá desgraça, é morte de criança, é gado que morria também e tal, tudo isso. Só que assim, é de uma forma— não vou falar de uma forma fria, mas eu lia e não me importava tanto com o sofrimento deles assim, sabe? Eu falava, isso faz parte da história, né?
Aconteceu. Foi mais como um estudo literário mesmo para mim assim, sabe? Não foi— eu não me senti tão importar assim, não me importava tanto assim. Sabe? Não, eu não gostei tanto, inclusive. Agora esse, na Hora da Estrela, depois que eu descobri inclusive o que que significa Hora da Estrela, foi interessante. Mas é só no finzinho. Mas, cara, o Rodrigo inventou uma personagem, uma nordestina, que ele fala, destrói ela. E ele fala, ninguém presta atenção nela.
Mas ele presta, porque ele detalhou tudo da vida dela, né? E criou um monte de coisa. Mas assim, que é uma personagem que é fictícia, e parece que o tempo todo ele tá ensinando para gente de que, ó, você tem que olhar para as pessoas, você tem que se importar com elas. É isso que tá acontecendo, né? Ele falou, às vezes você tá— porque ele fala assim, né, eu queria dar um abraço nela. E a gente pode dar um abraço nas Macabeias de hoje em dia.
E aí, o que que você tá fazendo com isso? Então assim, fazendo um paralelo de novo com o livro da Raquel de Queiroz, aquela família, eu senti dó da família Mas passou. Essa aqui eu queria encontrar, mas acabei de dar um abraço nela e falar, cara, velho, não, não é isso, é isso, sabe?
Você não precisa botar um monte de café. Nunca comi num restaurante, meu, que dó.
E aí ela pediu um café com leite, encheu de açúcar porque não tinha acesso a açúcar, sabe? Uns negócios assim. Aí você fala, não, vamos lá devagar. Porque se ela pedisse mais alguma outra coisa, ela teria que pagar, né?
Exato. Não, a gente vai falar mais ou menos assim de como é a história.
Podemos dar uma, a gente tá fazendo que nem a Clarice, enrolando, enrolando. Mas eu acho que assim, no geral já deu para entender, né, meio por cima, que ela tava, ela veio do Nordeste para o Rio de Janeiro tentando a vida.
E enfim, só arranja um namorado, Paulinho, aí vem Olímpico, que é sensacional, metalúrgico, metalúrgico que quer ser deputado.
Vamos lá. Mas tem muitos paralelos, muitos paralelos, cara, que é demais. Igual o menino falou ali no final, nada tá por acaso, né? Igual quando ela fala, quando aí ela tá, a Macbeth andando na rua e ela vê um monte de soldado e ela fica toda ouriçada. Ai, por quê? Não pode ver um homem de uniforme. Aí você acha que ela não fica ouriçada sexualmente? Então, porque acha que eles vão matar ela. Vai matar, ele vai me matar, ele vai me matar.
E cara, você fala, meu, isso é época da ditadura militar, a pessoa olha por um soldado e acho que vai querer, vai morrer, sabe? Uns negócios muito louco assim. E aí, não, é porque eu tava pensando aqui também nos todos os personagens que ela tem contato, né?
A Glória, por exemplo, que é amiga dela.
Amiga, amiga, colega de trabalho, gente. A Glória, Glória Rechonchuda, como é que era? Rolissa.
Glória Rolissa, que rouba o namorado dela.
Então eu não sei o que que esse Olímpico tem, gente, pelo amor de Deus, porque ele tem um olho, ele tem um olho. E aí tem, ela tem esse relacionamento dele, né? Ela tem um relacionamento dela com Olímpico. E aí o Olímpico começa a falar, né? E a Glória, quem que é a Glória? E aí começa, e aí começa a falar com ela, xingar ela de burra.
Ela pergunta as coisas, ele fala: não quero responder. Não quero responder.
E ele nem sabe as coisas também, né? Você vê que ele é um burrão igual.
Conde do Bonfim. O que que é conde?
Ele inventava uma resposta, né?
É com convicção, com paralelos.
É o nome dele, ele inventou. E ele quer ser deputado, mas mesmo assim ele conseguiu muita coisa, né? Porque ele ficou com a glória.
Mas o nome inventado foi interessante. A própria autora, né, ela conta na história, né, que era Olímpico não sei o quê de Jesus, não é?
É Olímpico de Jesus Moreira Chaves.
Só que era só Olímpico de Jesus, mas é só de Jesus, mas é que de Jesus eles colocavam quando a pessoa não tinha sobrenome. Então provavelmente ele era um órfão que nem sabia quem era, e aí alguma coisa de Jesus.
E aí ele precisa se afirmar como alguém importante, por mais burro e inculto que ele seja, ele inclusive o relacionamento dele com a Macabeia era isso, porque não era um namoro, era porque ele queria se sentir por cima dela, era uma conveniência simples assim.
E ela precisava ser amada por alguém, encontrou ele que ofereceu isso da maneira dele e sejam claros, porque ele fala assim, eu acho que ela nem precisava ser amada.
Ela não sabia, o livro fala que ela não sabia como é que faz para passear.
Ela não sabia nem que não era amada, ela não sabia nem que ela não era amada, e ela também não sabia amar. E aí é muito doido, porque é engraçado, é engraçado e triste ao mesmo tempo. O Olímpico fala para ela assim, não, eu tô com você porque as mulheres do mangue é muito caro.
Ai, Jesus! E você também é um lugar de prostituição, né? E você só me custou um café com leite, você fica, meu, é engraçado, né, como a gente leva coisas para nossa vida, né. Quando eu era adolescente, eu fui passar minhas férias na casa de uma tia minha lá no Nordeste, e todo dia de manhã, umas 4, 4:30, ela ligava a rádio e era aquele, sabe, até sintonizar e tal. E aí a Macabeia, ela gosta de ouvir rádio, né. E aí, nossa, assim, me deu uma lembrança muito gostosa da minha tia ligando e tal.
E a Macadelo, rádio relógio, e ela quer conversar sobre aquelas horas, né? Não, mas aí tem o cara, tem uma hora lá que ela fala, né, que tem um cara que dá as informações, Alice no País das Maravilhas e tal, que ele era matemático e que gostava de álgebra.
É álgebra, é toda informação de vida que ela tinha, ela aprendeu na rádio relógio.
Essas pílulas de conhecimento de 5 minutos.
É muito bom! E que a mosca pode voar, a mosca voa tão rápido, tão rápido que se ela voasse em linha reta ela daria a volta no mundo em 28 dias, né? Eu falei, nossa, gente, como que isso é verdade?
Esse livro é maravilhoso! É maravilhoso!
Mas o interessante é que assim, a história é um fiapo, né? Sem desmerecer a história, Você consegue em um parágrafo contar a história todinha de Macabeia, porque o charme do livro não está necessariamente na história dela, mas como o autor está vendo essa história e como ele está se envolvendo com ela. E é isso que torna esse livro tão atraente.
Se relacionam com ela também, né?
Então, se você for para o livro esperando uma grande história, uma história épica, é a história mais ordinária que você pode imaginar. Ela é muito simples, não tem nada muito chamativa assim, mas é super tocante porque a Clarice consegue transformar algo tão simples em algo épico, né? Porque a gente consegue se identificar com essa personagem, entrar na vida dela, olhar com o olhar que o autor olha, né, que o Rodrigo olha, e que numa segunda camada a própria Clarice olha para aquela personagem. A gente consegue se envolver dela de uma maneira que nos toca.
E mesmo assim todo mundo ao redor não se importa com ela, né? Então aí para mim é não só essa questão do relacionamento do autor que criou ela, mas também do relacionamento de todas as pessoas ao redor dela que também não estão nem aí para ela. Um pouquinho assim o chefe dela, que sabe que ela é ruim, mesmo assim tem dó de mandar ela embora, né? E aí, por exemplo, quando ela vai na consulta médica, gente, que que é isso, sabe?
Ela não é vista e nem bem tratada por ninguém, nem pelo médico.
E o médico que ele só queria ser rico, não fazer nada, não tinha nada de pessoa dele, não gostava de pessoa.
Mesmo dentro desse vazio existencial da Macabea e de tudo em torno dela, né, eu acho que a Clarice convida a gente leitor a pensar até filosoficamente. Porque, por exemplo, tem um trechinho aqui que fala, olha, falando dela, né: só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. E é meio recorrente essa pergunta dela, porque assim, ela não tem nem condição mental de filosofar sobre a própria vida assim.
É o tempo todo é narrado com vazio, é tudo nela e no entorno dela. No entanto, tem parece que uns lampejos assim, sabe, de quem sou eu, o que que eu tô fazendo com a minha vida, faz algum sentido eu existir. Antes do personagem ser apresentado, lá no começo quando tava naquela enrolação lá do narrador, ele fala um pouco de que, ah, essa, essa mulher que eu vou contar história, eu vou contar história, ela não quer dizer nada para ninguém, ela sabe, ela passa em branco na vida e ninguém vai sentir falta dela.
E no entanto, mesmo pessoas assim, em alguns momentinhos assim da vida, elas têm um, sei lá, uma luz do mundo que chega para ela ali e fala, tá, por que que eu tô vivendo, sabe? E isso eu acho que é de propósito, porque a gente como leitor faz essas perguntas. Às vezes a gente tá tão naquela de acorda, toma café, vai almoçar, trabalha, leva, busca, e aí você chega no fim do dia e no outro dia e numa semana semana e um mês, talvez você precisa fazer essa pergunta para si mesmo, fala, tá, para que que eu tô vivendo?
Que diferença eu faço? Eu faço alguma diferença? Às vezes para mim mesmo, sabe? Eu faço diferença para mim mesmo. E isso foi o lado do livro que me pegou mais, eu acho. E o fim do livro vai levar a gente a pensar isso ainda mais, né?
Então eu ia falar, mas vai ser um grande spoiler. Então se vai ter spoiler, é melhor falar no final.
Mas olha só, o encontro dela com a cartomante, eu achei tão legal o diálogo dela com a cartomante, que a cartomante começa a contar da própria vida, né?
Primeiro assim, gasta metade do tempo, que também era do mangue, né? Ela gostava inclusive da vida que ela levava.
Mas naquele tempo os homens eram mais cavalheiros, tratavam melhor as mulheres.
Tinha um que ela amava, batia nela, mas ela amava.
Mas antes de passar para os spoilers, nossas opiniões, né? Gostamos, não gostamos, recomendamos, deixa para uma fase mais madura da vida para ler? O que que vocês têm de recomendação sobre esse livro?
Bom, vou começar. Eu deixaria para uma fase mais madura. Não falando de mim, tô falando de recomendação para quem tá ouvindo. Quem é muito cru assim como leitor, eu acho que assim, a história é simples, não é que você não vai entender nada, mas eu acho que o potencial que ele tem é mais legal para quem já tem um pouquinho mais de caminhada literária. É um livro super curto, mas mesmo assim eu pularia totalmente aquele início lá, eu começaria direto com a mulher.
Me irritou muito aquele início. Não, eu Me irritou muito assim, eu cansei de escrever nas margens.
Você, ouvinte, vai ter que vir aqui ver no vídeo a cara que a Carol fez agora.
Quando eu tava lendo, o Lucas, meu mais velho, ele tava lendo A Paixão Segundo GH, porque ele tem que ler para escola, teve que ler para escola, né?
É, vai cair no vestibular.
E aí ele tava: nossa, pai, que livro chato! Nossa! E assim, tudo bem, porque ele já não é muito fã de ler. E aí eu: não, é um nome bom, eu vou ler o outro livro dela, Hora da Estrela. Aí eu comecei a ler, ele tava na metade, e aí que tava muito chato o começo, cara. Sinto muito, eu entendo a necessidade dele na história, eu entendo o papel dessa, desse início, eu acho que faz sentido. Mas mesmo assim eu acho que se arrastou por demais, sabe?
E num livro tão curtinho, de verdade, eu falei, ah, parece o Chaves. Eu realmente me senti o Chaves brincando com o Kiko, sabe? O Kiko brincando com Chaves, que um fica, vou chutar, e aí vai e arruma e mexe na orelha, e vou chutar. E aí põe o dedo na língua e vou chutar. Isso fala, mano, vai, pelo amor de Deus, começa esse negócio, sabe? E aí depois, quando entrou na história, aí me ganhou. Tanto que até a metade o Lucas só tava, tá vendo, pai?
Eu falei que ele é ruim.
Aí depois eu falei, não, agora mudou, hein, Lucas? Ó, presta atenção. Ah, o meu não mudou, né? Ele não gostou da experiência dele. Mas assim, o livro é Muito bom, muito, muito bom, com essas ressalvas que eu falei.
Ah, mas eu acho que só um pedacinho, só para ouvir. Eu acho que se pular essa primeira parte, você perde metade da experiência, porque a história para mim é sobre o Rodrigo, entendeu? E todo esse preâmbulo e essa brincadeira que faz é proposital. Eu não acho que ele tava, que a Clarice tava perdida, né?
Proposital. A sua impressão que você falou, ah, eu acho que o livro vai ser só sobre isso, eu também tive, porque Falei, meu, ele tá enrolando tanto que quer ver que não vai ter história, sabe?
Então eu pensei que podia ser isso mesmo, e no final ia contar duas linhas sobre a personagem. Seria genial também, porque ia criar toda essa expectativa.
Lembrou um pouquinho até Memórias do Subsolo, do Dostoiévski.
Eu até anotei isso, Dri. Olha aí, aqui, ó, estamos na mesma página. Desculpai-me, mas vou continuar a falar de mim, que sou meio desconhecido, e ao escrever me compreendo um pouco, pois descobri que tem um destino. Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa? E aí eu escrevi aqui, ó, em sites de memórias do subsolo.
Não, mas só para vocês terem ideia, eu tô, eu vou ler um pedacinho aqui da página 16, hein, é da página 16. Ele fala assim: não, não é fácil escrever, é duro como quebrar rochas, mas voam faíscas e lascas como os aço espelhados. Ai, que medo de começar E ainda nem sei sequer o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho contar parece fácil à mão de todos, mas a sua elaboração é muito difícil, pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo, com mãos de dedos duros e lameados apalpar o invisível na própria lama.
De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada, a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. E cara, ele continua mais um monte de página antes de começar a contar sobre ela, sabe?
Devaneando.
E já tô na página 16. Então é isso, tá?
É isso, sim. Mas eu gostei muito, já dando uma opinião, eu gostei muito dessa primeira parte também. Eu acho que essa primeira parte me enganchou na leitura, apesar da estranheza das duas primeiras, sei lá, as duas, 5, 6 páginas mais ou menos, eu tava estranhando. Aí a hora que eu aceitei, falei, não, é isso, eu acho que é nessa viagem que eu tenho que embarcar. Aí eu fui, sabe? Então assim, eu gostei muito. E eu acho que, corroborando com o que o Tã falou, mas acrescentando uma camada a mais, maturidade ajuda a entender melhor esse livro.
Mas ler com seus 17 anos também é uma experiência legal, desde que você se proponha depois de mais velho ler de novo para poder pegar as outras camadas, sabe?
Então aí é curtinho, dá para ler em um, dois dias esse negócio aí também, né?
Dá para ler numa Nada, gente, essa é a verdade.
E você, Carol?
Olha, não, assim, definitivamente, mais ou menos, mais ou menos. Era um livro assim que fazia alguns anos que eu não lia, então de novo eu consegui absorver mais uma camada. E isso eu acho que é o legal da literatura, você sempre vai aprender uma coisa nova. Tive a experiência de audio ouvir também, foi até um ator global que narrou.
Olha aí, eu ouvi umas partes com esse cara também. E eu não sei quem é, eu reconheci, eu falei, Dri, eu acho que é algum ator da Globo. Ai, eu ouvi uma mulher, porque tá no Spotify e não tem o nome dele, até procurei. E a leitura é maravilhosa, é maravilhosa, é uma das coisas, uns audiolivros mais interessantes que eu ouvi na vida.
Sabe como é o nome dele? Acabei de pegar, Pedro Paulo Rangel.
Pedro Paulo Rangel, é ele mesmo. É fantástica a leitura dele, ele lê com o mesmo desdém do Rodrigo, do autor Exatamente.
Então fez toda a diferença, maravilhoso. E assim, eu entendo o que o Tan falou, mas já complementando uma fala anterior do Tan, quando ele disse que a gente vive no automático e às vezes a gente tá ali e tá ali e parece que a nossa vida nunca vai começar, eu acho que essa primeira parte é exatamente isso. Ele tá ali vivendo com o próprio Rodrigo, né? Sim, exato, com o próprio Rodrigo. Até que finalmente ele fala, não, é agora, entendeu?
E esse negócio levou anos até ele finalmente desenvolver e ter coragem de colocar no papel o que ele tava sentindo. E eu acho acho que quem é um pouco escritor, e o próprio Tadinho tem disso, tem essa coisa, né? Será que eu vou? Será que isso vai ser legal? Será que as pessoas vão entender o que eu tô falando?
E eu acho que tenho, mas eu não fico escrevendo isso para quem me lê, entendeu?
Entendi. Não, entendi.
Mas essa é a genialidade dela ter feito isso, que é famosa, né? Isso de forma tão criativa. É muito legal.
Então, exatamente. Eu acho que ela tava cansada de— isso é um achado meu, tá bom, gente? Tava tão cansada de, ah, o novo livro da Clarice Lispector, ah, que legal, Clarice, dê entrevista. Ela já tava de saco cheio. Acho que é a verdade, né? Tanto que foi a última obra dela. Eu acho genial, eu acho fantástico, eu acho que é genial.
E eu acho legal que tem a gente tipo você e o Paulinho que gostaram disso E tá muito claro que esse é o objetivo dela. Só me chateou assim, sabe?
Não chateou, mas me desapontou, sabe?
Eu acho que assim, eu só demorei demais para comprar e o Paulinho falou, não, vou comprar rápido. E foi essa diferença, sabe?
E que bom, né, que existem vários tipos de leitores, né? Porque existem vários tipos de autores, né?
Então isso é verdade, isso é verdade mesmo.
É incrível por causa disso.
Tem um adendo também, eu falei hoje Renata. Eu acho que é bom e é importante eu dizer isso para vocês. Eu tô vivendo um tempo de ressaca literária. Então sabe quando você tá aquele sem vontade, meio com mau humor de ler? E com certeza isso pesou também na crítica, sabe?
Enfim, talvez me encontrando em outro momento.
Eu não sei, eu tô lendo Harry Potter, tá legal. Ai, não posso falar. Mas assim, tá legal, mas eu não tô assim, nossa, que vontade de continuar a história, sabe? Apesar da história tá muito legal, mas por causa do momento em que eu tô vivendo como leitor mesmo.
Entendi.
Tem que dar uma pausa, fazer, buscar outras coisas.
Para mim, o Harry Potter me curou da ressaca literária, porque a gente tinha lido A Peste de Albert Camus, lembra?
E aí, no momento super bom, né, do sábado à terça.
Por que que a gente fez isso mesmo?
A gente fez de propósito.
E aí eu falei, ah não, gente, Gente, vamos, vamos ler Harry Potter, que é bom. Ó, para mim, eu sou um pouco a metade da metade da metade, contando aqui um pouco da minha perspectiva, da minha expectativa. Eu tô tentando enrolar, mas não consigo fazer igual a Clarice. Tá vendo como é difícil? Não, mas eu acho que eu tô nem com o Tânia, nem com Paulinho, nem com a Carol. Eu tô no meio de caminho. Eu achei muito legal essa, essa, esse discurso na mente dele, de, por exemplo, começar com vários títulos, porque a gente percebeu que ele realmente não sabia direito sobre o que que ele queria falar.
Isso é legal, né? A gente mal mencionou, mas no próprio livro tem lá no começo, antes da história, a lista de todos os títulos, né?
E é legal porque através dos títulos eu meio que mais ou menos já sabia para onde ia, né? Para onde ele tava querendo ir, a confusão dele. E para mim esse grito, né, de que, ó, eu tô criando uma pessoa aqui que eu não me importo muito com ela, mas eu deveria me tratar. E aí no fim ele consegue sucesso, porque no fim ele se importa com ela, porque até metade do livro ele não se importava com ela. Mas é realmente assim, eu, para mim foi um pouco diferente porque eu comecei já muito empolgada, porque eu achei muito engraçado isso, esse jogo de palavras, esse quem eu sou, que eu não sou.
E foi até engraçado porque eu tava lendo sentada no chão na fila da farmácia do posto de saúde, sabe, no Brasil. Então eu tava sentada no chão mesmo onde a ambulância ambulância passa, eu tinha que levantar, me limpar, ambulância passava, depois sentava de novo e ia ler. Então foi muito engraçado porque eu lia, falava assim, gente, mas e aí, a história vai começar, não vai? E ele vai falar sobre as pessoas. Aí eu olhando as pessoas ao redor, falo, cara, imagina se eu for contar sobre a história de alguém que tá aqui na fila, né, também do posto de saúde.
E para mim foi muito interessante essa, essa experiência. Só que daí depois, quando eu saí do posto de saúde e aí cheguei em casa e tal, fui ler mais, ler um pouquinho, eu vi que continuou nisso. Aí isso me cansou também, sabe?
Eu falei, no começo eu achei legal, livro de 80 páginas, a gente não tem como cansar.
Mas cansou, cansou, cansou. No começo cansou. Eu falei, cara, eu tava quase a ponto de pular para frente.
E aí eu falei, não tem divisão de capítulo, você não sabe onde vai.
Eu não li a última página ainda.
Isso é angustiante de não saber a hora separar.
Exato. E eu não sabia porque ele ficava nessa: vou apresentar uma mulher, tô apresentando, ela tá chegando, olha só, não tem nome, mas ela vai apresentar. Ó, ela é assim. Calma, pera aí, não definia. Ela: vou apresentar, eu vou apresentar. E vai nisso mais umas 20 páginas, sabe? Aí eu falei: não, cara, que hora você vai começar? E aí, o que que eu fiz? Fui para o audiobook. Daí eu falei: não, vou ler tudo de novo, só que através do audiobook.
Daí foi quando eu vi a entrevista, tudo isso, e voltei. E eu escolhi um audiobook de uma mulher Eu até gostei assim do jeito, porque eu achei ela bem fluida.
Não era Bel Lisboa?
Ah, não sei se é Bel Lisboa não, eu não sei não, depois eu vou ver. É um audiobook que ele é vermelho assim, né? E aí eu fui ouvindo esse audiobook e, cara, eu não gosto de ouvir com velocidade rápida, mas os primeiros 20, 30 páginas eu ouvi com 1,5.
Leitura dinâmica, né?
Porque era, eu vou te apresentar, ela é assim, ó, não é assim, é assim, assim. E aí eu dava risada, voltava, dava pesada, voltava.
Aí depois, a hora que começou mesmo, que apareceu, então é isso, uma hora, né? Ficou uma hora de cansou, sabe? Já contou essa piada no passado, tiozão. Já vai, sabe?
Essa foi essa minha sensação. Mas no começo eu tava gostando muito, e aí depois me cansou, e aí depois eu voltei a gostar. E no final eu me explodiu a cabeça. Aí eu comentei com o Paulinho: você sacou que foi isso?
Foi isso?
Foi isso? Que aquilo que aconteceu? E gente, eu acho que é isso mesmo que foi que aconteceu. Eu não vi ninguém falando porque eu não assisti nenhum book Oliver falando sobre isso. Por isso que eu tô ansiosíssima aqui para falar para vocês na zona de spoiler se é o que eu achei, é isso mesmo, sabe?
Então vamos lá, antes da zona de spoiler.
Eu gostei do livro. Só antes de ir para zona de spoiler, eu sempre lembro do Tã falando que tem livros que esticam a gente, e esse com certeza estica, mas com certeza. Muito bem, muito bom, Carol, obrigada pela indicação.
Então vamos lá, gente. Antes da zona de spoilers, tá bom? Então não desliga ainda porque a gente vai anunciar o próximo livro. Que o Tã já deu spoiler. Podia ser piadinha, né? Porque a gente sempre brinca com Harry Potter aqui. Mas sim, dessa vez vamos voltar para Hogwarts. Vamos voltar para J.K. Rowling, mas vamos focar na história e nos personagens mesmo, porque que tá chegando a nova série de Harry Potter na HBO.
HBO, HBO.
Então já tem que entrar na onda de alguma maneira.
Quem vai ser o Lockhart? Olha só que legal, vai ser o Kit Harington.
Você viu?
Não acompanho notícias de relacionamento.
O cara que fez o Fera, né, no X-Men.
Bom, é no X-Men, eu não lembro.
Não, ele é o Jon Snow do Game of Thrones.
O que fez o Fera é o do Meu Nome Moradão Zumbi, é o, foi o Lex Luthor. Esse é outro, é o Kit Harington, ele vai ser o Lockhart. Eu achei a escolha bem interessante.
Então nós vamos ler, esse é o maior, não é o maior livro do Harry Potter da série?
Acho que não ainda, hein.
Eu acho que O Enigma do Príncipe, eu acho que é o próximo maior. Não, é Ordem da Fênix.
Então esse aqui é para aquecer, tá bom.
Mas esse é grande para caramba, marido.
Então no próximo, dentro de 6 semanas, que é a periodicidade do É muito errado, você vai ler mal. 6 semanas? 6 semanas é bastante tempo, gente.
Eu acho que a gente tem que ser em 2 literários daqui, hein?
Não, nem, não, não, não, não, não, o louco, não, não, não, não, não, não, não, vamos lá.
Mas você vai ler direitinho?
Promete aqui, ó, ao vivo. Vou ler todos, eu leio direitinho, todos eu leio direitinho.
Mas esse é grande, amor, esse é grande.
A gente leu O Conde de Monte Cristo, não tem mais desculpa de que não dá para ler livro grande.
Mas você vai viajar nesse, né?
Eu sei, 530 e poucas páginas na minha edição aqui.
Mas ele vai viajar, gente.
Mas é muito tempo de aeroporto e de avião, dá para adiantar bastante, tá bom?
É que eu queria, é um livro que eu quero muito.
Mas a gente não falou qual deles, né? Foi engraçado porque eu faço, eu faço a piadinha em casa, né? Porque enfim, eu sou o tio do pavê da casa. E aí eu chamo esse livro de Poteiro Cabeludo e o Cala-Boca Bêbado. Isso pegou, não? Poteira porque é o Potter, o Harry, né? E o cálice, cala a boca, beba do que tá de fogo, né?
Tá de fogo, olha aí!
Aí o Daniel bonitinho, ele fala, ai, vamos achar outros nomes desses, pai, para os outros livros. Seus filhos são muito fofos, mas não achou nenhum, nem eu. Eu falei, filha, só esse que dá.
Engraçado você falar de cabeludo porque a gente tem tô perdido, porque a gente tem uma piada para esse filme, que é uma época que todo mundo deixou o cabelo grande.
Então Harry Potter tá cabeludo, porque todos eles estão com cabelo bem cortadinho. No 3, gente, o 3, O Prisioneiro de Azkaban, no filme é quando todos os personagens estão bonitos. Eu não sei que filtro que eles usaram, mas tá todo mundo bonito. Até o Hagrid tá bonito, todo mundo tá bonito, sabe?
Aí mudou o diretor no parque.
E aí no quarto, eles estão muito relaxados, umas fotos, uns cabelos gigantes.
É adolescente, é daquela época que tá todo mundo cabeludo e tal. A gente brinca que é o Cálice de Cabelo, né? Aí você falou o Poteiro Cabeludo.
É o Cálice de Cabelo.
Então é o próximo livro aqui do Literário. Se preparem, leem com a gente.
E verão. O Cálice de Fogo, tem que falar o nome certo agora, amor.
É isso aí, é o quarto, né?
É.
E antes ainda dos spoilers, tá, que temos rolando nos podcasts do Ictus, estamos rolando, que a gente terminou Levítico.
Vamos entrar, ou já entramos, não lembro quando esse programa vai ao ar, né?
Vai ter que entrar, eu imagino, para o Novo Testamento, em Hebreus.
Mas não vai ter os Salmos entre?
É, vai ter uns Salmos aí no meio, vai. Aí não vai ter começado Hebreus ainda, com certeza. Mas enfim, tem Levítico inteiro, que isso com certeza já tá publicado, inclusive na data de gravação desse programa. E que livro legal, viu? Que gostoso a experiência de acabar um livro chato assim, tradicionalmente chato e difícil, e a gente conseguiu entregar um negócio muito gostoso, muito legal, muito assim diferente para o crescimento da fé da galera.
Eu pelo menos saí muito diferente dessas gravações, e a gente fala bastante sobre isso no último episódio também. Eu queria realmente incentivar o pessoal a enfrentar Levítico, que a gente terminou inteiro, e embarcar com a gente nos próximos livros aí.
E onde as pessoas podem ouvir essas discussões?
Qualquer aplicativo de áudio, procura por Ictus Podcast ou procura por Leitura Bíblica Comentada, qualquer um dos dois vai ter por ali. Fora isso, a gente segue com os projetos normais, né? Eu tenho um projeto meu com o Daniel, que é o Pequeno Discípulo, onde a gente fala sobre a Bíblia com criança, mudanças. Eu tenho estudado edição de vídeo, olha só que coisa. E talvez para o ano que vem a gente produza algumas coisas do Ictus em vídeo, não o podcast, tá?
Eu tô planejando coisas um pouco diferentes. E pelo menos torçam e orem por mim aí, porque é uma maluca. O Paulinho passou alguma coisa parecida no trajeto aí, só para transformar o podcast em vídeo. E eu tenho um amigo que tem me ajudado a pensar algumas coisas sobre isso. E é isso, muito bom. E as leituras coletivas no Discord direto, né? O Club Ictus segue ativo, inclusive o Harry Potter. Se você quiser seguir com a gente, vai ter leitura coletiva lá também.
Show!
Muito bom.
E com a proibição de lives no Discord, tem limitado vocês de alguma maneira?
Bloquearam só o vídeo, ainda abre o canal. A gente faz as gravações e transmissão por lá do LBC, né? Só que só áudio. Daqui a pouco cai isso daí também, eu também acho.
Talvez a hora que esse episódio entrar no ar já vai ser muito passado essa notícia. Muito bom, gente. Então a gente se vê daqui 6 semanas novamente para falar sobre o Menino Mago e conhecer um pouquinho mais da história, que pelo menos do que a gente ainda não viu no cinema, né, que tem só nos livros, que a Dri fala que é um dos melhores livros.
Isso que é diferentão, né, Carol? Carol não, a Dri que leu.
Esse é o livro favorito do André e de um monte de gente gosta de Harry Potter.
Mas já ouvi muita gente falar que os 3 primeiros no cinema é muito próximo ao livro e que a partir daí começa a se afastar.
Eu não gosto desse filme, eu não curto muito.
Não, mas ó, o filme fica bom depois que você lê o livro, porque daí vai encaixando. Com certeza, porque assim, ele expande bastante, bastante mesmo. E o 4º, o filme, ele traz coisa que é— os 3 filmes eles se bagunçam um pouco, sabe, que a ordem da Ordem do Fênix, O Cálice de Fogo e o próximo, Enigma do Príncipe. Então ele meio que traz coisas assim, eles vão flutuando entre os 3 filmes, sabe? Mas esse livro é legal, cara, porque esse livro é onde acontece o acontecimento principal do Harry Potter, né?
Tá bom, então vamos descobrir. Mas então, gente, vai subir a música agora, é o tempo de você que não quer ter spoiler desligar para não saber do final do livro. Mas, né, acho que dá para ter algumas ideias do que vai acontecer. Então se você não ou não quer ler o livro tão cedo, fica aí para ouvir as últimas, os últimos minutinhos da nossa conversa sobre A Hora da Estrela. Ou aí já subiu a música, né? Ou A Hora que Ela Virou Estrela, virou uma estrelinha no céu.
Dentre a lista enorme de títulos, o último é Saída Discreta pela Porta dos Fundos.
Corro até os títulos. Ah, eu tinha marcado aqui.
Eu gosto do Eu Não Posso Fazer Nada.
Eu não posso fazer nada.
A história é tão curta, né, que assim não tinha muito o que contar sobre ela. Ela morre jovem, só que assim, 19 anos. É, só que assim, o jeito que a morte acontece é muito banal, mas a conversa do autor sobre a morte nas últimas páginas é algo impressionante, cara.
Mas sabe que eu queria voltar um pouco antes da parte filosófica do marido. Quando ela vai visitar a cartomante, eu fiquei assim, meu, a cartomante fala da vida dela, fala um monte. E aí fala um monte de desgraceira que vai acontecer na vida da Macabeia, né? Fala, não, que nossa, que vida ruim que você teve, tudo isso, tudo isso, tudo isso, tudo isso. E aí no final ela pega e fala, não, pera, ó, tem coisa boa acontecendo aqui no seu destino e tal.
E eu sei que algumas pessoas, né, lendo, pode ter ficado com muita raiva da macumbeira lá, da macumbeira não, desculpa, da Macabeia.
Eu ia falar da cartomante Macabeia, aí acabou, veio errado.
Ficaram com muita raiva da cartomante. E sabe que no final eu achei até bonitinho o que a cartomante fez? Porque ela deu uma esperança de vida tão grande para Macabeia. E ela falou, olha, essa cartomante é boa mesmo, porque eu já saí de lá, já tô me sentindo melhor. Eu fiquei pensando, cara, ela precisava de alguém para falar coisas boas para ela, para ela poder enxergar coisas boas. E ela saiu tão feliz tão feliz, tão radiante de lá, tão boa, que realmente a vida dela já tinha começado a se transformar.
Deu muito certo.
E eu falei, cara, não, mas eu fiquei pensando assim, duas coisas.
A cartomante podia ter visto a morte dela e não quis dizer, falou que a previsão tinha sido para cliente anterior.
Que triste.
É porque ela falou, pelo menos feliz até a morte, porque ela até falou, não, porque para anterior eu falei que ia morrer no atropelamento, né?
E ela saiu com os olhos vermelhos, mas para você não, a coisa vai ser boa. Só que aí o que eu interessante que eu falei para o Paulinho, falei, cara, de certa forma a cartomante acertou mesmo, ela acertou em cheio, porque ela falou assim, ó, você vai sair daqui, você vai conhecer um gringo loiro alemão de nome Hans e ele vai mudar sua vida para sempre. E cara, ela é morta por um— isso eu fiquei brava no filme, hein, Carol— ela é morta por um Mercedes-Benz, que é um carro alemão amarelo. O carro é amarelo, cara.
Mercedes-Benz.
Só se o motorista fosse Mercedes-Benz.
É que não dá tempo de conhecer o motorista, né?
Mas, cara, o carro é amarelo. Quando descreveu que era o carro amarelo Mercedes-Benz, que é um alemão, e aí eu até pensei, né, falei, gente, o nome dela é Macabeia. Aí o Paulinho até falou assim, ah, Macabeia lá, lembra dos Macabeus, os filisteus, dos judeus e tal.
Entre os Macabeus, porque são os Macabeus que encontram o Olímpico, que é o grego, né? Seria os dois mundos entendendo, ou pensei que podia ser Macbeth do Shakespeare, né? Não sei qual que é a relação.
Não, eu, eu relacionei Macabeus assim como um nome judeu mesmo, né? Daí eu falei, cara, e eu nem sabia que a Clarice era judia nem nada. Falei, como assim um alemão atropela um judeu, morre, não dá assistência nem nada e deixa jogado na sarjeta? Eu falei, isso não foi por acaso, gente, não foi por acaso.
A Clarice conta que a avó dela era judia mesmo, praticante, e frequentava cartomante. Me lembra muito o Rei O Saul lá, quando foi visitar as feiticeiras lá e deu ruim para ele. Mas isso foi uma coisa que a própria Clarice fazia, ela frequentava cartomantes. E uma dessas cartomantes que ela foi, a cartomante falou maravilhas da vida dela, nossa, sua vida vai mudar, que não sei o quê. E quando ela saiu da cartomante, ela pegou um táxi e ela falou, gente, e se esse táxi me atropela?
Nada do que a mulher falou vai acontecer, mas eu vou morrer feliz. E aí foi onde ela começou a ter o estalo para, opa, então vou fazer isso. Então a Macabea, se você ler livro, ela é sempre muito tímida, ela tem medo de fazer perguntas, ela tem medo do desconhecido, ela não quer mudar. E aí quando ela tá lá na cartomante, ela muda assim a postura dela. Mas como é que eu faço para ter mais cabelo? Mas isso vai acontecer mesmo? E ela perde o medo, né?
E a cartomante dá uma coragem para ela que ela não tinha até então. Ela sai de lá toda animada falando: a minha vida aqui, dane-se Olímpico, glória, vai todo mundo tomar banho, eu vou usar casaco de pele no Rio de Janeiro. Dinheiro. E aí ela é atropelada, mas ela morre feliz, ela morre com sorriso no rosto, ela morre feliz.
E ela fala: hoje eu nasci.
É muito louco, gente, eu estou arrepiada.
Olha, só não vai numa cartomante, hein, Carol, por favor, né?
Não, por favor, não é tudo que a gente tem que seguir, né, da literatura. Tem algumas ressalvas que a gente precisa fazer.
Então, por mais que ela tenha morrido, eu não achei que o final não foi triste, não. Eu achei o final feliz.
Até.
Não, porque, ó, a gente já entrou em zona de spoiler, né? A última frase, ela caiu até em vestibular já, dos morangos, que fala assim, é o narrador conversando consigo mesmo, né? E agora? Agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas, mas eu também não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim, e é meio que uma nota mental para ele, né? Enfim, não esquecer que tempo de morango é, meu, quanto a vida, a vida, sabe?
É um carpe diem para quem gosta aí dos estudos da literatura. É um aproveite seu dia porque hoje é dia de morango ainda, sabe? E a morte ela vai, vai pegar, a gente vai ser assaltado por ela, seja por um atropelamento, seja porque a gente ficou com 110 anos. Mas enquanto isso é enquanto isso, vamos viver.
Não, inclusive esse final tem um paralelo com o começo, bem com o comecinho. Eu até marquei para falar na zona de spoiler mesmo, porque quando ele fala sobre viver, ele fala assim: quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham, que existir é coisa de doido, caso de loucura, porque parece existir não é lógico. E aí no final ele fala: viver é luxo.
E falando isso, ele disse que a Macabeia matou ele também, né? Então não é só aquela que ela morreu, toda aquela angústia que ele tinha em colocar ela no papel. E quando finalmente ele faz isso, acho que assim, até a vida dele assim, o sentido da vida dele acabou. Porque finalmente, sabe quando você adia um projeto, alguma coisa na sua vida? A gente vê muito isso nos filmes, a vingança. E finalmente, quando você chega naquele ponto, e aí, o que que eu vou fazer da vida agora, né?
O Conde de Monte Cristo, né, foi muito sobre isso.
O Conde de Monte Cristo, é verdade.
Parecia uma história sobre vingança, mas na verdade é qual o ponto, né? Qual o sentido da vingança? Que coisa que os filmes não trazem, né? Que a gente discutiu aqui. Agora, sobre o título do livro, para quem ficou até aqui ainda não sabe do que se trata. Quando ela é atropelada, o autor insiste em dizer que ela não vai morrer, né? Não, ela não vai morrer. Ela tá— parece que ela vai morrer, mas ela não vai morrer. Você fala, tá, não, ela não vai morrer e tal.
Aí ele traz aqui o título, né? A referência ao título. Título, né? Acho com alegria que ainda não chegou a hora da estrela de cinema de Macabeia morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabeia está por enquanto solta no acaso, como a porta balançando ao vento no infinito. É a estrela de cinema de personagem que ela na vida dela, né, o que ela significava, pelo menos para esse autor, o Rodrigo, que no fim das contas é a Clarice, se você ainda não percebeu até aqui.
Ô Paulinho, só uma última curiosidade, eu prometo que vai ser a última que eu vou trazer. São 13 títulos, né, que a gente encontra bem no comecinho, tá aqui, além da Hora da Estrela.
Tem mais 9 no começo, mas foi o número que eu lembrei na hora, mas são 13.
Mas o interessante é que se você entrar na internet, aqui eu tô na página da Wikipédia, Comédia. Não sei se vai ter em outras fontes, mas cada título tem uma explicação. Não vou ler tudo aqui porque vai ser muito, mas por exemplo, A Hora da Estrela, é, tá lá o título oficial do livro que remete ao momento de maior brilho da protagonista. E aí cada um vai explicando porque. Olha que legal esse título, que legal!
Então, tanto que ela vomita uma estrela, né? Acho que ela vai vomitar uma estrela.
Eles podiam é lançar esse livro aqui, cada capa com um título diferente, né?
Aí você compra um monte de livro.
Aí pessoas como nós vamos gastar muito dinheiro.
É coleção Hora da Estrela, né?
Vou falar rapidinho aqui todos os títulos, ó: A Hora da Estrela, A Culpa é Minha, Ela que Se Arranje, O Direito ao Grito, Quanto ao Futuro, Lamento de um Blue, Ela Não Sabe Gritar, Uma Sensação de Perda, Assovio no Vento Escuro, Eu Não Posso Fazer Nada, Registro dos Contas de Adolescentes, História Lacrimogênica de Cordel, Saída Discreta pela Porta dos Fundos.
Meu, Registro dos Fatos Antecedentes é muito preguiçoso, né? Por que que ia comprar um livro com esse título?
A hora que a Adri leu Lamento de um Blue, eu falei, ué, não era Lamento de um Bully?
Já tinha lido Bully?
É Blue mesmo. Todas as vezes que eu li, eu li Bully, cara.
Cadê o Bully na história, né?
Eu falei, esse título aqui não tem muito a ver. Talvez na hora que ela tomou café ali, mas sei lá, só passei.
E esse título é porque é o momento da morte da protagonista onde soava a melodia de um violino.
O Blue no violino dá referência.
Por isso que eu não peguei a referência da minha apresentação, ó, porque eu tava achando que era bullying.
Olha lá.