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🤸‍♂️ Corporeidade e Subjetividade em Merleau-Ponty

05 de maio de 202623min
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Este artigo acadêmico analisa a fenomenologia de Merleau-Ponty, focando na transição da subjetividade de uma consciência abstrata para uma existência corpórea. O autor demonstra que o indivíduo não é um observador isolado, mas sim um corpo-sujeito que se realiza por meio da ação e da sensibilidade no mundo. Através do conceito de intencionalidade, a obra argumenta que a percepção e o comportamento são os verdadeiros eixos que sustentam a identidade humana. O texto também redefine as noções de espaço e tempo, tratando-os como dimensões vividas e subjetivas em vez de categorias físicas estáticas. Por fim, a pesquisa destaca que a historicidade do ser emerge dessa interação dinâmica entre o corpo e o horizonte de significados que o cerca.Slides:

https://docs.google.com/presentation/d/10C2F9jmC9wK-2_Yh_c1oCXKmS-zZ7uRj/edit?usp=sharing&ouid=112085487248009471672&rtpof=true&sd=true

Assuntos9
  • Fenomenologia e Merleau-PontyCrítica ao racionalismo clássico · Corpo-sujeito · Intencionalidade · René Armand Dentes
  • Espaço e Tempo FenomenológicosEspacialidade e Temporalidade · Espaço vivido · Analogia da aranha e a teia · Tempo como ponto de vista · Passado mutável pela significação · Futuro como campo de possibilidades
  • Historia e CuriosidadesEu penso vs. Eu posso · Homem inventa o homem · Corpo vivido como fundamento da liberdade
  • Identidade e RepresentatividadeCorpo como aparelho · Corpo como evento geométrico · Subjetividade como corporeidade comportamental · Xiasma (entrelaçamento)
  • Saude e CorpoIlusão do cérebro no comando · Mente como sala de comando · Separação mente-corpo · Consciência espalhada pelo corpo
  • Filosofia e PensamentoCriação de mundo através de escolhas · Corpo como forja do tempo · Novo movimento corporal e existência
  • Movimento corporal e psiquismoCorpo próprio como mediador ativo · Movimento concreto vs. abstrato · Doença e corpo objetivo · Corpo como discurso
  • Divisão de emoçõesLuto e percepção física · Resposta corporal completa · Objetividade dinâmica
  • Culpa e ResponsabilidadePeso existencial da liberdade · Mundo compartilhado · Projeto colaborativo
Transcrição64 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Imagina acordar um dia e perceber que o seu cérebro, na verdade, não tá no comando de absolutamente nada. Essa é uma ideia bem desconfortável no começo. Pois é, tipo, que aquela voz na nossa cabeça que a gente jura que é o nosso eu verdadeiro, não é o grande chefe controlando um veículo de carne e osso. Sim, a gente tem muita essa ilusão, né?

A gente costuma pensar na mente como uma espécie de sala de comando. Funciona mais ou menos com a ideia de um piloto operando um drone muito sofisticado. Exato. Um piloto isolado.

Isso, a mente seria o piloto, lá em cima, segura, fechado numa cabine totalmente abstrata, só apertando botões e puxando alavancas. Enquanto o corpo é só o drone, né? Exatamente. O corpo fica lá embaixo, no mundo físico, só executando os movimentos mecânicos. A mente pensa, a máquina faz.

Essa é uma separação incrivelmente higiênica. E, historicamente, foi o modelo mais conveniente que a gente encontrou para explicar como operamos e como nos relacionamos com o ambiente.

Nós gostamos de categorias bem delimitadas, né? Facilita a vida. Com certeza. A ideia de que temos uma alma ou um intelecto puro que processa a realidade de forma neutra, enquanto o corpo é só um hardware que transporta essa inteligência, isso ajudou a fundar a ciência moderna. Trouxe uma sensação de controle muito grande. Mas aí que está o problema. Quando a gente entra no universo da fenomenologia, esse controle remoto simplesmente para de funcionar.

a cabine do piloto evapora no ar. Ela desaparece. Quando olhamos para a estrutura da experiência humana real, essa linha divisória entre quem comanda e quem executa fica super nebulosa. Para não dizer que ela some por completo.

Sim, a fenomenologia não apenas apaga essa linha, ela destrói a própria premissa de que existe um dentro e um fora. É uma revolução absoluta na nossa autoimagem. Nossa, sim! O que essa corrente propõe é que a nossa consciência não está tipo trancada numa caixa craniana assistindo a um filme do mundo. Ela está espalhada por todo o nosso corpo vivo.

Certo, vamos desempacotar isso porque o nosso mergulho profundo de hoje tem uma missão bem ambiciosa. Estou preparado. O objetivo é desconstruir tudo o que assumimos sobre quem somos. Para quem nos acompanha e gosta daquela sensação de ter as próprias certezas sacudidas, o foco hoje é exatamente essa transição sísmica. A saída do racionalismo. Exato.

E do pensamento racionalista clássico, essa coisa do piloto e do drone, para a percepção corporal profunda da fenomenologia. E a nossa bússola para navegar nessas águas hoje é o artigo acadêmico Corporeidade e Subjetividade em Merleau-Ponty. É um texto do pesquisador René Armandentes. É um material bem denso, né?

É, ele é carregado de um vocabulário bastante rigoroso. Mas o valor real de discutir isso aqui é traduzir esses mecanismos para a forma como habitamos o mundo todos os dias. Com certeza. O objetivo é tornar a filosofia do Merleau-Ponty palpável, especialmente para quem está iniciando os estudos filosóficos e quer entender por que essas teorias importam tanto.

Bom, pra gente entender o tamanho da demolição que o Merleau-Ponte fez, precisamos dar um passo atrás, cronologicamente falando. Hum, entendeu o que ele queria derrubar. Isso. Precisamos olhar pra trás e entender o que ele tava combatendo. Durante séculos, o racionalismo ditou as regras do jogo, a visão clássica, muito ancorada em Descartes, via nossa consciência como uma interioridade pensante.

O famoso eu abstrato. Sim, o penso logo existo. E nesse cenário, o corpo era tratado como um mero intermediário, sabe? Um aparelho. Ele só captava dados brutos pelos olhos, pelos ouvidos, e enviava esses sinais elétricos para o intelecto decodificar. Exato! O corpo era visto estritamente como um evento geométrico, né?

Sim, uma máquina composta de alavancas, fluidos e engrenagens. Nessa perspectiva, os sentidos seriam apenas canais passivos. A alma ficava isolada lá em cima. Isolada e imaculada, só traduzindo o mundo exterior. Mas o Merleau-Ponty argumenta que essa visão falha miseravelmente em explicar a experiência humana real. E aí ele propõe a virada. Exato. Através de um conceito central chamado intencionalidade.

E aqui, assim, é importante frisar uma coisa. Pode falar. Intencionalidade na fenomenologia não significa ter a intenção de fazer algo, tipo, ah, planejo ir à padaria. Ah, tá. Não é uma ação pré-meditada. Não. Significa que a consciência é sempre consciência de alguma coisa. Ela é como um feixe de luz que aponta para o mundo.

Ou seja, a consciência não é uma entidade separada da natureza que num segundo momento decide interagir com o objeto. Exatamente. O corpo não é uma antena transmitindo sinal para um cérebro encastelado. O texto do Dentes usa uma expressão muito forte para isso. Ele fala em subjetividade como corporeidade comportamental. É um termo pesado, mas genial. Pois é.

O sentido do ser humano se revela através do corpo em comportamento. Nós somos o meio pelo qual o mundo se torna sensível. E a implicação lógica disso vira o racionalismo de cabeça para baixo. Não existe um eu abstrato, suspenso no ar, que sustenta o corpo.

É o corpo que sustenta o eu. Exato. É a estrutura corporal que sustenta o eu. Merlupont usa um termo fascinante para isso chamado xiasma, ou entrelaçamento. Xiasma. Como quem nos ouve pode visualizar isso na prática? Imagina o ato de apertar as próprias mãos. Quando uma mão toca a outra, qual delas é o sujeito que sente e qual é o objeto sendo sentido?

Ah, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Simultaneamente. O corpo humano tem essa dupla face. Ele é algo que toca o mundo, mas também faz parte do mundo e é tocado por ele. Existe um pacto vital aí. Mas, pera, eu preciso fazer um questionamento prático aqui. Como eu fico muito curiosa com essas aplicações... Manda ver. Se o corpo fosse só uma máquina enviando sinais vitais, como o racionalismo defende, como a gente explicaria o impacto físico das nossas emoções?

Boa pergunta. Porque pensa num luto profundo ou numa alegria muito intensa. Quando uma pessoa está deprimida, a percepção física da gravidade literalmente muda.

corpo pesa, né? Muito. Os ombros caem, o ambiente ao redor parece opressivo, o ar fica denso. Se a gente fosse só um piloto processando dados numa tela, um sentimento abstrato não deveria alterar as leis da física na nossa percepção corporal. Exato. O drone não fica mais pesado só porque o piloto tá triste.

O que é fascinante aqui é que esse questionamento expõe a grande falha do modelo mecânico. O luto não é tipo um arquivo corrompido que a mente acessa e depois manda um aviso elétrico para os músculos ficarem cansados. Sim. O luto é uma resposta corporal completa ao mundo. O Dentsen explica que o sujeito focado só na cognição precisa ser substituído por uma objetividade dinâmica.

Objetividade dinâmica. Isso significa que a gente não tem um corpo como quem veste um casaco, certo? Nós somos o nosso corpo. Perfeito. Quando a tristeza atinge, ela atinge a carne. A nossa subjetividade é, antes de tudo, afeto vivido e dinamismo operante. É a forma como nos engajamos.

Bom, se o nosso interior não é esse chefe dando ordens num castelo abstrato, e nós somos, na verdade, essa objetividade encarnada, como esse corpo sujeito age na prática? É aí que entra a ação. Sim, porque isso parece abrir as portas para a teoria do Merleau-Ponty sobre a motricidade. Aqui é onde a coisa fica realmente interessante. A forma como nos movemos não pode ser só a mecânica, né? De forma alguma.

O corpo próprio, que é como a fenomenologia chama essa nossa existência corporificada, ele atua como um mediador ativo. Se a gente tentar analisar o corpo humano só com a fisiologia de um laboratório de anatomia, a gente mata o sujeito. O corpo de laboratório é um cadáver, sabe? O corpo fenomenal é movimento.

E para entender a riqueza disso, tem aquela distinção que ele faz entre o movimento concreto e o movimento abstrato, não é? Isso mesmo, é brilhante.

Pera, tentando visualizar isso para o nosso ouvinte, vamos pensar na diferença entre gestos cotidianos e gestos expressivos. Vamos lá. Se alguém está na cozinha e levanta o braço para alcançar uma maçã no alto de um armário, existe um objeto real ali, uma necessidade fisiológica. Sim, a maçã está lá.

Mas se a gente imaginar um bailarino num palco escuro, e ele levanta exatamente o mesmo braço, no mesmo ângulo, usando os mesmos tendões, só que fazendo isso para expressar angústia. Fantástico! É isso que separa o concreto do abstrato, porque anatomicamente os músculos fizeram o mesmo trabalho, mas existencialmente parecem universos inteiros de diferença. Essa é a distinção exata. O movimento voltado para a mação é o movimento concreto.

Ele é ditado pelo que já existe no mundo físico, pelo utilitarismo imediato. O corpo reage ao ambiente atual. Exato. O movimento do bailarino, por outro lado, é um movimento abstrato. Ele não está buscando nada físico. Ele exige um fundo que não está ali materialmente. Exige um fundo imaginário. Sim, um cenário virtual construído puramente pela intenção daquela pessoa.

O ato do bailarino é psíquico, é a capacidade humana de mostrar algo que transcende a biologia. Nossa, então ele meio que cria uma realidade que não existia até o músculo se mover. Isso. O corpo nesse movimento abstrato projeta significado. E o artigo traz um ponto muito revelador sobre o que acontece quando a gente adoece ou sente uma dor aguda.

O que acontece? A doença é o que nos prende ao mundo concreto. Imagina que o bailarino sente uma cãibra insuportável no meio do palco. Aquele fundo virtual que ele estava criando desaparece na hora. Ele não consegue mais projetar a angústia existencial, né? Não consegue. Ele é reduzido ao músculo falhando.

A dor severa tem esse poder de nos roubar o nosso corpo fenomenal, que é escapaz de projetar futuros e nos aprisiona no corpo objetivo. O corpo mecânico. A dor obriga a gente a voltar para a máquina. Sim, cruel e direto. O corpo saudável, por outro lado, tem a liberdade de transitar nesse virtual. Ele consegue se desviar do mundo imediato para projetar ações.

É por isso que o texto descreve o homem como comportamento discurso. Isso. A nossa motricidade não é só um reflexo involuntário. O mundo faz um apelo e o nosso movimento intencional é a nossa resposta discursiva a esse apelo. Bom, isso me leva a uma dedução curiosa e fiquei muito animada com essa parte.

Se a nossa forma de interagir com a realidade é através dessa motricidade intencional, os palcos onde essas ações acontecem também precisam mudar, não é? Com certeza precisam passar por uma revisão drástica. Se o corpo deixa de ser um objeto passivo, os cenários em que ele atua, tipo o espaço e o tempo, não podem continuar sendo vistos da mesma forma tradicional.

A mudança no palco é tão radical quanto a mudança no ator. E aqui, o autor traça a evolução desse pensamento a partir de Edmund Husserl. O pai da fenomenologia. Ele mesmo. Na visão geométrica tradicional, o espaço e o tempo são, tipo, grandes recipientes vazios, entidades exteriores. O universo seria uma caixa infinita e nós fomos jogados lá dentro. Mas para o Husserl e para o Merleau-Ponty...

O espaço absoluto não existe por si só. Eles substituem espaço e tempo por espacialidade e temporalidade. Vamos focar no espaço primeiro. Porque na escola a gente aprende o plano cartesiano, os eixos X, Y e Z. Nós estaríamos dentro do espaço, nos movendo como peças num tabuleiro. Sim, essa é a visão clássica.

Mas pelo que eu entendi, a fenomenologia argumenta que o espaço é, na verdade, doado pela consciência através do corpo. O conceito de perto ou longe, em cima ou embaixo, só existe porque nós temos um corpo. Um corpo que fica de pé e que tem braços que alcançam certas distâncias. Exato. Nós não movemos o nosso corpo num espaço neutro pré-existente. O movimento do nosso corpo é que cria um horizonte existencial.

A geometria cartesiana é uma abstração útil para a matemática, claro, mas não reflete a vivência. O espaço vivido brota da nossa relação com o meio. Se não houvesse um corpo com intencionalidade, o conceito de espaço perderia completamente o sentido humano. O espaço não está lá fora nos esperando. O mundo faz um apelo, nosso corpo responde e dessa fricção surge o nosso horizonte.

Então quem está ouvindo a gente agora não pode pensar no espaço como um imenso aquário onde os peixinhos humanos nadam passivamente. Longe disso. A gente é muito mais parecido com uma aranha. Como assim? Pensa bem. A aranha não encontra uma teia pronta e vai morar nela. Ela tece a teia a partir da própria substância do corpo dela. Uau! Sim!

A teia é uma extensão dela mesma, que organiza o mundo ao redor para que ela possa agir. O espaço emana da nossa presença. Se a aranha não age, a estrutura não existe. Essa analogia é perfeita. Ela captura perfeitamente o mecanismo da espacialidade.

E, aliás, nos fornece a ponte ideal para entender a temporalidade. Porque se a gente tece o nosso espaço, a gente também tece o nosso tempo. Exato. O tempo fenomenológico não é um relógio de parede universal fazendo tic-tac independente da gente. Para o Merleau-Ponty, o tempo é um ponto de vista. Um ponto de vista construído por nós.

Isso. A temporalidade deriva inteiramente da autoconsciência de um sujeito situado e agindo no mundo. E isso levanta uma questão importante.

Muda tudo. Porque se o tempo não é um trem-bala que atropela a gente e segue viagem, a forma como olhamos para o passado, o presente e o futuro também precisa mudar. Drasticamente. O texto levanta a tese de que o passado não é imutável. Para o senso comum, isso soa absurdo. O que passou, passou. É uma fotografia petrificada. É o que todo mundo acha.

Mas a fenomenologia diz que o passado muda dependendo das nossas ações no presente. Como exatamente essa mecânica funciona? Como eu posso mudar o meu passado? Bom, o que muda não é o fato físico isolado, sabe? O que muda é a significação ontológica desse fato. E como nós somos seres de significação, se o sentido muda, o evento em si se transforma na nossa história. Entendi. Mas dá um exemplo prático.

Imagina alguém que sofreu uma grande falência profissional anos atrás. Se essa pessoa paralisa no presente, aquele passado permanece como uma tragédia definitiva. Certo, o peso fica ali.

Mas se, a partir de hoje, essa pessoa usa as lições daquela falência para construir um projeto inovador e bem-sucedido, a ação presente retroage. O evento passado deixa de ser a grande tragédia. Exatamente. Ele passa a ser existencialmente o degrau fundamental do sucesso dela. O presente ressignificou o passado. O passado é moldável pela intenção do agora.

Nossa, o presente é a forja. E o futuro nesse modelo? Deixa de ser um destino selado ou uma previsão do tempo esperando para acontecer, né? O artigo chama o futuro de campo a vir de possibilidades. Ele é feito de projetos.

E se a gente amarra tudo isso, se o nosso corpo em ação projeta o próprio espaço fenomenal e reescreze a teia do tempo, nós esbarramos na consequência máxima dessa filosofia para a nossa identidade. Sim, chegamos no impacto sobre a noção de subjetividade humana contemporânea.

É o clímax da desconstrução. A gente abandona o eu penso, aquela meditação passiva e isolada, e inaugura a era do eu posso. Isso é o que a fenomenologia chama de historicidade. Se o ser humano não é um fantasma controlando uma máquina num espaço vazio, então ele não tem uma essência mágica escondida num cofre interno.

Ele não tem que descobrir o eu verdadeiro lá no fundo. Não, o sujeito só se realiza se expressando na visibilidade concreta do mundo. O texto cita uma ideia poderosa. O homem inventa o homem. Não existe uma natureza humana de fábrica engarrafada e idêntica para todos. O que chamamos de natureza humana é uma sobreposição histórica de ações e hábitos.

A intencionalidade corporal vira a ferramenta de construção de projetos. Ser humano é se instituir como um projeto. E é por isso que o corpo vivido é o fundamento da liberdade radical. A liberdade não é a ausência de restrições. A liberdade é a capacidade de usar a autoconsciência para criar significados. Sim, nós não somos vítimas de uma essência fixa.

Não estamos presos a um roteiro cármico ou biológico insuperável. Nós somos a soma contínua de como nosso corpo se engaja com os apelos do mundo. Mas aqui é onde eu sinto a necessidade de colocar o pé no freio. Eu preciso te apertar um pouco nisso. Opa, vamos lá. Porque na teoria isso soa incrivelmente libertador.

Mas na prática diária, não é um peso existencial absolutamente aterrador. Como assim? Veja bem, para quem está ouvindo e tentando aplicar isso. Se nós não somos almas vítimas de máquinas defeituosas, se não podemos culpar o destino, e até o passado pode ser alterado por nós, se nós somos os únicos arquitetos do nosso espaço e tempo, a responsabilidade nas nossas costas não é esmagadora? Voltando para a aranha. Se a teia dá errado, a culpa é inteiramente da aranha.

Olha, essa vertigem existencial é real e é um ponto de debate muito frequente na fenomenologia. Mas, se conectarmos isso ao panorama geral da obra do Merleau-Ponty, a gente acha um contrapeso vital.

Qual seria? O conceito de intersubjetividade. Lembra que a gente estabeleceu que a corporeidade impede o isolamento puro? Sim, o piloto não está mais sozinho. Exato. O fato de termos um corpo visível e tocável garante que não estamos sozinhos no espaço. Essa consciência engajada da qual falamos não ocorre num vácuo. Ela pressupõe a existência do outro.

Ah, então a nossa teia inevitavelmente esbarra nas teias das outras aranhas. O mundo fenomenal é compartilhado. Muito além de apenas esbarrar, o descobrimento do outro é o que fundamenta o próprio reconhecimento do eu. Faz sentido. A gente nasce num mundo que já está povoado pelas intenções e projetos de outras pessoas. A cultura, a linguagem, as instituições, tudo isso é fruto da intersubjetividade.

É um tecido denso. Sim, o meio humano é um tecido social denso. Portanto, nós somos radicalmente responsáveis por criar significados, sim, mas fazemos isso a partir de um solo comum. O eu posso não é o delírio de um indivíduo onipotente. É sempre um eu posso agir dentro de um mundo habitado por outros. Exatamente. A intersubjetividade distribui e dá contorno a esse peso existencial.

Nossa, isso atrai um alívio enorme para a equação. A responsabilidade de moldar a própria existência não é um fardo solitário e punitivo. É um projeto colaborativo. Nós cocriamos o sentido das coisas através desse engajamento e das nossas ações interconectadas.

Para amarrar a complexidade de tudo o que analisamos hoje, a grande transição exposta pelo Dents é a passagem de um modelo onde nos enxergávamos como mentes calculistas prisioneiras de corpos mecânicos, apenas registrando dados de um universo frio e geométrico. E o ponto de chegada é a revelação de que somos consciências corporificadas, pulsantes.

Sujeitos que fazem o espaço e o tempo sangrarem significado através do movimento intencional. Perfeito. O corpo ensina a mente como o mundo funciona. E bom, para o nosso ouvinte que busca constantemente expandir os horizontes, compreender essa engrenagem não é só um exercício acadêmico para bater cabeça. De jeito nenhum.

Isso muda ativamente o cotidiano. Entender que a nossa identidade é esculpida no contato físico e intencional com o mundo transforma cada pequena escolha numa literal criação de mundo. O ato de abrir um livro, consertar algo com as mãos, iniciar um diálogo. Exato. Nós não somos passageiros do tempo. Nós somos a forja onde o tempo acontece.

É a troca definitiva da passividade contemplativa pela responsabilidade do envolvimento prático. Nossas ações corporais são os pincéis que pintam a realidade fenomenal.

o que nos deixa com um pensamento final extremamente provocativo para quem acompanhou a análise até aqui. Vamos lá. Nós discutimos hoje que até as dores ou glórias do passado são mutáveis, dependendo da direção que o nosso corpo toma hoje. Diante disso, reflitam sobre o seguinte. Se alguém decidir, hoje à tarde, dominar uma habilidade física completamente nova. Aprender marcenaria, tocar um instrumento.

ou praticar um esporte nunca antes tentado. Essa decisão não apenas fará o corpo suar ou criar novos reflexos motores, tem um impacto muito maior. Esse simples engajamento corporal terá o poder de retroagir, de ressignificar as memórias de quem a pessoa achava que era no passado e, simultaneamente, reescrever as fronteiras do seu espaço e tempo futuros. Fica a reflexão.

Como um novo movimento do corpo altera a própria malha da existência? Continuem questionando a superfície da realidade diária e esperamos todos para nossa próxima análise profunda nas camadas do conhecimento.

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