Maternidade Solo: não é só sobre ser mãe. É sobre ser sozinha
Recentemente a cantora SHAKIRA fez um show na praia de Copacabana, no RJ... E, durante esse espetáculo, ela homenageou às mães solo.... dizendo que também é uma delas.
Cesar Isaac
Fernando Dourado
Mila Bessa
- Maternidade SoloRealidade no Brasil · Histórico social e legal · Responsabilidade concentrada · Sobrecarga emocional e física · Impacto no bem-estar mental
- Desafios da MaternidadeLogística de trabalho e cuidado · Acesso desigual a creches · Impacto na carreira e renda · Ausência de rede de apoio · Culpa e expectativas sociais
- Soluções e ApoioRedefinição de prioridades · Busca por ajuda e rede de apoio · Responsabilidade coletiva e do Estado · Políticas públicas e creches · Pensão alimentícia e sua efetividade
- Shakira e Maternidade SoloHomenagem em show no Rio · Visibilidade para o tema
Recentemente, a cantora Shakira fez um show na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro, e durante esse espetáculo, ela homenageou as mães solo, dizendo que também é uma delas.
A mentira, e mesmo com toda a sua homenagem, tem uma parte dessa história que quase nunca aparece. A realidade. No Brasil, são mais de 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sozinhas. Mulheres que, no dia das mães, estão ali para serem celebradas. Mas que vivem uma experiência diferente.
Elas acordam, resolvem o dia, cuidam da casa, cuidam dos filhos, trabalham e no final continuam sendo as únicas responsáveis por tudo. Porque maternidade solo não é sobre ser mãe, é principalmente sobre ser mãe sozinha. Eu sou o Dr. César Isaac e você está no Amity Talks, o podcast da Clínica Amity.
Durante séculos, as mulheres se viram limitadas por estruturas sociais e legais que condicionavam as suas decisões aos homens. No Brasil, por exemplo, até 1962, mulheres casadas precisavam da autorização dos seus maridos para trabalhar.
E dentro dessa lógica, a maternidade também não era vista como uma responsabilidade compartilhada, mas sim como uma função apenas da mulher. Então, quando essa mulher tinha um filho fora do casamento, isso era visto como um desvio, como um erro.
como algo que precisava ser destacado. E daí surgiu o termo mãe solteira. Por isso, quando a gente fala de maternidade solo, a maioria das pessoas ainda imagina uma mulher que nos casou. Só que não é bem assim. Mãe solo não é estado civil. É uma responsabilidade concentrada. Essa mãe é quem assume tudo.
o cuidado financeiro, o emocional, o cotidiano, esteja ela sozinha ou dentro de um relacionamento. Sim, tem muitas mulheres que dividem a casa, mas não dividem a maternidade. Por isso que a ausência de apoio nem sempre é ausência física. Tem pai que está no registro, mas não está na rotina, está na foto.
mas não está na construção do dia a dia. Além daquelas situações em que a maternidade solo é uma decisão consciente de mulheres que optam por engravidar sem parceiros. Porém, mesmo dentro desta diversidade de trajetórias, existem elementos comuns que atravessam essa vivência, e o principal deles é a sobrecarga.
E quando tudo fica concentrado em uma única pessoa, não é só a rotina que pesa, é a vida inteira que se desorganiza. O tempo deixa de ser flexível, o descanso vira exceção e qualquer imprevisto vira um problema, porque não tem revezamento, não tem pausa combinada, não tem alguém para assumir quando você não consegue.
E isso aparece no cansaço constante, na sensação de estar eternamente devendo alguma coisa, porque não importa o quanto você faça, sempre parece que falta. E talvez o mais difícil não esteja no excesso de tarefas, mas na impossibilidade de dividir essas tarefas. Ouçam o que disse essa mãe Amitier.
Após o nascimento do bebê, a gente fica em êxtase por conhecer o maior amor da nossa vida, um amor inimaginável e incondicional.
E esse amor é o que nos dá força para continuar pelas longas madrugadas em claro. É o que nos faz insistir em amamentar mesmo com dores nas mamas. É o que nos mantém de pé por um dia inteiro cumprindo tarefas domésticas, tendo apenas cochilado por alguns minutos com o bebê. Os meses passam como num piscar de olhos. E logo o bebê completa seu quarto mês de vida nos deixando com dúvidas.
Logo volto a trabalhar, como vou fazer? Vou pôr na creche? Deixo com alguém conhecido? Será que dou conta de trabalhar, cuidar do bebê e fazer as tarefas domésticas, estando sozinha? Até que o dia de voltar ao trabalho chega. A gente sai de casa com lágrimas nos olhos. Beijamos a criança até não poder mais. Dizemos que a amamos e que logo voltaremos para pegá-la. E ao virarmos as costas, as lágrimas caem incontrolavelmente.
Os primeiros dias dão um aperto na alma, uma vontade de largar tudo e voltar para dar colo. Mas com o tempo, percebemos que nosso trabalho também é uma terapia. É um modo de sairmos um pouco da função de mãe e dona de casa, para sermos aquilo que passamos grande parte da nossa vida estudando para exercer. E assim seguimos. Nosso dia começa quando o sol ainda não saiu e acaba após as 10 da noite.
A grande verdade é que mãe sempre dá um jeito, mãe sempre dá conta. Isso nos torna verdadeiras heroínas para os nossos pequenos. A transformação de uma mulher quando se torna mãe é esse amor inexplicável em palavras, que te faz ter certeza que você vai dar uma solução para todas as situações, principalmente as mais desafiadoras.
Porque, afinal, a maternidade só é difícil para as boas mães. E mesmo com tamanha carga emocional, essa realidade não é fácil, não é tranquila e está virando regra. Segundo dados recentes divulgados pelo IBGE, no Brasil, existem entre 10,9 e 11,6 milhões de mulheres que criam seus filhos sozinhas.
Essa é uma parcela significativa da estrutura familiar do país. Desde 2022, as mulheres passam a ser maioria na chefia dos lares brasileiros. E naqueles onde existe um adulto com filhos, a presença feminina é superior a 90%. Mulheres que não estão apenas criando suas famílias sozinhas. Elas estão fazendo isso em condições mais difíceis.
Em média, mães solo ganham menos, têm menor acesso a empregos formais e menor contribuição previdenciária. Daí, quem mais tem responsabilidade, muitas vezes, é quem menos tem recursos. Em nosso país,
um percentual expressivo de crianças entre 0 e 5 anos ainda está fora das creches. Esse fato, por si só, já seria um problema, uma vez que a partir dos 4 anos essa presença é obrigatória. Mas ainda tem um detalhe que piora tudo. Esse acesso é desigual. Entre as famílias mais pobres, somente cerca de 30% das crianças conseguem uma vaga nas creches.
Enquanto, entre as mais ricas, esse número chega perto de 60%. Então, quem mais precisa de apoio é quem menos tem.
Isso significa que muitas vezes para a mãe solo trabalhar não é só uma escolha difícil, é uma logística quase impossível. E aqui começa a ficar ainda mais delicado, porque essa realidade não atinge todas as mulheres da mesma forma. A maioria das mães solo no Brasil é composta por mulheres pretas, e isso adiciona mais uma camada de desigualdade no acesso, na renda, na oportunidade. Porque viver assim...
Não é só fazer tudo, é viver sem pausa. A mãe solo frequentemente assume uma jornada tripla, trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidado integral com os filhos. A ausência de pausas, aliada à pressão constante por desempenho, tanto como mãe quanto como provedora, cria um ambiente apropriado para o desenvolvimento de ansiedade, depressão, burnout e outros transtornos.
Tem algo que ainda é mais silencioso nisso tudo. A culpa. Culpa de nunca ser o bastante, de trabalhar demais ou de não trabalhar o suficiente. Culpa por não estar presente.
Esse sentimento é amplificado por uma expectativa social irreal sobre a realidade do que significa ser boa mãe. Toda essa pressão acaba gerando uma mulher funcional por fora, mas exausta por dentro, que muitas vezes nem tem espaço para reconhecer isso.
porque a narrativa que ela escuta é outra. Você dá conta, você é forte, você é guerreira, mas nem sempre o que parece força é escolha. Muitas vezes é falta de alternativa. Elas podem ser as principais provedoras do lar, mas ao mesmo tempo são vistas como menos disponíveis, menos produtivas.
menos interessantes para o mercado de trabalho. Mães solo chegam a ganhar cerca de 40% menos do que pais com filhos e cônjuges nas mesmas funções. Não porque elas produzam menos, mas porque elas são percebidas como risco.
E essa percepção força mulheres para escolhas que na maioria das vezes são adaptações ao que é possível. Aceitar condições ruins, engolir desrespeito, trabalhar onde não gostaria de estar, somente porque sair custa muito mais caro.
Agora soma isso com mais um fator, a ausência de rede de apoio, sem creches, sem suporte familiar, sem políticas públicas suficientes. O resultado? Uma equação simples e dura. Se não trabalha, não sustenta. Se trabalha, não consegue estar presente. E diante dessa equação, aparece uma pergunta que não é nada simples. O que fazer quando a vida não te oferece divisão?
Porque aqui tem um ponto importante a ser considerado. Não existe uma única solução para um problema que é estrutural. Mas existem caminhos.
E o primeiro deles é parar de medir a própria vida por uma régua impossível, porque talvez o problema não seja o quanto ela faz, mas o quanto ela se cobra por não conseguir fazer tudo. Isso muda muita coisa. Redefinir prioridades não é abrir mão delas, é redirecionar a energia para o que realmente sustenta o dia.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é inteligência emocional. E construir uma rede de apoio, mesmo que pequena, faz total diferença. Pode ser que isso não resolva tudo, mas muda o suficiente para que a vida não pese tanto. Só que essas mudanças não podem parar no indivíduo, porque não dá para pedir equilíbrio emocional numa realidade estruturalmente desequilibrada.
Aqui entra outra camada, a necessidade de ajuste coletivo. E quando a gente fala de responsabilidade coletiva, inevitavelmente a gente chega no Estado. Porque do ponto de vista geral, essa responsabilidade existe. O cuidado com a criança não é só da família. Ele é compartilhado com a sociedade e com o poder público. E isso está escrito no Estatuto da Criança e do Adolescente. Ou seja, é lei.
Na prática, significa acesso a creche, educação infantil, políticas de proteção social, condições mínimas para que essa mulher possa trabalhar e cuidar da família ao mesmo tempo. Mas aqui começa outro descompasso, porque o que existe no papel nem sempre chega na vida real.
E não chega por alguns motivos. Primeiro, porque a demanda é maior do que a estrutura disponível. Não existem vagas suficientes em creches, não existem políticas de que alcancem todas as famílias necessitadas. Principalmente aquelas que não moram nos grandes centros urbanos.
Além disso, nem sempre essas políticas são prioridades. Elas competem com outras demandas, outros interesses, outros orçamentos. E quando o Estado não cumpre seu papel social, o que deveria ser política pública vira esforço individual. O que deveria ser divisão volta a ser concentração.
Outra discussão delicada, mas necessária, é a pensão alimentícia. Na teoria, ela existe para dividir responsabilidades, mas na prática, nem sempre ela cumpre esse papel. Existem muitos litígios e desgaste emocional sobre o seu pagamento.
E frequentemente, o que deveria ser uma divisão, acaba sendo uma transferência de responsabilidade. O dinheiro chega, mas o cuidado continua concentrado na mãe. E isso mantém a lógica inicial intacta.
Não se trata de negar a força dessas mulheres porque ela existe, mas possivelmente a gente tenha aprendido a admirar essa força do jeito errado. A gente aplaude, exalta, chama de guerreira, mas esquece de perguntar por que ela precisa ser tudo isso.
Então, é muito importante quando uma figura pública como a Shakira traz esse discurso para o palco. Não porque ele vá resolver alguma coisa, mas porque ele expõe o problema. E algumas coisas só começam a mudar quando se tornam visíveis.
Quando chegam à consciência, à conversa, ao incômodo. Então, pode ser que o primeiro passo não seja resolver tudo, mas parar de naturalizar, de tratar como exceção aquilo que já virou regra. Afinal, amitires, maternidade solo não é sobre ser mãe. É principalmente sobre ser mãe sozinha.
Um beijo para cada uma e feliz dia das mães. Esse foi o Amitier Talks, o podcast da Clínica Amitier. Um espaço de cuidado, escuta e reconexão. Visite nosso site ou venha nos conhecer. Você pode ouvir o nosso podcast no Spotify, no YouTube ou no seu tocador de podcasts preferido. Um beijo para cada um.
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