Episódios de Programa de Indie

Os 40 anos de 'Cabeça Dinossauro', a obra-prima dos Titãs

21 de agosto de 20261h16min
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"Bichosh, saiam dos lixosh"

Muito antes da Anitta nascer, das turnês de reunião virarem moda e do Acústico MTV, houve Cabeça Dinossauro – o disco que fez a carreira do octeto (!) Titãs mudar de cabeça para baixo. Peça fundamental do rock brasileiro dos anos 1980, o terceiro álbum dos paulistanos é o nosso assunto da vez.

Entre o "espírito de porco" Igor Muller e o "pança de mamute" Bruno Capelas, convidamos o "cabeça dinossauro" Marcelo Costa para participar desse episódio mais que especial. Testemunha da época, Marcelo nos ajuda na contextualização e análise de Cabeça, lançado originalmente em 1986, com produção de Liminha e capa baseada em Leonardo da Vinci.

Em meio a músicas-substantivo, arranjos pós-punk, prisões por porte de cocaína e shows cheios de gelo seco, tentamos dar conta de entender os significados por trás de Cabeça Dinossauro – e como o disco resiste ao teste do tempo.

Além do papo, tem ainda uma playlist especial, com direito a influências, referências e versões demo de Cabeça. Chama a oncinha pintada, a zebrinha listrada e vem com a gente.

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Participantes neste episódio2
I

Igor Muller

Host
M

Marcelo Costa

Convidado
Assuntos7
  • Análise Sonora e Lírica de 'Cabeça Dinossauro'· CulturaInfluências pós-punk e new wave·Letras com substantivos e frases de efeito·Crítica às instituições (Igreja, Polícia, Família)·Democracia interna da banda e arranjos
  • Avaliacao de Album· CulturaBoicote inicial da mídia e rádios·Sucesso comercial sem hits radiofônicos·Impacto cultural e influência posterior·Versões e regravações (Anitta)
  • Cabeça Dinossauro· CulturaContexto histórico do álbum·Titãs·Rock brasileiro dos anos 80·Produção musical da época
  • Contexto Histórico dos Titãs· CulturaFormação da banda·Primeiros discos e gravadoras·Prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto·Colégio Equipe
  • Comparativo de Bandas e Gêneros Musicais· CulturaRelação com o punk e pós-punk brasileiro·Influências da Tropicália·Comparação com Legião Urbana e Paralamas·Produção musical brasileira vs. internacional
  • Critica e Analise de Album Contemporanea· CulturaDatado musicalmente, mas relevante tematicamente·Temas que ressoam mais hoje·Exaustão lírica e superficialidade percebida·Titãs como 'sparring' da crítica
  • Eventos da Semana· SociedadeLevitation Brasil·Shows de System of a Down e Faith No More·Festival C6 no Rock·American Football no Brasil
Transcrição97 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz 1

Programa de Indie com Bruno Capelas e Igor Miller.

IMIgor Muller

Seja muito bem-vinda, seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinde ao Programa de Indie, o nosso quartinho de bagunça onde estamos todas as semanas não apenas falando de uma visão da música alternativa, mas também de uma visão alternativa da música. Eu sou Igor Miller, sempre ao lado dele Bruno Capelas. Boa noite!

?Voz 1

Boa noite, Igor Miller! Prazer enorme estar aqui neste programa de indie. A gente vai jogar um jogo hoje de quem é o cabeça dinossauro, quem é o pança de mamute, quem é o espírito de porco? Melhor não, né?

IMIgor Muller

Eu já vou avisando de antemão que eu sou o espírito de porco deste programa e te aviso de antemão Pra você seguir a gente na sua plataforma de streaming, no seu agregador de podcast de preferência. Sempre dando a cotação máxima pra gente, é muito importante. Sempre seguindo a gente nas nossas redes sociais.

?Voz 1

O nosso Instagram, que é o @programadeindie. O nosso Bluesky, que é o @programadeindie.bluesky.social. O nosso simpático email olaprogramadeindie@gmail.com, onde você pode nos convidar pra comer maionese de ostra.

IMIgor Muller

E sempre seguindo com você, com maionese de ostra, Com maionese simples? Não sei. Mas dizendo pra você onde acontece e onde a gente está hoje, acompanhado, será que com maionese de ostra? Agendinha da semana, seu Capelas. Agendinha da semana, seu Marcelo Costa.

MCMarcelo Costa

Boa noite. Deixa eu só avisar aqui que eu não sou pança de mamute não, viu?

?Voz 1

Sou eu, sou eu. Você é o cabeça de dinossauro, nosso decano.

MCMarcelo Costa

Obrigado pelo convite, estamos aí, gente.

?Voz 1

Agendinha da semana, eu começo pelo fim, eu começo pelo que vai acontecer lá no futuro, começo pela semana de anúncio de Levitation Brasil, festival produzido pela Marati, do nosso querido André Barsinski, da turma da Powerline. Melvins, Ossis, Emma Stoned Bike, Boris, muita coisa interessante em janeiro. Marcelo, você foi na coletiva, né? Conta pra gente como foi.

MCMarcelo Costa

Cara, foi bem legal, foi uma boa surpresa. O Levitation tá chegando na América do Sul, né? Não é só no Brasil. Teremos um Levitation Argentina e um Levitation Chile também. E isso foi muito do conversado lá assim, porque o lineup já tava rolando, todo mundo já sabia o lineup, até porque o André Barsinski falou na coletiva, esse lineup tá fechado faz 40 dias. Então o pessoal do Chile, da Argentina já tava com esse lineup também lá.

Então naturalmente ia vazar, assim, mas o grande barato, o grande interessante dessa conversa foi a gente saber que a Levitation, que é um dos grandes festivais atuais, talvez o grande festival surgido nos últimos 10 anos, que é um festival, pelo que o Barsinski falou, Barsinski e o Leandro conversaram ali com a gente, um festival totalmente low profile, Totalmente. O Leandro contou em certo momento ali que na hora de falar, vamos acertar as exigências, isso aqui, aquilo que vocês querem aqui, como que a gente faz ali e tal, ele falou, cara, o cara me mandou assim tipo como se fosse uma coisa no papel de guardanapo, sabe?

Não foi contrato, não foi, olha, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, não. Foi uma coisa assim tipo uma série de ideias do que é o festival assim que a gente tinha que seguir, sabe? Na hora que a gente olhou aquilo ali, a gente se apaixonou, né? Tomara que role. E rolou.

?Voz 1

Levitation, grande marca dos últimos anos, é um festival mais dedicado ali a correntes experimentais psicodélicas. E aqui no Brasil vai ter uma carinha podreira, mas podreira da boa, né?

MCMarcelo Costa

Poderia dar boa, Igor.

IMIgor Muller

Ficou mais a parte bagaceira do que a parte, do que a parte psicodélica. Mas foi um lineup interessante. O Melvins, uma banda importantíssima. Tinha muita gente falando, né, inclusive Que é uma boa oportunidade pra ver o Ossys também, banda que tá ali dentro do core do Levitation. Muito interessante, sobretudo que a gente já tava, vamos dizer assim, como o Maqui já entregou, né, já tava rodando esses nomes, mas a chancela do Levitation dá um grau novo, mais um festival pro Brasil, sendo que a gente tá de certa forma desalentado com outros festivais que ressurgiram no Brasil.

É uma boa notícia pra gente saber que Levitation vem aí e no começo do ano, que é muito interessante, né? Já que os festivais estão ali isolados com o Lollapalooza já pra segunda metade do primeiro semestre, a gente ter já no começo do ano um festival é interessante pra gente, já que o Rock in Rio também se deslocou nos últimos anos deste período do nosso verão. Legal a gente saber que vai ficar com a orelha mais quente ainda com esse Levitation.

MCMarcelo Costa

Vou até dar uma provocadinha aqui, gente. Vou até dar uma provocadinha. A gente começou aí a agenda em janeiro, mas em fevereiro a gente tem System of a Down e Faith No More no Maracanã. Aick Patton ama esse país como poucos brasileiros amam. Aick Patton, Ozzy Osbourne, né? Um Fantômas pode pintar por aí. Vamos trazer um Aick Patton um meizinho antes aí, ó. Buffalo Tom. Tem coisa aí, hein?

IMIgor Muller

Bom, tá nessa onda aí. O Fantomas que eu vi era o Mike Patton, Buzz Osbourne, e também o Terry Bozio, que tá tocando com o Gong, que já veio recentemente via Balaclava.

MCMarcelo Costa

Seria legal, hein?

?Voz 1

Bom demais, bom demais. Voltando para o tempo mais presente, eu e Marcelo vivemos uma maratona de shows que você poderá ler em breve no Screenel no último final de semana. Mas esta semana tem Diles Que Não Me Matem, dia 22 de agosto, no Bar Alto, no sabadão. Sábado e domingo também Festival C6 no Rock, com vários discos clássicos dos anos 80 sendo apresentados por suas bandas, inclusive este Cabeça Dinossauro, inclusive o 2 da Legião, inclusive o Selvagem do Paralamas, todos com programas especiais aqui.

Semana que vem, a boa é Jair, Vitor e Renan, o bom, o mau e o feio. Dia 30 de agosto no Headstar, domingueira, para todo mundo ficar feliz com o rock triste. Show do Ludovic esse final de semana foi um tesão. Assistam Ludovic. Ludovic, que por sinal é uma das estrelas do Balaclava Fest, dias 26 e 27 de setembro no Tóquio Marine Hall. Dia 29 tem Chapter House, também produção da Balaclava, dia 29 no Cine Joia. Cobertura do Terra Plana.

E para a gente fechar, a outra novidade da semana: American Football confirmado no Brasil! Eu disse que acreditassem, eu pedi que acreditassem. American Football virá ao Brasil, um show para 3.000 pessoas na Áudio, dia 30 de novembro, completando esse novembro maluco que a Balaclava tá fazendo aqui no Brasil. Vai ser Uma delícia. Eu e Igor talvez alcancemos antes do show começar, uns dias na Audi.

IMIgor Muller

Vou chorar, desculpe, mas eu vou chorar. Inclusive, o Steve Lemons falou que queria ver a gente, né? Ficou aquele clima na entrevista que a gente fez recentemente. Ah, não sei se vai ter show, mas eu quero ver vocês. Basicamente foi o que o Lemons falou. Então nós vamos levar ele e toda a trupe pra tomar caipirinhas no Souza.

MCMarcelo Costa

Beber caipirinha.

IMIgor Muller

Exatamente. E vamos tatuar no Marcelo Costa também uma caipirinha, que nem Mike Kinsella fez na última passagem no Brasil.

MCMarcelo Costa

Eu não tenho nenhuma tatuagem até hoje, mas uma caipirinha eu tatuaria.

IMIgor Muller

Pança de mamute, espírito de porco e cabeça de dinossauro, a postos aqui hoje para falar e para aquecer no C6 no Rock. Você já ouviu o nosso episódio sobre Selvagem? Agora, cabeça dinossauro, nosso assunto aqui, e eu vou ser mais espírito de porco do que a alcunha que surgiu hoje.

?Voz 1

Vamos abrir com um pouquinho de contexto histórico. Eu vou pelo lado do que eu li nos livros e Marcelo vai depois me complementar com a memória, porque acho que a gente, primeira vez que a gente fala de Titãs aqui no programa de Indy. E é legal fazer um contexto desse Titãs do começo, né? Quem é essa banda e por que que o Cabeça de Dinossauro é um disco de virada na carreira do Titãs? E acho que ajuda até a cristalizar uma imagem que a gente tem do Titãs até hoje.

Titãs é uma banda que se forma mais como um coletivo do que como uma banda, era uma galera. Tanto que a banda já chegou a perder integrantes antes mesmo do Cabeça de Dinossauro. Caso do Ciro Pessoa, que saiu porque ele queria meio que ser um líder da banda. Ele tinha uma questão com o André Jung, que era o baterista, e que acabou também saindo da banda. E o Charles Gavan assumiu as baquetas do grupo antes do segundo disco. É a troca pau a pau, né?

O Gavan saiu do Ira para o Titãs, o Jung saiu do Titãs para o Ira. Quase que o Gavan foi parar no RPM no meio do caminho. Essa é sempre uma história muito divertida. Paulo Ricardo quase atravessou a negociação, bem, bem à moda de Adônis Frias, pelos santistas de plantão. E, mas o Titãs é meio esse coletivo de jovens de classe média alta ou classe alta de São Paulo, alguns deles filhos de políticos, filhos ali da inteligência paulistana, de uma certa forma, todos estudantes do Colégio Equipe, de diferentes anos.

Colégio Equipe, uma tradicional instituição de de esquerda, né, um colégio mais à esquerda e um ponto de resistência durante o período militar. Um certo senhor chamado Sérgio Groisman fazia shows ali nos anos 70 que influenciaram a cabeça desses moleques. E eles começam fazendo peças, performances, shows. Eles tinham um monte de banda. O Arnaldo Batista tocou na banda Performática, eles tinham Sossega Leão, Trio Mamão, um monte de coisa.

E aí eles começam a se juntar e beleza, viram os Titãs do iê iê. A piada é iê iê, não é iê iê iê. Só que todo mundo falava iê iê iê, e aí eles decidiram cortar o iê iê iê e viraram só Titãs. Titãs consegue gravar os seus primeiros discos naquela onda de bandas captadas pela Warner, pela WEA, do nosso querido André Midani, já em sua segunda encarnação no Brasil. André Midani, a gente já falou muito, presidente da Philips no Brasil durante os anos 70, vai para Warner no começo dos anos 80 e busca uma saída para gravar coisas mais barato, porque a MPB custava muito caro, as orquestras, os arranjos e tudo mais.

E as bandas era só entrar no estúdio, gravar, ponto, acabou, já tá tudo certo. Ele arregimenta um cara chamado Pena Schmidt, que tinha sido, entre outras coisas, técnico de som dos Mutantes na fase final da carreira, e tava ali no meio envolto na cena e falou: Pena, descobre umas bandas aí um pouco para responder um esforço que primeiro tinha vindo com a EMI, que tinha registrado Blitz para Lamas do Sucesso, tinha conseguido pegar algumas bandas ali desse nascente rock carioca.

E o Pena Schmidt traz para a Warner um trio de bandas de São Paulo que vai fazer algum barulho, que é o Titãs, o Ira e o Ultraje ao Rigor. Quem faz mais sucesso primeiro é o Ultraje ao Rigor, até muito pela questão de uma canção como Inútil, ser parte do movimento das Diretas Já, parte do movimento ali que culmina na eleição do Tancredo Neves. A gente não sabe votar para o presidente, o Ira sempre fica meio mais ao lado. E o Titãs é uma banda naquele momento, uma banda de new wave, como a gente consegue perceber no primeiro disco, Titãs, um disco que é produzido pelo Pena Schmidt, que basicamente registra a banda da forma como ela existe.

É bastante new wave e é um disco muito engraçado, que ele tem um salto muito grande entre as grandes canções desse disco. Então ali as primeiras versões de Marvin, de Go Back, tem Sonífera Ilha, que acaba virando um hit. A gente já fala mais de Sonífera Ilha, tem Toda Cor, mas também tem músicas muito esquisitas que mostram essa lírica do Titãs, mas que também mostra uma coisa assim meio, sei lá, meio aleatória. É o caso, por exemplo, de Babi Índio, Mulher Robô, Pule, algumas canções que assim ficaram bem esquecidas lá em 84, a gente pode deixar lá.

O disco, dizem os Titãs, não representa o que a banda consegue entregar em palco. Eles ficam bem frustrados, ainda que o disco tenha feito algum sucesso, especialmente puxado pela duplinha ali, Sonífera, Ilha e Toda Cor, e pelo fato dos Titãs, ao contrário de outras bandas do rock da época, toparem demais o esquema de tocar no Chacrinha, no programa do Chacrinha, que tinha um esquema muito importante ali. Você tinha que tocar no Chacrinha, você queria tocar no maior programa de auditório da época, mas em troca você tinha que participar dos shows que o Chacrinha produzia no subúrbio carioca.

Você entrava, tocava 15 minutos em playback e ia embora, e fazia isso em 5, 6 lugares na mesma madrugada. É um esquema produzido pelo filho do Chacrinha, Muitas bandas não toparam, Titãs topou, e Sonífera Ilha tocou adoidado. Quando eles vão gravar o segundo disco, Televisão, um ano depois, em 85, já com Charles Gavan na bateria, eles chamam o Lulu Santos para fazer a produção junto ali com o Pena Schmidt. Pena Schmidt vai assumir uma função mais de engenheiro de som, Lulu vai fazer uma produção artística, e a supervisão disso do Liminha, que é, que era meio que o diretor artístico da Warner naquele momento.

E o Televisão é um disco que já tem ideias mais interessantes. Marcelo Costa gosta muito desse disco, a gente ficou falando várias vezes ao longo da semana, ele já vai falar. Mas o Televisão também não encaixa muito bem, ele falta, ele não tem um hit forte como é Sonífera Ilha. A banda tem problemas com o Lulu no meio das gravações, ainda que o Lulu tenha de fato ajudado a registrar algumas das canções. Mas o Televisão é um disco que fica meio aquém.

E no final do Televisão surge uma canção que vai abrir o caminho para o Cabeça Dinossauro, chamada Massacre, que foi inspirada num dia que eles estavam assistindo o Jornal Nacional e viram uma notícia de vários assassinatos acontecendo ali em sequência. Eles criaram essa música e Massacre, de uma certa forma, abre um pouco as portas do que é o Cabeça Dinossauro. Para fechar o contexto histórico, tem uma última questão muito importante.

Entre o Televisão e o Cabeça de Dinossauro, Arnaldo, o Tony Beloto, é pego com cocaína pela polícia. E ao ser pego ali e ser interrogado pelos policiais, ele conta que ele pegou a cocaína com o Arnaldo Antunes, e os dois acabam sendo presos por porte de cocaína. O Arnaldo até chega a ser, se discute que ele é colocado na função de traficante, não só por porte, porque ele que passou a cocaína para o Tony. E isso leva os dois para prisão, e isso gera uma certa quebra nessa imagem, porque até aquele momento o Titãs era mais visto como uma banda new wave, e quebra um pouco essa imagem de bons moços do Titãs.

E também vou colocar eles questionando, entre outros poderes, entre outras instituições, a polícia. Acho que aqui que eu encerro o meu contexto histórico.

MCMarcelo Costa

Bom, vivi essa época e foi uma vivência bastante intensa. É muito importante dentro desse todo, desse contexto histórico, dizer que o Titãs lançou o disco deles, né, o Titãs, o primeiro, antes do TRIAD e O Ira, ele sai em 84, o Ira e o Triad vão gravar em 85. E o Titãs, e talvez os dois primeiros discos, o Titãs e o Televisão, eles eram discos que têm hits, né? Televisão, baita hit. Pra Dizer Adeus vai ser um hit no acústico, MTV.

Mas talvez se fosse uma banda que não agregava venda, eles não vendiam discos. As músicas tocavam na rádio pra caramba, mas os discos não se vendiam. Eu morava em Taubaté nessa época, que é uma cidade de 300 mil habitantes entre São Paulo e Rio, e deveria ser uma cidade mais avançada por estar entre duas megacapitais, mas como uma cidade do interior, é uma cidade extremamente atrasada e Bastante... é uma cidade também universitária, mas uma cidade atrasada.

O Titãs passou por Taubaté com todas as suas turnês. Titãs passou lá, assim, todas as bandas. Taubaté era circuito, né, era roteiro. As bandas passavam por São José, Taubaté, Cruzeiro, Aparecida, iam tocando nas cidades até fazer o... chegar entre São Paulo e Rio, né. E o Titãs tocou, todas as turnês do Titãs passaram por Tabaté. Legião, por exemplo, passou por Tabaté na turnê do 2 apenas. Fez 2 shows no, não, a turnê do 4 Estações também passou por Tabaté, mas só essas 2 turnês do Legião passaram por Tabaté.

Já o Titãs, todas as turnês passaram por Tabaté. E a minha visão da época é essa coisa de que a gente vinha de uma ditadura, né, que cerceou muito dos grandes nomes da MPB. E por isso a MPB tinha ficado bundona, né, parou de ser combativa. Afinal, né, tinha gente ali que tinha sido extraditada e foi viver no exílio, e a gente que optou viver no exílio, né, como caso do Chico. E eles decidiram não brigar mais com o governo e tal.

E quando surge a New Wave, quando surge o rock and roll o punk rock, isso acaba comovendo a juventude que também tava um pouquinho, né, saco cheio da ditadura. E aí a gente tem esse levante do rock nacional que acaba sendo cooptado pelas gravadoras. Só que o Titãs tinha duas particularidades. O Titãs é isso que o Bruno falou, é uma coisa de inteligência, era uma banda que André Faccielli já pontuou isso muito bem numa general, era uma banda em que a música, em que o texto ou a postura importava muito mais do que a música.

E daí o que que você tem? Você vai ter um disco, um primeiro disco que é muito variado, tem uns reggae, tem umas coisas folk, tem umas, tem uns covers, tem uns iê-iê-iê, sabe? Um segundo disco que é esse disco que começa com Televisão, que é um hit radiofônico, uma música deliciosa, inteligente para caramba. E termina com Massacre, que é o hardcore italiano. Só que pra Taubaté e pra todo o Brasil, acredito eu, o que o Titãs vem a fazer em Cabeça de Dinossauro era uma novidade.

Não era uma novidade pra São Paulo. Muita gente cobra os Titãs por isso, né? Tudo que eles vão falar ali em Cabeça de Dinossauro entre aspas emprestado das Mercenárias, né, que tinham a música chamada Polícia, tinha uma música chamada Santa Igreja. Sonoramente era emprestado de Inocentes. Se você pega o— isso vai ficar muito mais visível no Jesus, porque se você pega o Adeus Carne, que é o segundo, é o primeiro disco cheio de Inocentes, né, o Pânico SP era um mini LP.

E pega o Jesus Não Tem Dentes, você vai ver os mesmos breaks idênticos nos dois discos. Só que, né, o Inocente tava fazendo isso na revista Biz na época. Tinha um autor de codinome que eu acho que era o José Augusto Lemos, o Claudete Poodle, que era que ficava sacaneando a cena toda assim. Numa dessas bis tem lá, né, quando sai o Cabeça de Dinossauro, tem a coluna da Claudete Pudo, que a frase era: o Titãs está fazendo em 86 o que o Inocentes faz desde 81.

Então isso diz muito dessa questão toda, que era muito de underground de São Paulo, né. Pra Taubaté, quando chegou o show Cabeça de Dinossauro, foi uma coisa um pouco assustadora. A gente acabou de ver agora, eu e o Bruno, um show em homenagem ao Cabeça de Dinossauro, Uhuu, com a Sofia Chablau, Jonathan Doll, Juliana Perdigão, Danislau. E uma das coisas que eu comentei pro Bruno, que eles respeitaram, era que você não via nada no palco.

Nesse show agora do Citâns, que foi no Sesc 14 Bis, era uma luz vermelha e azul densa assim que você não conseguia enxergar o rosto de quem tava cantando. No show do Cabeça de Dinossauro na época era isso também, sabe? Era um show muito pesado, logicamente pesado nesse contexto de quem tava descobrindo o rock and roll mainstream. A gente vai imaginar que de repente na época também o Ratos Porão tava lançando Descanse em Paz, o Narcofobia e o Brasil vão sair 2, 3 anos depois.

Então o pesado, a gente sempre tem que colocar entre aspas também, né? Mas para o público mainstream era uma coisa muito pesada. O que é inesquecível para mim, esse show passou 2 ou 3 vezes por Taubaté, eu vi 2, isso em 86. O que é inesquecível para mim, o show aconteceu no TCC, que é o Taubaté Country Clube, que é o clube de elite da cidade. Que recebia os Grandiosos Legião, tocou lá. RPM tocando Rádio Pirata ao vivo, tocou lá.

E o Titãs tocou lá também. E o momento inesquecível desse show para mim é porrada. E você olhava, porque era o ginásio, era um ginásio de basquete, então arquibancadas e tal. E você vê o pessoal descendo a porrada, quebrando o pau na arquibancada e descendo todo mundo rolando. Uma coisa que era meio assim, tipo, você não via essas coisas, sabe? Uma coisa assim que parecia que o disco tava contaminando o público, sabe? Só que o principal pra mim do contexto histórico desse disco é que é um disco que as gravadoras, que as rádios se recusaram a tocar.

E ao contrário dos dois primeiros Titãs, Cabeça de Dinossauro bate 100 mil cópias vendidas sem o hit de rádio. Aí as rádios dão o braço a torcer e começam a tocar. Eles fizeram 3 turnês em Taubaté, eles passaram 3 vezes por Taubaté, porque também não tinha muitos lugares para eles irem, porque as músicas não tocavam nas rádios, né? Porque vamos combinar, tinha uma música que tinha palavrão, né, Bichos Escrotos. As outras músicas, né, tem uma música que é Igreja, que não é uma música nem um pouco radiofônica.

Ou seja, tinha um estranhamento com o disco pela mídia. Que ele foi boicotado inicialmente e ele só vai começar a tocar quando a banda alcança 100 mil cópias, que não alcançou nos dois primeiros.

?Voz 1

O que é muito engraçado, né, porque hoje a gente olhar para esse disco, ele parece uma coletânea de tanto sucesso que ele tem. Até as músicas que não são sucessos são Hits extremos, elas tocaram tanto na nossa memória, né? Porrada e Igreja são dois bons exemplos, que eu acho que é meio engraçado pensar nisso. Mas de fato tem esse momento de que as músicas não tocavam. Os Titãs estavam com medo quando eles foram lançar o disco em São Paulo.

Isso tá na biografia deles, A Vida Até Parece Uma Festa, que saiu a primeira versão no final dos anos 2000, começo dos anos 2000, e teve uma reedição logo agora, um pouco antes da turnê do Encontro. E eles falam, cara, a gente tá com medo. E aí eles chegam para tocar e a galera tá cantando as músicas do Cabeça de Dinossauro. As pessoas foram comprar o disco, ao contrário do que aconteceu com os dois primeiros.

MCMarcelo Costa

Isso é uma coisa muito louca dos anos 80 que eu sinto falta, inclusive, sabe? Então, por exemplo, Capital Inicial chega a 100 mil cópias com um disco que vinha uma tarjeta escrita proibido para menores de 18 anos e vendeu 100 mil cópias desse disco. Então era uma coisa meio surreal assim, porque aí começou, a galera começou a pedir e as rádios tiveram que tocar porque a galera começou a pedir, sabe? Não foi do mesmo jeito que falei, esse Caboclo também, que era uma música que era inaceitável imaginar que ela fosse tocar na rádio, porque era uma música que o Igor pode dizer isso melhor pra gente, Mas é uma música que toma um bloco inteiro, né?

São 11 minutos de música, são 3, ocupa o espaço de 3 músicas, e o público pediu. Cabeça Dinossauro é um disco que existe como documento histórico porque o público fez dele um documento histórico. Você imagina, né? Eu disse todo esse contexto de 1986, um jovem de uma cidade de 300 mil habitantes, não tem acesso a tantas informações. A Biz tinha começado a surgir 95 e tal. Então pra gente era tudo muita novidade. O Titã chega ali com cabeça de dinossauro, todo mundo fica: uou, que é isso, né?

Como que eles se ousam a falar contra a igreja e tal, né? Contra a polícia e tal. E em 2, 3 anos teve alguém também, isso é uma outra passagem da Biza assim, que eles citam um locutor de rádio falando assim, tipo, poxa, nós temos aqui a Legião Urbana, os nossos Mites, nós temos aqui o RPM, o nosso Simple Minds, sabe? Tipo, ou seja, todas as bandas brasileiras dessa época eram bandas derivadas, eram bandas derivadas, sabe? Então, ou seja, também tem esse contexto histórico de que O que era novidade para o grande público brasileiro, na verdade, era uma cópia do rock inglês, sabe?

O Ira, o nosso Dead Jam, o nosso Polícia. Essas bandas vão crescer, vão lançar discos autorais com personalidade futuramente, mas naquela época, naquele ali, parecia todo mundo falava, nossa, isso é muito original! E não era nada original, era tudo uma coisa derivada.

IMIgor Muller

Uma coisa interessante dessa derivação, tem muito a ver com a nossa, com o nosso histórico industrial, por causa dos anos de ditadura, que a gente cria uma certa reserva de mercado para indústria, né, para o mercado interno. Mas ao mesmo tempo é muito interessante a gente notar, primeiro, olha que curioso, né, a gente tá falando de Polisse, The Jam, Smith's, que não são exatamente o mesmo balaio, né. E é muito interessante ver que São reapropriações de momentos distintos da música inglesa.

E eu digo isso porque muito se aproxima o Titans de um pós-punk que, na verdade, parece que é a primeira Legião Urbana que faz, na verdade, esse primeiro pós-punk, né? Que se aproxima de uma coisa meio angulosa e tal. Quando, na verdade, se vocês falaram, né, dos hits aclamados e não dos hits impostos pelas gravadoras que o Titans fez, se você olhar pra dentro do Cabeça Dinossauro, sei lá, salvo a própria Cabeça Dinossauro e Polícia, A gente pega coisa como família, é homem primata, tá muito mais conectado com a new wave.

E aí dizendo a new wave pop, né, porque new wave também é um termo bem amplo pra gente determinar, do que, por exemplo, sei lá, a gente olhar pra Gang of Four, Mission of Burma, olhar pra, sei lá, Joy Division. O Titans não tá conectado. Talvez até o Fellini seja mais, o primeiro disco do Fellini seja mais tributário disso que se atribui ao Titans. Do que propriamente o Titãs. O Titãs tá num amálgama sonoro ali que assim, ó, vou dizer, alguns dos rocks, essas coisas mais pancadas, talvez pela— não tô dizendo aqui em tom de crítica, mas talvez pela incapacidade técnica, remeta mais ao minimalismo do Pink Flag, do Wired, do que todas essas outras bandas que a gente falou, né?

Por retirar, pra coisa ser meio batida quadrada e tal, né? O Wired tinha essa coisa de tirar notas das músicas pra música ficar mais quadrada possível. No Pink Floyd. Acho que o Titãs é uma, vamos dizer assim, reservou um mercado tardio, mas acabou também por não saber tecnicamente reproduzir, produziu uma outra coisa. E aí muitas vezes acho que talvez o grande trunfo do Cabeça Dinossauro esteja mais conectado com a tradição brasileira do que propriamente com o pós-punk que historicamente colocou ele no balaio, né?

MCMarcelo Costa

Interessante, é porque concordo plenamente, concordo plenamente. É interessante porque esse pós-punk quadradão, digamos assim, o Titã vai reproduzindo Jesus. Jesus, talvez assim, pensando no que foi sucesso, no que o Cabeça representou para eles, o Jesus é um disco muito mais unido, um disco mais Você Precisa, dentro dessa coisa pós-punk que, né, culmina cópia descarada e assumida de Gang of Four em Corações e Mentes, né, que o Sérgio copia uma frase inteira lá de Dammit Goods.

E o disco, ele é muito mais escuro do que o Cabeça de Dinossauro, que tem esses momentos, ok, que é uma ironia, família, um reggaezinho estampado ali, ó, mas tipo é uma ironia, mas é uma luminosidade, homem primata e tal.

IMIgor Muller

Essa ironia tem muito mais a ver para mim com tropicalismo do que propriamente com a ossatura do pós-punk, né?

MCMarcelo Costa

Concordo, concordo também.

?Voz 1

Eu acho que tem um ponto interessante para a gente analisar, e é eu e o Igor, a gente tá virando fã da Rhino porque a gente gosta agora de tudo de edição deluxe, tudo de essa versão que a gente consegue ouvir algumas músicas nasceram. O Cabeça de Dinossauro ganhou uma versão comemorativa quando fez 30 anos, ou seja, em 2016, que tem a fita demo do— Marcelo mostra para gente agora— que tem a fita demo do que era o Cabeça de Dinossauro.

E é muito interessante olhar para essa fita porque ela tem tem um registro mais new wave. Algumas das canções não têm, ganharam aquele peso. Ah, tipo, agora a gente vai fazer um disco pesado, tá bom, então tá bom, então a gente vai pegar essas músicas, deixar elas pesadas. Dá para você ver claramente o exercício de tradução. Eu separei algumas que me chamaram mais atenção na playlist da semana, que tem um pouco dessa cara. E esse disco também tem uma versão, tem uma música que não saiu, né, que é Vai Pra Rua.

Que eles decidiram não colocar também porque ela é mais carinha, ela tem uma carinha new wave. Eu acho muito legal, por exemplo, comparar as duas versões de A Uhuu, que é o primeiro single do disco, é a música que a gravadora escolhe para divulgar e que não faz, não entra nas rádios, e depois ela acaba virando um hit do disco. É muito simples, como você percebe, o quanto a diferença do new wave para o punk tem a ver com isso que o Igor falou de tirar as notas.

A versão demo de Uhuu tem o ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô foram escritas para um Titãs anterior, foram escritas pensadas no contexto de um televisão, por exemplo.

Bichos Escrotos era para ter entrado no primeiro disco e foi censurada, não podia entrar justamente por conta do palavrão. Tem até uma parte muito divertida que tinha um quarto animal na versão original, que era a vaquinha mococa. Eu não sei quem a gente chamaria para fazer a vaquinha mococa aqui no programa, então fico feliz que não entrou na versão final. Mas Bichos Escrotos, que agora a gente tá ouvindo na versão da Anitta, foi composta originalmente para o primeiro disco, uma das primeiras músicas que os Titãs fizeram e que só entrou agora.

Então também tem esse expediente. E é legal fazer essa audição comparada. Eu não fiz música a música que nem a gente fez no programa do Revolver para não cansar vocês, porque algumas são bem parecidas. Mas tem esse expediente. O Jesus não. O Jesus já é um disco que é composto pensando nessa proposta. Ah, essa proposta deu certo, vamos dobrar a aposta. E é muito legal isso que o Igor falou do expediente da Tropicália, porque a Tropicália tá no Titãs desde o começo, né?

O grande hit do primeiro disco é Go Back, que é uma poesia do Torquato Neto, talvez um dos melhores letristas da Tropicália, os maiores poetas da Tropicália. E é muito interessante fazer essa análise de como a Tropicália vai bater nos Titãs aqui no começo, nesse expediente lírico. Acho que muito do que o Titãs tá fazendo tem muito a ver com os experimentos líricos de colocar as imagens interpostas, destilhaçar a vidraça do tempo, como diria nosso querido Roberto Schwartz.

Mas também é como isso vai ser recuperado de uma maneira mais explícita ainda no Oblast Que Bom, que talvez seja o grande disco onde o Titãs encontra a Tropicália. Mas esse é um assunto para depois, eu tô fazendo uma análise histórica.

MCMarcelo Costa

Dentro desse contexto de música que o Bruno falou, citando a Uhuu da versão demo pra versão do disco, uma que me surpreendeu ouvir a versão demo e a versão do disco foi Estado Violência. Estado Violência, na verdade, não era uma música do Titãs, era uma música do Ira. Era uma música do Charles Gavan, composto quando ele tava no Ira. O Ira chegou a gravar ela em versão demo, Esse registro saiu num vinil duplo, num box na verdade comemorativo lançado pelo Três Selos, que reunia discos ao vivo do Ira lá de 82, 84, e essas demos, entre elas Estado de Violência.

A letra mudou um pouquinho, eles tiveram, eles atualizaram alguma coisinha da letra, mas o arranjo é idêntico, logicamente, né, tirando a qualidade de estúdio de uma demo para versão final com Liminha produzindo ali. Então é, me surpreende muito que se você comparar essas edições, a versão do Ira e a versão do Titãs, como eles mantiveram o arranjo idêntico assim, que é uma das grandes músicas que dentro desse espectro de hits e não hits é uma das músicas que poderia ter sido um hit muito maior, mas ela tocou, mas ela foi mais comedida assim.

Mas é muito interessante observar essa, o quanto as versões são iguais gravadas com duas bandas diferentes e o mesmo baterista.

?Voz 1

A versão, se você for procurar no disco, só fazendo um rodapé aqui, o nome dessa música não é Estado Violência na versão do Ira, é Homem Palestino. Vamos fazer um passado aqui pelo disco, começando com Cabeça Dinossauro, que é uma música que foi composta num ônibus, numa dessas viagens que os Titãs faziam para tocar, indo para lá e para cá. E eles estavam dormindo, era de noite, e o Paulo Miklos acordou no meio desse sono maluco e tal.

Não se sabe com quais substâncias, e começou a gritar: cabeça, cabeça, cabeça de dinossauro, cabeça, cabeça, cabeça de dinossauro. E aí ele entrou nesse fluxo tão grande que o Branco Melo começou a responder, e ele: pança de elefante, pança de elefante. E aí o Paulo Miklos ficou puto: não, é para manter uma coisa meio pré-histórica. E aí por isso trocaram para pança de mamute, mas o porco ficou igual, o porco não, eles não trocaram de uma certa forma.

Então, então é isso. E é uma música que tem essa carinha meio concretista, por assim dizer, antropofágica. Tem o Titãs vai beber muito nisso. Essa, se a gente tá falando muito de Tropicália, tem uma antropofagia do concretismo que acho que vem muito por influência do Arnaldo Antunes, mas não só, né? O Arnaldo talvez seja quem tenha ficado mais com essa pecha de poeta, Até tinha uma grande discussão na época, né? Ao contrário das outras bandas que tinham seus líderes, Paulo Ricardo, Humberto Gessinger, Renato Russo, Ebert, o Titãs não tinha líder.

Mas a imprensa sempre queria fazer um líder, e quando tentava fazer era na figura do Arnaldo Antunes. Talvez até por isso ele tenha saído da banda primeiro. Mas o Titãs tinha essa coisa de ser uma democracia, de tentar ser uma grande representação, de ter 5 vocalistas e todo vocalista tinha que cantar 2 músicas no disco. Era uma coisa bem matemática, de uma certa forma.

MCMarcelo Costa

É uma coisa que marca muito a história deles. Desculpa te cortar, mas acho que vale muito pontuar isso, porque essa democracia do Titãs também amarrou eles, né? Eles não— ou seja, você tem que— as coisas tinham que ser aprovadas por todo mundo. Ou seja, tipo, não tem como você fazer um arranjo diferente do disco pro ao vivo, porque, cara, se todo mundo for fazer isso ali, ia enlouquecer. Ou seja, a banda é uma banda quadradinha.

E eu sempre defino os anos 80 da seguinte maneira, né, os anos 80 ao vivo: tinha bandas que melhoravam o que gravavam em estúdio, nitidamente, Ira e Paralamas. O show era muito melhor do que os discos. Você tinha bandas que eram piores ao vivo do que eram em estúdio, caso clássico da Legião Urbana, que você só ouvia o bumbo, o bomfá. E bandas que tocavam exatamente o meu disco, não tinha uma mudança no show, que é o caso do Titãs.

E eu vejo isso como um reflexo dessa democracia ali, que tipo É uma democracia, mas, cara, tipo, não tem líder. Então, cara, pra você aprovar qualquer coisa ali era um drama. Então era melhor muito mais você gravar e deixar e compor daquele jeito ali e seguir tocando o barco assim do que ficar brigando. Porque se você fosse brigar ali, o disco não saía.

?Voz 1

Quando é que eles olharam e falaram assim, a gente precisa realmente de tanta gente na banda assim? Tipo, porque é uma coisa que toda vez que a gente olha pra pensar, e hoje a gente até dá risada, né, que o Titãs e o Sarney continuam vivos, porque vai sempre saindo alguém, mas ainda tem gente lá. É, mas eu sempre olho assim, fala assim, por que que precisa de tanta gente? E mais que isso, precisa de tanta gente e uma galera às vezes não tem muita função assim, tipo, quando o branco não tá cantando ele não tem função, ele fica lá fazendo poses e tal, não sei o quê.

E vários deles têm isso assim, o próprio Nando Reis, que a gente hoje considera um baixista, só vai pegar o baixo mesmo depois do, entre o Cabeça e o Jesus, assim, ah, este é o meu instrumento, eu sou o baixista. E tal. Eu fico meio assim, cara, por que tanta gente corta aí, pô?

IMIgor Muller

Você não teve banda na escola? Não é um monte de amigo que depois vem a música? Tipo, a gente quer fazer uma banda e junta um monte de gente, tem um monte de gente aí, todo mundo quer tocar guitarra, aí vai separando. Tipo, aí o baixista sempre, a maior parte das bandas, o baixista vai acontecendo como baixista, né?

?Voz 1

Meu caso.

IMIgor Muller

O baterista, ele ainda tem uma felicidade, o baixista vai acontecendo, às vezes se torna um bom baixista.

?Voz 1

Não é meu caso.

IMIgor Muller

Mas isso é até saudável, porque se um baixista chega sabendo, ele deixa a banda insuportável.

?Voz 1

Mas, cara, a minha banda de colégio, a gente foi de 6 para 4 em 2 meses. Então assim, por que que o Titã não conseguiu fazer essa operação?

IMIgor Muller

É por isso que o Titã chegou numa gravadora, né? A galera foi, ficou mais—

MCMarcelo Costa

vou te contar que o que isso foi uma coisa muito, uma jogada de marketing mesmo para época. Mudança constante de vocalistas no show. Cada um cantava uma, não tinha um, cada um não tinha um bloquinho Paulo Miklos, tinha um bloquinho Planko Melo. Então era uma mudança constante de vocalista. Aí você olhava para o palco, a voz tava saindo daqui. Aí você olhava para o palco, agora o cara na esquerda que tá cantando, caramba, agora o cara na direita que tá cantando, ou tem um cara lá atrás cantando agora.

Isso tipo, para o público mesmo Isso só foi ficar natural no Cabeça, porque até o Televisão ainda tinha, era um pouco os hits. Então você via ali o Arnaldo cantando Televisão, sabe? Tipo, você via as coisas assim, não era, você não identificava essa troca de vocalistas, que no Cabeça fica mais nítida. E aí fica mais nítida a ponto de criar fã clubes mesmo, assim, bacana. Eu sou fã clube do Branco, então Branco se posiciona desse lado do palco para cantar as músicas dele.

Eu ficar aqui, sabe? Ah, o Arnaldo vai entrar ali, então quero ficar daqui, sabe? Porque eu gosto das músicas do Arnaldo. Isso começa a ficar, eu acho, ou seja, o Titãs começa a ser mais reconhecido como Titãs a partir do Cabeça. O público começa a entender a banda a partir do Cabeça.

?Voz 1

É muito interessante você falar dessa essa questão da democracia, porque tem raros momentos em que essa democracia ela é quebrada, em que você tem um discordar em discordar, que é o caso de Igreja, que é uma música do Nando, que o Nando canta e que Arnaldo Antunes e Paulo Miklos não concordam.

MCMarcelo Costa

Não, e é, cara, é engraçado essa coisa dessa democracia, porque é isso, é isso que você falou, mas é uma abertura e é uma abertura polêmica. Cara, você falar mal da igreja em 86 era casca, né? Então, tipo, o Arnaldo e o Paulo tirarem o corpo fora ali e deixarem, principalmente assim, o legal na verdade, né, eles tirarem o corpo fora, é eles deixarem, né, a música entrar. Ela conclui esse triunvirato de vamos falar mal de igreja, de família e de polícia, sabe?

Que funciona muito bem no disco, esse ataque às instituições, né? Então eu acho que ela completa muito bem isso daí, mas é um dos raros momentos mesmo que na banda isso vai acontecer.

?Voz 1

E o mais curioso, só para complementar essa questão da verdadeira igreja, é que na versão demo o Miklos tem vocais nessa música. Ele decide sair do palco e o Arnaldo Antunes também decide sair do palco, mas na versão demo tem uma participação do Miklos ali na música. E eu acho Igreja uma música muito interessante para pensar o Nando Reis de uma certa forma, porque de um lado a gente pensa nele, a família, Marvin, as músicas mais simples, mas do outro a gente tá falando de um cara que tá fazendo Igreja e depois vai fazer Meu Amor, Eu Quero Te Ver Cagar.

MCMarcelo Costa

Exatamente. Ou seja, como que o cara sai de Marvin para Eu Quero Te Ver Cagar? É uma, é um personagem interessantíssimo, né, desse grupo aí.

?Voz 1

Falou de igrejas, que eu complementei o Nando. A gente pode passar para Polícia.

MCMarcelo Costa

Cara, Polícia é tipo uma música infantil, né, cara. É quase uma palhaçada assim, mas ela passa a mensagem, né? É logicamente que a versão do Sepultura vai colocar a do Titãs no chão assim, mas é uma brincadeira, tipo, é, sei lá.

?Voz 1

É muito engraçado a gente pensar em Polícia porque Polícia acho que tá no mesmo patamar de Que País É Esse, por exemplo, que são duas músicas que você olha e fala assim, cara, mensagem ela é muito superficial, mensagem é muito rasa, mas elas ganharam um peso de protesto muito grande. E apesar disso, elas causaram uma grande questão, né? Polícia foi uma questão na época e é uma questão até hoje. Assim, eu e o Igor, a gente teve uma cena engraçada recentemente que a gente tava já preparando esse episódio e a gente tinha ido na audição do disco da Maglory, no ensaio aberto, E era ali na Casa de Francisca.

E a gente saiu da Casa de Francisca e veio atravessando a Praça da Sé, 11:30, para tentar chegar no metrô. E a gente não tá conseguindo achar a entrada. E aí eu olhei e falei, cara, não tinha ninguém. E eu pedi ajuda de fato para um PM que estava ali postado. Ele me explicou onde era a saída e tal. A gente olhou um para o outro assim, caramba, nossa, a polícia ajudou de fato, né? E aí a gente ficou surpreso com isso. E aí o Igor olhou para mim, eu só virei para ele e falei: dizem que ela existe para ajudar.

E ele ficou indignado, ele falou assim: fica quieto, fala baixo, porque assim, se eles ouvem, eles não têm a capacidade de entender o recurso estético que tá sendo usado aqui, a brincadeira que foi feita aqui. E ele falou: fica quieto, Capelas, pelo amor de Deus. Ou seja, se a gente de um lado é uma música superficial e ela se torna ainda mais superficial, quando você se dá conta de que ela só surge para o Tony Bellotto depois da prisão por cocaína, pelo pó de cocaína.

Não é uma música assim, ah, ele tinha uma razão natural para não gostar da polícia, era um protesto contra, sei lá, tipo, a Xaxi ou contra a população preta. Não, era só uma música, quase uma música de vingança pessoal. Mas ela ganha essa conotação.

MCMarcelo Costa

É uma coisa racional, o cara é parado toda vez que sai de carro. Né? Foi pego uma vez, vamos fazer uma música. Mas é isso, cara. Mas na verdade, você toca num ponto que é muito interessante. É um disco que musicalmente ele soa datado, é por ser limpo demais, mas tematicamente, cara, ele talvez seja mais, tenha mais recursos hoje do que em 86. Não se falou tanto de igreja na época, sabe? Igreja foi uma música ficou ali escondidinha, sabe?

Hoje, cara, talvez você tome uns safanões na rua se você cantar igreja, sair assobiando igreja por aí, sabe? Polícia é isso aí, cara. Polícia hoje, a polícia é muito mais perigosa hoje, ainda mais nesse governo que nós estamos vendo em São Paulo, do que era em 86. Hoje corremos, todos corremos riscos. A coisa não é mais uma coisa setorizada de racismo ou outra coisa, todo mundo assim. Você olhou meio torto, os cara tão ali disparando. E família é uma grande discussão de modelos hoje em dia.

?Voz 1

A discussão sobre família é muito pior hoje do que era em 86.

MCMarcelo Costa

Exatamente, porque, né, hoje ela— ou seja, o disco ele tem umas questões muito mais interessantes para ser discutidas hoje que na época. Talvez na época, na verdade, a gente se não tivesse pronto para discutir tudo isso. Talvez essa seja a verdade, porque você fala, a gente fala, não começou falando de abertura política, fim da ditadura, mas é um disco que não bate na ditadura diretamente, sabe? Diferente de Que País É Esse, por exemplo, ou da Plebe Rude, que tinha ali umas coisas ali, o disco de Tano não aponta o dedo para exército, não aponta o dedo, ele Tipo, é uma coisa de sociedade, mas uma coisa mais geral assim, né?

Dívidas, sabe? Uma coisa de plano econômico. Então, tipo, tem essas coisinhas assim que talvez tenha deixado o disco tematicamente mais interessante para hoje do que ele era na época.

?Voz 1

Dito isso, Marcelo Costa, eu vou, eu vou adiantar a pergunta: você gostou da versão de Bichos Escrotos da Anitta?

MCMarcelo Costa

A vida, cara, a vida, ela é, a vida é feita ondas como marca. Pode ficar perdendo as ondas, cara. O tempo é muito curto. Mas é assim, eu vou dizer para você que eu tenho na discotecagem noitada assim, uma versão da Catarina Deja eletrônica e junta Vomitaram no Trem, Vou Fazer Cocô do Garotos Podres. Ou seja, dá pra casar facinho essa versão da Catarina Deja, vomitaram no trem, cara, mó poperosinha assim, é uma delícia essa versão dela com a versão da Anitta.

É, cara, é Uma bobagem assim, mas é mercado. É engraçado, triste, mas engraçado.

IMIgor Muller

Que foi muito interessante de um certo ponto de vista a Anitta ter feito essa versão, porque ela ajudou a disparar um alerta aqui para gente muito interessante, porque a gente tá tentando criar uma luz aqui sobre a discussão do cabeça de cultural, a importância histórica. E se viu na contramão da versão da Anitta, independente de análise de qualidade, uma discussão absurdamente retrógrada, né? É, respeite a tradição, não sei o quê.

Falando, mas pera aí, porra, Bichos Escrotos não tá falando justamente sobre essa irreverência diante da sacralidade das coisas? É muito, eu fiquei muito chocado com isso assim, um monte de gente, é, porra, Ninguém ouve mais Titãs e não sei o quê, bababá. Falei, cara, o que que tá acontecendo, sabe? Vocês conseguiram piorar. Era simplesmente a gente ignorar, de repente, ou então transformar isso numa, ou talvez botar mais fogo no meme para ele queimar rápido. Talvez não fosse essa questão, cara.

MCMarcelo Costa

O que, primeiro, eu adorei o sotaque paulistano do Igor, mas me chamou atenção isso, cara. Mas o que mais foi a primeira vez, cara, Eu tô próximo dos 60 anos, né, cara? Vivi os anos 80 intensamente ali e tal assim. Bichos Escrotos foi o primeiro momento pra mim assim de, caramba, a galera não conhece isso, sabe? Porque nessa discussão da música assim, muita gente, nossa, não sabia que essa música era do Titãs. Caramba, foi a primeira vez que eu me choquei assim de verdade assim, porque bacana, pra mim era uma música Mas quem com menos de 30 anos conhece o Titãs, velho?

Existe isso, porque é uma banda que, ou seja, o último disco decente faz 12 anos e não chegou a grande coisa assim, né, que é o Inhagatu, e que fez agora turnê, uma turnê de estádio que era para um público de época, né, não foi para público novo. Tem isso, mas, cara, mesmo assim, cara, Bichos Escrotos talvez, eu não sei, talvez é uma música que já tenha caído vestibular.

?Voz 1

O Titãs é perfeito para O Titãs, ele parece feito para você botar uma questão numa prova de português.

IMIgor Muller

Afinal, Colégio Equipe começou assim, né?

MCMarcelo Costa

Então, cara, para mim foi o primeiro, tomei um choque mesmo assim da galera assim, ó, Anitta cantando ali, a galera reclamando da Anitta cantando e o som da Anitta falando. Gente, mas eu, banda é essa? Eu nem sabia que essa música já tinha sido gravada por outro, sabe? Isso me chocou muito assim, foi o primeiro momento assim, falei, caramba, juventude realmente É, não tá chegando em alguns lugares.

?Voz 1

E é muito engraçado isso assim, porque para a gente o Titans ele quase sofre o contrário, ele sofre um problema de superexposição, né? A gente, eu lembro da época do encontro que a gente assim, cara, 6 vezes, 6 Palmeiras lotados, sério mesmo? Precisa de tudo isso, gente? Tipo, não precisa, sabe? Não tem tudo isso de gente para ver o Titans, tem?

MCMarcelo Costa

Imagina que tipo Legião, logicamente, mano, Tendo ali a falta do Renato e tal, mas Paralamas, um triage que tipo o disco tocou mil vezes mais do que o Cabeça, mas é uma banda que morreu talvez pelas ideias políticas do Roger. Mas a questão toda é que tipo, a questão toda é que, cara, você tipo hoje em dia você não ouve o triage, senão você continua ouvindo ainda as pessoas tipo esbarra com ele, com eles na rádio assim. Ou seja, ainda há essa super exposição assim de título, não há de outras bandas.

?Voz 1

Dito isso, você acha que Cabeça de Dinossauro é cultura obrigatória brasileira, Marcelo Costa?

MCMarcelo Costa

É que pariu, cara! É uma época muito interessante da música brasileira assim. A melhor coisa que Cabeça de Dinossauro rendeu foi que o fato do Cabeça de Dinossauro ter estourado fez o Branco Melo ter pego o Inocentes e levado pra gravadora e falado, vamos gravar o Inocentes. E vai nascer o Pânico SP e o Adeus Carne, porque o Branco Melo deve ter se sentido assim, gente, a gente roubou os cara na cara dura, vamos abrir as portas pros cara, sabe?

Então o grande lance assim dos Titãs é terem feito— grande lance do Cabeça de Dinossauro é que rendeu 2 discos do Inocentes por uma grande gravadora, 3 na verdade. Só que, cara, obrigatório, tem coisas geniais ali, tem coisas geniais ali. Não sei se nesse disco, que é um disco extremamente datado, como a gente falou, sabe, Talvez ali pra frente, mas é uma banda que se perdeu no caminho. E conforme foi perdendo peças, foi caindo, foi se desmontando, foi ficando mais quase que uma piada de si mesma, assim, que vai culminar nos Sacos Plásticos, né, que é um disco de uma banda perdida que contratou o Bonadio.

O Bonadio ali como um cara que era fã de Titãs, falou assim, caramba, mas hoje agora eu vou matar o meu desejo de tocar no Titans. E ele toca baixo, guitarra, não toca bateria porque o Charles não deve ter deixado, toca tudo no disco assim. O disco é horrível, o disco é abominável, mas é uma banda perdida assim, sabe? Então é, eu acho que tem um momento histórico, a gente pontuou muito bem ele aqui nesse programa, desde da gênese dele assim, de como ele nasce, mas essa gênese histórica de que é uma geração que nasce do rock nacional pra pessoas que não tinham cultura musical.

As pessoas não tinham como absorver que o que a Legião tava copiando Smits ou no primeiro disco copiando U2, ou que o Titã estava copiando o Polícia nos dois primeiros discos ali. A gente não tinha essa bagagem naquela época. As coisas não chegavam, sabe?

?Voz 1

Era—

MCMarcelo Costa

houve resenha na Biz ali que foi feita com o cara passando disco por telefone, telefone discado. Então o cara ouvindo o disco do cara tocando na Inglaterra lá, o disco assim, o cara ouvindo o disco pelo telefone, escreveu resenha, porque o disco não chegavam, cara. Então isso permitiu que essas, essa geração toda, com pouco, com raríssimas exceções, Defala, Picasso falsos, não fosse uma autocópia, sabe? Fosse, na verdade, né, fosse uma autocópia, sabe?

Os caras copiando na cara de pau, pegando aquelas músicas e transformando em veículo para ideia dele. As ideias eram originais, né? Então você vai, não tem como você falar que tipo Núcleo Base do Ira não seja uma ideia original do Edgar falando da experiência dele no exército. Então as ideias eram originais, mas as músicas, as melodias, os arranjos eram tudo cópia. Só que quem viveu aquela época não tinha essa bagagem musical para falar: olha, isso aqui tem uma banda ali, sabe, tipo, que tá fazendo a mesma coisa, só que eles estão fazendo isso faz 10 anos.

A gente não tinha essa bagagem. Olhando hoje para trás, é uma coisa muito mais crítica. Você fala assim, poxa, né, foda. É muito foda você pegar o Legião 2 e pegar ele, sabe, tipo Hot for Hot Hallows do Smiths, e colocar lado a lado e falar, caramba, sabe, é vergonhoso, é vergonhoso, sabe. Do mesmo jeito que é pegar o Jesus, pegar o Gang of Four, cara, é vergonhoso. Só que para aquele momento histórico daquela juventude foi muito importante, foi muito importante.

Tem isso, não tem como desmerecer, não tem como desmerecer esse valor que essas bandas têm, que esse disco tem, e que os discos da Legião vão ter para essa geração, sabe? Tem gente que vai morrer acreditando que Sabe, Legião 2, quase sem querer, tudo aquilo ali é os caras criaram do nada. Que bacana! Como diria Raul, pena não ser burro, não sofria tanto. Homem que mata, capitalismo selvagem. Ô homem que mata, capitalismo selvagem. Ô homem que mata, capitalismo selvagem.

IMIgor Muller

Eu aceitei que a gente colocasse aqui na nossa agenda o Cabeça de Dinossauro, em grande parte porque passa muito, muito assim, não haveria Nação Zumbi, por exemplo, sem o que tá acontecendo no Cabeça de Dinossauro, obviamente. Mas aquilo que você falou, ó, prepara uma geração, prepara uma audição. Mas existe um outro problema aqui que talvez a gente passe ao largo, que tem muito a ver com o modo de produção das gravadoras brasileiras, uma indústria E um problema geral da indústria brasileira que me veio à cabeça assim, que é a música pop de certa forma sempre desde os anos 50, acho que a ideia de R&B vem de uma reciclagem, a música sempre se repete, mas existe, acho que olhando retroativamente para discos como Cabeça Dinossauro mostra como a engenharia reversa da indústria brasileira é problemática.

Porque sempre houveram cópias, sempre houveram reciclagens e reapropriações de ideias, e é cíclico. Talvez eu sempre aponto para o fato dos Beatles existirem por não saber fazer o que o R&B, o que a música negra americana tava sabendo fazer. Eles reproduziam isso com acordes, isso gerou uma música nova, mas tem um tanto de engenharia reversa para tentar copiar aquela música americana. Parece que a música, a indústria, né, fonográfica brasileira se sente muito satisfeita consigo com esses resultados.

Não tenta falar, pera aí, vamos sentar e vamos ouvir isso aqui com mais atenção, vamos tentar reproduzir cada ponto, vamos buscar, vamos buscar o nosso Gang of Four, sabe? Não parece que não aconteceu isso, foi acontecendo. Os engenheiros brasileiros não são o state of art, nem de tentar copiar os engenheiros lá de fora. Então me parece que isso gera retroativamente a gente olhar para produtos muito defasados, porque a gente olha no 2, existe uma evolução de produção em relação ao primeiro da Legião.

A gente olha para o Passo do Lu e para o Selvagem, existe um salto de produção em relação ao cinema mudo. Com os Titãs parece que como proposta sonora mesmo, de mesmo para reproduzir aquilo que tá vindo lá de fora, é problemático, sabe? Eu sempre vou ter isso na minha cabeça. E eu falo isso porque eu falei, Capelas, vamos fazer o Cabeça Dinossauro. Mas eu não consegui ouvir mais do que duas vezes de novo esse disco, porque me dói o ouvido.

E eu tive que fazer uma limpeza de paladar ouvindo Mission of Burma, por exemplo.

MCMarcelo Costa

Acho que eles só conseguem isso isso com o Blast Bloom. Acho que é o único disco deles que consegue isso, consegue essa profundidade de produção, que eles vão, eles mesmos vão largar isso no disco seguinte.

IMIgor Muller

Eu vou mais longe, eu acho que esse tipo de som só consegue encontrar um caminho sonoro ali de 93 para frente, sabe, com Miranda falando vamos botar as guitarras para frente, foda-se, sabe? Eu acho que é problemático historicamente, né?

?Voz 1

Mas é engraçado porque o Blast tem uma sonoridade, o Blast de fato tem uma, tem um salto na produção. É que ele é um disco de menos guitarras, ele é um disco, ele tipo tem muito teclado, muito sinte, muita programação, mas ele tem esse salto. Eles jogam isso fora para virar o Nirvana, para tentar virar o Nirvana, aí dá errado, eles vão lá e contratam o Jack Endino para fazer o no segundo, que é um, tem um salto nessa produção.

IMIgor Muller

Mas mesmo isso, né, mesmo isso, mesmo Blasque Blanc é um disco meio chapado assim. Se você ouvir, por exemplo, um disco de new wave com bastante sinte e tal, sei lá, Real do Duran Duran, cara, é um disco que tem profundidade. Os baixos são, você percebe um corpo, um corpo de percussivo, né, baixo, bateria. Você percebe o uso dos sintes com com uma parede na tua frente. Não é aquele disco magrinho que a gente ouve nas produções fonográficas brasileiras, né?

MCMarcelo Costa

Eu vou botar isso na conta de algo que a gente comentou bastante aqui, que é a democracia. É difícil você, cara, imagina discutir esses arranjos com 8 caras. Cara, eu queria colocar uma coisinha aqui, aí tem que passar pelos outros 7 assim, ó, gente, e aí ele quer colocar uma coisinha aqui. Será que a gente coloca, velho? Tipo, acho que tipo, acho que as coisas eram, os arranjos são mais rasos, não tem essa profundidade no Titãs assim exatamente porque era difícil discutir.

E aí é muito bom quando você pensa que esse crivo democrático deixou passar coisas como o camelo e o dromedário, que é uma boa, a boa, isso explica pela boa, a banda tava tão apaixonada para o si próprio ali que permite isso.

?Voz 1

Eu adoro essa música, mas assim, é uma aberração essa música, né? Eu ia falar, vocês falaram da questão musical, eu acho que tem uma outra questão sobre os Titãs assim, foi muito doido, porque quando eu olhei e falei, caramba, tem o Cabeça Dinossauro para fazer, eu falei, não, a gente tem que fazer. O Igor foi reticente, aí eu falei, eu acho que tem uma saída legal para discutir, trazer o Maqui para discutir, ia ser legal. É nosso, a gente sempre traz nosso nosso super trunfo aqui para discussões importantes.

E aí eu fui ouvir o disco e eu adoro esse disco e ele me bateu muito mal. Eu comecei a olhar para o Titans e eu olhei e falei, cara, não tô conseguindo encarar nem a lírica, que é o lado que eu mais gosto no Titans, porque eu comecei a achar tudo meio besta. Eu comecei a achar tudo, tipo, eu comecei a perceber, eu fui, voltei nos primeiros 2 discos, fui no terceiro, fui para o Cabeça, avancei um pouquinho até o Lia biografia inteira.

E eu olhei e falei, cara, o Titãs, ele tem uma lírica que é interessante, que é impactante, mas é uma lírica muito básica. Você consegue, ouvindo 3 discos do Titãs, entender claramente como eles constroem letras. E isso vai de quase todos os letreiros. Eles têm uma coisa meio de tipo superpôr imagens, de usar tipo assim, tipo, não à toa que tem tanta música do Titãs que é um substantivo, é comida, é igreja, é família, borrada, é tudo, é flores, é tudo, tem um substantivo.

E tem essa coisa meio de quase ser statement, de ser frases de efeito e frases de ordem, palavras de ordem, coisas que você poderia botar num cartaz e levantar numa manifestação. E é muito fácil que isso se esvazie com o tempo, né? Polícia para quem precisa, cara, esse slogan ele é muito, muito fácil de se esvaziar quando você tem uma palavra de ordem, a construção lírica ela vai se esvaziar. Talvez seja esse o ponto em que o Titãs mais se aproxime da ideia do punk, nessa coisa da pureza, da crueza da lírica.

Mas só que isso depois de um tempo você começa a achar meio cansativo assim. Por que que, por exemplo, Igreja era uma das minhas músicas favoritas desse disco? Porque ela não era um hit. E aí eu achava legal ouvir. E depois de muito tempo ouvindo, eu fui ouvir nessa semana, e a experiência do Uhu, né, do show que a gente viu em tributo, é só coroou assim, coroou no sentido de olhar e falar, cara, as músicas são legais, isso aqui tem uma relevância histórica, mas assim não tem muito para onde ir liricamente aqui, é uma coisa meio estanque, é uma parada meio que tipo, ah, beleza, é isso aqui, ponto.

Não tem cenário para uma dupla interpretação, para uma coisa diferente. Eu acho que tem muito mais profundidade poética quando a gente vai analisar no Legião ou no Paralamas, para usar duas comparações, dois discos que a gente analisou a fundo, né? Tem polissemia, tem coisas mais abstratas, mais escondidas, e o Titãs tá tudo aqui na cara. E eu acho que quando você olha esse disco, vários desses temas que o Titãs tratou foram retratados muito melhor depois, né?

O Racionais, por exemplo, deixa a polícia uma brincadeira de criança. Você vai, você vai discutir família, quantas músicas já discutiram família assim? Essa insatisfação, esse questionamento com as instituições, ele pode ser feito de uma maneira muito mais elevada, de uma certa forma, do que o Titãs. Eu acho que é um disco de porta de entrada, de uma certa forma, Ele apresenta temas, mas eu fiquei um pouco, ai, sabe? Quando eu comecei, quando eu vim para gravar, eu já falei, nossa, eu tipo até pensei, pô, vou ouvir de novo antes de gravar para chegar tinindo.

Eu falei, cara, não tô com vontade. Mas eu acho que é um pouco por isso assim, porque é um disco que ele acaba, ele talvez por exaustão, mas ele é um pouco fácil de você pegar, passar e ir em frente. E quando você tem acesso esse contexto histórico, e você começa a ouvir, ah, beleza, eles beberam daqui, eles beberam dali, é um disco mais fácil de deixar para trás. Talvez a gente tenha feito aqui o mesmo exercício que a gente fez com o Is This It, do Strokes, também um disco que a gente fez um programa especial, eu e Igor, ainda na fase do Eldorado, que a gente acha clássico, a gente acha importante, mas assim, a gente gosta mais de falar mal do que falar bem, fala mais do problema da época do que propriamente de algo que seja perene, de uma qualidade perene.

MCMarcelo Costa

Tô cansado, tô cansado de tudo.

?Voz 1

E é muito doido assim, porque eu fiquei pensando assim, eu gosto, eu tava pensando muito sobre Tô Cansado, que é uma música que a gente não falou aqui, cara. Eu, é muito engraçado porque a gente tá vivendo tempos estranhos em que a gente não só tem uma exaustão física, mas uma exaustão mental em que o mundo parece querer provocar essa exaustão na gente. E eu tenho uma playlist no Spotify minha que eu não compartilho com quase ninguém que chama Eu Tô Cansado, e ela só tem música sobre cansaço.

Então tem Tô Cansado, tem I'm So Tired dos Beatles, é só música que tem essa palavra, essa ideia no nome.

IMIgor Muller

E eu, e assim, tem Al Green, tem Al Green, tá?

?Voz 1

Tired of Being Alone, tem Tired of Sex do Weezer e tal. E essa, essa, a voz do Branco Mello na minha cabeça aparece assim de vez em quando, assim, tô sei lá, meio estirado, tipo 10 horas da noite pensando o que eu vou fazer, cansado do dia, mas pensando que eu tenho que fazer mais coisa ainda. Vem ele assim, tô cansado. E eu penso, e aí assim, você ouve a letra, você fica tipo, tô cansado de moralismo, tô cansado de bacanal. Tipo, cara, pera aí, você tá cansado do quê exatamente?

Você pode ficar cansado de tudo, mas assim, do que que você tá cansado? E eu acho que muito do que o Titãs tem, tem um problema aqui. Acho que talvez uma questão de transferência é quando que assim o disco faz muito sentido, mas quando a gente vai analisar quem são as pessoas que fazem o disco, a gente acaba fazendo também tirando um pouco da força da mensagem. Quando a gente entende que o Titãs é uma banda de classe média alta e não é o Inocentes, por exemplo, que é uma banda preta periférica, a gente vai olhar e falar: ah, cara, para de reclamar, sabe?

First world problems. E eu acho que muito do que a gente tem é movimento cansei. É, a gente tem muito a dizer sobre o Titãs, muito por esse lugar de olhar os sujeitos. E eu não sei, tem um lado meu como crítico, fala assim: não, o que importa é a música. Mas você tem que olhar para o contexto. Acho que a gente tá sempre fazendo contexto aqui aqui. E acho que o Titãs padece muito desse mal. A gente é um esporte, o Titãs virou sparring da crítica, né?

Não à toa, sacos plásticos, pelo amor de Deus. Mas eu lembro, por exemplo, quando eu fui escrever sobre o Engatupes com o NLZ, e eu gostei do disco, acho um bom disco, e eu falei assim, cara, eu tô falando bem do Titãs, tem uma coisa meio errada, sabe? Eu acho que é uma banda que a gente também tem, sofre um pouco desse aspecto.

MCMarcelo Costa

É uma banda que não soube lidar com a crítica, inclusive. A banda que, comparando inclusive com uma personagem esse ano, a Letrux, sofre do mesmo mal, né? O Titãs foi endeusado, só teve críticas positivas e ganhou prêmios na bis até o Blasque Bloom. E na hora que eles lançam o Tudo ao Mesmo Tempo Agora e encalhados, eles começam a rasgar a revista Bisno. Ou seja, a crítica só serve quando ela é positiva, né? Então o Titãs também tem essa característica, mas é mais uma herança da Tropicália. Mas é mais uma herança da Tropicália.

?Voz 1

Você chamaria o Titãs de máfia do Catupiry?

MCMarcelo Costa

Máfia do cuscuz, né? Máfia do cuscuz paulista, é o ralinho de pia.

?Voz 1

Máfia do lanche de pernil, cara.

MCMarcelo Costa

É, tem uma coisa assim, tem uma questão, só que é uma coisa, você tocou no ponto muito importante, que é esse mesmo, que é um exercício delicioso de se fazer, e é pegar um disco que você gosta muito e mergulhar nele de fato, né? Não ouvindo lavando roupa, roupa ou passando pano no chão, né? A hora que você mergulha num disco pra valer, você percebe tipo os efeitos dele, tudo que falta, tudo que tem de erro ali. E acho que pra juventude daquela época, eu sou um jovem daquela época, isso tudo passou batido.

A gente tava muito mais interessado no barulho e no questionamento e na no caos que o disco trazia do que necessariamente ele era um disco musicalmente evolutivo ou não. Ele é— a gente tava muito mais interessado no que ele representava para aquele momento. Ele representou bastante coisa para aquele momento. Tirando ele daquele momento, eu acho que ele perde muito da força dele.

?Voz 1

A gente passou o programa inteiro falando bem e mal, mas mais mal do que bem no disco. E aí o Titã responderia que o construidor não constrói porque não pode mais construir, o destruidor não pode mais destruir porque o construidor não constrói.

MCMarcelo Costa

É uma herança do construtivismo.

?Voz 1

Viajou, Pinochet? Essa é do Edifício Master, né? Curtiu tudo isso? O que mais falta falar do Cabeça Dinossauro e do Titãs? Eu acho que talvez seja o único programa que a gente vai fazer do Titãs na história do programa de índio.

MCMarcelo Costa

Mais nada, né? Agora a gente vai ter que ouvir esse disco ao vivo e repensar tudo isso.

?Voz 1

Estaremos lá no final de semana. Se por acaso alguma coisa que eu peguei, que eu disse, mudar, eu conto para vocês semana que vem.

IMIgor Muller

É isso, valeu, seu Maqui, seu Capelas. Pronto, tá pago.

?Voz 1

É isso. Marcelo Costa, mais uma vez muito obrigado pela participação. Sinta-se à vontade para voltar quando quiser. A gente já tem uma programada para o fim do ano que vai ser especial, mas provavelmente ele volta antes. Vamos acompanhar.

MCMarcelo Costa

Obrigado pelo convite, queridos. É um prazer imenso estar aqui com vocês. Foi muito legal, assim, teve várias ideias que eu tinha desse disco que eu já não tinha, que eu nunca tinha compartilhado E agora elas estão registradas nesse quartinho de bagunça.

?Voz 1

Curti, bom demais.

MCMarcelo Costa

Fecha, fecha, alô Brasil, fecha que não sai mais nada. Ei, Brasil, fecha, fecha que não sai, fecha que não sai mais nada. Fecha.

?Voz 1

Festa!

IMIgor Muller

Ei, você!

MCMarcelo Costa

Festa! Festa aí, pô!

?Voz 1

Festa que não cai mais nada!

Os 40 anos de 'Cabeça Dinossauro', a obra-prima dos Titãs | Castnews Index — Castnews Index