Episódios de Podcasts SINESP

Cotas Raciais e Identidade - Palavras na Mesa - Ep. 37

24 de abril de 20261h8min
0:00 / 1:08:36

Nesse episódio do podcast Palavras na Mesa as dirigentes Maura Maria e Valéria Leão receberam a socióloga e vereadora por Tabõao da Serra e autora do livro "Quem é negra/o no Brasil?" Najara Costa. Nesse programa as participantes debateram e refletiram sobre as cotas raciais, o papel das comissões de heteroidentificação e a importância das ações afirmativas para a democratização do acesso às universidades e ao serviço público.Nossas redes:Facebook: https://www.facebook.com/sinespspInstagram: https://www.instagram.com/sinespsp/Site: https://www.sinesp.org.br/#gestoreseducacionais #SINESP #educacaoSP #CFCL

Participantes neste episódio3
M

Maura Maria

Co-hostDiretora pedagógica
V

Valéria Leão

Co-hostCoordenadora pedagógica
N

Najara Costa

ConvidadoSociologa e vereadora
Assuntos4
  • Cotas raciaisImportância das cotas · Comissões de heteroidentificação · Ações afirmativas · Educação antirracista · Desafios da permanência na universidade
  • Identidade Racial e DiásporaAutodeclaração e heterodeclaração · Fenótipo e raça · Impacto do racismo na sociedade
  • Raça, classe e desigualdade socialRacismo estrutural · Dados de extermínio da população negra · Desigualdade socioeconômica
  • Operadores PolíticosMulheres negras na política · Importância da representatividade
Transcrição187 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá, estamos aqui para mais um episódio do nosso podcast Palavras na Mesa, do Sinesco. E hoje, com uma convidada muito ilustre, a professora vereadora, a vereadora professora Najara Costa.

E ela vai falar conosco sobre as questões etnorraciais, todas essas polêmicas que nós temos com relação às cotas, às cotas das universidades, às cotas de concursos públicos. E, então, com a Valéria, contamos também hoje com a Valéria. A Valéria é nossa diretora, também aqui no Sinesp, coordenadora pedagógica da Ativa, da região de Guainazes. Mas, para início, como sempre, faremos a nossa audiodescrição.

Então, eu começo por mim, passo para a Valéria, por último, a vereadora na Jara. Eu sou uma mulher negra, cabelos curtos, estou com um batom, hoje com uma camisa preta e uma e-sharp colorida. Olá, bom dia. Como a Maura, que já me apresentou, sou coordenadora pedagógica. Seja bem-vinda, vereadora.

Eu sou também uma mulher negra, cabelos curtos, crespo. Estou com um par de brincos com búzios e batom vermelho, uma roupa, vestido preto, com uma camisa com estampas laranja e amarela.

Olá a todas, todas as pessoas que nos assistem. É um prazer enorme estar aqui no Sinesp com você, Maura, com você. Valéria Leão, pessoas da luta que a gente admira, respeita e constrói. Obrigada pelo convite. Eu sou uma mulher negra, de pele não tão escura, um pouco clara. Tenho cabelos longos, encaracolados, crespos. Estou usando aqui uma camisa rosê.

Eu acho que é isso. Muito bem. Vereadora, eu gostaria que você expusesse aqui qual é o seu currículo, algumas informações, que, normalmente, se a gente for falar de tudo, acaba ficando aqui meia hora. Então, eu gostaria que você destacasse aí alguns elementos importantes que você...

acreditam, sejam fundamentais para que a gente possa desenvolver a nossa conversinha de hoje. Tá certo. Eu sou socióloga de formação pela Universidade Federal Fluminense, tenho mestrado em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC.

e também estou concluindo o doutorado agora pela Universidade de São Paulo em ciências em humanidades direitos e outras legitimidades ali na FEFELeste sou vereadora em Taboão da Serra meu primeiro mandato fui co-deputada estadual

e venho aí da luta política há algum tempo, né? Até estive com a Valéria na Secretaria de Igualdade Racial também, no contexto da gestão Haddad. Fui também candidata a prefeita de Taboão da Serra em 2020, a única mulher entre nove candidatos, fiquei em quarto lugar.

Sou mãe do Fábio, mãe solo, né? Às vezes até me questionam. Ah, você é mãe do Fábio, mãe solo, mas o pai paga pensão? Sim, o pai paga pensão. Mas eu digo que eu sou mãe solo porque eu sou a responsável por tudo, né? Pela educação, enfim, por tudo o que ele faz no dia a dia, né? Sou eu que estou ali. Então, mãe solo nesse sentido de que ser a responsável pela criação do Fábio. E acho que é um pouco isso.

Então, seja muito bem-vinda novamente, né? Eu não lembro se eu falei meu nome. Eu sou a Maura. Sou diretora aposentada da região de Itaim Paulista, São Miguel.

Bem, o nosso tema aqui hoje é um tema bastante importante, não é? Principalmente, se a gente for pensar que nas nossas escolas nós precisamos desenvolver essas questões e, muitas vezes, por falta de conhecimento, por falta de formação, isso não acontece.

Então, a gente traz esse tema novamente, assim como já temos alguns podcasts gravados, pessoal. É só vocês consultarem, né? Temos lives também, porque é uma preocupação premente aqui no nosso sindicato, no Sinesp. Sempre foi destacar como a primeira luta a questão étnico-racial.

Então, Valéria, eu sugiro que você inicie como uma pessoa que saiu agora, recentemente, de lá da escola, como coordenadora pedagógica, e com certeza deve ter visto algumas coisas que são importantes de destacar. A palavra é sua. Eu acho que a luta antirracista é uma luta histórica, mas...

Tivemos alguns avanços, e acho que a gente vai falar aqui um pouco hoje das cotas, o que a Najara tem muito para nos informar e para nos ensinar em relação a isso.

Mas, quando a gente fala de educação antirracista, a gente tem, apesar de algumas conquistas, muitos desafios. E eu...

nos espaços da educação onde a gente atua, a gente percebe o quanto a representatividade na estrutura das nossas escolas, dos equipamentos educacionais, ela é importante para essa luta antirracista.

Então, você ter professoras negras, você ter diretoras negras, coordenadoras pedagógicas, é uma maneira, se apresenta como um instrumento de luta grande. Vereadora, dentro daquilo que...

Você tem estudado sobre as cotas que, de certa medida, têm um papel de representatividade também nessa luta antirracista. Você verifica que a gente tem tido avanços nesse sentido? Se faz um instrumento importante?

Eu verifico esses avanços, Valéria. É claro que os avanços, eles vêm cheios de problemáticas, justamente por conta de que a gente avançou um pouquinho e aí a gente precisa fortalecer a nossa luta para que a gente consiga compreender o momento e consiga avançar ainda mais.

Eu sempre falo que professores negros, a gente está falando de educação antirracista, eu tive professores negros durante o meu ensino básico, e só o fato de eu ter tido professores negros, eu lembro que houve ali um estímulo para que eu prestasse mais atenção nas aulas desses professores.

Acho que também há um reconhecimento, né? Quando a gente fala da política do reconhecimento, até porque, enfim, eu tenho 44 anos, eu lembro que na década de 90 a gente não tinha uma discussão tão abrangente como a gente tem hoje, né? Até falar sobre a questão racial era muito mais problemático.

E a gente percebe desde sempre como a escola também pode ser um espaço de exclusão quando a gente não pauta a questão racial, não trabalha a questão racial, porque muitas vezes os alunos e aqueles... Às vezes acontecem xingamentos de forma muito mais direta. E se a gente não consegue trabalhar aquilo, incorporar aquilo dentro do currículo escolar, acaba que a evasão é muito maior entre esses alunos negros, especialmente pelos meninos negros. Tem uma professora... Estatisticamente, né?

A Marília Carvalho, por exemplo, que é uma professora do Departamento de Educação na USP, ela estuda a evasão dos meninos negros, porque ela é muito maior por conta de questões atreladas a uma violência muito maior que incide sobre esses alunos. E tratar desse ponto na educação é fundamental até para que a gente traga esse reconhecimento desses alunos e esse pertencimento.

Então, assim, primeiro, a educação, ela teve esse avanço com a Lei 10.639, né? Ela tem uma lei que tem mais de 20 anos. Então, foi uma luta do movimento negro, né? O movimento negro, inclusive, é um... Os movimentos negros, a gente fala do movimento negro, é um movimento educador, porque pauta o poder público para que a gente construa essa educação antirracista.

dentro do nosso currículo escolar. É uma lei que alterou a lei de diretrizes e bases da educação. É uma lei que tem formado muitos professores para que a gente paute isso em sala de aula, embora ainda mal implementada. A gente sabe que há muitos desafios nesse ponto, mas é um avanço significativo no sentido que a gente altera o currículo escolar e traz esse debate de forma aprofundada no currículo.

Para além disso, a gente teve a garantia de alguns acessos, como as políticas de cotas, que começam ali no final da década de 90. As primeiras experiências são ali no final da década de 90 com o Fernando Henrique Cardoso, ainda presidente da República, mas de forma muito espaçada.

se tornam políticas e leis nos governos de Lula e Dilma Rousseff. Então, são avanços significativos das universidades, porque essas pessoas que estão sendo formadas nas universidades, muitos professores, inclusive, vão atuar em sala de aula e vão ter esse olhar atento sobre essa pauta na construção desse saber. Então...

Trabalhar essa pauta dentro da educação é fundamental, porque a educação vai formar pessoas. Se a gente trabalha isso, a Lei 10.739, dentro do ensino público, o ensino básico, isso vai formar todas as pessoas. Todas as pessoas escolham a profissão que quiser.

ela vai ter esse conhecimento. A gente não está falando só de pessoas negras, a gente está falando de todas as pessoas. E isso também nas universidades vai pautar também uma nova construção desse conhecimento. Eu sempre digo que a gente está lutando muito para manter a universidade pública e que não há possibilidade de a gente...

defender essa universidade se essa universidade não for democrática. Algo que está acontecendo agora, graças à política de cotas, está tendo uma abertura muito maior de pessoas negras, indígenas, pessoas trans. Então, a gente está alavancando esse debate e modificando também esse debate na universidade. Certo. E nós pensamos assim, uma primeira coisa que talvez a gente precise falar

é a questão dessa importância ao tentar acessar as cotas, dessa autodeclaração de cor.

e heterodeclaração. Por que é importante isso? E tem dado certo? Porque, às vezes, a gente vê alguns questionamentos. Ela funciona? É importante que haja? A gente tem vários estudiosos que já falam que é superimportante que haja essa autodeclaração e que haja até essa banca que analisa essas autodeclarações.

Você pode explanar um pouquinho sobre isso? Deixa eu só juntar aqui nessa questão que a Maura traz. As bancas têm algumas polêmicas. São situações que, em determinado momento, inclusive, foi questionado. Sim, sim.

E ela se mostra como um importante instrumento dentro da implementação da política. Qual é o seu olhar para esse processo da banca de heterodentificação como um espaço, como um instrumento para a garantia dessa política? Foi questionada mesmo, você tem razão.

E tem um impacto, para além do STF, tem também dentro da sociedade, né? A sociedade, os próprios participantes dos processos de concurso ou de vestibulares. Mas como assim alguém vai olhar para mim e dizer se eu sou ou não sou? E por que ela se faz necessária?

É uma ótima pergunta, né? Inclusive, eu não falei na minha biografia, mas eu sou autora do livro Quem é Negro no Brasil? Que é esse livro lançado pela editora Dandara desde 2020. Esse livro, ele é sobre exatamente esse assunto, né? Eu atuei na Secretaria de Igualdade Racial, junto com a Valéria, inclusive, ela era a nossa chefe de gabinete.

Braba. Braba no sentido de luta mesmo. Luta. E a gente enfrentou esse imbróglio. Esse imbróglio. Porque a gente tem uma lei, que é a Lei 15.939, que é uma lei de 2013, aqui na cidade de São Paulo, que ela incorpora todos os serviços públicos determinando cotas raciais em todos os serviços públicos. A lei...

nesse contexto ela incorporava até mesmo os cargos em estágio, que teriam que ter a reserva de vagas para pessoas negras.

E a lei foi criada, mas não havia uma regulamentação sobre quem eram os destinatários das políticas de cotas raciais. A lei, inclusive, falava de afrodescendentes. E aí a gente precisou elaborar esse decreto regulamentador para entender quem eram os afrodescendentes para essa política pública. Então existe... Maura, você fez a pergunta sobre autodeclaração e heterodeclaração. Isso, justamente.

A autodeclaração é uma conquista universal.

Ela, enfim, é algo que... Como eu me vejo, como eu me identifico, né? Eu me identifico como uma pessoa negra. Enfim, eu sou fruto de uma relação interracial. É a forma como... É claro que a forma como eu me vejo é também construída pelo nosso formato de sociedade. Uma pessoa que é considerada, às vezes, branca no Brasil pode não ser considerada branca nos Estados Unidos. Com certeza, né? Será.

Então, existem questões que se atrelam ao nosso modelo de sociedade que vem do nosso processo de colonização. A gente viveu um processo de colonização aqui que foi de uma estratégia de...

O livro Casa Grande Senzala revela um pouco essa nossa concepção. As pessoas... Não existia um apartheid, não existia uma segregação, leis de incoal, como existiam nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, África do Sul, outros modelos de sociedade se vivenciou os assentos nos ônibus para negros, os assentos para brancos, o bebedouro para negro, o bebedouro para branco, universidades para negros, para brancos.

E até hoje, se você fala com alguém pelo telefone nos Estados Unidos, né? Os filmes do Spike Lee trazem um pouco isso. Você consegue identificar se a pessoa é negra pela forma como ela fala. Então, ser negro nos Estados Unidos está atrelado para além do fenótipo.

Está atrelado à gota de sangue, né? Que eles dizem que você tem uma gota de sangue negra, você é considerado negro. E ser considerado negro é ser tratado como negro. É ser discriminado. Ainda que você seja uma pessoa loira. Dos olhos azuis. Mas se você tem uma...

enfim, um antepassado, um traço, ou até mesmo o sobrenome, né? Eles identificam. Você é tratado como negro naquele modelo de sociedade. Então, o Antônio Sérgio Guimarães, que é um sociólogo da Universidade de São Paulo, ele trata muito desse assunto. Então, definição de raça em outros países é uma coisa muito elaborada.

dificilmente a gente teria uma discussão como essa no Brasil anos atrás, agora a gente começa a ter por conta das políticas afirmativas mas raça nos Estados Unidos é algo muito definido é muito demarcado isso está demarcado socialmente todo mundo entende quando se fala de raça

No Brasil, por conta do nosso processo de colonização, esse termo foi apagado. Na obra Casa Grande Senzala, inclusive, nos anos 30, se retira o termo raça para incluir o termo cultura. Então, a feijoada, enfim, elementos da cultura nacional, no contexto do... Para agregar, né?

Do Getúlio Vargas, do Estado Novo, enfim, são elementos para você entender a sociedade brasileira a partir dessa mistura. E isso faz com que a gente não elabore isso na nossa prática. Um exemplo claro, por exemplo, quando as empresas não queriam contratar pessoas negras, elas diziam boa aparência. Boa aparência.

Não falava, não contratamos pessoas negras. Não existia isso, não contratamos pessoas negras. Então, há esse entendimento de que o nosso racismo existe, mas só que ele é difícil de ser mensurado. E quando a gente constrói as políticas de ações afirmativas, muito pautado naquilo que o movimento negro trouxe e sistematizou, principalmente depois da conferência de Durban, quando vários...

Várias pessoas que formulam essa atuação política foram até Durban e trouxeram dados importantes para que a gente entendesse a nossa realidade brasileira. Isso começa a ser sistematizado. Por exemplo, o Brasil começa a ser taxado. Por que o Brasil é considerado um país que não é racista e a gente não tem embaixadores negros?

Isso criou uma animosidade com a África, com os países da África. Então, a gente não tinha embaixadores negros. As primeiras políticas de ações afirmativas, inclusive, começam no Itamaraty, por conta dessa relação com o continente africano.

ainda com Fernando Henrique Cardoso, na conferência de Durban, foi feito um levantamento de que o Brasil era um país mais racista do que a África do Sul no pós-apartheid. O apartheid termina em 94 e o Brasil tinha menos pessoas negras no início dos anos 2000 nas universidades do que a África do Sul, que tinha saído do apartheid.

Ou seja, os dados estavam revelando que o Brasil é um país onde o racismo deu muito certo. A gente não fala do racismo, o racismo não fala de raça, mas ele está presente nas nossas relações, ele está presente nos dados, ele está presente no extermínio das pessoas negras, ele está presente na ausência de pessoas negras, até mesmo nas novelas. Hoje a gente vê bastante, mas isso no início dos anos 2000 não existia.

As pessoas negras estavam como empregadas domésticas, enfim, todo aquele estereótipo. E a gente não estava nas universidades. O monobral, 1% das pessoas, dos universitários eram negros. Ou seja, o racismo estava escancarado nos nossos dados estatísticos, só que a gente não tinha essa elaboração, porque o racismo aqui foi algo muito... Aperfeiçoado, né? Aperfeiçoado.

Então, a gente precisou entender esse contexto e criar as políticas afirmativas. E aí, quando a gente cria as políticas afirmativas num país que não fala de raça, se começa todo um debate sobre como que a gente vai determinar quem é negro numa sociedade como a brasileira, tão miscigenada.

Porque muitas pessoas dizem que não me entendo como uma pessoa branca. Eu me vejo como negro. O meu pai, meu bisavô, meu tataravô era negro. Eu não me vejo como branco. Mas sempre vai ter alguém que vai falar que você é mais branquinha. Não é isso? É. E ainda tem aquele ponto das pessoas não se viam como negras, só que elas não enfrentam o racismo na sociedade brasileira. Então, o título do livro, né? Quem é negro no Brasil?

Pessoas negras no Brasil são pessoas que têm o fenótipo de uma pessoa negra e que, por ter esse fenótipo, enfrentam o racismo na sociedade brasileira.

E aí, como a gente define quem é negro num critério de cor, né? Que hoje a gente fala muito de colorismo, né? A pessoa preta retinta ou a pessoa mais clara, né? Camila Pitanga, por exemplo, que é a polêmica da vez. Como é que a gente vai... Ela que pode ser vista... Ela pode ser a filha do Antônio Fagundes, como uma pessoa branca numa novela, mas também pode ser...

Filha de pais negros em outra novela. Ela tá nesse limbo que ela consegue... Ela é uma pessoa negra, mas de uma pele mais clara, que consegue transitar. A Anitta, por exemplo. Que consegue transitar.

Como que a gente vai definir se ela é destinatária das políticas de cotas ou não? Então, essa foi a pergunta que eu fiz nesse livro, justamente para a gente entender o nosso modelo de sociedade, entender o nosso processo de colonização e entender como a gente sistematiza isso como política pública. Daí a importância, Valéria, dessas comissões de heteroidentificação.

As comissões não fariam sentido nos Estados Unidos, por exemplo, que tem uma realidade onde a raça é muito determinada. Mas elas fazem sentido no Brasil porque a gente precisou entender quem eram os destinatários dessa política. Então, uma coisa é quem se define como negro. A outra coisa é quem faz jus a essa política por enfrentar o racismo na sociedade brasileira.

E aí, essa provocação que foi feita no STF, o STF garantiu a legitimidade das comissões de heteroidentificação, foi votação unânime, inclusive, que foi a DPF 186 e a ADC 41, que estabeleceram a constitucionalidade das cotas raciais nas universidades e nos serviços públicos e a garantia da legitimidade das comissões de heteroidentificação. Mas...

As comissões precisam ter critérios. Elas não podem ser comissões vexatórias. Elas precisam garantir, primeiro, a dignidade da pessoa humana, porque uma pessoa negra que passa pelas comissões não pode se sentir constrangida, não pode passar por um novo racismo. Então, ela tem que ser respeitada.

E o direito ao contraditório, porque as comissões também podem errar. Agora menos, mas quando a gente começou a política, esse foi um debate. Como é que a gente vai definir nesse línguas quem é destinatário? Exatamente. Daí a importância. E a gente teve também, você trouxe aqui a nossa experiência de trabalho juntas na Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. E eu me recordo bastante a mudança que tivemos que fazer na lei e eu vou fazer aqui.

por conta do decreto, por conta da autodeclaração. Porque essa miscigenação e esse processo que muitas vezes a gente percebia de fraude na política. Má-fé. É, má-fé. E a necessidade de inserir o fenótipo como um critério.

E a autodeclaração. E aí eu percebo que tem um avanço nas próprias comissões, Najara, de quando tivemos a cidade de São Paulo, se eu não me engano, acho que tem a prova antes até do que no governo federal, as cotas no serviço público. A regulamentação da cidade de São Paulo é anterior ao governo federal. A do governo federal. E esse processo se fez necessário?

por conta desse diálogo e da construção também junto aos movimentos, ao movimento negro e à comissão de heteroidentificação hoje. Ela tem essa percepção e essa questão do fenótipo é algo... É um critério objetivo, né? Quer dizer, nem sempre tão objetivo assim.

E como que, dentro do seu trabalho, do quem é negro no Brasil, e aí já entrando na polêmica da vez, essa questão da parditude e a garantia desse acesso. Lembrando que negros...

São pessoas, a soma de pessoas pretas e pardas. E como dentro das comissões essa constituição vem sendo trabalhada, é algo que...

Eu me preocupo muito e caminho para compartilhar com vocês a palavra com o fortalecimento da política pública. Eu tenho a impressão, apesar de já estarmos há mais de 20 anos da Lei da Especialidade,

639, apesar de já estarmos há 10 anos, falando aqui da cidade de São Paulo, da lei de cotas, que é uma política afirmativa importante, mas eu penso ainda que tem muitas fragilidades. E essas questões polêmicas, as pessoas pardas, o direito, o acesso, isso fragiliza esse processo? A política pública,

É uma consideração importante, porque eu considero esse debate de partitude, a forma como ele está sendo feito, muito nebulosa e tira do foco aquilo que a gente precisa garantir, especialmente quando a gente está falando de direitos conquistados, duramente conquistados.

De séculos, né? Pela primeira vez, a gente tem o reconhecimento de que pessoas negras estão numa situação não só pela perspectiva histórica dos direitos que nos foram negados historicamente,

mas também do racismo que a gente vivencia no nosso cotidiano, que faz com que a gente morra mais cedo, com que as mulheres negras até hoje tenham menos anestesia no momento do parto, porque tem uma visão que as mulheres negras aguentam mais dor. Uma visão não humana, muitas vezes, da nossa existência. O fato de sermos...

De sermos a base, né? Como Angela Davis trata, né? A gente está na base dessa pirâmide social. Então, a gente é a que mais trabalha, é a que menos recebe, é a que morre mais cedo. Mais explorada.

A mais explorada pelo sistema capitalista. A gente está falando de trabalhadoras exploradas e, quando a gente alça outros lugares para se manter nesses lugares, como diretora, como parlamentar, a gente recebe ataques de todos os lados. Então, é muito importante que a gente tenha essa compreensão de que essa luta não é sobre nós. Ela é sobre um modelo de sociedade que é excludente, um modelo de...

neoliberal que cria, dentro dessas segmentações da classe trabalhadora, pessoas que estão mais propensas à exploração, grupos sociais mais propensos à exploração. Então, é uma conquista muito grande quando a gente traz isso enquanto uma política pública, enquanto lei, um reconhecimento disso para que a gente consiga direitos básicos. A gente está falando de direitos que são básicos e que são negados constantemente por conta do racismo.

cotidiano, o racismo estrutural que está nas nossas relações e que esse reconhecimento do Estado brasileiro sobre esse racismo é algo fundamental. E aí, quando a gente fala de Brasil, a gente está falando de uma sociedade onde a maioria das pessoas são negras. Mais de 50% das pessoas são negras. E aí, o que você traz, Valéria, negros é a junção de pretos e pardos.

A gente tem as categorias do IBGE. Amarelo, branco, preto, pardo e indígena. São as categorias oficiais do IBGE. As oficiais. A gente tem as outras categorias de classificação racial, quando a classificação era aberta, enfim, era um...

centenas de categorias, a forma como a pessoa se vê, mas as categorias oficiais, porque é a partir das categorias oficiais que a gente lança as políticas públicas. E qual é o sucesso, o avanço que o movimento negro trouxe?

que é a junção de pretos e pardos, para que a gente compreenda que a gente está falando da maioria da sociedade brasileira. Então, quando a gente fala das políticas afirmativas, políticas de cotas raciais, é uma dessas, a gente está falando de uma sociedade que é de maioria de pessoas negras, que é a junção de pretos e pardos. Por que separar pretos e pardos não é uma coisa boa, não é uma coisa positiva? É tudo que a branquitude quer, no separar. Separar.

Porque quando a gente... A Sueli Carneiro tem uma fala, ela tem um artigo negro de pele clara, né? Que ela fala que quando a filha dela nasceu, o pai da filha dela, branco, foi registrar a menina e aí não queria aceitar no cartório a declaração dele de que a menina era negra, né? De que a filha era negra. É o pai que registra, a mãe, né? No hospital e o marido branco não conseguiu registrar. Enfim, todo esse embrólio.

Até pra que a sociedade sempre tentando nos embranquecer. Não se declare negra, se declare branco. O pai é branco, pô, vai por essa linha. Ah, não, eu sou preta. Você vai escolher. Imagina, você é moreninha. Falavam antes, você é mulata. Imagina, mas você é bonita. E ainda tem isso. Você é mulata?

Olha o nível que a gente está tentando trazer. E quando a gente separa com essas manifestações sobre somos pardos, criando uma segmentação espaçada daquilo que a gente entende como negros.

ela traz esse olhar, né? Se a gente for olhar, perceber a sociedade brasileira, a maioria das pessoas são o que a gente determina como pardos, né? Existem pessoas pretas retintas, que são uma minoria hoje, e a grande parte das pessoas são as pessoas miscigenadas, mais miscigenadas, negras de uma pele mais clara.

E quando a gente vai num necrotério perceber quem são essas pessoas que estão sendo mortas pela polícia, a maioria são pardos. E quando a gente também analisa os dados socioeconômicos entre pretos e pardos...

são os mesmos dados de desigualdade. Não existe uma diferenciação entre pessoas pretas e pardas no quesito socioeconômico, no quesito de acesso a direitos, enfim. São pessoas que estão no mesmo patamar de desigualdade e equiparados aos brancos e amarelos na nossa sociedade.

Os casos dos indígenas, obviamente, é a parte, porque a gente sabe do quanto essa luta é fundamental. E quando a gente fala de cotas raciais, a gente está falando de pessoas negras e cotas étnico-raciais, a gente está falando de etnia e de indígenas, que não está atrelado apenas ao fenótipo, está atrelado ao território. Enfim, são outras políticas fundamentais, inclusive. Mas separar pretos e pardos é diminuir...

esse olhar sobre a maioria da nossa população que é negra, que é essa junção. Isso não é interessante para a política pública e também não é interessante para o nosso debate político, porque isso segmenta ao invés de juntar. Então, há um avanço significativo quando a gente une esses conceitos para entender a necessidade de políticas para a maioria. Quando a gente está falando de população negra no Brasil, a gente está falando de maioria.

Então, há um avanço nesse quesito. E esse tipo de debate é como se fosse uma cortina de fumaça para tirar a gente do foco das nossas necessidades. Totalmente. E até o autorreconhecimento, né? Exato. Eu vou para esse lado mais... Se eu posso ir de um lado ou para o outro, eu vou para aquele determinado lado.

Na universidade, você falou até há pouco, na universidade, hoje, a gente tem a presença um pouco maior desses elementos, dessas pessoas que foram através da cota.

e que enfrentam certas barreiras também, com certeza, dentro dessas universidades. Mesmo porque, assim, eu não fiz uma universidade pública, eu fiz uma universidade particular, mas, mesmo assim, nós éramos em quê? Três? É, exceção da exceção da exceção, nós éramos em três, né? E naquela época, imagina, anos 80, então, na universidade pública, eu acho que nem tinha.

Não tinha, não havia. Então, hoje você tem essas pessoas que, felizmente, através da garantia da legislação, estão lá. E essas pessoas, felizmente, estão se contrapondo a algumas coisas que existem nessa universidade pública. Porque a universidade pública é vista como boa, melhor, maravilhosa. Mas, muitas vezes, ela segrega.

Então, assim, eu estou falando porque eu tenho uma sobrinha que está lá na USP, fazendo mestrado e tudo mais, e ela reporta algumas situações que está, assim, óbvio.

A gente tem esse direito garantido, a gente tem esse acesso, porém, quando você chega lá, você se depara com algumas situações que ainda não mudaram. Então, a maioria dos professores brancos, não é? Se você for, cada vez que você avança um curso, entre aspas, mais disputado, vai para a medicina, raramente você vai ter alguém, né?

que tem entrado pelas cotas, que tem uma representatividade. E aí você piora ainda. Eu acho que o professor nem tem.

Não sei, não conheço. Não deve nem ter na medicina professores pretos. E aí, o que a gente podia estar fazendo? O que a gente pode estar fazendo? A molecada lá dentro tem feito. Eles têm feito. Isso a gente sabe. Todos os movimentos que existem e tudo mais. Mas o que nós podemos fazer? Então, qual o papel da escola? Porque o menino está lá, até o colegial, até o ensino médio, no terceiro ano, na escola pública. São esses meninos que estão lá na escola pública.

Os pretos, pardos, estão lá na escola pública. Aí eles saem e eles, entre aspas, dão a sorte de entrar pela cota. Porque aí falam, você deu sorte, é isso que você ouve. Você deu sorte, não vê que às vezes o menino estudou para caramba, estudou sozinho, que o menino trabalhava, porque normalmente eles trabalham, estudam à noite, e conseguiu. Aí ele entrou. Então, a gente tem a legislação que garantiu.

E, quando ele chega lá, muitas vezes ele não sobrevive por algumas questões. Por exemplo, a questão do próprio financiamento da vida dele. Então, ele mora no Itaim Paulista, ele vai estudar lá no Butantã, e se ele estuda à noite, porque ele tem que trabalhar, ele não consegue voltar. Eu tive colegas que sofriam esse tipo de situação.

O que será que a gente, enquanto você, enquanto uma vereadora? E Taboão tem se destacado. A gente conhece algumas pessoas lá, Taboão. A King é de lá, né? De Taboão. King Ababa. Então, a gente tem, assim, um relacionamento próximo até com a gente aqui, até em termos de sindicato. E a King é uma pessoa maravilhosa, sensacional. E Taboão tem se destacado.

nesse quesito de representatividade da mulher, dos pretos, tem se destacado. O que a gente pode fazer, por exemplo, enquanto sindicato? E, melhor, enquanto escola, para que a gente tenha mais força ao chegar dentro desses ambientes onde a gente é a minoria. O que a escola pode fazer?

permanência, né, Maura? Então, é isso. O acesso já é restrito. É um funil. A cota é muito importante, mas precisa ter garantias que ele vai permanecer ali. O que a gente pode fazer enquanto sindicato, principalmente enquanto escola, o professor lá no chão, na sala de aula, enquanto professor de ensino médio?

Isso não é uma preocupação grande, porque eu fui professora de ensino médio durante 30 anos, mais de 30 anos. E a gente via a sala de aula, nós somos a maioria. A questão da identidade é importante mesmo, porque quando você entrava, você já sentia aquele olhar brilhante. Olha, até que tinha uma professora e tal. E aí, no final das contas, ao final do terceiro do ensino médio, você... Quem será que entrou na universidade?

Um ou dois ou três que foram para a escola particular porque o pai tinha uma condição um pouquinho melhor. E o restante? Raramente um ia para uma federal, um ia para uma USP. Era raro. E era tão raro que às vezes o menos virava notoriedade na escola. Ó, fulano entrou na USP. Ainda tem esse cenário. O que a gente pode fazer? A minha preocupação é essa. Enquanto uma pessoa que saiu...

Da escola pública, foi obrigada, nem tinha cota naquela época. Eu até tentei a USP, mas, por pouco, não consegui. E era história, certo? Que não era tão concorrido assim. Então, eu sou uma pessoa que saiu de lá da escola particular, da faculdade particular, mas veio da escola pública. E aí fui...

concursada para professora. E eu tinha essa preocupação o tempo todo comigo, quando eu olhava aquela sala. E a gente sabia que, no futuro, nós veríamos um, talvez, falando que conseguiu entrar na universidade pública. Isso era uma preocupação muito grande. O que a gente pode fazer efetivamente?

Esse assunto da permanência, ele... Nossa, ele me atravessa de um jeito... É, não é fácil. Eu lembro, assim, que eu também, quando eu entrei na universidade, eu não entrei pelas cotas ainda. Eu fiz dois anos de cursinho e...

Depois abandonei no final o meu trabalho para me dedicar ao cursinho. Fui com a coragem para me manter pelo menos três meses no Rio de Janeiro. E aí eu lembro que eu me inscrevi por uma política de trabalho dentro da universidade, de bolsa-trabalho.

de uma bolsa de seis horas pra me manter na universidade. Estagiário, alguma coisa assim, né? É, isso. E eu lembro que eu não... Eu fiquei na lista de espera. E aí eu fui desesperada lá na assistência social, na reitoria. Eu falei, se vocês não me derem essa bolsa, você sabe o que vai acontecer comigo? Eu não vou ter condição de ficar aqui. Eu vou ter que voltar pra minha cidade. E eu fui chorando. Eu lembro que eu fui chorando. Eu fui com muita raiva, assim.

Porque é muito humilhante você chegar nos espaços de educação. Olha o que a gente está lutando. A gente está lutando para estudar. Um direito universal, né? Exato. A gente está lutando para estudar. A gente quer se formar para prestar um serviço digno para a nossa sociedade, formar outras pessoas. E esse direito é negado de muitas formas.

Eu falo que a gente já vem de uma escola pública sucateada, com professores ali dedicados, mas a estrutura está cada vez mais. Propositadamente, sucateada. Políticas, enfim, até de privatização, tentativas de privatização. E aí de uma família. Eu sou filha de um pai que morreu analfabeto. Meu pai não teve direito ao estudo. Ele foi marceneiro, não teve direito ao estudo. E ele sentia muita vergonha.

de não conseguir ler o letreiro do ônibus, sabe? E ele disfarçava. E é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci. Se ele tivesse tido acesso ao estudo, nossa, ele teria... Seria um ganho social. Minha mãe estudou até a terceira série também. Trabalhou, enfim, cuidou dos irmãos. Então, a gente vem de uma realidade que eu fui a primeira da família a entrar numa universidade com muita dificuldade, trabalhando, dormindo quatro horas por noite. E aí você chega na universidade...

É negado ainda, né? Aí um espaço que é branco-cêntrico, né? É um espaço que a sua saúde mental também vai pro espaço, porque, enfim, ser negro e se manter nesse espaço é uma coisa muito complexa, né? E você não tem... Eu não tinha acesso à moradia estudantil na época, não tinha na minha universidade. E eu tive que morar de favor ali com algumas pessoas, né? Amigos e também com familiares, algo muito difícil.

e não consegui. Aí, eu consegui, depois fiquei na lista de espera, fui chamada, e depois fiz iniciação científica, me formei em três anos e meio, que eu acho que fui a única que me formei em três anos e meio, porque eu pegava oito matérias por semestre pra terminar rápido.

E é uma luta muito desigual. Você tem que ser muito... Sabe, eu não consegui participar do movimento estudantil, que era uma coisa que eu gostaria, mas não dava, né? E era uma realidade muito diferente das outras pessoas, né? E é assim que tu sabe, que tem o nosso esforço individual, né? Mas tem algo que às vezes você acha que você não vai conseguir. Só que aí eu ficava pensando, se eu não conseguir, eu vou ter que voltar e aí minha vida vai estar condenada. Porque se eu não tiver eu, preta...

pobre. Se eu não tiver uma formação... E aí há quem fala que é uma questão de meritocracia. Se eu voltar, eu vou ser o quê? Eu vou ser empregada doméstica? Com todo respeito, assim, mas qual vai ser meu futuro? O que eu vou fazer? Então, assim, eu tenho que permanecer.

Porque tudo empurra para você sair, né? Tudo empurra para você sair. Então, assim, hoje o que a gente está debatendo muito, inclusive no seminário, né? Eu tenho feito parte das comissões de heteroidentificação na USP também. A USP, né? Como foi citado aqui. Menos de 5% dos professores na USP são negros. Olha aí. Menos de 5%. A gente quer defender a universidade? A gente quer defender a universidade. Mas a gente quer defender uma universidade democrática, né? Sim. Onde estão os professores negros da USP?

Então, assim, tem departamentos que nunca teve professor negro, né? Enfim, arquitetura, a gente participou de um processo para a inclusão de um professor negro, né? Pela vaga de cotas, porque até mesmo nas cotas é difícil, porque as cotas, quando tem três vagas ou mais, né? Que você retira ali a cota de 25%, mas os concursos... E essa não é uma realidade dos concursos.

São uma vaga, é uma vaga. E aí, como que você vai distribuir cota se você só tem uma vaga por departamento? Então, já é feito para não dar certo. Não só na USP, como nas federais também. Mas a USP é um caso mais gritante. Então, aí eu participei de um processo na ecologia que eu lembro que a gente fez seminário.

discutimos com os professores, com o colegiado, etc. E fizemos uma movimentação grande entre os alunos. A gente incluiu um professor negro pela política de cotas, fiz parte da comissão de heteroidentificação também. Eles ficaram... Lembro que ter feito um debate, inclusive online, até de anos, foi na pandemia. Entraram bolsonaristas no debate, começaram a xingar, caiu, a gente teve que voltar. Foi uma luta muito grande, conseguimos.

Mas a que custo, né? A gente não consegue participar de todas as lutas, né? E a gente tem que estar presente, porque a gente sabe que, estando presente, a gente já tem que remeter... Gente, as cotas são constitucionais, vocês não estão fazendo nada de errado. Muito pelo contrário, a gente tem que... Porque as pessoas ficam com medo e com receio e não querem, enfim, não querem se comprometer com algo que já é lei, né? Que, inclusive, é uma lei da própria universidade, né? Que garante isso também.

Então, essa política, a permanência estudantil, primeiro está atrelado à condição econômica desse aluno se manter na universidade, esse aluno periférico preto, que enfrenta racismo também dentro da universidade. E o racismo ainda mais gritante, porque assim, o que a gente tem debatido, né? Na medicina da USP, a gente não tinha racismo antes.

Porque não tinha negro. Lógico. Não tinha negro. Óbvio. Você não tinha negro na medicina. Então, assim, ah, tudo bem, né? A Avenida chamar doutor Arnaldo. Tudo bem você ter um eugenista ali. Quando você sai da medicina da USP, uma escultura de um eugenista, né? Tudo bem os novatos da medicina serem chamados ali, desde sempre, de filhos de Arnaldo, que foi um eugenista, enfim.

E aí, como que a gente muda isso? São só com pessoas brancas? Obviamente que não. Então, quando as pessoas negras começam a chegar, elas começam a movimentar esse espaço, questionar esse espaço, que é um espaço branco-cêntrico. E aí, isso cria dificuldades ali. Tem vários coletivos hoje nas universidades. Quem me dera, na minha época, eu pudesse fazer parte. Eu era praticamente a única, tinha mais dois. Então, não tinha como. Não tinha como, né? Não conseguia. É verdade.

Mas hoje tem vários coletivos que têm movimentado tanto a questão do currículo da universidade quanto a questão dos professores, que precisam ter mais professores negros, quanto a questão do modelo de universidade que a gente quer, porque a gente sabe que as universidades foram criadas para filhos dos cafeicultores da cidade de São Paulo, da década de 30. A gente tinha cotas, né? É, cotas para filhos de cafeicultores da elite paulistana.

Os que questionaram as cotas. As cotas sempre existiram. Os que chegaram. Os que chegavam.

Mas sempre se utilizavam dela. Pra eles, tudo bem. Então, assim, a gente chega, mas a gente chega pra questionar, porque não tem como não questionar. E aí, o que a gente percebe é que são muitos alunos, né? Alunos passando por violência psicológica, sem estrutura pra se manter dentro da universidade, alunos que se mataram dentro da universidade, especialmente na pandemia, que foram casos, né?

Não foram casos isolados, foram alguns casos, né? Então, que universidade é essa que a gente luta para chegar e a gente também tem que lutar para permanecer, né? E quem são esses alunos que estão se formando e eles também não acessam a tudo aquilo que os alunos brancos acessam, né? Então, é o que a gente tem discutido bastante, né? Cotas, além do acesso à permanência. Eu queria trazer um elemento que... Eu tenho uma sobrinha, né?

que está numa universidade pública e ingressou pelo sistema de cotas, num curso branco e extremamente masculino. Ela está cursando geologia na Unicamp.

E ela veio do sistema público de educação. Certeza que o ingresso dela é fruto da política afirmativa. E a gente percebe também que, por todas essas questões de fragilidade da educação pública, principalmente quando comparada à educação...

Privada. E não só a estrutura escolar, mas o que a gente conhece do capital cultural, né? Que essas crianças, elas já têm uma formação que...

Se coloca à frente... Viagens. O acesso é desigual. O acesso é desigual. Museus. E o quanto também é um obstáculo de permanência dessas meninas e meninos que ingressam na universidade pública pela cota, mas precisam também dar conta de acompanhar aquelas disciplinas que não têm uma bagagem anterior. Então, tudo...

Parece que nos coloca numa situação de resistência. Está lá na frente escrito, vai fracassar. O tempo inteiro você tem que resistir. Você tem que lutar, fazer como você fazia no Rio de Janeiro. Oito disciplinas para poder terminar, para poder continuar, se bancar. E só uma adendo, Valéria, no que você está falando. Porque quando as pessoas são viajadas, quando elas estudaram em escolas, e quando elas têm uma rede, até o sobrenome faz a diferença naquele circuito social.

você se sente muito envergonhado, você se sente muito por baixo, você se sente não pertencente àquele espaço. E isso joga para você uma culpa também, né? Esse espaço, parece que escancar é que você entrou ali por uma política afirmativa e que aquele espaço ali não é um espaço seu. Então, isso também é outro dano à nossa saúde mental. E é um desafio que está posto, né, vereadora? Para que a gente garanta essa permanência.

Mas, assim, é ao mesmo tempo importante a gente reafirmar o quanto a cota, além de tudo isso, você estava falando do exemplo aqui da Faculdade de Medicina da USP, e eu fiquei pensando o quanto ela enfrenta o racismo estrutural também.

Porque não é só o acesso de uma pessoa que seria justo, né? Uma reparação em você garantir que aquela pessoa esteja num lugar que antes ela não poderia estar pela sua raça, né? Pela cor da sua pele, pelo seu fenótipo.

por esse racismo e o quanto a presença dessas pessoas, os coletivos, os enfrentamentos, ele também abala a estrutura racista da nossa sociedade, porque faz com que as pessoas provoquem isso, se sintam provocadas.

Sim, isso gera um constrangimento, né? Eu acho muito bom esse constrangimento, sabe? Eu falo assim que eu alisei meu cabelo durante uns 20, 30 anos da minha vida. Inclusive, eu raspei meu cabelo na secretaria, né? E aí deixei ele. E eu falo que isso... A Angela Davis, quando ela chega no tribunal com o Black...

E tudo isso constrange a estrutura racista que quer você dentro de casa, quer você morto, né? Na verdade, o limite do racismo é acabar com você. E se você não está morto, você vai ter que ter todo um padrão de existência nessa sociedade, servindo, não resistindo, sendo subserviente. É para isso que o racismo serve.

E aí, quando a gente pauta a universidade, quando a gente vai para um debate de forma qualificada, que as pessoas ficam, nossa, você sabe falar, nossa, eu achei que você... Quando a gente começa a fazer parte dessas estruturas, que são estruturas hierarquizadas, começa a defender isso politicamente, começa a constranger esse modelo de sociedade brasileira...

Isso gera um constrangimento na branquitude e um alerta que a gente está querendo movimentar esse espaço. E algo que a gente tem debatido também no movimento negro é que a gente nunca teve tantos atores negros, tantas protagonistas de novelas negras, tantas pessoas negras atuando não só na dramaturgia, mas também nos comerciais, enfim, nas revistas e etc.

Mas os dados socioeconômicos e os dados também de extermínio do nosso povo, eles seguem iguais. Ou seja, o capitalismo se apropriou também da pauta antirracista, de uma forma que gera uma... Vende, né? Vende uma imagem. Dá a impressão que as coisas estão dando. Uma imagem colorida, uma imagem diversa.

mas a nossa vida, ela segue precarizada, está na mesma situação. A gente está... Os dados são os dados ainda dos anos 90, os dados de extermínio da juventude, os dados, enfim, de precarização.

A gente avançou no quesito da escolarização, obviamente, como um todo. Não só o povo preto, mas toda a sociedade avançou nisso. Mas os dados de desigualdade seguem os mesmos. Então, é algo para a gente observar também. Mudou ou parece que mudou? Porque a gente está trabalhando muito mais, mas as coisas mudaram, de fato? Ou elas mudaram para permanecer a mesma coisa? Tem-se a impressão que...

Porém, na verdade, lá na raiz, não. E eu vejo assim também a questão da participação política dentro das câmaras, das assembleias. Ainda bem, hoje a gente tem muito mais mulheres, muito mais mulheres pretas, isso é importantíssimo, e que normalmente, o que você falou ainda há pouco, tem tudo a ver. São elas que movimentam ali a confusão toda.

São elas que normalmente questionam, que elas estão à frente, que elas enfrentam de verdade e que trazem pautas progressistas. Isso é fundamental, isso é muito importante. E tem uma perspectiva, será que nós teríamos uma perspectiva de aumento dessa participação? E quão é importante nós, negros, pardos, pretos, etc., estarmos nesses locais?

que são locais que decidem sobre a nossa legislação, aquilo que vai reger a nossa vida no dia a dia, né? Porque a lei...

ela vai dizer para você se você vai continuar pobre ou não, se você vai ter uma casa ou não. E a nossa presença nesses locais em que se decidem essas leis, se votam essas leis, é superimportante. Será que a gente tem uma perspectiva de aumento dessa participação das mulheres, das mulheres pretas, dos homens pretos, nesses lugares? Porque se a gente vê, por exemplo, só um lá dentro.

o inominável, tem lá um que anda junto com ele o tempo todo só para dizer que ele não é racista, que o amigão dele, do peito, que anda com ele tudo até canto, é uma pessoa preta. Então, quanto será? Será que a gente tem essa perspectiva? Porque você está estudando, você sabe que existe. Será que existe uma... Eu tenho sentido um avanço, Valéria.

assim, em termos de participação, de nós, enquanto pessoas que têm essa representatividade, nesses espaços políticos de decisão.

Ainda não chegamos ao executivo. Então, uma prefeita preta. Seria tão bom, não é? Uma presidenta da República. Uma presidenta da República. Aqui na cidade de São Paulo, a gente teve a Teodosina Ribeiro, que foi a primeira mulher negra eleita. Estou estudando a trajetória dela, inclusive, na tese.

E ela também foi deputada estadual, a primeira deputada estadual negra. E a Leci Brandão foi a segunda deputada estadual negra. Que é uma hora, agora é recente, se pensar. E ela ficou, durante muitos mandatos, sozinha, sendo a única. Leci. Sendo a única. É dela a medalha, tem dozina Ribeiro. E é absurdo, né? A gente tem uma lesbe com 200 anos de história e a Leci é a segunda mulher negra.

eleita deputada estadual negra pela cidade de São Paulo, pelo estado de São Paulo. E recente, né? E recente, recente. Exato, e ela abriu caminhos para que outras pudessem estar lá hoje, né? E temos algumas hoje, ainda muito pouco, mas temos algumas, né? Então, existe esse avanço e existe esse outro lado também, o que a gente estava debatendo, né? Porque nem todo negro é irmão.

Existem pessoas negras, né? É difícil falar isso, mas existem pessoas negras que estão a serviço do sistema, né? Capitão do Mato sempre teve. Capitão do Mato sempre teve. E a direita tem se apropriado muito dessa pauta também, assim como o sistema capitalista, né? Que é o que a gente estava debatendo.

É algo que a gente precisa até formular melhor, porque o racismo, todas as pessoas negras vão sentir, independente de serem de esquerda, de direita, ricas, pobres, de formas distintas, mas elas vão sentir. Agora, existem pessoas negras que caminham para uma luta individual.

Assim como existem mulheres que se tentam... Elas não lutam pelos direitos das mulheres. Muitas elas tentam ali o viés individual, até se favorecendo do patriarcado. Sim. Existem mulheres que atuam de forma, enfim...

que a gente não pode citar, né? A atuar, é, defendendo isso, porque existe um ganho pessoal, existe um ganho pessoal, ainda que, né, enfrentem machismo em muitos contextos, né, óbvio, mas existe uma linha, né, de atuação que não é uma linha pro bem comum, é uma linha de atuação individual. Então, a direita tem se apropriado disso, né, a gente percebe isso, né, inclusive usam essas pessoas como cota também, e justamente pra descredibilizar a nossa luta, né, pra...

para criar essa cortina de fumaça, esse embrólio. Se apropriam bem das nossas pautas. Se apropriam muito bem nesse quesito do lugar de fala, mas falam desse lugar que é a favor daquilo que a gente, na verdade, quer mudar.

Então, porque existe um ganho individual ali. E aí, isso é muito importante que a gente compreenda, porque acho que a gente está num momento onde existem esses avanços e existe também a resistência e esse olhar do outro lado se apropriando dessa questão das nossas pautas.

E isso é algo que a gente vai precisar elaborar melhor para que a gente possa conduzir a nossa luta política de uma forma que a gente não se perca, né? Não se perca. Isso confunde a nossa sociedade, confunde as pessoas, traz uma visão de meritocracia, né? Não é porque eu tive, que eu persisti dentro da universidade, que eu resisti, que eu sobrevivi.

folada, né? Mas resistimos que isso é uma vitória minha, que quem não conseguiu existe... Eu falo que eu vim de uma família muito pobre, mas existia um estímulo para o estudo, ainda que aquelas pessoas não fossem escolarizadas. Então, eu ainda sou uma privilegiada nesse sentido, mas e quem vive de uma família desestruturada e quem mora em ocupação?

que enfrenta diversas formas de violência doméstica. Não consegue nem pensar na verdade nisso daí. E quem não tem essa perspectiva, né? Que é a nossa juventude de hoje. Então, quem não chegar é porque não se esforçou. Então, esse é o caminho, né? A gente abrir essas possibilidades de debates.

políticos, sistematizados. A gente organizar isso através de políticas públicas, porque todos têm direito a esse acesso. A gente fala que agora a gente está com um cursinho popular no Taboão, que é, inclusive, um cursinho que começou na juventude.

E a gente trouxe agora pela Rede Ocupa. A gente é contra o vestibular, mas o vestibular existe. E a gente precisa de pessoas periféricas ocupando a universidade. Então, o cursinho é esse caminho, né? Esse caminho de conscientização também. Então, esse debate precisa ser feito para que a gente traga essas pessoas para as universidades, porque vai mudar, vai melhorar a universidade. Sim, claro.

Mas a gente precisa também entender que não é só isso, que a gente precisa de políticas de acesso e permanência para a contenção dessa desigualdade. E a questão até do cursinho popular, isso é muito bom, porque ele tem se espalhado em outros lugares. Isso talvez seja uma das possibilidades de quem está no ensino médio trabalhando com essa molecada.

Direcionar essa turma, porque quase em todas as regiões agora nós temos cursinhos populares. E esses cursinhos, além da formação para o ingresso na universidade, eles acabam se constituindo como uma organização de resistência. E isso é muito importante, porque quando você entra nesses espaços...

que tem a necessidade de você estar fortalecido, você tendo esse pertencimento, isso ajuda muito. Então, acho que é um caminho bacana. Eu sou fruto de cursinho popular. O cursinho que eu fiz era pago, não tinha esse gratuito na minha época. Mas, assim, o que me conscientizou o cursinho... Eu falo que duas coisas me conscientizaram.

a cultura, que eu também sou fruto do teatro, que eu fiz na adolescência, e o cursinho popular. Porque, se não fosse isso, a minha visão era muito distorcida sobre a nossa realidade. Se a gente se vê na internet, né? Que o algoritmo joga a gente para coisas, né?

E TV, e às vezes o teu bairro, é tudo muito limitado. Então, a gente precisa construir isso através de pessoas também que estão enfrentando as mesmas dificuldades, mas que estão esperançando, estão esperançando um caminho. E se fortalecendo, porque dificuldade vai ter. A gente está caminhando para o final. Mas eu queria trazer antes, Najara, eu vejo...

Iniciei falando isso, as políticas afirmativas, em especial a de cotas, como um instrumento muito potente de representatividade. Você se olhar... Você olhar...

para uma pessoa e se ver é muito importante, principalmente para as nossas crianças e os nossos adolescentes nas escolas. Eu tenho experiências, ficaria aqui mais 20 minutos só falando dessas experiências que me tocam inclusive do ponto de vista emocional, porque você vê o quanto você está ali e foi importante para aquela criança negra.

Mas eu queria perguntar você, uma mulher preta da periferia, que hoje ocupa um espaço importante no legislativo, essa representatividade, você tem essa percepção do quanto isso é importante para também ser como a Alessi, ainda é aqui na Assembleia Legislativa,

de que meninas possam olhar para você e falar eu consigo, esse espaço pode ser meu. Você tem essa percepção? Tenho, desde a candidatura prefeita. Porque quando eu me lancei... O grupo, na verdade, não foi nem eu. O grupo me lançou pré-candidata prefeita. Eu falei, gente, vocês estão malucos, né? Porque eu nunca fui nem síndica de prédio. Eu vou ser candidata prefeita. E a gente tinha uma conjuntura de que...

Só tinham homens e que não tinham mulheres e nem mulheres negras, muito menos. Muito menos, é. Então, assim, as pessoas falaram, não, Najara, você representa aquilo. Você é professora, você é negra, você é mãe, você é trabalhadora, você é periférica. Você representa uma mudança política. É aquilo que a gente quer defender, a gente precisa defender. Não é sobre você, é sobre um símbolo do que a gente quer defender.

E aí eu lembro de sair na rua, né, sem dinheiro nenhum pra fazer campanha. Às vezes eu parava as pessoas, as mulheres olhavam pra mim e eu falava, eu sou candidata a prefeita, meu número é esse e tal. As mulheres olhavam e falavam, você, uma mulher negra? Nossa, peraí, me dá mais, me dá mais. E assim, as pessoas acreditavam mais do que eu. Eu achava que não ia ter sentido. E as pessoas, nossa, eu quero esse movimento. E você teve uma votação super.

Eu tive uma votação de 9 mil votos. E assim, surpreendeu a cidade toda, porque eu não tinha nenhum recurso pra fazer campanha, praticamente.

tive 12 mil reais para fazer a campanha de prefeita contra uma máquina milionária. Sim, sim. Então, assim, isso movimentou a política, até por isso que eu estou na política hoje, porque é um movimento que é coletivo. Então, a gente construiu essa candidatura, as pessoas trouxeram propostas de mudança da cidade, etc. Foi muito bonito.

E muito pesado também, a parte ruim. O medo a gente tem, mas a gente não usa. E a parte ruim, a gente... Muito difícil, muita pressão. Muita ameaça. Muita ameaça, exatamente. De várias formas. E aí, hoje, estando no parlamento, a gente teve essa construção que foi muito pesada, porque a campanha de vereador ainda é mais pesada do que a de prefeito. Porque o vereador tem muita... Enfim, coisas muito... Mas tem muita qualidade.

Não vou falar aqui, mas muitas coisas erradas. E a gente entra numa estrutura onde muitas pessoas são candidatas e etc. É uma campanha mais difícil. E aí a gente movimentou isso através dessas pautas e ganhamos a eleição. Então, a sua primeira mulher negra da periferia e que não tem padrinho político, porque costuma-se ser filho de político.

Quando a gente vê uma mulher na política, é filha de político. É uma herança. Então, a gente representa essa renovação de pessoas que estão ali representando a luta de verdade. Então, isso tem um simbolismo muito grande e a gente percebe isso quando a gente vai nas escolas. Então, a gente é muito acionado para dar palestra, muito acionado para falar das pautas da política, mas de uma forma que as pessoas queiram entender, não através da política que ela existe. Falar como professora, né, Kim? Isso.

E isso tem um significado muito forte. Acho que é por isso que a gente entende essa responsabilidade. Porque eu vejo, Valéria, que esse espaço não é um espaço de poder. Porque é um espaço de responsabilidade para nós. Para quem é uma mulher preta, esse espaço vai ser um espaço de ataque.

de muita violência política, de muito boicote, de muito... Enfim, coisas horríveis acontecem. Tem semana que é muito difícil de aguentar, e tem semana que ainda é uma pior que a outra, mas a gente sabe da responsabilidade que a gente tem quando a gente vai lá para a base e as pessoas falam nossa, é esse projeto que eu quero defender, você sabe da responsabilidade, daquilo que a gente está defendendo na base, então a gente está aqui, porque esse projeto é diferente, é aquilo que a gente...

quer atuar e representar. Então, isso é muito construtivo e é por isso que a gente está ali representando e fortalecendo essa luta. Infelizmente, chegamos ao final.

Foi excelente essa conversa. É uma conversa que daria, sei lá, três, quatro, cinco horas, né? Mesmo porque a gente teria que, se fosse falar das experiências, né, Valéria? Então, nem se fala. E assim, a gente quer agradecer muito que você tenha aceito o nosso convite de estar aqui nesse podcast. Quando você fala dos cursinhos populares, fica o recado pra todo mundo.

Professores do ensino médio, encaminhem seus alunos para os cursinhos populares. Todas as regiões, nós estamos agora com cursinhos populares. Vão atrás, orientem seus alunos. Eles precisam de orientação também, porque muitas vezes eles estão perdidos. Então, o professor é esse polo, o professor orienta. Procurem os cursinhos populares, porque eles têm feito bastante diferença. E agradecer a Valéria, que está aqui com a gente também hoje. E...

Vamos finalizar agora mais essa edição do podcast Palavras na Mesa do Sinesp. Muito obrigada. Muito obrigada, Ana Jara. Foi muito bacana estar aqui com você.

Agradeço muito, Maura e Valéria. Agradeço também ao sindicato por nos receber nessa fala tão interessante. E obrigada, gente. Vamos juntos na luta. O importante é que vocês inspiram a gente. Na luta sempre, né? Obrigada. Tchau, tchau. Gente, até a próxima.

Cotas Raciais e Identidade - Palavras na Mesa - Ep. 37 | Castnews Index — Castnews Index