Episódios de LIVREMENTE, by Clube dos Estóicos | STOICNET

LIVREMENTE | Ep 86 – Música e Saúde Mental

27 de agosto de 202658min
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Neste episódio do programa LIVREMENTE, falamos da importância da arte e, em particular, da música, como forma de expressão e manutenção da saúde mental. Para tanto, convidamos 3 músicos de excelência para a conversa, onde intervalamos com pequenos apontamentos musicais, com:Marina Pacheco | Cantora de Ópera | @marinapacheco.sopranoAlexa Almeida | Músico brasileiro e teclista | @alexalmeidakeysJohann Ahl de Oliveira | Músico brasileiro, cantor, compositor e percussionista | @johann_ahlGostou? Comente e/ou partilhe!Sponsors:@eme_saude@bom_dia_oficialPara empresas/ serviços interessados em estar presente semanalmente neste programa, contacte-nos - drivandro@drivandro.com.#drivandro #psicologia #estoicos #musica #opera #forro #acordeão #clássica #musicoterapia #comportamento #atitude #psicoterapia #mindfulness

Participantes neste episódio4
I

Ivan de Sousa Monteiro

HostPsicólogo, diretor da M-Saúde e professor universitário
A

Alexa Almeida

ConvidadoMúsico brasileiro e teclista
J

Johann Ahl de Oliveira

ConvidadoMúsico brasileiro, cantor, compositor e percussionista
M

Marina Pacheco

ConvidadoCantora de ópera
Assuntos6
  • A música como forma de expressão e manutenção da saúde mentalsaúde mental·arte
  • A música como remédio diário e sua conexão com as emoções e memóriasmemória emocional·impacto emocional
  • A versatilidade e fusão de estilos musicais no trioópera·forró·samba·música clássica
  • A dedicação e disciplina necessárias na vida de um músicotreino diário·preparação para o palco·insegurança
  • A importância da escuta ativa e da vulnerabilidade para a evolução artísticavulnerabilidade·resiliência·erros como aprendizado
  • A inovação na música e a busca por um projeto que valorize a arte acima do artistaDaniel Levitin·música erudita·música popular
Transcrição73 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
IDIvan de Sousa Monteiro

Olá, muito boa noite, boa noite, meus estoicos seguidores. Bem-vindos ao nosso episódio número 86, este episódio do Livremente que estamos a fazer há 86 semanas. Este programa é feito desde o início com o intuito de tentarmos levar ciência, metáforas, metáforas e exemplos de uma forma informal, de uma forma divertida, de uma forma mais próxima de cada um de vocês. O meu nome é Ivan de Sousa Monteiro, eu sou psicólogo, diretor da M-Saúde e professor universitário, e ao longo destas semanas vamos trazendo temas, temas que possam estar na ordem do dia ou que possam ser úteis para que cada um se conheça melhor.

Porque quanto mais nós nos conhecemos, mais inteiros ficamos, e com isso funcionamos melhor uns com os outros. Estes temas tanto posso fazê-los individualmente como trazendo convidados, como muitos de vocês já me têm vindo acompanhar. E o tema de hoje, como já devem ter percebido, é sobre música. Portanto, muito obrigado. E para isso nós hoje Vamos ter um conjunto de convidados que vamos hoje aqui conversar sobre esta temática da relação entre música e saúde mental. E enquanto as pessoas vão entrando, eu vou vos dedicar uma música.

?Voz B

Ahá, ok, isto quase que ia caindo.

IDIvan de Sousa Monteiro

Conhecem? Imagino que estas sejam as palmas, não é? Hoje era a surpresa que eu tinha aqui de início para vocês, porque nós hoje vamos ter aqui, portanto, este é o meu amadorismo, o meu amadorismo de tempos livres, para passar tempo, para relaxar, Mas não é por isto que nós estamos cá hoje.

?Voz B

Isto era apenas uma pequena brincadeira e que estou a ver aqui que a Carla diz que identificou a música.

IDIvan de Sousa Monteiro

Portanto, muitos de vocês identificaram. É claramente A Garota de Ipanema de Tom Jobim. E hoje temos aqui 3 convidados que são 3 artistas a sério. São daqueles que enchem salas, que eu tive a honra e o prazer de conhecer em Düsseldorf. Não, sim, Indústria de Alfamarina e depois na Suíça o Johann, o Johann, portanto o nome é Johann Al de Oliveira. E também temos como convidado um acordeonista que também tive a honra e o prazer de ouvir neste trio em palco na Suíça, que é o Alex de Almeida.

E portanto, nós hoje vamos convidar estes nossos artistas e músicos para se juntarem à conversa. E deixem-me agora só encontrar aqui.

?Voz B

Ok, já cá está o Alex e a Marina. Ok, já convidei os três. E agora resta-vos—

IDIvan de Sousa Monteiro

Alô, alô?

MPMarina Pacheco

Alô!

?Voz B

Ora cá estamos! Muito boa noite e muito obrigado por estarem aqui hoje neste nosso programa, livremente. Marina, Alex, Johan, é assim que se diz? Este é o termo certo?

IDIvan de Sousa Monteiro

Johan?

JAJohann Ahl de Oliveira

Sim, sim, está certo.

MPMarina Pacheco

Ok.

?Voz B

É uma honra muito grande. É o que eu estava a dizer há pouco, eu tive o prazer e a honra de vos ouvir tocar. Eu fiz esta introdução para dar aqui um bocadinho de cor neste meu amadorismo, que de certeza que vocês vão acabar por me envergonhar garantidamente, porque realmente a qualidade daquilo que eu ouvi, daquilo que foram vocês a tocar na Suíça, de facto é impressionante. E quem não conhece o vosso trabalho Acho que deve vos seguir nas redes sociais, deve saber onde é que vocês fazem os espetáculos, porque realmente acho que vocês ajudam-nos a viajar nas emoções e a distanciar dos problemas e dos deveres e das responsabilidades.

E acho que esse é o papel da música. E portanto, antes de— podemos se calhar aqui debater e conversar um bocadinho sobre esta relação entre saúde mental e o contributo que a música tem para isto. Pedia para que vocês vos apresentassem para que também os nossos seguidores soubessem onde é que vos encontram, onde é que vocês têm estado, se vocês têm passado por vários países. E portanto, começaria pela Marina, que é a pessoa que eu conheço há mais tempo. Já somos os dois colaboradores no jornal Bom Dia. Portanto, bem-vinda, Marina!

MPMarina Pacheco

Obrigada, muito obrigada pelo convite. Estou muito, muito contente de estar aqui à conversa contigo e com o Johan e o Alex. Eu sou Marina Pacheco, eu sou cantora de ópera, sou portuguesa residente na Alemanha. Neste momento estou em Portugal, estou numa turnê de concertos, e devo dizer que conheci estes dois maravilhosos seres humanos em 2018, e curiosamente através do forró. Eu digo curiosamente porque hoje é dia 13 de dezembro e é o dia do forró, tenho que comemorar o forró.

Portanto, acho muito, muito giro estarmos a fazer esta live quando foi o forró que nos juntou estes dois músicos extraordinários. E portanto, para completar, estavas a falar do nosso percurso e de onde é que as pessoas nos podem seguir e conhecer-nos. Nós temos individualmente as nossas páginas, a minha marina.pacheco.soprano. Eu sou freelancer, portanto trabalho pelo mundo fora, já tive o privilégio de cantar em mais de 15 países, isso é mágico.

E uma das coisas mais bonitas da minha profissão é realmente poder partilhar o palco com músicos como o Johan e com o Alex. No caso deles é muito especial porque como cantora de ópera nem sempre é assim tão bem aceito ou tão fácil encontrar ou entender que os nossos gostos possam ser tão amplos. E eu sou uma apaixonada por forró, como já disse, foi assim que eu os conheci, mas gosto também de cantar forró e cantar outros estilos de música.

E com o Jorgen e com o Alex eu posso de facto fazer isso, mas já podemos falar um bocadinho do nosso projeto daqui a pouco. Mas esta é a minha introdução e mais uma vez obrigada por estar aqui.

?Voz B

E a propósito de forró, aqui há tempos eu sou um apaixonado por música, porque realmente leva-me e distancia-me bastante do meu mundo, porque o meu mundo é lidar muito com os problemas das pessoas, e portanto acaba por balançar e trazer esse lado positivo, não é? De trazermos esta— quer dizer, acaba por ser uma forma de contar as mesmas histórias das nossas vidas, mas de uma forma muito mais poética e muito mais Não é leve também, mas de uma forma de trazer leveza à complexidade do que é a vivência de cada um, não é?

E curiosamente, não sei se, mas à partida eu estava aqui há tempos a falar com um amigo que está no Brasil, que eu tenho família no Brasil, portanto um abraço estoica aqui para os nossos amigos do Brasil, né? Estou com vocês, né, meus amigos? Que era a origem do forró, né? O forró, pelo que eu percebi, veio da escravatura, em que eles estavam nos navios, na parte de baixo do deck, do porão aliás, e no meio daquele conjunto de pessoas que estava lá embaixo, eles ouviam a música dos andares superiores e das festas dos níveis superiores do navio.

Então eles, havia sempre aquela ligação, que havia pessoas que fugiam para tentar conviver e aproximar-se da escravatura, não é? Das pessoas, porque havia ali muita preocupação também com o aproximar-se das relações humanas e destas sensações de não encaixarem nas tribos. Os que estavam num lado queriam encaixar no outro e os que estavam no outro tentavam encaixar naquilo que fazia sentido para si. E nesta aproximação eles ouviam a expressão que this is music for all.

Então, no meio daquele debate todo, então this is music for all, this is music for all, for all, for all, então ficou música for all. Não sei se é isto, isto foi uma história que eu ouvi, mas que aceito deliciosa realmente, como é que se consegue aproximar esta música para todos, não é? E isto leva-nos aqui talvez ao nosso acordeonista. Se calhar é um instrumento que talvez se ouve com mais frequência aqui, a nossa máquina, não é?

Então, Alex, quem é você, né? Você é brasileiro também, né? Eu não sei que cidade você é, que zona do Brasil, mas teria muito gosto, por favor, para você se apresentar.

AAAlexa Almeida

Com prazer. Primeiramente, boa noite, obrigado pelo convite. Meu nome é Alex de Almeida. Acordeonista, acordeão ou sanfona, como muitas pessoas também falam no Brasil, né? E na verdade é tudo igual: acordeão, gaita, sanfona. A gente tudo trata esse mesmo instrumento com diferentes apelidos, como a gente diz no Brasil, né? Com diferentes nomes carinhosos, vamos dizer assim, né? E sobre a teoria do nome forró, existem assim várias teorias.

Como não é uma Como tudo que se trata de folclore ou de popularismo ou de coisas popularescas, por assim dizer, existe a teoria do for all, dos soldados ingleses e americanos que visitavam festas brasileiras que eram para todos. Então, como brasileiro, como bom brasileiro, sempre vai tentar pronunciar as palavras estrangeiras num bom português abrasileirado. Então, como não conseguimos falar for all, falamos forró. Então, através dessa conjuntura, tem realmente essa essa lenda, mas é uma lenda, né?

Não tem como a gente realmente afirmar acerca disso. Mas é como todas as coisas no Brasil, é uma mistura daquilo que na verdade todos falam acerca do Brasil, né? A mistura de todos os ritmos, de todas as raças. E através dessa união de todos esses povos, né, a gente teve o forró, teve o choro, samba, né? E através dessa raiz que o samba é o pai e a mãe de todos, e o forró é um desses ramos que saiu dessa árvore, é um desses frutos do nosso pai maior no Brasil.

?Voz B

Dá vontade logo de acompanharmos e do nosso corpo mexer e acompanhar a música.

AAAlexa Almeida

Sim, é maravilhoso, né? O nosso querido Johan, que a gente chama carinhosamente de João para não errar o nome, porque senão a gente também complica. Acabou de vir de um forrozinho e pode dizer melhor o que que tá rolando aí hoje, dia 13 de dezembro, né? Dia mundial, vamos dizer assim, universal, dia no Brasil internacional do forró, porque é o aniversário de Luiz Gonzaga, o grande difusor, né, dessa, desse estilo musical.

?Voz B

Então um enorme abraço, parabéns a todos os adeptos do forró e todos os músicos do forró, porque realmente é uma música que que nos fica na alma, não é? E Jochen, João, então quem é você, por favor?

JAJohann Ahl de Oliveira

Pois é, eu tenho esse nome que é complicado, era um nome complicado no Brasil de pronunciar, foi a vida inteira. Agora na Alemanha, mas como eu faço muito forró, então a gente acabou, acabaram me chamando de João, que é para ficar mais fácil. E para ficar, muita gente não acreditava que eu era brasileiro, mas é, chama Jochen, tá tocando forró, isso não combina. E aí me chamavam de João já logo, para não é o João, ele nem parece muito, mas é o João mesmo.

?Voz B

Mas aí é que combina, porque você é música for all, não é? Então tem que combinar.

JAJohann Ahl de Oliveira

Tem que ser. Também tem essa coisa do forró bodó que vem da música europeia, é uma também uma vertente muito forte também para o forró. Igual o Alex falou, não existe nenhuma teoria que foi estudada pelo folclore, é um pouquinho complicado, mas a gente aceita tudo. Então é tudo, tudo faz parte da teoria do forró, do início do forró. Agora, eu vim parar no forró um pouco tarde assim, porque como acho quase todos os outros, eu comecei pequeno com um pouquinho de música clássica, mas logo já depois vim começar a fazer o violão.

Que é o instrumento que eu toco também no trio. E queria ser guitarrista de rock, assim, eu queria ser roqueiro. Então eu sempre fui toda a minha infância, até o dia que eu fui parar no conservatório, que não tinha mais a possibilidade de estudar o violão. E acabei estudando violino e fui para música clássica. E daí eu vim até adulto, até entrar na universidade, e de lá eu descobri o forró Descobri a música brasileira e depois eu acabei saindo um pouquinho da música clássica erudita, vamos assim dizer, depois de trabalhar.

E hoje em dia eu conheci através do forró, eu conheci a Marina, que é uma cantora também erudita, e o Alex e todo mundo. A gente acabou formando esse trio agora, não tem muito tempo, né? Tem muito tempo que a gente já se conhece, mas não tem muito tempo que a gente tá com essa nova formação.

?Voz B

Naquela pequena amostra, naqueles momentos musicais que tivemos o privilégio de ouvir vocês tocar quando estivemos na Suíça, deu para perceber que há aqui uma componente de versatilidade gigante de vocês, porque como é que se combina ópera com forró, com samba, com a composição, porque eu sei que o Jorgen também compõe. Como é que se faz isto tudo? Como é que vocês, quer dizer, imagino que 3 cabeças com estas atividades todas, isto numa pauta deve ser assim uma coisa que tem que ficar bem sincronizada, não é? Quem é o mestre?

MPMarina Pacheco

Na realidade, eu acho que o bonito do nosso projeto é que nós todos estamos, nós os 3 estamos muito empenhados e não digamos que não dividimos tarefas. De repente eu posso ouvir alguma música e sugerir no grupo, e o mesmo faz o Alex, e mesmo faz o Johan. O bonito é que cada um tem o seu background, não é, a sua experiência, e juntamos isso numa mesma interpretação de uma canção que escolhemos juntos. E uma das particularidades do nosso projeto é que nós escolhemos a canção, digamos, que fica central, que nós queremos defender, Mas depois a canção leva uma roupagem totalmente diferente.

Nós temos, por exemplo, um dos nossos fados mais conhecidos que interpretamos claramente como cantora clássica, portanto erudita, lírica. Mas é esse o cunho que eu quero dar. Não sou fadista, portanto não seria da minha parte correto sequer tentar aproximar-me do fado, da técnica de um fadista. Mas depois escolhemos, por exemplo, este fado que eu estou agora a pensar, não vamos revelar, que é para deixar aqui alguma curiosidade.

Descrever, mas o Alex e o Johan conseguiram misturar com este fado uma das canções mais conhecidas de forró. E portanto, de repente uma pessoa começa a ouvir uma coisa e encaixa com outra, mas tudo é tão nosso, é tão rico, é tão a nossa formação e a nossa experiência enquanto um simples ouvinte de música, não é? Porque nós, eu sou cantora lírica, sou formada pelo clássico, não é? Mas tenho toda uma outra panóplia de estilos de música que eu gosto de ouvir e que gosto de interpretar e que gosto de misturar. Acho que o segredo é sempre dar o nosso melhor e acreditar naquilo que fazemos.

?Voz B

E isso merece um sim, não é? Estou a ver os botões que eu adoro, estes botões, não é? Estou a começar a ganhar hábito com isto e estou a achar piada. E isto é curioso porque quando, e pegando um bocadinho do que cada um disse, e nos dias de hoje porque a vida está muito mais superficial em muitas coisas e nós acabamos por não ter o tempo suficiente para aprofundar o conhecimento, para aprofundar a informação. Mas esta integração das experiências de vida, o conhecermos a realidade da forma como a história construiu o conhecimento e como é que nós chegamos depois, a partir desse conhecimento adquirido, para recriar e ter criatividade e conseguir criar coisas novas, A criatividade e essa arte de— ops, aqui o nosso Johan caiu a chamada— esta capacidade de recriar a música e de conseguirmos integrar a história e o conhecimento, isto tem a ver com um trabalho de muita dedicação também do vosso tempo, porque a arte dá muito trabalho, não é?

Como é que é para vocês o vosso dia a dia? Como é que depois as coisas saem tão bem naqueles Naquele concerto de 2 horas, que imagino que seja mais ou menos este tempo que vocês dão um concerto, hora e meia, 2 horas, aquelas 2 horas, quantas horas de trabalho compactua? Qual a dedicação da vossa vida que vocês têm no vosso dia a dia, os cuidados que têm, para que depois consigam brilhantemente oferecer aquele momento para nos tornar a vida mais leve durante um concerto?

AAAlexa Almeida

É, eu posso dizer assim acordeonisticamente falando, mas acho que no geral, acho que para todos os instrumentos, ou para todos, para cantar ou para atuação em si também no palco, né, a forma que nos movemos, a forma que sorrimos, ou a forma que conseguimos interpretar alguma coisa. No meu caso, tem que ser uma coisa diária que faça parte do seu dia a dia. Passar tempo com o instrumento, tentar descobrir a forma que o instrumento melhor se encaixa ao corpo, tentar fazer com que o instrumento seja uma continuação do corpo, você consiga respirar com o instrumento, consiga pensar com o instrumento.

Porque a partir do momento onde o instrumento passa a ser um empecilho, passa a ser um entrave entre o ouvinte e o músico, então é onde as coisas começam a dar errado, né? Então acho que Esse dia a dia tem que se policiar muito para depois do café da manhã pega um pouquinho instrumento, almoça, pega um pouquinho instrumento, escuta música, pega um pouquinho instrumento. Porque se faltar isso, falta depois toda essa convivência e essa experiência para na hora do palco, né, que é a hora que a gente fala no Brasil que a hora do vamos ver, a hora que o bicho vai pegar, é onde tudo tem que estar automatizado, né.

Lá não se pode ter dúvidas e aonde muito que a saúde mental também, a insegurança, né, de cada um acaba interferindo muito, né, aonde você tem que estar seguro com si mesmo, tem que estar muito tranquilo, não só tecnicamente, mas também com a sua mente totalmente livre, totalmente conectado com a música. A partir do momento que você pensa, será que a pessoa X tá me olhando? Será que a pessoa Y tá me avaliando? É onde as coisas começam a sair do controle musical, né?

?Voz B

Você perde essa conexão. Esse ponto é importante porque quanto mais nós estamos preocupados com o que os outros pensam, mais prejudica a vossa performance.

AAAlexa Almeida

É terrível. Eu posso dizer assim, com experiência de 200%, de duas chances que eu tive de tocar com mestres assim, de pessoas que eu admirava muito, e você tentar pensar com a cabeça de quem está ouvindo e pensar: e agora, será que ele está esperando de mim um A? Ou um B. Ele está esperando de mim que eu me mexa para a esquerda ou que eu me movimente para a direita, sem pensar de que independente do que eu faça eu tenho que ser eu e tenho que apresentar as minhas coisas da forma que são.

Então quando eu toquei com os meus ídolos acho que foram as minhas piores atuações, porque eu tentei pensar com a cabeça dele.

?Voz B

Será que ele vai gostar de mim? Será que vai gostar do que eu estou fazendo? Claro. E Jochen, já está de volta, não é? Aqui houve esta interrupção. Mas uma pergunta a propósito do que o Alex falou: você dorme com a guitarra? Você tá indo para todo lado com a guitarra, tá colado em você?

JAJohann Ahl de Oliveira

É, esse é um ponto importante com a vida que a gente acaba levando depois de adulto, né? Enquanto a gente tava estudando na universidade, o mais novo, não sei, era mais fácil ter o instrumento toda hora. Na mão, né? O fato de dar aula também, fato de também dar aula de violão, ajuda a ter o instrumento na mão toda hora. Tem que fazer um esforço para poder achar os horários, ter uma disciplina de estudo, porque senão a gente acaba se perdendo no dia a dia.

Mas todas essas coisas são importantes. E também tá preparado para o momento de a gente não ter o instrumento toda hora. A mão durante toda semana, só que tem que chegar ao palco e ter a mesma, a mesma disposição com o instrumento. E aquilo ali vale muito daquilo que a gente guardou nos nossos músculos, da nossa lembrança muscular, e tá na hora bem focado, né? Eu inclusive, nesse ponto aí, como a Ale já teve essas duas experiências, eu tive experiências horríveis foi com violino, né, um instrumento que eu acabei praticamente abandonando.

Ainda tenho violino, ainda dou aula, mas o instrumento no palco foi— eu posso falar muito disso. Muita gente tem medo de falar, medo de falar disso, né. No Brasil, por exemplo, vários músicos clássicos tomam remédio, né, para tocar. Tem um remédio que chama propranolol, bastante conhecido para quem— bloqueio de adrenalina, chama beta-bloqueador, né. Muita gente toma isso. E a partir do momento que eu percebi que na área do erudito muita gente tinha esse medo de tocar, porque tem um público um pouquinho mais que tá ali para ver, para criticar, e bom, eu comecei a não gostar daquele ambiente, né?

E para mim não tava fazendo bem. Então esse projeto também para mim é um pouco um retorno.

?Voz B

Esse ponto é importante porque quando diz que cultura é não fazer sentido, não é? Quase que comecei a não gostar. Isso é um fator muito importante para quem está nas artes ou para quem está em qualquer área profissional, que é saber ouvir o que sente para descobrir o caminho certo. É preciso nós ouvirmos o que é que estamos a sentir, porque o nosso corpo fala connosco, não é? Nós vamos, as nossas vísceras, a nossa tripa, o nosso instinto, não é?

Ele vai comunicando connosco, vai-nos dizendo se calhar não é por aqui, ou se calhar deves seguir outro caminho, ou deves escolher outro instrumento, ou deves escolher outro formato, outro gosto musical. E é essa escuta ativa, que a consciência que vocês vão tendo, que vos vai orientando e levando por estes mundos novos e estes trabalhos mais criativos, que começa a ajudar a passar o tempo melhor. Porque quando a vida corre bem, ou quando gostamos do que fazemos, o tempo voa, não é?

MPMarina Pacheco

Sem dúvida.

?Voz B

Isto, mas interrompi aqui esse raciocínio do Johan por causa dessa mudança. Portanto, houve aqui a mudança do violino, não é? Em que ficou apenas para dar aulas, pelo que eu percebo.

JAJohann Ahl de Oliveira

Às vezes também acontece de tocar, mas agora com esses projetos novos, a partir do forró, quando eu toquei com esse conjunto que a gente tem também fora de cá pela primeira vez, foi a hora que eu senti. Eu tava fazendo um mestrado em música e ali eu voltei a sentir no palco. Eu me lembro de bem, Aachen, na Alemanha, e ali eu voltei a sentir no palco aquilo que a música me proporcionava. Foi aquele sentimento e me deu vontade, muita vontade de chorar até no dia.

Eu me lembro bem disso. E foi me encaminhando também para voltar. E agora com esse novo projeto do trio, que a gente tem a possibilidade de juntar a música erudita com a música popular, com a música portuguesa, com a música antiga que a gente gosta muito, com os arranjos novos para músicas antigas. Então é uma mistura e onde todos nós nos sentimos muito bem.

?Voz B

Só quem sabe o que faz e conhece em profundidade a matéria que tem, essa arte, é que depois consegue juntar e recriar combinando 3 personagens de mundos diferentes, não é? E isto é que é a parte mágica de tudo. E se calhar esta é uma mensagem que aqui eu deixo como metáfora, que é para nós conseguirmos de facto servir o outro ou trazer algo que possa ajudar o outro a tornar mais leve ou a lidar melhor com circunstâncias da sua vida, o termos esta autoexigência connosco para conseguirmos aperfeiçoar aquilo que gostamos de fazer, o talento não chega.

É preciso muita dedicação, é preciso tempo e é preciso sacrifício para nós conseguirmos de facto depois conseguirmos ver o que se calhar vocês vão nos brindar, só um bocadinho daquilo que vocês fazem, porque essa arte é o que depois parece que é fácil quando nós assistimos. Mas tem este trabalho todo por trás que depois torna leve e simples aquilo que se vê, não é? Marina, que cuidados é que tu tens para conseguirmos ter este— eu não sei quantas oitavas tu consegues cantar, mas pelo que eu ouço—

MPMarina Pacheco

nós de facto, de forma geral, todos os músicos temos, acabamos por ter uma certa disciplina, não é? Porque são de facto exigidas muitas horas de treino. É como o Johan dizia, memória particular, fica, é um dos processos, portanto toma o seu tempo. Como cantora, claro que há uma série de cuidados, depois isto depende de pessoa para pessoa, de corpo para corpo, mas há uma série de cuidados que nós gostamos de ter, não é? Eu, por exemplo, hoje tive concerto, vim aqui quase direto do concerto, então sei que amanhã eu vou precisar descansar um bocadinho melhor, depois também tenho ensaio à noite.

Portanto, há assim uma certa, dentro de nenhuma rotina que nós temos, porque há ensaios de uma hora, de uma hora, concertos a outras, Há que encontrar aqui alguma disciplina, não só em termos de estudo, mas também em termos de cuidado da voz, do corpo. E acho que hoje em dia, e ainda bem, e ainda bem esta live também, já se pode falar mais à vontade e as pessoas já começam realmente a tomar consciência que não é só o corpo, não é só técnica, é saúde mental.

Contribui imenso o nosso bem-estar mental, sabermos identificar quando alguma coisa não está bem. E a carreira de um músico, a profissão de músico, é muito exposta. Se por um lado temos os nervos de palco, como falava o Johan, as inseguranças, como falava o Alex, também há muito tempo de solitário, de estudo solitário, em que há toda uma margem e um espaço para nós darmos aqui asa à imaginação e aos pensamentos mais perversos contra nós próprios, né, da nossa insuficiência, de comparação, que é uma coisa que eu detesto e que parece tão enraizada na nossa sociedade esta quase necessidade de nos compararmos, porque aquele cantor fez isto e o outro fez aquilo, instrumentista chegou ali, eu não cheguei.

É, e eu acho sinceramente que há espaço para todos e não precisamos fazer todos o mesmo. E é necessário perceber que nós não somos máquinas e que há falhas, e que isso acontece, e que o objetivo é aprender e crescer com essas falhas e não martirizar-nos. Porque eu não acredito na perfeição. Acho que a música é algo tão sublime, para algum dia eu cantar alguma coisa na perfeição Eu, Marina, duvido.

?Voz B

E não, e se calhar estás a tocar num ponto que é a importância de nós assumirmos as nossas vulnerabilidades para conseguirmos chegar à resiliência e à arte de conseguir navegar contra a corrente, de conseguirmos perceber que podemos evoluir sempre, que as falhas e os erros são importantíssimos para aperfeiçoar a qualidade do trabalho. E portanto, eu costumo dizer que quanto mais falho, menos falho, porque ao fim e ao cabo nós é precisamente onde estamos a adquirir novo conhecimento, nova competência, mais qualidade no que fazemos.

É nesse território da expansão que nós provavelmente vamos falhar, é quando nós estamos a chegar mais longe. E por isso, onde é que nós nunca erramos? Naquilo que já sabemos fazer. Naquilo que é o nosso, aquilo que é o dia a dia. E portanto, a nossa arte, quando fica estagnada ou quando nos convencemos que somos bons naquilo que fazemos, mas esquecemos de continuar a perceber que nós somos um organismo vivo, o que temos hoje podemos não ter amanhã, e tudo é efémero se nós conseguirmos realmente deixar de cuidar.

E por isso, o ser bom em alguma coisa é quase que o estar bom, porque isso é o que permite a evolução contínua. Isto não é ser profissionista, porque o profissionista está sempre frustrado porque ainda não está bem, não é? Mas é quase que a arte e o engenho de irmos sabendo apreciar o processo de evolução. Olha que bem que eu cantei agora, só foram 3 falhas. Antes eram 4. E no momento em que tu consegues se calhar 3, foi a primeira vez na história da minha vida que ao fazermos este ensaio só errei tão poucas vezes e portanto estou melhor que nunca.

Portanto, esta arte de conseguirmos ver o copo meio cheio, nunca negando a realidade que existe, nunca rejeitando a evidência, por isso é que é importantíssimo quando no início também falávamos desta questão de percebermos a história de origem das músicas, e depois digo isto um bocadinho para todas as áreas, a importância de nós realmente entendermos e ganharmos consciência de como é que as coisas chegaram aqui. Porque nós só conseguimos fazer evoluir qualquer arte ou qualquer técnica ou competência quanto melhor eu conheço como é que o processo chegou a esta realidade.

E se eu chego ao presente e consigo perceber como é que chegamos a este momento, qualquer um de nós vai conseguir ser mais criativo a pegar na evidência e a recriar de outra maneira, combinando coisas que depois trazem uma renovação da arte e da música que fazem surpresas magníficas que nós quase que até nos arrepiamos a perguntar, meu Deus, como é que essa gente fez isso? Portanto, acho que realmente isto é um bocadinho aqueles momentos que dá para nós ganharmos enquanto audiência, porque é esse privilégio de vermos aquilo que é arte que vocês fazem enquanto músicos.

Porque a música é feita não para servir o artista, mas para o público, para a audiência, para as pessoas, para nos fazer viajar, para nos fazer sonhar, para nos recriar a vida de outra maneira, não é? Como é que vocês olham para a vossa música na vossa vida?

AAAlexa Almeida

É engraçado que eu acho que quando você tem que estudar repertório assim, há momentos que o silêncio é mais importante que a música, que também é importante, né? Uma coisa a gente sempre pensa assim, né? Depois de um show, muitas vezes quando a gente voltava no mesmo carro, todo mundo junto, uma pessoa quer muito continuar escutando música a viagem toda, a outra não quer saber nem de voz de ninguém, nem de nada, só quer descansar.

Mas eu acho que assim, numa questão tanto transcendental como mecânica, a música ela é um remédio que na verdade todo mundo usa diariamente, seja para ficar feliz, para dar risada, seja para sentir tristeza, né? Porque muitas vezes a gente utiliza da música porque também a saudade e a tristeza é uma coisa que também traz prazer de uma certa forma.

?Voz B

Forma, né?

AAAlexa Almeida

Então é músicas que eu escutava quando da minha infância, de que os meus pais ouviam, e que eu achava as músicas que eu achava ridículas quando eles ouviam, eu escuto hoje por saudade deles. Então toda essa ligação que tem da saudade da família, dessa ligação de agora eu preciso de sentimento X, sentimento Y, Eu acho que todo mundo, mesmo que seja indiretamente, mesmo que a pessoa não tenha noção nenhuma de dó, ré, mi, de teoria musical, de instrumento, de que é a música ou de qualquer tipo de ritmo, todos nós tiramos acho que um bocadinho de vantagem, né, de termos música em todos os cantos a todo momento.

?Voz B

A música é sempre conosco, é genética, quer dizer, nós gostamos, nós temos ritmo desde que nascemos, é o coração, logo aí, né.

AAAlexa Almeida

Então, no caso, acho que a minha ligação com a música foi mais ou menos uma questão, profissionalmente falando, foi uma decisão. A partir desse momento eu só faço isso. E porque eu acho que na verdade a minha maior paixão, como todo bom brasileiro, primeiramente foi o futebol. A música era segunda divisão na minha vida, até um tempo que eu anotei e falei, não, mas acho que a música vai dar menos trabalho.

?Voz B

E a propósito disso, Alex, e aqui perguntando ao Johan, que é, o Alex falava na decisão, ou seja, houve um momento que eu decidi começar só a fazer isto. Nós vamos ouvindo, não é? Nós vamos descobrindo o nosso caminho a partir das experiências que vivemos, como dizia o Alex, pegando nas experiências da infância, vamos acumulando experiências que vão mexendo com as nossas emoções, positivamente ou negativamente. Aliás, nós sem emoção não gravamos memórias.

Ou seja, a memória só existe na nossa vida porque tem uma experiência emocional associada a esse acontecimento, porque se não houvesse emoção na experiência, nós não trazemos memória. Uma boa pergunta é, por exemplo, Alex, como é que, qual foi a sua refeição no dia 14 de janeiro deste ano?

JAJohann Ahl de Oliveira

Boa pergunta.

?Voz B

E qual é a data do seu aniversário?

JAJohann Ahl de Oliveira

29 de julho.

?Voz B

Então, como é que, qual foi o seu almoço? Como é que foi o dia 29 de julho?

JAJohann Ahl de Oliveira

Eu vou ter que pensar porque agora já não sei mais, mas provavelmente, provavelmente fazendo isto, eu vou me lembrar de vários fiz vários aniversários. Eu vou lembrar, eu tenho na lembrança, talvez eu tenho que pensar como foi o desse ano, mas de todos os últimos anos na Alemanha eu tenho lembrança, por exemplo, de cada ano o que eu fiz um pouquinho do meu dia, né, dos meus aniversários, porque é um dia importante para mim. Então, por exemplo, vou lembrar que esse ano eu passei com os meus pais, né.

Eu não me lembro agora exatamente qual foi o prato que eu almocei no dia, mas Isso é um bom exemplo.

?Voz B

Eu perguntei duas datas, uma ao Alex e outra ao Johan, e porque a data do Johan tem carga emocional associada, a sua memória vem experiências associadas, então vai recordar. Como no dia 14 de janeiro não houve uma experiência que marcasse a vida do Alex, então ele não se recorda desse dia. Por isso não é um problema de memória, é sim uma falta de impacto emocional na experiência. E é por isso que as músicas marcam, não é? Infância, aquele CD naquele dia em que aconteceu aquela experiência, e que, sei lá, o dia que eu me apaixonei e que a vizinha tava lá e eu olhei para ela e tava a dar aquela música na rádio.

Que coisa maravilhosa! Tô sentindo o momento como se fosse hoje. E portanto, esta, esta importância de nós trazermos as nossas experiências ouvir o que sentimos, pegar no passado, trazer para o presente e depois deixar fluir. Porque depois a música, quando é sentida, e aqui a Marina sendo alguém que usa a voz como instrumento, a música sentida é o que depois sai, não é, pela voz.

MPMarina Pacheco

É, sem dúvida. E lá está a importância da palavra, não é? E do sabermos e percebermos bem o que estamos a dizer e o estudo do contexto também. Há todo um trabalho por detrás, para além de cantarmos em inúmeras línguas diferentes, portanto, e esse cuidado com a fonética também, porque muda muito. Tudo isto tem importância naquilo que queremos transmitir ao público, na forma como queremos transmitir. E outra das coisas mais bonitas desta profissão é que nós podemos ter um repertório fixo, nós os três, mas a interpretação nunca vai ser igualzinha de um concerto para o outro.

Isso é tão interessante, não é? Até porque bebemos o que o público nos está a dar. E a interpretação vai ser inevitavelmente diferente. A estrutura está lá, as palavras deverão ser as mesmas, senão não é muito bom sinal, mas há de haver sempre um toque especial. Cada concerto é um concerto, cada público é um público, e mesmo nós que estamos em momentos diferentes, em situações emocionais diferentes, mais bem dispostos, menos bem dispostos, com um problema na cabeça ou não, a verdade é como o Alex dizia, chegamos à hora do concerto, estamos completamente focados naquilo.

Mas há sensações no corpo, há coisas que estão a acontecer que às vezes nós nem damos conta, estão para além daquilo que nós conseguimos absorver no nosso consciente, mas que interferem com a forma como vamos interpretar e com a nossa entrega. E há momentos que não têm explicação, que são dos momentos mais bonitos de se viver em palco enquanto artista, que é quando há uma fusão que nós não vemos, só sentimos uma energia muito especial de que as coisas estão a fluir levantar, de dar aquele arrepio que nós não sabemos exatamente de onde vem, só sentimos que de repente estamos num uníssono muito bonito.

?Voz B

Isso é aquilo que na psicologia ou na ciência do comportamento nós dizemos que é o estado flow, não é? Quando nós estamos em flow, que é quando estamos em alta performance, não é? É quando parece que as ondas cerebrais e a nossa energia está toda muito ali numa, num pico de de estarmos lá. Ou seja, é como dizia o Nietzsche em relação à felicidade, que é o instante de vida que vale por si só. E esses momentos da música, se calhar quando estás a descrever esses pequenos picos que vocês devem sentir, é quando o instante da arte vale por si só, não é?

Um aspecto importante que comentaste e que realmente é importante trazer aqui à consciência É a semântica da linguagem que é preciso ser entendida, não é? Nós precisamos entender de uma forma narrativa a história, precisamos perceber que se nós não articularmos a lógica dos nossos pensamentos sobre a leitura do que estamos a tocar ou a cantar, as coisas já não saem tão bem, não é? Portanto, é preciso pegar nesse contexto e nessa narrativa.

E entender de uma forma profunda o que é que, quase que num papel de artista, né, colocando-te nos sapatos de quem está nesse lugar, o que é que essa pessoa está a sentir. Como é que é essa transição ou esse processo de vivência do que é que o outro queria dizer quando estamos a cantar esta música? Para qualquer um de vocês.

JAJohann Ahl de Oliveira

Acho que nesse caso é melhor à Marina dizer, porque ela Como que uma cantora pode falar melhor sobre essa questão emocional, ainda mais com texto, né?

MPMarina Pacheco

Sim, é. Mas também devo dizer que é muito importante a forma como os instrumentistas também estão comigo nesta transmissão de emoção que cada palavra tem, que está intrínseca. Porque, sei lá, há momentos da frase. Portanto, aqui não é só a palavra que lá está a transmitir alguma coisa, a música, a melodia, a harmonia que está construída sobre isso passa realmente uma combinação para que essa palavra tenha aquele efeito desejado.

E tem muito trabalho por detrás, é o contexto do que estamos a dizer, nomeadamente estávamos agora a falar mesmo, não é, que vinha essa história do forró, não é? Por isso por exemplo, todas as canções, todas as peças que eu interpreto, as óperas, enfim, a oratória, há um porquê por detrás, há uma mensagem que queremos transmitir. E muitas vezes há formas diferentes de transmitir, então condicionadas por aquilo que nós próprios queremos, ou até em ópera que o condicionador quer transmitir.

Portanto, há aqui uma série de coisas a ter em consideração para conseguir Chegar ao público. Não vamos chegar de forma igual a cada pessoa, bem pelo contrário.

?Voz B

Tenho uma ideia. Ops, outra ideia. Gostava se calhar agora de que será que algum de vocês podia nos brindar um bocadinho só da vossa arte?

JAJohann Ahl de Oliveira

A gente, nós temos aqui só uma, eu não sei como vai ser com a questão, como a gente tá na Alemanha, a hora às vezes é um pouquinho complicada aqui para tocar algum instrumento.

?Voz B

Eles são muito, pronto, tenta empenar, porque aí é uma hora mais tarde, não é?

JAJohann Ahl de Oliveira

Já são 11 horas aí, são quase meia-noite aqui agora.

?Voz B

Ó, que pena, realmente eu acho que era brilhante. Mas a parte boa é que temos vários momentos que vocês colocaram nas vossas redes sociais e recomendo a quem está a ficar muito curioso com esta nossa conversa para ir ver os nossos perfis e seguirem se ainda não nos seguem. Pegando também um bocadinho neste projeto, se calhar aí há pouco vocês falaram que então criaram um projeto e estão a levar este trio, não é, com um objetivo. Portanto, o que é que vocês estão a fazer E onde é que estão a levar este trio?

MPMarina Pacheco

Bem, à semelhança de qualquer projeto onde eu estou envolvida, acho que uma das belezas desta profissão é deixarmos fluir também. E as coisas têm-nos acontecido assim de uma forma muito bonita e às vezes inesperada. Foram convites que foram surgindo. Nós também temos esta flexibilidade porque adaptamos a cada momento, a cada evento, a cada contexto. E portanto, há uma base, uma ideia central nisto tudo que tem a ver muito com as nossas memórias e as músicas da rádio que tocavam na rádio, que hoje em dia tocam na rádio, porque lá está, nós vamos adaptando àquilo que é pretendido também por quem nos contrata.

E ao mesmo tempo esta simbiose de influências que cada um traz consigo. E é o que eu digo, uma peça pode ser estrutural, a ideia da melodia estrutural dessa peça e da letra, mas com certeza terá uma mistura das nossas influências, nomeadamente, e foi assim que eu conheci o Johan e o Alex, E estava aqui ainda há pouco, não sei se ainda está, o Ítalo, Ítalo Caraguru, que são membros, eles os três são membros, entre outros, do Forró de Cá, da banda Forró de Cá, que esteve em Portugal em 2018.

E foi assim que eu os conheci, foi assim que eu fui a palco com um forró, e eles convidaram-me como cantora lírica para cantar O Pastor de Madre Deus. Só que não foi só O Pastor de Madre Deus, às tantas estava misturado com Piazzolla, com um dos meus compositores preferidos, com Libertango. E portanto, o nosso projeto terá sempre isto, esta mescla inesperada, que as pessoas não estão à espera, mas que tem tanto nosso, porque é um conceito que eles gostam, com Madre Deus, porque estávamos em Portugal a interpretar aquilo, com toque de forró.

E esta mistura é verdadeiramente aquilo que define mais o nosso projeto. Mas eles também podem falar um bocadinho mais.

?Voz B

A parte engraçada é que voltas a tocar naquele ponto de que vais seguindo e aquilo que sentes, não é? Precisamente porque toca naquilo que tu mais gostas, naquilo que tu mais aprecias, não é? E realmente, quando assim é, até parece fácil para quem vê de fora aquilo que vocês estão a fazer, ou a tocar e a cantar. Parece que é uma coisa que, olha, se calhar, mas não. Realmente, esta aqui é a parte engraçada da questão, é quanto mais se gosta do que se faz, mais conseguimos fazer coisas complexas que parecem simples.

MPMarina Pacheco

Sim, sem dúvida. E é Sim, desculpa, aqui é um lado muito despretensioso nosso, é que nós verdadeiramente gostamos daquilo que estamos a fazer e estamos um pouco marimbando, parece que é uma expressão, para aqueles preconceitos de que a cantora lírica não pode sair do seu registo, de que o Johan, que é também formado em clássico, não pode ou não é bem visto embarcar noutro registo, ou porque há Não, porque a Alexa tem tendencialmente, né, e claramente toda uma vertente de um conhecedor imenso, cada Inside com ela eu aprendo não sei quantas coisas, mais da música mais popular, muito mais do que eu que sou do clássico, mas no entanto se encaixa e tem ideias absolutamente incríveis de fusão com o clássico.

E eu acho que é preciso sair de caixinhas e pararmos de definirmos e colocarmos carimbos que eu só sou cantora lírica ou só sou soprano. Não, eu sou Marina que tenho imensas paixões e uma delas é poder cantar o que eu quero. O meu lema é, o meu carimbo é dar o meu melhor e com máxima qualidade que eu posso, e com profundo respeito pela minha arte. A partir desse momento eu tenho direito e capacidade de interpretar tudo que eu quero, porque está lá o meu princípio, a minha ética profissional.

?Voz B

E isto leva-nos aqui quase que querer confirmar com o Johan que isto então é inovação na música, não é?

JAJohann Ahl de Oliveira

Vocês estão a inovar precisamente com Nós estamos sempre querendo inovar em alguma coisa, mas claro que não só com esse pensamento. Voltando ao assunto, e juntamente com o nosso trio, o nosso objetivo, e eu acho que eu me baseio em todos os grandes artistas que eu vejo, que é o artista é um instrumento da música, né? Nós não podemos nos ver assim só como instrumentos de palco. E é assim que eu me vejo hoje, assim que eu vejo o trio.

Vou mostrar aqui uma, eu acho que a câmera não vai pegar porque tá ao contrário, tá invertida. Esse livro foi, é um empréstimo do Alex, me emprestou esse livro há muito tempo atrás, tá inclusive em português de Portugal, é do é de um pesquisador neurocientista, Daniel Levitin, porque ele inclusive é bastante conhecido. Para mim é uma das bíblias sobre a música e o sentimento. Ele fala de muita coisa, inclusive dessa questão que o artista foi para o palco a partir do século 18, século 19, ser visto como um artista, como uma pessoa além daquilo ali.

E na verdade eu acho que isso se perdeu um pouquinho, perdeu um pouquinho essa questão da música estar em primeiro lugar e não da pessoa como artista. Então nesse projeto, essa busca de pegar coisas antigas, que é o que a gente vê também como boa música, que muita coisa foi se perdendo no meio do caminho, não só fazer aquilo que tá hoje aí na rádio, não só fazer aquilo que as pessoas veem como música erudita, ser bom não só aquilo que a música popular é, Não aquilo só que a música portuguesa é.

Nós tocamos música portuguesa como brasileiros num evento português, nós fazemos música popular num evento mais clássico, mas também fazemos clássico no evento que é popular. Então essa é a nossa busca com esse projeto.

?Voz B

Isso lembra perguntar ao Alex, será que nós podemos ter música sem o artista? Pegando nesta deixa do Johan.

AAAlexa Almeida

Se depender da continuação da evolução da inteligência artificial, tenho medo de ter que fazer uma outra coisa daqui uns anos. Mas acho que depende muito mais do ouvinte do que de quem produz música, no caso, né? Se a pessoa se der por satisfeita por ouvir 3 coisas montadas por um robô e uma melodia feita por um algoritmo, talvez, né, seja o caso. Mas eu tô convicto disso, que o tipo de público que normalmente escuta o tipo de música que a gente tem a oferecer é um tipo de público que não está convencido com 3 notinhas de robô, né.

Então é uma coisa que certamente, acho que sem o artista, eu acho que a gente conhece assim se formos separar o lado teatral do que a gente realmente geralmente interpreta por artista, do lado mais humano assim, eu conheci muitos músicos que não eram grandes artistas e eram ótimos músicos e não conseguiam levar isso para o palco. Então eles não conseguiam misturar o lado artístico com o lado musical. E muitos artistas que são péssimos músicos, mas estão lá levando a bandeira Como se fossem campeões do mundo.

?Voz B

Verdade, verdade. Mas aí acredito que se calhar a inteligência artificial será para ficar tipo música de fundo enquanto fazemos outras coisas, mas de facto se queremos sentir a música não há nada como termos outro ser humano à nossa frente, conseguimos estar na mesma sala com ele, num espaço em silêncio e conseguimos estar juntos a sentir o mesmo caminho e a mesma viagem. Acho que é isto que é arte que vocês fazem e acho que é isso que vocês querem, e é o que eu percebo desta vossa partilha, que é isto que vocês querem levar às pessoas quando estão a encher as salas e quando querem transmitir a vossa música.

Neste momento vocês têm planos de concertos de Natal, alguma coisa que possam dizer à nossa audiência, onde é que vos podem ver? Onde é que vos podem contratar, quem sabe, não é?

MPMarina Pacheco

Sim, na realidade encontrei, porque eu fugi para Portugal para estar agora em alguns concertos e portanto de alguma forma não permiti que agora no Natal pudéssemos estar juntos em palcos os três, mas de qualquer das formas sim, nós temos alguns convites para Portugal, para Alemanha. Ainda não, lá está, não podemos avançar enquanto as coisas não se tornam oficiais.

?Voz B

É prática, tudo em surpresa, vai ser nosso presente de Natal.

MPMarina Pacheco

Foi muito giro, porque inclusivamente houve uma das pessoas que nos ouviu em Stuttgart, foi o último concerto que fizemos juntos antes de eu vir, que nos perguntou logo por um CD. E claramente sabemos que o mercado não é a mesma coisa, mas a pessoa disse, mas é que eu não consigo, não ligo muito agora com essas coisas de tecnologias, eu gosto de ter o CD e colocar em casa. E portanto, nós começámos a considerar aqui uma hipótese de chegar a todo o público de forma agradável, de gregos e troiéticos, não é muito fácil, mas de tal forma a poder— porque assim é clichê, mas nós precisámos do público, ainda há pouco falávamos disto, não é?

Então acho que quando temos pedidos destes é preciso ponderar e que pronto, queremos de facto trabalhar nesta, na nossa imagem também, porque como dizia o Johan, não é um projeto assim tão antiga, é relativamente recente, e estamos também a descobrir, e estamos efetivamente a ir no flow, como dizias, porque é um projeto despretensioso, mas eu acho que é por isso mesmo que ele funciona tão bem, porque nós não temos pressa, nós queremos saborear cada momento em palco, cada ensaio que fazemos, nós divertimos imenso, damos imensas gargalhadas e damos espaço e tempo para que as ideias cresçam, porque os convites também surjam, e tem sido assim engraçado perceber que nós vamos realmente ter de expandir a nossa, dentro da estrutura da nossa ideia, vamos ter que expandir o nosso repertório.

E ainda ontem falávamos, temos o nosso grupo em comum e falávamos de repertório italiano nomeadamente. Portanto, há aqui uma margem para muita coisa e para muitas surpresas que virão, com certeza.

?Voz B

E tem sido interessante ver como é que realmente vocês vão levando isto às comunidades portuguesas por este mundo fora, não é? Que merecem tanto, realmente, por terem, por estarem a levar o Portugal e e o trabalho de tentarem desenvolver e ajudar a trazer esta riqueza da arte portuguesa e da língua portuguesa para as nossas comunidades. Porque de facto, quando se ouve as nossas raízes, parece que tem uma energia de fundo, quase que genética, que nasce ali para nós voltarmos às origens e a sentirmos as nossas raízes.

Por isso eu tive já o privilégio de vos ouvir e Adorei, não é? Adorei. Quem não ouviu, recomendo vivamente conhecer o vosso trabalho. O nosso tempo voou, eu não sei se já repararam, mas passou uma hora. Foi um gosto enorme ter-vos aqui neste mês de dezembro. Imagino que aí esteja muito frio, não é? E portanto, que este Natal e esta fase de passagem de ano vos permita estarem aconchegados neste período junto de quem mais gostam.

Aos nossos seguidores que tiveram a assistir, e esta live vai ficar disponível aqui no Instagram e também no meu canal do YouTube, que é exatamente igual, Derivante PHD, é só procurarem também no YouTube. Se não, ainda não tiverem subscrito o canal, também convido-vos a subscrever. Se gostaram desta live e há pessoas da vossa rede que não assistiram ou não puderam assistir hoje connosco em direto, partilhem nos comentários, marquem essas pessoas para poderem assistir.

E desejo-vos as melhores felicidades e boas festas nesta fase final do ano. Estou ansioso para ver o vosso primeiro concerto em 2023.

MPMarina Pacheco

Combinado, obrigada a nós.

?Voz B

Obrigado, uma boa noite a todos e um abraço Boas festas!

JAJohann Ahl de Oliveira

Obrigado, boas festas!

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