Por que nos tornamos amigos melhores quando envelhecemos
Estudos indicam que, à medida que idade avança, amizades passam a substituir a família como fonte de apoio mais importante e também passamos a ser socialmente mais hábeis.
Thomas Papon
- AmizadeAmizades como fonte de apoio · Teoria da seletividade socioemocional · Catherine Fiore · Alexandra Thompson · Famílias escolhidas · Número ideal de amigos · Benefícios cognitivos e de saúde · Obstáculos ao encontro de novas pessoas
- Envelhecimento PopulacionalIntrovertido vs. Extrovertido · Fator idade na preferência social
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Lê.
Por que nos tornamos amigos melhores quando envelhecemos? Reportagem de Molly Gorman, da BBC Future, publicada pela BBC News Brasil em 29 de dezembro de 2024. Lida por Thomas Papon. Você prefere conhecer muitas pessoas novas ou passar o tempo com um pequeno círculo de amigos próximos? Talvez você imagine que sua resposta dependerá do seu grau de introversão ou extroversão, mas saiba que existe outro fator fundamental, mas pouco conhecido, que influencia nossas preferências sociais: a idade.
As amizades beneficiam pessoas de todas as idades. Elas chegam a melhorar nossa saúde e aumentar nosso tempo de vida, segundo indicam diversas pesquisas. À medida que a idade avança, as amizades podem passar a ser uma importante fonte de felicidade e satisfação com a vida. E as interações frequentes com um amigo próximo podem aumentar a felicidade entre os idosos mais do que as interações com a própria família. Uma explicação simples é que as amizades podem ser mais tranquilas, menos tensas e carregadas do que outros relacionamentos.
Um Estudo realizado entre americanos com mais de 65 anos de idade concluiu que os encontros com os amigos eram considerados mais agradáveis do que com familiares. Essas descobertas contradizem estudos mais antigos que se concentravam mais na família próxima como a principal fonte de apoio para os adultos durante o envelhecimento. Mas existe uma diferença importante na forma em que as pessoas mais velhas escolhem e mantêm suas amizades em comparação os mais jovens.
Os jovens tendem a procurar ativamente novos contatos. Já os idosos reduzem deliberadamente suas redes sociais, segundo a professora de psicologia Catherine Fiore, da Universidade Adelphi, em Nova York, nos Estados Unidos. Essa redução no número de relacionamentos na nossa vida traz importantes benefícios, mas também algumas desvantagens que merecem ser detalhadas, segundo ela e outras fontes. Uma das vantagens de cultivar um círculo menor de amizades é que esses laços cuidadosamente selecionados costumam ser de alta qualidade.
À medida que as pessoas envelhecem, sua perspectiva sobre o futuro muda, explica Fiori. Essencialmente, elas têm menos tempo para viver, suas prioridades se alteram e elas tendem a se concentrar nos propósitos socioemocionais. Esse fenômeno é conhecido como teoria da seletividade socioemocional. Os adultos mais jovens observam seu futuro em expansão e se concentram em formar novas conexões. Já os mais velhos têm como prioridade passar seu tempo com as pessoas que os conhecem bem e, com isso, reduzem suas conexões.
Caterine Fiore explica que a restrição dos laços mais fracos é proposital. A intenção das pessoas é se concentrar nos laços próximos quando o fim da vida se aproxima. Pesquisadores concluíram que, como parte dessa redução, os adultos com mais idade chegam a excluir deliberadamente seus conhecidos mais distantes das suas redes sociais. Isso aumenta a chamada densidade emocional do seu círculo social, ou seja, eles trabalham para criar um grupo menor e mais coeso.
Os idosos também costumam perdoar mais e ser mais positivos com os contatos escolhidos, já que estão tentando saborear a vida e o tempo que lhes resta juntos, segundo indicam as pesquisas. Mas mesmo entre as pessoas que cultivam esses laços próximos, também é uma boa ideia permanecer aberto para novas amizades, segundo os pesquisadores. Katherine Fiore e seus colegas descobriram que reduzir demais a rede de amigos nem sempre é saudável.
Pode ser surpreendente, mas ela afirma que não existem evidências que indiquem que o foco exclusivo nos laços próximos seja benéfico para a saúde física ou mental em nenhuma idade. As amizades são muito benéficas para o bem-estar das pessoas ao longo da vida. Parte disso ocorre porque diferentes relacionamentos preenchem funções diferentes, explica ela. Nossos laços mais próximos tendem a ser aqueles que nos oferecem apoio social, suporte emocional e suporte instrumental.
Mas outras funções que conseguimos dos nossos relacionamentos costumam ter importância igual ou maior. Ocorre "Mas muitas vezes elas vêm de tipos de laços diferentes", diz a pesquisadora. "Nossas amizades podem oferecer estímulo intelectual, por exemplo, ou simplesmente nos trazer diversão. A principal diferença é que as amizades são relacionamentos voluntários, não obrigatórios, que podem começar ou terminar a qualquer momento".
A pesquisadora de saúde mental Alexandra Thompson, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, concorda. As amizades oferecem benefícios levemente diferentes dos nossos relacionamentos familiares por uma série de motivos. Os relacionamentos familiares podem ser tensos e baseados na obrigação, mas a amizade envolve interesses comuns, o que pode melhorar o estado de espírito, explica ela. A importância da amizade é mais relacionada à saúde e a felicidade entre os idosos, as mulheres, pessoas com menores níveis educacionais e que vivem em sociedades individualistas.
Segundo um estudo de 2021. O estudo envolveu 300 mil pessoas de 99 países. Ele indica que entre os idosos, depositar mais importância nos relacionamentos sociais pode servir de estratégia de sobrevivência bem-sucedida que aumenta o bem-estar frente às adversidades trazidas pela idade. Algumas amizades podem se tornar tão próximas que a própria palavra pode não parecer suficiente para definir a profundidade do relacionamento. Um amigo pode se sentir mais como um irmão, por exemplo.
Os amigos podem se tornar parentes fictícios e oferecer toda a confiança e calor humano da família, além do prazer da amizade, segundo Catherine Fiore. O parentesco não deve se resumir apenas ao sangue ou ao casamento, explica ela. Quando aquela pessoa se torna família, aquele relacionamento muda e passa a ser mais obrigatório. Entre a comunidade LGBTQIA+, as pessoas podem depender das famílias escolhidas ou intencionais para terem apoio à medida que envelhecem.
Esse pode ser especialmente o caso das gerações mais velhas, que muitas vezes sofreram extrema discriminação ao longo da vida, incluindo a rejeição pela família, e podem não ter tido a oportunidade de criar filhos. As pessoas que decidiram não ter filhos também podem, de forma geral, confiar mais nos amigos do que na família biológica à medida que envelhecem. Mas enquanto cultivamos laços próximos e até de parentesco fictício, Alexandra Thompson indica que também podemos usufruir dos laços mais distantes.
A chave é dar preferência à qualidade, não a quantidade. Não é questão de ter centenas de amigos, explica ela. Não é verdade que se acrescentarmos sempre novos amigos observaremos redução da solidão, melhoria da saúde mental, melhoria da saúde física. Acho que sempre será questão de ter experiências e interesses comuns, afirma. A pesquisa de doutorado de Thompson examinou qual seria o número ideal de amigos para o bem-estar psicológico dos idosos, combatendo a solidão.
Ela concluiu que ter 4 amigos próximos seria o número ideal. Ultrapassando esse número, a pesquisadora não encontrou benefícios substanciais para o nosso bem-estar. É questão de como incentivamos as pessoas para que estabeleçam conexões íntimas, próximas e de boa qualidade, ou para que reforcem as conexões que elas já possuem, aumentando sua qualidade e intimidade, para que elas recebam esses benefícios e diferentes tipos de disponibilidade social dos seus amigos atuais, explica Thompson.
Esse esforço vale a pena por muitas razões. Os benefícios da amizade na terceira idade se estendem além do simples bem-estar psicológico. Psicológico. Eles incluem melhor funcionamento cognitivo e saúde mental. De fato, as pesquisas indicam frequentemente que as amizades são tão importantes quanto os laços familiares para prever o bem-estar na idade adulta e na terceira idade. Uma meta-análise que reuniu estudos com cerca de 309 mil indivíduos, acompanhados em média por 7 anos e meio, concluiu que pessoas com relacionamentos sociais adequados possuem 50% mais probabilidade de sua sobrevivência em comparação com pessoas com relações sociais pobres ou insuficientes.
As amizades também podem ser uma fonte de estabilidade, o que é especialmente importante, já que as tendências demográficas indicam um afastamento do núcleo familiar tradicional rumo à monoparentalidade, divórcios e novos casamentos, o que torna a vida familiar mais complexa. Como então criamos essa pequena rede benéfica de almas gêmeas, amigos e conhecidos? Apesar de todos os aspectos positivos do envelhecimento nas relações sociais, os idosos realmente enfrentam uma série de obstáculos que podem dificultar o encontro com outras pessoas.
Segundo Fiore, eles não têm as oportunidades sociais da escola, universidade ou do ambiente de trabalho, por exemplo. Eles podem enfrentar o luto e a solidão por terem perdido parceiros e amigos queridos. O declínio das funções cognitivas ou questões de mobilidade podem trazer ainda mais dificuldades. E se uma pessoa for naturalmente introvertida, se aproximar de novas pessoas por si só pode parecer assustador. O gênero também pode influenciar a questão.
Homens mais idosos costumam relatar maior isolamento social do que as mulheres. Pesquisas indicam que as mulheres tradicionalmente mantêm os laços familiares, por isso elas mantêm laços os suportes com os amigos e a família na idade avançada. Mas existe também um fator mais relacionado com a nossa mentalidade, particularmente com a nossa percepção do envelhecimento, segundo a especialista. Se alguém se olha e pensa: minha saúde está em declínio, ninguém quer mais ser meu amigo e não tenho mais motivo para viver, esse tipo de pessoa não irá sair e tentar fazer novos amigos, explica ela.
Mas alguém que tem uma percepção mais positiva do envelhecimento irá fazer acrescenta. Catherine Fiore sugere que as intervenções cognitivas podem ser úteis para combater esses efeitos. Não apenas terapia, mas de forma geral qualquer tipo de intervenção direcionada à mudança cognitiva, para ajudar os adultos mais velhos a terem percepções mais positivas do envelhecimento. A autopercepção do envelhecimento pode funcionar como profecia autorrealizadora, prossegue ela, porque as pessoas mais idosas que acreditam que o fim da vida está associado correm o risco de ficar solitário são menos propensas a investir em relacionamentos.
Por outro lado, as pessoas mais velhas que observam sua idade com visão mais positiva e acreditam que ainda é possível fazer novos planos e se dedicar a novas atividades irão investir mais. E esses investimentos em relações sociais trazem consequências positivas para o bem-estar, explica. De certa forma, deveria ser mais fácil para nós fazer amigos na terceira idade. Afinal, à medida que a nossa personalidade amadurece, nossa perspectiva passa a ser mais voltada a aproveitar a vida e costumamos ser mais agradáveis.
Ao longo do tempo, as pessoas ganham habilidades sociais. Os idosos são socialmente mais hábeis do que os jovens adultos, segundo Fiore. Por isso, de certa forma, eles podem ser mais capazes de evitar conflitos. A aposentadoria também pode liberar tempo para os adultos mais velhos e, por isso, oferecer a oportunidade de se socializar com seus vizinhos e praticar o voluntariado. As pesquisas indicam que os idosos são mais resilientes a eventos potencialmente isoladores e continuam encontrando conexões significativas até o fim da vida.
Existem indicações de que novas mudanças sociais estão por surgir para melhor. Catherine Fiore afirma que as faixas etárias mais novas estão passando muito mais tempo com os amigos até o fim da vida em comparação com os nascidos há tempo. Uma das coisas que achamos que também está causando essa mudança é a percepção do envelhecimento, que ficou menos negativa, explica ela. Meu colega Oliver Huxholtz, do Centro Alemão de Gerontologia, prevê que no futuro os idosos provavelmente não irão apenas mencionar mais amigos na sua rede de apoio, mas também passarão mais tempo com eles, conclui.
Você ouviu a reportagem "Por que nos tornamos amigos melhores quando envelhecemos?", publicada pela BBC News Brasil em 29 de dezembro de 2024.
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