Como Holanda se tornou terceiro maior exportador de alimentos do mundo apesar do território pequeno
Reportagem mergulhou no ecossistema de inovação que permitiu que país do tamanho do Estado de Rio de Janeiro se tornasse 3º maior exportador de alimentos do mundo.
Thomas Papon
Cristina Zepeda
Leo Marcelis
Nilson Vieira Júnior
Roel Verkamp
- Inovação na AgriculturaDrones e escaneamento do solo · Uso inteligente de fertilizantes · Cultivos a céu aberto · Estufas de alta tecnologia · Rendimentos de tomates por metro quadrado · Cultivo em substratos · Reuso de água · Luzes LED de diferentes cores
- Meio Ambiente e EnergiaConsumo de energia para aquecer estufas · Queima de gás natural · Fontes renováveis de energia · Plantas como baterias · Acumulação de reservas de açúcar pelas plantas · Horticultura e consumo nacional de gás
- Fatores que impulsionam exportação de alimentosClima favorável e água em abundância · Proximidade de milhões de consumidores europeus · Porto de Rotterdam · Importação para processamento e exportação · Produtos de cacau
- Ecossistema de inovação e pesquisaEmpresas derivadas da universidade · Departamentos de pesquisa de grandes empresas · Unilever · FrieslandCampina · Financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa holandês · Transferência de resultados para agricultores
- Tendências de Inovação na América LatinaHidroponia ou irrigação por gotejamento · Uso de luz adicional de diferentes cores · Controle climático em estufas · Redução de temperaturas excessivas · Parede úmida ou sistema de resfriamento ativo · Garantir nutrientes necessários
- Bem-estar animal em sistemas de criaçãoEmissões de metano de animais ruminantes · Melhoramento genético para baixas emissões · MethaneGenetics · Bem-estar animal · Uso de inteligência artificial para interpretar imagens de animais
- Inteligência artificial no agroSensores e modelos de crescimento de culturas · Controle automático do clima e operação da estufa · Fazendas verticais em ambientes fechados · Consumo de energia como gargalo
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Como a Holanda se tornou o terceiro maior exportador de alimentos do mundo apesar do território pequeno. Reportagem de Alejandra Martins, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil. Brasil em 11 de maio de 2026. Lida por Thomas Papon. Centenas de pés de tomate crescem protegidas por uma grande estrutura de vidro, mas essa não é uma estufa comum. Desde os níveis de gás até a cor da luz, cada variável é monitorada por sensores que enviam as informações para computadores que, por sua vez, rodam algoritmos refinados com inteligência artificial..
O resultado é uma produção até 5 vezes maior do que a de uma estufa de baixa tecnologia na América Latina. As plantas estão localizadas no campus da Universidade e Centro de Pesquisas de Wageningen, na Holanda, um centro de renome mundial para pesquisas em produção de alimentos. A universidade fica no coração do chamado Food Valley, Vale da Comida em tradução literal do inglês, um complexo de centros de pesquisa que permitiu que a Holanda se se tornasse o terceiro maior exportador de alimentos do mundo em valor monetário, com um território de pouco mais de 41 mil quilômetros quadrados, menor que a área do estado do Rio de Janeiro.
Como isso foi possível? A BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com especialistas da Universidade de Wageningen, incluindo pesquisadores latino-americanos, sobre inovações na produção de alimentos no país, possíveis aplicações na América Latina e o grande desafio para a Holanda, reduzir o consumo de energia e aumentar a sustentabilidade. Tanto o clima quanto a localização geográfica favorecem a Holanda, afirma à reportagem o cientista Leo Marcelis, chefe do grupo de Horticultura e Fisiologia Vegetal da Universidade de Wageningen.
Temos um clima razoável e água em abundância. Temos um clima marítimo. Os verões não são muito quentes e os invernos não são extremamente frios. Aponta ele. O país tem milhões de potenciais consumidores europeus nas proximidades, acrescenta Marcellis, e o maior porto de entrada e saída da Europa Ocidental para o setor agrícola, Rotterdam. Entre os principais produtos exportados estão legumes e verduras, carne, laticínios, plantas ornamentais e flores.
Os maiores mercados são Alemanha, Bélgica, França e Reino Unido, entre outros. Grandes quantidades de matéria-prima também são importadas para processamento e exportação. A Holanda é um dos principais exportadores mundiais de produtos de cacau, por exemplo, e o maior importador de grãos de cacau, que são processados em produtos semi-acabados, como pasta de cacau, manteiga e cacau em pó, para exportação. Leo Marcellis enfatiza que, historicamente, a produção agrícola no país também tem sido caracterizada por uma tradição de abertura.
Há um aspecto muito importante que talvez nos diferencie de muitos outros países: a colaboração e a cooperação, diz ele. A troca de experiências entre os agricultores é uma tradição secular, evidente nos leilões de hortaliças e flores e nas cooperativas de produtores. Os agricultores costumam se encontrar semanalmente. Eles visitam as fazendas uns dos outros para ver as plantações e aprender uns com os outros. Diz o cientista.
E essa troca é facilitada pelas curtas distâncias entre eles. Nosso país é muito pequeno. Aqui na universidade estamos mais ou menos no centro da rede. Em 2 horas de carro você pode chegar ao ponto mais ao sul ou ao extremo norte do país. Para o oeste não posso dirigir 2 horas porque chegaria ao mar antes disso. E para o leste, em meia hora você está na Alemanha. Para além das condições geográficas ou das tradições, o sistema de produção de alimentos na Holanda é movido por uma inovação constante.
Aqui temos a universidade, mas também empresas derivadas da universidade, muitas vezes fundadas por pessoas que trabalham na universidade ou por alunos que criaram suas próprias empresas e querem se manter conectados à Wageningen, explica Marcellis. No campus também temos os departamentos de pesquisa de grandes empresas, como a Unilever ou a FrieslandCampina, que é uma das principais cooperativas de laticínios. Você se encontra, portanto, cercado por todo um ecossistema aqui, relata.
A universidade recebe financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa holandês, mas muitas das verbas nacionais só conseguimos obter em cooperação com uma empresa que, por sua vez, têm de arcar com parte dos custos da pesquisa, explica Marcelles. Isso significa que, se pesquisamos algo, precisa estar relacionado ao que as empresas consideram relevante, o que nos obriga a colaborar com eles para facilitar a transferência dos resultados para os agricultores.
Claro que também temos financiamento para pesquisas fundamentais. Os projetos, acrescenta Marcelles, exigem um acordo inicial com cada empresa. São estabelecidas regras sobre o grau de transparência sobre a confidencialidade dos resultados e sobre quando eles podem ser publicados, algo que para nós como universidade é importante: fazer boa ciência. E claro, também existem acordos sobre direitos de propriedade intelectual, afirma.
Esse ecossistema fomentou inúmeras inovações na produção agrícola do país, desde drones e escaneamento do solo para o uso inteligente de fertilizantes em cultivos a céu aberto até estufas de alta tecnologia. Em estufas, em Wageningen, desenvolveram um sistema tão eficiente que permite rendimentos de até 100 kg de tomates por metro quadrado por ano, diz à BBC Mundo a cientista mexicana Cristina Zepeda, professora associada de fitotecnia em Wageningen.
Em uma estufa no México, sem muita tecnologia, talvez com alguma tela de sombreamento, a produção gira em torno de 20 kg por metro quadrado por ano, acrescenta ela. O cientista brasileiro Nilson Vieira Júnior, professor associado em Wageningen, especializado em fisiologia vegetal e modelagem computadorizada de culturas, disse à reportagem que nas estufas da Holanda o uso de solo praticamente deixou de existir. As plantas são cultivadas em substratos, o que permite maior controle sobre o fornecimento de nutrientes e possibilita o reuso quase total da água utilizada na irrigação, aumentando significativamente a eficiência no uso da água e diminuindo drasticamente o impacto ambiental e poluição gerados na produção de alimentos, afirma.
Esses sistemas permitem um controle preciso das condições ambientais às quais as culturas estão expostas, incluindo temperatura, níveis de CO2, umidade relativa do ar e radiação. Cada variável, como a cor da luz, é monitorada por sensores, diz Cepeda. Temos luzes LED de diferentes cores que permitem que as plantas produzam mais. As plantas possuem certos pigmentos que percebem diferentes cores, como vermelho, infravermelho e azul, e esses pigmentos sinalizam certas moléculas para iniciar a produção de diferentes compostos, explica a cientista.
Com uma luz mais vermelha, por exemplo, a produção de pigmentos como antocianinas ou licopeno é ativada. Podemos moldar a planta para produzir os compostos que mais nos interessam. Realizamos extensos experimentos com luzes de diferentes cores e medimos como os níveis de açúcar, licopeno e amido mudam com diferentes porcentagens de luz azul ou vermelha, explica Vieira Júnior. Observa que uma das principais áreas de pesquisa atual é a criação de sistemas autônomos.
Esses sistemas combinam sensores que monitoram variáveis climáticas e o estado fisiológico das plantas com modelos de de crescimento de culturas, diz ele. Com o apoio da inteligência artificial, esses sistemas são capazes não apenas de recomendar estratégias de manejo mais eficientes, mas também de controlar automaticamente o clima e a operação da estufa, diz. Leo Marcelles afirma que o próximo passo no controle de variáveis será abandonar as estufas e adotar fazendas verticais em ambientes fechados, completamente independentes das condições externas ou da luz solar.
Esses sistemas se tornarão mais comuns no futuro, acrescenta ele, mas assim como as estufas, exigem grandes quantidades de energia. O consumo de energia é o principal gargalo e é por isso que grande parte de nossa pesquisa se concentra nesse aspecto, destaca Marcellis. Para a professora Cristina Zepeda, o maior desafio aqui na Holanda é que uma enorme quantidade de energia é usada para aquecer estufas porque temos um clima muito frio.
Então precisamos queimar gás natural e acender luzes adicionais. A horticultura representa 10% do consumo nacional de gás do país. É muito caro e o governo já disse que não se poderá usar mais gás até 2050. Tudo terá que vir de fontes renováveis, ela acrescenta. Zepeda pesquisa atualmente como reduzir o consumo de energia fazendo com que as plantas funcionem como baterias. A energia renovável flutua dependendo das condições do vento e da radiação solar, e o consumo de energia na estufa também pode flutuar, explica.
As plantas crescem na natureza com noites mais frias e dias mais quentes e conseguem suportar mudanças de temperatura e luz sem perder muita produtividade. E se, por exemplo, houver excesso de produção de eletricidade e ela for mais barata, é aí que dizemos: OK, Vamos aquecer a estufa. Precisamos dar à planta a oportunidade de acumular suas reservas de açúcar se o dia estiver muito ensolarado. E se prevermos que amanhã estará um pouco mais frio, podemos forçar a planta a usar esses açúcares, afirma.
Usar plantas como baterias exige medir constantemente com sensores quanta fotossíntese elas estão realizando, quanto açúcar estão produzindo, e até mesmo modelos computacionais mais avançados. É nisso que nosso grupo está concentrando grande parte da pesquisa atualmente, conta ela. Uma das inovações impulsionadas pela Universidade de Wageningen na pecuária é a redução das emissões de metano de animais ruminantes, como vacas e ovelhas.
Esse metano, um potente gás de efeito estufa, é gerado durante a fermentação dos alimentos no trato digestivo dos animais e liberado principalmente por meio de arrotos ou fezes. Alguns animais produzem mais metano do que outros, e isso se deve em parte a fatores genéticos, disse à BBC o professor Roel Verkamp, chefe do Departamento de Melhoramento Animal e Genômica da Universidade de Wageningen e líder da iniciativa global MethaneGenetics, um projeto com mais de 50 parceiros em 25 países, incluindo programas na África e na América Latina.
Selecionar animais com baixas emissões em programas de melhoramento genético para a próxima geração reduzirá significativamente as emissões ao longo do tempo, diz ele. Faircamp afirma que uma redução de 25% nas emissões em 25 anos é uma meta realista. Outra prioridade é melhorar o bem-estar animal. Faircamp e seus colegas usam inteligência artificial para interpretar imagens e vídeos de animais. Gravamos vídeos de galinhas e vacas em grupos, ou de vacas individualmente caminhando em frente a uma câmera.
A partir dos vídeos, usamos a inteligência artificial para monitorar seu comportamento, o quanto se movem, se estão se movendo normalmente ou se têm problemas nas patas, se descansam o suficiente ou se se movem muito pouco, explica. Com base nesses dados, desenvolvemos medidas para monitorar ou melhorar o bem-estar animal, explica. Todos os anos, de todo mundo frequentam os cursos da Escola de Verão de Wageningen, incluindo o curso de estufas de alta tecnologia, que começa em 31 de agosto.
As estufas na Holanda exigem um investimento significativo, mas Cristina Zepeda afirma que alguns elementos dessa tecnologia podem ser aplicados em regiões como a América Latina. Um deles é a hidroponia, ou irrigação por gotejamento. "Aqui, a água não é o problema, mas é na América Latina", ela destaca. Outra opção é o uso de luz adicional de diferentes cores para ajudar as plantas a produzirem mais. Mas tanto Zepeda quanto Vieira concordam que as soluções devem ser adaptadas a cada contexto específico.
É importante destacar que não se trata de um simples processo de copia e cola, afirma Vieira. Um exemplo claro está no controle climático em estufas. Na Holanda, o principal desafio é aquecer o ambiente e fornecer luz artificial para compensar a baixa radiação solar. Durante o inverno, diz. Já na América Latina, especialmente em regiões tropicais, o desafio é praticamente o oposto: reduzir temperaturas excessivas e melhorar o uso da alta disponibilidade de radiação solar.
Uma possível tecnologia que poderia ser transferida, segundo Zepeda, é a parede úmida ou sistema de resfriamento ativo, no qual a ventilação é feita pela passagem de água fria através de mantas em uma extremidade da estufa e pela instalação de um exaustor na outra extremidade para recircular o ar frio. Cristina Zepeda destaca que enquanto no passado o foco era produzir calorias suficientes, agora a questão é: "Como garantir que todos tenham os nutrientes necessários?" Com as mudanças climáticas e as secas, acrescenta, é muito mais difícil produzir em campo aberto para fornecer esses nutrientes à população.
Estamos ficando sem água e solo, e há muitos eventos climáticos extremos, diz a pesquisadora. A produção intensiva na Holanda pode indicar um caminho a seguir. Vejo que a horticultura tem um valor imenso, diz Zepeda, porque com uma estufa você pode produzir mais em uma área menor e proteger suas plantações, ressalta ela. O desafio, claro, é como adaptar a tecnologia à situação em cada parte do mundo.
Conclui.
Você ouviu a reportagem "Como a Holanda se tornou o terceiro maior exportador de alimentos do mundo apesar do território pequeno", publicada pela BBC News Brasil em 11 de maio de 2026.
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