A onda dos peptídeos para beleza: por que pessoas estão injetando 'drogas milagrosas' que não são para consumo humano
Redes sociais estão cheias de anúncios e vídeos de influenciadores aplicando em si mesmo peptídeos vendidos apenas para fins de pesquisa.
Adam Taylor
Jack Sorensen
Kate
Mike Morozinski
Silvia Salek
Syed Omar Babar
- Peptídeos para belezaGHK-CU · GLP-1 · BPC-157 · TB500 · Wolverine · Mike Morozinski · Adam Taylor · Syed Omar Babar
- Mercado paralelo de peptídeosFalta de regulamentação · Controles de qualidade · Endotoxinas bacterianas
- Riscos e efeitos colaterais de peptídeos não regulamentadosFalta de estudos robustos · Tontura · Diarreia · Irritações · Inchaço nas pernas · Choque séptico
- Autoinjeção e normalização do uso de agulhasSucesso das drogas GLP-1 · Barreira psicológica
- Financiamento e patenteamento de peptídeosCusto de aprovação de medicamentos · Interesse de grandes farmacêuticas · Peptídeos naturais
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BBC. A onda dos peptídeos para beleza. Por que pessoas estão se injetando com substâncias que não são para o consumo humano? Reportagem de Ruth Clegg e Amy Walter da BBC News, publicada pela BBC News Brasil em 2 de março de 2026. Lida por Silvia Salek. Katie retira cuidadosamente uma seringa da embalagem. Ela perfura o topo de uma pequena ampola com um líquido azul e puxa o êmbolo. Ela se vira, injeta a agulha no alto das nádegas e mostra para a câmera o polegar indicando que está tudo bem.
Kate parece satisfeita. Há várias semanas ela vem se injetando GHK-CU, um peptídeo de cobre, e parece confiante de que a substância está fazendo diferença para sua pele. Tanto que, segundo ela, as estrias que haviam surgido depois do nascimento dos seus dois filhos praticamente desapareceram. A única questão levemente desconcertante é que o rótulo do frasco diz claramente: apenas para fins de pesquisa. Ou seja, o peptídeo não é apropriado para consumo humano.
Kate faz parte de um grupo cada vez maior de pessoas que se filmaram nas redes sociais injetando peptídeos não aprovados para consumo humano. E ela parece inabalável apesar do alerta e acredita que o produto é seguro. Fiz muitas pesquisas e estou agindo com cautela, diz ela. Comecei com muito pouco, apenas para ter certeza de que não iria observar nada estranho, acrescenta. Kate afirma que o peptídeo também aumentou a espessura do seu cabelo e melhorou a textura da pele.
GHK-CU é um peptídeo fabricado pelo nosso corpo. Ele é usado topicamente em cremes para pele para reduzir rugas finas, mas não é considerado seguro para injeção devido à falta de pesquisas científicas e aos riscos de despertar reações imunológicas potencialmente perigosas. Os peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos ou pequenas proteínas que os nossos corpos produzem naturalmente. Eles agem como mensageiros, dizendo às nossas células o que elas devem fazer, e também desempenham papéis vitais para a saúde da pele e do sistema imunológico, além de ajudar a controlar nossos hormônios.
Os peptídeos são usados para tratar condições médicas há mais de um século. A insulina, o primeiro peptídeo a ser descoberto, ajuda pessoas com diabetes do tipo 1 e algumas do tipo 2 a administrar o nível de açúcar no sangue. Agora, peptídeos não regulamentados vêm explodindo no mercado de bem-estar desde que os GLP-1 se tornaram remédios padrão para perda de peso. Os medicamentos do tipo GLP-1 imitam o hormônio peptídeo similar a Glucagon-1, um hormônio que produzimos naturalmente no corpo e ajuda a regular nossos níveis de fome.
Eles passaram por extensos testes com seres humanos e são aprovados, por exemplo, pelo Organismo Regulador de Medicamentos do Reino Unido. No Brasil, foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a ANVISA. Está surgindo, no entanto, um mercado paralelo de outros peptídeos. Eles estão em uma zona legal e regulatória intermediária. Sua compra ou posse não são ilegais, mas ao mesmo tempo eles não são aprovados para uso humano.
Por isso, não estão sujeitos aos controles de qualidade que regem a fabricação de produtos farmacêuticos. Estamos observando uma tempestade perfeita, explica o clínico-geral Mike Morozinski. Para ele, o sucesso das drogas GLP-1 regulamentadas de alguma maneira normalizou o uso das agulhas, reduzindo a barreira psicológica à autoinjeção. As pessoas observam os resultados transformadores dos peptídeos em grau farmacêutico e consideram de forma errônea que todos os peptídeos são inerentemente seguros, explica.
As redes sociais estão repletas de anúncios e vídeos de influenciadores injetando em si próprios diversas misturas de peptídeos que são vendidos apenas para fins de pesquisa. Se você quiser aumentar sua massa muscular e acelerar a recuperação, por exemplo, há quem afirme que o BPC-157 faça isso. Trata-se de um peptídeo sintético derivado de proteínas gástricas humanas. Estudos iniciais com animais sugerem possível ação na cura de feridas e proteção do intestino.
Se você precisa reduzir inflamações do corpo e melhorar sua saúde metabólica, há quem diga que vale experimentar o TB500. As pessoas que usam esses produtos estão essencialmente se tornando ratos de laboratório, segundo o professor de anatomia Adam Taylor, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. Existem alguns dados disponíveis, mas em modelos pré-clínicos. Basicamente, eles foram testados em animais, mas não em seres humanos.
Explica. Adam Taylor vem acompanhando o crescimento desse mercado há mais de um ano. Ele conversou com pessoas que sofreram efeitos colaterais, como tonturas, diarreia, irritações e inchaço nas pernas. Ele receia que as pessoas possam estar arriscando suas vidas no longo prazo. Além da falta de estudos robustos desses peptídeos, Adam Taylor afirma que muitos dos produtos sendo vendidos são perigosos. Algumas pesquisas testaram vários dos peptídeos existentes no mercado e indicaram que 12% deles contém endotoxinas bacterianas.
As endotoxinas bacterianas, segundo o professor de anatomia, podem nos enfraquecer gravemente. Em pequenas doses, elas podem causar febre, cansaço e dores, mas em grandes quantidades podem gerar condições fatais como choque séptico. Jack Sorensen decidiu misturar peptídeos para se recuperar de uma lesão nas costas sofrida na academia. O jovem de 24 anos começou a injetar um coquetel de peptídeos chamado Wolverine em dezembro do ano passado.
A injeção promete fornecer poderes regenerativos de super-herói, como o do personagem da Marvel de quem recebe o nome. O jovem conta que em questão de 2 semanas observou recuperação expressiva, literalmente sem efeitos colaterais. Na 5ª semana, ele conta ter ficado praticamente livre de dores e capaz de fazer coisas que não conseguia há bastante tempo. Antes de testar os peptídeos, ele afirma que consultou o seu clínico geral e recebeu sessões de fisioterapia.
Mas mesmo fazendo consistentemente os exercícios recomendados, não estava melhorando. Ele conta que a situação chegou ao ponto de prejudicar o seu dia a dia e começou a se sentir muito abatido. Sei que existem dois lados, segundo ele, e para algumas pessoas injetar drogas pode ser uma medida bastante extrema, mas acho que depois da COVID as pessoas estão procurando formas de controlar a sua própria saúde. Eu acho que os peptídeos podem ser benéficos se forem usados com responsabilidade.
Diz ele. Nesse estágio, o uso de peptídeos não regulamentados não é biointrusão, mas uma aposta biológica, segundo Mike Morozinski. Se essa cultura de cobaia se espalhar, estaremos sujeitos a uma crise de saúde pública com misteriosas condições crônicas causadas por esses peptídeos não regulamentados que o sistema médico tradicional ainda não está equipado para reverter. Explica o especialista. Com milhões de postagens sobre peptídeos se espalhando nas redes sociais, cresce o número de clínicas oferecendo terapia com peptídeos.
Syed Omar Babar é consultor de atendimento de emergência e diretor da clínica Healand in Leicester, no Reino Unido. Ele oferece terapia com peptídeos usando peptídeos não regulamentados como o BPC-157 e TB500, entre muitos outros. Ele acredita que estão estamos em uma espécie de era de ouro para os peptídeos e que eles terão enorme participação no futuro da assistência médica. Pergunto então: por que não existem testes padrão ouro em seres humanos, se esses peptídeos são tão seguros e eficazes?
E por que eles não são aprovados como remédios? Ele responde que a questão é de financiamento. Levar um produto dos estudos com animais para testes com seres humanos até chegar a um remédio totalmente aprovado exigiria anos e custaria bilhões de E ele explica que as grandes empresas farmacêuticas não têm interesse em financiar esse processo. Muitos dos peptídeos em discussão são totalmente naturais, afirma. Nosso corpo os produz, o que faz com que seja difícil patenteá-los.
Eles precisam ser significativamente diferentes da sua forma natural, o que é complicado com os peptídeos. E sem a patente, as empresas se arriscam a despejar dinheiro em um produto com pouca proteção financeira. Ele afirma também que as terapias com peptídeos oferecidas por sua clínica são supervisionadas por um médico credenciado pelo Conselho Médico Geral do Reino Unido. Mas como esses produtos não são regulamentados e não existem instruções sobre o seu uso, a questão se resume à experiência e médicos como ele estão aprendendo uns com os outros.
Você ouviu a reportagem "A Onda dos Peptídeos para a Beleza" Por que pessoas estão se injetando com substâncias que não são para o consumo humano, publicada pela BBC News Brasil em 2 de março de 2026.
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