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Por que cada vez mais brasileiros estão deixando Portugal e recomeçando na Espanha

09 de junho de 202617min
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Com políticas mais amigáveis a imigrantes, Espanha tem seguido caminho diferente dos EUA e de países europeus como Portugal - que tem maior presença brasileira na Europa.

Participantes neste episódio2
T

Thomas Papon

HostJornalista
R

Ruth Costas

Reporter
Assuntos6
  • Diferencas Regionais Brasil-PortugalPaulo Jerônimo · Mônica Rovares · Aumento da hostilidade em Portugal · Políticas de imigração na Espanha · Regularização extraordinária na Espanha · Salários mais altos na Espanha
  • Legislação migratória em PortugalPedro Sánchez · Partido Socialista Operário Espanhol · Partido Popular · Vox · Pedro Góes
  • Lei da nacionalidade em PortugalLei de Estrangeiros · Lei de nacionalidade · Chega · António José Seguro
  • Ameaca EUA EspanhaArraigo · Juan Mondras · Universidade Pompeu Fabra · Efeito chamada
  • Interior do Brasil e desenvolvimentoConsulado do Brasil em Madrid · Instituto Nacional de Estatística · Aumento de 25% em 3 anos
  • Migracao EuropaCrise habitacional · Envelhecimento da população · Escassez de mão de obra · Raquel Martínez Buján
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Thomas Papon:Where's that dang paperboy?

Voz B:I need my news outdated and rolled up like a burrito. Finally!

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Voz B:Sling! BBC. Les.

Thomas Papon:Por que cada vez mais brasileiros estão deixando Portugal e recomeçando na Espanha? Reportagem de Ruth Costas, publicada pela BBC News Brasil em 11 de maio de 2026. Lida por Thomas Papon. O brasileiro Paulo Jerônimo espera ser um dos beneficiados pelo processo de regularização extraordinária iniciado em abril, que pretende legalizar a situação de milhares de imigrantes que já vivem na Espanha. Após 7 anos em Portugal, Jerônimo se mudou para o país vizinho com a família em 2025. Até já tínhamos conseguido regularizar nossa situação em Portugal, mas nos últimos anos começamos a sentir um aumento da hostilidade contra brasileiros, com frases como "volta para tua terra". Também fomos atraídos pelos salários mais altos e tivemos sorte de nos mudar antes do processo de regularização, o que nos permite ser beneficiados, conta Jerônimo. Com anos de experiência como motorista de caminhão em Portugal, ele já conseguiu a promessa de um contrato de trabalho na Espanha e está desenvolvendo um app para conectar motoristas e empresas espanholas. Com um discurso oficial mais positivo em relação à imigração e políticas voltadas a melhorar as condições de vida dos imigrantes, a Espanha tem seguido um caminho diferente não só dos Estados Unidos, mas também de vários países europeus, entre eles Portugal, que hoje abriga a maior comunidade brasileira Europa. São mais de 500 mil pessoas. Soma-se a isso o fato de a Espanha ser uma das economias que mais crescem na União Europeia, e não é difícil entender porque a história de Paulo Jerônimo está longe de ser um caso isolado. Nos últimos meses, e com mais intensidade após o anúncio da regularização extraordinária, multiplicaram-se em grupos de WhatsApp de brasileiros na Espanha as dúvidas de conterrâneos que vivem em Portugal sobre como e se valeria a pena se mudar para o pais vizinho. Também surgiram novos grupos, alguns com centenas de membros, que compartilham informações práticas sobre a mudança. O interesse é particularmente forte nas regiões de fronteira, onde muitas vezes mudar de país significa literalmente atravessar uma ponte. E não vem apenas de imigrantes em situação irregular, mas também de quem já está regularizado. Monica Rovares, por exemplo, professora universitária aposentada com dupla cidadania brasileira e italiana, decidiu se mudar do norte de Portugal para Galícia, no noroeste da Espanha, com o marido e dois filhos. Nossa impressão é que Portugal não soube equacionar muito bem o aumento da imigração. Há um clima de maior hostilidade e os serviços de atendimento aos imigrantes colapsaram. Meu marido, que é brasileiro, estava há 2 anos esperando pela renovação do visto de residência, conta Mônica. Com base em dados do governo espanhol, o consulado do Brasil em Madrid estima que a comunidade de brasileiros oficialmente residente na Espanha tenha atingido 195 mil pessoas em 2025, contra 156 mil em 2022, um aumento de cerca de 25% em apenas 3 anos. Só no último trimestre, 6.300 brasileiros se mudaram para o país, segundo o Instituto Nacional de Estatística, um ritmo que anualizado poderia ultrapassar 25 mil e indica uma aceleração do movimento migratório. O consulado também reporta aumento na demanda por serviços consulares, sugerindo o crescimento da comunidade. A regularização extraordinária se aplica apenas a imigrantes que já estavam na Espanha até o final de dezembro de 2025, ou seja, recém-chegados não serão contemplados. Ainda assim, o interesse crescente pode ser explicado por uma combinação de fatores que vão desde o endurecimento das regras migratórias em Portugal até a busca por melhores salários e condições de vida. Em 2025, a coalizão governista de centro-direita que governa Portugal uniu-se ao partido de direita radical Chega, de forte viés anti-imigração, para aprovar mudanças na Lei de Estrangeiros. Entre outras medidas, a nova legislação elimina a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endurece as regras de reagrupamento familiar. O Parlamento português também aprovou esse ano uma nova lei de nacionalidade, que amplia de 5 para 7 anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o pedido de nacionalidade e elimina a concessão automática a filhos de imigrantes nascidos em Portugal. A lei entrou em vigor em 19 de maio, após ser sancionada pelo presidente, o ex-líder socialista António José Seguro, que ressaltou a importância de que processos pendentes não fôssem afetados pela nova alteração legislativa. Para o sociólogo Pedro Góes, da Universidade de Coimbra, até 2024, Portugal tinha um dos sistemas de imigração mais liberais da Europa. Quem chegasse e conseguisse trabalho já podia se regularizar e, após 5 anos, obter nacionalidade. Agora essa porta foi fechada. Além das mudanças legais, também há indícios de um aumento das hostilidades contra imigrantes. Dados do relatório anual de segurança Interna mostram que em 2025 foram registrados 449 casos de discriminação e incitação ao ódio e à violência contra 19 há uma década. Segundo uma pesquisa recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 51% dos portugueses acreditam que o número de imigrantes brasileiros deveria diminuir. Relatos de discriminação no cotidiano se tornaram mais frequentes, segundo brasileiros ouvidos pela BBC, E alguns casos de violência têm causado grande comoção na comunidade, como o do menino brasileiro que teve os dedos decepados na escola. Para Góes, a diferença no tom das políticas migratórias entre Portugal e Espanha se explica primeiro pela orientação ideológica dos dois governos. Após 8 anos de governo socialista, a centro-direita assumiu o poder em Portugal em 2024, mas sem maioria parlamentar, o que a obriga a negociar dialogar ora com os socialistas, ora com o Chega, hoje a segunda maior força no parlamento e que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais deste ano, com cerca de 33% dos votos. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol, de centro-esquerda, está no poder desde 2018. Essa diferença evidentemente influencia diretamente o tom das políticas e do discurso. E é um lembrete de que uma eventual alternância de governo também poderia levar a mudanças na política migratória, diz Pedro Góes. As eleições gerais espanholas estão previstas para 2027 e, no momento, a média das sondagens aponta para uma disputa acirrada entre o Partido Socialista Operário Espanhol e o Partido Popular, de centro-direita, com ligeira vantagem para o último. O Partido Popular promete uma reforma profunda para, nas suas palavras, colocar ordem no sistema migratório espanhol, incluindo elevar os requisitos para a nacionalidade, mas sem fechar as portas e até facilitando algumas vias de imigração legal, como o visto de busca de trabalho. As sondagens, porém, também indicam um possível fortalecimento, em relação ao resultado de 2023, do Vox, partido de direita radical de forte viés anti-imigração, com quem o Partido Popular poderia eventualmente ter de pactuar para formar um governo. Além dessa questão política, segundo Pedro Góes, também há uma diferença na escala da imigração entre Espanha e Portugal. Embora a Espanha tenha recebido mais imigrantes em termos absolutos na última década, cerca de 2,5 milhões, proporcionalmente o aumento foi maior em Portugal. Portugal tem hoje cerca de 1,6 milhão de imigrantes em uma população de 10 milhões, sendo que aproximadamente 1 milhão chegou nos últimos 10 anos. Para a Espanha, com 49 milhões de habitantes, isso equivaleria à chegada de quase 5 milhões de pessoas, diz ele. Em Portugal, esse volume trouxe uma série de desafios, incluindo a sobrecarga dos serviços públicos de imigração, acrescenta. Na Espanha, o governo tem defendido publicamente a imigração como parte da solução para desafios estruturais da economia, como o envelhecimento da população e a escassez de mão de obra em setores como educação, hotelaria, logística e cuidados. Do ponto de vista do discurso, a Espanha se destacou dentro da União Europeia ao afirmar de forma explícita que a imigração é fundamental para o crescimento econômico, algo que nenhum outro governo disse com tanta clareza. E os dados sustentam essa posição. Entre 2002 e 2024, dos 5,2 milhões de pessoas que se incorporaram à população ativa, 75% eram estrangeiros, "e tinham dupla nacionalidade", diz Claudia Finotelli, professora da Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense de Madrid e diretora do Grupo de Estudos sobre Migrações. Nos últimos anos, o crescimento da economia espanhola tem superado o de outros países europeus e economistas associam parte desse desempenho ao aumento da imigração. Em 2025, o PIB da Espanha cresceu 2,8% contra 0,2% da Alemanha e 0,9% da França. Em Portugal, o crescimento foi de 1,9%. Esse dinamismo, aliado a salários relativamente mais altos do que em Portugal, também tem atraído brasileiros. O salário mínimo na Espanha, por exemplo, é de 1.221 euros, cerca de 7.040 reais, versus 920 euros, cerca de 5.300 reais, em Portugal.. Nos dois países, o trabalhador recebe 14 salários anuais. Ao mesmo tempo, como em toda a Europa, o aumento da imigração também trouxe desafios. Por exemplo, ao agravar a crise habitacional, que tem múltiplas causas estruturais e é apontada como uma das principais dificuldades pelos recém-chegados. A regularização extraordinária é a medida mais recente do governo espanhol para avançar na integração de imigrantes que já vivem no país. O Executivo também promete agilizar a homologação de diplomas estrangeiros, que em alguns casos leva anos, e recentemente editou um decreto para eliminar as barreiras ao acesso de imigrantes irregulares à saúde pública em todas as regiões do país, garantindo uma harmonização das práticas nessa área. Oficialmente, espera-se que cerca de 500 mil pessoas sejam beneficiadas pelo processo de regularização extraordinária. Mas o Centro de Pesquisas Funcas estima que o número de imigrantes irregulares na Espanha possa ultrapassar 800 mil. Há tantas pessoas em situação irregular porque, diferentemente de outros países com mercados de trabalho mais formais, na Espanha há uma economia informal robusta que absorve essa migração, diz Raquel Martínez Buján, professora de faculdade de sociologia da Universidade de La Coruña. Existe um discurso de controle de fronteiras, mas na prática a economia precisa dessa mão de obra e há uma informalidade quantidade tolerada. Assim, muitas pessoas que entram como turistas acabam trabalhando sem contrato em setores como agricultura ou serviço doméstico. Completa. Hoje, a principal via de regularização não extraordinária na Espanha é o chamado arraigo. Em linhas gerais, após 2 anos vivendo na Espanha, ainda que de forma irregular, em muitos casos o imigrante pode solicitar uma autorização de residência, desde que comprove vínculos com o país, como uma relação trabalho ou estudos. Nacionais de países ibero-americanos, incluindo o Brasil, podem pedir a cidadania após 2 anos de residência legal no país. A regularização extraordinária permite que mesmo quem não cumpre os requisitos do Arraigo obtenha permissão de trabalho e residência, acelerando o acesso a um emprego formal. Entre as condições estão não ter antecedentes criminais e ter vivido na Espanha por ao menos 5 meses antes do fim de 2025. O governo afirma que a medida responde a uma urgência social e terá impacto fiscal ao trazer trabalhadores para a formalidade. "O que estamos fazendo é reconhecer direitos de cidadãos que já estão no nosso país", disse o primeiro-ministro Pedro Sánchez. Críticos, como o VOX, argumentam que a medida poderia gerar um efeito chamada, incentivando novas entradas irregulares na expectativa de futuras regularizações.. A última regularização extraordinária na Espanha ocorreu em 2005 e legalizou a situação de mais de 500 mil pessoas. Juan Mondras, professor de economia da Universidade Pompeu Fabra, analisou seus efeitos e concluiu que não só houve efeito chamado generalizado, como também houve aumento do emprego formal e da arrecadação, cerca de 4.000 euros, equivalente a 23 mil reais, anuais por trabalhador, sem pressão significativa "normativa" sobre a saúde ou a educação. Em 2005, a regularização veio acompanhada de mais inspeções em locais de trabalho e reforço do controle de fronteiras, o que mostra que há instrumentos para evitar um eventual efeito chamada, afirma o professor. Monjas acrescenta que, no geral, os fluxos migratórios resultam de uma combinação mais complexa de fatores de expulsão e de atração. Há algumas razões que empurram os imigrantes: crise econômica, violência, falta de oportunidades ou questões políticas, como a crise na Venezuela, e outras que os atraem, como crescimento econômico e oportunidades reais de trabalho. E as políticas de terceiros países também contam. Um endurecimento nos Estados Unidos pode desviar fluxos para Europa, por exemplo, destaca. Até agora, a imigração parece gerar menos polarização na Espanha do que em Portugal, segundo o Centro de Investigaciones Sociológicas, o instituto público espanhol de pesquisas de opinião, apenas 14,8% dos espanhóis apontam o tema como um dos 3 principais problemas do país, atrás de habitação, 43,5%, situação econômica, 22,5%, qualidade de emprego, 18,4%, e atuação do governo e de partidos ou políticos concretos, 15,4%. Outra pesquisa do Instituto de Pesquisas 40DB, divulgada em 4 de maio, apontou que 38% dos espanhóis são a favor da regularização extraordinária e 33% são contra. No entanto, na mesma pesquisa, 60% dos entrevistados de nacionalidade espanhola disseram que o número de imigrantes no país já estaria alto demais. O debate existe, mas não tem gerado um conflito mais generalizado. Há tensões pontuais, não um enfrentamento massivo, resume Martínez Buján. Claudia Finotelli, da Universidade Complutense de Madrid, ressalta que, para além do discurso, a demanda por trabalhadores estrangeiros é estrutural em toda a Europa. Mesmo a Itália, governada pela direita radical de Giorgia Meloni, tem anunciado os chamados decretos de fluxo para milhares de trabalhadores estrangeiros, que são regularizações encobertas, diz ela. Pedro Góes, da Universidade de Coimbra, concorda. No geral, os ciclos migratórios na Europa tendem alternar entre maior abertura e maior restrição. Mas no longo prazo, a região precisará de mais trabalhadores para suprir necessidades estruturais da sua economia, comenta. Ainda assim, não há dúvidas de que o caminho mais seguro para quem quer migrar são as vias legais, que, ainda que mais lentas, evitam situações de vulnerabilidade, exploração e incerteza, conclui. Você ouviu a reportagem "Por que cada vez mais brasileiros estão deixando Portugal e recomeçando na Espanha", publicada pela BBC News Brasil em 11 de maio de 2026.

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