'Os Lusíadas': a obra que 'fundou' a língua portuguesa há 450 anos
Publicado em 12 de março de 1572, poema épico de Luís de Camões, colocou o português, até então praticamente apenas uma língua falada, no mapa das línguas de alta cultura.
- Língua PortuguesaCertidão de nascimento da língua portuguesa · Luís Vaz de Camões · Língua de alta cultura · Vasco da Gama · Século XV · Rei Sebastião I
- Os Lusíadas como marco linguístico e culturalDignificação da língua portuguesa · Emerson Calil Rossetti · Márcia Maria de Arruda Franco · Sá de Miranda · Renascimento
- Influência e legado de Os LusíadasComparação com Shakespeare, Dante e Rabelais · Identidade nacional · Retórica e persuasão · Ideologia imperialista · Primeira globalização
- Estrutura e conteúdo de Os LusíadasDez cantos · Oitavas decassilábicas · Descoberta da rota marítima para a Índia · Glorificação do povo português
- A importância de ler Os Lusíadas hojeCultura geral · História e memória · Lusofonia · Crítica contemporânea
BBC, lê. Os Lusíadas, a obra que fundou a língua portuguesa há mais de 450 anos. Reportagem de Edson Veiga, publicada pela BBC News Brasil, em 11 de março de 2022. Lida por Thomas Papon.
As armas e os barões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana. E entre gente remota edificaram novo reino que tanto sublimaram.
Assim começa a obra que pode ser considerada a certidão de nascimento da língua portuguesa. Publicada em 12 de março de 1572, há mais de 450 anos, a célebre criação do poeta Luís Vaz de Camões
Nascido provavelmente no ano de 1524 e morto provavelmente em 1580, é formada por dez cantos, mil cento e duas estrofes e oito mil oitocentos e dezesseis versos, todos em oitavas decassilábicas, sempre arranjadas em um esquema rímico fixo.
Trata-se do poema épico Os Lusíadas, que narra a descoberta pelo navegador português Vasco da Gama da rota marítima para a Índia, um marco nas relações comerciais e exploratórias do século XV e, de certa forma, a consolidação de um momento historicamente relevante para Portugal.
Ao longo de seu texto, o poeta, que se dirige ao rei Sebastião I, evoca episódios da história lusitana de forma épica, sempre buscando glorificar o povo português. Mas a grandeza de Os Lusíadas não se resume ao engenhoso e esmerado formato adotado por Camões, nem pelo grande número de versos, tampouco pelas próprias histórias de heroísmo ali narradas.
Os Lusíadas se tornou um marco pelo uso da língua portuguesa, na época chamada apenas de linguagem, quase como de modo pejorativo quando comparada ao jeito culto de se expressar por escrito, ou seja, o latim.
E protagonista e fruto de um momento histórico de valorização de tais identidades, a obra é reconhecida como uma espécie de literatura fundadora do idioma hoje oficialmente praticado em Portugal e em outros oito países, inclusive o Brasil.
Doutor em estudos literários pela Universidade Estadual Paulista, a Unesp, e criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor Emerson Calil Rossetti situa os Lusíadas como a maioridade e a identidade poética da língua portuguesa.
constituem, de fato, uma referência para e sobre a língua portuguesa, não somente por ser uma obra-prima, o que hoje é consensual, mas por ser a primeira produção do idioma que alcança prestígio para além das fronteiras de Portugal ou dos países lusófonos, argumenta ele.
Camões captou com precisão o espírito da Renascença, tomando como base as epopeias antigas e construindo seu longo poema com soluções estéticas típicas da perfeição formal da época, mas a partir das possibilidades expressivas da nossa língua, como jamais se havia visto, analisa Rossetti.
É o caso, por exemplo, do ritmo bem marcado e regular dos decassílabos heróicos e, em um universo repleto de alusões históricas, mitológicas e cristãs, as combinações de rimas que caracterizarão igualmente as 1.102 estrofes da epopeia completa.
Professora livre docente da Universidade de São Paulo, onde é pesquisadora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, a linguista Márcia Maria de Arruda Franco contextualiza a obra como parte de um momento de dignificação da língua portuguesa como língua de cultura.
Até o século XVI, era muito raro que um autor em Portugal escrevesse em português. E mesmo ao longo do século XVI, as línguas de cultura preferidas dos letrados, tanto os humanistas puros que usavam o latim, como os impuros que usavam as línguas vulgares, era o castelhano ou o latim em vez do português, esclarece ela.
Marcia Franco lembra que esse movimento vinha sendo experimentado por alguns escritores, como é o caso de Sade Miranda, nascido provavelmente em 1487 e morto em 1558, que ousavam essa aventura de descobrir o valor letrado da língua portuguesa de trabalhar sobre sua elocução de escrever em português.
Ao longo do século XVI, vários vão levar a cabo essa tarefa de escolher a língua portuguesa como língua de cultura. Não só no discurso poético, mas também no discurso histórico. O idioma está presente nos cronistas que escrevem sobre as grandes descobertas, quando a língua portuguesa é a preferida, conta ela.
Vale ressaltar que já desde o reinado de Manuel I, nascido em 1469 e morto em 1521, médicos portugueses eram obrigados a efetuar suas prescrições em língua portuguesa, em linguagem, como eles diziam.
naquela língua falada que todo mundo entendia, comenta a professora. Era um período de ebulição acadêmica, em que os linguistas se propunham a entender e explicar a organização daquilo que se falava. Começa a surgir a filologia portuguesa.
Uma série de gramáticas em defesa da língua portuguesa como língua de cultura e não mais apenas como linguagem, contextualiza Márcia Franco. Os Lusíadas culminam esse processo, fazem com que esse processo se consolide.
Porque os Lusíadas são escritos em gênero épico, sublime. Relaciona-se às épicas da cultura clássica ocidental, na cultura antiga, que era modelizada pelos renascentistas. Os Lusíadas estão em linha direta com outras épicas, de Homero, na Grécia Antiga, e de Virgílio, da Roma Antiga, diz a linguista.
Para o escritor Enio César Moraes, professor de língua portuguesa e assessor pedagógico do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília, a importância de Os Lusíadas pode ser dividida entre os aspectos literário e histórico.
No primeiro quesito, o mérito recai sobre o fato de se tratar de uma epopeia, obra épica, que põe Portugal ao lado de nações como Grécia e Roma. Moraes observa que, não à toa, o próprio narrador do poema afirma ao Taneiro Cessa tudo o que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se a levanta.
está enaltecendo a temática da obra em comparação às produções grega e romana, interpreta o especialista. Já o segundo ponto, o histórico, está no fato de que o texto de Camões é a narrativa de grandes feitos do povo português na pessoa de Vasco da Gama, a época das grandes navegações.
Virgílio, o poeta romano, é o grande interlocutor de Camões e com esse trabalho, os Lusíadas, ele engrandeceu o português e o consolidou como língua de cultura. Fez isso graças ao seu trabalho de escrever com tropos, figuras, imagens, um todo. Realizou um trabalho sobre a prosódia dos versos, escolhendo os decassílabos, a oitava para urdir o seu poema, sua épica.
trabalhou a elocução da língua portuguesa, complementa Franco. A obra garantiu a Camões o mesmo lugar na língua portuguesa, ocupado por William Shakespeare, no inglês, Dante Alighieri, no italiano, e François Rabelais, no francês. Em suma, cada língua considerada moderna tem no trabalho de um grande escritor a consolidação de suas bases e a matriz de suas normas.
Camões representou esse movimento de defesa e ilustração das línguas ditas vulgares, faladas no dia a dia, que foi geral na Europa. Quase todas as línguas nacionais dos reinos passaram a ser utilizadas também na língua de cultura, em detrimento do latim, diz a linguista Márcia Franco.
Em Portugal, havia a opção entre duas línguas vulgares, o castelhano e o português, mas cada vez mais os letrados preferiram escrever em português, acrescenta ela. Camões mesmo já havia escrito poemas em espanhol. Decidiu utilizar o português para Os Lusíadas e, logo em seguida, sua obra também foi traduzida.
Ainda no século XVI, ganhou três traduções para castelhano e pelo menos uma publicação em latim, conforme pesquisas de Márcia Franco. Do ponto de vista da história da evolução da língua, o português atinge seu estágio moderno exatamente no século XVI, diz Emerson Rossetti, da Universidade Estadual Paulista.
É quando o idioma se uniformiza e adquire as características básicas que ainda hoje se reconhecem nas nossas gramáticas. A obra de Camões assimila essa nova afeição e legitima as potencialidades da nossa língua como expressão poética de temas universais e aspectos atemporais acerca da condição humana.
Por meio dos recursos fônicos, morfológicos e sintáticos, o escritor confirma o potencial também inventivo, a natureza literária do idioma. Nesse sentido, a língua portuguesa torna-se, pela sua pena, uma herança cultural, modelo de possibilidades de exploração criativa, diz ainda o professor. Por isso, Camões é patrimônio, como também Shakespeare e Dante.
Emerson Rossetti lembra que a partir das letras de Camões, abriu-se um espaço para outros gênios do pensamento ocidental em língua portuguesa. É um novelo de muita linha e a primeira ponta desse fio se chama Camões. Resume.
O professor Enio Moraes, do Colégio Presbitariano Mackenzie Brasília, ressalta que a época em que o poeta viveu o Renascimento foi marcada por efervescência científica e artístico-cultural. Assim, com os Lusíadas, ele deu visibilidade ao povo português ao ressaltar feitos grandiosos do presente, as grandes navegações, e também garantiu importante referência para os estudos filológicos e linguísticos reflexões.
promovidos nos séculos seguintes. Como sabemos, a língua é um dos principais elementos da identidade nacional e o excelso caráter nacionalista da sua narrativa exalta para além do conteúdo a língua portuguesa. Não é à toa que até hoje o poeta português figura como um dos maiores nomes da literatura lusófona, pontua ele.
Mais de 450 anos depois, ainda vale a pena ler os Lusíadas? Para os especialistas, não se trata apenas de uma obra para o vestibular. O livro pode e deve ser lido como cultura geral, principalmente por pessoas lusófonas. Seus versos são uma aula de retórica. Quem quiser aprender retórica, que leia os Lusíadas. Entenda toda aquela estrutura persuasiva, defende Márcia Franco.
Ele, o poeta-narrador, quer convencer o rei português de alguma coisa, convencê-lo a continuar essa aventura, essa luta dos portugueses para manter seu império, explica a linguista. Bem, os clássicos são os clássicos, e isso responderia à questão sobre as razões para se ler Camões hoje, de forma mais simplista, mas eficiente, acrescenta Emerson Rossetti.
Para ser, então, mais exato e pontual, diria que obras como Os Lusíadas têm a ver com a nossa história, a cultura, as crenças, as reflexões, os valores, a memória. Para o professor, não se pode construir um projeto futuro sem o conhecimento e a devida compreensão do passado, sobretudo quando ele ainda faz tanto sentido nos dias de hoje.
Afinal, continuamos seres desbravadores, vibramos com as conquistas que ampliam os limites da geografia e do conhecimento. Sentimos emoção diante das histórias de amor, ainda que com cores trágicas, analisa. Além disso, ele ressalta a questão da lusofonia.
Principalmente falamos a mesma língua e precisamos, provavelmente mais que no século XVI, de exemplos inteligentes, admiráveis e sensíveis. Necessitamos sempre de boa poesia, de qualquer período, visto que os clássicos não envelhecem. Conclui.
Márcia Franco, da USP, frisa que não se pode esquecer que, em seu conteúdo, os Lusíadas sublinham essa coisa que a gente considera horrível, a ideologia imperialista cruzadista. É um monumento ao poder e não deixa de ser um pouco chocante para nossos ouvidos, por exemplo, o modo preconceituoso como os mouros são apresentados na obra, exemplifica.
Isso não é do poeta, é do gênero épico e é da época. Por isso que a crítica contemporânea brasileira apresenta uma leitura de Os Lusíadas que salienta sua contradição, justamente o elogio e o questionamento da posição invicta e hegemônica portuguesa, argumenta.
Por outro lado, também é importante ressaltar que a obra é um retrato daquilo que pode ser considerada a primeira globalização. Essas descobertas dos navegadores se tornaram importantes como a primeira ligação planetária da Terra, a primeira vez que todas as culturas entram em contato e se tem essa visão do globo. Isso vai ser sempre importante, diz Franco.
Podemos dizer que são questionáveis, já que no encontro de culturas, a diversidade acabou esquecida e apagada, reprimida pelo eurocentrismo que doutrina o mundo. Mas os Lusíadas vão sempre ter a importância de relatar esse primeiro contato entre culturas, ainda que em confronto de poder entre o europeu hegemônico e os outros povos subjugados. Conclui.
Você ouviu a reportagem Os Lusíadas, a obra que fundou a língua portuguesa há mais de 450 anos, publicada pela BBC News Brasil em 11 de março de 2022.