Eles se apaixonaram e violaram a lei para ter certeza de que não eram irmãos
Audrey e Arthur queriam ter filhos; ambos foram concebidos com doação de sêmen e testes de DNA são ilegais na França. Como fizeram para ter certeza de que não eram meios-irmãos?
Thomas Papon
- A busca de Arthur e Audrey por suas origens genéticas e o desafio legal na Françaconcepção por doação de sêmen·medo de serem meios-irmãos·leis francesas sobre testes genéticos·anonimato dos doadores
- A violação da lei para realizar um teste genético e a descoberta de parentescomédico realiza teste por 900 euros·descoberta de doadores diferentes·teste de DNA doméstico·contato com doador de sêmen
- As consequências da busca por Audrey e Arthur e as mudanças na legislação francesaAudrey descobre irmã biológica·quatro ativistas compartilham o mesmo doador·contato com a família do doador·acesso a informações para concebidos após 2025
- A dificuldade de Audrey e Arthur em obter informações sobre seus doadores na Françaapenas pesquisadores ou juízes podem solicitar testes·multas por kits de teste doméstico·legislação francesa de 1994·esforços jurídicos de Audrey
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BBC Lê.
Eles se apaixonaram e violaram a lei para ter certeza de que não eram irmãos. Reportagem adaptada do programa The Gift da Rádio 4 da BBC, publicada pela BBC News Brasil em em 16 de agosto de 2026, lida por Thomas Papon. O problema surge quando você não sabe quem é o seu doador e começa a imaginar que é qualquer pessoa. Arthur Kermalvezem foi concebido com sêmen de um doador e passou anos vendo possíveis pais em todos os lugares onde ia.
Imaginei que poderia ser meu professor, as pessoas que via no ônibus, e ficava com muita raiva porque é impossível viver assim. Ele diz. Adulto, ele se apaixonou por Audrey, que também foi concebida com doador em Paris, na França. Foi ali que a questão ficou ainda mais delicada. Audrey descreve o momento em que se conheceram como amor à primeira vista. Mas seria esta conexão uma atração amorosa ou genética? Quando eles nasceram, havia apenas 2 bancos de sêmen em Paris e muitos homens faziam múltiplas doações.
Por isso, havia possibilidade real de que eles fossem meios irmãos. E antes de construírem sua vida juntos, Arthur e Audrey precisavam saber se havia um relacionamento genético entre eles. Mas as leis da França que regulamentam os testes genéticos e o anonimato dos doadores dificultavam muito a obtenção dessa resposta. Na França, apenas um pesquisador científico, médico ou juiz pode solicitar e supervisionar um teste genético.
As pessoas podem ser multadas em mais de 3.500 euros, cerca de R$22.200, pela posse de um kit de teste doméstico. Por isso, companhias especializadas como a 23andMe, Ancestry e MyHeritage não disponibilizam seus kits na França. A lei existe desde 1994. Seus defensores afirmam que ela impede o fornecimento de dados genéticos sensíveis para empresas comerciais evita disputas familiares causadas por resultados inesperados. Mas Arthur destaca que a França é o único país da Europa que criminaliza o uso desses testes.
Os pais de Audrey contaram sobre sua concepção quando ela se tornou adulta, mas antes disso ela já havia se formado advogada com especialização em bioética e direito. Por isso, ela sabia muito bem que a legislação francesa há mais de 30 anos garantia o anonimato dos doadores, mesmo após a Mas Audrey havia sido concebida em 1979, quando a legislação ainda não existia. Indo atrás de outras pessoas concebidas por doadores antes de 1994, ela encontrou Arthur.
Ele havia escrito um livro detalhando o seu desejo de saber mais sobre suas origens biológicas. Audrey conta que ficou surpresa ao ver como ele expressava exatamente os sentimentos que ela própria tinha dificuldade para articular. Ambos tinham famílias amorosas, mas eram tomados por questões sobre as pessoas desconhecidas que ajudaram a gerar sua própria existência. Quando eles se encontraram pessoalmente, a química foi imediata.
Aí surgiu o problema: eles precisavam saber a verdade sobre seus pais, mas nenhuma pessoa com poder para isso estava disposta a revelar essa informação. Após meses de buscas, eles encontraram um médico no sul da França que, por 900 euros, cerca de R$1.300, realizou um teste genético. O teste concluiu que não havia relação entre eles, mas o casal não sabia ao certo se o médico era de confiança. Receávamos que ele fosse um charlatão, conta Audrey.
Eles consideraram utilizar um kit de teste doméstico para confirmar o resultado, mas como advogada, Audrey estava determinada a agir dentro da lei. Por isso, em 2010, ela lançou uma série de questionamentos jurídicos ao sistema francês. Ela queria saber saber se o seu doador ainda estava vivo e, caso estivesse, se ele ainda gostaria de permanecer anônimo. Será que ela poderia ter acesso a informações sobre quantas doações ele havia feito e se Arthur poderia estar entre seus meios-irmãos sem identificar o doador?
Todos os seus esforços fracassaram. Em 2015, a corte administrativa mais importante da França rejeitou o seu recurso final. Pouco depois do nascimento do seu primeiro filho, um médico concordou em investigar quais informações poderiam existir sobre seus respectivos doadores. Segundo a lei francesa, um médico tem total acesso a esse tipo de informação sobre seus pacientes, mas não pode repassá-las para eles. O médico descobriu que seus doadores nasceram em anos diferentes, por isso eles não poderiam ser o mesmo homem.
A informação mudou a vida do casal, mas eles só ficaram sabendo porque um médico concordou em desrespeitar as normas. É muito estranho, diz Audrey. Isso significa que o médico pode saber mais do que eu sobre mim mesma. Mesmo com esse novo dado, Arthur ainda receava que eles pudessem ser primos ou relacionados de outra forma. Por isso, após anos de resistência, eles finalmente fizeram um teste de DNA doméstico. Os ativistas afirmam que a proibição francesa pouco impediu as pessoas de realizar testes domésticos.
O grupo ativista DNA Paz calcula que bem mais de 1 milhão de franceses já fizeram esses testes. Muitas pessoas encomendam os kits a amigos em países onde eles podem ser obtidos legalmente ou usando serviços de remessa em países vizinhos. O teste não encontrou relação entre eles. Os resultados do teste de DNA logo abriram novas portas. Depois de passar 30 anos imaginando como seria o seu pai, Arthur finalmente fez contato com seu doador de sêmen no dia de Natal de 2017.
Mas Audrey foi quem teve o maior choque. Entre suas coincidências de DNA havia uma mulher chamada Sophie, que ela havia representado na justiça. As duas mulheres haviam lutado por direitos legais similares. Descobri que Sophie, uma mulher cujo caso defendi na justiça, era minha irmã biológica, conta Audrey. Audrey e Arthur levaram seu teste de DNA ao lado de outros 8 ativistas concebidos por doação de sêmen em busca de acesso às suas origens.
Dos 10, 4 compartilhavam o mesmo doador: Audrey, seu irmão Peter, Sophie e o irmão de Sophie, Davi. O resultado comprova o risco real de que o casal tivesse o mesmo doador de esperma. Muitos anos depois, um teste genético mostrou relação com um americano, levando Audrey ao seu doador, um homem já falecido chamado Philippe. A mãe de Audrey escreveu uma carta para a família de Philippe agradecendo pelo seu presente, descrito por ela como imensurável.
A família dele recebeu a visita de Audrey. Todos tinham lágrimas nos olhos, relembra ela. A irmã de Felipe nunca soube que ele era doador. A descoberta trouxe a Audrey respostas que ela buscava havia décadas. Ela soube de detalhes sobre o histórico médico da sua família biológica, viu fotografias e uma antiga filmagem de Felipe. Posso vê-lo no vídeo, observar como ele andava e ouvir a sua voz, ela conta. Juntos, a campanha jurídica de Audrey e o livro de Arthur trouxeram mudanças para as leis francesas de concepção com doadores.
Agora, as pessoas concebidas depois de abril de 2025 podem ter acesso a informações que identifiquem seus doadores quando atingirem a idade adulta. Mas a França, por enquanto, permanece sendo um dos poucos países da Europa onde os testes de DNA domésticos são proibidos. Com isso, a luta de Audrey continua. Toda pessoa tem o direito de conhecer suas origens e saber sua história, defende ela. Você ouviu a reportagem Eles se apaixonaram e violaram a lei para ter certeza de que não eram irmãos, publicada pela BBC News Brasil em 16 de agosto de 2026.
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