Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo
Sebos de vários países começaram a receber pedidos volumosos de livros antigos; saiba o que está por trás disso e porque vários desses livros estão sendo destruídos.
Thomas Papon
- Empresas de IA destroem livros antigos para treinar modelos de linguagempedidos volumosos de livros·padrão de compra estranho·investigação de livreiros·Projeto Panamá
- Processo destrutivo de digitalização de livros para alimentar IAscorte da lombada·scanners industriais de alta velocidade·envio para reciclagem·questão de escala e custo
- Preocupações com a destruição de exemplares raros e a perda de metadadosedições limitadas ou únicas·ausência de ISBN·características além do texto·interpretação deficiente
- Treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs) com textosinformação disponível na internet·matérias de jornais·legendas de vídeos do YouTube·livros impressos digitalizados
- Risco de degradação da inteligência artificial com dados sintéticosinformação gerada por humanos acaba·textos escritos pela própria IA·erros se multiplicam·linguagem cada vez mais básica
- Propostas para digitalização e conservação do patrimônio linguísticodigitalização própria do patrimônio·licenciamento dos dados·importância da capa e costura·limite de dados para IA
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BBC Lê.
Por que empresas de inteligência artificial estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo? Reportagem de Matias Zibel, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 11 de agosto de 2026. Lida por Thomas Papon. Em 30 de abril, Marçal Font recebeu uma encomenda que chamou sua atenção na Livraria Fénix, uma referência no comércio de livros antigos na cidade catalã de Badalona, na Espanha. Há 20 anos me dedico a ser livreiro de livros usados, ou seja, já tive milhões de compras estranhas, então isso já não me alarma, conta à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, o também poeta e professor de literatura comparada da Universidade de Barcelona.
A encomenda vinha de uma empresa localizada no Canadá, mas não era a primeira vez que a livraria enviava livros em catalão para o exterior. Mandamos livros até para o Japão, não é algo incomum, mas o padrão de compra era estranho, conta Font. Quando no início de maio chegou uma nova série de pedidos, Font decidiu investigar por receio de que se tratasse de uma fraude. Não é frequente procurar saber quem compra de nós, mas naquele caso começamos a olhar, principalmente porque eram pedidos em uma janela de 1 hora ou 40 minutos.
Tínhamos 3 ou 4 emails pedindo uma quantidade incomum de livros e os custos de e os envios associados eram absurdos, conta ele. Então ele consultou o seu amigo Xavier Vinaixa, com quem compartilha, além do amor pelos livros e pelo humanismo, a paixão pela inteligência artificial. Fonte me ligou e disse: olha, estou recebendo pedidos com padrões estranhos, o mesmo cliente, envio para o exterior e pagando 3 vezes os custos de envio.
E a primeira coisa em que ele pensou foi que talvez fosse um golpe, lembra Vinaixa. Em entrevista à BBC Mundo. Foi aí que começamos a seguir a pista e encontramos outras pessoas com as mesmas preocupações de Marçal Fonte, na Alemanha, na Nova Zelândia. E então ficou muito claro para nós, acrescenta Vinaxa, que é pesquisador de inteligência artificial e diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensen.ai. Se alguém fizer uma busca na internet pelos termos livros antigos e inteligência artificial, encontrará rapidamente essas preocupações às quais Xavier que a Sinaxa se refere.
Em um artigo do jornal britânico The Telegraph intitulado Barbárie Cultural: Como as Empresas de Inteligência Artificial Estão Destruindo os Livros do Mundo, um livreiro de Haarlem, na Holanda, relata a surpresa que sentiu ao receber uma encomenda em massa de livros. No comércio de livros antigos, é muito raro que as pessoas queiram comprar mais de um livro. Portanto, se alguém chega e diz: quero algumas centenas de seus livros, isso é muito estranho, contou o antiquário Pieter de Vries.
O jornal The Guardian citou um livreiro no estado australiano de Vitória que recebeu um pedido da mesma empresa que comprou de Marshall Font. Eles fizeram o pedido, pagaram antecipadamente e não questionaram os custos de envio, explicou Delfina Maynard. As duas reportagens fazem referência à investigação jornalística que revelou o que é conhecido como Projeto Panamá. Em setembro de 2025, a empresa de inteligência artificial Anthropic concordou em pagar 1 bilhão e meio de dólares, o equivalente a cerca de R$7,2 bilhões, para encerrar uma ação coletiva movida por autores que alegavam que a companhia havia utilizado suas obras sem permissão para treinar seus modelos de inteligência artificial. 4 meses depois, o jornal Washington Post publicou com exclusividade um documento que faz parte do processo judicial, no qual era mencionada a existência de um plano para digitalizar todas as obras escritas pela humanidade.
O Projeto Panamá é nosso esforço para escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo, dizia o texto vazado, que mais adiante especificava: não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso. Maximiliano Firtman, professor argentino e autor de livros sobre programação e inteligência artificial, foi um dos autores que processaram a Anthropic nessa ação coletiva. Segundo contou a BBC News Mundo, o juiz determinou que, se a empresa comprasse o exemplar do livro, poderia utilizá-lo para treinar a inteligência artificial.
E então começaram a surgir os relatos de livreiros ao redor do mundo que recebiam pedidos de livros que ninguém procurava, e de algumas empresas que se dedicam a escanear esses livros e fornecer o texto já digitalizado às empresas de inteligência artificial. É aí que surge a questão da destruição dos livros, conta Maximiliano Firtman. Rodrigo Álvares, jornalista especializado em tecnologia do veículo argentino Todo Notícias, explica que existem dois métodos para digitalizar livros, um dos quais não implica a destruição do exemplar, porque utiliza scanners planos ou dispositivos em forma de V que digitalizam as páginas sem desmontar a encadernação.
O procedimento destrutivo é basicamente um processo que começa com o corte da lombada para que as folhas fiquem soltas. As páginas já separadas são introduzidas em scanners industriais de alta velocidade que as digitalizam muito mais rapidamente, de forma automática, explica. Uma vez digitalizadas as páginas, o livro já não pode ser montado novamente e seus restos costumam ser enviados para reciclagem. As empresas escolhem essa segunda alternativa por uma questão de escala.
Ela permite digitalizar milhões de exemplares com mais rapidez e a um custo menor. No caso documentado da Anthropic para o Projeto Panamá, foi utilizado esse procedimento, conclui Álvares. Digitalizar livros permite preservar os textos escritos ao longo da história humana, mas o objetivo principal parece obedecer mais ao treinamento da inteligência artificial do que a um espírito de conservação. Quando falamos em inteligência artificial, normalmente subentende-se que estamos falando de um LLM, sigla em inglês para Large Language Model, um grande modelo de linguagem, esclarece Xavier Vinaixa.
Os LLMs, como por exemplo o ChatGPT, são programas de inteligência artificial que aprendem a compreender, resumir, traduzir e gerar texto ou outros conteúdos prevendo a palavra ou trecho seguinte. Todos usamos o teclado preditivo em nossos telefones. Você escreve, olá, estou chegando, e talvez ele sugira a palavra atrasado. Como funciona esse teclado preditivo? Com base em estatísticas de textos anteriores que você escreveu. Isso mesmo, mas elevado à milionésima potência, é um LLM, exemplifica Maximiliano Firtman.
Então, para treinar esses grandes modelos de linguagem na complexa arte de encontrar conexões entre palavras, Eles foram inicialmente alimentados com toda a informação disponível na internet, como Wikipédia, blogs e fóruns. Quando isso começou a se esgotar, passaram a ser treinados com matérias de jornais e até com legendas de vídeos do YouTube. Tudo que tinham à mão era dado a essa máquina que engole textos. E quando isso acabou, começaram a procurar nos livros impressos que já estavam digitalizados, depois nas bibliotecas, e agora começaram a procurar em livros estranhos que não são comerciais.
E onde eles estão? Em livrarias de livros usados e antiquários, acrescenta Firtman. No caso de Marcel Fonte, diz Xavier Vinaixa, ele me comentava sobre pedidos que recebia, por exemplo, de obras sobre a história dos embutidos catalães, coisas que certamente ainda não foram usadas para treinamento. A destruição dos livros digitalizados para treinar a inteligência artificial tem gerado questionamentos e dúvidas em diversos círculos.
Miguel Ángel Ortega, presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha, diz que se deveria distinguir se se trata de exemplares de grandes tiragens ou de tiragens limitadas. Como comerciantes que preservamos o patrimônio e realizamos um trabalho de conservação, acreditamos que o destino final de uma obra de uma edição muito limitada, rara ou única, logicamente não deveria ser a destruição. Diz.
Nisso concorda Rodrigo Álvares, o jornalista de tecnologia argentino, para quem o maior risco é que as compras indiscriminadas destruam exemplares raros ou esgotados sem verificar antes quantos desses exemplares ainda restam nos estoques de distribuidoras e livrarias, ou mesmo em posse das pessoas. Marçal Fonte, por outro lado, não se preocupa tanto com a destruição de livros. Não sou nada romântico nesse sentido. Assim veterinários que estudam para salvar os animais acabam sendo os que mais sacrificam animais.
Meu ponto de vista é que não há ninguém que destrua mais livros do que um livreiro de livros usados, porque compramos bibliotecas inteiras, salvamos tudo que é possível salvar, mas há muita coisa que não se salva. Fonte explica que se um livro tem garantido a conservação de pelo menos 5 ou 10 exemplares, que um exemplar seja destruído para que toda essa informação vá para um novo formato de conhecimento parece até positivo. Sua preocupação está no fato de que a digitalização de todo o material produzido pela humanidade deixe de lado aquilo que não possui ISBN, a sigla em inglês de International Standard Book Number, o número que identifica cada livro publicado.
Toda a dissidência política do mundo, a luta LGBT, todos os fanzines de rebeldia, a contracultura, tudo que é underground foi produzido sem ISBN, afirma, advertindo que esse material pode se perder para as futuras gerações se também não for digitalizado. Por essa razão, tanto Álvares quanto Font destacam que não se deve confundir digitalização com conservação. A digitalização de um livro não é a mesma coisa que a conservação de um livro.
Geralmente, esse arquivo digital fica em uma base de dados privada, fora do alcance de leitores, bibliotecas e pesquisadores, adverte Álvares. O jornalista de tecnologia acrescenta que nessa digitalização extrema também podem se perder características que vão além do texto, como sua encadernação, anotações, ilustrações, qualidade de impressão, procedência e outras particularidades. Para Marcel Font, a ausência desses metadados deixa de lado elementos fundamentais para a boa interpretação de um texto, de modo que os dados produzidos até mesmo para a própria indústria de inteligência artificial são, na sua opinião, deficientes.
Que haja uma transferência de conhecimento do formato livro para os novos formatos me parece muito positivo. Nos séculos 15 e 16 já houve um processo semelhante com aqueles livros da recém-inaugurada imprensa, e também se perdia a qualidade nos dados de um formato para outro. Como isso foi resolvido? Com metadados, diz ele. Font cita o exemplo de quando informações inscritas em pedras foram transpostas para o papel. Não bastava transcrever o texto que estava na pedra, era preciso até desenhar a pedra, falar sobre seus materiais, sua localização.
Todos esses metadados são o que hoje nos permite reconstruir o que aquela pedra realmente dizia. O presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha explica que até mesmo dois livros com o mesmo texto podem ter valores culturais muito diferentes. Eles podem ter a mesma informação, mas um possui um ex-libris, uma pequena etiqueta decorativa colada na parte interna da capa frontal para indicar quem é seu proprietário, uma encadernação artesanal ou anotações, elementos que não poderão ser transferidos para o formato digital, um pouco como ocorre com o formato do livro eletrônico.
Para evitar a digitalização que destrói livros e deixa de lado informações essenciais, tanto Fond quanto Vinixa propõe eliminar os intermediários. A solução que propomos é que nós mesmos digitalizemos nosso patrimônio em nossa língua, guardemos isso e licenciemos os dados. Se você quiser os dados, eu os forneço da melhor forma possível e fico com o livro, porque para quem faz pesquisa também é importante saber como é a capa do livro, como ele foi costurado, não apenas o conteúdo, diz Vinayaksa.
O diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensein.ai acrescenta que a demanda por dados continuará até que já não haja mais com o que alimentar a inteligência artificial. Achávamos que a inteligência artificial atingiria seu limite quando não houvesse mais capacidade de processamento, mas não. O limite são os dados. A inteligência artificial ficou limitada porque já não há mais dados, diz ele. Para Maximiliano Firtman, ainda não sabemos o que acontecerá quando a informação gerada por humanos acabar.
O próximo passo são os dados sintéticos, os textos escritos pela própria inteligência artificial. O maior risco daqui algumas décadas é que quando passarmos a perguntar tudo a uma inteligência artificial sem recorrer às fontes, essa inteligência artificial comece a se degradar porque estará sendo treinada com a mesma informação que ela própria gerou. O jornalista Rodrigo Álvares ilustra essa degradação com a imagem de uma serpente que devora a própria cauda.
As empresas alimentariam seus modelos com conteúdo gerado por outras inteligências artificiais e, nesse caso, os erros poderiam se multiplicar, tornando a linguagem cada vez mais básica, como um resumo de um resumo de um resumo, cada vez mais simples, uma síntese de uma síntese que se afasta da informação original. Enquanto isso, na Livraria Fênix de Marcel Font, a situação foi mudando após as compras estranhas de abril e maio.
Começaram a nos pedir para enviar os livros não apenas para América do Norte, mas também para Alemanha. E após um mês sem novidades, Font recebeu uma nova encomenda, o que para ele só pode significar uma coisa: o Projeto Panamá continua em andamento. Você ouviu a reportagem Por que empresas de inteligência artificial estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo, publicada em 11 de agosto de 2026.
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