Como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta
Como é enfrentar 48°C dia após dia? Para quem vive sob calor extremo, a adaptação deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade.
Thomas Papon
- Temperatura em São PauloTemperaturas de 47-48 graus Celsius · Adaptação da população local · Impacto na agricultura e comércio
- Fenômenos Climáticos GlobaisAumento da combinação de calor e umidade · Planície Indo-Gangética como ponto crítico · Vulnerabilidade de Uttar Pradesh · Aumento da frequência e duração de ondas de calor
- Impacto dos eventos climáticos extremos na vida cotidianaRedução de horários de trabalho e comércio · Busca por sombra e brisa · Trabalhadores expostos ao calor · Escassez de água
- Desenvolvimento mediúnicoExtração de areia e esgotamento de águas subterrâneas · Redução da cobertura arbórea · Expansão da mineração e agricultura · Concreto substituindo vegetação
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Como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta? Reportagem de Sutik Biswas e Neetu Singh, da BBC News, publicada pela BBC News Brasil em 7 de junho de 2026. Lida por Thomas Papon. Às 6 horas da manhã, o sol sobre o distrito de Banda parecia não ter se dado conta de que o meio-dia ainda não havia chegado. A luz tinha o brilho intenso de uma tarde de verão. As sombras já encurtavam antes do café da manhã. Em maio, esse distrito poerento do estado indiano de Uttar Pradesh passou dias no topo de um ranking nacional nada invejável: o lugar mais quente do país.
As temperaturas ficaram entre 47 e 48 graus Celsius por mais de uma semana, algo extraordinário até mesmo para os padrões locais. O que chamou atenção, porém, foi a forma como as pessoas se adaptaram. Os mais de 2 milhões de habitantes de Banda, que dependem da agricultura, da construção, do transporte e de outros trabalhos ao ar livre, não tinham alternativa senão suportar o calor. Então reorganizaram a vida em torno disso. A 30 km do centro do distrito, o mercado de hortaliças de Atarra estava fechando as portas bem antes das feiras de rua no resto do mundo.
Os agricultores chegavam ao amanhecer com tomates, abóboras, pimentas, limões e melões. Queriam vender rápido e voltar para casa antes que o calor se intensificasse. Olhem o sol, disse Himanshu, comerciante em pé ao lado das caixas de tomates. São apenas 6:15 da manhã, mas parece que são 8 ou 9 horas. O calor encurtava a vida útil dos produtos. E o expediente do mercado. Uma caixa de tomates precisa ser vendida hoje ou amanhã, com esse clima eles não duram, diz o comerciante.
Onde antes a movimentação se estendia até o fim da manhã, agora começava a esvaziar às 8 horas. Às 10 horas, o mercado estava quase deserto. A redução de horários de funcionamento é norma em Banda. Entre o céu incandescente e o solo escaldante, as pessoas fazem o que o jornalista polonês Richard Kapuscinski observou certa vez em outra paisagem ardente da África: dedicar a energia à busca por sombra e brisa. Papu Verma é pedreiro e agora trabalha das 7 da manhã ao meio-dia e depois das 4 da tarde às 7 da noite.
As 4 horas no meio do dia são para esperar o pior do calor passar. Ainda assim, você tem que cumprir 8 horas, afirma. Trabalhe sem parar no sol ou pare e recomece depois, o pagamento é o mesmo. O descanso o livra de dores de cabeça e tontura provocadas pelo calor, mas estica o horário de trabalho para 12 ou 13 horas. Se não fizesse assim, comenta dando de ombros, o que eu ganho seria gasto com remédios. Em um dia da semana passada, por volta das 2 da tarde, quando a temperatura em banda chegou a 46 graus Celsius, 3 trabalhadoras se abrigaram embaixo de um caminhão-pipa em uma rodovia sobre a ponte do Rio Quem para almoçar à sombra fora do chassi do veículo.
Uma delas, Shanti Devi, caminha 6 km até o trabalho todas as manhãs e mais 6 na volta. O almoço dela era pão com cebola, sal e picles. Se a gente levar legumes, estragam antes do meio-dia, explicou. O abrigo dela sobre o Rio Ken era apropriado. O rio está no coração da luta de banda contra o calor. Pesquisadores afirmam que a extração de areia e o esgotamento das águas subterrâneas enfraqueceram a capacidade do rio de refrescar a paisagem ao redor, criando um círculo vicioso no qual a escassez de água e as temperaturas extremas se reforçam mutuamente.
Os efeitos econômicos do calor são visíveis por toda parte. Os motoristas de tuk-tuk elétrico enfrentam tardes sem passageiros. Os comerciantes abrem antes do nascer do sol e fecham entre o meio-dia 12 horas do dia e às 4 da tarde. O número de clientes caiu pela metade. Vilarejos inteiros se refugiam em casa nas horas mais intensas e só voltam a sair à noite. Os celulares vibram repetidamente com alertas do governo sobre uma forte onda de calor.
Fique alerta, seja cauteloso, advertem as mensagens. Os hospitais locais recebem um fluxo constante de pacientes vítimas do calor. Desde que a temperatura se intensificou, recebemos entre 15 e 20 casos por dia, em sua maioria crianças e idosos, afirma K. Kumar, superintendente médico-chefe do Hospital Distrital da Mulher. Os sintomas mais comuns são diarreia, vômito e febre. Essa experiência difícil em Banda é expressão local de uma tendência mais ampla.
Em toda a Índia, o calor vem chegando cada vez mais, não apenas em forma de altas temperaturas, mas também como uma combinação de calor e umidade que pressiona ainda mais o corpo humano. Pesquisadores do clima consideram a planície Indo-Gangética, que se estende por boa parte do norte da Índia e inclui o Uttar Pradesh, um dos pontos críticos emergentes do mundo para esse tipo de calor perigoso que combina temperatura alta e umidade.
A densidade populacional, a umidade abundante e o grande número de trabalhadores ao ar livre se combinam para criar condições em que até o trabalho rotineiro pode ser arriscado. Uttar Pradesh é especialmente vulnerável devido à enorme população exposta às condições climáticas adversas, a dependência do trabalho ao ar livre e ao acesso limitado a sistemas de refrigeração para milhões de domicílios, segundo o Centro de Estudos Climate Trends.
Cientistas dizem que a geografia da região e decisões erradas tomadas para o desenvolvimento local se combinaram para piorar o quadro. Banda fica perto do Trópico de Câncer, latitude associada a alguns dos verões mais intensos do mundo. Os rios correm em níveis baixos e expõem leitos de areia, pedra e cascalho que absorvem e irradiam calor. O concreto substituiu a vegetação. A cobertura arbórea, ou seja, a proporção de uma área ou terreno que é coberta por copas das árvores quando vista de cima, caiu muito abaixo dos níveis recomendados.
Um estudo da Universidade de Agricultura e Tecnologia de Banda concluiu que quase um sexto da densa cobertura florestal do distrito desapareceu entre 1991 e 2022, em grande parte por causa da expansão da mineração e da agricultura. Juntos, esses fatores tornaram Banda cada vez mais vulnerável ao calor extremo. Segundo Dinesh Shah, meteorologista da universidade, o distrito já registrou temperaturas entre 48 e 49 graus Celsius.
Em 2024, o termômetro chegou a 49 graus Celsius em 2 dias consecutivos. Mas o que tornou o verão deste ano incomum foi sua persistência. Por 8 ou 9 dias, as temperaturas de 47 a 48 graus Celsius se mantiveram sem interrupção, destaca o especialista. Essa é a novidade. Prem Singh, agricultor da região, afirma que a onda anual de calor extremo não é nenhuma novidade. Quantidade. O que o preocupa é a intensidade crescente. Ele culpa a redução da cobertura arbórea, a mineração em larga escala, o aumento do uso de combustíveis fósseis e o uso crescente do ar-condicionado.
Isso tornou a vida mais difícil para os pobres, enquanto os ricos não foram tão afetados, diz ele. O calor persiste muito depois do pôr do sol. Parece que as manhãs e as noites não existem mais, afirma Dinesh Shah. Às 7 ou 8 da manhã já parece que é tarde. As temperaturas durante a noite ficam em torno de 30 graus Celsius. O resultado é uma população que nunca se refresca por completo. No vilarejo de Asharaund, a 20 km da cidade de Banda, a luta não é tanto contra a temperatura, mas contra a falta de água.
Um único poço fornece grande parte da água potável do vilarejo. Todos os dias as mulheres formam fila com baldes sob um céu em chamas. Kranthi Vishwakarma, de 18 anos, passa 4 ou 5 horas em busca de água para casa. Quando há cortes de energia à tarde, o alívio vem da sombra de uma árvore. Não temos geladeira nem ar-condicionado, relata. Para nós, as árvores fazem esse papel. Perto dali, uma senhora de 80 anos chamada Shunubadi estava sentada ao lado de um ventilador todo remendado com barbante.
Funcionava com dificuldade, soprando um ar seco e quente. O suor seca, observa enquanto vê as pás girarem, mas para um corpo velho essas rajadas de calor são difíceis de suportar. Em seguida, faz uma reflexão mais sombria: nos meus 80 anos nunca vi um calor como esse. As pessoas mais velhas morrem em situações de frio ou calor extremos. Não sei se conseguirei suportar isso. Pelo vilarejo, os animais se viravam à sua maneira. Por volta do meio-dia, dezenas de búfalos estavam parados em um açude.
Alguns pastores aguardavam que eles saíssem da água. Ali conhecemos Jameswar Yadav, de 60 anos, antigo professor de escola particular que hoje vive da criação de búfalos. Curiosamente, ele vestia roupas pesadas, mais adequadas para o inverno do que para um dia de verão a 46 graus Celsius, e tinha um chale enrolado na cabeça. Usamos roupa grossa porque ela não deixa o calor do sol chegar ao corpo, explica. O tecido grosso nos protege do sol e dos ventos quentes.
Sim, faz suar, mas também evita que a gente adoeça, diz ele. Como todos os outros moradores em banda, Yadaf se adaptou. Mas adaptação e alívio não são a mesma coisa. Uma mudança no tempo finalmente trouxe tempestades de poeira e chuva. As temperaturas caíram entre 8 e 9 graus. O distrito voltou a respirar, mas o alívio foi temporário. As rotinas que os moradores de banda desenvolveram— começar a trabalhar antes do amanhecer, recolher-se em casa ao meio-dia, buscar sombra onde for possível— estão deixando de ser adaptações para se tornar uma necessidade.
Um estudo de Piyush Narang e Ashok Gadgil, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, estima que Uttar Pradesh pode registrar mais de 8 mil mortes adicionais durante uma onda de calor intensa de 5 dias, mais do que muitos outros estados da Índia. O impacto recai de forma desproporcional sobre idosos, trabalhadores expostos ao calor e famílias sem acesso à refrigeração. Os moradores de Banda, porém, parecem menos alarmados do que muitos cientistas do clima.
Eles convivem com o calor há gerações. O que preocupa os pesquisadores não é o fato de o distrito ser quente, mas de estar ficando cada vez mais quente e por períodos mais longos, em uma paisagem que perde as árvores e a água que antes ajudavam a manter as temperaturas sob controle. As trabalhadoras que haviam se abrigado sob um caminhão-pipa na estrada pareciam ignorar o perigo. Estamos acostumadas, disseram. Você ouviu a reportagem Como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta, publicada pela BBC News Brasil em 7 de junho de 2026.