A extraordinária vida de Richard Burton, explorador inglês que falava 26 línguas, percorreu o Brasil e se infiltrou em Meca
Extravagante aventureiro da era de ouro das explorações vitorianas foi espião, diplomata, militar, pesquisador antropológico e tradutor de obras eróticas.
Thomas Papon
- Vida de Richard BurtonRichard Francis Burton · Explorador vitoriano · Linguista · Espião e diplomata
- Escandalo INSSMeca · Peregrinação islâmica · Sheikh Abdullah
- Rodadas BrasileirãoBrasil · Rio São Francisco · Guerra do Paraguai
- Traducao LiterariaLivro das Mil e Uma Noites · Kama Sutra · Sociedade britânica vitoriana
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A extraordinária vida de Richard Burton, explorador inglês que falava 26 línguas, percorreu o Brasil e se infiltrou em Mecca, proibida para não-muçulmanos. Reportagem de Paula Rosas da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil. Em 14 de abril de 2026. Lida por Thomas Papon. Existem biografias que parecem não caber em uma vida só. A vida do explorador, espião, diplomata, militar, tradutor e pesquisador antropológico britânico Richard Francis Burton, nascido em 1821, morto em 1890, dá a impressão de se estender para além do espaço e do tempo para tentar englobar todas as façanhas histórias e controvérsias dos seus 79 anos de existência.
O aventureiro mais extravagante da era de ouro da exploração vitoriana falava 26 idiomas, mas se contarmos os dialetos que ele também dominava, chegamos a 40 línguas. Button se infiltrou na cidade sagrada de Meca, hoje na Arábia Saudita, e nos bordéis masculinos de Karachi, hoje no Paquistão. Ele também procurou as nascentes do Rio Nilo e traduziu o Livro das Mil e Uma Noites e o Kama Sutra para a pudica sociedade britânica. Sua tradução transformou o clássico indiano em um dos livros proibidos mais pirateados da língua inglesa.
Mas Burton não viajou pelo mundo apenas para ampliar as fronteiras do Império Britânico. Como cônsul do Reino Unido no Brasil, Richard Burton viajou do Rio de Janeiro até o interior de Minas Gerais, navegou a canoa pelo Rio São Francisco e registrou relatos dos campos de batalha da Guerra do Paraguai, que foi entre 1864 e 1870. Ele também explorou outras coisas que poderiam ter dado infarto fulminante à Rainha Vitória: deuses e religiões exóticas, drogas experimentais e, sobretudo, sexo e erotismo, destaca o escritor e acadêmico britânico Redmond O'Hanlon na sua série sobre exploradores do século 19.
Alguns o descrevem como um gênio, prossegue ele. Outros acreditam que ele foi um pervertido. Richard Button nasceu em Torquay, no sudoeste da Inglaterra, em 1821. Ele foi criado em diversos países europeus, incluindo a França e a Itália, onde se estabeleceu com sua família. Dotado de uma capacidade surpreendente para aprender idiomas, e também com pouca modéstia, Button afirmava ter aprendido latim aos 3 anos de idade e grego aos 4.
Ele foi admitido no Trinity College de Oxford, no Reino Unido. Ali aprendeu árabe, falcoaria, aperfeiçoou a esgrima, cultivou um esplêndido bigode que foi obrigado a raspar, se interior, desrespeitou normas e foi finalmente expulso em 1842 por assistir a corridas de revezamento sem permissão. Advertido pelas autoridades universitárias, ele as censurou por tratarem os estudantes como crianças. Fez uma cerimoniosa reverência e foi embora, mas o fez com estilo.
Alugou uma carruagem a cavalos com outro aluno infrator e os dois saíram pela rua principal de Oxford tocando um trompete de folhas de Flandres para se despedir dos amigos, beijando as mãos das vendedoras. Sua teatralidade e rebeldia o acompanharam por toda a vida, valendo a ele um apelido: Dick, o Rufião. Ele próprio se definia como um vagabundo, um extraviado, um lampejo de luz sem rumo fixo. E talvez pela sua infância na Europa, longe do seu país de origem, ele se queixava de que a Inglaterra é o único país onde nunca me sinto em casa.
Diferentes biografias o descrevem como um homem de superlativos e excessos que frequentava bordéis, tavernas e bibliotecas, com grande cultura e curiosidade infinita que o impulsionaram a explorar as diferentes sociedades dos locais por onde viajou. Uma história curiosa conta como Button viveu intensamente, sem medo de entrar de corpo e alma em tudo aquilo que o rodeava. Depois de abandonar Oxford, ele entrou para o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, onde serviu sob o comando do impiedoso general Charles Napier.
Button aprendeu grande parte das línguas locais, como Gujarati, Punjabi, Telugu, Pashto, Marathi e Hindustani, além do persa e do árabe, que já dominava. Com isso, ele se tornou peça importante para os serviços de inteligência. Para se camuflar entre a população local e conseguir entrar onde o homem branco nunca poderia colocar os pés, Button deixou o cabelo crescer até os ombros, além de cultivar uma barba grande e espessa. Ele também tingia as mãos e as pernas com rena para se passar por Mirza Abdullah.
Ele afirmava ser comerciante do Golfo Pérsico, com ascendência árabe-persa, para camuflar seus possíveis erros de pronúncia. Sendo o único oficial britânico que sabia falar sindi, a língua da região onde ficava Karachi, o general Napier o destacou em 1845 para investigar os bordéis homossexuais da cidade. Seu objetivo era pôr fim à prostituição masculina. Acompanhado de amigos locais, Mirza Abdullah visitou noite após noite diferentes bordéis.
Button teria realizado o seu trabalho com tamanha atenção aos detalhes que causou um grande rebuliço na sociedade vitoriana. Com isso, ele acabou prejudicando o seu futuro no exército para sempre. Seu relato de que grande parte dos clientes dos bordéis era composta de soldados e oficiais britânicos também não serviu a sua carreira, segundo algumas biografias. Richard Burton então voltou à Inglaterra, onde escreveu diversos livros sobre os costumes dos vários povos indianos.
Mas o comichão da aventura e da exploração não o abandonou. Um dos seus grandes desejos era visitar Meca e Medina, as cidades sagradas de peregrinação dos muçulmanos. A entrada em Meca era proibida para os que não professam o Islã, como acontece até hoje. Naquela época, quem violasse a proibição enfrentava a pena de morte. Mas isso não assustou Button. Ele passou anos estudando teologia muçulmana, aprendeu grande parte do Corão de memória e se transformou em um especialista na oração, segundo sua exaustiva biografia escrita por Thomas Wright em 1909, The Life of Sir Richard Richard Burton, A Vida de Sir Richard Burton, em tradução literal.
Para se camuflar dessa vez, ele adotou a aparência de um médico pasto com o nome Sheikh Abdullah e afirmava ser procedente da região do Afeganistão. Burton raspou a cabeça e deixou crescer novamente a barba. Um amigo seu afirmou que ele chegou a ser circuncidado para dar ainda mais realismo ao personagem. Dessa forma, Burton viajou da Inglaterra para o Cairo em 1853, onde comprou o seu traje de peregrino e realizou os preparativos para viajar até a Terra Santa do Islã.
Isso não sem antes sair para beber com um capitão albanês que acabara de conhecer. Quando a notícia se espalhou, Sheikh Abdullah achou melhor partir o quanto antes. Ele começou uma viagem de camelo até Suez, hoje no Egito, por meio de uma terra desértica infestada de feras selvagens e de homens ainda mais selvagens, segundo a biografia escrita por Wright. Em Suez, ele conheceu alguns moradores de Medina em Meca que seriam seus companheiros de viagem.
Um deles era Saad, o Demônio, um negro que levava duas caixas de roupas elegantes para suas três esposas de Medina. Outro era Sheikh Hamid, um árabe alto e magro com cheiro de suor que nunca fazia suas orações porque tinha preguiça de retirar roupa limpa da sua caixa. Esse tipo de detalhe fez do livro sobre a viagem Pilgrimage to El Medina and Mecca, Peregrinação a Medina e Meca em tradução literal, um grande sucesso na Inglaterra, um país ao mesmo tempo preconceituoso e ávido por relatos exóticos.
Após uma travessia de barco, eles atingiram o porto de Yanbu, hoje na Arábia Saudita. Dali eles conseguiram chegar a Medina depois ser atacados por beduínos no caminho. Button visitou os lugares sagrados da cidade e presenciou a entrada em Medina de uma grande caravana procedente de Damasco, hoje na Síria, composta por 7 mil pessoas, grandes senhores em magníficas liteiras verdes e douradas, enormes dromedários sírios brancos, cavalos e mulas ricamente adornadas, devotos peregrinos, vendedores de sorvete, carregadores de água e uma imensidão de de touros, ovelhas e cabras.
Impossível não ser seduzido por tamanho espetáculo. Button se juntou a uma caravana que seguia em direção a Meca, onde chegou no dia 11 de setembro de 1853. Ali, como mais um membro da Ummah, a comunidade islâmica, ele realizou todos os ritos religiosos. Button deu 7 voltas em torno da Kaaba, a construção sagrada em direção à qual os muçulmanos orientam suas orações, chegou a gerar uma pequena contenda com alguns persas, a quem seu criado Muhammad chamou de porcos, ao abrir caminho para conseguir beijar a Pedra Negra, a rocha sagrada engastada em um dos cantos da Kaaba.
Enquanto a beijava e friccionava minhas mãos e minha frente contra ela, eu a observei detidamente e saí dali convencido de que se tratava de um meteorito, escreveu Burton. Ele fez anotações e desenhos escondidos da Kaaba e imaginou que entre todos os fiéis que choravam agarrados às cortinas que cobrem o lugar sagrado, nenhum deles sentia uma emoção mais profunda do que ele, ainda que reconhecendo que se tratava do êxtase do orgulho satisfeito.
É possível que Richard Burton não tenha sido o primeiro ocidental a entrar em Meca, mas foi o primeiro a narrar minuciosamente os rituais e costumes muçulmanos. Sem poupar detalhes sobre a sua aventura, alimentando assim sua própria lenda. Seu livro foi um sucesso, mas em vez de voltar à Inglaterra para desfrutá-lo, Button decidiu viajar para outro lugar que na época também era proibido para os não-muçulmanos: a cidade de Harar, no chifre da África, onde hoje fica a Etiópia.
Dessa vez, ele chegou vestido de mercador turco e conseguiu com que o amir, o príncipe da cidade, permitisse que ele se alojasse por 10 dias. Button era arrojado, mas tinha consciência, como destaca Thomas Wright. Quando pensava que estava sob o teto de um príncipe intolerante e sanguinário, com suas sujas masmorras ressoando com os gemidos de prisioneiros acorrentados e quase mortos de fome em uma cidade que detestava os estrangeiros, ele, como o único europeu que já havia cruzado aquele inóspito umbral, se sentia naturalmente esmagado, escreveu Wright.
Depois de incluir Harar na sua lista de façanhas, Burton se voltou para as lendárias nascentes do Nilo, um mistério que corroía a curiosidade de vários exploradores. Dos dois principais ramos que alimentam o rio, sabia-se que o Nilo Azul tem sua origem na Etiópia, mas não se sabia onde nasce o Nilo Branco. Sua primeira tentativa de chegar às nascentes foi frustrada quando sua expedição foi atacada por cerca de 300 dos bérberes.
Dela também participava o oficial e explorador inglês John Speke. Essa expedição, aliás, é retratada no elogiado filme As Montanhas da Lua, de 1990, dirigido por Bob Rafelson. Os guerreiros mataram alguns membros do grupo e feriram Speke no ombro e nas pernas. Button recebeu uma lança no rosto que deixou sua característica e assustadora cicatriz. Ele viajou para a Inglaterra para se tratar. Depois, Butten foi voluntário na Guerra da Crimeia e retomou a aventura em busca das nascentes do Nilo.
Ele partiu da ilha de Zanzibar, que hoje é parte da Tanzânia, com Speke e 132 transportadores. E em vez de percorrer o Nilo rio acima, Butten imaginou que a forma mais rápida de encontrar as nascentes seria atravessando o continente a partir do Oceano Índico. Sua expedição sofreu todos os males possíveis, atravessando florestas, pântanos e sendo picadas de todo tipo de insetos. Por isso, Burton e Speke chegaram acometidos de malária e quase cegos ao Lago Tanganyika, que nenhum homem branco havia visto até então.
Speke se recuperou mais rapidamente, e quando ambos comprovaram que o Largo Tanganyika não era a nascente do Nilo, ele seguiu caminho em direção a uma outra grande massa de água que, segundo seus homens, ficava a várias semanas de viagem norte. Speke deixou Burton para trás se recuperando e chegou ao local, a que ele deu o nome de Lago Vitória, em homenagem à monarca britânica. Atualmente, o lago é compartilhado por Uganda, Quênia e Tanzânia.
Speke então concluiu ter resolvido o mistério, mas sua descoberta gerou um ácido confronto com Burton, que não acreditou nele, e a disputa foi aumentando quando eles regressaram à Inglaterra. Uma segunda expedição de Speke ao Lago Vitória confirmou sua teoria, manchando ainda mais a reputação de Burton. Mas aquela não foi a última aventura do explorador. Burton viajou para os Estados Unidos para estudar os mórmons em Salt Lake City.
Ele escreveu um livro a respeito intitulado The City of the Saints, A Cidade dos Santos em tradução literal. Ele se casou com uma aristocrata e foi enviado como cônsul à ilha de Fernando Pó, onde ficava a capital da então colônia espanhola Guiné Dali ele lançou novas expedições para diferentes pontos da África e escreveu pelo menos mais 5 livros sobre os costumes dos povos que ele encontrava, com seus fetiches, canibalismo e rituais sexuais.
Button também esteve no Brasil. Ele foi cônsul britânico em Santos, no estado de São Paulo, onde traduziu para o inglês Os Lusíadas e outros escritos de Luís de Camões. Suas obras, escritas originalmente em inglês, também incluem Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico, Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho e Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai. Button também trabalhou como cônsul em Damasco e em 1872 aceitou o consulado de Trieste, na Itália, seu último destino.
Em Trieste, longe do exotismo que perseguiu por toda a vida, Richard Burton se dedicou à literatura. Ele escreveu sobre a Islândia e os etruscos e traduziu Catulo e Giambattista Basile. Agora ele viajava com a imaginação e sua própria erudição. Talvez essa curiosidade sem complexos, especialmente em relação aos aspectos mais íntimos das relações humanas, tenha oferecido a ele os rendimentos que permitiram que ele vivesse viver confortavelmente na velhice.
Correndo risco de ser preso, Button traduziu e publicou secretamente o Kama Sutra. Com isso, ele trazia para o Ocidente a sabedoria sexual dos manuais orientais sobre o amor, e também publicou uma versão sem censura do Livro das Mil e Uma Noites, acompanhada de ensaios sobre pornografia, homossexualidade e educação sexual para traduzo um livro duvidoso na minha velhice e imediatamente ganho 16 mil guineus, teria ele dito à sua mulher Isabel.
Agora que conheço os gostos da Inglaterra, nunca nos faltará dinheiro. Mas ela, católica praticante, não parecia tão satisfeita com os gostos do seu marido. No dia seguinte à morte de Button, temerosa da reputação póstuma que perseguiria seu marido na pudica Inglaterra vitoriana, Isabel entrou no seu escritório e reclamou vários manuscritos. Entre eles havia uma nova tradução do manual amoroso árabe do século 15, O Jardim Perfumado.
Richard Burton havia passado os últimos 14 anos trabalhando na obra e incluído um último capítulo sobre a homossexualidade que nunca havia sido traduzido antes. Foi preciso esperar quase 100 anos para que outra tradução pudesse vir Você ouviu a reportagem A Extraordinária Vida de Richard Burton, Explorador Inglês que Falava 26 Línguas, Percorreu o Brasil e se Infiltrou em Meca Proibida para Não Muçulmanos, publicada pela BBC News Brasil em 14 de abril de 2026.
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