'A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo', diz escritor espanhol
Javier Cercas foi convidado para viajar com o papa Francisco e lhe perguntar o que quisesse; o encontro resultou em um livro que explora os mistérios da fé.
- LiteraturaEstrutura narrativa (romance policial) · Autobiografia e crônica · Investigação do cristianismo · Figura materna como protagonista real · Encontro com Papa Francisco na Mongólia
- Ressurreição e EscatologiaEnigma central do cristianismo · Promessa contra a morte · Poder de transcendência · Rebelião metafísica de Cristo · Questão central do livro
- Conversao e MoralAfastamento dos ensinamentos de Cristo · Constantismo (união Igreja-Estado) · Clericalismo · Cristianismo burguês · Igreja como contra-poder
- O Papel da Fé e EspiritualidadeMorte de Deus (Nietzsche) · Ausência de grandes narrativas · Vazio existencial · Substitutos parciais da religião · Nostalgia do absoluto
- Papa Francisco e reformasAnti-clericalismo radical · Revolucionário na Igreja · Figura de missionário · Combate ao clericalismo · Abertura do Vaticano
- Transcendência e ImortalidadeContinuidade através dos filhos · Transformação de matéria · Literatura como forma de transcendência · Morte e legado · Presença dos pais
- Papa Leao XIVAbordagem mais tradicional e cautelosa · Continuidade com Francisco · Perfil missionário · Reconciliação interna na Igreja · Conhecimento da cúria
- Preconceito anticlericalDefinição de anticlericalismo · Transição de ateu a agnóstico · Impossibilidade de prova de Deus · Racionalidade agnóstica · Influência de historiadora Anna
- Desenvolvimento CulturalDuração institucional (2 mil anos) · Impacto literário e artístico · Influência política e social · Comparação com outros impérios · Extraordinariedade da instituição
- VaticanoAbertura das portas do Vaticano · Liberdade total de investigação · Viagem à Mongólia · Acesso a pessoas internas · Presentes surpresa
- Problema Linguístico da IgrejaLinguagem envelhecida e desinteressante · Hermetismo discursivo · Contraste com linguagem de Cristo · Influência da literatura e arte · Falta de atração contemporânea
- Poder e Linguagem na História AntigaHomilia do Papa na Mongólia · Sedução das palavras · Arte e religião · Música como quinto evangelho · Impacto sensorial do sagrado
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A história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do cristianismo, diz escritor espanhol. Reportagem de Paula Rosas, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil,
em 7 de fevereiro de 2026, lida por Silvia Salek. Sou ateu, sou anticlerical, sou laico-militante, racionalista quanto mais, ímpio-rigoroso. Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas, a caminho da Mongólia, enquanto acompanhava o então Papa Francisco. Sua esperança era que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder,
a uma pergunta simples, mas ao mesmo tempo impossível, se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte. O Vaticano havia proposto a Javier Cercas um presente surpresa que nenhum escritor poderia rejeitar, abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um local longínquo do planeta.
Javier Cercas entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que tinha perdido a fé na adolescência, mas sobretudo com o amor de um filho que buscava um último consolo para sua mãe idosa e doente. O resultado foi o livro O Louco de Deus no Fim do Mundo, que mistura sua biografia com a crônica da viagem. Javier Cercas o define como um romance policial,
são, no fundo, todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que em todos eles existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo. O enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum. Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do cristianismo.
e anatomia de um instante. Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais ao relato com que a religião dava sentido ao mundo. A BBC News Mundo, que é o serviço em espanhol da BBC, conversou com Javier Cercas durante o Rey Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1 de fevereiro de 2026.
são lidas por Thomas Papon. Seu livro sobre o Papa, o sucesso do álbum recente de Rosalia, Lux, a religião está na moda? Não sei, duvido muito. É claro que existem algumas coisas interessantes, como esse livro, como o disco da Rosalia, mas não sei se está na moda. Cada país é diferente e cada circunstância é distinta. A Europa não é mais o centro do cristianismo.
A religião está na África, mas está se reduzindo. O centro do catolicismo agora está na África. Mas será que isso significa que a religião está na moda? Eu quis basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando na Europa e na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo sem Deus. Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo, o que fazemos com isso?
acontecendo no Vaticano? O que diz a igreja? É isso que eu tentei mostrar nesse livro. Vivemos em um mundo no qual não existe mais um relato que pretenda dar sentido a tudo como fazia a religião. Você acha que substituímos a religião pelo quê? Nada substitui a religião. Essa é a resposta. Existem substitutos parciais. Nós nos esquecemos de um ponto, que a religião, a ideia de Deus,
havia dado completo sentido ao mundo. E isso é incrível. Na Idade Média, entre os anos de 476 e 1453, as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo. Durante séculos e séculos, a humanidade viveu dessa forma, mais ou menos até o final do século XIX, quando o filósofo Friedrich Nietzsche escreveu aquele texto extraordinário
dizendo Deus morreu e nós o matamos. A partir daquele momento, esse grande relato cai. Houve tentativas de substituir esse relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise, mas essas tentativas não funcionaram. Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião. A condição pós-moderna consiste precisamente nisso,
Em 1979, o filósofo francês Jean-François Lyotard, não temos mais grandes relatos. Cada um busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões alternativas, outros na arte, na política, no consumo. E, às vezes, muitas pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a ausência de Deus,
como dizia o escritor George Steiner. Acredito que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do todo. De fato, o protagonista se auto-intitula o louco sem Deus, como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação global. E é possível que muitas pessoas sintam falta dela. E isso gera, como você conta no livro, um nó na garganta.
é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia. E eu tentei combater essa angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado com a literatura. É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gere incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta.
substituto da religião. E o meu caso não é uma exceção. De fato, no final do século XIX, grandes escritores, como Gustave Flaubert, por exemplo, os grandes pais da modernidade, se auto-intitularam sacerdotes da arte. Eles consideravam a arte como uma espécie de sacerdócio. Você também fala do constantinismo, a união entre a igreja e o Estado. Parece que já havíamos superado isso,
mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão. Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que usam a religião como justificativa para projetos políticos. Pois é, o Constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico para a Igreja. E a Igreja Católica de hoje, e o Papa Francisco era um exemplo, combate radicalmente o Constantinismo.
Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem dúvida, o desse homem, o Papa atual, Leão XIV. Outra questão é que outras igrejas continuam instaladas no Constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para os seus próprios projetos políticos. Isso é mortal, é catastrófico por um motivo básico, porque o cristianismo não pode estar junto do poder.
E essa é outra das ideias que você aprofunda no seu livro, certo?
isso. Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro. Muito pelo contrário, era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade. E esse é o verdadeiro cristianismo. O que vivemos hoje é uma perversão do cristianismo. É um cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo clerical, no qual o clero está acima dos crentes.
Isso também é letal para o cristianismo. E, em grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do cristianismo. Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Pegui, revolucionário e místico do início do século XX, que é corretíssima. O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito burguês. O que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.
E do ponto de vista de Francisco também. Por isso, ele combateu o clericalismo até a morte. Era um de seus principais inimigos. O clericalismo é a ideia de que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que esse é o câncer da igreja. O sacerdote, o clero em geral,
faz parte dos fiéis. Francisco tinha uma imagem muito boa, era um homem com imagens literárias. Ele havia sido professor de literatura e dizia, o sacerdote precisa estar, ao mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da igreja.
Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele, o Papa Francisco. E sem ir muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles. Nesse sentido, sim, é claro que uma parte da igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é simplesmente letal para a igreja. Por isso, Francisco era muito radical a esse respeito. E como você vê o novo Papa?
ele também seja anticlerical? Com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque ele é um homem muito prudente. Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez. Leão XIV entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Conselho Vaticano II, o retorno ao cristianismo de Cristo.
O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida. O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é diferente e a forma é fundamental. Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador. Ele vem acalmar as águas, vem unir o que Francisco separou,
Ele diz que Francisco deixou uma igreja bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical, dentro da própria igreja. E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não sabemos, ele não fez grandes mudanças no Vaticano. Existe um ponto que sim, é verdadeiro, que esse homem, antes de tudo, é um missionário. O Papa Francisco falava em uma igreja missionária, pois os missionários são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical.
que faz o mesmo que os cristãos primitivos, abandonar tudo, ambições, família, etc., e se lançar para o fim do mundo. É isso que fazem os missionários do meu livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão lá estender a mão, porque não vão evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com os que não tenham de cair mortos, ou seja, com os que ficava Jesus Cristo. Esse homem, Leão XIV, tem uma particularidade.
é missionário e conhece a Cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um Papa assim. Como você acreditava que seria o Vaticano antes de entrar lá e ter acesso a tantas pessoas? Você encontrou o que esperava? Certamente não. Veja, o meu maior esforço para escrever esse livro foi eliminar minha visão preconceituosa. Todo mundo está repleto de preconceitos de todo tipo, contra e a favor do Vaticano,
da igreja católica, do cristianismo, etc. Sobretudo nos nossos países de forte tradição cristã, como a Espanha e os países latino-americanos. Todo mundo acredita em saber tudo. Nada do que eu esperava se realizou. Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o Papa. E isso segue até o final do livro.
que se eu fosse crente, diria, é um pequeno milagre. Eu brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no mundo, o que certamente também era a crença do Papa Francisco. Por isso é um livro humorístico. Não consigo conceber literatura sem humor, especialmente os romances. E é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário,
cheia de lendas que circulam sobre o Vaticano. Todos esses mistérios são simplesmente isso, lendas, ou seja, invenções. Você diz no livro que a fé é um superpoder. O que você acredita ser mais fácil, ter esse superpoder ou não? Bem, vamos ver se eu consigo fazer você entender. Eu passei de ateu a ser agnóstico. A historiadora e filósofa Hannah Arendt me convenceu
estúpido que acredita saber o que não se pode saber. Ou seja, da mesma forma que é impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo? A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti a inveja dos crentes de verdade, da minha mãe, por exemplo. Na verdade, ela é a autêntica protagonista desse livro.
Digo em algum momento que, se compararmos sua fé com a do Papa Francisco, a do Papa era um tanto frágil. Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei conseguir. O livro tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão. A fé não é algo voluntário.
dizer, ah, fé dá mais força, mais energia, então vou ter fé. A fé ou você tem ou não tem. Você não pode fingir, como também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não saberia como fazer. Por isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor tinha razão quando dizia que é muito mais difícil ter fé do que não ter. Quando você fala no livro, por exemplo, da beleza, da homilia do Papa,
Na Mongólia, observamos o poder de sedução das palavras. Até que ponto vai a relação, nesse sentido, entre a religião e a literatura? Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante, é incontestável. Mesmo que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa na tradição literária. No livro, de qualquer forma, destaco que a igreja tem um problema com a linguagem.
Desinteressante. Esse é um problema enorme da igreja. Jesus Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma que contra a pessoa de Jesus Cristo não se pode falar nada de mal, pois suas ações são extraordinárias. Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem. Mas também atraía pelo que dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante,
E seus discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de ouro. A linguagem da igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E aqui a igreja tem um problema. Mas também porque sua linguagem muitas vezes é hermética, não é atraente e ninguém entende. A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A igreja tem um grave problema linguístico.
mas também a arte ajudava a levar as pessoas para a religião. É o que acontece quando você entra em uma catedral, se sente minúsculo naquele espaço dedicado a Deus. Ou quando você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de bar no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão vai se abrir e Deus vai aparecer para dizer como que eu não existo, seus tolos, aqui estou eu, de barba e tudo.
o filósofo romeno Emil Tioran, que diz, Deus não sabe quantos crentes ele deve a Bach. E é verdade, você ouve o Magnificat e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, o compositor, como dizem, era o quinto evangelista, ou talvez o primeiro. É claro que a Igreja Católica foi totalmente decisiva no Ocidente, de todos os pontos de vista, incluindo o literário, o artístico, o político, todos.
Esquece completamente. Às vezes me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro como esse. E respondo com outra pergunta, como não aceitar escrever um livro como esse. Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?
Estamos habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal. É a mais incomum do mundo. Basta pensar que no centro dessa instituição está algo chamado de ressurreição da carne e vida eterna. É algo absolutamente incrível e que convenceu, que seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história. Por isso é algo extraordinário.
Você chegou à conclusão de que o extraordinário não é o Papa, mas a igreja que continua existindo dois mil anos depois, enquanto impérios e reinados caíram. Qual é o superpoder da igreja? Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada semelhante. Existe algo muito poderoso no cristianismo. Cristo era um revolucionário social, mas também um revolucionário metafólico.
Cristo não se rebelou apenas socialmente, ele se rebelou metafisicamente, contra a morte. Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita simpatia por isso, porque a morte me dá nojo, não gosto dela, absolutamente nada, eu não quero morrer. O cristianismo diz que você não vai morrer, é uma imensa promessa. Essa rebelião tem enorme potência.
Sextir em seu ser é o que define os seres humanos. Queremos continuar sendo. E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna. Definitivamente, ele oferece essa rebelião. É disso que trata esse livro. Sua mãe está no centro do livro. Até que ponto você foi movido por esse amor filial? Quando me fizeram a proposta de escrever esse livro, a primeira pessoa em que pensei
Foi minha mãe. Minha mãe era uma mulher profundamente crente, seriamente católica. E quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos. Ela não dizia isso porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo. Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim. E o meu livro trata de um louco sem Deus.
e perdia a fé. Ele vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco, o primeiro papa que assumiu o nome de Francisco de Assis, que se auto-intitulava o louco de Deus. E um louco que foi com ele até o fim do mundo, ou seja, a Mongólia, para fazer essa pergunta. Uma pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização.
Mas você tem toda a razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais. Esse é um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é investigar a mim mesmo. E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres humanos.
Você acredita que Francisco esteja agora conversando com sua mãe?
Existe, por exemplo, uma lei que diz que a matéria não se cria nem se destrói, apenas se transforma. E não se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física. Ou seja, agora que meus pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais, porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células. Não se trata de imaginação, é um fato constatável,
O escritor espanhol Miguel de Unamuno dizia
Esse foi Thomas Papon lendo as respostas do escritor espanhol Javier Cercas. E você ouviu a reportagem A História da Igreja Católica, em grande parte,
é a história da perversão do cristianismo, diz escritor espanhol, publicada pela BBC News Brasil em 7 de fevereiro de 2026.