A vida de São Sebastião, padroeiro do Rio, que virou protetor dos gays
Cristão que se tornou soldado para ajudar outros cristãos condenados pelo Império Romano, acredita-se que ele tenha sido desmascarado e martirizado — não uma, mas duas vezes.
- Violações de direitos e constitucionaisNascimento em 256 em Narbonne · Alistamento no exército romano · Duplo martírio · Flechadas como forma de execução · Sobrevivência e resgate por Santa Irene · Morte por espancamento · Data de celebração em 20 de janeiro
- Fontes históricas documentaçãoAtas de martírio escritas séculos depois · Legenda Áurea · Martirológio de 354 · Acta Sanctorum · Sermão de Ambrósio · Discrepâncias entre relatos · Lendas versus fatos verificáveis
- São SebastiãoExpulsão dos franceses em 1567 · Batalha de 20 de janeiro · Fundação da cidade por Estácio de Sá · Primeira igreja dedicada ao santo · Transferência para a Tijuca em 1922 · Relíquias e fragmentos do santo · Celebrações e festas coloniais
- Apropriação cultural de santos pela comunidade LGBTIconografia homoerotica · Corpo nu e atlético nas representações · Símbolo de luta e persistência · Paralelo com perseguição e coragem · Livro de Richard K. sobre martir gay contemporâneo · Representação artística do desejo sexual · Conexão entre fragilidade e resistência
- Quaresma e Tradicoes ReligiosasSanto mais retratado na história da arte entre homens · Imagem amarrado a árvore com flechas · Construção renascentista da imagem · Simbolismo do corpo nu · Contraste com São Jorge e virilidade · Persuasão versus luta como característica · Influência na imaginação coletiva
- Simbolismo religioso e ético de São SebastiãoDefesa dos perseguidos · Coragem e bravura espiritual · Persuasão através do diálogo · Modelo para tempos de negação religiosa · Fragilidade versus força espiritual · Frase antes do martírio · Poder de conversão
- Atuação de Lucia na políticaImperador Diocleciano e perseguição cristã · Condição de soldados cristãos · Status social dos militares · Acesso privilegiado ao palácio · Sistema de execução romana · Clóaca Máxima de Roma · Catacumbas cristãs
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A de São Sebastião, nascido em 256, morto em 286, como convém as ageologias, sobretudo as do princípio do cristianismo, quando os registros históricos eram parcos e, assim, as lendas sedimentadas com o passar dos séculos contribuíram para consolidar um imaginário ainda mais milagroso. Cristão que se tornou soldado com a ideia de ser uma espécie de agente duplo, ou seja, para ajudar,
cristãos condenados pelo Império Romano, acredita-se que ele tenha sido desmascarado e martirizado, não uma, mas duas vezes. Da primeira, com as tais flechadas que acabaram se tornando características de suas representações sacras, acabaria sobrevivendo. Recuperado, teria decidido tomar satisfações com o imperador, que novamente determinou sua execução, operação esta que então se realizaria de forma exitosa.
Eternizado por relatos ageológicos antigos, logo passou a ser venerado pelos cristãos. Acredita-se que populações se livraram de epidemias pelo menos três vezes graças à intercessão dele. Em 1567, foi num dia de São Sebastião, 20 de janeiro, que portugueses expulsaram os franceses que dominavam a região do Rio de Janeiro.
Mais recentemente, o santo foi apropriado por comunidades LGBT que o transformaram em uma espécie de ícone gay. Autor do livro São Sebastião, o mártir que desafiou o imperador ao se declarar soldado de Cristo, o padre Jefferson Mengali explica que Sebastião foi um dos muitos soldados romanos que acabaram martirizados por sua fé em Jesus.
martírio, escritas dois séculos mais tarde, lamenta ele. Conta-se que os escribas tinham ordens de colocar nessas atas detalhes do martírio, dando pouca ênfase à história do martirizado. E isso acontecia para assustar os cristãos, pois essas atas eram colocadas na cidade onde ocorria o martírio, para que todos pudessem conhecer as histórias e assim fosse desestimulada a adesão ao cristianismo, explica o sacerdote.
Mengali conta que há três documentos antigos que fundamentam o que se sabe a respeito da vida de Sebastião. A Legenda Áurea, o Martirológio, em registro que teria sido feito no ano de 354, e as Acta Santorum. Nesses textos, afirma-se que Sebastião teria nascido no ano de 250 em Narbonne, cidade do Império Romano, situada no que é hoje o sul da França.
feito muitos atos de amor e caridade para com os irmãos cristãos, enfatiza o padre biógrafo. Conforme pontua Jefferson Mengali, os detalhes do martírio de Sebastião foram elaborados posteriormente. A primazia do relato é atribuída a Aurélio Ambrósio, influente religioso que foi arcebispo de Mediolano, atual Milão. Atribui-se a Ambrósio, que nasceu no ano de 340 e morreu em 397,
a autoria de um texto registrado como sermão de número 20, em que ele analisa o Salmo 118 e inclui a narrativa da morte de Sebastião. Sebastião foi um dos soldados romanos mártires e santos, cujo culto nasceu no século IV e atingiu seu auge por volta dos séculos XIV e XV, afirma Mengali. Embora os seus martírios possam provocar algum ceticismo junto aos estudiosos atuais,
com atitudes de mártires cristãos seus contemporâneos, acrescenta. Ele teria se alistado ao exército romano no ano de 283, quando vivia no local onde hoje é Milão. Ascendeu na carreira militar até se tornar capitão da guarda do imperador, conta o estudioso de agiografias Tiago Merck, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo e associado da Hagiography Society dos Estados Unidos.
Segundo Merck, a finalidade do ingresso no exército era justamente ajudar os cristãos que vinham sendo aprisionados. Ele trabalhava para auxiliar os perseguidos que estavam presos e se tornariam mártires, comenta o pesquisador. A fama de santidade de Sebastião começou a partir disso, diz ele. Era um período em que ser soldado significava muito em termos de status social.
moral verdadeira no auxílio aos perseguidos e, numa atualização contemporânea, auxílio àqueles que sofrem, analisa Merck. As hagiografias antigas atribuem ao imperador Diocleciano, nascido em 244 e morto em 311, a descoberta da fé de Sebastião e sua condenação à morte. Segundo a Ata do Martírio do Santo, escrita entre os séculos IV e V, Diocleciano teria afirmado algo
como eu o tive entre os grandes do meu palácio e você agia contra mim, relata Merck. Sebastião escondia isso, que era cristão do imperador. Ele ajudava os cristãos prisioneiros às escondidas, acrescenta o especialista. Os documentos antigos narram que a sua condenação teria sido morrer por flechadas. A história é que o imperador mandou que ele fosse pendurado em um poste de madeira
Daí vem a imagem popular até hoje, de um santo perfurado por flechas pelo corpo, acrescenta ele. A imagem de São Sebastião, tão conhecida de todos nós, revela o momento importante do martírio desse grande santo, complementa Jefferson Mengali.
É possível traçar uma analogia, portanto, com a própria crucificação de Jesus. Nesse sentido, Sebastião teria sofrido também uma paixão, como se diz no meio religioso. Isso é, um sofrimento que deveria resultar em morte. Conta Filipe Domingues.
Acrescenta
o soldado teria sobrevivido. Irene de Roma, uma mulher cristã que depois também se tornaria santa, acabou recolhendo seu corpo com a finalidade de sepultá-lo. Mas ela percebeu que ele ainda estava vivo, diz Tiago Merck. Ela o levou para casa e começou a cuidar dele, tratando as feridas. E ele foi curado, uma cura considerada milagrosa, diz o pesquisador. Sebastião foi então aconselhado por seus amigos a fugir de Roma.
No entanto, ele decidiu procurar o imperador para reafirmar sua fé, relata. Acabou condenado novamente, dessa vez para ser açoitado até a morte. Foi um santo que sofreu muito, praticamente um duplo martírio. Isso teria ocorrido em 20 de janeiro de 286, daí a data que passou a ser celebrada pelo cristianismo. Filipe Domingues afirma que para ter certeza de que dessa vez ele seria morto,
lhe fosse jogado na chamada cloaca máxima, o sistema de esgoto de Roma. A tradição diz que isso foi feito, mas que o corpo teria ficado preso numa parte específica e depois, recuperado pelos cristãos, acabou enterrado nas catacumbas fora do centro da cidade, onde costumavam sepultar alguns cristãos, conta o vaticanista. Pouco antes do martírio, São Sebastião teria dito que, antes de ser oficial do imperador,
diz Tiago Merck. A frase revela coragem, bravura, mas é importante ressaltar que, assim como a história de muitos mártires dessa época, sua vida está repleta de lendas que se misturam com os fatos e dados verídicos. Há toda uma construção de sua biografia. Há quem diga, por exemplo, que ele nunca sofreu flechadas, mas sim que a morte teria ocorrido por espancamento. Outras versões atestam que ele morreu já na primeira das condenações.
verdade e o que é lenda, prossegue o agiólogo. Há muitas controvérsias. O vaticanista Felipe Domingues vê uma importância no simbolismo do ocorrido frente à própria evolução urbanística de Roma. Segundo a tradição, ele foi martirizado no Palatino, que naquela época era o centro de Roma, a colina onde ficava o Palácio do Imperador, comenta. Hoje, ali, estão as ruínas do Império e uma igreja dedicada a São Sebastião ainda em pé.
Ou seja, de um lado, o fim daquele poder romano, de outro, a igreja que resiste por causa do sangue de seus mártires, compara o vaticanista. Por conta de sua hagiografia, Sebastião é visto hoje como um defensor da igreja, um proclamador da fé, justamente por ter sido insistente. Teria sobrevivido à primeira tentativa de martírio, voltou e não fugiu. Veio de novo defender aquilo em que acreditava, argumenta Domingues.
Ainda mais tarde, foi a devoção a São Sebastião que cristãos apelaram para sobreviver a epidemias. Venerado pelos fiéis desde a antiguidade, muitos milagres são atribuídos a ele, mesmo enquanto ele era vivo, pontua padre Mengali. No ano de 680, quando suas relíquias, seus restos mortais, foram transportadas solenemente para uma basílica construída pelo imperador romano cristão Constantino, cidadãos romanos sofriam com uma peste.
A epidemia teria desaparecido na hora da transladação das relíquias. E esta é a razão porque os cristãos veneram em São Sebastião o grande padroeiro contra a peste. Há relatos semelhantes ocorridos em Milão, no ano de 1575, e em Lisboa, em 1599, momentos em que, segundo Jefferson Mengali, outras epidemias foram debeladas a partir de quando o povo suplicou pela intercessão de São Sebastião.
Comenta Domingues. O santo seria considerado padroeiro e protetor do Rio de Janeiro por conta de um episódio histórico do Brasil colonial. Quando franceses ocupavam a Baía de Guanabara e se tornaram aliados dos índios Tupinambás, colonizadores portugueses começaram a articular uma maneira de expulsá-los. Em 1567, os portugueses e seus aliados, o grupo indígena rival dos Tupinambás, os Temiminós,
Segundo a lenda espalhada oralmente, já que não existe nenhum registro a respeito, São Sebastião foi visto de espada na mão entre os portugueses, mamelucos e índios temiminós, lutando contra os franceses calvinistas e indígenas tupinambás durante a batalha final que expulsou os franceses que ocupavam o rio, conta o padre. Batalha essa, vale frisar, que ocorreu no dia dedicado ao santo.
de janeiro de 1567. A devoção, então, cresceria por lá. No mesmo ano, o militar e governador-geral Estácio de Sá, considerado o fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, mandou erguer uma ingreginha a ele junto ao Morro Cara de Cão, atual bairro da Urca. Era pequena e simples, de taipa, coberta de sapé. A igreja dedicada ao padroeiro seria construída entre 1578
Em 1922, a igreja de São Sebastião foi transferida para uma nova igreja na Tijuca, a igreja de São Sebastião dos Frades Capuchinhos, conta Padre Mengali. Para lá também foram transferidos, em 1931, os restos mortais de Estácio de Sá, o marco de fundação da cidade, além do relicário com um fragmento do osso do mártir São Sebastião,
O biógrafo do santo explica que São Sebastião sempre foi o padroeiro do rio, e isso justifica seu culto carinhoso por parte dos cariocas.
Clena Rua conta. Atualmente, o povo do Rio comemora com missas e procissões a data que às vezes é confundida com a criação da cidade em 1º de março, acrescenta. Publicado em livro, o ensaio Losing His Religion, Saint Sebastian as a Contemporary Gay Martyr, Perdendo a Sua Religião, São Sebastião como um mártir gay contemporâneo, em tradução literal para o português, apresenta o santo como um ícone elegerente.
O autor, o pesquisador norte-americano Richard Kaye, PhD pela Universidade de Princeton e professor no Hunter College de Nova York, apresenta-o como um soldado muito amado pelos imperadores romanos de seu período, que o queriam sempre por perto. O autor insinua que o santo poderia ter sido mais do que um guarda pessoal, amante dos imperadores.
Richard Kay analisa que essa iconografia cristã sustenta um ideal homoerótico com o personagem em êxtase, tal e qual um símbolo da natureza supostamente sadomasoquista do erotismo masculino.
Na contemporaneidade, ativistas LGBT também viram no santo a representação de um ideal de luta e persistência. Ele era um cristão que não teve medo de se assumir como tal, assim como homossexuais hoje, muitas vezes, precisam ter coragem para se assumir. O pesquisador Richard Kay chega a afirmar que os gays de hoje em dia viram imediatamente em São Sebastião
Para Tiago Merck, é importante ainda pontuar que São Sebastião é o santo masculino mais retratado na história da arte. E a imagem clássica de seu corpo, seminu, resplandecendo beleza, se tornou símbolo. Historiadores e especialistas como Richard Kay veem, nesse imaginário, o corpo sendo retratado com um erotismo, uma espécie de propaganda do desejo homossexual analisa.
Os relatos de que Sebastião mantinha uma espécie de vínculo emocional com seus oficiais e textos que o apresentam como muito amado pelos imperadores reforçam essa interpretação. Talvez tenha sido a junção de tudo isso que fez com que a comunidade LGBT acabasse o escolhendo como uma espécie de mártir gay. E uma analogia é possível. Se São Sebastião foi defensor dos que eram perseguidos, os cristãos perseguidos daquele tempo, que eram torturados e mortos,
vem desponta na nossa sociedade como um símbolo de luta por outra causa, diz Merck. Sabemos que a comunidade LGBT muitas vezes é perseguida. Ele surge como um símbolo de defesa, de proteção. Jefferson Mengali lembra que a imagem do santo martirizado por flechas é uma construção posterior. Diferente do que as pinturas mostram, São Sebastião não foi morto por flechas. Ele foi resgatado por Santa Irene e espancado até a morte,
a mando do imperador Diocleciano, que jogou seu corpo ferido nos esgotos de Roma, enfatiza. A imagem de seu corpo seminu perfurado por flechas e aguardando o martírio foi estabelecida pelos pintores do Renascimento. A propagação dessa imagem despertou a imaginação de vários artistas, fazendo de São Sebastião o santo masculino mais retratado na história da arte. Para o biógrafo, contudo, a coragem que ele teve ao assumir
frente ao imperador, sua posição como cristão é o que permite um paralelo com os homossexuais de hoje em dia, que muitas vezes também enfrentam dificuldades semelhantes para declarar sua orientação sexual. Mengali percebe, contudo, um curioso ponto consagrado pelo imaginário sacro. Por que São Sebastião, tendo sido também soldado e guerreiro, não possui a mesma simbologia de virilidade e machismo
O santo do dragão? Pergunta ele.
os indecisos e converter pagãos. Nesses tempos de negação da fé e de valores espirituais, religiosos, humanos e sociais, São Sebastião torna-se um grande modelo de ajuda para nós, conclui Jefferson Mengali. Você ouviu a reportagem A Vida de São Sebastião, padroeiro do Rio que virou protetor dos gays, publicada pela BBC News Brasil em janeiro de 2022.