'Minha mãe entregou minha vida a um homem quando eu tinha 14 anos': o drama do casamento infantil nos EUA
Em 34 Estados americanos, menores de 18 anos podem se casar, por meio de exceções legais. ONGs trabalham para convencer legisladores a proibir esta prática.
- História pessoal e trajetóriaGravidez aos 13 anos · Pressão familiar e religiosa para se casar · Casamento aos 14 anos com homem de 27 anos · Cerimônia rápida em tribunal do Alabama em 1980 · Mãe como testemunha e signatária · Entrega da filha para adoção · Posterior divórcio e novo casamento consensual
- Casamento Infantil EUALegalidade em 34 estados americanos · Exceções legais por consentimento parental · Ausência de lei federal unificada · Estados mais permissivos (California, Mississippi, Novo México, Oklahoma) · Estatísticas de menores casados (300-314 mil entre 2000-2021) · Idade mínima de 18 anos como objetivo das ONGs · Progressos recentes (16 estados + Washington D.C. estabeleceram 18 anos)
- Impactos do casamento infantil na vida das vítimasPerda de educação escolar · Isolamento social e falta de amigos · Dependência do marido · Aumento de abandono escolar · Sequelas psicológicas de longo prazo · Dificuldade de confiança em si mesmo · Limitações no desenvolvimento profissional
- Trabalho de ONGs e movimentos de defesa de direitosTrabalho estado por estado para mudança legislativa · Organizações Enchanted Last e Equality Now · Defesa de idade mínima federal de 18 anos · Advocacia baseada em histórias de vítimas · Progresso recente: 16 estados desde 2018 · Enfoque integral para erradicação da prática · Combate ao casamento forçado infantil
- Violações de direitos e constitucionaisCasamento infantil como violação de direitos humanos · Definição internacional (menores de 18 anos) · Ligação com tráfico de crianças · Percepção de que é problema apenas de países em desenvolvimento · Relação com conceitos tradicionais de gênero · Casamento como forma de evitar acusações de abuso estatutário
- Relacionamentos FamiliaresVítima de abuso sexual desde pequena · Depressão aos 12 anos · Busca de apoio em linha de crise · Encontro com futuro marido em serviço de atendimento · Família evangélica e rigidez religiosa · Culpabilização da vítima pela mãe · Isolamento social na infância
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BBC Lê
de janeiro de 2026. Lida por Camila Veras Mota. A cerimônia de casamento de Patricia Lane, de 14 anos, com Timothy Gurney, de 27, durou quatro minutos. Patricia não usou o vestido de noiva, nem adornou seu cabelo com flores. A união legal se concretizou no simples escritório de um juiz de sucessões do estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos. A mãe da noiva foi a única testemunha. Foi rapidíssimo. Eu não queria estar ali.
Poucos minutos depois de receber a certidão de casamento, seu primeiro ato foi cruzar o parque que fica em frente ao tribunal e ir brincar em um dos balanços. Seu impulso infantil irritou sua mãe e seu marido recém-casado.
Nada daquilo foi como eu imaginava que seria um casamento, recorda ela. Na época, ela estava nas primeiras semanas de gravidez da sua primeira filha, que, posteriormente, ela daria para adoção. As normas não mudaram muito no Alabama, desde que Laney foi casada com o marido no dia 21 de maio de 1980. Atualmente, uma pessoa de 14 anos já não pode se casar. Mas o casamento é permitido aos 16, desde que com o consentimento de um dos pais.
explica Anastasia Law, responsável pelos programas para a América do Norte da organização Equality Now. O Estado não exige que o menor manifeste seu consentimento independente, nem autorização judicial. O Alabama integra a lista dos 34 estados americanos onde pessoas menores de 18 anos ainda podem se casar, mediante exceções legais. As Nações Unidas consideram o casamento infantil uma união formal ou informal,
Esta prática é reconhecida internacionalmente como violação dos direitos humanos. Nos Estados Unidos, pelo menos 314 mil menores de idade se casaram legalmente entre 2000 e 2021, segundo registros da organização Unchained at Last, dedicada a eliminar os casamentos forçados e infantis naquele país. Alguns desses menores contraíram o matrimônio com apenas 10 anos de idade.
Grande parte delas é de meninas que se casaram com homens adultos. A falta de uma lei federal traz impactos significativos para o casamento infantil nos Estados Unidos, afirma Anastasia Law. Sem ela, precisamos seguir com o nosso trabalho de defesa dos menores, estado por estado, convencendo cada um deles a mudar sua legislação. Os organismos de defesa dos direitos humanos defendem que o primeiro passo é a implantação de uma idade mínima em nível federal.
é preciso um enfoque integral para erradicar definitivamente o casamento infantil nos Estados Unidos. Sem leis que estabeleçam a idade mínima de 18 anos, sem exceção, os meninos e meninas ficam desprotegidos, prossegue Anastasia Law. Permitir legalmente o casamento infantil ratifica a aprovação social desta prática. Patricia Lane cresceu em Eden Prairie, uma pequena localidade de colinas verdes com vista para o rio perto da cidade de Mineápolis e Minnesota.
Para muitos, aquele é um lugar dos sonhos. Mas, para ela, Eden Prairie traz a lembrança de uma infância afastada do mundo. Meu irmão e eu estávamos culturalmente muito isolados. Mesmo morando no subúrbio de uma grande cidade americana, minha vida era muito rígida e opressiva, relembra ela. Vítima de abuso sexual desde muito pequena, Lane mergulhou em uma depressão profunda que a levou, com 12 anos,
crise o apoio que não recebia em casa. Foi assim que ela conheceu o Timothy Gurney, o homem que atendeu sua ligação naquele dia e que meses depois se tornaria seu marido. Tim, como ela o chamava, tinha 25 anos e estudava em um seminário religioso. E para se tornar missionário, ele trabalhava em uma pequena organização, atendendo ligações para uma linha de auxílio a pessoas em crise. Depois daquela primeira chamada, eles ficaram de se encontrar.
Depois, Patrícia Lane ficou grávida, aos 13 anos de idade. Descobri que a oração não funcionava como método contraceptivo. Eu estava grávida e não queria me casar com ele, ela conta. Patrícia Lane foi criada em uma família evangélica. Quando ela contou a inesperada notícia aos seus pais, a resposta de sua mãe não foi a que a jovem esperava. Ela a culpou de ter desonrado a família.
para a família e a única solução possível para remediar o caso era me casar com aquele homem e ser uma boa esposa, recorda Lane. Ou seja, se Patricia Lane quisesse ter o bebê, ela deveria se casar. Foi assim que seu pai assinou o consentimento e, no dia seguinte, ela, sua mãe e Tim viajaram de carro até o sul do país em busca de um tribunal onde pudessem se casar, o que era proibido em Minnesota. Não senti que tivesse outra opção.
Eu não queria me casar com ele, mas desejava, com todas as minhas forças, ficar com aquele bebê e criá-lo. Eu sabia que poderia ser uma boa mãe, diz ela. Em muitos casos, a gravidez das menores de idade serve de base para autorizar a exceção para a idade mínima de casamento. Atualmente, este é um argumento legal em estados americanos como Arkansas, Maryland, Novo México e Oklahoma.
forma de proteger suas filhas grávidas, o casamento infantil pode complicar ainda mais a vida das meninas. Anastasia Law defende que esta prática serve apenas para legitimar ainda mais as relações e atos de exploração, que de outra forma seriam considerados violação estatutária ou abuso infantil. Patricia Lane, sua mãe e Tim Gurney foram primeiro para Kentucky, o estado mais próximo de Minnesota que permitia o casamento com aquela idade.
Os locais rejeitaram o pedido. De forma nenhuma, são jovens demais, foi a resposta, recorda Lane. E para ela, toda razão. Eu era muito pequena. Eles então seguiram para o Alabama, onde naquela época eles poderiam se casar desde que tivessem a permissão dos pais. E ao chegarem ao condado de Lauderdale, no sul dos Estados Unidos, Lane e Gurney se casaram em poucos minutos.
Ela conta.
Entre as exceções, destacam-se mulheres grávidas do seu futuro marido, que deram à luz o filho do futuro cônjuge e o consentimento dos pais para contrair matrimônio. No Brasil, a lei só permite o casamento a partir dos 18 anos e entre os 16 e os 18, com autorização dos pais. Nos anos que se seguiram ao seu casamento, Patrícia Lane enfrentou decisões difíceis, como dar sua filha em adoção,
e se divorciar do seu marido. Mas ela voltou a se casar posteriormente, desta vez por sua própria vontade. Anastasia Law afirma que, atualmente, os estados mais permissivos, onde não há idade mínima para se casar com consentimento paterno nem judicial, são a Califórnia, Mississipi, Novo México e Oklahoma. Isso significa que menores de qualquer idade podem se casar com pessoas também de qualquer idade, ela explica.
eliminaria as lacunas legais que atualmente permitem e incentivam o casamento infantil e o tráfico de crianças sob a aparência de matrimônio. Para Patrícia Lane, seu casamento aos 14 anos de idade não foi uma escolha, mas uma imposição familiar que limitou vários aspectos da sua vida. Entre eles, a educação, os vínculos sociais e sua capacidade de desenvolvimento profissional.
a mesma coisa. Ela lamenta. Segundo as organizações dedicadas a combater os casamentos forçados infantis nos Estados Unidos, as meninas afetadas costumam se isolar e têm mais probabilidade de abandonar a escola. Com isso, elas se tornam ainda mais dependentes dos seus maridos. Meu marido não me deixava ter amigos. Eu estava totalmente sozinha. Conta Patricia Lane. Ainda luto contra o isolamento até os dias de hoje. Eu me sinto
Mais cômoda sozinha do que em grupo, pois ainda me custa confiar nas pessoas. A longo prazo, o casamento infantil deixa duras sequelas nas pessoas envolvidas. Por fim, consegui me desfazer dessas ideias tão negativas. Mas ainda hoje, com quase 60 anos, tenho dificuldade para confiar em mim mesma, afirma Lane. De 2018 para cá, 16 estados americanos alteraram suas leis para proibir o casamento infantil,
graças ao persistente trabalho de defesa das vítimas e da sociedade civil. Mas ainda resta muito por fazer. Acredito que muitas pessoas não entendem que isso ainda acontece. Alerta Patricia Lane. Eles pensam que só ocorre em países do terceiro mundo ou em certas religiões. Mas não. Nos Estados Unidos também acontece. Para Nasteigeló, o desconhecimento de que o casamento infantil é um problema nos Estados Unidos,
E para os que defendem que com 16 ou 17 anos já é amor verdadeiro, ótimo! Se for assim, continuará sendo amor verdadeiro quando eles estiverem 18 anos.
anos. Defende Patrícia Lane, 45 anos depois do casamento assinado pela sua mãe. Você ouviu a reportagem Minha mãe entregou minha vida a um homem quando eu tinha 14 anos. O drama do casamento infantil nos Estados Unidos. Publicada pela BBC News Brasil em 18 de janeiro de 2026.