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O paradoxo da Noruega, o país que ganha bilhões com aumento do petróleo mas o consome cada vez menos

19 de maio de 20268min
0:00 / 8:18

O próspero país nórdico tem uma das redes de energia menos poluentes do mundo, mas ganha muito dinheiro com a exportação de combustíveis fósseis.

Participantes neste episódio4
T

Thomas Papon

HostJornalista
G

Guilherme de Olmo

ReporterRepórter
S

Silvia Salek

Narrador
T

Truls Gullovsen

ConvidadoPresidente da Associação Ecologista Amigos da Terra Noruega
Assuntos4
  • Paradoxo NorueguêsNoruega · Produção de petróleo e gás · Energia renovável · Fundo soberano (fundo do petróleo) · Debate político e social · Guerra no Oriente Médio · Segurança energética da Europa
  • Contradição Ambiental de Subsídios a Combustíveis FósseisLei do Clima da Noruega · Imposto ao carbono · Veículos elétricos · Truls Gullovsen · Jonas Garstor · Freud Alfheim · Sindicato Industrie Energie
  • Guerra no Oriente MédioAumento dos preços do petróleo e gás · Benefícios inesperados para a Noruega · Recordes na Bolsa de Valores de Oslo · Jens Stoltenberg · Cecily Langumbecker
  • Crise Energética EuropaCrise energética na Europa · Fornecimento de gás e petróleo · Tina Saltvet · Nordea
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O paradoxo da Noruega, país que ganha bilhões com o aumento do petróleo, mas o consome cada vez menos. Reportagem de Guilherme de Olmo, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 1º de maio de 2026. Lida por Silvia Salek.

A Noruega é considerada um dos países mais verdes do mundo. As bicicletas são onipresentes nas suas cidades. 98% da eletricidade vem de fontes renováveis e 9 em cada 10 carros novos vendidos em 2024 foram veículos elétricos.

A Noruega é também o país membro da Agência Internacional de Energia, em que a eletricidade representa a maior proporção do consumo total de energia e foi um dos primeiros a criar impostos sobre as emissões de carbono. Mas, ao mesmo tempo, o país não deixa de aumentar sua produção de gás e petróleo e exportar massivamente combustíveis fósseis poluentes. Música

Esses recursos representam a maior fonte de receita do Estado norueguês e formam o pilar do famoso fundo soberano, o chamado fundo do petróleo, que garante a solvência do generoso sistema de aposentadorias e bem-estar do país.

Essa contradição entre a descarbonização interna e seu papel como grande exportador global de combustíveis fósseis é conhecida como o paradoxo norueguês e gera há anos um intenso debate político e social. De um lado, grupos ambientalistas e ativistas exigem compromissos concretos e um calendário para reduzir a atividade petrolífera.

Do outro, o setor do petróleo e gás defende sua importância para a economia e as centenas milhares de empregos gerados por ele. A guerra no Oriente Médio e o aumento dos preços globais do petróleo e gás causado pelo bloqueio do Estratégico Estreito de Hormuz geraram enormes e inesperados benefícios para a Noruega, mas também reabriram um dos seus debates internos mais incômodos.

Para um ambientalista norueguês como eu, é claro que essa é uma situação vergonhosa, disse a BBC o presidente da Associação Ecologista Amigos da Terra Noruega, Truls Gullovsen.

A Noruega é um dos países mais desenvolvidos do mundo, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, e o setor de energia é a sua principal fonte de riqueza. As exportações do setor representam mais de 60% do total de produtos vendidos para o exterior e somam mais de 20% do PIB, o Produto Interno Bruto Nacional.

O Estado mantém participação majoritária no conglomerado Equinor, o principal operador da plataforma continental norueguesa, e destina a maior parte dos seus benefícios ao fundo soberano. No fim de 2025,

Esse fundo contava com ativos no valor estimado de 1,9 trilhão de dólares, equivalente a cerca de 9,4 trilhões de reais. Esse total equivale a 350 mil dólares, ou 1,7 milhão de reais, por cada cidadão do país.

No contexto atual de 2026, as tensões no Oriente Médio indicam que esses números vão continuar aumentando. O Estado norueguês recebeu 5 bilhões de dólares, equivalente a cerca de 24 bilhões de reais a mais desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

E a Bolsa de Valores da capital norueguesa, Oslo, bateu recordes graças às companhias locais do setor de energia. O governo trabalhista tentou neutralizar a ideia de que o país que concede o Prêmio Nobel da Paz vem enriquecendo com os transtornos da guerra. O ministro das Finanças e ex-secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg,

destacou que esse é um paradoxo e que a Noruega se beneficia mais com a paz.

Mas, como afirmou a colunista da rede pública norueguesa de rádio e televisão NRK, Cecily Langumbecker, a dura realidade é que quando o mundo está em chamas, o dinheiro flui para o nosso orçamento estatal. Essa dinâmica já havia ficado clara em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia reduziu drasticamente as exportações de Moscou para a Europa.

Desde então, a Noruega surgiu como o último fornecedor confiável de um continente assolado pela crise energética. Fornecemos hoje cerca de 30% do gás e 15% do petróleo que é consumido na Europa, para onde enviamos 90% das nossas exportações. Explica a BBC a analista Tina Saltvet, da empresa financeira Nordea.

Apesar das suas jazidas petrolíferas, a Noruega tem há décadas uma das infraestruturas mais limpas da Europa graças à sua rede hidroelétrica. Em 1991, o governo norueguês criou um imposto ao carbono para promover a energia limpa. Em 2025, incentivos transformaram o país no líder mundial em carros elétricos.

Em 2017, o Parlamento da Noruega aprovou a Lei do Clima para reduzir as emissões em 50% até 2030. Mas o contexto atual internacional parece ter freado essa tendência. Os conflitos na Ucrânia e no Irã...

Obrigaram até mesmo os partidos mais verdes a aceitar que o gás norueguês é um mal necessário para a segurança energética da Europa. Para Trutz Gullovsen, a narrativa dominante agora é que a instabilidade global justifica a aposta nos hidrocarbonetos.

Fala-se em abrir áreas em águas profundas do Ártico, que são ambientes vulneráveis onde não deveria haver exploração em nenhuma hipótese, diz ele.

O governo do primeiro-ministro norueguês Jonas Garstor ofereceu recentemente 57 novas licenças de exploração. Continuaremos buscando mais petróleo para fornecer à Europa, disse. Ele aposta no desenvolvimento da indústria em vez de estabelecer fases de saída.

Apesar da pressão, principalmente de setores mais jovens do seu partido, ele não tem intenção de defender um calendário de abandono. Pelo contrário, aposta na zona menos explorada do país, o mar de Barents, para compensar a queda das jazidas atuais. Freud Alfheim, do Sindicato Industrie Energie, falou à BBC da importância social do setor.

Estamos falando de mais de 200 mil postos de trabalho diretos, destaca. Não é o momento de deixar a Europa sem o fornecimento. Já Tina Southwatt concluiu com uma advertência. Cada vez mais pessoas se dão conta de que há um pôr do sol no horizonte e ele será doloroso.

Você ouviu a reportagem O Paradoxo da Noruega, o país verde que ganha bilhões com o aumento do petróleo. Publicada pela BBC News Brasil em 1º de maio de 2026.

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