A armadilha da carga cognitiva: por que estudar mais tempo nem sempre te ajuda a aprender mais
Educadora espanhola diz que 'cérebro humano não aprende por acumulação, mas por integração' e compartilha conselhos práticos para melhorar rendimento nos estudos.
- Capacidade CognitivaMemória de trabalho · Carga cognitiva intrínseca · Carga cognitiva extrínseca · Diferença entre dados e conceitos · Noelia Valle
- Métodos de Estudo e AprendizagemImportância de pausas e descanso · Tarefas de atualização vs. manutenção · Técnicas de estudo ativo · Papel do sono na consolidação da memória · Influência do ambiente de estudo · Cronotipo e funções executivas
- Aprendizado lúdicoFragmentação de informações · Geração de dopamina · Mapas conceituais
- Neurociencia e CerebroRede frontoparietal · Funções executivas · Consolidação de memória
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A armadilha da carga cognitiva. Por que estudar mais tempo nem sempre te ajuda a aprender mais? Reportagem de Alejandra Martins, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 7 de março de 2026. Lida por Silvia Salek. Você tenta estudar, mas é difícil. Você lê o texto várias vezes, mas não retém nada.
A solução não é necessariamente passar cada vez mais horas examinando suas anotações, segundo a especialista em educação Noelia Valle, professora de fisiologia da Universidade Francisco de Vitória, na Espanha. Ela é a criadora do site de divulgação científica La Pizara de Noé, a lousa de Noé, em tradução literal.
Imagine tentar encher uma garrafa de água com uma mangueira de incêndio com potência máxima. Compara ela em um artigo no site de notícias acadêmicas The Conversation. A maior parte da água seria derramada e a garrafa continuaria meio vazia. Acrescenta.
A educadora explicou à BBC por que o enfoque quantitativo costuma ser ineficaz. O cérebro humano não aprende por acúmulo, mas por integração. Explica.
O motivo tem a ver com dois conceitos fundamentais, memória de trabalho e carga cognitiva. E quando o assunto é aprendizado, menos é mais, afirma a especialista.
Noelia Vale compartilhou conselhos práticos para melhorar o nosso rendimento nos estudos. A memória de trabalho é o processador ou a memória RAM do nosso cérebro, ou seja, a capacidade de reter e manipular informações durante um breve período de tempo.
É como uma tábua de cortar, o espaço físico onde você coloca todos os ingredientes que precisa cortar e misturar. Compara.
Se você colocar ingredientes demais, eles vão cair da tábua. E a memória de trabalho não pode cozinhar ou processar mais do que cabe naquela tábua. Portanto, a carga cognitiva é a quantidade de esforço mental, a receita...
que a memória de trabalho deve realizar para processar ou cozinhar as novas informações, segundo Noelia Valle.
A carga cognitiva tem duas partes. A intrínseca, relacionada à dificuldade inerente ao tema, e a extrínseca, que pode aumentar quando o esforço mental for inútil ou por ser provocado por explicações confusas ou excesso de estímulos, explica a educadora.
Fazer um ovo frito traz menos carga cognitiva intrínseca do que cozinhar uma paella valenciana, comparar ela. E se a receita estiver mal redigida, se faltar luz ou se alguém estiver perturbando você enquanto cozinha, a dificuldade relacionada à carga extrínseca do processo aumenta.
Nossa capacidade de aprender depende do uso eficiente da nossa memória de trabalho, segundo Noelia Vale. O problema é que a nossa capacidade é muito limitada e só pode conter de 5 a 9 elementos. Tanto é assim que se excedermos essa capacidade, se recebermos mais informações em um mesmo momento do que o nosso cérebro pode processar, elas irão se perder.
Quando se fala em um limite de 5 a 9 elementos, estamos falando de dados ou de conceitos. Podem ser ambos, segundo a especialista. Em psicologia, os fragmentos ou unidades de informação são conhecidos como chunks.
A memória de trabalho tem espaço para manipular entre 5 e 9 chunks. A diferença entre dados e conceitos depende de se a pessoa que o gerencia é especialista ou novata.
Para um estudante do primeiro ano de medicina, a frequência cardíaca alta, pressão arterial baixa e a pele fria são três dados diferentes que ocupam espaço na memória de trabalho, explica a professora. Se eu der mais três sintomas, essa memória de trabalho fica saturada.
Para um médico especialista, esses três dados são automaticamente agrupados em um único conceito, choque hipovolêmico. O médico ocupa um único chunk da sua memória de trabalho com esse conceito complexo e, por isso, sobram seis ou sete lacunas livres para incluir o tratamento, a informação que ele vai fornecer à enfermeira e o histórico do paciente, por exemplo.
Noelia Valle destacou também que a memória de trabalho não diferencia se o que está sendo empregado é um dado simples ou um conceito complexo que já estava armazenado na memória de longo prazo. Cabem cinco a nove elementos, mas o tamanho deles depende do seu grau de conhecimento.
Aprender consiste exatamente em transformar muitos dados soltos em um único conceito sólido para que ele ocupe menos espaço na memória de trabalho e nos permita pensar em coisas mais difíceis. A memória dos especialistas não é maior, ela é mais organizada, explica.
Ela destaca ainda que os docentes podem ajudar a reduzir a complexidade intrínseca de um tema, por exemplo, segmentando as informações do simples até o complexo.
Os professores também podem reduzir a carga extrínseca, eliminando distrações desnecessárias, como excesso de animações em uma apresentação, entre outras medidas. Evidências indicam que é mais eficaz estudar duas horas por dia por várias semanas do que estudar muitas horas seguidas no mesmo dia. E nessas duas horas, é importante fazer intervalos para descansar.
Estudando duas horas seguidas, é mais provável que você sature o espaço da sua memória de trabalho e acumule tanta carga cognitiva que acabe fatigado, explica a professora. E o cansaço e a frustração são distrações, ou seja, carga extrínseca que é ruim.
Fazer breves pausas a cada meia hora permite, de um lado, que as informações passem da memória de trabalho para um estado de consolidação. E, de outro, ao voltar do descanso, você vai obrigar o cérebro a recordar onde estava.
O cérebro não aprende enquanto recebe informações, mas sim quando se esforça para recuperá-las, destaca a especialista. Entre as tarefas que realizamos para aprender, as de manutenção, como reler ou recordar uma lista de elementos, têm efeitos neuronais limitados, segundo ela.
Mas as tarefas de atualização, de pensar, que desafiam constantemente o cérebro a manipular as informações e não apenas a retê-las, são as que se associam mais consistentemente ao aumento da atividade em regiões do cérebro, que são fundamentais para o aprendizado e a recompensa.
Noelia Vale oferece alguns exemplos de tarefas que nos obrigam a pensar. Mudar de formatos, transformar um texto em um esquema ou um desenho, ou passar um gráfico para uma explicação verbal. Essas atividades nos obrigam a reorganizar mentalmente o conteúdo.
Realizar testes de autoavaliação e reescrever a resposta corrigindo e ajustando o raciocínio. Praticar o que a educadora chama de dois atrás. Ao ler uma lista de passos ou termos, parar e explicar a relação entre o conceito atual e aquele que apareceu duas posições antes. Explicar a uma outra pessoa o que foi aprendido.
O melhor é se a pessoa a quem explicamos não tiver o conhecimento, porque aí seu esforço vai ser muito maior. Ao acabar de ler essa reportagem, por exemplo, explique para alguém a diferença entre dado e conceito para a memória de trabalho.
Se ninguém quiser ou puder te escutar, conte para você mesmo por escrito, porque é sempre bom praticar a redação, ou falando. E quando você estiver estudando, deixe por escrito perguntas sobre o que foi mais complicado entender, para que ao voltar ao estudo você comece respondendo aquelas perguntas. Sugere.
Ela destaca também que, hoje em dia, a inteligência artificial pode nos ajudar, gerando perguntas ou problemas com diferentes formatos e níveis de dificuldade.
E o sono é fundamental para os processos de consolidação da memória. Sabemos que, enquanto dormimos, o sistema glinfático limpa o cérebro dos resíduos metabólicos e também que, enquanto sonhamos na fase REM, repetimos o que foi aprendido durante o dia, o que ativa os mesmos neurônios e reforça suas conexões.
O espaço e o momento escolhidos para estudar também são importantes, afirma a professora. Se você estudar em um espaço desordenado, com ruídos, ou deixar ativadas as notificações do celular, o seu cérebro usará parte da memória de trabalho para inibir esses estímulos.
Por outro lado, o momento do dia em que começamos a estudar deve ser escolhido de acordo com o nosso cronotipo, ou seja, devemos estudar quando nossas funções executivas estiverem no pico. Orienta. Tentar memorizar algo complexo quando o corpo está no nível mais baixo de energia aumenta a carga cognitiva necessária para uma mesma tarefa.
Aprendemos melhor quando pensamos de novo em alguma coisa, porque o esforço necessário promove a consolidação da memória. Em termos celulares, consolidar significa criar novas conexões entre os neurônios. E sabemos que os neurônios que são ativados em conjunto acabam se unindo.
Por isso, ativar a recordação das novas informações com exemplos cotidianos, conhecidos, ajuda a criar essa nova conexão, o que garante sua passagem da memória de trabalho para a memória de longo prazo.
Se você estiver estudando a inflação, compare o preço do café de hoje com o de um ano atrás, orienta ela. Ao conectar a definição com algo que o afeta, você vai criar uma âncora de onde retirar essa recordação quando precisar recuperá-la. Além de ajudar a aprender, isso vai treinar o seu pensamento crítico, o que também é benéfico, sugere.
Antes de nos sentirmos frustrados, devemos ter claro que quando somos principiantes em algum tema, a carga cognitiva é sempre muito alta. Quando você aprende a dirigir, precisa pensar em pisar na embreagem, olhar para os espelhos, trocar a marcha, acelerar suavemente, ligar a seta, girar o volante e frear. Como cada ação ocupa um espaço na memória de trabalho, você se sente saturado.
Quando você já sabe dirigir e automatizou todos esses movimentos, eles ficam guardados na sua memória de longo prazo, você pode manter um diálogo, ouvir o rádio enquanto dirige, dificilmente terá problemas.
Nos momentos de frustração, Noelia Vale recomenda começar fragmentando as informações. Deixe-as em pedaços tão pequenos que pareçam ridículos, de tão fáceis de aprender. Esses pequenos sucessos vão gerar dopamina, que vai te ajudar a superar desafios. Ela também aconselha a preparar esquemas simples com palavras-chave para garantirmos que a ordem esteja correta.
Depois, você passa a elaborar mapas conceituais complexos, integrando as informações relacionadas, orienta a professora. Um cérebro mais forte trabalha menos. Segundo a neurociência, treinar a memória de trabalho causa redução da atividade em regiões fundamentais do cérebro, especialmente na rede frontoparietal, que é fundamental para as funções executivas.
Da mesma forma que um atleta experiente consome menos energia para executar uma ação, em comparação com um principiante, o cérebro, à medida que se torna mais hábil em uma tarefa, exige menos recursos neuronais para atingir o mesmo resultado ou até mesmo ter melhor rendimento.
O aprendizado eficaz não se resume em forçar o nosso cérebro além dos seus limites. Trata-se de entender e respeitar a arquitetura cognitiva com que todos nós operamos para minimizar os esforços inúteis e maximizar o aprendizado profundo.
O aprendizado eficaz se baseia em sermos mais inteligentes em relação à forma de apresentação das informações para o nosso próprio cérebro, conclui a professora. Você ouviu a reportagem Armadilha da Carga Cognitiva. Porque estudar mais tempo nem sempre te ajuda a aprender mais. Publicada pela BBC News Brasil em 7 de março de 2026.
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