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A bizarra história da primeira ‘viagem’ de LSD do mundo

12 de maio de 202611min
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Albert Hoffman resolveu experimentar droga sintetizada por ele em laboratório em 1943; efeitos alucinógenos apareceram quando ele estava voltando para casa de bicicleta.

Participantes neste episódio1
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Thomas Papon

HostJornalista
Assuntos3
  • Descoberta do LSDSíntese inicial e efeitos sutis · Primeira experiência planejada de Albert Hoffman · A viagem de bicicleta de Basileia · Visões e desintegração da realidade
  • Uso e disseminação do LSDDistribuição para psiquiatria e pesquisa · Projeto MK Ultra · Ken Kesey e os Merry Pranksters · Contracultura e a era psicodélica · Timothy Leary e o slogan 'turn on, tune in, drop out'
  • Regulamentação e legado do LSDPreocupações de Albert Hoffman com o abuso · Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas · Status legal atual do LSD · Potencial terapêutico e a visão ambivalente de Hoffman
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A Bizarra História da Primeira Viagem de LSD do Mundo. Reportagem de Greg McEwitt, da BBC Culture, publicada pela BBC News Brasil em 19 de abril de 2026. Lida por Thomas Papon.

No final da síntese, tive uma situação psíquica muito estranha. Surgiu meio que um mundo de sonhos, uma sensação de união com o mundo. O químico suíço Albert Hoffman, nascido em 1906 e morto em 2008, trabalhava em um experimento de rotina em uma empresa farmacêutica em Basileia, na Suíça, quando fez, por acaso, uma descoberta que mudou o mundo.

Sua primeira experiência com a substância, que ficaria conhecida como LSD, foi suave e intrigante. Mas sua decisão de tomar a droga psicodélica três dias depois trouxe visões terríveis e, àquela altura, um dos passeios de bicicleta mais estranhos da história.

Tudo começou na sexta-feira, 16 de abril de 1943. Ele preparava um novo lote de dietilamida do ácido lisérgico, um composto que ele próprio havia sintetizado pela primeira vez cinco anos antes.

Albert Hoffman tinha, na época, 37 anos e estudava plantas medicinais. Ele fazia experiências com cravagem, um tipo de fungo que cresce no milho. Seu objetivo era tentar produzir um medicamento que pudesse ajudar doulas a acelerar partos e evitar sangramento.

O nome da substância em alemão é Liseakseur dietilamide, que levou ao seu nome mais conhecido, LSD. A BBC entrevistou Hoffman em 1986. Ele declarou que sua inesperada experiência com a droga fez com que ele relembrasse momentos místicos da infância, passados em bosques e florestas.

A sensação de observar os verdadeiros aspectos da natureza, a beleza, encheu o cientista de felicidade. Hoffman se perguntava se aquele estado agradável de sonho, de alguma forma, estaria ligado aos cristais de LSD que ele estava purificando.

Ele não havia ingerido o composto deliberadamente, mas talvez tivesse uma pequena quantidade de substância absorvida pela pele nos dedos. Isso indicaria que se tratava de algo muito potente e o químico decidiu descobrir experimentando em si próprio, quando voltasse ao trabalho na segunda-feira.

Cauteloso por natureza, ele começou com o que imaginava ser a menor dose que poderia ter algum efeito. Comecei com 0,25 miligramas, relembrou Hoffman. Ele planejava aumentar a dose apenas se nada acontecesse.

Mas mesmo essa dose muito pequena, a primeira planejada dos meus experimentos, foi muito, muito forte, ele conta. Depois de tomar a droga, Hoffman começou a se sentir mal e foi para casa, cambaleando pelas ruas de Basileia na sua bicicleta.

Ao longo do trajeto, tudo ia ficando estranho. Sua visão ficou distorcida, como se ele estivesse olhando para um espelho deformador. E quando chegou em casa, seu senso de realidade havia se desintegrado. Quando entrou na sua sala de estar, Hoffman ficou surpreso ao observar como ela parecia ter mudado completamente.

A sala em si e os objetos no seu interior tinham uma forma muito diferente, uma cor diferente, significado diferente, contou ele. Até uma cadeira comum parecia ser um objeto vivo, como se estivesse se movendo. Era tão incomum que realmente temi que tivesse ficado louco, relembra Hoffman.

As bizarras alucinações prosseguiram por toda a noite. Uma vizinha teve a gentileza de levar leite para ele como antídoto, mas ela parecia ter se transformado em uma bruxa. O químico só sentiu que estava voltando ao mundo normal cerca de seis horas depois de tomar a droga.

Sem se deixar abalar por essa alarmante experiência, Hoffman tomaria LSD várias outras vezes nas décadas que se seguiram para observar seus efeitos. Seu trajeto de bicicleta do laboratório até sua casa naquela segunda-feira de 1943 é celebrado todos os anos, no dia 19 de abril, por pessoas inspiradas pelo LSD, seja científica ou criativamente.

Hoffman contou sua descoberta para seu chefe na companhia farmacêutica, a Sandoz. Pelo efeito do LSD sobre ele, o químico calculou que uma colher de chá seria suficiente para 50 mil pessoas. Ele e seus colegas perceberam rapidamente que se tratava de um agente muito importante que poderia ser útil na psiquiatria e em pesquisas.

A Sandoz começou a distribuir LSD para hospitais psiquiátricos em um medicamento experimental chamado Delicid. Alguns psiquiatras o administraram a pacientes devido a seus efeitos sobre a mente subconsciente que permitiam que eles liberassem recordações suprimidas e conflitos mentais.

Os efeitos dessa nova e poderosa substância chamaram a atenção do exército americano, que deu início a um programa de pesquisa altamente secreto conhecido pelo codinome MK Ultra. O escritor Ken Kesey foi um dos civis expostos ao LSD durante essa pesquisa. Ele escreveria posteriormente o livro Um Estranho no Ninho, que deu origem ao filme homônimo protagonizado por Jack Nicholson.

Decidi que era algo importante demais para deixar em segredo nas mãos do governo, contou o escritor à BBC.

Impressionado com o poder alucinógeno da droga, na época ainda legal, Kese começou a distribuí-la aos seus amigos. E em 1964, ele reuniu um grupo de pessoas com pensamento parecido. Eles se autodenominaram Merry Pranksters, algo como alegres brincalhões, e saíram viajando pelos Estados Unidos em um ônibus pintado com cores brilhantes.

Foi assim que o LSD saiu dos laboratórios e chegou a todo o país alimentando a experiência da contracultura. Na época, já se sabia que os usuários de LSD se arriscavam a enfrentar as chamadas bad trips, viagens ruins, espirais de medo e pânico aterrorizantes que podem causar danos psicológicos permanentes.

Ainda assim, muitas pessoas que tomavam a droga defendiam seu potencial de mudar o mundo para melhor. Um dos mais ativos promotores do LSD foi o ex-psicólogo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Timothy Leary. Sua famosa frase de efeito, turn on, tune in, drop out, algo como ligue-se, sintonize e caia fora, se tornou um slogan que definia a era psicodélica.

Leary escreveu para Sandoz, em 1963, fazendo um pedido de 100 gramas de LSD, suficiente para 2 milhões de pessoas. A carta foi endereçada a Albert Hoffman. Já alarmado pelo abuso da sua descoberta fora do campo da medicina, Hoffman recomendou a Sandoz que não atendesse à encomenda de Leary.

Percebi imediatamente que seria perigoso porque uma substância com um efeito tão profundo deve ser usada com cuidado, contou ele à BBC. Hoffman observou que culturas antigas e comunidades indígenas usaram substâncias alucinógenas por séculos, mas apenas em ambientes religiosos e sempre nas mãos do xamã, não em público.

Ele destacou que na sociedade moderna, o equivalente mais próximo do xamã, nesse caso, é o psiquiatra e que essas drogas deveriam permanecer nas mãos do xamã. Foi por isso que ele receou, desde o princípio, que coisas ruins poderiam acontecer com o uso imprudente e descontrolado do LSD.

e ele sentiu que seu temor foi posteriormente confirmado. Calcula-se que mais de um milhão de americanos tenham tomado LSD em 1969 sem supervisão médica. Muitos acharam insuportável o lado sombrio dos seus efeitos sobre a mente. Mas Hoffman contou que nunca se sentiu culpado porque não é o LSD que é ruim.

Ele defendia que, se consumido adequadamente, o LSD não é uma substância prejudicial. Ele só se torna muito, muito perigoso quando é tomado de forma imprudente e sem respeito pela sua profunda influência sobre a sociedade e até sobre a consciência.

Mas com tantas pessoas tomando a droga descuidadamente, em meio a um número cada vez maior de reportagens na imprensa sobre os seus efeitos prejudiciais, a regulamentação logo se tornou inevitável. A Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, impôs rigoroso controle internacional sobre o LSD, que seria proibido em vários países.

Atualmente, o LSD é ilegal em quase todo o mundo e permanece sob rígido controle nos países que permitem seu uso para pesquisas médicas. O poderoso efeito da substância sobre a mente e o risco de flashbacks de longo prazo fizeram com que ela fosse classificada ao lado da cocaína e da heroína devido ao seu alto potencial de abuso.

Albert Hoffman morreu em 2008, aos 102 anos de idade. Ele contou à BBC que a principal percepção obtida na sua experiência com o LSD é que a realidade não é algo fixo, mas sim um tanto ambígua. Antes, eu sempre pensei que só existisse uma realidade, uma realidade verdadeira. E então, percebi que existem outras dimensões, contou ele.

O título da sua autobiografia, LSD, My Problem Child, LSD, Meu Filho Problema, em tradução literal, reflete sua postura ambivalente em relação à droga. Mas ele manteve sua fé no potencial terapêutico do LSD.

Acredito que se as pessoas aprendessem a usar a capacidade indutora de visões do LSD com mais sabedoria, sob condições apropriadas durante a prática médica e em conjunto com a meditação, esse filho problema, no futuro, poderia se tornar uma criança prodígio.

Você ouviu a reportagem A Bizarra História da Primeira Viagem de LSD no Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 19 de abril de 2026.

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