'Herançocracia': por que gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para seu sucesso financeiro
Historiadora diz que é cada vez mais comum pais usarem patrimônio para ajudar filhos a pagar estudos, aluguel, hipotecas, creches ou apenas para poderem chegar ao final do mês.
Thomas Papon
Amol Rajan
Eliza Philby
Silvia Salek
- O 'Banco da Mamãe e do Papai'Apoio financeiro familiar · Impacto na moradia e educação · Solidariedade familiar em diferentes classes
- Justiça divina versus mérito humanoConceito de Herançocracia · Origem satírica da Meritocracia · Eliza Philby · Michael Young
- Impacto da Herançocracia nas GeraçõesGeração X e Millennials · Geração Z e Alfa · Crise financeira de 2008
- O Papel da Educação e do TrabalhoDesvalorização do diploma universitário · Terceirização da formação pelo mercado · Inteligência artificial no mercado de trabalho
- Crítica a relacionamentos e comportamentoEscolha de parceiros compatíveis financeiramente · Influência no planejamento de vida · Desilusão com o Estado e o contrato social
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Eransocracia. Porque gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para seu sucesso financeiro. Reportagem adaptada do podcast Radical, da Rádio 4, da BBC. Publicada pela BBC News Brasil em 11 de fevereiro de 2026. Lida por Silvia Salek.
A historiadora britânica Eliza Philby conta que sempre que uma empresa a convida para dar uma palestra, ela começa explicando aos empregadores um ponto que ela acredita ser fundamental para entender a dinâmica dos ambientes de trabalho modernos.
Você percebe que agora, seus empregados com menos de 45 anos têm mais possibilidade de comprar uma casa, sendo leais aos seus pais e não ao chefe.
Eliza Philby é autora de Inheritocracy, It's Time to Talk About the Bank of Mom and Dad. Heransocracia está na hora de falar do banco da mamãe e do papai, em tradução literal. O livro é um best-seller no Reino Unido e analisa como a fortuna acumulada por uma geração específica, os chamados baby boomers,
nascidos entre 1946 e 1964, criou um sistema econômico que influencia gerações posteriores. Erançocracia é um título intencionalmente provocador, declarou a autora ao apresentador do podcast Radical, Amol Rajan. É o oposto da meritocracia, a crença de que o trabalho árduo resultará em sucesso e oportunidades.
A erançocracia descreve uma sociedade na qual o importante não é quanto você ganha nem o que você aprendeu, mas sim se você tem acesso às contas bancárias da mamãe e do papai, que é o que define suas oportunidades, sua rede de segurança e sua plataforma para a vida adulta.
Eliza Philby garante que esse fenômeno tem imenso impacto sobre a vida da geração X, os nascidos entre 1965 e 1980, e também sobre os millennials, que nasceram entre 1981 e 1996.
e poderá continuar se expandindo no futuro para a geração Z, nascida entre 1997 e 2012, e a alfa de 2013 a 2024. Ela destaca que o conceito da meritocracia nasceu como uma advertência.
O sociólogo britânico Michael Young cunhou o termo em 1958 como uma sátira, criticando o sistema britânico de educação seletiva e não como um ideal. No seu livro The Rise of the Meritocracy,
A Ascensão da Meritocracia, em tradução literal, Michael Young descreve uma sociedade utópica em que a elite é formada por pessoas que ascenderam socialmente graças ao talento e ao esforço individual, o que cria uma justificativa moral para a desigualdade e torna a nova elite arrogante, pessoas que veem seu sucesso como recompensa pela...
própria capacidade e fecham as portas a classes inferiores. Com o passar do tempo, esse lado satírico do conceito se perdeu e a palavra passou a ser usada como um modelo a ser seguido. Para Eliza Philby, esse mal-entendido é fundamental para entendermos a frustração da geração atual.
A ideia de que o trabalho árduo deveria trazer recompensas é fundamental para qualquer democracia. O problema é que reduzimos o mérito a passar nos exames, acumular credenciais e seguir um único caminho educacional, disse ela à BBC.
A escritora explica que, em parte, a ideia do mérito se popularizou entre os baby boomers porque foi um conceito que serviu bem a muitos deles. Foi uma época em que se tornaram comuns as histórias de pessoas que conseguiram sair de casa com pouca idade e, pelo caminho da educação superior, construíram seu próprio futuro.
Mas Eliza Philby recorda que os reais motivos que fizeram com que este caminho funcionasse tão bem para os baby boomers estão menos concentrados no mérito e mais nas características sem precedentes do mundo pós-guerra, com crescimento econômico sustentado, impulsionado pela paz frágil, mas consistente, oferecida ao mundo pela Guerra Fria.
que foi de 1947 a 1991. Com maiores receitas, os governos buscaram formas de democratizar as oportunidades para os jovens de zonas rurais ou da chamada classe trabalhadora e encontraram um caminho para isso, incentivando a educação superior.
Eliza Philbe reconhece que a intenção foi boa e que, em termos sociais e culturais, o envio de mais pessoas para a universidade trouxe benefícios reais. Mas ela também defende que, a partir dos anos 1990, esse impulso ajudou a consolidar uma narrativa única do significado do sucesso. Estudar, ir para a universidade, conseguir um diploma e alcançar uma carreira profissional estável.
Ocorre que o sistema não tinha mais condições de garantir o mesmo sucesso para todos os que ingressaram na universidade. Para a autora, o problema é que construímos um sistema em que 50% das pessoas não tinham uma forma alternativa clara rumo a uma vida segura.
Para muitos jovens, não ir para a universidade deixou de ser uma opção legítima. E para os que cursaram o ensino superior, o valor monetário de um título universitário começou a cair, enquanto os custos para consegui-lo disparavam. O resultado foi uma geração que se endividou para ter acesso a uma promessa que não garantia mais a estabilidade.
Em muitos casos, os mais afetados foram jovens de famílias mais modestas, motivados pelo desejo de ganhar mais dinheiro, muitas vezes para ajudar em casa. Eliza Philby explica que o sistema não fracassou apenas por motivos econômicos, mas pela sua rigidez.
Ele foi construído em torno de uma ideia limitada do que constitui inteligência e sucesso, herdada do século XIX, uma época em que a economia e a tecnologia viviam uma transformação radical. A autora afirma que essa rigidez se torna ainda mais problemática em uma época em que a inteligência artificial ameaça até mesmo as funções de escritório.
A educação não pode terminar aos 21 anos e não pode recair apenas sobre as pessoas. Durante décadas, as empresas terceirizaram a formação universitária. Antes se aprendia no trabalho. Hoje as empresas esperam que os empregados cheguem prontos e investem pouco no seu treinamento, diz.
Nas condições atuais, Eliza Philbe afirma que o banco da mamãe e do papai se transformou em uma fonte de estabilidade maior do que o próprio trabalho. Isso está alterando a dinâmica em diferentes áreas da sociedade. A família está intervindo porque o Estado se retirou e o mercado ficou desfuncional em áreas fundamentais. Em muitos sentidos, é uma história de amor parental. Explica.
Ela conta que a expressão banco da mamãe e do papai começou a surgir no Reino Unido perto de 2013. Ela descreve o fenômeno cada vez mais comum que leva pais e avós a usarem seu patrimônio para ajudar seus filhos e netos a pagar estudos, aluguel, hipotecas, creches ou simplesmente para poderem chegar ao fim do mês.
Depois da crise financeira de 2008, o panorama econômico para pessoas que entravam na idade adulta mudou repentinamente. Algumas coisas passaram a ser mais baratas, como a tecnologia, viagens e alguns luxos do dia a dia.
mas outras começaram a ficar mais caras, como moradia, educação, o cuidado com as crianças e, em alguns países, a assistência médica. Nesse panorama, muitos jovens passaram a se concentrar nos gastos pequenos e visíveis, como o café, uma viagem ou celular. Já os grandes feitos da vida adulta começaram a ficar inatingíveis sem a ajuda da família.
Eliza Philbe também afirma que o banco da mamãe e do papai não é um conceito válido apenas para o que no Reino Unido é classificado como uma classe média consolidada. Ela explica que, na verdade, a maioria dos jovens que moram com seus pais perto dos 30 anos de idade vem de famílias da chamada classe trabalhadora.
Nesses casos, o apoio não se traduz em depósitos para financiamento imobiliário, mas sim em teto, comida e cuidados mútuos. A solidariedade familiar aumentou em todos os níveis de renda, segundo a autora.
São os avós que cuidam dos netos para que seus filhos possam trabalhar, pais que abrigam filhos adultos para que eles economizem, famílias que funcionam como redes de segurança frente a um sistema cada vez mais frágil. O problema, segundo a autora, é que nem todas as famílias podem fazer isso. Ela destaca que em uma sociedade em que a estabilidade depende da família, o nascimento passa a ser decisivo.
O divórcio, as famílias misturadas, os conflitos familiares ou simplesmente a pobreza estrutural se transformam em profundas desvantagens. O resultado é uma economia em que a lealdade à família é mais importante do que a lealdade ao empregador.
E a riqueza não se acumula pelo salário, mas principalmente pelos bens, explica Eliza Philby. E o trabalho mesmo que bem remunerado não consegue garantir o acesso aos pilares básicos da vida adulta. Em um fenômeno tão profundo como a herançocracia, seus efeitos se estendem além do dinheiro.
Ela afirma que a herançocracia está reconfigurando a forma como as pessoas escolhem até os seus parceiros, planejam sua vida e entendem a segurança. Ela cita como exemplo a escolha seletiva de parceiros, que é a tendência de formar casais entre pessoas com origens e recursos similares.
Durante o século XX, grande parte da mobilidade social feminina ocorreu pelo casamento. Hoje em dia, o padrão é diferente. Eliza Philb explica que, inicialmente, a formação de casais se dava entre formandos universitários. Mas desde a crise de 2008, a variável decisiva passou a ser outra, o acesso ao patrimônio familiar.
Não é que as pessoas se casem pelo salário do outro, é que duas pessoas com banco de mamãe e papai tendem a se encontrar e a se unir. A autora menciona pesquisas que indicam que mais da metade dos jovens da geração Z consideram a compatibilidade financeira um fator central em uma relação. Essa é uma proporção muito maior do que nas gerações anteriores.
Some-se a esse panorama a pressão sobre a classe média. Eliza Philbin indica que, embora a riqueza extrema tenha aumentado, a maior parte do patrimônio privado permanece concentrada em amplos setores da população mais idosa.
Paralelamente, ela descreve uma classe média espremida, especialmente na geração X, entre o apoio aos filhos adultos e o cuidado com os pais envelhecidos. Para Eliza Philb, esse fenômeno está levando as gerações atuais a perder a fé na ideia de que o Estado moderno pode proporcionar um sistema em que eles e seus filhos possam ter uma vida melhor no futuro, rompendo a promessa básica inculcada pelos seus filhos.
Isso faz com que o mundo viva um período similar ao da década de 1970, ou seja, uma etapa de desilusão que obriga as pessoas a reformular as bases do chamado contrato social.
Eu escrevi esse livro porque precisamos falar disso. Não se trata de bebês nepotistas, trata-se de como as oportunidades são distribuídas. Eliza Philbe deixa claro que entender como a erançocracia funciona não garante que iremos escapar dela, mas permite tomar decisões pessoais e coletivas mais bem informadas.
E ela diverte sobre o risco de quando uma sociedade deixa de acreditar que o esforço vale a pena. E então, algo mais profundo do que a economia começa a desmoronar. Você ouviu a reportagem Eransocracia, porque gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para seu sucesso financeiro. Publicada pela BBC News Brasil em 11 de fevereiro de 2026.
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