Quem foi Urraca, a primeira mulher a reinar na Europa
Ela foi coroada em 1109 e reinou por 17 anos em uma das principais regiões do que hoje é a Espanha; mas enfrentou muita resistência e só foi aceita pela corte depois que se casou.
Thomas Papon
- Historia do FrevoReinado de Urraca · Afonso VI · Afonso I de Aragão · Batalha de Uclés · Violência doméstica
- Desafios do reinado femininoAceitação da nobreza · Legitimidade de Urraca · Conflitos territoriais · Anulação do casamento
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Quem foi o Raca, a primeira mulher a reinar na Europa? Reportagem de Edson Veiga, publicada pela BBC News Brasil em 8 de março de 2026. Lida por Thomas Papon.
Ela viveu 900 anos atrás e a história lhe reservou um ponto importante e pioneiro. Tornou-se a primeira mulher a comandar um reino na Europa. O Raca I de Leão e da Galiza, que viveu entre 1080 e 1126, conhecida como Urraca, a Temerária, governou essa então importante região ibérica por quase 17 anos.
Filha mais velha de Afonso VI, a nobre seria a herdeira natural do trono, não fosse o seu gênero. Temendo uma dificuldade de aceitação política de uma mulher rainha no poder, o monarca tratou de reconhecer um filho fora do casamento, Sancho, como aquele que o sucederia.
O que ninguém contava era que Sancho morreria como guerreiro na Batalha de Uclés, travada entre cristãos e muçulmanos no ano de 1108. Diante disso, o rei Afonso anunciou aos nobres da corte e aos bispos da região que sua filha era a única que poderia assumir o trono quando ele morresse.
Houve aceitação de seu nome entre os aliados do rei, contudo com uma ressalva, que ela, já viúva, se casasse novamente. Em outras palavras, a nobreza até admitia uma governante mulher, mas entendia que ela deveria atuar como títere do marido.
Nas tratativas políticas de então, ficou acertado que o Raca se casaria com Afonso I de Aragão. A historiadora Adriana Zirer afirmou à BBC News Brasil que, embora o direito castelhano não excluísse a sucessão feminina na falta de herdeiros varões, acreditava-se que ela deveria governar com a tutela do marido.
Afonso VI morreu antes do casamento ser realizado e o raca acabou coroada rainha. Era a primeira monarca mulher a comandar um reino europeu. Não como rainha consorte, ou seja, esposa do rei sem papel de autoridade, ela detinha de fato o poder.
Nesse sentido, ela foi realmente uma grande exceção em sua época, diz o historiador Glauber Wisniewski, pesquisador assistente no Center for Iberian Historical Studies da St. Louis University, nos Estados Unidos. O esforço que fez durante todo o seu reinado para legitimar sua autoridade moral e legal mostra que a resistência que enfrentou foi constante, acrescenta.
Pesquisadora em estudos medievais na Universidade de Santiago de Compostela, a historiadora Yolanda Alonso Rodrigues define o RACA como a primeira com autoridade e poder total nos seus territórios. Por outro lado, ela faz uma ressalva. Há enormes dificuldades em identificar e recuperar esse tipo de informação.
porque a história omitiu em grande parte muitos pormenores sobre as mulheres na Idade Média, quer das classes mais baixas, quer das mais altas. Muitas vezes elas não tinham um papel principal na perspectiva viril da Idade Média e, por isso, foram omitidas e ignoradas em muitos documentos de textos, diz Rodrigues.
A importância do reino de leão nessa época fica clara pelo próprio título dado ao monarca. Ele era chamado de imperador de toda a Espanha. Título este que foi herdado por Urraca, a imperatriz de toda a Espanha, pontua Adriana Zirer, que também é professora na Universidade Federal do Maranhão, com pós-doutorado realizado junto ao Grupo de Antropologia Histórica do Ocidente Medieval na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais na França.
Ainda que não demonstrasse vontade de se casar novamente, ela cumpriu o desejo do pai e logo em seguida oficializou o matrimônio com o nobre de Aragão A união acabou desencadeando uma série de descontentamentos populares com registro inclusive de rebeliões
Havia um temor de que o centro de poder se deslocasse do então reino de Leão e Galiza para o reino de Aragão, pela proeminência masculina do acerto. Era uma consequência que parecia um pouco contraditória ao que imaginava o pai de Urraca quando planejava esse casamento.
Ele vislumbrava não um deslocamento do eixo de poder, mas uma maior influência de leão, como se Aragão fosse praticamente incorporado por meio do matrimônio real. O clima político passou a ser muito ruim. Apoiadores de ambas as partes entraram em conflito, e até mesmo a legitimidade de Urraca como herdeira passou a ser mais uma vez questionada.
Conforme explica a historiadora Adriana Ziller, as disputas territoriais entre o casal acabaram causando uma guerra civil.
No meio disso tudo, a relação entre o Raca e Afonso não era nada boa, e o que antes era restrito ao ambiente íntimo, logo passou para a esfera pública. A rainha acusou o marido de violência doméstica e de abusos, até separar-se dele no ano de 1110. É relatado nas crônicas que ela sofria de violência física e verbal do rei aragonês, afirma Tzirer.
A essa altura, já era pública sua relação com o amante, conde Gómez González, que se embrenhou em luta armada pela defesa da integridade do Reino de Leão frente aos opositores, os que lutavam por Aragão. Na Batalha de Canespina, em 1111, González morreu.
Logo, o raca encontrou outro conde para substituí-lo, tanto como amante quanto como guerreiro, Pedro González de Lara, que inclusive assumiu a paternidade dos dois filhos que a rainha já tinha. Apenas no fim de 1112, a rainha conseguiu formalmente a anulação de seu casamento com Afonso de Aragão, com anuência do papa.
Na Seara das Batalhas, ela havia conseguido recuperar para seus domínios praticamente todas as terras herdadas do pai, Astúrias, Leão e Galiza. E apesar de ainda contar com grande apoio em parte de Castela, essa região acabou ficando para Afonso. Durante todo o seu governo, o Raca enfrentou diversos conflitos com várias campanhas para recuperar e manter seus territórios, diz Adriana Zirer.
Geralmente eram confrontos inflamados por Afonso I. Por muito tempo, ele resistiu à anulação do casamento e ainda se declarava imperador de toda a Espanha, ressalta a historiadora. Também havia batalhas de motivação religiosa, cristãos contra muçulmanos e revoltas populares.
O Haka morreu aos 46 anos em 8 de março de 1126, quase 800 anos antes da greve histórica feita nos Estados Unidos por operárias mulheres que faria desta data um marco da valorização feminina em todo o planeta.
Adriana Zierer aponta as visões medievais sobre o raca a partir de crônicas da época. Em textos do século XII, ela é descrita de forma positiva enquanto filha e esposa e se converte, contextualiza a professora, em mulher incestuosa e nefasta quando soberana.
Ou seja, na visão da época, boa era apenas quando cumpriu seu papel de esposa, sem assumir papel político, comenta a historiadora. Por vezes, a monarca foi taxada de sedutora e promíscua. São muitos os indícios, portanto, que o fato de ser uma mulher em posição de poder incomodava a elite masculina.
O problema não está apenas na raridade, mas na memória. Sua imagem foi filtrada por séculos de crônicas hostis e leituras marcadas por desconforto diante do poder feminino. Assinala a BBC News Brasil a historiadora Mary Del Priore, autora de, entre outros livros, Sobreviventes e Guerreiras. Não foi o fato de ter governado que escandalizou, foi o fato de ter governado como mulher.
Delpriori nota que há crônicas descrevendo ela como corajosa e forte. Chegam a chamá-la de princesa varonil. Para reinar, era preciso masculinizar-se simbolicamente, afirma.
De acordo com a antropóloga Lydice Maier, professora na Universidade Lusófona de Portugal e estudiosa do feminino na história, o Raca não poupou esforços para manter sua posição como monarca plena, mesmo em meio às dificuldades inerentes para exercer um cargo sem precedentes, conforme explica ela a BBC News Brasil.
Ela foi a primeira rainha da Espanha a cunhar uma moeda com seu busto e nome. Curiosamente, uma moeda cunhada em Toledo traz o seu nome acompanhado da palavra re, conta Mayer. Aí reside uma ambiguidade. Poderia ser tanto a abreviação de Rex...
rei, como de Regina, rainha. Esta ambiguidade sempre esteve presente no reinado de Urraca. Ela frequentemente se apresentava nos documentos como rei. Seu valor foi a de ser a primeira monarca plena na Europa, pontua Lydice Maier.
Foi sem dúvida uma monarca sagaz, que soube lidar com situações adversas com muita habilidade, acrescenta o historiador Glauber Wisniewski. A historiadora Yolanda Rodrigues, por sua vez, vê na rainha uma mulher decidida e forte.
O raca, mais do que a mulher do rei, tornara-se o rei em si, se responsabilizando pela administração do reino, apesar dos esforços do marido em se tornar soberano e responsável pelas terras leonesas e castelhanas, diz Adriana Zirer.
A professora ressalta que a todo momento a monarca fazia questão de reafirmar sua legitimidade e capacidade jurídica de governar. Ela é exemplo dessa possível desconstrução da fragilidade do sexo feminino. Reinou mulher em um espaço destinado a homens e em nada se pareceu com as mulheres submissas que necessitavam de proteção, tão difundidas nos livros didáticos, nos jogos ou nas séries televisivas, afirma.
Tzirer frisa que a guerra ocupou o tempo de seu reino E se o que se espera é que a rainha se protegesse em um de seus castelos O que ocorreu foi justamente o contrário Por meio de armas, pactos e legitimações O Haka permaneceu no poder Indo contra os desejos de alguns que a cercavam O Haka permaneceu no poder
Glauber Wisniewski ainda lembra que o fato de ela ter deixado para seu herdeiro um reino em relativa paz interna, mesmo depois de uma ascensão problemática e de ter sofrido questionamentos, muitas vezes violentos, acerca de sua autoridade, indica que o haka tinha capacidade política muito acima da média.
Podemos dizer que a rainha Urraca tem muito a nos ensinar sobre o papel da mulher no passado e no presente. Foi uma mulher que conseguiu governar sem a tutela masculina, que manteve o reino unido e garantiu a descendência para seu filho após a morte, pontua Adriana Ziller. Além disso, também foi dona do seu próprio corpo, porque a partir do momento em que conseguiu a anulação do seu casamento, nunca mais se casou, mas ainda teve relacionamentos amorosos e filhos.
Acrescenta. Claro que ao olhar para personalidades do passado, é preciso sempre ter cuidado com o anacronismo. Assim, embora tenha sido uma exceção e um meio dominado pelo poder masculino, o Raka não foi uma pioneira do feminismo, como pode parecer tentador imaginar.
Resgatar o raca não significa transformá-la em heroína feminista, diz Mary Delpriori. O risco do anacronismo é real e deve ser evitado, aconselha. De acordo com ela, o raca não governava em nome de um programa de emancipação feminina, mas em nome da legitimidade dinástica e da preservação do reino.
Pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo, a historiadora Mayra Rosin reconhece, em conversa com a BBC News Brasil, o risco de olhar para figuras como o Raca com o peso do anacronismo, mas lembra que resgatar sua história serve para lembrar que o poder na era medieval não era exclusivamente masculino.
Não é colocar nela essa ideia de heroína no sentido contemporâneo, mas complexificar um pouco a política europeia, mostrando que as mulheres não estavam fora do contexto político, ressalta Rosin. Já Glauber Wisniewski afirma que a presença de Urraca no rol dos monarcas europeus do século XII tem uma grande importância histórica e simbólica.
Histórica porque amplia o nosso entendimento sobre quem podia exercer poder na Idade Média e de que formas isso acontecia, diz. Além disso, a biografia da rainha Até Onde Sabemos nos mostra que ela foi, de fato, uma mulher extremamente vigorosa e uma estrategista notável que assumia ativamente condução de um reino em meio a disputas dinásticas complexas, conclui.
Você ouviu a reportagem Quem foi o Raca, a primeira mulher a reinar na Europa? Publicada pela BBC News Brasil em 8 de março de 2026.
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