'Era como se alguém estivesse enfiando uma chave de fenda no meu rosto': a vida com a condição médica mais dolorosa do mundo
A neuralgia do trigêmeo é uma condição rara em que algo tão simples como uma rajada de vento pode causar uma dor excruciante.
Thomas Papon
- neuralgia do trigêmeodor excruciante · Gervin Tumulty · Anita Prem · diagnóstico · tratamento · cirurgia neurológica · sintomas · apoio psicológico
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Era como se alguém estivesse enfiando uma chave de fenda no meu rosto. A vida com a condição médica mais dolorosa do mundo. Reportagem de Gary Owen, da BBC do País de Gales, publicada pela BBC News Brasil em 4 de fevereiro de 2026. Lida por Thomas Papon.
Gerwin Tumulty sentia como se uma chave de fenda perfurasse seu rosto. A dor era tão intensa que ele chegou a pensar em desistir de viver. Aos 52 anos, Tumulty disse que seus três filhos se acostumaram a vê-lo abandonar a mesa no meio das refeições após um simples alimento desencadear a agonia. Ele sofria de neuralgia do trigêmeo.
descrita pela Instituição de Caridade Britânica Trigeminal Neuralgia Association UK como a condição mais dolorosa conhecida pela medicina. A doença ocorre quando um vaso sanguíneo comprime o nervo trigêmeo no rosto, responsável pela sensibilidade ali. Com frequência, é confundida com dor de dente e as crises podem ser desencadeadas por algo tão banal quanto uma rajada de vento.
Segundo o National Institute for Health and Care Excellence, do Reino Unido, cerca de oito em cada cem mil pessoas desenvolvem neuralgia do trigêmeo por ano. Outra paciente contou que levou sete anos para ser diagnosticada. Apesar de descrever a sensação de raios atravessando o rosto, médicos garantiram que não havia nada de errado com ela.
Eu sentia dores agudas na mandíbula, como choques elétricos, descreve Gervin Tumulty, de Ponta de Lais, no País de Gales. Parecia que alguém enfiava uma chave de fenda no lado do meu rosto. Era realmente horrível. Empresário bem-sucedido, ele enfrentou, a partir de 2017, um novo desafio que, por dois anos, passou a dominar sua vida.
Eu tinha pensamentos de não estar mais aqui, de não existir. O que me manteve seguindo em frente foi imaginar o impacto que isso teria sobre a minha família. Mas eu não via um fim para aquilo. Foi um período desesperador, conta Tumloty. A neuralgia do trigêmeo costuma ser causada pela compressão do nervo trigêmeo, responsável por transmitir ao cérebro as sensações de dor e de tato do rosto, dos dentes e da boca.
Isso ocorre quando um vaso sanguíneo próximo pressiona a parte do nervo dentro do crânio. As crises podem ser desencadeadas por um leve toque no rosto, durante atividades como lavar o rosto, comer ou escovar os dentes. Até mesmo uma brisa leve pode desencadear a dor. Os ataques duram de alguns segundos a cerca de dois minutos e, em casos graves, podem ocorrer centenas de vezes ao dia.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem da BBC, a neuralgia do trigêmeo é mais comum em idosos devido ao processo degenerativo dos vasos sanguíneos causado pelo avanço da idade. Em pessoas mais novas, geralmente, ela está associada a outros problemas de saúde, como tumores na base do crânio, compressão vascular ou doenças, como a esclerose múltipla.
Porém, em situações raras, há a possibilidade de a doença surgir sem causa aparente. Estima-se que no Brasil haja cinco casos da doença para cada 100 mil habitantes e ela acomete principalmente pessoas acima dos 50 ou 60 anos pela degeneração do vaso sanguíneo por causa da idade.
A incidência também é maior em mulheres, mas ainda não há uma explicação científica do porquê disso, diz Felipe Barros, neurologista do Hospital Sírio-Libanês.
Os principais sintomas da neuralgia do trigêmeo são dores intensas na face, semelhantes a choques elétricos, formigamento no rosto e olho vermelho e lacrimejante. Segundo os neurologistas, não se fala em cura para a doença, mas sim em controlar as crises de dor intensa causadas por ela.
O tratamento varia de acordo com a situação de cada paciente e, na maioria dos casos, são indicados medicamentos para controlar as crises, segundo os especialistas. Há situações em que a cirurgia é indicada na tentativa de corrigir a má formação do nervo trigêmeo e assim reduzir as crises, melhorando a qualidade de vida do paciente.
Após anos sentindo dores intensas ao comer, Gervin Tumulty passou por uma cirurgia neurológica em 2019. O procedimento, feito sob anestesia geral, consiste em abrir o crânio e retirar um pequeno fragmento de osso para aliviar a pressão sobre o nervo responsável pela dor.
Os riscos podem ser graves, dormência facial, perda auditiva, AVC e morte em um em cada mil casos. Em compensação, a cirurgia oferece o alívio mais duradouro. Estudos mostram que a dor retorna em cerca de 3 a cada 10 pacientes entre 10 e 20 anos depois. Mas a cirurgia funcionou para Gervin, que teve uma recuperação notável.
Anita Prem não teve a mesma sorte. Apesar de ter passado pelo mesmo procedimento que Gervin, a cirurgia não foi bem sucedida. Ela convive com neuralgia do trigêmeo bilateral, uma forma muito rara da doença, em que as crises de dor podem ocorrer nos dois lados do rosto, às vezes ao mesmo tempo. Ainda assim, levou sete anos para ser diagnosticada.
Eu sentia dores faciais intensas. Parecia que um relâmpago atravessava o meu rosto, disse. No início, achei que fosse dor de dente e cheguei a extrair um siso. Se continuasse assim, poderia ter perdido todos os dentes. Ela conta que parou de falar sobre o problema depois de ouvir repetidamente que não havia nada de errado com ela.
No fim, o diagnóstico só veio após uma consulta com um médico substituto em seu posto de saúde, que a encaminhou para exames adicionais.
Até hoje, Anita Prem evita sair no inverno, já que o vento frio pode desencadear uma crise. Hoje, ela é diretora executiva da Trigeminal Neuralgia Association. Para Prem, o diagnóstico precoce e o apoio são fundamentais, especialmente em consultórios médicos e odontológicos. Ela afirma que o país de Gales conta com um sistema eficiente que envolve uma equipe multidisciplinar muito eficaz no diagnóstico.
Uma vez diagnosticadas, as pessoas podem ser encaminhadas com prioridade pelo sistema para obter o melhor atendimento possível, disse. Ainda assim, a instituição diz testemunhar os efeitos da dor crônica sobre a vida das pessoas capaz de assumir o controle de suas rotinas.
Infelizmente, vemos muitos pacientes falando em tirar a própria vida. Cerca de 33% dizem já ter pensado nisso, mas mais de 80% nunca buscaram qualquer tipo de ajuda. As pessoas sentem dores extremas, mas quase se envergonham de falar sobre a dor e sobre como isso as afeta. O isolamento, a solidão, a impossibilidade de sair de casa porque a dor literalmente tira o fôlego.
As pessoas sentem dores extremas, mas quase se envergonham de falar sobre a dor e sobre como isso as afeta, conclui Anita Prem. Você ouviu a reportagem. Era como se alguém estivesse enfiando uma chave de fenda no meu rosto. A vida com a condição médica mais dolorosa do mundo, publicada pela BBC News Brasil em 4 de fevereiro de 2026.
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