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'Jovens têm dificuldade de pegar o telefone e marcar uma consulta', diz pesquisadora americana

11 de abril de 202611min
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Maryellen MacDonald alerta para consequências sociais, emocionais e até no ambiente de trabalho, mas diz que, com treinamento e prática, é possível enfrentar o problema.

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Thomas Papon

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  • Desafios da Geração ZErosão das habilidades de comunicação · Consequências emocionais e sociais · Impacto no ambiente de trabalho · Isolamento durante a pandemia · Superproteção dos pais
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BBC Lê Jovens têm dificuldade de pegar o telefone e marcar uma consulta, diz pesquisadora americana. Reportagem de Alessandra Correia, publicada pela BBC News Brasil em 13 de fevereiro de 2026. Lida por Silvia Salek.

Alguns anos atrás, a psicolinguista americana Mariellen MacDonald começou a notar um fenômeno em suas salas de aula na Universidade de Wisconsin-Madison, onde ela é professora emérita de psicologia e ciências da linguagem.

Percebi que, logo antes do início da aula, quando anteriormente os alunos costumavam conversar uns com os outros, agora todos estavam de cabeça baixa olhando para o telefone, disse a pesquisadora à BBC News Brasil.

As salas de aula estavam realmente silenciosas, exceto talvez por uma ou duas pessoas. Isso me pareceu uma grande mudança. Lembra Mariellen MacDonald, que é autora do livro Modern Words, How Talking Sharpens the Mind and Shapes Our World. Mais do que palavras, como a fala aprimora a mente e molda o nosso mundo, em tradução literal.

Essa constatação despertou nela o interesse no que muitos consideram uma mudança profunda nos jovens da chamada geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, em relação às gerações anteriores, a erosão nas habilidades de comunicação.

Segundo ela, atividades antes consideradas banais, como pegar o telefone para marcar uma consulta ou contestar uma conta, hoje são encaradas com dificuldade por muitos adolescentes. E mesmo muita gente que gosta de conversar pessoalmente não quer mais atender o telefone, por exemplo, porque hoje em dia uma ligação geralmente é para vender produto ou tentativa de golpe.

Mas essa relutância real em pegar o telefone e ligar para o consultório do seu dentista ou ter uma conversa cara a cara com um amigo parece estar associada à geração Z, salienta a pesquisadora. Ela destaca ainda que há entre os jovens uma relutância, de modo geral, em se envolver em interações presenciais.

E a deterioração na capacidade de comunicação é observada não apenas nas habilidades de fala, como também de escrita. Isso vem acompanhado, segundo ela, de uma erosão dos hábitos de leitura. Ler e descobrir como a linguagem funciona é parte da habilidade de escrita. Uma consequência natural de ler menos é não ser tão bom em transmitir ideias em textos mais longos, diz.

Em gerações anteriores, a adolescência costumava ser um período de conexão social intensa, com novos amigos e namoros, marcos na transição para a vida adulta, em uma idade em que o cérebro está em desenvolvimento. Mas pesquisas indicam uma redução nessas interações.

Segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, de 2022, apenas 36% dos jovens nos países membros relatavam interação presencial diária com amigos.

uma queda acentuada em relação aos 53% registrados em 2006. Essa redução registrada entre jovens foi a maior de todas as faixas etárias. Marielle MacDonald alerta que a deterioração na capacidade de se comunicar traz consequências emocionais e sociais.

Ela cita estudos em que os mais jovens dizem que se sentem solitários em comparação com como se sentiam gerações anteriores. Também relatam que têm menos amigos e interagem menos com os amigos que têm.

Namoram menos e saem menos. Dizem que desejam ter essas interações sociais, mas que falar com pessoas lhes causa ansiedade e, por isso, acabam optando por mensagens de texto, explica a pesquisadora.

Uma piora nas habilidades de comunicação pode ter impactos não apenas na capacidade de criar vínculos e relacionamentos pessoais, mas também no ambiente de trabalho. Se não conseguem falar com os clientes ou com os colegas, ou têm medo de perguntar o que devem fazer, ou não conseguem fazer uma apresentação, tudo isso representa um problema no emprego. Observa.

Começamos a ver em pesquisas que empresas e gestores estão ficando preocupados com o fato de esta geração de trabalhadores não ser capaz de fazer tudo o que precisa ser feito, de falar com pessoas, de desempenhar suas funções. Acrescenta.

Em pesquisa do Instituto Harris-Poll, publicada pela revista Fortune, 65% dos trabalhadores da geração Z disseram que não sabem o que conversar com seus colegas, um percentual bem acima dos cerca de 25% registrados entre os mais velhos.

A revista cita empresas que passaram a oferecer treinamento extra para ajudar novos contratados a ganhar confiança em tarefas antes consideradas básicas, como fazer uma apresentação, se manifestar em reuniões ou até mesmo saber que linguagem usar em um e-mail.

Mariellen MacDonald se dedica há anos a pesquisar como as pessoas compreendem, produzem e usam a linguagem. Em seu livro, ela argumenta que muitos dos benefícios cognitivos no uso da fala decorrem do fato de ser um trabalho árduo.

Esses benefícios podem ser sentidos na atenção, na memória, na capacidade de regular emoções e na saúde cognitiva à medida que envelhecemos. Se as pessoas não estão conversando umas com as outras, isso tem consequências não apenas em termos de solidão, mas também para suas habilidades cognitivas, ressalta.

Ela observa que falar é um exercício importante para o cérebro, com benefícios que vão além do curto prazo e se estendem ao longo da vida. Falar sobre seus objetivos aumenta o foco mental e a probabilidade de concretizá-los. Falar sobre um tópico que precisa aprender torna o aprendizado mais rápido e duradouro.

E falar sobre suas emoções ajuda a esclarecer o que você está pensando e a lidar com situações estressantes. Apesar dos jovens estarem acostumados a ouvir outras pessoas falarem em vídeos e nas redes sociais, a psicolinguista diz que o tipo de estímulo não é o mesmo, já que compreender o que alguém está dizendo não exige o mesmo esforço mental que falar.

Falar é mais difícil do que compreender e, por isso, exercitar suas habilidades de fala traz benefícios que a mera compreensão não oferece, afirma. Com anos de experiência no estudo do impacto da linguagem em crianças, jovens, idosos e pacientes com o mal de Alzheimer, ela lembra ainda que falar ajuda a proteger contra a demência.

Inúmeros estudos mostram que aqueles que têm muitas pessoas com quem conversar e que se engajam em conversas têm melhores habilidades cognitivas e resistem à demência, diz. E ela afirma que os próprios adolescentes estão cientes do problema que enfrentam. Em pesquisas, eles relatam estar preocupados com o declínio de suas habilidades sociais.

Muitos jovens hoje em dia não se deparam com situações que antes eram comuns e facilitavam o desenvolvimento dessas habilidades. Ela lembra que o isolamento durante a pandemia de covid-19 reduziu as oportunidades de socialização em um momento em que deveriam estar aprendendo a interagir e a conviver uns com os outros. O trabalho remoto também tem um impacto. Ela cita ainda a oferta abundante de entretenimento no telefone celular.

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O celular é muito envolvente, ao passo que conversar com alguém exige mais esforço, o que pode gerar ansiedade. Compara. Outro fator apontado pela pesquisadora é a superproteção por parte de muitos pais e mães que buscam eliminar os desafios enfrentados pelos filhos e assim acabam reduzindo sua capacidade de lidar com problemas.

Há mais ansiedade entre os jovens e os pais, em alguns casos, tomam a frente para realizar tarefas pelos filhos, como fazer uma chamada telefônica, porque os filhos ficam ansiosos ao fazê-las. É compreensível, você quer proteger o seu filho, mas ao mesmo tempo, falar é uma dificuldade desejável.

Dar aos filhos a oportunidade de fazer uma tarefa ligeiramente difícil, como ligar para um consultório médico, marcar uma consulta, é algo que provavelmente está dentro da capacidade até dos adolescentes ansiosos. É bom para eles, diz a pesquisadora.

Segundo ela, habilidades linguísticas exigem prática, da mesma maneira que aprender um esporte ou tocar um instrumento musical. Os pais têm que saber que seus filhos precisam dessa prática, não devem fazer as coisas por eles. Resume.

Ela diz ainda que há medidas que pais, professores e os próprios jovens podem tomar para enfrentar o problema e ressalta que mesmo quem não teve oportunidades de desenvolver suas habilidades de fala, ainda pode aprender.

Ela cita aulas de introdução à vida adulta oferecidas por algumas universidades americanas que ensinam de lidar com dinheiro até fazer ligações telefônicas. Para os mais jovens, aulas de oratória, teatro e improviso podem ajudar. Mas a pesquisadora salienta que, além de desenvolver essas habilidades, também é preciso oferecer oportunidades para que os jovens possam conversar.

Para ela, a decisão de retirar os celulares das salas de aula deve facilitar não apenas o aprendizado, mas também a interação entre os alunos. Ela sugere uma combinação de oportunidades para praticar e possivelmente um pouco de aconselhamento para ajudar jovens e adolescentes a progredir e superar o fato de que tiveram bem menos prática do que outras gerações em seus primeiros anos de adolescência. Conclui.

Você ouviu a reportagem Jovens têm dificuldade de pegar o telefone e marcar uma consulta, diz pesquisadora americana, publicada pela BBC News Brasil em 13 de fevereiro de 2026.

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