Episódios de Conversa de Bolso - Felipe Storch

Inadimplência precoce: por que tantos brasileiros jovens estão endividados?

08 de maio de 202611min
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Reportagem de "O Globo" nesta semana traz um retrato de alerta sobre a inadimplência precoce e o endividamento familiar. Traz a reportagem: "no extrato bancário, o roteiro se repete: o salário cai, a fatura é paga, o limite é liberado e, em poucas horas, o dinheiro some de novo. Para uma geração que estreia no sistema financeiro com um cartão de crédito antes mesmo de ter renda estável, a promessa de independência virou uma espécie de armadilha silenciosa. O que começou como autonomia, sem precisar pedir autorização aos pais, tem se transformado em um ciclo silencioso de dependência: paga-se a dívida para poder voltar a gastar".

Dados do Banco Central (BC) mostram que o número de jovens com acesso ao crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024 — números mais recentes disponíveis. Pelo critério do BC, jovens são pessoas de 15 a 29 anos de idade. O avanço foi puxado sobretudo pela população de menor renda: cerca de 70% desses jovens ganham até dois salários mínimos. Nesta edição do "Conversa de Bolso", o comentarista Felipe Storch alerta para o assunto.

Participantes neste episódio4
F

Fernanda

HostAdvogada familista
A

Alexandre

ouvinteCoordenador do curso
F

Felipe Storch

ComentaristaComentarista
R

Ramon

ouvinte
Assuntos2
  • Inadimplência jovemAcesso facilitado ao crédito · Falta de amadurecimento financeiro · Impacto das redes sociais · Jogos online e vício
  • Dívida Pública BrasilEstratégias de renegociação · Resolução da causa da dívida
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Conversa de Bolso, com Felipe Stock. Ei, Felipe, bom dia.

Bom dia, Fernanda. Tudo bom? Tudo bem. Felipe, esta é a semana em que o governo efetivamente disponibilizou o Desenrola. Apesar de que os bancos ainda estão muito tímidos para iniciar essas negociações. A gente contou aqui com o entrevistado, explicando o que tem que se levar em conta. Mas depois eu fiquei pensando no seguinte, como é que a gente se disciplina?

para não voltar a se enrolar. E aí eu aproveito para a gente falar um pouquinho desse perfil do endividado jovem. O que tem levado essa juventude a contrair dívidas? Bom dia, bom dia a todos. Na realidade, quando a gente olha para a nossa estruturação do sistema financeiro hoje, ela é muito diferente do que era uma década atrás, por exemplo. A gente passou por um período de...

bancarização com essas novas fintechs que surgiram. E isso é claro que é muito bom para a economia, é muito bom para as pessoas que têm acesso ao sistema financeiro, mas também tem uma série de problemas. Hoje, um jovem de 18, 19 anos, ele consegue abrir uma conta, ele consegue receber limite de cartão de crédito, contratar empréstimo pessoal, parcelar PIC.

Isso de uma forma muito simples, em poucos minutos, e ele começa a ter acesso a crédito de uma forma que era muito mais rápida do que era antes, 10 anos atrás, 15 anos atrás.

A gente tinha que ir até o banco, a gente fazia a nossa solicitação, eles passavam por um período de análise, demorava uns 30 dias para a gente ter a nossa resposta e para, no final das contas, a gente ter direito ou não àquele crédito, aquele cartão, aquela conta. Isso, claro, que era um problema porque excluía muita gente, mas também servia como proteção para o sistema financeiro.

Agora, quando essa proteção cai, e é ótimo as pessoas terem acesso aos instrumentos do mercado financeiro, o problema é que o amadurecimento financeiro não acompanhou. Então, a gente tem muitos jovens que ainda não estão com renda estável, não tiveram uma boa educação financeira, não têm reserva de emergência ainda, não têm experiência para lidar com parcelamento, com juros compostos, e aí isso aumenta o risco de inadimplência.

Então é um problema estrutural que foi criado no Brasil por uma mudança de paradigma em relação ao acesso ao sistema financeiro, que precisa agora ser tratada. E como você falou, não basta a gente limpar o nome, a gente precisa...

conseguir mudar esse comportamento. Qual comportamento? O comportamento que leva ao endividamento. Isso aí. Porque é muito diferente a gente limpar o nome, a gente renegociar uma dívida, do que a gente reestruturar a nossa dívida, reestruturar a nossa capacidade de pagamento.

Então é um desafio muito grande que existe hoje, é um problema estrutural e precisa sim ser lidado, tanto pelo governo, quanto pelas famílias, quanto pelas escolas, para a gente tentar gerar um resultado que seja melhor no futuro do que a gente está tendo hoje.

Perfeito. E com relação a essa juventude, eu estava dando uma lida na reportagem do Globo dessa semana, que diz o seguinte, de que eles já chegam muito jovens ao esquema de pagamento de boletos, recebimento de salários, com muitas ofertas de cartões. Primeiro, esses bancos novos, digitais, não é mesmo?

Isso, é verdade. E mesmo quando a gente faz a renegociação da dívida, né? Isso. Se a gente faz a renegociação da dívida, o nosso nome limpa, automaticamente a gente está recebendo novamente ofertas de crédito. Então, acaba sendo um problema, vira um ciclo de endividamento. É diferente de resolver a dívida, resolver a causa da dívida.

E a causa da dívida está ligada normalmente à renda insuficiente, hábitos financeiros que não são legais, um custo de vida que segue elevado. Essa geração, acho que desde a nossa geração, é geração...

Y para frente é uma geração que passou por muitas dificuldades econômicas aqui no Brasil. A gente passou por muitas crises, a gente passou por pandemia, a gente passou por uma série de coisas que dificultam a nossa construção de patrimônio. E isso vale para esses jovens da geração Z.

E eles têm esse problema. O custo de vida está muito alto, a alimentação está muito alta, o aluguel está muito alto. E por isso eles têm muita dificuldade de construir uma reserva de emergência, de construir um patrimônio que seja possível utilizar em momentos de dificuldade. Esses momentos de dificuldade acontecem com todos nós. Então a gente tem que resolver esse contexto. Isso está ligado muitas vezes também a redes sociais.

Porque as redes sociais criam um padrão de consumo que não é real. E parece ali que todo mundo tem aquela capacidade de consumo, menos eu. E aí eu me cobro, eu me coloco naquela situação. Eu tenho crédito disponível, eu consigo parcelar em 12 vezes.

E aí eu faço aquilo ali, muitas vezes nem por uma necessidade econômica, mas por uma necessidade de senso de pertencimento. Isso gera uma pressão muito grande sobre os jovens, que ainda estão formando caráter, ainda estão formando a sua capacidade de interação com o mundo, tanto financeira quanto social. Isso gera um problema que é gravíssimo, tanto no cunho econômico quanto no cunho psicológico.

E esses jogos online? Os jogos também têm esse problema, porque a gente não pode esquecer que os jogos, aí a gente pode botar tanto esses jogos de cassino online, quanto esses joguinhos que as pessoas acham que são bem inofensivos. Muitos desses jogos são construídos para a pessoa precisar pagar.

Como assim? Eles têm um algoritmo por trás deles e você só consegue evoluir no jogo se você comprar o potencial, né? Você comprar chance, você comprar segunda vida, você comprar habilidades e aí você vai comprando e você vai conseguindo evoluir. Para quem não compra, a evolução é muito mais lenta, ela é muito mais difícil, que às vezes nem possível.

E os jogos de cassino online, o algoritmo deles é construído efetivamente para viciar e para pagar pouco. Então não é que a gente tem chance de ganhar, a gente já entra perdido. Porque no final das contas eles são construídos para a gente perder e eles são extremamente eficientes nisso. Bom, sua dica aqui para quem vai participar do Desenrola, passo a passo. O que tem que ser visto, que conta que tem que ser feita.

É entender onde que está devendo, quais são aquelas dívidas que têm a taxa de juros mais alta, aquelas dívidas que comprometem uma parte maior do seu salário, da sua renda mensal. A partir daquele momento, entender quanto que você consegue efetivamente pagar.

porque aquela dívida que você está aí na de implante, você não está conseguindo pagar. Então, aquele valor não dá para mim. Mas quanto que dá? É metade daquilo? É 30%? Porque a partir dali eu consigo chegar em uma mesa de negociação e falar, olha, eu quero pagar.

eu consigo pagar isso aqui. E aí você consegue, talvez, resolver de uma forma um pouco mais estrutural, que é você conseguir encaixar aquela nova dívida que você vai estar fazendo através do Desenrola dentro do seu orçamento e tentar evitar do ciclo de endividamento, que é você resolve a dívida, mas você não resolve a causa dela. Se você conseguir colocar a dívida dentro do seu orçamento e você entender que você tem que...

comprar menos de algumas coisas, tem que sair menos, tem que fazer um período de sacrifício para você conseguir equalizar a sua vida financeira, aí a causa da dívida vai estar resolvida e isso se torna muito mais sustentável. Entendido. Vamos às participações dos nossos ouvintes? Claro, prazer.

Temos participação do Ramon chegando por aqui e ele comentou, ele disse que já fez uma dívida na emergência sabendo que não ia ter como naquele momento pagar. E diz, confesso que ter ciência que não vai pagar é melhor que não saber como vai pagar. Participação do Ramon, então, chegando aqui para a gente. É, isso é assim, eu entendo a necessidade, porque no final das contas tem coisas que a gente tem que pagar, não sei qual foi a causa da dívida dele, mas tem coisas que a gente tem que pagar, não tem jeito.

O importante é tentar gerar uma reserva de emergência para que isso não aconteça. E mesmo depois que ele sabe que não vai conseguir pagar aquela dívida. Mesmo antes de ficar inadimplente, assim que conseguir, volta lá e fala assim, vamos renegociar esse negócio aqui porque para mim está pesado. O banco está aberto a renegociar dívidas que não estão inadimplentes, porque ele não quer que ninguém fique inadimplente. Para ele é ruim.

Então, a estratégia, para mim, para o ouvinte, naquele caso, naquele momento, seria renegociar antes de ficar inadimplente, antes de virar um problema mais sério. Felipe, tem mais participação chegando do Alexandre, ele mandou um áudio para a gente, vamos ouvir.

Eu acho, Fernanda, que tem que ter uma educação financeira nas escolas, aprender desde novo, entendeu? Para essa juventude que está vindo agora, é saber, porque eu sou um exemplo disso, fui ter uma educação financeira depois dos 26 anos, entendeu?

Eu concordo plenamente com o ouvinte, eu concordo muito, porque no final das contas, se a gente tem uma educação financeira mais cedo, a gente consegue lidar melhor com o endividamento, mas também a gente consegue começar a construir o nosso patrimônio mais cedo. E se a gente consegue fazer isso, a gente consegue chegar na nossa época de aposentadoria muito mais confortável do que se a gente começa a fazer isso mais tarde.

Então, eu acho sim que deveria ser uma disciplina obrigatória de ensino fundamental, nem de ensino médio. Para a gente começar, assim que a gente começa a aprender a contar, a gente pode começar a aprender a lidar com o dinheiro. E quanto antes isso acontecer, melhor. É isso. Fechamos, né, Felipe?

Eu acho que sim. Foi um prazer, novamente, deixar um abraço a todos. Boa sexta, bom final de semana e a gente conversa mais na semana que vem.

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