Hantavírus: os riscos, os mitos e o trabalho de contenção no Brasil
Renata Capucci
Maris Podeler
Ana Luísa Marques
Perla Rodrigues
Renata Carvalho de Oliveira Pires dos Santos
- Transmissão de HantavírusTransmissão interpessoal do Hantavírus Andes · Hantavírus em roedores silvestres · Mutações e novas formas de circulação · Hantavírus no Brasil: casos e vigilância · Fatores de risco: exposição ambiental e desequilíbrio ecológico
- Doenças InfecciosasDesafios no diagnóstico diferencial com outras viroses · Sintomas gastrointestinais e progressão para insuficiência respiratória · Ausência de antiviral específico e pesquisa por tratamentos · Importância do suporte de UTI e diagnóstico rápido
- Hantavírus em cruzeiroOrigem e disseminação em alto mar · Monitoramento da OMS e autoridades sanitárias · Baixo risco de epidemia mundial · Tempo de incubação e cautela na observação
- Prevenção do HantavírusMedidas de higiene ambiental e armazenamento de alimentos · Evitar contato com roedores e atividades de risco · Vigilância ativa e monitoramento de contatos
Um navio de cruzeiro navegava pelas águas isoladas do Atlântico Sul quando, subitamente, um surto de síndrome respiratória aguda interrompe a viagem e isola passageiros em suas cabines. O que as autoridades sanitárias internacionais detectaram em alto mar foi a presença do rantavírus, um vírus que, historicamente, depende do contato direto com o habitat de roedores silvestres para humanos.
Mas em pleno oceano, a origem desse contágio e a velocidade da disseminação entre os viajantes abriram uma interrogação preocupante para a ciência. Será que o vírus estaria encontrando novas formas de circular? Enquanto a Organização Mundial da Saúde monitora o evento em alto mar, aqui no Brasil, cientistas que analisam as mutações do vírus tentam entender como as mudanças climáticas e o avanço sobre áreas de mata estão alterando o mapa da doença em 2026.
É um desafio que une biologia, ecologia e a urgência de um diagnóstico que não pode esperar. O que os dados mais recentes sobre o rantavírus revelam sobre a nossa segurança sanitária? Eu sou a Renata Capucci, isso é fantástico!
Para explicar os riscos, os mitos e o trabalho de contenção que é feito nos laboratórios brasileiros, eu e a minha parceira Maris Podeler recebemos na nossa roda de conversa a pesquisadora Renata Carvalho de Oliveira Pires dos Santos. Ela é chefe do Laboratório de Rantaviroses e Riquetcioses da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. Renata, bem-vinda! Obrigada, Renata. É um prazer estar aqui, podendo falar sobre um assunto tão relevante e importante aqui para esclarecer dúvidas.
Os traumatizados que somos depois do coronavírus, a gente ouve falar de um novo vírus, o rantavírus. A primeira pergunta que todo mundo se faz, que vírus é esse e o quanto é que a gente deve se preocupar com ele? Esse vírus já foi descrito, ele vem lá da Ásia, a primeira descrição dele na Coreia. Então a gente já conhece esse vírus há bastante tempo, tanto no Velho Mundo, como a gente fala, se refere à Europa, à Ásia, como nas Américas. Aqui nas Américas, em particular, o rantavírus antes.
que é o único rantavírus associado até então a essa transmissão interpessoal de pessoa a pessoa. E é um vírus que é encontrado em diferentes animais. Os rantavírus existem diferentes espécies de rantavírus já identificadas em diferentes grupos animais, principalmente em roedores silvestres. Esses vírus identificados em roedores silvestres estão associados à infecção humana.
Doutora, esse caso recente no navio trouxe à tona a discussão sobre o que você falou, sobre a transmissão entre humanos que a ciência trata como uma exceção raríssima associada a uma determinada cepa, que as análises laboratoriais já revelaram sobre esse episódio específico.
Falando então especificamente do antavírus Andes, que foi descrito no Chile e na Argentina, o que se sabe é que já ocorreram surtos relacionados à transmissão interpessoal desde a década de 90. Então esses surtos, surtos menores, surtos geralmente envolvendo grupos familiares, também surtos em hospitais. Então já é bem documentado, já é bem conhecido esse tipo de transmissão relacionada somente ao vírus Andes na Argentina e no Chile.
não tiveram surtos já reportados, publicados, comprovados. Mas ainda é uma situação que a gente diz rara. Geralmente o rantavírus é transmitido através da inalação de partículas que são liberadas nas excretas desses roedores. E hoje, a gente está tentando entender, ainda existem estudos experimentais, laboratoriais, verificando se determinadas mutações dessas cepas associadas a esses casos, a esses surtos...
interpessoais, teriam algum determinante que pudesse explicar essa transmissibilidade, que é uma transmissibilidade baixa entre humanos, isso é que é importante frisar, é a eficiência de transmissão entre humanos, pessoa, pessoa, ela é relativamente baixa. Não é um vírus que ele tem uma eficiência de transmissão como o influenza, o sarampo.
Para a gente entender, então, o Brasil tem regiões endêmicas importantes? Eu estava lendo que o Planalto Catarinense, interior de São Paulo, o que a gente deve se preocupar com relação a esse momento que está acontecendo agora na Argentina?
O Brasil, ele vem reportando casos desde 1993. Então, essa doença já é descrita. Não são muitos casos, como vocês veem também, desde 1993, comparado a outras endemias que a gente tem no Brasil, são poucos casos, mas é importante esse monitoramento, essa vigilância continuada. Esse foi um alerta para que a gente continue monitorando.
sensibilizando os profissionais da saúde, a população em geral, sobre a ocorrência dessa doença, que já existe no Brasil e tem uma alta letalidade. Os casos estão principalmente concentrados na região sul, sudeste e centro-oeste, onde existe também uma vigilância ativa. Quando a gente fala de uma vigilância ativa é que existem laboratórios e profissionais da saúde já atingidos.
a essa doença. Onde essa doença... Geralmente a gente fala, quando você não conhece a doença, você não reporta, você não notifica. O médico não suspeita desse diagnóstico. E foi o que aconteceu também, um surto que ninguém se esperava acontecer num navio.
rantavírus associado a um surto em cruzeiro, então é difícil essa suspeita clínica mas por isso que essa doença a gente precisa sensibilizar o nosso trabalho aqui é sensibilizar a todos sobre a existência da rantavírus que não é uma doença nova aqui presente
é considerada, já está presente na natureza, o vírus já está presente, circulando nesses animais há muitos anos. Mas existem situações de risco, acho que é isso que você perguntou também, as principais situações de risco, o que a gente tem que ficar atento no Brasil, essa exposição ambiental, o que significa.
atividades como atividades ocupacionais em áreas rurais e silvestres, como plantio, não só mesmo os agricultores, mas também reflorestamento ambiental, a questão mesmo do ecoturismo, atividade de lazer, atividade de pesca, tudo que envolve o ambiente silvestre rural, onde esses roedores são encontrados. Complementando, esse desequilíbrio ambiental empurra esses roedores para mais perto do convívio humano.
Sim, esses fatores ambientais que promovem o deslocamento dos roedores silvestres para a profilidade das residências, arredores de áreas rurais, fazendas. Então, aumentando o contato do homem com esses roedores que são encontrados na mata.
Mas entender também mudanças que promovam o aumento de alimento. Por exemplo, se você mudar o perfil agrícola de uma área, você pode estar aumentando ali a oferta de alimento para esses animais e os roedores se proliferarem e então também aumenta. Quanto mais o aumento dessa população desses roedores, também traz essa...
possibilidade de uma extensão maior do homem com animal. É o que a gente tem observado que é uma doença ocupacional. Mas é considerado um... Em todos os casos, tem sido relacionada a atividades rurais. Isso acho que é importante frisar. Mas lembrando de todas as situações de risco que acho que a gente colocou aqui.
Então, eu acho que é importante falar também que no ambiente aberto é muito mais difícil essa infecção ocorrer, né? É mais provável em lugares fechados. Aí a gente vem para a questão de limpeza de ambientes fechados, principalmente há muito tempo, com a presença de roedores ou discretos dos animais. Então, tem toda uma relação de ambiente fechado, na maioria dos casos.
Tem uma suspeita de que os pesquisadores contraíram o casal holandês num lixão em Ushuaia. Eu queria saber se tem algum risco em lixões urbanos de ter o rantavírus, porque eles seriam mais próximos da gente. É uma pergunta boa, Péla, assim, porque...
Aí eu vou introduzir um assunto que a gente não... Esses roedores, assim, eles têm um hábito de procurar abrigo e alimento. Então, assim, você tem uma mata numa área urbana, né? A gente tem matas também em áreas urbanas. Tem esses roedores silvestres. Então, assim, a maioria dos casos não está associada às áreas rurais, porque realmente tem um ambiente silvestre ali e também as atividades ocupacionais no ambiente rural.
mas existe o ambiente silvestre e tem essa proximidade com algumas áreas urbanas, o pere-domicílio que a gente chama, essa interface, esses roedores podem vir abrir o alimento. O que eu queria colocar aqui, acrescentar, é que existe um outro rantavírus, mas esse rantavírus que veio importado, digamos assim, lá do velho mundo, que vieram com as ratazanas domésticas. Então, esses ratos, sim, de área urbana.
Eles albergam um rantavírus, mas de outro rantavírus, que é esse da febre renal hemorrágica, de baixa letalidade, que não está associado à transmissão interpessoal, que são esses ratos domésticos. E tem evidência, é claro, porque esses ratos são cosmopolitas, estão presentes em todo o mundo, né? Os ratos ratos, os ratos nordérgicos.
ele já foi encontrado com o rantavírus. Então, assim, é só para trazer um pouquinho do cenário, não é nesse caso agora, que a gente já viu que é o rantavírus antes, mas é isso, é a área de mar próxima, que esses roedores se deslocam procurando abrigo e alimento, ou seja, em Túrios, como você falou, é um local de abrigo, não só também como... Por isso que a preocupação de manter o ambiente...
As residências têm várias medidas, muitas medidas simples. A questão de que a gente fala de higiene ambiental e a questão em casa, de você manter os alimentos sempre armazenados em recipientes fechados, rações de animais também. Então isso tudo conta, isso tudo é importante. Esses detalhes são importantes.
Então, assim, os roedores vão atrás e os roedores do mato vêm atrás também. Você disse que é um vírus com potencial letal. Só que hoje a gente tem tantos vírus respiratórios circulando, né? Então, qual você diria que é o pulo do gato para o sistema de saúde não deixar passar um caso de ranta virose?
Acho que a gente começa por conhecer a doença, a sensibilização dos profissionais, uma vez que esses profissionais da saúde suspeitam da rantavirose, tendo um teste rápido para você fazer um rápido diagnóstico e descartar outros vírus respiratórios e outros vírus que têm uma relação, um diagnóstico diferencial com a rantavirose, é fundamental ter esse conhecimento, um teste.
específicos para detecção. O hemograma te diz sobre uma infecção viral. A gente pode ir, não tem marcadores específicos, mas quem conhece, trabalha ali, o clínico está vendo, tem alguns marcadores ali que podem indicar. O raio-x é fundamental, o raio-x de tórax, uma fase mais avançada da doença, também é um indicativo. Isso na ausência de um teste específico.
para então ajudar o médico a fazer essa suspeita. O que diferencia a rantavirose de uma outra virose, por exemplo, causada por influenza? Clinicamente, a rantavirose se assemelha a outras doenças, inclusive influenza.
sobretudo no quadro inicial da doença, em que se observam sinais e sintomas inespecíficos, como febre alta, mialgia, cefaleia, mal-estar, fadiga. O que a gente pode destacar na rantaverose é uma frequência maior de sintomas gastrointestinais, uma progressão muito rápida para um acometimento respiratório, ou seja, em poucas horas, um ou dois dias, o paciente pode evoluir.
para uma insuficiência respiratória, uma dispneia intensa. E o edema pulmonar observado na rantavirose é em decorrência, muitas vezes, do aumento da permeabilidade capilar. Outros achados sugestivos são os achados laboratoriais, em que indicam uma hemoconcentração, plaquetopenia. Para ajudar no diagnóstico, que de uma certa forma é um desafio,
Frente a todas essas doenças, o acometimento respiratório é o contexto epidemiológico, ou seja, se o paciente teve alguma exposição de risco, como por exemplo, limpeza de locais fechados, com a presença de roedores excretas desses animais.
Quais são as pesquisas mais promissoras que a Fiocruz tem hoje em termos de tratamento? O tratamento é uma questão, porque não existe um antiviral específico para o rantavírus. O problema é que os estudos para tratamento, no caso para possíveis medicamentos, dependem de uma corte, de uma fase pré-clínica. Então a gente não tem uma corte muito grande de pacientes, essa é uma questão.
A gente voltando assim, o modelo começa, tudo começa para pesquisa de medicamento. Primeiro a gente tem que falar, é um vírus, também não é fácil se trabalhar, manipular, porque dependendo da técnica que você utilize, por exemplo, isolamento, você precisa de laboratórios de nível de biosegurança 3.
Então, trabalhar com o modelo animal, você precisa de um NBA3, um laboratório também de nível de biossegurança mais alto. Todas essas etapas são necessárias para chegar a uma avaliação clínica desse medicamento. Então, essa limitação de se trabalhar com um agente patogênico de alto risco impede que a gente avance como a gente gostaria de ter em trabalhos como.
Mas existem em outros laboratórios que têm esse nível de biossegurança mais alto, estudos em fase, mas nenhum tratamento ainda aprovado, nenhum medicamento aprovado pela agência regulatória, o FDA, nenhum medicamento até o momento. Mas a gente tem essas limitações. Às vezes você não tem um modelo animal adequado para determinado rantavírus.
Então, tem esses desafios, diria assim, para a gente ainda vencer para conseguir trabalhar com uma possível fármaco, da mesma forma que a vacina. Pois é, eu ia te perguntar exatamente isso. Existe algum horizonte para uma vacina, ou, por enquanto, o foco total, então, deve ser prevenção, né?
Prevenção, acho que essas formas de prevenção, evitar o contato, essas situações de risco, exposição às criaturas de animais, de roedores. Então, o nosso protocolo realmente são medidas de higiene ambiental, evitar esse contato com esses animais e atividades de risco e manter essa vigilância ativa dos...
casos, suporte clínico para os pacientes infectados. Então a gente tem que ter toda uma estrutura, um diagnóstico rápido para ter um manejo clínico, dado que não tem nenhum tratamento específico. Você, tendo uma resposta rápida, o médico consegue dar um direcionamento, ajuda, auxilia o médico no manejo adequado. Já explica pra gente uma coisa? Por que ele é considerado de alta letalidade?
Aí são diferentes fatores, Renata. A gente ainda está associando ou a algumas espécies de rantavírus, porque as espécies, ele é de alta letalidade aqui para a gente, nas Américas, os rantavírus, síndrome pulmonar por rantavírus. Se a gente falar da febre hemorrágica com síndrome renal, que é outra síndrome clínica associada também aos rantavírus, mas no velho mundo, a letalidade não é tão alta.
Então, vai depender da espécie viral, também características do hospedeiro, que a gente fala do caso do ser humano, né? Essa questão mesmo, fatores imunológicos, a carga viral do que o paciente é exposto, do que a pessoa é exposta também, influencia. Estão sendo diferentes fatores. E o que eu comentei anteriormente.
Se você tem um tratamento adequado com suporte de UTI, a chance prognóstica, a chance de sobrevida é maior. Então, por isso que a rapidez no diagnóstico faz toda a diferença também no manejo adequado do paciente. Então, acho que são vários fatores associados a essa alta letalidade.
O que você acha que serão os próximos passos do caso do navio? Há algum risco para a população mundial? Esse risco é muito baixo, não existe para uma epidemia, pandemia. É um surto que tem que ser controlado, que começou ali e eles estão... A etapa agora realmente é o monitoramento dos contatos, essa avaliação clínica, essa testagem e fazer esse rastreamento de todos os contatos.
para conter esse surto. Então, as autoridades de saúde de todos os países envolvidos, sejam elas os laboratórios que estão recebendo as amostras, os pacientes ali na África, seja na Europa, também estão preparados com testes e estão bem atentos a essa questão dos contatos. Então, acho que é o monitoramento agora.
é esperar realmente esse tempo aí que a gente tem. O desafio é o tempo de incubação desse vírus, né? Porque ele pode durar até 45, 60 dias de incubação. Então, pode ser que um contato seja de um caso e vai manifestar um sintoma mais para frente. Então, você tem que aguardar todo esse tempo. Por isso tem a importância dessa observação tão de perto, com tanta cautela da OMS, né?
Sim, exige uma cautela, mas esse risco, pelo vírus também, pelo que se sabe do vírus, que ele tem uma transmissibilidade baixa, é possível e vai ser contido esse surto. É isso que a gente espera, não tendo esse risco de disseminação. Essa propagação do vírus é muito lenta e muito difícil, exige um contato próximo e prolongado.
com o caso, com a pessoa que está infectada. Renata, eu te agradeço demais pelas tuas explicações que foram tão claras e calmas para a gente. Isso é muito bom, né? Porque a gente sempre diz aqui, entre nós, sim, que a informação é a nossa maior aliada na tomada de decisão.
na prevenção, principalmente. Então, eu te agradeço. Muito obrigada, mais uma vez. Eu que agradeço as perguntas importantes para a gente, né? Mostrando conhecimento e desmistificando um pouco, né? Tirando um pouquinho desse medo que, às vezes, desaparece e é natural, né? Por conta da letalidade. Claro, é uma letalidade. A gente já vivenciou aí o Covid. Sim, fica no nosso imaginário, né? Exato. Então, agradeço a vocês pelas perguntas. Obrigada a você.
Não sabíamos nada sobre rantavirose e agora sabemos tudo, graças a Renata. Muito obrigada. Eu que agradeço. Esse episódio foi editado pela Ana Luísa Marques, com supervisão da Perla Rodrigues. Na semana que vem a gente está de volta com mais um Isso é Fantástico.