Episódios de Ciência Suja

Machosfera: mercadores da masculinidade

25 de junho de 202655min
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A machosfera é um ecossistema digital reacionário que promove desinformação científica dos mais diferentes tipos — da ideia de que a mulher é biologicamente programada para ser submissa a práticas como expor os testículos ao sol para aumentar os níveis de testosterona. 

O Ciência Suja se aprofundou na ideologia redpill para mostrar que, se de um lado ela chega a ser caricata, do outro torna o mundo ainda mais perigoso para as mulheres, enquanto vende cursos e outras soluções pseudocientíficas no “mercado da masculinidade em crise”.

O Ciência Suja tem apoio do Instituto Serrapilheira, que fomenta a ciência e a divulgação científica no Brasil. 

Para participar do financiamento coletivo do Ciência Suja e conferir o material complementar do episódio, acesse o site: cienciasuja.com.br

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Participantes neste episódio8
M

Maggie Rodrigues

Host
T

Théo Ropresti

Host
A

Alexandre Hall

ConvidadoEndocrinologista
F

Felipe Almeida

ConvidadoNutricionista
F

Felipe Novaes

ConvidadoProfessor de psicologia
L

Luciane Belin

ConvidadoPesquisadora
M

Marie de Clercq

ConvidadoJornalista
P

Patrícia Isar

ConvidadoEtóloga e professora
Assuntos8
  • Tecnologias digitais e a machosferaDesinformação científica e pseudociência · Misoginia e discurso de ódio · Mercado da masculinidade em crise · Ideologia Red Pill · Marie de Clercq
  • Violência contra a mulherCaso Geraldo Leite Rosa e Gisele Alves Santana · Misoginia e possessividade · História da apropriação do corpo feminino · Gerda Lerner
  • Riscos e efeitos colaterais da testosteronaMito do macho alfa · Níveis de testosterona · Exposição solar nos testículos · Dieta carnívora e gorduras saturadas · Alexandre Hall · Roberto Brandini
  • Ódio contra Mulheres no Mundo DigitalNetLab da UFRJ e Ministério das Mulheres · Criminalização da misoginia · Monetização de conteúdo misógino · Luciane Belin
  • Secreções Corporais MasculinasAbstinência sexual e benefícios · Produção de espermatozoides · Poluição noturna · Marie de Clercq · Alexandre Hall
  • Mercado da masculinidadeCoaching e desenvolvimento pessoal · Tráfico sexual e exploração · Lei Maria da Penha e grupos reflexivos · Marie de Clercq
  • Impacto da Ciência na SociedadeEstudo do comportamento animal (etologia) · Mito do macho alfa em lobos · Hierarquias em grupos de primatas · Patrícia Isar · David Meck
  • Monogamia vs. Não-MonogamiaBusca por parceiro de status social elevado · Diferença entre descrição científica e julgamento moral · Felipe Novaes
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TRThéo Ropresti

O Ciência Suja tem o selo da Rádio Guarda-Chuva.

MRMaggie Rodrigues

Jornalismo para quem gosta de ouvir. Antes de começar, um aviso: este episódio fala de casos de feminicídio e violência contra a mulher.

TRThéo Ropresti

A testosterona no 939, sem fazer reposição hormonal, 939 é a faixa etária de— De homem entre 16 e 21 anos. A fala que você escutou agora é do Tenente-Coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa. Você provavelmente não se lembra do nome, mas talvez saiba o que ele fez. No começo agora de 2026, o Geraldo Leite Rosa foi denunciado por feminicídio, acusado de matar a própria esposa, a Gisele Alves Santana, que também era policial militar, com um tiro na cabeça.

Essa gravação é de um interrogatório da Polícia Civil. Mas qual o sentido dele ele falando da contagem de testosterona enquanto os investigadores estão tentando entender a versão dele? Estranho, não? E não fica só nisso. O G1 teve acesso a trocas de mensagens do casal por WhatsApp. Durante uma discussão, a Gisele reclamava de como era tratada pelo marido e mostrava que estava querendo se separar.

?Voz E

A resposta do Tenente Coronel foi a seguinte: "Eu te trato como todo homem macho alfa trata a esposa, com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser.

MRMaggie Rodrigues

Um show de machismo e misoginia, e que fica ainda mais triste agora que a gente sabe o final dessa história. A Gisele, mãe de uma menina de 7 anos, tá morta. O Geraldo tá preso, acusado de feminicídio e fraude processual, mas recentemente foi aposentado pela PM de São Paulo e vai receber um benefício de mais de R$20 mil por mês. Para a Polícia Civil, ele matou a esposa por causa de ciúmes e possessividade. A defesa dele nega as acusações.

Mas os termos que ele usa na mensagem e no depoimento sugerem que tem mais por trás disso. Ou que pelo menos esse sentimento de possessividade foi estimulado por um ambiente tóxico.

TRThéo Ropresti

O uso desse conceito de macho alfa e a citação à contagem de testosterona estão muito presentes num universo que reproduz um monte de ideias tortas e que não tem nada de novas, diga-se de passagem. É a tal da machosfera. Dentro desse mundinho, a masculinidade tá sob ataque e os homens são as vítimas de uma grande ofensiva feminista contra os direitos dos homens.

MRMaggie Rodrigues

E não se engane, você, homem que tá escutando, pode muito bem ser vítima mesmo. Mas não de uma conspiração de mulheres malvadonas, e sim de um grupo de picaretas que distorce a ciência pra pintar um problema que não existe. E aí te vender soluções pseudocientíficas.

TRThéo Ropresti

E bota pseudociência nisso. Às vezes o cara é fisgado porque tá buscando um aprimoramento pessoal, essa coisa bem dos dias de hoje, né? E daqui a pouco tá consumindo mentoria de pegação, protocolo de desintoxicação de pornografia, dieta carnívora pra aumentar a testosterona. Tem cara que defende até colocar testículo no sol pra ganhar energia.

MRMaggie Rodrigues

Neste episódio, a gente vai destrinchar a machosfera, Um ecossistema digital reacionário que promove desinformação científica e ainda inunda o mundo real com misoginia. Como se o mundo já não fosse suficientemente perigoso pras mulheres. Eu sou a Maggie Rodrigues.

TRThéo Ropresti

Eu sou o Théo Ropresti. E esse é o Ciência Suja, o podcast que mostra que em crimes contra a ciência, as vítimas somos todos nós.

?Voz F

Não, você ficou gag, é isso.

MDMarie de Clercq

É isso, fiquei gag. Fiquei tipo, ah, fiquei gag, fiquei assombrada, surpresa, chocada. Aí fala gag, fiquei gag.

MRMaggie Rodrigues

Entendi.

TRThéo Ropresti

Esse trechinho da conversa dos nossos produtores Cloé Pinheiro e Pedro Belo com a jornalista Marie de Clercq ilustra algo que a gente precisa deixar claro logo de cara. Essa gíria "gay" que o Pedrão, no alto dos seus quase 40 anos, não tava sabendo o que era, vem da cultura LGBTQIAPN+ e tá super disseminada na internet. Mas o uso generalizado desse tipo de vocabulário não quer dizer que a gente viva numa sociedade dominada por esse grupo, uma ditadura gaysista, como dizem alguns por aí.

E é mais ou menos com a mesma lógica que a gente deve analisar aquela fala carregada do PM acusado de feminicídio que abriu o episódio. A gente tem que tomar cuidado ao deduzir que a machosfera ou a ideologia red pill sejam os principais motivadores por trás de crimes horríveis como aquele. Não são. Violência contra a mulher tá longe, bem longe de ser novidade.

MRMaggie Rodrigues

A historiadora austríaca Gerda Lerner, por exemplo, diz que a apropriação do corpo feminino Agricultura é meio que a base para a criação do conceito de propriedade privada. No seu livro A Criação do Patriarcado, ela argumenta que a primeira posse de propriedade da história humana foi justamente a do trabalho das mulheres como reprodutoras. Isso a gente está falando lá do começo da agricultura, então é papo de 10, 12 mil anos atrás.

E aí, a partir do momento em que as terras e os rebanhos começaram a ser privatizados, Era preciso garantir que eles fossem repassados de forma hereditária, de pai pra filho. Como garantir a, entre aspas, "pureza da linhagem", pra ter certeza de que você vai transmitir sua propriedade aos seus filhos biológicos? Pois é, impondo restrições à sexualidade feminina. Então, a obsessão com a monogamia, a exigência de virgindade antes do casamento, punições ao adultério, Tudo vem daí e nada disso é novidade.

TRThéo Ropresti

Agora vamos voltar pro papo do Pedrão e da Cloé com a Marie de Clercq. Ela vai ser uma espécie de guia nossa pela machosfera.

MDMarie de Clercq

Eu sinto que a ideologia red pill, né, que começou a se popularizar, ela começou a dar um vocabulário melhor pra explicar, pra justificar de uma maneira pseudocientífica o porquê as mulheres devem ser odiadas, subjugadas, quem seja. Eu acho que o que a gente tá vendo, eu não chamo de organização, mas é uma sistematização de fato da misoginia.

TRThéo Ropresti

Talvez você já tenha escutado esse termo "Red Pill". Ele faz referência à pílula vermelha do filme Matrix, lembra? Naquela distopia, as máquinas dominaram os seres humanos e aprisionaram todo mundo numa simulação que parece realidade. Pra acordar e ver a verdade como ela é, você precisa tomar a pílula vermelha, a Red Pill.

AHAlexandre Hall

"Vai acordar em sua cama e acreditar no que você quiser. Se tomar a pílula vermelha, fica no País das Maravilhas.

TRThéo Ropresti

E eu vou mostrar até onde vai a toca do coelho." O envolvimento da Marie com esse tema começou cedo, lá no início dos anos 2000, quando ela se ligou que era tratada de forma diferente nos fóruns que entrava pra caçar músicas. E isso acontecia por um motivo muito simples.

MDMarie de Clercq

"E isso aí eu descobri que qualquer comunidade que tivesse uma maioria masculina, que era eram praticamente todas na época, se eu me identificasse como mulher, eu sabia que eu ia ser utilizada de alguma forma. E depois de alguns anos eu fui entendendo que nem todas essas pessoas eram misóginas, esses garotos, esses caras, só que era meio que uma regra de conduta na internet, em espaços virtuais. Então isso sempre me deixou muito— me deixou um pouco intrigada, né?

TRThéo Ropresti

A Marie contou que a partir daí desenvolveu uma curiosidade quase mórbida por esse discurso, uma vontade de entender o porquê de tanto homem se sentir confortável na internet pra falar que odeia mulher. Ela foi ficando obcecada com a linguagem, decifrar os termos, as piadas internas.

MDMarie de Clercq

E se eu passei por esse processo sendo mulher e obviamente sendo alvo do ódio ali e sabendo que aquilo é errado, ainda assim eu fiquei ali por um processo, por uma questão de curiosidade, imagina como é que é pra um cara. Para um moleque que nunca ouviu falar disso, tá perdido ali na internet e acaba entrando nesse grupo.

MRMaggie Rodrigues

Ao longo dos anos, aí já como jornalista, a Marie publicou muita coisa sobre esses grupos onde a misoginia rola solta. Se infiltrou, entrevistou participantes dos fóruns e foi virando uma referência no tema. E o legal de conversar com ela foi justamente dar uma limpada no ar de grandeza e importância que a cobertura de parte da imprensa e alguns políticos estavam dando para esse movimento, entre aspas, depois de alguns casos de violência contra mulheres.

MDMarie de Clercq

Eu não gosto de chamar de movimento porque eu acho que movimento às vezes pressupõe uma organização proposital. Eu chamo de ideologia porque é um conjunto de regras, ações e conceitos.

MRMaggie Rodrigues

Sim, dá para dizer que essa ideologia red pill fornece a base intelectual para uma série de grupos: os incels, que são os celibatários involuntários, os MGTOWs, ou Men Going Their Own Way, ou homens indo no caminho próprio, sei lá. Tem grupo pra todo gosto. E no final, eles formam o grande mercado da masculinidade em crise.

MDMarie de Clercq

É que é muito doido porque assim, quando você vai ver o que esses caras mais mainstream de Red Pill estão falando, eles são coaches, basicamente. E o que eles vão vender pra você é a promessa de desenvolvimento pessoal. Eu acho que é por isso que a minha posição disso é tratar como trambiqueiro, entendeu? Pra mim, red pill é a mesma coisa que influenciador que tá divulgando o jogo do tigrinho.

MRMaggie Rodrigues

O termo "coach" nesse contexto já provoca até aquela urticária aqui. Se você acompanha o Ciência Suja, sabe que a gente tem um episódio sobre esse pessoal que se apropria do discurso científico pra vender livro, curso, mentoria, esquema de marketing digital, criptomoeda, E até golpe. Chama A Era do Coach e é de outubro de 2024. Depois vai lá.

TRThéo Ropresti

Em março de 2026, um dos acusados em um caso horrível de estupro coletivo no Rio de Janeiro foi fotografado ao chegar na delegacia com uma camiseta com o slogan "Regret nothing". É algo como "não se arrependa de nada", numa tradução livre aqui. Perfis de redes sociais e até da grande imprensa associaram a frase ao influenciador Andrew Tate, um dos expoentes da ideologia redpill e que foi preso por tráfico sexual na Romênia. Olha o nível do cara.

Só que a Marie de Clercq estranhou, porque já estava familiarizada com esse ecossistema e nunca tinha visto esse suposto mantra. Isso não quer dizer que os acusados do caso, todos muito jovens, não tiveram contato com esse universo. Mas pra Marie, foi criada uma espécie de pânico moral diante de um fenômeno virtual supostamente novo, que na realidade é só mais um exemplo deplorável da mesma violência contra a mulher que sempre existiu.

MDMarie de Clercq

Eu acho que é muito fácil a gente colocar, atribuir tudo à ideologia red pill, porque é uma, de novo, soluções simples, né?

TRThéo Ropresti

Então, em vez da gente pensar que a misoginia tá na nossa identidade brasileira, que ela tá envolvida com outros problemas da sociedade, como racismo, desigualdade econômica e por aí vai, a gente aponta o dedo pro outro. A machosfera tá longe de ser inofensiva, que fique claro, mas ela não é culpada por todo novo episódio de violência de gênero. O que essa ideologia faz realmente é retroalimentar, e de maneira bem eficaz, os homens com um discurso machista que sempre existiu e de um jeito reacionário, como uma resposta às conquistas dos movimentos de emancipação feminina que aconteceram ao longo do último século.

Aqui vale mais um destaque para a diversidade de perfis e de pautas promovidas na machosfera. Tem desde os coaches de aprimoramento pessoal que vendem esquemas de investimentos, como a gente mencionou, até perfis e canais que ensinam a, entre aspas, pegar a mulher, que são os chamados pickup artists. Tem também um pessoal que questiona a Lei Maria da Penha ou defende a lei da alienação parental, uma outra aberração que também já foi tema de episódio aqui. Esse é de junho de 2023.

MDMarie de Clercq

Tipo, são pessoas, são homens de perfis muito diferentes, de locais, de origens, até opiniões diferentes, mas o mesmo, eles respiram o mesmo oxigênio que é a misoginia, que é a ideologia red pill.

MRMaggie Rodrigues

Pra ter uma ideia do tamanho desse problema, a gente conversou com a Luciane Belin, pesquisadora do NetLab da UFRJ, nossos parceiros aqui do Ciência Suja, que estudam desinformação digital. Em 2024, ela liderou um estudo em parceria com o Ministério das Mulheres para mapear os principais focos de discurso de ódio contra as mulheres na internet. Esse estudo, aliás, ajudou a embasar o projeto de lei que quer criminalizar a misoginia, E partiu de uma lista de 61 termos para serem rastreados.

Com isso, elas chegaram a pouco mais de 76 mil vídeos publicados por 7.800 canais, todos no YouTube. Somados, eles tinham mais de 4,1 bilhões de visualizações. Com B mesmo, B de bola. É metade da população da Terra em visualizações.

LBLuciane Belin

E aí quando a gente olha para os assuntos que apareciam principalmente nos títulos, né, a gente identifica que o principal, né, a maior parte dos esses conteúdos eram classificados como desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina, que a gente chamou assim, né, esse tópico, mas eram conteúdos red pill, em resumo, né.

MRMaggie Rodrigues

Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina. Parece até engraçado, mas percebe como estimula um tipo de reação a um problema que não existe na vida real?

LBLuciane Belin

Conteúdos que diziam: "Não se submeta, não seja bonzinho, não seja fraco, não deixa ela te enganar, que..." promoviam essa defesa mesmo do homem em relação às mulheres que supostamente estão tentando dominação.

MRMaggie Rodrigues

Gente, mas que tipo de dominação é essa em que quem morre é o dominador? É muito triste, mas o Brasil registrou quase 1.500 feminicídios em 2024, segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Isso dá, em média, 4 mulheres mortas por dia. 8 em cada 10 foram vítimas dos seus companheiros ou ex-companheiros. São dados reais, viu, ô Juliano Casarré? Quem sabe você não bota isso no programa do seu curso também?

TRThéo Ropresti

Voltando pra pesquisa da Luciane, aqueles números enormes de canais e visualizações já sugeriam que tinha um problema ali. Mas era preciso dar uma filtrada e se aprofundar em um novo recorte dentro desse recorte. O trabalho de cientista às vezes é esse, né? De colocar uma lente em cima de um mar de dados e aumentando o zoom e olhando tudo minuciosamente, pra tentar entender o máximo possível. E o pessoal do NetLab criou até um algoritmo pra isso, que ajudou a elencar os conteúdos do menos pro mais potencialmente misógino.

LBLuciane Belin

A gente analisou computacionalmente, mas a gente também teve uma etapa qualitativa em que a gente assistiu pelo menos 3 vídeos de cada um dos 600 canais mais potencialmente misóginos. Então a gente assistiu 1.800 vídeos. Assistiu! Não foi computador, foram as pesquisadoras que assistiram.

TRThéo Ropresti

A gente sente muito, viu, Luciane, e todo mundo do NetLab que passou por isso.

LBLuciane Belin

E aí, com esse protocolo, a gente chegou então que dos 601 canais analisados em profundidade, 137 tinham pelo menos 3 vídeos com conteúdo misógino. Esses canais eram canais com muito alcance, né, então juntos eles somavam 105 mil vídeos produzidos e eram canais que tinham em média 28,8 milhões de visualizações. E somados eles chegavam a 3,9 bilhões.

TRThéo Ropresti

3,9 bilhões, com B de bananada, de novo. Pior de tudo, 80% dos 137 canais analisados estavam utilizando monetização de alguma maneira. Anúncio, programa de membros, superchat da plataforma, venda de livro, divulgação de Pix ou algum esquema de criptomoeda. Ou seja, o ódio contra a mulher está sendo usado para ganhar dinheiro. A plataforma, nesse caso o YouTube, e o influenciador misógino estão lucrando pra exibir anúncio em vídeo que ensina homem a controlar mulheres. Precisa falar que isso é absurdo?

MRMaggie Rodrigues

Mas calma que tem mais. Lembra que o estudo é de 2024, né? Recentemente, agora em 2026, as pesquisadoras voltaram pra ver se esses canais ainda estavam no ar.

LBLuciane Belin

Dos 137 canais que nós identificamos lá em 2024, 123, ou seja, 90% deles, Seguem publicando e seguem monetizados, a maioria sem nem se reinventar, né? Então a gente identificou que mais ou menos 20 canais mudaram o título, mudaram um pouco a perspectiva, mas continuam produzindo e monetizando conteúdo e que agora eles têm 130 mil vídeos publicados e eles conseguiram aumentar muito o volume de visualizações também.

MRMaggie Rodrigues

É uma vergonha. É mais alcance e dinheiro para vídeos que falam explicitamente que mulheres são inferiores, menos inteligentes, interesseiras, mais promíscuas e que usam termos bem mais carregados do que esses que a gente usou agora.

LBLuciane Belin

Dizendo que a mulher é o sexo frágil, que a mulher não tem capacidades técnicas de liderar, não é feita intelectualmente para atuar na política, que o cérebro da mulher é menor, então alguns argumentos E são pautados supostamente numa questão biológica, mas que se sabe que não é exatamente dessa forma que as coisas acontecem.

MRMaggie Rodrigues

Uma das principais "verdades científicas", entre bilhões de aspas aqui, que esse povo adora se basear é o tal do mito do macho alfa. Sim, um mito, um erro de percurso.

LBLuciane Belin

É um erro científico, digamos assim, né? Um biólogo que produziu uma pesquisa nos anos 70, ele observava lobos nos zoológicos e dizia que o lobo que era dominante, que era o mais agressivo, era o macho alfa. E aí mais à frente esse mesmo pesquisador, esse mesmo biólogo, ele se retratou e afirmou que esse conceito era falso e era prejudicial, porque na verdade quando os lobos estavam em liberdade, Alcatéia se organizavam muito mais de uma forma horizontalizada e não hierárquica. Então mesmo na natureza Essa ideia de macho alfa não se aplica.

MRMaggie Rodrigues

Só pra pôr os pingos nos is, o pesquisador que a Luciane mencionou é o David Meck. Ele popularizou essa ideia de que os lobos se organizavam em uma estrutura de dominação com o livro The Wolf, O Lobo, em 1970. E esse conceito foi apropriado por um monte de escritor de autoajuda corporativa. Olha o que o próprio David Meck falou nessa entrevista pro Diogo Rodrigues, no site Science Arena, 2025.

?Voz E

Isso começou na década de 1940 com o etólogo alemão Rudolf Schenkel, que queria estudar lobos. Na época, ele só podia fazer isso em cativeiro, então pegou lobos de diferentes zoológicos e os colocou juntos, pensando que aquele grupo representava uma alcatea real. Mas mais tarde aprendemos que uma alcatea de lobos na natureza é, na verdade, uma família, algo que Schenkel não sabia. Ao observar os lobos em cativeiro, Ele percebeu que eles formavam uma hierarquia de dominância, semelhante à hierarquia em galinhas.

Lobos de posição mais alta foram chamados de alfas. Naquele ambiente artificial, onde os lobos não eram parentes, fazia sentido que houvesse disputas por dominância e que os indivíduos no topo fossem chamados assim.

MRMaggie Rodrigues

Em 1999, quase 30 anos depois do lançamento do livro, o David publicou o artigo Status de Alpha, Dominância e Divisão de Trabalho em Alcatea. E explicou que esse conceito não se aplica a lobos selvagens.

TRThéo Ropresti

Hoje tá claro pros pesquisadores da área que os lobos se organizam em famílias mesmo, com machos e fêmeas, normalmente os pais e mães dos lobinhos mais jovens no comando. Então esse papo de macho dominante, ele é exagerado pra dizer o mínimo. E isso também é visto em outras espécies.

?Voz F

Olhar científico. Ele é muito afetado pela cultura em que essa ou esse cientista estão inseridos.

TRThéo Ropresti

Você escutou agora a voz da professora Patrícia Isar, que é etóloga e professora do Departamento de Psicologia Experimental da USP. A etologia é a área do conhecimento que estuda o comportamento pela perspectiva da teoria da evolução.

?Voz F

E a gente pode falar "esse cientista" aqui nesse caso com um certo conforto? Porque historicamente a gente tem as teorias preponderantes, os papéis preponderantes da ciência ocupados por homens. E homens que vêm de uma academia eurocêntrica, uma perspectiva eurocêntrica de homem branco cis hétero, que vai afetar também o olhar e as teorias Sobre o comportamento humano, né?

TRThéo Ropresti

A Patrícia estuda principalmente os comportamentos de primatas, como os macacos-prego. Ela contou que é comum existir hierarquias bem complexas em grupos de macacos. Muito mais complexas, por exemplo, do que só aquele modelo com um macho alfa fortão que acumula recursos e fêmeas. Mesmo assim, a literatura científica foi sendo contaminada por essa ideia única. De dominância do mais forte, no sentido literal, físico quase. Esquecendo inclusive que a teoria da evolução fala sobre adaptação e não força.

E mais, começou a ser afirmado por aí que essa dominância do mais forte viria de berço, da genética. Hmm, de onde será que vem essas ideias, hein?

?Voz D

É o xixiá!

TRThéo Ropresti

Em espécies que apresentam diferenças significativas entre entre machos e fêmeas. Pode ser que os machos, via de regra maiores, exerçam dominância pela força. A Patricia observava os bichinhos nos estudos de campo dela e via assim mesmo, era evidente. Só que em trabalhos recentes com a holandesa Charlotte Remmelhaeke, a Patricia entendeu que as relações de dominância podem ser afetadas mais pelo histórico das lutas do que pelas habilidades de luta em si, pela força inerente.

E esse histórico, quem e quando ganhou tal briga, também pode ser um produto do acaso.

?Voz F

São vários os acasos que podem fazer com que um bicho menor, ou um indivíduo menor, ganhe de um maior. E isso determina o resultado das próximas, né? Então, o que interessa é o resultado das lutas, não é uma habilidade anterior. Então, as disputas, elas constroem quem é. O dominante não revela um dominante anterior, né?

TRThéo Ropresti

Em alguns contextos, segundo os estudos da Charlotte, pode ter tanto macho que eles começam a lutar mais e os derrotados vão perdendo espaço no grupo todo.

?Voz F

E nesse contexto, fêmeas podem se tornar dominantes em relação a esses machos. E aí a gente testou as ideias dela para macaco-prego e é perfeito, né? Então, e eu falava: "Gente, como é que eu não tava enxergando isso?" Nesses 30 anos você tem vários contextos demográficos dos diferentes grupos e das diferentes populações. E a gente tem momentos de fêmea, que o grupo tem uma fêmea mais dominante que qualquer outro macho.

TRThéo Ropresti

A gente trouxe essa história pra ilustrar como um viés cultural na produção científica pode contaminar inclusive o trabalho de uma cientista mulher com mais de 30 anos de pesquisa e que tá atenta à produção da área dela. Hoje, a Patrícia usa esse exemplo em palestras para apontar o tanto que a cultura machista afeta a primatologia. O Felipe Novaes, professor de psicologia da PUC-Rio, que pesquisa essa intersecção entre biologia e cultura, lembrou de uma coisa que é importante quando se fala da distorção de ciência: a machosfera é um ambiente conspiracionista.

FNFelipe Novaes

Então, eu diria que o problema da machosfera é exatamente isso. Tem um monte de coisa isoladamente assim, é coisas isoladas que a galera da machosfera fala que não é exatamente mentira, que é um parada por estudo. O problema é como que eles usam esses fatos para costurar uma coxa de retalhos formando uma grande narrativa que mostra assim, ó, tá vendo, o mundo está contra os homens e privilegiando as mulheres e existe uma conspiração e blá blá blá.

TRThéo Ropresti

Na machosfera é comum encontrar a ideia de que as mulheres são naturalmente hipergâmicas, hipergamia é a ideia de que um indivíduo, no caso aqui a fêmea, vai sempre buscar um parceiro com status social mais elevado do que o dela. E segundo Felipe, isso tá documentado em estudos com bonobos, que é tipo um chimpanzé menorzinho, e até com mulheres mesmo. Mas o problema é como essa informação é trabalhada nesse mundinho macho.

FNFelipe Novaes

É verdade que status social é uma coisa que é muito decisiva pra atratividade A moralidade dos homens perante as mulheres é verdade, tem estudos no mundo inteiro mostrando isso. Ah, mas isso significa então que as mulheres são interesseiras? Cara, não sei. Aí já é um julgamento moral que a pessoa tá falando sobre essa característica. Eles transformam uma mera descrição da realidade numa espécie de imperativo moral, e isso não é o que a ciência faz.

Essa é a grande diferença, eu diria, entre uma abordagem cientificamente responsável do assunto e o que a machosfera faz.

MRMaggie Rodrigues

Tá vendo como rola sempre essa intenção no discurso? Pra ir fomentando um ódio mesmo? Quem disse que homem, por exemplo, também não se interessa por status social ou por atributos físicos e sociais? Mas agora, se tem uma coisa que não existe na natureza, nem em contextos de disputa por poder, dominância ou sexo, é algo que seja comparável ao feminicídio: o assassinato de uma fêmea pelo simples fato de ela ser uma fêmea.

?Voz F

Escuta a Patrícia Isá de novo: Que não existe paralelo no mundo animal não humano numa taxa de mortalidade de fêmeas por machos como a gente tem na espécie humana. Isso é um fenômeno deste momento cultural humano.

MRMaggie Rodrigues

Essa ideia de que macho e fêmea têm um comportamento único esperado é baboseira. Existem possíveis tendências, mas força física e agressividade são só alguns dos muitos instrumentos que animais usam para sobreviver, disputar poder, o que for. A teoria da evolução não fala de superioridade, fala de adaptação, e não elege quem manda ou quem obedece. É a cultura humana, essa coisa tão nossa, que às vezes embala conceitos horrorosos como a misoginia em uma narrativa supostamente objetiva.

Mas que, como a gente viu, na realidade não tem muito de ciência não. E é a partir dessas crenças que tem homem caindo em pseudociências macarrônicas. Isso a gente conta depois do intervalo.

TRThéo Ropresti

O Ciência Suja tem o apoio do Instituto Serrapilheira, que financia a ciência e a divulgação científica no Brasil. Sempre vale dar uma olhada no site deles pra ver o tanto de coisa bacana que o Serrapilheira tá por trás.

MRMaggie Rodrigues

A gente também tem um programa de financiamento coletivo que ajuda a pagar as contas aqui no podcast e a manter a gente no ar de forma recorrente. Procura pelo Ciência Suja na Apoia.se, Patreon ou Orelo e assina o plano que mais fizer sentido pra você. A gente garante newsletter, episódio antecipado e, dependendo da categoria, brindes e sorteios de livros. Eu queria aproveitar aqui e agradecer especialmente aos apoiadores da categoria Paladinos da Ciência.

Como a Josi de Almeida Souza, a Suzana Carvalho Calhau, a Luísa Coutinho e a Débora Soares Cardoso. As mulheres estão dando show no nosso financiamento coletivo, aliás.

TRThéo Ropresti

E quer ficar por dentro dos principais debates sobre o clima e emergência climática sem derrotismo e negacionismo? Então escuta esse recado do pessoal do podcast Bom Dia Fim do Mundo.

?Voz 1

Oi, aqui quem fala é Ricardo Terca, eu tô passando para te convidar para conhecer o Bom Dia Fim do Mundo, o podcast de de news e clima da Agência Pública, a agência de jornalismo mais premiada do Brasil. Toda semana a gente conversa sobre economia, política, relações internacionais e, é claro, emergência climática, sempre com um toque de humor pra suportar esses tempos apocalípticos. Como a gente sempre diz: sem derrotismo, mas sem negacionismo.

Tem episódio novo toda quinta, em todos os tocadores de podcast. Bom dia, fim do mundo.

TRThéo Ropresti

Lembra do Tenente-Coronel Geraldo Leite Rosa, acusado de matar a esposa? Então, aquele depoimento dele dizendo que tinha um nível muito alto de testosterona vinha como insinuação de que isso aumentaria sua necessidade de fazer sexo, o que seria um problema no relacionamento. Eu não preciso nem falar que isso não é motivo pra matar ninguém, né? Mas a testosterona virou mesmo o santo graal da machosfera, um marcador de virilidade, algo que separa os homens dos meninos.

Ou os raiz dos Nutella. Quanto mais alfa, mais testo. A Marie de Clercq contou também que existem umas teorias da conspiração bizarras dizendo que a gente tá vivendo uma epidemia de baixa testosterona provocada intencionalmente pra tornar os homens mais submissos.

MDMarie de Clercq

Entendeu? Porque os caras, eles são anti-vaxxer porque eles acreditam nesse sistema de manipulação e aí a vacina vai ser uma forma de deixar o cara mais feminino. De baixar a taxa deles de testosterona.

TRThéo Ropresti

E aí, como você deve imaginar, vende-se de tudo para aumentar a testosterona. Mas vamos começar do começo, Maggie.

MRMaggie Rodrigues

É, a testosterona é um hormônio mais presente no homem, mas também produzido por mulheres. É ela que estimula a criação de características físicas masculinas e o sistema reprodutor. Quando a testosterona está em falta de verdade, uma condição chamada de hipogonadismo, Realmente, o sujeito sofre muito. Mas ter uma contagem mais elevada do que o indicado não significa que ele vai viver melhor. Pelo contrário, o excesso também gera problemas, como a gente vai explicar.

Antes disso, nós perguntamos para o endocrinologista Alexandre Hall, uma referência em testosterona, o que ele pensa sobre essa tal epidemia de testosterona baixa.

AHAlexandre Hall

Existe hoje um hipogonadismo chamado funcional, passível de reversibilidade. E esse é que talvez seja aonde tem essa sobreposição de informações. Porque obesidade, aí a testosterona, diabetes, cai a testosterona. Então são doenças cuja prevalência tem aumentado. E aí sim nós temos situações que esse público talvez tenha testosterona mais baixa, só que eu tenho como tratar essas doenças e voltar a ter uma elevação de testosterona.

MRMaggie Rodrigues

Então os casos de hipogonadismo até tem aumentado. Mas eles parecem tá vindo de outras condições e de um melhor diagnóstico também, não de vacinas ou de malvadezas das mulheres. Bom, mas fora do contexto patológico da doença hipogonadismo, tem alguns estudos sugerindo sim que os níveis de testosterona dos homens estão caindo gradativamente ao longo das décadas. Mas primeiro que é difícil controlar fatores fatores que confundem as análises, como a própria forma de medir a testosterona, que evoluiu muito, e a presença de doenças e questões de estilo de vida que alteram os dados.

Mas mais importante do que isso, mesmo os estudos mais rigorosos, como um publicado esse ano no Journal of Endocrinological Investigation, mostram uma queda muito leve nos últimos 50 anos, e dentro dos limites considerados normais. Ou seja, a testosterona não tá despencando e a falta dela não é o problema dos homens hoje em dia.

TRThéo Ropresti

Mesmo assim, na internet tem gente jurando que a testosterona é capaz de resolver tudo. Tem um influencer desse mundo, o Roberto Brandini, que postou uma frase assim: "Você não precisa de terapia, precisa de testosterona." E é esse cara aqui. "O que aumenta a testosterona? É você tomar sol." de meio-dia por conta do ultravioleta B. É você comer gordura saturada porque é a matéria-prima da produção da testosterona. O Roberto Brandini disse que era um homem afeminado no passado e que foi traído por causa disso.

Mas aí ele se masculinizou. O Brandini não tem formação na área da saúde, mas ficou conhecido e hoje tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram por ter criado a Dieta da Selva, que defende uma alimentação rica em carne e gorduras saturadas, incluindo muita manteiga e óleo de coco. Ele fala que arroz com feijão são rações do governo, o que também é defendido por outros membros da turminha dele. Aliás, um dos motivos da epidemia de testosterona baixa seria o fato de as diretrizes alimentares atuais pedirem pra comermos menos carne vermelha e outras fontes de gordura saturada.

Que carregam colesterol. Mas o que tem a ver uma coisa com a outra, né? Bom, o colesterol participa da produção de testosterona. Mas diz aí, Alexandre Rowe.

AHAlexandre Hall

O que gera uma confusão aí com as pessoas é porque a molécula inicial que vai gerar a testosterona é o colesterol. Mas é diferente daquele colesterol que vai entupir o vaso sanguíneo. É aquele colesterol que tá dentro dessas células que estão nas suprarrenais ou no testículo e que por uma sequência de reações vão chegar a uma determinada molécula. Qual é a molécula? Ciclopentano perido fenantreno, que é a molécula da testosterona.

MRMaggie Rodrigues

Então não é o colesterol que tá no bife que vai ser usado diretamente para fazer testosterona. O colesterol é naturalmente fabricado no fígado para exercer várias funções no organismo. Até tem uma parcela pequena que vem do ovo e da manteiga. Mas primeiro que colesterol não é teleguiado para produzir testosterona só. E depois que a imensa maioria é produção interna mesmo.

TRThéo Ropresti

Uma dieta com colesterol que leva o LDL mais alto aumenta a esterona. A grande questão é quanto. É muito pouco. É uma mudança de 10%. Ah, eu tenho 500, né? Vai para 550. Isso não tem desfecho clínico.

MRMaggie Rodrigues

Esse aí é o Felipe Almeida, nutricionista pós-graduado em bioquímica e fisiologia. Ele dá aula sobre o assunto, manja muito de suplementação no fisiculturismo e vê de perto o papel que a alimentação exerce nessas comunidades. E um dos pontos é que, junto com esse aumento de nada na testosterona, uma dieta cheia de gordura saturada também eleva os níveis de outras coisas que, em excesso, fazem mal à saúde. O cortisol, por exemplo, também sobe e pode bagunçar a imunidade.

A aldosterona é outra e faz a pressão arterial disparar. O próprio colesterol se acumula nas paredes dos vasos sanguíneos e favorece infarto ou AVC, as duas maiores causas de morte no país. E fora que um padrão alimentar com muita carne e gordura saturada tá associado ao maior risco de câncer no intestino, entre outras coisas. Nos Estados Unidos, o Andrew Tate, aquele líder dos redpill que a gente mencionou antes, Também prega uma dieta baseada em carne pra aumentar a testosterona.

Então a ideia nem é nova e na verdade vem de um papo antigo de comer como os nossos ancestrais, que aliás nem comiam desse jeito. Imagina o perrengue pra conseguir comer carne todo dia na pré-história, gente. A humanidade sempre foi marcada por comer de tudo, por ser muito herbívora.

TRThéo Ropresti

Mas pra galera red pill, os cientistas, os nutricionistas, todo mundo, tá mentindo pra que você siga com sua testosterona baixa. Caras como Felipe Almeida são chamados de Nutris Margarina. O Felipe recebeu esse apelido porque vive fazendo conteúdo nas redes sobre o assunto. Ele inclusive estuda psicologia e tá infiltrado em grupos de dieta da selva em aplicativos de mensagem. Então ele tem uma visão tanto fisiológica quanto comportamental da coisa.

Por exemplo, nesse submundo Também rola muita recomendação de suplementos. Mas a gente não tá falando de whey e creatina.

AHAlexandre Hall

Aham.

TRThéo Ropresti

Que também tem mesa-cast recente nosso, tá? O pessoal fala de magnésio, coenzima Q10 e outros ligados a uma suposta melhora da qualidade de vida, da cognição e do sono. É uma cultura de biohacking, ou hackeamento biológico, mas bem mais trash. Enfim, só pra encerrar. A melhor dieta pra sua testosterona é a melhor dieta pra saúde mesmo. Com mais fibras, vegetais e consumo balanceado de proteínas. É isso que vai fazer seu corpo funcionar legal, junto com sono de qualidade, exercícios e com vida sexual saudável.

E aqui entra outra bizarrice das promessas de aumentar a testosterona, que é a retenção seminal.

MRMaggie Rodrigues

Se você não se ligou pelo nome, retenção seminal é deixar de ejacular para ter algum benefício, como mais testosterona no sobre o corpo. Um estudo de 2022 mostrou que essa é a desinformação sobre saúde masculina mais visualizada do TikTok e do Instagram. A gente viu uns depoimentos de influenciadores e, de verdade, aquilo parece gerar um incômodo muito grande. Parece que a pessoa tá em sofrimento mesmo. A Marie de Clercq explicou que essa ideia se conecta com o vício em pornografia, uma questão que é bastante atacada nesses grupos e fóruns e que, claro, Serve pra vender um monte de tratamento, mentoria e até protocolos de desintoxicação.

E tudo com um ar pseudocientífico. A começar pelo diagnóstico, que não é o que eles estão vendendo ali. O Pedro Belo conversou com a cientista social Carol Bonomi sobre esse tema. Mas como ele e a Cloé prometeram um episódio curto sobre a machosfera, uma promessa, aliás, que não vai se cumprir, esse assunto volta logo mais em uma das nossas pílulas. Por enquanto, a gente fica só no assunto da retenção seminal mesmo. Gente, é cada coisa que esse programa me faz falar, viu? Pelo amor!

MDMarie de Clercq

Esse assunto de retenção seminal, de não se masturbar, é uma bagunça porque mistura pseudociência e religião, entendeu? Porque grande parte desses grupos que você vai ver onde tem um foco em não se masturbar e não assistir pornografia, eles vão sim falar que se você ficar se masturbando e gozando várias vezes por dia, isso vai diminuir sua taxa "Ah, testosterona, isso vai fazer você mais viciado, mais compulsivo." Mas também eles misturam isso com quê? Com um monte de salmo da Bíblia.

MRMaggie Rodrigues

E realmente, vários vídeos misturam a ideia de benefícios à saúde com o discurso cristão de que o homem alfa de verdade não se envolve com várias mulheres.

TRThéo Ropresti

Que nem esse: Controla a própria libido e preserva o bem mais precioso que Deus proporcionou para ele.

?Voz F

O sêmen.

TRThéo Ropresti

Bom, gente, vamos lá. A cada ejaculação, o homem libera mais ou menos 15 milhões de espermatozoides por mililitro. E são entre 2 e 5 mililitros por ejaculação. Ou seja, podem ser mais de 50 milhões de guerreirinhos. E não é igual a mulher, que nasce com uma reserva finita de óvulos. O cara não tá desperdiçando o líquido sagrado dele. A produção é constante. Ele pode gozar todo dia que vai dar na mesma. Essa fabricação em massa acontece por meio de um sistema de feedback.

Algumas glândulas do corpo conversam e secretam hormônios que vão estimular tanto a produção de testosterona quanto de espermatozoides. E eles precisam de motivação pra isso, vai?

AHAlexandre Hall

Isso é um feedback. Se você não usar, meu filho, vai piorar. Então a ideia é que sim, que você faça o estímulo da da liberação e não achando que ficar sem ejacular seja melhor. Não há lógica nisso. O contrário é verdadeiro.

TRThéo Ropresti

É verdade que se o homem fica uns dias em abstinência, o volume do esperma pode até ser maior, mas isso não deixa ele "melhor", entre aspas. Passados alguns dias, os espermatozoides antigos morrem.

AHAlexandre Hall

Quando a gente pega pra fazer um espermograma, a gente pede pra o espermograma ser feito com jejum sexual de 2 a 5 dias, porque Passou mais de 5 dias, tem um monte de espermatozoide morto. Então fazer com que isso circule é mais fisiológico. Então o homem ter ejaculações, seja por masturbação ou seja por relação sexual, é muito mais sensato do que achar que o cara tem que ficar 30 dias sem ejacular para produzir mais testosterona. Não há plausibilidade biológica para essa informação.

TRThéo Ropresti

Tem um estudo muito pequeno de 2003 mostrando que 7 dias sem ejaculação fazem a testosterona atingir um pico. Essa pesquisa é usada por aí pra justificar a retenção seminal, mas ela foi retratada, ela foi tirada do ar, então simplesmente não vale nada. Fora que o pico de testosterona só durava um dia. Nenhum outro estudo maior confirmou essa conclusão ou os benefícios de não ejacular. Na verdade, ser sexualmente ativo melhora aquele sistema de feedback que o Alexandre Hall comentou.

O sexo saudável inclusive ajuda a diminuir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, ligado à queda nos níveis de testosterona.

MRMaggie Rodrigues

E ninguém aqui tá falando que os homens precisam bater ponto em site pornô. A masturbação em excesso pode ser um problema psicológico que gera sofrimento. E isso sem falar que existe um um universo de exploração sexual ligado à pornografia que merece atenção mesmo. Mas isso não significa que a masturbação, ou fazer sexo frequentemente, vai te deixar fraco, menos homem ou menos saudável. O conceito de vida sexual saudável é subjetivo.

Não existe um padrão ideal pra todo mundo. Mas gozar é algo tão natural e fisiológico que o corpo chega a fazer isso por conta própria em certas situações. E isso é até um aspecto meio cruel desse discurso, então vale o aposto. Nos comentários de vídeos que pregam a retenção seminal, tem homem que se lamenta por ter falhado, porque teve uma poluição noturna, que é quando rola uma ejaculação durante o sono sem nenhum estímulo físico.

AHAlexandre Hall

Adivinha o que é aquilo ali? Corpo dizendo que ele precisava. Pra quem é médico, já trabalhou em UTI, bota numa UTI, pega um adulto jovem que teve um acidente e tá em coma, entubado. Quando vai fazer o exame de urina dele, sabe o que às vezes tem no exame de urina dele? Que ele tá com uma sonda?

LBLuciane Belin

Espermatozoide!

AHAlexandre Hall

Que ele tá produzindo! E tá tudo bem, é normal! É um ser humano adulto, jovem, produzindo algo que é normal.

TRThéo Ropresti

Se você achou que retenção seminal era o fim dos tempos, Quer te dizer que a gente deixou o melhor ou o mais esquisito para o final. Nos últimos meses tem pipocado conteúdos nas redes sociais defendendo tomar sol nos testículos para aumentar a testosterona.

?Voz D

E o primeiro hábito que eu quero que você comece a fazer para ter uma vida lendária é colocar o testículo no sol. Galera, quer ter mais energia, quer ter mais mil de testo de forma natural e não quer colocar o testículo no sol? No sol, não vai dar certo. Coloca meio-dia, 10 a 20 minutos por dia, o testículo no sol. Sim, abre as pernas aí, baixa as calças, mira o teu testículo diante da luz solar.

TRThéo Ropresti

Até o Alexandre Hall, que é um dos caras que mais manja de testosterona do país, fica pistola com essa história.

AHAlexandre Hall

Porque chega a ser patético, inclusive é de uma atrocidade avassaladora. Vai queimar o saco e não vai aumentar a produção de testosterona. Então ali não tem ciência nenhuma. Ali tem um desconhecimento completo. Não tem nada que justifique um homem expor a sua genitália, pegar sol achando que vai produzir testosterona.

TRThéo Ropresti

A testosterona é formada nos testículos e nas glândulas suprarrenais, que ficam perto dos rins. E isso por meio de uma série de reações químicas. Até tem estudo associando níveis baixos de vitamina D, uma substância que é produzida quando o corpo se expõe ao sol, à deficiência de testosterona. Mas não tem pesquisa séria mostrando que tomar sol, especialmente nas bolas, faça os níveis de testosterona subirem. O máximo que você vai conseguir com isso é uma queimadura na pele mesmo.

E ainda atrapalhar o seu testículo, porque ele precisa estar em temperaturas mais baixas que as do resto do corpo pra funcionar certinho.

MRMaggie Rodrigues

Gente, acima disso tudo, Acho que a principal questão é: será que você precisa mesmo aumentar sua testosterona? Por que esses caras vivem se gabando dos exames deles de terem mais de 1000 de testo?

?Voz F

Quanto mais testosterona não é melhor, não é quanto mais melhor.

AHAlexandre Hall

Quanto mais glicose é melhor? Não. Quanto mais hormônio de tireoide é melhor? Não. A minha especialidade médica, ela se traduz por uma única palavra: equilíbrio. O equilíbrio sempre é melhor.

MRMaggie Rodrigues

Mais testosterona não quer dizer mais virilidade, nem mais saúde. Aliás, em teoria, nem se deveria sair fazendo exame de testosterona de forma indiscriminada. O Alexandre Hall reforçou muito que esses testes só devem ser pedidos quando há sintomas sugestivos, tanto de déficit quanto de excesso. Durante a apuração, ele mandou 3 vezes essa mensagem no WhatsApp: "Quero ressaltar: dosar testosterona total não é exame de check-up." Fora que dificilmente a pessoa atinge um nível muito elevado de testosterona naturalmente.

O Alexandre Hall falou que o uso de anabolizantes é, de longe, a causa mais frequente de testosterona acima do limite superior valor de normalidade em homens adultos, que é cerca de 800 nanogramas por decilitro, embora isso varie conforme o método de dosagem. Pois é, embora alguns dos influenciadores bombados jurem nunca ter usado anabolizantes, eles são o caminho mais comum para explodir a concentração de testosterona no corpo.

A gente já falou dos perigos disso no episódio "A Nova Cara dos Anabolizantes", o começo do ano passado, mas vale reforçar: o uso de derivados sintéticos de testosterona, ou seja, bomba, sem uma indicação médica para repor deficiências tem uma porrada de efeitos colaterais. Acne, queda de cabelo, crescimento das mamas, atrofia dos testículos, infertilidade, alterações de pressão, lesões no fígado, problemas no coração, câncer. A lista é longa.

AHAlexandre Hall

Então hormônios derivados de testosterona em excesso matam. O risco é simples, simples. Quando a gente vai para o estudo do JAMA que comparou usuários e não usuários de anabolizantes ano passado, qual foi o risco? 3 vezes maior de morte. Acabou.

MRMaggie Rodrigues

Então testosterona alta, ainda mais artificialmente, não te faz mais homem, e sim provavelmente mais doente.

TRThéo Ropresti

Depois de uma hora escutando sobre a machosfera, você já deve ter se ligado que ela é um mercado para homens em crise, com soluções falsas sob demanda para os mais diversos problemas. Apesar dos conceitos que eles promovem serem distorcidos, essas regras e ações que fisgam o público masculino são muitas vezes bem bem simples.

MDMarie de Clercq

Olha o que a Marie de Clercq falou pra gente: "Mas no final de contas, quando você vai analisar o discurso mais básico red pill, o que esses caras estão vendendo de desenvolvimento pessoal é uma coisa muito simples: tome banho, use umas roupas melhores, vamos escovar os dentes, vamos passar fio dental, pô, corta o cabelo de um jeito que fica bom pra você." Tá louco, né?

TRThéo Ropresti

A masculinidade realmente tá em crise quando você precisa de influenciador pra te convencer a tomar banho e escovar os dentes. Embora realmente não dê pra subestimar o problema crônico da falta de higiene masculina. Mas antes de ficar só nisso, o problema, segundo a Marie, é que essa primeira abordagem acaba funcionando como um cavalo de Troia pra uma série de trambiques, que nem alguns que a gente trouxe aqui já. As ideias e discursos desses grupos, que antes ficavam restritas a submundos da internet habitados principalmente por homens homens introvertidos ou com pouca convivência social foram inundando o mainstream, a mídia.

Termos como red pill, alfa, beta foram se popularizando. Talvez porque a gente viva cada vez mais isolado, mais sozinho, acompanhado só de telas pra todo lado. Chegou ao ponto de galã de novela da Globo começar a vender curso pra ensinar como o homem deve ser, como tem que se comportar. E é sempre naquela pegada preocupante, com os dois pés no que há de pior da cultura patriarcal. Só que tem coisa que não se compra, só se aprende mesmo.

MRMaggie Rodrigues

A Camilla Brandalisi, repórter do Universal Wall, que não sabe, mas foi uma espécie de guia informal desse episódio, fez um vídeo sugerindo uma liçãozinha básica pra ensinar em curso de aprender a ser homem. Lição 1: Por que homem não pode bater em mulher. Parece simples, né? É esse tipo de aprendizado que é passado a autores de violências em grupos reflexivos a homens enquadrados na Lei Maria da Penha. A mesma que tá sendo atacada por influenciadores da machosfera e por um documentário da Brasil Paralelo.

E os grupos reflexivos parecem ajudar, tá? Em 2020, um documentário do UOL acompanhou um deles em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e verificou que os índices de reincidência de agressões caíram bastante, de 60% para 6% só. O problema é que esse tipo de solução, prevenção, baseada em política pública e evidências, não vende curso, não dá dinheiro e não rende voto. Enquanto os homens brincam aí de reaprender o que é ser um homem do Velho Testamento, os feminicídios, os ataques à autonomia feminina e aos nossos direitos reprodutivos só aumentam.

A obsessão da extrema-direita com esse assunto, que a gente apresentou no último episódio sobre os chamados métodos naturais, chegou ao ponto de anular no Senado uma resolução que tratava de aborto legal para menores de idade que foram vítimas de violência sexual. É inacreditável.

TRThéo Ropresti

Pra terminar, vale dizer o óbvio de novo: homens, não é em fórum conspiracionista que a gente vai conquistar saúde, bem-estar ou aprender a se relacionar com as mulheres. Isso, aliás, começa com respeito. Se a masculinidade tá em crise, é porque insiste nessas ideias opressoras de sempre. Mulher nenhuma vai aceitar mais isso, vacilão. Se informa, procura um médico, um psicólogo, um profissional de saúde pra tentar entender de onde vem o que tá te incomodando.

Tá tudo bem ser vulnerável, chorar, falar sobre o que te aflige. Mais terapia e menos testosterona. Até porque continuar consumindo a machosfera pode te levar pra cadeia ou pro cemitério. Nós procuramos o YouTube e o influenciador Roberto Brandini, mas não tivemos retorno até o dia 22 de junho. E agora vem a nossa tradicional indicação da Rádio Guarda-Chuva, o coletivo de podcasts jornalísticos que a gente faz parte com muito orgulho.

E eu queria falar não de um, mas de dois episódios da Rádio Escafandro que todo mundo precisa ouvir. Um é o Comedores de Amianto, que conta como uma fiscal de trabalho meio entediada virou uma das grandes responsáveis pela proibição de amianto no país. E amianto é aquele hipotóxico que tinha em telhas antigas, tá, gente? O outro episódio é sobre os bastidores da Vaza Flávio, com a turma do Intercept. Escuta lá.

MRMaggie Rodrigues

Esse episódio do Ciência Suja foi apresentado por mim, Maggie Rodrigues.

TRThéo Ropresti

E por mim, Théo Ropresti.

MRMaggie Rodrigues

Apuração, produção e roteirização são do Pedro Belo e da Cloé Pinheiro. As vozes complementares do episódio são do Pedro Belo, A gravação das nossas vozes foi feita no Estúdio Tiranosom.

TRThéo Ropresti

A edição do texto foi feita por mim, com apoio de toda a equipe. A edição de som e a mixagem são do Caio Santos, da Griopo Podcast. As trilhas originais e a masterização são do Felipe Barbosa. Nesse episódio você ouviu áudios do filme Matrix e de vídeos do YouTube e do Instagram.

MRMaggie Rodrigues

A Mayla Tanferry e o Guilherme Henrique fizeram a arte de capa e o nosso projeto gráfico.

TRThéo Ropresti

O nosso site foi desenvolvido pelo Estúdio Barbatana. Lá você tem mais informações sobre como consegue ajudar a gente a seguir com Ciência Suja e os bônus que recebe ao participar do financiamento coletivo. É o www.cienciasuja.com.br.

MRMaggie Rodrigues

Você encontra mais informações nas nossas redes sociais, que são tocadas pelo Pedro Belo. O Ciência Suja está no Instagram, Facebook, TikTok, Twitter e Blue sky.

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