Episódios de Ciência Suja

MESACAST - Super El Niño: um fenômeno de desinformação?

11 de junho de 202659min
0:00 / 59:23

Este episódio tem versão em vídeo disponível no nosso YouTube e no tocador Spotify.

Notícias sensacionalistas sobre o El Niño deste ano vêm ocupando as manchetes. Mas de onde elas surgem? Quais as consequências disso para o manejo das mudanças climáticas e para o de desastres influenciados por esse fenômeno? A ciência perde confiança quando adota um tom exagerado, e pouco embasado em dados?

Os pesquisadores Pedro Ivo Camarinha (Cemaden) e Tércio Ambrizzi (IEE/USP) respondem essas perguntas e explicam o que realmente sabemos sobre o El Niño, e o que é especulação.

O Ciência Suja tem apoio do Instituto Serrapilheira, que promove a ciência e a divulgação científica no Brasil. 

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Participantes neste episódio3
C

Colé Pinheiro

HostProdutora e roteirista
P

Pedro Ivo Camarinha

ConvidadoEspecialista em mudanças climáticas e desastres
T

Tércio Ambrizzi

ConvidadoProfessor
Assuntos8
  • Impactos do El Niño no BrasilSecas e ondas de calor na Amazônia e Nordeste · Aumento das chuvas extremas no Sul do Brasil · Relação com desastres recentes no Rio Grande do Sul · Seca extrema na Amazônia e morte de botos
  • Deepfakes e DesinformaçãoSensacionalismo na mídia sobre El Niño · Diferença entre informar e comunicar riscos · Pânico e paralisia causados por informações excessivas · Papel da ciência na tomada de decisão
  • Previsão climática El NiñoEl Niño como 'gasolina no fogo' do aquecimento global · Aumento da frequência e intensidade dos El Niños · Oceanos absorvendo calor extra da atmosfera · Transição climática
  • Adaptação e Prevenção de Desastres ClimáticosRedução da vulnerabilidade urbana e de moradias · Medidas de contenção e dragagem de rios · Deslocamento de comunidades em áreas de risco · Planos de contingência e treinamento · Importância da educação climática desde a base
  • Politicas PublicasCiência sendo ouvida na elaboração de políticas públicas · Barreiras políticas e ideológicas na aceitação da ciência climática · Geopolítica e negacionismo climático · Desastres socioambientais vs. desastres naturais
  • Mudancas ClimaticasDesmantelamento de agências de monitoramento climático (NOAA) · Corte de dados de satélite e financiamentos · Remoção do termo 'mudanças climáticas' de relatórios governamentais · Impacto na previsão climática global
  • Fenômeno El NiñoFenômeno climático no Oceano Pacífico · Aquecimento das águas superficiais · Impacto na circulação atmosférica global · Histórico do fenômeno
  • La Niña vs. El NiñoLa Niña como resfriamento anômalo das águas do Pacífico · Efeitos opostos no clima do Brasil
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Colé Pinheiro:O Ciência Suja tem o selo da Rádio Guarda-Chuva.

Voz B:Jornalismo para quem gosta de ouvir.

Colé Pinheiro:Sejam bem-vindos, tá começando mais um MesaCast do Ciência Suja. Eu sou a Colé Pinheiro, sou produtora e roteirista do podcast. Hoje tô aqui fazendo às vezes de apresentadora pela segunda vez seguida. Na próxima eu já vou poder pedir música ou um pouquinho do salário astronômico do Theo e da Maggie. Tô brincando, viu, gente? Bom, hoje a gente tá aqui para falar de El Niño, ou do Super El Niño, como o pessoal tá falando por aí. Para começar, a gente vai tocar uma fala agora do início de junho do secretário-geral da ONU, o António Guterres. Ele falou sobre o assunto.

Voz B:A ciência é clara: El Niño está batendo na nossa porta e chegando nos próximos meses com 90% de certeza.

Pedro Ivo Camarinha:O mundo deve tratar isso como um aviso climático urgente que é. As condições do El Niño serão como gasolina no fogo de um mundo em aquecimento.

Voz B:Warming world.

Colé Pinheiro:Bom, então tá aí ele dizendo que a gente tem quase certeza ou muita certeza de que a gente vai ter um El Niño. Para quem não sabe, é um fenômeno climático que acontece numa região específica do Oceano Pacífico e que tem repercussões no clima do mundo inteiro, inclusive no Brasil. Ele também falou que isso é um problemão no nosso cenário atual das mudanças climáticas. Relatórios recentes de centros importantes como o NOAA nos Estados Unidos confirmam isso. O centro que avalia as condições dos oceanos e do clima diz que há 82% de chances de que o El Niño comece ainda em junho e 96% de certeza de que ele se estenda entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Já a Organização Meteorológica Mundial, órgão da ONU, emitiu um alerta confirmando e dizendo que o mundo deve mesmo se preparar pro El Niño e esperar temperaturas mais altas pra quase todo o planeta entre junho e agosto. Eles também falam que a temperatura das águas dessa região do Pacífico podem ficar até 6 graus mais quentes. Mas bom, por que que a gente tá falando disso aqui no Ciência Suja? Primeiro porque a gente acha que essa é uma ótima oportunidade da gente explicar um pouco sobre a ciência do clima e como ela é construída. E segundo porque esse assunto acabou saindo de uma forma meio distorcida na mídia, até um pouco sensacionalista, dizendo que a gente ia ter um super El Niño devastador com consequências terríveis. Isso bem antes da ciência poder fazer qualquer afirmação desse tipo sobre o assunto. Então, enfim, a gente acha que isso pode trazer umas lições pra gente sobre como Comunica a ciência em tempos apocalípticos. Mas, afinal, o que a gente sabe mesmo sobre o EONINHO? O que pode acontecer no Brasil? A gente está mesmo perdido? Para responder essas perguntas, a gente está aqui com dois convidados que manjam muito do assunto. A gente está aqui com Pedro Ivo Camarinha, ele é especialista em mudanças climáticas e desastres, diretor substituto do SEMADEM, o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. Oi Pedro, bem-vindo.

Pedro Ivo Camarinha:Olá, muito obrigado pelo convite, satisfação enorme estar aqui.

Colé Pinheiro:E a gente está também com o professor Tércio Ambrizzi, ele é diretor do Instituto de Energia e Ambiente, o IEE, da USP. Oi professor.

Voz B:Olá, tudo bem? Muito obrigado pelo convite.

Colé Pinheiro:Bom gente, como eu avisei para vocês, essa aqui é uma conversa livre, então eu vou direcionar perguntas para cada um, mas fiquem à vontade para se complementar, já fiquei sabendo que os dois se conhecem, então A ideia é fazer uma conversa bem fluida mesmo. Para introduzir o assunto para os nossos ouvintes que não conhecem muito sobre clima e mudanças climáticas, vamos começar com o Tércio explicando para a gente o que é o El Niño e como ele se forma.

Voz B:Muito bom, muito bom mesmo. Excelente o fato de termos, podermos discutir isso. Eu acho que a população, a sociedade tem que estar realmente preparada para esse tipo de fenômeno. Na verdade, El Niño não é Apesar de El Niño significar o menino, ele não é tão novo, né? Ele já é conhecido há um bom tempo, né? Desde 1500, né? Ali na região equatorial já se sabe que as águas ali de tempos em tempos acabavam aquecendo, né? E ali na região, como tem um— flui águas muito mais frias trazendo muitos nutrientes, tem muito peixe. Então os pescadores viam que de vez em quando os peixes sumiam. Mas subiam por quê? Porque as águas ficavam mais quentes e eles iam para outras regiões. Você tinha menos aporte de plankton e alimento de peixes que caía ali. E portanto isso está descrito em livros de história e tudo mais. Hoje, obviamente, com a ciência da paleoclimatologia, que estuda o clima do passado, você tem conhecimento de que isso já existia há muito mais tempo inclusive. Mas o que é esse aquecimento dessas águas? Na verdade, É uma água do Pacífico, da região central e Pacífico Leste, ali na costa da América do Sul, né, que de tempos em tempos, e esse tempos em tempos costumava ser uma frequência de 5 a 7 anos, acabava aquecendo, né, toda ali a parte superficial do oceano, né. Ao aquecer, na verdade, você gera nuvens na atmosfera, né, porque você tá, evapora, e essas nuvens acabam perturbando a atmosfera gerando ondas, né, nós temos ondas também na atmosfera, como se fosse numa grande piscina, quando você se joga você vê que formam ondas que vão para as bordas, e aí essas ondas acabam levando, carregando energia e modificando a circulação atmosférica em diferentes regiões do planeta, particularmente aqui na América do Sul e também no Brasil.

Colé Pinheiro:Acho que a gente pode entrar um pouco mais nessas consequências agora com o Pedro. Então, o que que a gente espera? Eu até tava lendo o material que você mandou, que parece que o El Niño é— como é que é o termo que você usou? Não é o fogo, é um negócio que fica ali dando o insumo para o fogo.

Pedro Ivo Camarinha:Isso. Antes de falar dos efeitos, portanto, né, gostaria de fazer essa analogia que vai ser difícil para os colegas que estão acompanhando aí por áudio, mas todo mundo usar um pouco a imaginação, acho que isso facilita bastante, né? Aqui no estúdio a gente tem uma mesa bem grande, então vamos imaginar que em cima dessa mesa a gente coloque um monte de elementos, ingredientes, vamos assim dizer, que podem eventualmente pegar fogo, né? Eles estão espalhados aqui por cima dessa mesa. Eventualmente, se eu risco um fósforo aqui de um lado, né, e esse fósforo encontra um desses ingredientes, ele pode pegar fogo e ir passando, né, pros elementos que estão ali próximos a ele. E de certa maneira, essa trilha de fogo, ela vai alcançar o meio da mesa, ficar só no começo, e uma hora ou outra ela pode chegar lá do outro lado. Se chega lá do outro lado, a gente pode dizer que é um evento mais raro. Não vão ser todas as vezes que eu riscar o fósforo de um lado que ela vai encontrar esses ingredientes que vão estar conectados pra chegar do outro. Quando chega do outro lado, a gente pode dizer que seria um evento extremo, né, um evento raro. Então, vamos pensar que essa mesa aqui é o plano de fundo da atmosfera, né, e esses ingredientes são aqui umidade, são a divergência em altos níveis que a gente vai falar, são elementos que favorecem alguns eventos extremos, pra facilitar aqui vou falar da chuva. E esse fósforo aqui seria um gatilho meteorológico, um processo que acontece numa escala de tempo pequenininha, que se tivermos esses elementos muito bem organizados, ele pode favorecer, portanto, a ocorrência de eventos extremos. Onde que entra o El Niño nessa história? O El Niño seria um elemento que coloca mais ingredientes em cima dessa mesa e ele vem e rearranja, ele facilita com que esses ingredientes estejam mais disponíveis, facilitando com que assim que um processo meteorológico acontece numa escala local, ele possa, portanto, se tornar um evento extremo com mais facilidade. Ou seja, ele aumenta a propensão desses eventos extremos. E aí, as mudanças climáticas estão onde, né, nessa analogia? Elas estariam debaixo da mesa, seria uma serpentina que tivesse aquecendo essa mesa como um todo.

Colé Pinheiro:Serpentine, né, isso é a palavra que eu tava pensando.

Pedro Ivo Camarinha:Isso, que facilita, né, seja em anos de El Niño ou não, né, que essa combustão aconteça e, portanto, esses eventos extremos aconteçam mais facilmente. Então essa analogia é interessante pra gente entender que o El Niño ele propicia, né, sejam as chuvas lá no sul do Brasil, sejam as secas, né, as ondas de calor na porção central e na Amazônia aqui do Brasil. Então, já tô respondendo parte dessas perguntas. Como o Tércio bem disse, né, esse ar que sobe lá no Pacífico, ele tem que descer em algum lugar, normalmente na porção central do Brasil, na Amazônia, às vezes no Nordeste. Essa descida, né, ela causa ali um fenômeno que tem um nome complicado, que seria ali aquecimento adiabático. Porque se ele tá descendo, ele vai sofrer uma compressão, porque a pressão lá embaixo do ar é maior do que nas camadas lá de cima. Então, se ele sofre essa compressão, ele vai aquecer e vai aquecer o entorno. Então a gente tem dois processos acontecendo ao mesmo tempo: ele descendo dificulta a formação de chuvas e tá aquecendo a superfície. Então essa descida nessas regiões facilitam as secas e o aumento da temperatura. Se tem a dificuldade de aumento de nuvens, né, de formação de nuvens, a radiação solar também vai aumentar. Então é um processo que meio que se retroalimenta nessas regiões e por isso que é perigoso, que quanto mais forte for esse El Niño, maior tende a ser esse processo aqui descrito, né, no caso das regiões centrais, da Amazônia e do Nordeste, para favorecer secas e ondas de calor. E lá no Sul é um pouco diferente, ele causa um outro processo que seria uma intensificação dos chamados jatos de altos níveis, né, que são uns ventos muito fortes que acontecem, que existem, né, na atmosfera. E onde que entra esses jatos para favorecer chuva no Sul do Brasil, né? Esses jatos, eles servem como uma perturbação na alta atmosfera que vai facilitar com que o ar lá embaixo possa subir, ele possa ascender. Porque para ter chuva normalmente a gente precisa de umidade, né, de disponibilidade de umidade, de calor, né, e dessa divergência nos níveis da atmosfera para facilitar com que ele suba. Então se esse, esses jatos de altos níveis estão intensificados, a gente tem a divergência. Não é uma época do ano como, né, setembro, outubro, novembro, já tem favorecimento ali de umidade, calor. Inclusive a El Niño também favorece nos baixos níveis mais umidade e calor vindo da Amazônia. Então ele vai favorecer lá no sul umidade, calor e essa divergência nos diferentes níveis propiciando chuva. Por isso que a gente diz que no sul é o sinal mais claro é de aumento das chuvas, sobretudo extremas, no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, né? Então do efeito, ponto de vista climático, são esses. E aí durante, né, que a nossa conversa, a gente pode falar sobre isso caracteriza desastre, não caracteriza, o que que depende. Assim como eu disse que aquele evento extremo aqui na mesa pode acontecer, a pergunta que fica é Lá do outro lado da mesa, se eu tiver um dinheiro em cima dessa mesa, uma poça de álcool ali em volta, né, esse dinheiro sempre vai pegar fogo? Se for nota, sim. Se for moeda, não. Né, então existem diferentes contextos, né, de quantos elementos estão expostos e quão vulneráveis eles são, que estes sim vão ser responsáveis por a gente dizer se um evento extremo vai se converter realmente em impacto ou não. E aí a gente pode discutir ao longo aqui da nossa conversa.

Colé Pinheiro:Sim, acho que numa segunda etapa a gente vai entrar nessa nessa parte da conversa, mas queria pegar esse gancho das mudanças climáticas e do Rio Grande do Sul, né? A gente, o último El Niño foi 2023, 2024, coincidiu com o período lá das chuvas extremas no sul. Teve alguma relação com isso? E também pegando, retomando uma fala sua do começo, você falou antes, a gente tinha de 5 a 6 anos de intervalo. As mudanças climáticas estão afetando o El Niño também?

Voz B:Bom, como o Pedro bem disse, né, na verdade, quando a gente fala em mudanças climáticas, na verdade nós estamos falando em aquecimento da atmosfera, né? O que está aumentando é a temperatura média do nosso planeta em função da emissão dos gases de efeito estufa, e com isso, né, essa temperatura tem modificado a circulação atmosférica e, portanto, tem uma propensão de modificar o clima, né? Então, na verdade, nós não estamos exatamente em uma mudança climática, nós estamos numa transição climática, porque se nós efetivamente não pararmos as emissões, simplesmente, né, nós vamos continuar, né, aquecendo e portanto continuar mudando o clima, né, até ele se estabilizar. Bom, dito isso, na verdade, o que que esse aumento de temperatura na atmosfera tem feito? Ela, os oceanos têm absorvido isso, né, assim como a ideia da serpentina é muito apropriada porque os oceanos absorvem esse calor extra da atmosfera e aquecem. E o El Niño, né, do ponto de vista oceânico, a tendência dele é um aquecimento da temperatura da superfície do mar. Portanto, você tem dois fatores agindo ao mesmo tempo. E o que nós temos notado, e se você olha o número de El Niños ao longo dessas últimas décadas, eles têm ficado muito mais frequentes. Então hoje a gente teve um em 23, 24, estamos tendo um agora em 26. Para 27. Então a frequência tem ficado muito mais intensa, né, assim como a intensidade deles. Você tem aumentado a frequência e aumentado a intensidade desses El Niños, né. Cada vez mais eles têm se tornado mais intensos. Mas isso provavelmente tem uma ligação muito próxima pelo fato de os oceanos já estarem muito mais quentes do que normalmente estão. Então esse é um dos fatores que pode estar, que vai ocorrer, né, de qualquer forma.

Colé Pinheiro:E no caso do Rio Grande do Sul, tinha essa relação? Não, tudo bem, fui eu que acabei fazendo duas perguntas muito óbvias.

Voz B:Não, não, tem razão. O do Rio Grande do Sul é interessante. Veja, o El Niño, na verdade, ele começa, né, e o de 23, 24, ele começou em 23, em maio, junho, ele vai se intensificando, né, até atingir o pico entre dezembro e janeiro. Aliás, o nome El Niño, dado pelos pescadores muito tempo atrás, é em função do aquecimento ocorrer e os peixes fugirem na época do Natal. Então El Niño está relacionado ao próprio Menino Jesus. Então, na verdade, ele tem esse aquecimento, tem o pico dezembro, janeiro, e começa a decair entre fevereiro e março. O de 94, ele ainda tinha uma certa intensidade para abril, maio, né, que foi quando nós tivemos aquelas chuvas intensificadas praticamente no mês inteiro, né. E com isso, né, o El Niño assim, ele também acabou contribuindo, como Pedro descreveu, trazendo um pouco de umidade. Já não era o pico, mas ainda tinha umidade. E aí, com a bolha térmica que ficou em cima da parte central sudeste do Brasil, né, contribuiu para trazer a umidade que vinha da Amazônia e, ao mesmo tempo, as frentes frias, elas têm uma regularidade, estão sempre chegando a cada 4, 5 dias, às vezes até um pouquinho mais, pouquinho menos, elas estão chegando. E aí, como elas não conseguiam passar por essa barreira térmica, né, de temperatura mais alta, elas acabavam quase estacionando ali no norte do Rio Grande do Sul e desviando. Então, portanto, você tinha umidade, né, você tinha a própria temperatura vindo da parte da Amazônia e um contraste de umidade e ar frio também chegando ali na região. Juntou tudo, regiões em que tivemos 700, né, 800 milímetros de chuva em algumas cidades do Rio Grande do Sul. E aí foi aquilo, né?

Pedro Ivo Camarinha:Não, perfeito. Até esse é um comentário adicional assim, a gente pode dizer que no grande desastre de abril, maio, né, do Rio Grande do Sul, o El Niño tava mais enfraquecido. Então ele seria um elemento adjacente assim para explicar o que nós vimos lá. Ele não foi o principal elemento, mas com certeza teve essa influência. Mas temos que lembrar que esse grande desastre acabou ofuscando outros dois desastres que aconteceram no Rio Grande do Sul em 2023. A gente teve em setembro e novembro na Serra Gaúcha, teve municípios inclusive que foram impactados nos três casos: setembro, novembro de 2023 e depois 2024. E ali sim, nesse período, né, de setembro a novembro, certamente o El Niño teve uma influência maior nesses casos, porque como o Tércio disse, ele estava se intensificando e tava com níveis maiores, né. Então se nós olhássemos as previsões naquela época, né, e os dados de reanálise para ver jatos que eu mencionei, né, como tava assim, influência tava muito mais bem configurada nos desastres anteriores. Então a mensagem que fica, né, é que o El Niño não é sinônimo desses eventos extremos e de desastre, não é uma sentença, né. Inclusive cada El Niño é diferente, se a gente for pegar a assinatura deles, a gente vai ver que todos esses mais fortes, né, eles têm características específicas porque eles não atuam sozinhos. A temperatura do Atlântico Sul, do Atlântico Norte, de como estão configurados sistemas de duração mais curta, né, tudo isso influenciar para que aquele evento extremo ocorra ou não ocorra. Então, certamente a gente sabe que teve influência em alguns desastres recentes, mas é bom ponderar que, um, esses eventos extremos acontecem com ou sem El Niño, né, e mesmo em situações de El Niño forte, né, eles podem ser mais pontuais, podem ser mais abrangentes, e isso a gente não consegue por enquanto detectar. A gente tem um sinal mais macro, né, como já foi descrito, mas essas particularidades de eventos individuais É muito difícil da gente conseguir prever com tanta antecedência.

Colé Pinheiro:E acho que cabe resgatar a coisa da analogia que você fez. O El Niño pode ser mais um fator ali em cima da mesa, mas embaixo da mesa a gente já tem essa serpentina facilitando a ocorrência desses eventos com ou sem o El Niño, né, como você falou.

Pedro Ivo Camarinha:Perfeito. A gente tem casos de anos neutros, né, que não tem influência nem do El Niño nem da La Niña, né, com desastres bastante significativos no Brasil, muito em decorrência também dessa influência das mudanças climáticas, que como a gente disse, né, esse plano de fundo que coloca mais energia, coloca mais calor, torna a atmosfera mais dinâmica. Então se a gente pudesse assim passar uma mensagem, é que o maior problema que nós estamos vivenciando são as mudanças climáticas que estão em curso. O El Niño, ele é agravado por isso, mas toda essa cobrança e discussão que nós estamos tendo para o El Niño, ela precisa ser feita de forma perene por conta das mudanças climáticas. Inclusive em termos de soluções, é muito mais factível que essas soluções estejam sempre sendo pensadas e executadas, porque muitas mas elas não vão ser resolvidas em 2, 3 meses, como é o caso de agora, né, sabendo que o Ninho está por vir.

Colé Pinheiro:Sim, eu acho que foi até uma das coisas que me motivou a vender a pauta aqui pro pessoal do Ciência Suja foi essa mesmo, porque parece quando acontece uma coisa do tipo, vira tudo sobre aquilo como se aquilo fosse um problema passageiro ou solucionável, e quando a coisa maior e mais complexa ali, a gente acaba tirando do foco. Mas a gente vai voltar nessa discussão já já. Deixa eu só confirmar uma coisa com vocês, uma curiosidade minha: aquela seca extrema na Teve alguma, foi mais ou menos nessa época, teve alguma relação que teve aqueles tantos botos que morreram, pessoal ficou sem acesso às coisas, teve relação?

Pedro Ivo Camarinha:Sim, foi exatamente nesse último El Niño, período de El Niño, certamente. Inclusive, certamente não, nós temos estudos de atribuição às mudanças climáticas, né, e relaciona muitas vezes com El Niño, que configuram claramente, né, que em cenários de mudanças climáticas, sobretudo em anos de El Niño, essas secas elas se tornam muito mais propícias, né, a probabilidade aumenta e a intensidade também. E assim, são eventos que aconteceriam a cada 100 anos, podem acontecer a cada 10, 15, né, a chance aumenta muito nessas configurações. E sim, tivemos essa influência do El Niño muito bem configurada nessa última seca recente da Amazônia.

Voz B:Na verdade, os rios ali onde estão os votos estavam com temperaturas de mais de 10 graus acima.

Colé Pinheiro:Teve uns que registraram acima de 40 graus.

Voz B:Exatamente. E aí com isso você mata não só os botos, mas grande parte dos peixes e também da parte mais de flora, né, da água.

Colé Pinheiro:E parece que o rio não se recupera do mesmo jeito depois, né, pai? Não retoma a sua vazão ou tem alguma coisa assim nessa linha?

Voz B:É mais lento, né? Na verdade, você espera que o clima volte à sua normalidade, aí regime de chuvas voltem a ocorrer, né, floresta evaporando, e gerando nuvens e portanto as coisas começam a voltar ao normal. Então é algo mais lento também depois, né?

Pedro Ivo Camarinha:E lembra que o Tércio disse das frequências de El Niño mais rápido? Então esse pêndulo ele tá mais rápido, né? Então significa que em situações mais normais esses rios teriam, né, anos de normalidade e poderiam voltar ali ao seu nível com mais facilidade. O que nós estamos vendo é: eles estavam se recuperando, por exemplo, agora, vamos assim dizer, já vem outro El Niño. Então ele não consegue sempre atingir um nível suficiente pra que, em caso de algo mais extremo, ele esteja preparado, vamos assim dizer, os impactos sejam mitigados. Então esse é o grande problema, né? A gente tem uma frequência muito mais ampla desses eventos. Salvo engano, nos últimos 10 anos a gente teve só um de neutralidade. Todos os outros eram El Niño ou La Niña, né? O que é bem raro. Isso, como o Tércio disse, demorava mais pra acontecer, né? E agora tá realmente, esse pêndulo tá muito mais rápido.

Colé Pinheiro:Eu acho que cabe aproveitar seu gancho para explicar também para nossa audiência a Laninha, o que é a Laninha e qual que é a diferença para o El Niño. Quem se habilita a responder?

Voz B:Quer ir, Pedro?

Pedro Ivo Camarinha:Pode ir. Bom, é justamente o oposto. Enquanto o Tércio descreveu no começo que o El Niño se configura, se caracteriza quando a gente tem aquele aquecimento anômalo das águas do Pacífico, ali principalmente na porção equatorial, a Laninha é o oposto. Então quando você tem um resfriamento daquelas águas. Então se você compara a temperatura de algumas porções, ali do Pacífico, e ela quando está abaixo, é aquilo que configura a Laninha, que é o oposto do El Niño. E os efeitos, de uma maneira geral, é, para não entrarmos em muitas complexidades, eles são o oposto, né? Se de um lado a gente tem ali o favorecimento de chuvas mais extremas e volumosas no sul do Brasil, em anos de Laninha é o oposto, a seca é favorecida naquela, naquela porção sul do Brasil. E por outro lado, se no El Niño nós temos calor e secas na parte central, na Amazônia, às vezes no Nordeste, nós temos mais chuvas nessas regiões. Então ela é justamente o oposto, e o nome é muito feliz nisso, porque Laninha, né, sugere ali, né, um complemento ao que é o El Niño. Então é sempre essa busca atmosférica, como o Tércio disse, ele buscando esse equilíbrio. Em situações extremas, né, configura-se de El Niño, nós chamamos assim, ou de Laninha.

Colé Pinheiro:Antes da gente mudar de assunto, só para confirmar uma coisa que eu esqueci de perguntar: esse último El Niño, 23-24, ele já foi considerado um é mais forte, né, do que a média assim? Eu tava vendo uma coisa que é um dos mais fortes.

Voz B:Era um El Niño forte, sim, né? Como você comparou com o anterior, ele tava ligeiramente mais forte que o anterior. Tem um gráfico que mostra, na verdade, os vários El Niños ao longo dessas últimas décadas. E aí, o que você vê, cada vez mais ele mais intenso.

Pedro Ivo Camarinha:Está entre os 5 maiores aí dos últimos 100 anos, né, que a gente tem um registro É como as curvas de temperatura então, global média, né, que também você vê uma coisa...

Voz B:Tá coincidindo, é, na verdade eu acho que não é nem coincidência, você tá tendo esse aquecimento mais intensificado a partir da década de 70, 80 e a atmosfera como um todo e o oceano estão respondendo a isso.

Colé Pinheiro:Bom, agora que a gente já entendeu um pouco mais sobre o El Niño, a gente vai se aprofundar em outros aspectos dessa discussão. Por volta de março desse ano, algumas postagens nas redes sociais e até matérias começaram a falar que a gente ia ter um El Niño devastador, um El Niño Godzilla, que ia trazer consequências dramáticas para o Brasil. E isso me deixou um pouco incomodada como jornalista, primeiro porque acho que toda chamada sensacionalista deixa a gente com a pulga atrás da orelha, mas mais gente séria que pesquisa o clima também se incomodou um pouco com a cobertura da imprensa naquela época sobre o assunto, justamente porque ninguém tinha muita certeza de que isso ia acontecer. Como eu já falei no começo do episódio. Então agora a gente vai começar a desenrolar um pouco esse novelo. Vou perguntar para vocês dois, de repente pode começar com o Técio, Pedro complementa, como são feitas as projeções de fenômenos climáticos como esse e por que que é tão difícil falar em março que a gente vai ter um super El Niño em junho?

Voz B:Bom, com isso duas coisas, né? Na verdade, a definição da intensidade do El Niño passa pela variação da temperatura da superfície do oceano ali entre o Pacífico Central Oceano Austral e Pacífico Leste ali na costa da América do Sul. E aí você tem graduações, né? Se você tem, bom, para que você tenha efetivamente um El Niño, você espera que por 3 meses, um pouco mais, a temperatura ali na região fique acima de 0,5 grau, né? Então se ficar algum tempo entre 0,5 grau e 1 grau é um El Niño fraco. Se fica entre 1 grau, 1,5 grau, até quase 2, pode ser moderado. Acima de 2, 2,5 até quase 3, forte, e acima disso muito forte. Então existe, na verdade, uma graduação em função do aumento da temperatura da superfície do mar ali, né? E dentro disso, qual que era a sua outra pergunta? Meu Deus, não, é se como que, como que mede, como que mede, e por que que as pessoas, os cientistas e a comunidade comunidade científica tá reticente de dizer que vai ser um El Niño muito forte, né? Não super El Niño, né? Não El Niño Godzilla, mas um El Niño muito forte, né? Porque os modelos numéricos que fazem essas simulações e que te dá uma previsão do clima futuro, eles têm um índice de incerteza acima de 6 meses. Mês. Então você tem entre até 3 meses, eles são relativamente bons. Entre 3 e 6, eles te dão uma boa projeção. Acima disso, eles começam a diminuir, né, a probabilidade de acerto. Então, por que que ninguém tá falando agora? Porque se eu esperar agora no início de julho as simulações que vão até dezembro, né, eu vou ter, eu vou estar dentro desses 6 meses, eu vou ter uma segurança maior de dizer, olha, esse é o ninho que está já sendo configurado. Na verdade, ele já está configurado, né? Ele vai ser muito forte. Aí sim a gente pode começar a falar de um, é um ninho de grande intensidade. Então depende muito das projeções, e essas projeções têm um fator de incerteza. Esses modelos têm um fator de incerteza. Por isso que há indicações observacionais de que ele está se intensificando. A gente tem hoje uma noção muito clara de uma bolha de temperaturas grandes debaixo da superfície do oceano, né, que caminha ali, demora algumas semanas e meses para chegar ali na costa e aquecer todo o oceano ali naquela região. Então ela já está ali, né, muito intensa e chegando ali. Portanto, inclusive a ideia de que, ah, é 90% de chance, não, é 100% de chance que nós vamos ter é um El Niño. A discussão agora é: quão intenso vai ser? Pelo tamanho dessa bolha de água quente que tá chegando, provavelmente não vai ser um El Niño fraco. O moderado já está garantido. Agora, se vai ser forte ou muito forte, aí é algo que temos que esperar um pouquinho. Não sei se o Pedro tem—

Pedro Ivo Camarinha:Não, perfeito. E para complementar assim, também tem uma barreira nesse período de agora, né, sobre alguns eventos individuais que, se eles acontecem, eles facilitam ou dificultam, né, essa formação do El Niño. A gente tava descrevendo muito aqui sobre a temperatura do oceano, mas precisa ter esse acoplamento com a atmosfera. A atmosfera precisa responder, sobretudo mudando essa direção dos ventos alísios, né? Então tem alguns pulsos de vento que vem, né, no sentido oposto, que se eles acontecem, eles servem para acelerar. Eles já são meio que uma consequência, mas esses eventos individuais, eles são sempre muito difíceis de serem previstos. Então tem essa questão também dessa época do ano ser meio traiçoeira para isso. E a partir junho começa, como o Tércio disse, ficar mais fácil. Mas aí tem um outro ponto também que eu queria colocar, porque assim, existem modelos e modelos, existem instituições mundo afora trabalhando com isso, se a gente pegar os resultados deles é natural que eles sejam distintos e por muitas vezes nós trabalhamos com uma previsão em conjunto, é comum a gente fazer essa previsão em conjunto justamente pra gente saber onde que eles estão convergindo. E aqui entra um fator interessante, né, a NOAA, né, que seria essa agência americana que é uma das autoridades no mundo pra falar sobre a El Niño, não só ela, existem outras, mas ela é uma das referências, né? Ela tem um modelo que era utilizado, um antigo, que é o CFC, né, que é o Climate Forecast. Enfim, esse modelo mais antigo, que ele por muito tempo foi um modelo muito bom, mas nos últimos anos, né, sobretudo por conta dos efeitos da mudança, das mudanças climáticas, ele ainda tinha algumas defasagens. E a NOAA colaborou, né, desenvolveu um outro modelo que é o CSF S, desculpa, o outro era CFS. Esse é o SFS. Esse modelo acabou de ser disponibilizado na sua versão beta. E se a gente compara os dois resultados, a gente vai ver que o modelo antigo, por exemplo, realmente mostra um cenário mais preocupante, acima de 3, 3,5 graus pelo índice O'Neill, que era um índice que a gente usava para seguir aquela métrica ali do Pacífico, como o Tércio diz. Esse novo modelo já é mais brando, tá entre 2,8 É uma diferença de 1 grau quase entre eles. E aqui se a gente muda o indicador que a NOAA está utilizando mais recentemente, que é o RONI, que aí não é um índice absoluto baseado na climatologia, né, ele é um índice relativo sobretudo com as áreas adjacentes, isso muda também. Então tem vários resultados disponíveis, a gente não precisa se aprofundar dentro desses critérios, mas essa atualização do índice é importante porque essa anomalia em relação aos trópicos, né, as áreas adjacentes ali à porção equatorial, é muito importante. Porque se toda aquela convecção que a gente falou no começo ela acontece só numa parte, aquela onda é propagada de um jeito. Se ela acontece de maneira mais generalizada, é outra. E como as mudanças climáticas estão aquecendo os oceanos de uma forma generalizada, os El Niños agora não são exatamente como eram os mais antigos e clássicos. Então, é, tem previsão para todos os gostos. E muitas vezes o pessoal pega o pior resultado e fala muito sobre ele, deixando de lado todo nível de rigor e a evolução que nós temos nos últimos anos é justamente para trazer uma melhor previsibilidade. Então, além dessas dificuldades da tecnologia, né, e das previsões, das análises em si, temos uma grande dificuldade de comunicação, que no meu entendimento é o maior problema que nós estamos passando agora.

Colé Pinheiro:Eu ia entrar exatamente nisso, que é como vocês avaliam essa repercussão, o que que vocês acham de como esse fenômeno está sendo noticiado esse ano? Esse ano e deve ser daqui para frente também, né?

Pedro Ivo Camarinha:Começa você que já começou no Semaden, que é o local onde eu trabalho, Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres. A gente preza muito por algo que é chamado comunicação de risco, é porque a gente tá falando aqui de coisas que não são determinísticas, a gente não sabe exatamente o que vai acontecer. Por não saber, a gente trabalha com probabilidades, impactos, e é daí que surge o termo risco, né? E essa comunicação dos riscos, na sua essência, é diferente de informar. Então, comunicar riscos é diferente informar risco. E comunicar risco pressupõe que você tem uma relação com quem recebe essa informação. Nós normalmente provemos informações para nortear tomadas de decisão de Defesa Civil, do próprio governo, diferentes instâncias. Então essa comunicação é direcionada para esse tipo de público, que existe uma relação entre quem emite e quem recebe. É o que nós estamos vendo, é que diferentes pessoas ou instituições estão fazendo essa comunicação de forma não direcionada. Na verdade, eles estão informando muitas coisas. E aí a grande preocupação A questão é: essa informação disparada dessa maneira, quase que indiscriminada, né, em excesso, ela realmente ajuda? Ela não está direcionando ações, né? Então quando a pessoa recebe, ela fica em pânico, né? Ela não tem um direcionamento. Se essas informações fossem passadas de maneira cuidadosa, trazendo as incertezas e sobretudo direcionando, a conversa seria outra. Mas muitos veículos estão só propagando essas informações, muitas vezes enviesadas por um resultado ou não, e não estão comunicando. Então, é, Nós, no Semaden, temos tentado fazer dessa maneira mais específica, né? Lançamos recentemente uma nota técnica direcionada para a Casa Civil da Presidência da República e para instituições do Governo Federal, trabalhando com cenários particulares, cenário este de um El Niño forte, que hoje em termos de probabilidade é um cenário factível. O muito forte, o Godzilla, não é factível pra gente poder trabalhar. Então a gente fez essa análise com o forte, trazendo os impactos, os riscos associados e direcionando algumas ações que dá pra fazer nesse tempo. Porque a gente tem que lembrar que um país como o nosso, recursos financeiros são escassos, não dá pra fazer, aplicar, investir dinheiro de uma forma indiscriminada, embora a gente saiba que é importante. Os governos não têm, inclusive, recursos muitas vezes disponíveis, e eles têm que se embasar em alguma coisa, e é isso que a gente tenta fazer. Então a crítica é como comunica, pensando sobretudo em quem recebe, que no meu entendimento tem causado muito pânico, sobretudo pras comunidades que recentemente tiveram desastres e não sabem muito o que fazer.

Colé Pinheiro:É, queria compartilhar duas percepções minhas sobre o assunto, assunto, né, com vocês, é que eu acho que a primeira coisa é que tem uma coisa que eu entendo. Quanto mais eu cubro mudanças climáticas, mais eu vejo que às vezes esse tipo de notícia gera nos meus amigos, nas pessoas próximas, uma coisa meio paralisante, que é: meu Deus, o mundo está acabando, estamos todos perdidos, não podemos fazer nada, e cada hora vai ser um desastre novo. Como se a gente tivesse fadado a um destino e não a uma coisa que a gente pode ao menos mitigar, trocar trocar o papel para moeda, brigar pelo fim das emissões dos combustíveis fósseis. Acho que isso gera um efeito meio paralisante nas pessoas. E tem um outro lado que é o que eu queria ver se vocês concordam comigo, que é também se não acontece nada, se a gente não traz uma grande catástrofe, um grande evento extremo, a população também não fica meio: ah, tá vendo, esses caras nunca acertam, não era tão grave assim.

Voz B:Que que vocês Olha, falar um pouquinho antes, Pedro. Eu sou da época em que, quando eu entrei na meteorologia, não vou falar o ano, senão vocês vão descobrir a minha idade, mas quando eu entrei, a meteorologia era uma piada, né? Você fala: ah, não, o cara falou que vai chover. Ah, não, então podemos sair porque não vai chover. Isso mudou radicalmente, né? Hoje previsões de tempo tem um índice de acerto de mais de 90% para 5 dias, né? E podemos até ter previsões de 10 dias com um razoável nível de acerto. Então isso mudou muito em função do quê? Da maior quantidade de dados que hoje são coletados, da evolução dos computadores que fazem essas simulações e as previsões de tempo, e atualmente de clima, de uma forma muito mais certeira. Portanto, mudou essa percepção, né, um pouco daquilo. E eu acho que as pessoas sentiram isso. Hoje eu sinto, eu vejo as pessoas prestando atenção de como que vai ser o fim de semana, frisht, vai ser frio, né? E as TVs, os jornais começaram também a dar mais informações. Falou: olha, essa semana vai ser uma semana fria, né? Ainda temos uma massa de ar fria, temperatura não vai aumentar muito, não vai chover, vai estar seco. E as pessoas hoje têm vivido com mais informações e se baseado nelas até para você sair de manhã com mais blusa, menos blusa, ou um guarda-chuva, o que seja. Então há essa mudança de percepção efetivamente, né, por causa dessa evolução da meteorologia e das previsões. Então acho que isso é uma tendência que tem que continuar e a gente tem cada vez mais reforçar efetivamente que elas podem confiar, né. Quando o Semaden emitir um alerta de que vai chover muito e pode haver deslizamento, eles não estão simplesmente chutando, tem toda uma parte de tecnologia, análise de dados e profissionais que fizeram aquela análise e estão dizendo: olha, Isso efetivamente pode ocorrer.

Pedro Ivo Camarinha:Sim, a gente tá— Brasil não tem um histórico de grandes desastres tão frequentes quanto outros países, por exemplo, que são submetidos a furacões, vulcões, terremotos, né? Então o Japão, por exemplo, tem isso, faz parte da sua história. Então lá se desenvolveu uma cultura do risco, né? As pessoas já sabem mais sobre o assunto, sabem como agir, sabem como se preparar, sabem como cobrar, fazem treinamento, né? E fora as infraestruturas que são preparadas. Aqui isso, querendo ou não, tem se tornado mais preocupante punch recentemente, décadas atrás, se não, né, alguns anos atrás, né. Consequentemente, a população no geral ainda está aprendendo a lidar com isso, né, e claro que as instituições também, e é um processo que é conjunto. Então eu parto do princípio que assim, essa paralisia que você mencionou, né, ela vem muito por conta do medo, e o medo vem muito por conta do não conhecido, do desconhecido, né. Todo mundo tem medo muitas vezes de entrar no mar profundo porque não sabe o que tem lá embaixo, né, é uma fobia comum. Mas quando a gente a gente descobre, aquilo pode ser até apaixonante. Sou mergulhador, né, então eu posso falar que eu tinha esse certo receio, agora nem tanto. Então não é diferente, né, quando a gente começa a entender mais sobre o assunto e esse processo de divulgação científica, tal como vocês fazem, é super importante quanto a isso, esse medo vai deixando de existir. Consequentemente, a paralisia também. As pessoas vão entendendo que existem caminhos que são possíveis para soluções, que sejam eles de mais longo prazo, como a redução dos gases de efeito estufa, mas especialmente essas ações de adaptação, né, que no curto, médio prazo elas São, não vou dizer suficientes para eliminar os impactos possíveis, mas ajuda muito a reduzir isso, né? E sabendo que esses eventos vão ser frequentes e intensos, é importante que eles sejam reduzidos porque muitas vezes a gente não tem tempo para se recuperar de um impacto muito grande. Então o foco precisa ser esse. Então faz parte da comunicação a divulgar sobre o assunto, entendermos sobre o assunto para que a gente encontre realmente caminhos e soluções soluções. Lembrando que as soluções mais efetivas, elas não vêm somente das instituições, dos especialistas. Elas precisam que a população e as comunidades, sobretudo mais atingidas, façam parte desse processo. Portanto, isso é peça fundamental, seja para sairmos da paralisia, mas também que as soluções sejam mais efetivas.

Colé Pinheiro:Pedro, aproveitando, né, o que que deve ser feito do ponto de vista de preparação nesse caso, né? Como a gente, resgatando de novo a sua analogia do dinheiro que pega fogo em papel, mas a moeda não, Então, como a gente faz essa troca? O que a gente precisa fazer pra estar mais preparado pra um El Niño? E se ainda dá tempo de fazer algo pra esse agora que tá chegando?

Pedro Ivo Camarinha:Naquele exemplo que eu dei, né, tinha uma poça ali de álcool que poderia pegar fogo e uns elementos expostos àquilo, né. Mudar o dinheiro ali de papel pra uma moeda, que seria essa mudança de vulnerabilidade, é muito difícil de fazer em poucos meses, porque isso significaria você mudar as infraestruturas das cidades, as características das moradias, né. Então essa vulnerabilidade, no seu sentido uma escala mais ampla é muito difícil no curto prazo. Isso tem que ser algo perene, né, pra gente ir alcançando isso ao longo do tempo, e é isso que vai tornar esses sistemas resilientes, né. Isso é mais difícil de se fazer. Então existem algumas outras medidas que podem ajudar mais. Então naquele exemplo da analogia ali da poça de álcool, se a gente faz um furinho e esse álcool tenta drenar, né, mesmo que o evento extremo chegue ali, não vai pegar fogo. Ou seja, mesmo que chova muito, se algumas encostas estiverem, por exemplo, preservadas, se elas estiverem alguma obra de contenção, ela não vai vir a deslizar, ou seja, não vai inflamar. E mesmo que o elemento esteja exposto, ele não será impactado. Então tem algumas ações, como você intensificar as dragagens dos rios para tirar os sedimentos que foram acumulados, eventualmente fazer obras de contenção ou mecanismos de contenção dessas encostas em áreas que já estão mapeadas. E o Brasil tem muitas áreas mapeadas, especialmente pelo Serviço Geológico do Brasil, que vale aqui frisar, que faz um excelente trabalho nesse sentido. São mecanismos muito bons. E aí eu posso pegar aquele dinheiro no exemplo e colocar ele mais longe, né, daquela poça de álcool. Em algumas situações isso é possível. Então tem regiões que a gente sabe que tem muitas comunidades vivendo nessas áreas de risco. Nos casos mais críticos é possível deslocá-las, né, antecipadamente, ou treiná-las para que em situações de termos mais evidências desses desastres a caminho, que os planos de contingência sejam efetivos, que rotas de fuga estejam estabelecidas, conhecidas, né, que as populações saibam agir e ter para onde ir nesses casos. E ali, né, faltando dias ou horas para um determinado evento, você retira. Provavelmente vão ter inundações, vão ter deslizamentos, mas perdas de vidas serão reduzidas, alguns prejuízos também. Então é esse tipo de comunicação, de planejamento, treinamento, que nessa escala de tempo que nós temos agora é mandatório. E aí, independente de El Niño, La Niña, como a gente disse, por conta das mudanças climáticas, das desigualdades que nossos países têm e como as nossas cidades foram construídas, cobrar sempre que essas medidas de redução de vulnerabilidade, né, que são mais demoradas, elas venham acontecendo ao longo do tempo, pra gente não ter que se preocupar tanto quando um novo El Niño ou La Niña chegarem.

Colé Pinheiro:E como que você avalia que a gente tá nesse sentido?

Pedro Ivo Camarinha:O Brasil avançou muito, né, sobretudo nos últimos 10 anos. Temos um Plano Nacional de Adaptação lançado em 2016, que embora não muito efetivo, trouxe algumas alguns passos. Isso foi endossado sobre o último Plano Clima do Brasil, por exemplo, que é lançado o ano passado na COP, que traz também várias perspectivas e proposições. Vários estados têm se preparado, sobretudo após os últimos grandes desastres, né? Então temos sim algumas ações sendo feitas, sobretudo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, né, o próprio Paraná. Outros estados como São Paulo, por exemplo, anunciou ontem que uma série de medidas para poder prevenir os incêndios que vem acontecendo. Então estamos nos preparando mais, não tenho dúvida que o Brasil está melhorando. Saímos ali do engatinhar para dar os primeiros passos, mas a gente ainda precisa realmente amadurecer muito mais. E a cobrança social nesse sentido é muito importante. Em anos de eleições, fica aí a sugestão para que as pessoas que estejam ouvindo avaliem os seus políticos, né, sobretudo sobre essa ótica, porque aqui nós estamos falando de perdas de vidas, de prejuízos econômicos, de coisas geracionais que realmente podem impactar a vida dessas pessoas hoje no futuro.

Voz B:E a gente sabe que muitas vezes existe o orçamento para prevenção, mas ele acaba não sendo utilizado. E aí, quando ocorre o fenômeno extremo, isso acaba impactando a população. A gente tem que também dizer claramente que uma chuva intensa não causa desastres. Como não? Não, é como que você foi urbanizado aquela região, Então, na verdade, é quase mais culpa nossa de existir o desastre do que da natureza. Se nós tivéssemos prevenido, se aquela população de uma determinada região não estivesse ali onde já sabemos que tem perigo de inundação, perigo de deslizamento, isso poderia ser evitado. Então existem os dois termos: o governo e os tomadores de decisão precisam precisam estar atentos. Eles já colocam hoje orçamento, mas esse orçamento tem que ser utilizado, né? Não adianta segurar, falar: não, mas como não tá chovendo, para que que eu vou usar, fazer isso agora? Vamos jogar para outro lugar. Não, né? Você faz isso agora para prevenir o futuro breve, né?

Colé Pinheiro:Perfeito, Tarcísio, você mencionar isso porque tinha essa pergunta para vocês também. Aliás, eu até notei que você tá falando do Centro de Monitoramento de Desastres e não de desastres naturais. Naturais, né, porque é uma coisa que a gente tem, um conceito que a gente tem mudado nesse sentido, né.

Pedro Ivo Camarinha:É verdade, é o nosso nome do Semadem, ele carrega ainda o N, né, e o Naturais, né, é porque isso quando foi criado em 2011, é, falava-se isso, né, mas hoje não se fala mais, só que mudar esse nome precisa de um decreto ministerial que não é muito fácil, mas é a fala realmente correta hoje é desastres ou desastres socioambientais, né, porque a gente sabe que de natural, como a gente já disse, não temos nada, inclusive E se olharmos pela perspectiva climática, dado a nossa influência por conta das emissões dos gases de efeito estufa, também estamos alterando o clima. Então realmente de natural no sentido assim de algo que é da natureza, né, realmente não tem nada.

Colé Pinheiro:E Terceiro, você acha que a ciência é devidamente ouvida ou tem um papel importante na elaboração dessas políticas públicas sobre o assunto?

Voz B:Hoje mais, né. O próprio Pedro falou dos planos que o governo tem desenvolvido. Muitos deles, eles contêm, são cientistas, são convidados para participar, né, e portanto eles acabam de certa forma contendo o estado da arte para nossa região. É algo muito similar ao que o próprio relatório do IPCC, que é o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, de certa forma faz, né. Ali o IPCC, o relatório deles, ele simplesmente basicamente fazem um resumão, né, da ciência que foi desenvolvida para parte de mudanças climáticas. O que nós temos feito aqui é entender um pouco mais quais são os problemas, né, e como tentar mitigá-los. E aí esses planos que o governo tem feito são importantes nesse sentido. Então acho que hoje os cientistas, eles estão ficando um pouco mais próximos dos tomadores de decisão, e eles estão vendo que eles precisam ter esse conhecimento para poder tomar, né, alguns direcionamentos dentro do próprio governo. Então melhorou, né, ainda tem muito que caminhar, né, ainda existe uma certa barreira. Muitos dos nossos políticos, alguns não acreditam inclusive que o clima possa estar mudando, outros acham que é um alarde muito grande, outros talvez acham que o investimento tem que ser menor. Então ainda existe uma gama de incertezas por parte deles muito grande, enquanto que para nós, né, cientistas, né, da universidade e dos centros especializados, isso é muito claro. Então temos muito que avançar também nesse sentido.

Colé Pinheiro:E sobre isso, ainda na área da política, é que a gente faz uma pergunta Mas é internacional, né, que é sobre o papel dos Estados Unidos nessa história. A gente tem noticiado no último ano, desde que o Trump voltou pro poder, últimos anos na verdade, né. Nossa, já faz tanto tempo que isso aconteceu. Que ele tá desmantelando muita coisa, atacou a NOAA, a agência que a gente mencionou aqui. E eles são responsáveis por boa parte desses sistemas de monitoramento, né, do clima, dos oceanos. Então eu queria entender de você qual que é Qual que é a importância que realmente eles têm? E se essa interferência política ideológica já está sendo sentida de alguma forma na prática pelos cientistas do clima?

Voz B:Bom, espero não perder meu visto, mas realmente—

Colé Pinheiro:O meu já foi reprovado, então estou livre para falar.

Voz B:Ele realmente está desmontando grande parte de centros importantes né, que lidam com clima, que lidam inclusive com poluição e outros nos Estados Unidos, né. E isso vai, vai nos afetar, ainda não está afetando diretamente, vai nos afetar um pouco daqui para frente, porque, por exemplo, ele mandou cancelar dados de satélite para várias regiões. São os dados, eram disponíveis para o mundo inteiro. Hoje ele pediu para, mandou cortar, né. A NOAA ficou sobre ataque, né, despediu um monte de pessoas, né. Os Estados Unidos de certa forma sempre foram uma referência mundial nessa parte de estudos do clima, através de modelos numéricos, através de manutenção de boias. Por exemplo, ali na região do Pacífico, onde tem o El Niño, a gente tem um conjunto de boias oceanográficas e atmosféricas que fazem as medidas. É por isso que a gente consegue saber se tem aquela bolha térmica de água quente chegando ali, porque você tá tendo medidas.

Colé Pinheiro:Eu tava me perguntando como isso acontecia também.

Voz B:Você tem várias boias marítimas ali que fazem medidas em profundidade. Então, sem manutenção, ou se eles tirar o orçamento dessas agências, isso vai desaparecer. É um tiro no pé, na verdade, né? Porque com isso ele simplesmente também vai prejudicar o próprio país, né, já que você pode ter uma previsão debilitada porque você tem menos informações, e com isso afetar os diversos setores da economia americana. Por outro lado, ele também mandou cortar a palavra mudanças climáticas de todos os órgãos, de todos os relatórios que o governo é responsável, né. Inclusive financiamentos não podem ter essa, esse tipo de palavra, né, porque ele tá incentivando o uso de combustíveis fósseis cada vez mais. A economia americana, ela é baseada exatamente no uso de combustíveis fósseis, né. E isso é dentro dessas ações que tem que ser feitas. Eles já estavam caminhando para energias mais renováveis, né, aumento da energia eólica, aumento de energia fotovoltaica, substituição de carvão por gás, GNP, GNV, ou coisa do gênero. Então, ele simplesmente querendo favorecer determinados setores americanos e com interesse na parte mais norte do Polo Norte, ele tem feito isso. Então, infelizmente, isso vai ter causas, porque nós estamos todos juntos no mesmo barco, e se ele não tiver respeitando o corte de emissões e tudo mais, isso vai afetar o mundo inteiro. Então é preocupante, né? O que eu espero é que nesses próximos anos, inclusive para o fim do governo dele, haja uma conscientização maior e que a sociedade americana consiga ver que não é só alarmismo as emissões e o aquecimento. Isso tem afetado eles particularmente, né, de uma forma muito severa, tanto com eventos extremos de frio como de calor ou secas, como eles enfrentado.

Pedro Ivo Camarinha:Inclusive, Copa do Mundo vindo, né, nos Estados Unidos é um dos locais. Já sabemos que as chances de ondas de calor durante inclusive os jogos está aumentando e de níveis bastante preocupantes.

Colé Pinheiro:Então, isso tem a ver com a auréola?

Pedro Ivo Camarinha:Ainda não, né? Assim, o processo de formação ali pode ter um efeito mais adjacente, né, mas tem mais a ver com as mudanças climáticas, como a gente disse. Então, provavelmente a gente vai ver episódios que emergem, fazem esses assuntos emergirem. E só uma colocação para não tomar muito tempo, é quando tudo isso que o Tércio disse, esse posicionamento do presidente Trump nos Estados Unidos, nós estamos falando de geopolítica, na verdade, porque tudo isso afeta economia e posicionamentos estratégicos. Então assim, o negacionismo na verdade é uma ferramenta utilizada jogada para que esse posicionamento geopolítico atual dos Estados Unidos seja endossado, né. Então eu não creio que realmente essas pessoas elas acreditam nisso, porque hoje nós temos evidências aos montes, né, mas utilizam-se disso para poder endossar aquele tipo de posicionamento. Então a gente tá falando de ciência, né, e aqui o papel importante da ciência, justamente como é um elemento que não pode ter esse tipo de viés, justamente para que a gente possa buscar soluções independente de qual seja o posicionamento ideológico político, na verdade.

Colé Pinheiro:Certo, bem colocado. É bom, a gente tá se encaminhando para o nosso final. Queria agradecer vocês já de antemão. Vou fazer uma última pergunta só porque eu acho que é importante a gente discutir tantos conceitos técnicos, questões políticas, tanta coisa que hoje que eu acho que é importante a gente tentar resumir para o nosso ouvinte, para o nosso espectador, é o que que eles precisam saber sobre a Uninho, disso tudo que a gente falou. Se vocês pudessem condensar em uma resposta curta, cada um de vocês, que que vocês diriam? Qual A lição de casa mais importante para levar? Pedro, começa você que já tava falando.

Pedro Ivo Camarinha:El Niño está a caminho, ele ocorrerá. Ainda não sabemos, não sabemos a sua intensidade, mas é factível considerarmos que será um El Niño forte. Portanto, podemos nos preparar para um El Niño forte, tal como nós tivemos, sobretudo ali em 2023, 24. Não exatamente igual, né, mas podemos usar como parâmetro para se preparar. E com o passar dos próximos meses meses com maiores evidências, a gente ajustando o quão preocupante isso será. E portanto é necessário que exista entendimento dessa cadeia de valores de diferentes produtos ao longo do tempo. Nós estamos falando aqui de meses de antecedência, daqui a pouco estaremos falando de um mês, algumas semanas, e eventualmente os alertas que chegarão ali para as pessoas em seus celulares algumas horas de antecedência. Então é entender que não existe uma sentença agora, importante continuarmos acompanhando, ouvindo as instituições que têm competência, consciência para isso, especialistas sobre o assunto, e ficarmos preparados e cobrarmos dos governos estaduais, federais e municipais para que essas ações preventivas sejam feitas, que o treinamento também para uma situação mais emergencial seja feito, porque os impactos vão acontecer. Não sabemos a magnitude deles, mas eles irão acontecer.

Voz B:Olha, Pedro, foi perfeito. Então eu vou entrar num ponto que a gente acabou não que é a educação, né? E como eu sou da universidade, isso sempre entra, né? Eu acho que esse é o momento de colocar esse conhecimento já na escola básica, né, na escola fundamental, no ensino médio, e quem sabe também já nas universidades. Quer dizer, ter esse conhecimento para que nós possamos estar preparados quando a mídia começar a falar: ah, vai haver o ninho, opa, eu já aprendi isso na escola, eu sei o que é, né? Então é algo que nós temos que fazer, né? Eu acho que o Semaden inclusive tem, o Semaden Educação tem um foco em cima disso, né? Eu sou coordenador do Centro de Pesquisa em Resiliência à Crise Climática e Extremos dentro da universidade, e nós também vamos colocar isso para educação, né? Ter mais atividades para professores escola de ensino médio, ensino básico, e com isso fazer com que tudo que o Pedro falou já esteja inserido nas nossas crianças e que elas saibam o que fazer no futuro, porque de qualquer forma elas podem ser efetivamente os prefeitos, os governadores e eventualmente o presidente do nosso país.

Colé Pinheiro:Perfeito, professor, obrigada. É bom, então queria agradecer mais uma vez a presença de vocês dois aqui, eu aprendi bastante, acho que é uma cobertura que continua, né? A gente faz esse episódio hoje, continua acompanhando e retomando essa conversa sempre para discutir mais esse tema tão importante. Então obrigada pela presença dos dois.

Voz B:Obrigado pelo convite.

Pedro Ivo Camarinha:Muito obrigado pela oportunidade.

Colé Pinheiro:Bom, pessoal, esse foi mais um MesaCast do Ciência Suja, o podcast que mostra que em crimes contra a ciência as vítimas somos todos nós. Obrigada pela sua audiência. Antes de ir embora, vale lembrar que o Ciência Suja tem uma campanha recorrente de financiamento coletivo. E a gente tá buscando novas formas de nos aproximarmos de vocês, nosso público. Então fica de olho que em breve vai ter novidade bacana por aí. E outra coisa legal que eu queria comentar é que a gente bateu 4 milhões de plays nos nossos episódios nos tocadores. A gente ficou muito, muito feliz com esse número. Um projeto independente chegar nesse lugar esse lugar é tão bacana. E enfim, obrigada a todo mundo que ganhou, que gasta um tempinho com as nossas histórias. Por fim, o Ciência Suja faz parte da Rádio Guarda-Chuva, uma confraria de podcast de jornalismo para quem gosta de ouvir. Tem muito projeto bacana por lá, como a Rádio Escafandro e o Vida de Jornalista. E inclusive o Rodrigo Alves, do Vida, tá promovendo uma oficina de podcasts narrativos agora 6 de junho. Então, se você quer aprender a fazer, corre lá no @vida_jornalista para saber mais sobre essa oficina. Esse episódio foi gravado no estúdio Banca Podcast, que é da Luciana Onken. A captação do som é do Benetiepo e o vídeo é da Jéssica Sacol. Obrigada, pessoal, pelo apoio. Esse episódio foi produzido e apresentado por mim, Cloé Pinheiro. A edição é do Felipe Barbosa, que também fez as complementares, com apoio do Estúdio Banca Podcast. O podcast Ciência Suja tem apoio do Instituto Serra Pileira. Se você ainda não segue a gente pelas redes, pois siga! Além das plataformas de áudio, a gente tá no YouTube, Instagram, TikTok, X, Blu Sky, canal no WhatsApp, e tem newsletter para quem assina também, para quem apoia o podcast. Então até mais, gente, até os próximos!

Voz B:Nav Reportagens.

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