Ventos da exclusão
Na última década, o Nordeste brasileiro perdeu 16 mil hectares de vegetação nativa para os parques de energia eólica. Mas o desmatamento está longe de ser o único impacto dessa “fonte de energia limpa”
Neste episódio, você vai entender como a transição energética “supostamente limpa” no Brasil se apropria dos recursos naturais enquanto causa prejuízos para comunidades historicamente excluídas, com impactos negativos na saúde, no sustento e na cultura local.
Este episódio teve o apoio do Observatório da Branquitude, que produz conhecimento e pressiona autoridades para que enfrentem as desigualdades raciais. Confira o “Guia para uma transição energética justa” que essa organização produziu: https://observatoriobranquitude.org.br/wp-content/uploads/2026/05/OdB_Guia-para-uma-transicao-energetica-justa_Digital.pdf
O material complementar do episódio e os links para tornar-se apoiador do podcast você encontra no nosso site: www.cienciasuja.com.br
A reportagem com vídeo da torre caindo, que citamos no episódio: https://marcozero.org/aerogerador-desaba-em-parque-eolico-que-voltou-a-operar-apos-liminar-da-justica/
Apoie o financiamento coletivo do nosso livro “A Ciência Colonizadora”: https://www.catarse.com.br/acienciacolonizadora
O Ciência Suja recebe apoio financeiro do Instituto Serrapilheira.
Meg Rodrigues
Théo Ropresti
Caio Santos
Fernando Joaquim Maia
Giovana Freitas Paim
Irene Monteiro da Penha
Luiz Antônio Soares
Pedro Belo
Rani Souza
Robério
Roselma
Tales Vieira
- Impactos negativos dos parques eólicos na saúde e bem-estar das comunidadesbarulho constante das torres·estresse e perda de sono·ansiedade e depressão·bruxismo e hiperacusia·efeito estroboscópico
- Apropriação de recursos naturais e prejuízos para comunidades excluídasNordeste como zona de sacrifício·colonialismo energético·invisibilidade estatística·impacto em mulheres negras·populações afro-indígenas
- Resistência e luta do povo Kapinawá contra os parques eólicosameaça de parque eólico em Buíque·demarcação de terras indígenas·protestos e ocupações·suspensão de licenças·consulta prévia e informada
- Perda de terras e modos de vida em comunidades quilombolasexpropriação de terras·coerção para acordos·perda de hectares·arrendamento de terras·decomposição do campesinato
- Expansão dos parques eólicos no Nordeste e seus motivoscusto da terra no Nordeste·afrouxamento do licenciamento·fragmentação de parques·gargalo das linhas de transmissão·relação com data centers
O Ciência Suja tem o selo da Rádio Guarda-Chuva. Jornalismo para quem gosta de ouvir. Este episódio só foi produzido graças ao Observatório da Branquitude, uma organização que produz conhecimento e pressiona autoridades para que enfrentem as desigualdades raciais. E o Ciência Suja tem o apoio de sempre do Instituto Serrapilheira, que financia a ciência e a comunicação científica no Brasil.
O quarto de vocês ficava desse lado aqui?
Vem aqui.
Talvez tenha sido difícil de escutar, mas esse aí é o Pedrão, o nosso produtor Pedro Belo. Ele tava junto com o Caio Santos, parceiro aqui do Ciência Suja lá da Griot Podcasts, e os dois estavam caminhando pelo terreno onde ficava a casa que a Roselma morou com o marido Cleiton e os dois filhos do casal. Os pais do Cleiton também ficavam ali do lado. Um tio dele ainda tá por lá. A casa da Roselma já não existe mais, mas ela viveu ali por muitos anos.
Pelo menos 10 deles entre dois aerogeradores, duas torres imensas de 80 metros de altura que ficam de costas pro terreno. Venta bastante por ali, mas não é o barulho do vento que você tá escutando.
Parece mais perto até do que 160 metros, né?
A gente achava que aquela era mais próxima, depois a gente viu que não, essa aqui é mais.
Essa aqui é mais, então.
Moro perto do aeroporto lá em Recife, é o mesmo barulho.
Mas tem hora que silencia mais, né?
Se você vive numa grande cidade, talvez já tenha se acostumado com o barulho intermitente dos aviões, mesmo não morando perto de um aeroporto. Mas é diferente na comunidade rural do Sítio Sobradinho em Caetés, no interior de Pernambuco.
Era o barulho o dia inteiro, eram até 24 horas no ouvido esse barulho. Você deitava, você sentia a cama estremecer. A gente costuma dizer que é um avião que nunca pousa, porque é 24 horas sem intervalo nenhum, sem parar. E quando vai chegando à noite vai piorando, o barulho vai aumentando mais ainda.
E não é que a Roselma e o Cleiton resolveram construir a casa deles ao lado de um parque eólico que já existia. Eles e as famílias que ainda moram ali chegaram muito antes. Mas depois de 2014, com a instalação de uma série de empreendimentos eólicos na região, a Roselma e outras pessoas tiveram que conviver com o barulho constante das torres. Um ruído tão alto e tão incômodo que ficou registrado numa pesquisa multidisciplinar da Fiocruz de Pernambuco.
Aí, 77% das pessoas entrevistadas disseram que tem a questão do estresse. Perda da qualidade do sono também, 75% das pessoas estavam relatando perda da qualidade do sono, né? E aí vem vários, uma sequência de sintomas. E aí eu vou destacar também a questão da ansiedade, que é em saúde mental, que é 63%, né? A gente fala também de irritação dos olhos.
Na última década, os ventos da transição energética chegaram com tudo no Nordeste brasileiro. A expansão de parques eólicos na Caatinga segue uma curva crescente, Da Bahia ao Piauí, passando por Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão. Foram 16 mil hectares de vegetação nativa, ou 16 mil estádios do Maracanã, que abriram espaço pra parques eólicos entre 2016 e 2025. Isso segundo dados recentes do MapBiomas. Mas o desmatamento tá longe de ser o único impacto, como você já deve ter se ligado pela história da Roselma.
A gente verifica que É utilizado a região Nordeste como uma zona de sacrifício. Quando a gente fala isso, a gente inclui pessoas, né, agricultores e agricultoras, campesinos, indígenas, quilombolas, né.
Neste episódio produzido em parceria com o Observatório da Brancitude, O Ciência Suja foi até o interior de Pernambuco para conversar com pesquisadores e pessoas que resistem à ofensiva dos parques eólicos na região. A gente também buscou entender como está acontecendo essa transição energética supostamente limpa no Brasil, que se apropria dos recursos naturais enquanto causa prejuízos para as comunidades historicamente excluídas.
A gente tem que desmistificar a ideia de que essa é uma decisão apenas técnica. Essa é uma decisão política. Certamente venta muito em determinados espaços que são espaços tidos da elite e espaços brancos. Mas há uma decisão política de instalação de usinas eólicas em determinados espaços que são espaços racializados, espaços de comunidades racializadas.
Eu sou a Meg Rodrigues.
Eu sou o Téo Ropresti. E esse é o Ciência Suja, o podcast que mostra que em crimes contra a ciência As vítimas somos todos nós.
O rangido que você escutou, seguido de um barulho que parece saído de um bicho muito grande, um cavalo, sei lá, é de um catavento gigante em agonia. Uma das 3 hélices quebrou e ficou pendurada por um tempo até que se soltou, causando esse último estrondo.
Foi de manhãzinha, era o quê, umas 6 horas da manhã, a gente tava deitada ainda e a gente escutou um barulho.
O vídeo foi gravado em 2021 pela Roselma e o Cleiton no quintal de casa, a 160 metros de distância da cena. O vídeo tá numa matéria do Marco Zero Conteúdo que a gente vai deixar no nosso material complementar.
Aí ele, o meu marido, gritou, corre, que a torre tá caindo em cima da casa! Aí eu pulei da cama, as crianças estavam dormindo ainda, e começou aquele desespero. Não sabia se corria para fora, se corria para debaixo da cama, debaixo da mesa. Parece que a gente saiu correndo para ficar o máximo de distância delas, né? Porque Quando a gente abriu a porta, que a gente viu ainda, ela tava assim, ó, indo num canto e no outro, que nem que ia cair ainda.
O Pedro Belo e o Caio Santos, que mora em Recife e já editou muitos episódios nossos, estiveram lá no território com a Roselma, justamente pra captar impactos desses empreendimentos que são difíceis de quantificar à distância.
Oi, gente, é o Pedro aqui. Pois é, como se não bastasse conviver há 7 anos com o barulho constante da torre, em 2021, o maior medo da Roselma se tornou uma ameaça bastante real. O de que uma daquelas torres, uma a 160 e a outra a 180 metros da casa dela, despencasse sobre a cabeça deles.
Meu menino mesmo não queria dormir mais sozinho não na cama dele. Qualquer barulho que ele ouvia, ele dizia que era a torre que ia cair em cima da casa. Ele começou a dormir, quando ele dormia, que eu colocava ele na cama dele, mas a gente não queria dormir sozinho de jeitinho não.
A situação chegou ao absurdo do filho da Roselma, um menino de 9 anos na época, precisar de remédio para dormir. E vou te falar que dá para entender. A gente chegou a Caetés vindo de Buíque, no Vale do Catimbau. Não é um percurso óbvio e mais pra frente você vai entender por que a gente fez esse caminho. Mas a nossa ida de um vale pra uma região de serra contou com uma subida em direção a uma fileira de torres no alto de uma montanha.
E essas torres só cresciam no horizonte conforme a gente se aproximava. Até que numa curva da subida a gente viu aquele monte de catavento gigante enfileirado com o nosso carrinho passando ali no meio. Diz aí, Caio.
Oi gente, é uma sensação bem estranha, uma vista meio bonita, meio assombrosa. Pelo que a gente apurou, as torres do parque eólico ali da região tem por volta de 80 metros de altura. Se for considerar que um prédio tem em média 3 metros por andar, cada torre seria um prédio de 26 ou 27 andares. Nem em Recife e nem em São Paulo, terra de arranha-céu, é comum ter tanto prédio nessa altura. É uma parada que intimida de verdade. A gente parou na beira da estrada para tentar registrar o barulho com nossos microfones, mas as condições ali não estavam ideais, longe disso.
O tráfego de carros e caminhões também fazia um barulhão. Não dava direito para avaliar o impacto das torres em si. Esse barulho é de carro, tá? Não é da turbina, porque se fosse da turbina aí seria loucura. Mas o que dava para falar logo de cara é que realmente dá um certo medo ficar debaixo daquelas torres, ouvindo os rangidos do metal, vendo as hélices passando sobre a sua cabeça, vendo a sombra que elas fazem rodando na paisagem.
Eu, pelo menos, eu fiquei muito incomodado quando a gente parou bem embaixo de uma das torres. Aí já foi na região do Sítio Sobradinho, longe da rodovia, na zona rural de Caetés mesmo. Ali não tinha nenhum barulho, que não fosse da torre. Não tinha nenhuma cerca, nenhuma proteção. A gente parou o carro embaixo mesmo ali da torre, a menos de 10 metros da escada de acesso para uma delas. Dá uma vertigem mesmo ver aquele negócio girando sobre a nossa cabeça.
E isso fora o barulho. Eu levei um medidor de decibéis simples ali para essa viagem. Foi até por causa dele que na abertura do episódio você me escutou perguntando para Roselma onde que ficava o quarto dela. É que eu queria me posicionar exatamente onde ela dormia para medir o ruído das turbinas. E ele ficou entre 66 e 68 decibéis na maior parte do tempo. Chegou a bater 84 numa hora que o vento aumentou. E 84 decibéis é tipo uma moto barulhenta passando do seu lado ou um aspirador de pó ligado.
Para você ter uma ideia, a recomendação da OMS é que as pessoas não convivam com ruídos acima de 45 decibéis por muito tempo. A exposição frequente a volumes superiores é associada a um risco maior de doenças cardiovasculares, por exemplo. E aí a gente volta pra história da Roselma. É impossível não se colocar no lugar dela, do marido ou dos filhos. Mesmo antes daquele acidente com a hélice, a convivência com aqueles gigantes de metal girando e zunindo 24 horas por dia já não tava nada boa.
O barulho é um barulho terrível. Aquilo ali entra na sua cabeça, você fica estressada. Eu mesmo tava em tempo de enlouquecer já com o estresse. Estressada, dedicada aí pra você falar, você começava a gritar, tentar competir com o barulho do aero, ela tava fazendo lá o barulho, você não falava mais baixinho, era só gritando.
A Rosélia e o Cleiton pararam de plantar na terra com medo de possíveis descargas elétricas das torres. E as criações de ovelhas, cabras, galinhas também sentiram os impactos.
E questão das aves, as galinhas que a gente costuma dizer que deitava para tirar os pintinhos, não estavam saindo mais, não estavam chocando.
As empresas de energia eólica chegaram na região do Sítio Sobradinho, onde a Roselma morou a vida toda, prometendo, abre aspas, a energia do futuro. Ela viria de um simples catavento que teria impacto zero, não faria barulho nenhum e ainda geraria empregos e redução nas contas de luz. Algo que não aconteceu. O Cleiton até chegou mesmo a ser contratado por algumas empresas para trabalhar nas montagens de torres, mas sempre em projetos distantes do território dele, na Bahia ou no Maranhão. Por ali mesmo ele não pegou nada.
Ali pelo sítio Sobradinho, os problemas começaram já na instalação das torres, com trânsito intenso de caminhões nas estradas, além do barulho e da poeira constante. Ao ver que uma torre estava sendo erguida tão perto da sua casa, Roselma se preocupou e tentou entender o que tava acontecendo com os funcionários da obra. Eles disseram que ela devia procurar os responsáveis pela subestação.
A gente procurou, não quisemos receber, Depois a gente foi de novo, não receberam. Cheguei lá, sei lá, vocês têm 10 minutos para falar o que vocês querem. Beleza, a gente falou, mas ficou naquilo, falamos, falamos e nada foi feito.
Depois de mais de algumas tentativas sem sucesso, Roselma e alguns vizinhos resolveram partir para briga.
Quando a gente passou aqui, tem uma barriguda aqui, tinha uma casa ali também.
A barriguda é uma das árvores símbolo da resiliência da Caatinga. E tem esse nome justamente porque o tronco é dilatado, parece uma barriga, para funcionar como um reservatório. Foi ali, na sombra dela e no caminho da subestação mais próxima, que Roselma e os vizinhos começaram um protesto que aos poucos ia fazer do sítio Sobradinho em Caetés um símbolo de resistência.
Aí a gente fez, eu peguei uma panela grande, fizemos um caldo de mocotó no meio da estrada e ficamos com a panela lá no meio da estrada para ninguém passar. Ficamos lá, coloquemos mato, mandacaru, essas coisas, e coloca no pé, ninguém pensar.
Aos poucos essa resistência foi se espalhando.
Eu acho que não só Caetés. Caetés é quem gritou primeiro, né? Porque quando a gente, a gente tem um grupo de estudos que agora tá parado, mas vinha gente do Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Norte, a gente tem contato com o pessoal da Paraíba, do Ceará. Então assim, os problemas de Caetés não é diferente em nada dos problemas que são encontrados em outras pesquisas, por exemplo, em outros estados.
Tá aí a Vanessa Gomes. Você ouviu ela no começo do episódio falando de uma pesquisa que mostrava os efeitos das eólicas na saúde.
Então, sou Vanessa Gomes, sou professora há quase 14 anos da Universidade de Pernambuco, né? Sou enfermeira-sanitarista, então tenho um doutorado em saúde pública. Também sou professora colaboradora do programa de pós-graduação aqui da Fiocruz.
Na entrevista, ela narrou a primeira vez que foi na comunidade de Sobradinho.
E quando a gente chega lá, tinha em torno de umas 15 famílias, né, pra nos receber pra essa reunião, pra eu poder entender o que é que tava acontecendo, quais eram os problemas de saúde que o pessoal da CPT tava relatando. E todas essas pessoas que estavam lá tavam com a sacolinha pra mostrar as medicações que tomam. Então todo mundo tava tomando medicação que a gente chama de medicação controlada, tábua preta, né, que é pra dormir, pra ansiedade, pra depressão, enfim. Benzodiazepínicos em sua grande maioria e bem chorosas, né?
Muitos dos moradores tinham queixas que se alinhavam com a chamada síndrome da turbina eólica, uma condição identificada pela pesquisadora estadunidense Nina Pierpont, que inclui dores de cabeça, tonturas, zumbidos nos ouvidos, distúrbios no sono e muito mais.
Um dos dentistas do nosso grupo, ele fez esses exames ele também constatou que 90% das pessoas estavam com bruxismo.
Bruxismo é aquele aperto ou ranger constante dos dentes, que pode acontecer durante o sono ou mesmo quando você tá acordado. O estresse está associado a esse problema. E ainda daria pra falar da hiperacusia causada pela exposição constante aos ruídos de várias frequências. A Roselma também relatou sobre o efeito estroboscópico. Que é quando uma fonte de luz fica piscando enquanto ilumina algo em movimento. E aí isso dói o olho só de imaginar.
A gente via, a gente via a sombra até à noite, a gente via a sombra dentro de casa.
Como se fosse uma boate.
Só por isso já tá claro que essa história de impacto zero não passa de balela. No fim, nem a conta de luz baixou.
Olha, a gente pagava, era de R$10 a R$15 que a gente pagava. Enquanto a gente tava aqui, a gente chegou a conta de R$300 pra gente pagar.
Como talvez você tenha pescado, a Roselma e a família dela não moram mais ali ao lado dos aerogeradores. Depois de muitos anos de negociações, ela aceitou um acordo que veio com uma indenização de R$100 mil. É um valor insuficiente para cobrir o custo de um terreno e de uma casa nova, que ela sente até hoje que não é dela. Mais adiante a gente volta para Roselma, mas por enquanto vamos entender contra quem ela tá lutando.
Quando a gente tá falando de colonialismo energético, a gente tá falando que determinadas empresas, grupos, países que estão ligados ao Norte Global, eles exploram, desapropriam, desapropriam pessoas, exploram territórios, impõem um sofrimento para determinadas comunidades para levar essa riqueza embora desses territórios. Então, os territórios não colhem os benefícios, mas a riqueza é levada embora e, nesse caso, a riqueza é energia.
Esse que você ouviu agora é o Tales Vieira, um antropólogo carioca que é diretor de estratégias e programas e um dos fundadores do Observatório da Branquitude.
O meu trabalho e o trabalho do Observatório da Branquitude não se diferencia muito dos trabalhos de outras organizações negras que estão pensando a superação do racismo. A nossa diferença é que a gente tá olhando pra como a manutenção do racismo e dessa engrenagem racial privilegia alguns. Não só como ela vitimiza muitos, mas como ela privilegia alguns e como, a partir desse privilégio, que se mantém uma estrutura racista no Brasil.
O Tales foi um dos responsáveis por supervisionar o Guia para uma Transição Energética Justa, Raça, gênero e território como bússolas para imaginar o futuro. Esse é um relatório que faz uma análise crítica e muito séria sobre a expansão da energia eólica no Brasil. O guia foi lançado em maio de 2026 e destacou uma questão importante: a invisibilidade estatística.
O que a gente está falando sobre isso? Os órgãos fundamentais de controle e de regulação desse tipo de instalação de empreendimentos energéticos e de empreendimentos de grande impacto ambiental, e aqui tô falando da ANEEL, da EPE, que é a Empresa de Pesquisas Energéticas, o IBAMA, então os principais órgãos que regulam, pensam e produzem dados sobre esses empreendimentos, eles pouco produzem dados populacionais. Então eles não produzem, por exemplo, dados de raça e gênero, eles não estão pensando dados de raça e gênero.
A equipe do Observatório cruzou dados censitários da PNAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, com os dessas 3 instituições que o Thales citou: a Agência Nacional de Energia Elétrica, a ANEEL, a EPE e o IBAMA. Isso para entender como a expansão da infraestrutura elétrica no Brasil está se desenhando pelo território e como as populações locais podem ser impactadas. O levantamento segue a metodologia internacional Justice by Design, que surgiu para antecipar prejuízos socioambientais.
Você basicamente mapeia a situação, inclusive do ponto de vista social e com recortes de raça, para não menosprezar certos efeitos na população local. E isso, idealmente, antes de eventualmente subir um monte de ventilador gigante num determinado local.
Um outro eixo do levantamento do Observatório da Branquitude analisou estudos de casos sobre territórios do Nordeste brasileiro. Entre eles, o sítio Sobradinho, em Caetés. A outra região é uma faixa litorânea no Rio Grande do Norte que compreende os municípios de Macau, Caiçara do Norte, Galinhos e São Miguel do Gostoso, que deve receber projetos eólicos offshore nos próximos anos. Projeto eólico offshore é instalar os aerogeradores em alto mar mesmo.
Acontece que essa região hoje é habitada por comunidades que vivem da pesca artesanal e do turismo. A escolha desses recortes territoriais não é à toa. Neles, há uma presença bem documentada de populações negras e indígenas historicamente mais prejudicadas e com dificuldade de acesso a bens e direitos.
A estimativa é que 120 mil pessoas vivem em áreas com aerogeradores. Dessas 120 mil pessoas, 72% são pessoas negras e indígenas.
Isso só escancara quem mais está sofrendo com esses projetos limpos, entre aspas. E mostra como empreendimentos energéticos no país não estão antecipando prejuízos e gerando inclusão, como o guia do Observatório pede. Pelo contrário, eles parecem estar intensificando a desigualdade e reproduzindo dinâmicas tão antigas quanto o descobrimento, entre aspas, do Brasil.
No primeiro recorte, a gente pode dizer isso, que as pessoas que são atingidas, né, ela tem cor, raça e gênero. Por que gênero? Porque quem suporta o maior impacto desse processo de transição em curso são as mulheres negras. Então isso a gente pode ver pelo censo, que a gente vai perceber, né, o censo rural, né.
Esse é o professor Luiz Antônio Soares, doutorando em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. E um dos responsáveis pela pesquisa e elaboração do Guia para uma Transição Energética Justa.
Durante minha pesquisa, eu me deparei com o conceito de colonialismo energético. Esse conceito, ele abre para uma análise mais ampla, porque o que a gente observa no Nordeste brasileiro é a continuidade do processo de colonização promovido pelos grandes centros econômicos globais. Então, dentro de uma lógica colonial, né, que é um conceito que é amplamente discutido, né, né, quiçá no último século, a gente verifica que É utilizado a região Nordeste, né, como uma zona de sacrifício.
Se você escutou o nosso episódio Zonas de Sacrifício ou Picaretagens para Adiar o Fim do Mundo, os dois de 2025, talvez você esteja um pouco mais familiarizado com essa discussão. Se ainda não, vale a pena, os dois vão ser ótimos complementos. Enfim, em resumo, as zonas de sacrifício são áreas em que as empresas despejam, entre aspas, suas externalidades negativas. As consequências negativas das suas atividades, né? Então, pode ser uma cidade onde várias indústrias soltam seus poluentes, como aconteceu com Cubatão no passado.
Ou uma terra onde viviam povos originários que é inundada pra fazer uma represa hidrelétrica, como rolou em Itaipu. Ou um local onde turbinas eólicas tiram a paz e o sustento de quem tá por perto. O fato é que essa transição energética que a gente tá vivendo segue reproduzindo lógicas extrativistas e coloniais. É chegar, se apropriar da terra e dos recursos naturais que estão ali, nesse caso o vento, e dane-se quem mora por perto.
A gente sabe que o Nordeste brasileiro, especialmente semiárido, é onde se concentra o maior número de quilombos do Brasil, né? Então, a população indígena historicamente foi empurrada para o semiárido também no Nordeste brasileiro. O estado de Pernambuco, que a gente nem imagina, mas concentra a quarta maior população indígena do Brasil, né? Então as pessoas, né, que são impactadas, né, elas têm a descendência afro-indígena. E foram empobrecidas com o passar dos anos desse processo de exploração colonial.
Para ilustrar essa afirmação do Luiz, a gente vai trazer mais dois exemplos aqui no episódio. O primeiro é a comunidade quilombola de Macambira, na região do Ceridó, no Rio Grande do Norte. A gente conversou com a Rani Souza, que mora nessa região e estudou o tema na sua pesquisa de mestrado.
E essa comunidade, ela recebeu aerogeradores a partir de 2013, 2016, e linha de transmissão em 2022.
A pesquisa da Rani tenta compreender o que mudou na relação dos moradores com o território depois da chegada dos empreendimentos eólicos. Acontece que o território onde a comunidade fica situada já é alvo de disputas bem antes da chegada dos ventos da transição energética.
Parte desse território era oficialmente, né, de propriedade de um latifundiário lá da região, de dois, na verdade, latifundiários da região. Sendo que a comunidade quilombola de Macambira, ela passa por um processo de expropriação ao longo do tempo, que é muito comum assim em outras comunidades quilombolas, que é: eles ocupam aquele lugar e, no caso de Macambira, eles tinham a posse, o título mesmo da terra, porque foi uma terra comprada pelo ancestral deles, que era ex-escravizado.
E com o tempo, esses latifundiários, esses coronéis, eles foram ocupando aquela terra, né?
Mesmo com o relatório técnico de identificação e delimitação, o RTID, que é um documento oficial do INCRA que reconhece e delimita o território como quilombola, a comunidade foi perdendo aos poucos esses pedaços de terra, mesmo produzindo ali ainda, com roçados de mandioca, por exemplo. Quando o parque eólico da multinacional espanhola Gestamp, que era o nome na época e hoje se chama Elawan, quando eles chegaram ali no local, eles logo se aliaram com os fazendeiros e deram início a uma batalha jurídica que durou anos.
Teve expulsão, depois reintegração de posse para os quilombolas, e por fim propuseram um acordo. Mas pelo que a Rani conta, não foi um acordo bacana não. Foi mais na linha daquela oferta que não dá para recusar, sabe? Eu vou fazer uma oferta irrecusável.
E aí eles tiveram que aceitar. Então assim, a comunidade deixou muito claro que eles foram coagidos. Porque o latifundiário mandava pistoleiro. O pessoal da empresa dizia que se fosse para uma outra instância eles iam perder a terra toda. Então o que ocorre em Macambira é que toda a parte do território, as porções do território onde foram instalados aerogeradores posteriormente, permaneceram como propriedade do latifundiário. Eles perderam.
Foi desse jeito sujo que o quilombo do Macambira perdeu 750 hectares de terra. 750 campos de futebol, ou mais de um quarto do território original deles, pra geração de energia limpa pra transição energética. E sabe quem tá ajudando a financiar isso?
Ainda mais porque todo esse processo de transição energética, ele é custeado pelo nosso dinheiro, pelo dinheiro do Estado, do BNDES, por exemplo, que tem linhas de crédito gordíssimas Então a gente tem que refletir, porque a gente tá pagando por uma transição energética que não nos serve.
Segundo o veículo Brasil Energia, o BNDES liberou R$32,7 bilhões em crédito para criação de parques eólicos entre 2016 e 2023. O resultado foi uma expansão do setor, que hoje responde por 14% do fornecimento de energia elétrica no Brasil. As eólicas só estão atrás da energia térmica, da chamada mini e microgeração distribuída, que são eminentemente aqueles painéis solares em cima de casas, prédios e outras construções, e claro, da energia hidráulica, das hidrelétricas, né, que suprem quase metade da nossa eletricidade.
Os dados são do relatório de 2025 do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Mas não é só com números que os ventos da transição vêm varrendo o semiárido nordestino. Para entender um pouco melhor o modus operandi de algumas dessas empresas, a gente conversou com o Fernando Joaquim Maia, professor de direito da Universidade Federal da Paraíba.
Então é uma situação complicada. Nesse processo aí há o quê? Há uma reconcentração fundiária. Nós estamos vivendo no Nordeste hoje uma espécie de reconcentração fundiária muito comparável aquela que ocorreu na década de 70 com a formação do agronegócio, onde os agricultores, pequenos agricultores, eles foram levados à falência.
O Fernando faz parte do Dom Quixote, um grupo de pesquisa e extensão que tem esse nome porque, bom, deixa ele mesmo explicar.
Porque Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento e nós nascemos na preocupação de defender, digamos assim, de buscar enxergar a expansão das energias renováveis a partir dos interesses dos pequenos e médios agricultores. Então nós fizemos uma metáfora com o Dom Quixote, né? Não mais com os muijos meninos, mas em relação aos grandes aerogeradores capitalistas.
Mas enfim, o Fernando contou que a apropriação da terra tá acontecendo via um arrendamento que pode até iludir, mas não tem beneficiado os pequenos produtores.
Então essas empresas chegam, adquirem grandes extensões de terra. Muitos desses agricultores resolvem abandonar a terra pra viver de míseros aluguéis. Eles viram uma espécie de um bicho pra ganhar R$400, R$1.000, R$2.000 por mês.
Então, basicamente, a empresa chega e paga uma merreca de aluguel por cada turbina eólica que ela instala no seu quintal. Se você é um latifundiário com capacidade de arrendar seu terreno para 50, 100 torres, aí a renda começa a valer a pena. Mas essa não é a realidade dessas comunidades que estão sendo impactadas.
É que as propriedades no Nordeste, a maioria são minifundiárias. São propriedades de 5 a 10 hectares. Um aerogerador desse, quando é instalado, ele exige um raio de segurança de ação de 300 a 500 metros. Imagine o que é 550, 500 metros, 300 metros em uma propriedade minifundiária de 5 a 10 hectares. Então isso basicamente inviabiliza a produção agrícola e isso compromete, é, quando isso atinge mais de 50%, digamos assim, a própria condição de segurado especial do agricultor.
Um outro problema é que muitos dos contratos fazem os agricultores cederem a posse da terra por 20 ou até 50 anos, em alguns casos. Para o Fernando, isso altera drasticamente o uso da terra e o modo de vida daquelas comunidades.
Nós estamos assistindo uma decomposição do campesinato. Eles estão deixando de ser camponeses para virar, em vez de boi, as frias, virar rentistas de pequena categoria. E boa parte tá migrando, tá saindo, tá havendo um êxodo rural das regiões. Eles ficam com a terra, a terra tá no nome deles, o cartório tá lá, mas a posse, que o contrato é averbado no cartório, tá nas mãos da empresa. A posse a longo prazo.
E isso, de novo, sob enorme pressão. Então, depois do intervalo, você vai entender por que essa expansão frenética do setor eólico no Nordeste talvez nem faça tanto sentido assim. E ainda vai conhecer mais uma história de uma outra comunidade que tá resistindo ao avanço das empresas. Gente, o Ciência Suja tá pra lançar um livro que tem tudo a ver com o debate desse episódio. Ele vai se chamar A Ciência Colonizadora. É uma adaptação da nossa temporada sobre colonialismo e racismo na ciência.
Mas pra esse livro virar realidade, a gente precisa levantar uma grana via financiamento coletivo pra viabilizar as primeiras impressões. Apoiando em qualquer categoria, você já garante o seu exemplar. E dependendo do quanto oferecer, ainda leva outros livros e brindes da Editora Duas Aspas, que tá com a gente. Ou procura por A Ciência Colonizadora e Catarse no Google, que você chega lá.
E agora, um recado do podcast Prato Cheio. Que tá com uma nova temporada no ar. Escuta só.
Elas tomam whey na mamadeira, suplementos vitamínicos desnecessários, consultam o ChatGPT pedindo dietas para emagrecer e formam nas redes sociais sua própria concepção de alimentação.
Então eles ouvem que você comendo muita proteína, comendo a dieta da selva, do leão, que ele vai ter mais testosterona, vai ser mais forte, mais macho, vai ser alfa, não vai ser beta, esse tipo de coisa.
E as redes sociais fazem hoje um massacre. Eu sou a Maíra Matias e tô passando aqui para te convidar a ouvir a série Pratinho Cheio. Da primeira colherada, a influência das redes sociais, eu te conto em 3 episódios o que tá acontecendo com a alimentação das das crianças brasileiras. O primeiro episódio já tá no ar e você pode conferir no perfil do podcast Prato Cheio no seu tocador preferido ou no site O Joio e o Trigo.
Vieram, eles vieram um dia aqui fazer uma visita e chegaram aqui, a primeira coisa que eles fizeram foi: vamos derrubar Vamos botar fogo agora? Ele disse, vamos, se você quiser levar agora.
Nessa hora, a Roselma tava contando pra gente da visita de um personagem que você ainda não escutou por aqui e que tava propondo destruir mesmo um aerogerador. É o cacique Robério, do povo Kapinawá, que fica lá no Vale do Catimbau, na região de Buíque, a umas 4 horas de viagem de carro de Recife. Antes de visitar a comunidade rural do Sítio Sobradinho da Roselma, Eu e o Caio demos um pulo lá no Vale do Catimbau para falar com o cacique.
Chegamos a ser vitimados, né, dessa questão de quando pensou que não já tava um parque de energia eólica criado, um parque de energia eólica de Buíque. E a gente pegou de surpresa através de um estudante de direitos que tava na ESA. E aí é uma capinauá, tava lá, e quando pensou que não, na aula lá, e começou uma discussão, assunto aí apresentaram. Nossa, que legal a evolução, um parque de energia eólica ali em Buíque. E aí a previsão era de 70 turbinas, aí pegava essa área aqui toda.
Foi isso mesmo que você escutou. Um belo dia chegou pelo vento a informação de que Buíque receberia um parque eólico. Olha que bacana! E a localização coincidia justamente com a terra habitada pelo povo Kapinowá desde sempre. O Robério recebeu a gente lá na aldeia Baixa da Palmeira, me explicou que aquela área ali é reivindicada por eles. Mas não faz parte nem da porção de terra que é demarcada e nem do Parque Nacional do Catimbau, que tá ali do lado.
Foi uma pena a nossa passagem pelo Vale do Catimbau ter sido tão rápida. A região é muito linda, com formações rochosas, relevos de chapadas, aquela vegetação tão icônica da Caatinga. E o Parque Nacional mesmo, que tá ali do lado, é o segundo maior parque arqueológico do Brasil.
E Pedrão, vale fazer uma pausa aqui para agradecer o cacique Robério pela recepção. Quando ele soube que a gente chegaria, ajudou a mobilizar as principais lideranças e até as crianças das aldeias, Capinauá, para darem entrevista e mostrarem que eles estavam muito por dentro do que tava acontecendo.
Essa preocupação para todas as lideranças, né, ter cuidado, porque da forma que vieram em outras comunidades procurando aquelas pessoas semianalfabetas, informadas, para que não assinassem nenhum, não recebesse ninguém, nenhum tipo, nenhum tipo de documento, sem ter certeza do que tá assinando, porque senão poderia cair golpe. Quando pensasse que não, já tava assinando uma liberação para implantação desse tipo de situação.
Ficou claro ali que os capinauás de todas as idades estavam sabendo o que a chegada de um parque eólico representaria para o território e para o modo de vida deles. Enquanto a gente conversava com o Robério e a dona Irene Monteiro da Penha, a Aninha, que morou a vida inteira ali, as crianças e jovens escutavam tudo e mostravam para gente cartazes com palavras de ordem. Pedrão vai deixar todas as fotos no site e no Instagram.
É porque assim, a gente bateu o pé desde aqui, quando a gente soube dessa situação, desse tipo dessa ameaça. E quando aconteceu o momento lá em Recife, deixamos bem claro: a gente vai fazer por onde não deixar que implanta a primeira hélice.
E deixar implantar a primeira pode ser mesmo um caminho sem volta, inclusive para os ecossistemas que povos como os Kapinawá ajudam a proteger. Daqui a pouco a gente retoma a história do Robério. Mas é que durante um seminário do MapBiomas em São Paulo, a Meg acabou conhecendo dois especialistas que ajudaram a dar esse contexto.
Pois é, se você não conhece, o MapBiomas é uma rede de várias instituições que produz dados gratuitos sobre o uso e a cobertura da terra no Brasil e em outros países. Eu e o Pedrão entrevistamos um dos fundadores, o engenheiro florestal Tasso Azevedo, no MesaCast em agosto de 2026. Vale a pena escutar, tá, gente? Dica! Bom, nesse workshop que o Pedrão comentou, eu conheci o Sou Tangalano, especialista em geoprocessamento focado na Caatinga, e ele me apresentou a Giovana Freitas Paim, geógrafa da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia.
O monitoramento, né, e todos os meus estudos são exatamente na área dos parques, né, onde estão implantados os aerogeradores. Aqui na Bahia, eles estão em áreas de serra.
A Giovanna disse que muitos dos locais na Bahia que estão recebendo parques eólicos ficam em regiões de serra que concentram algumas das principais nascentes do estado. Tem gerador a pouco mais de 100 metros de nascente. A terraplanagem feita nesses morros para instalar as torres pode causar o acúmulo de sedimentos que leva ao assoreamento ou estreitamento dos cursos d'água. Na prática, é uma ameaça à segurança hídrica daquele local.
As comunidades que estão em volta dessas serras, elas convivem com escassez hídrica a maior parte do ano. Portanto, a serra é um ambiente úmido delas que serve para pegar água, que serve para fazer desidratação animal, né? É onde eles soltam gado durante o período de seca, que é onde o gado vai achar um verdinho ali para comer.
Esse impacto socioambiental em mais um estado nordestino acaba reforçando a tese de que não tem problema criar mais uma zona de sacrifício por ali, principalmente se a gente comparar como foi esse processo da entrada de parques eólicos no Rio Grande do Sul que é uma das coisas que a Giovanna já pesquisou.
Então, o preço da terra, terras baratas, terras que eles possam se apropriar de maneira muito rápida, levou a essa expansão no Nordeste. Enquanto que o preço da terra é 5 vezes maior no sul, né, do Brasil, eles não expandiram tanto. Então, se a gente pega os dados e compara, a gente vai ver que o Rio Grande do Sul tem 81 parques eólicos, Olha que o Rio Grande do Sul começou antes da Bahia e a Bahia tem mais de 350 parques. De 81 para 350. Então assim, é o preço da terra que é a grande questão, não é o vento.
Interessante, né? Então seria o baixo valor econômico da terra que vem atraindo as eólicas para o Nordeste, não só o vento. Até porque vento também existe em outros locais. Talvez com menos impactos socioambientais. A Giovanna apontou também que os órgãos de licenciamento gaúchos foram mais rigorosos com as empresas, que de certa forma conseguiram driblar o processo no Nordeste.
O que eu percebo foi exatamente um afrouxamento no licenciamento, num aspecto importante do licenciamento, porque o licenciamento de parques eólicos foi embutido como licenciamento simplificado.
A necessidade de um processo mais completo só ficou pra empreendimentos enormes ou que encontrassem materiais arqueológicos. Então, o que as empresas fizeram? Fragmentaram os parques. É isso aí. Em vez de licenciarem 30 aerogeradores de uma vez, o que configuraria um grande empreendimento, elas foram licenciando parques menores, de 10 em 10, mais ou menos. E isso, segundo a Giovanna, fez as coisas andarem rápido no Nordeste.
Então, por exemplo, lá no Rio Grande do Sul, o órgão ambiental deles elegeu paisagens impróprias para instalação de energia. E por que isso? Porque o Rio Grande do Sul utiliza muito as suas terras para criação de gado e cultivos agrícolas para exportação. Então eles não iriam competir, né, com a questão eólica. Para eles é muito mais vantajoso preservar as suas terras para esses aspectos econômicos do que para a energia.
No próprio Nordeste também rolou algum freio por causa de outros interesses econômicos, mas o potencial das terras de uma região diz muita coisa. A Giovanna deu exemplo de áreas litorâneas em Sergipe ou na Bahia, que estão sendo muito mais visadas para o turismo, para construção de hotéis e resorts. Mas quem liga para Caatinga ou para comunidades tradicionais fazendo agricultura de subsistência, né? Não.
E assim ocorreu. Já aqui no Nordeste não. Achou-se que era uma grande vantagem, né? Os municípios são muito pobres. A arrecadação, com base aí nos dados que eu levantei da Receita Federal, os municípios eólicos, né, eles têm arrecadações assim abaixo de milhões, né, muito pouco. Então, qual que é o empreendimento, né, que chegasse, eles acreditariam que seria grande vantajoso para a população?
Nesse ponto, a Giovanna reforçou o óbvio: os empregos que vieram com a eólica são em boa parte temporários, da construção mesmo. O retorno a longo prazo para a região costuma ser baixo.
O Souza Angalano, aquele pesquisador do MapBiomas, mencionou uns números que fazem a gente ficar ainda mais preocupado com o futuro da Caatinga. Escuta só, a área ocupada por parques eólicos mais que sextuplicou nesse bioma entre 2016 e 2025, de 3.600 para 24.400 hectares. 37% dessa área toda é só no Rio Grande do Norte. Aliás, Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte somados respondem por quase 80% da área ocupada por parques eólicos na Caatinga.
E aqui vem a parte mais maluca do negócio. Essa expansão em ritmo frenético nem tá trazendo tanta energia para rede, porque tem um gargalo. Escuta só, Giovana.
Antes, somente o governo comprava energia gerada pelos parques eólicos. Quando essas empresas voltaram ao mercado livre de energia, qualquer empresa poderia comprar o excedente dessa energia gerada. Então, empresa de indústria de aço, indústria de cimento, já comprava energia diretamente no parque, né, diretamente com os— era uma relação direta, né, da indústria com o dono do parque eólico. Então esse mercado livre aqueceu muito.
Soma-se a isso a geração distribuída pela Solaris, aí é um outro nível. E aí desagou num grande problema, que são as linhas de transmissão. Hoje a gente tem muito mais empreendimento eólico solar do que linha para receber energia gerada. É agora o grande gargalo da energia renovável.
Só que, na série de reportagens A Boiada da IA, a repórter Laís Martins e os colegas do The Intercept Brasil mostram a relação entre eólicas e data centers. É que esse casamento resolve um grande pepino: como o Brasil tem mais capacidade de geração do que de distribuição de energia elétrica, as eólicas precisam parar de produzir de tempos em tempos para não sobrecarregar o sistema elétrico nacional. Essas pausas geram prejuízos bilionários.
A solução: data centers que demandam uma eletricidade absurda e que impactam ainda mais o meio ambiente e as populações locais, como a gente mostrou no episódio Vale Tudo Pelos Data Centers do ano passado. Um levantamento dos colegas do Intercept da Mongabay mostrou que até dezembro do ano passado, 65% de todos os pedidos de conexão de de data centers ao Sistema Interligado Nacional que chegaram ao Ministério de Minas e Energia vieram de empresas de energia renovável, eólicas entre elas.
Aliás, o Intercept e a Mongabay viram que muitas empresas de eólicas não só pedem a ligação de data centers ao Sistema Elétrico Nacional, como chegam a providenciar instalação e até fazer o pedido de gerenciamento ambiental. Quando tá tudo certinho, as big techs entram em campo. É quase como se fosse tudo pensado para isso desde o início, né?
Quando eu vejo, eu passo a noite toda imaginando como é que a gente faz para a gente destruir um negócio daquele tão grande em pouco tempo. Aí é muito grande. E em pouco tempo. Aí a gente tem medo de noite, né, porque diz que ele chega no silêncio, ele chega no silêncio. Aí aqui eu peço aos meninos: não assinem papel de ninguém sem saber, sem conhecer, sem ver.
A gente tá de volta à aldeia da Baixa da Palmeira, no território do povo Kapinawá, em Buíque. Você escutou agora a Irene Monteiro, a Dona Ninha, que tava descrevendo a ansiedade que ela sente quando pensa que tudo pode mudar de repente com a chegada das turbinas eólicas. Importante destacar que não são só esses mega empreendimentos que acabam fazendo pouco caso das comunidades indígenas. A Dona Ninha e o Robério contaram que mesmo a criação do Parque Nacional do Catimbau, e é um parque mesmo, não um parque eólico, tá, envolveu um processo todo atropelado e nada transparente.
Ele foi demarcado em 2002, passando sobre a terra ancestral ocupada pelos Kapinawá, gerou confusão entre os moradores, dificultou o acesso à terra para construir, para cultivar, Mas olha só que curioso, depois que esse território começou a ser alvo de um parque eólico, aí as placas do Parque Nacional ali perto começaram a sumir.
Aí quando foi para vir essas energias aqui, um homem ali da Palmeira, ali da Palmeira, assinou. Outro da serra, do proprietário também na serra, assinou. Aí eles tiraram as placas. Aí o Parque Nacional foi, tirou as placas, tirou a dali da estrada da serra, tirou Essa outra que ficava aqui e tirou outra que tinha lá perto do posto de gasolina do Catimbau. Aí pronto, aí acho que aqui não sei nem se é parque mais nacional, porque eles tiraram as pedras.
Do mesmo jeito que o parque não parece ter sido pensado pro povo capinauá, eu só consigo achar, depois de tudo que a gente apurou, que a energia elétrica que querem produzir ali também não vai ser pra eles. Assim como não foi pra Roselma, nem pros moradores do Quilombo de Macambira. Ser um indígena capinauá no Vale do Catimbal nunca foi fácil. O cacique Robério me contou que era comum que eles se chamassem de caboclos da Mina Grande pra evitar a perseguição.
A identidade. Tu é índio, é? Tu é índio? Não, eu não, eu não. Tem que se negar, porque se dissesse, se afirmasse que era índio, poderia ser aniquilado, fuzilado. Então teve muito essa perseguição e E assim, a gente não, até hoje a gente não se sente, dizer assim, estamos livres de perseguições. Não, é perseguição de direitos, de tirar direitos, e assim sucessivamente. Então teve essas, teve, tem até hoje essa resistência. Tem que resistir para poder existir, porque senão, se não tivermos ligado atento, a gente acaba fraquejando e entregando o que é nosso para outros.
E quando a ameaça das eólicas chegou no território, eles precisaram resistir de novo.
Tem um projeto que tá visando as nossas comunidades, pelo menos 3 aldeias podem sumir do mapa aí, e o nosso direito é de reivindicação. Para que a nossa terra seja demarcada. Pela amorosidade do governo, se nossa terra tivesse já completamente demarcada...
Em fevereiro de 2025, o povo capinauá parou Recife. Depois de marcharem pela região central da cidade, eles ocuparam a sede da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, a ADEPE. A Roselma também tava lá. O protesto deu certo. Num acordo com as secretarias estaduais da Casa Civil, de meio ambiente e de desenvolvimento social, o governo aceitou suspender a licença de operação do Parque Eólico de São Clemente, que fica na região de Caetés.
Também foi reaberto um processo de criar normativas para determinar distâncias maiores entre os aerogeradores e as residências e não instalar parques de energia eólica em território do povo Kapinawá. Mas não deu para comemorar por muito tempo. Menos de 10 dias depois do acordo, Os moradores reclamaram que as turbinas foram religadas. Só que o território do povo Kapinawá ainda resiste sem os cataventos. Em abril de 2025, eles foram até Brasília e conseguiram suspender o leilão dos 126 hectares de uma fazenda endividada sobreposta ao território indígena.
Foi só depois de todo esse barulho que eles foram procurados por um representante de uma das empresas de energia eólica. Só que o cacique não quis saber de reunião na cidade, em escritório de prefeitura, nada disso. Ele chamou o cara para o território.
E aí a galera já tinha esse levantamento todinho. Aí assim, a gente fizemos abertura e deixamos ele bem à vontade, entendeu? Aí quando ele veio para lá e para cá, aí ele disse, pronto, você terminou? Tá aí. Nós começamos a questionar, fazer aí. Aí ele ficou, tutubiou na nas explicações. E aí ficou meio aperreado, tá? E ele começou a engolir seca. Dá água, vamos aí. Botaram água para ele, tal, não sei o quê. E aí ele começou, né, sem perder o rumo, que achou que ia pegar umas ovelhinhas e abrir o curral e tanger para onde quisesse.
E aí só que acabou sendo surpreso, foi surpreendido que a gente não tava tão desinformado como eles achavam que ia encontrar.
Quer dizer, foi preciso brigar muito, marchar até a capital do estado, depois até a capital do país, para daí um representante de uma empresa interessada em explorar os ventos do território conversar de verdade com a comunidade. E isso passa muito, mas muito longe do que deveria ser padrão, que é uma consulta prévia, livre, e informada. Essa é uma das principais recomendações do Guia para uma Transição Energética Justa do Observatório da Branquitude.
Porque nesse momento que você entende os modos de vida daquela comunidade e pensa a possibilidade de reparação a ela. Então é, não se tem muito como pensar uma transição energética sem pensar essa reparação desses territórios racializados. E o Estado produzindo dados sobre isso e cumprindo as convenções, enfim. Então tem uma dinâmica de encadeamento de ações que eu considero bastante importante e que são o objetivo do lançamento do guia, né, que é fomentar esse tipo de encadeamento de ações por parte do Estado brasileiro.
O Tales falou em convenções, né? Uma delas é a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que estabelece regras obrigatórias para proteger os direitos, a cultura e as condições de trabalho de comunidades tradicionais. O Brasil é signatário dela, então isso é regra. O Guia da Transição Energética do Observatório da Branquitude também traz uma série de recomendações para orientar comunidades, formar lideranças políticas e técnicas nos territórios e ainda exigir que o Estado brasileiro considere os dados demográficos e enfrente a invisibilidade estatística que continua ignorando quem está sendo sacrificado em nome de um suposto progresso.
E aqui vale a pergunta que a gente sempre faz: progresso para quem mesmo? Desrespeitar os modos de vida de comunidades e se apropriar dos recursos naturais para beneficiar empresas internacionais nada mais é do que reproduzir as dinâmicas coloniais do passado, só que agora em nome de uma energia limpa, e que curiosamente não tá substituindo as fontes não renováveis.
Eu fico com essa grande interrogação: como é que é limpa Se causa danos à saúde, danos ao meio ambiente, à natureza, né, o bem-estar, a vida, a espiritualidade, os nossos ancestrais. Modifica, modifica o modo de vida de cada comunidade, né, que aquelas comunidades têm que se adequar à realidade do capitalismo. Mesmo e deixar sua essência para segundo plano. Então assim, eu não vejo essa limpeza toda, né, porque para a gente receber, respirar um ar limpo, a gente precisa do máximo de árvore possível.
Diante dessas dinâmicas coloniais, o cacique Robério garante que o povo capinauá vai continuar lutando.
Eu digo, os guerreiros e as guerreiras, sempre aí Sempre deixar afiadas as bordunas, flechas, né? E principalmente a principal arma nossa, que é o maraca, o maracá. Mas só bastou o maracá para o pessoal se acuarem e ver a força que tem.
Antes de ir para os créditos, eu queria indicar uma série tão criativa quanto trabalhosa de um parceiro nosso da Rádio Guarda-Chuva. O Rodrigo Alves, do podcast Vida de Jornalista, se propôs a tocar uma temporada inteira de forma analógica. Isso mesmo que você escutou. Ele quer debater quanto a IA entrou nas nossas vidas e particularmente no jornalismo. É a série Vida Analógica e ela tá fazendo um barulho na podosfera, viu? Depois vai nas redes do Vida de Jornalista para ver como o Rodrigo gravou os episódios sem recursos digitais. E dá o play no seu tocador porque tá fantástico!
Esse episódio do Ciência Suja foi apresentado por mim, Théo Rupprecht, e por mim, Maggie Rodrigues, com o Pedro Belo e o Caio Santos, da Griot Podcasts. O Pedro e o Caio fizeram as captações externas e produziram esse episódio com apoio da Maggie. O roteiro também é do Pedrão e a edição do texto é minha, junto com a equipe toda.
Eu, o Théo e o Pedro gravamos no estúdio Agência de Podcasts. Já o Caio gravou com a estrutura da Grio Podcasts. Ele também fez a edição de som e a mixagem. O Felipe Barbosa coordenou a edição, fez as trilhas e a masterização.
Nesse episódio, nós usamos trechos de uma reportagem da TV Globo de Pernambuco e do filme O Poderoso Chefão.
A Mayla Tanferri e o Guilherme Henrique fizeram a arte de capa do nosso projeto gráfico.
O nosso site foi desenvolvido pelo Estúdio Barbatana. Lá você tem informações complementares dos episódios e sobre como ajudar a gente a seguir com o Ciência Suja e os bônus que recebe ao participar do financiamento coletivo. É www.cienciasuja.com.br.
Você também nos encontra nas redes sociais, que são tocadas pelo Pedro Belo. O Ciência Suja está no Instagram, Facebook, TikTok, Twitter e Bluesky.
Viva a Porta dos Encantados! Viva a Furna dos Encantados! Viva a natureza sagrada! Viva o pajé encantado! Viva o cacique invisível! Quem pode mais do que Salve Deus, salve as matas, salve a terra, salve as águas, salve a natureza sagrada, salve nossas matas, salve o nosso meio ambiente, salve a força Capinauá, salve a força de Ogum, salve a força de Oxóssi, salve Sutã das Matas.
Observatório da Branquitude
Organização que produz conhecimento e pressiona autoridades para que enfrentem as desigualdades raciaisVida de Jornalista
Série "Vida Analógica"