Episódios de Ciência Suja

Fracking: ciência fraturada

23 de julho de 202659min
0:00 / 59:14

A exploração do gás tem avançado no Brasil — e uma técnica especialmente perigosa, o fracking, começa a ganhar os holofotes. A partir de casos reais do Maranhão e da Argentina, conheça os impactos reais dessa atividade, e como a ciência é manipulada para justificar a continuidade do uso desse combustível fóssil.

O Ciência Suja tem apoio do Instituto Serrapilheira, que fomenta a ciência e a divulgação científica no Brasil. 

Para participar do financiamento coletivo do Ciência Suja e conferir o material complementar do episódio, acesse o site: cienciasuja.com.br

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Participantes neste episódio8
A

Alessandro Donaire Santana

ConvidadoDoutor em geografia
C

Cléberson de Souza

ConvidadoPresidente da Associação de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ipiranga
F

Fernando Barraza

ConvidadoComunicador popular indígena mapuche
L

Laércio Oliveira

ConvidadoSenador
L

Luiz Afonso Rosário

ConvidadoEconomista
P

Paulo Sabá

ConvidadoEducador popular e líder comunitário
R

Ravena Araújo Paiva

ConvidadoSocióloga
U

Urias Marçal

ConvidadoGerente de meio ambiente do Instituto Araiyara
Assuntos6
  • O que é o FrackingExtração convencional vs. não convencional · Fraturamento hidráulico · Uso de água, areia e químicos · Gás de folhelho
  • Fracking na Argentina (Vaca Muerta/Chaunco)Povo Mapuche · Qum'efilen (bem viver) · Contaminação de água · Terremotos induzidos · Impactos sociais e econômicos
  • Futuro político e possível vingançaSegurança energética vs. riscos ambientais · Audiência pública no Senado · ABPIP (Associação Brasileira de Produtores Independentes de Petróleo e Gás) · Lei do Gás · Compromissos climáticos (COP30)
  • Gás NaturalMudanças climáticas locais · Rachaduras em casas · Barulho de turbinas · Cheiro de gás · Royalties e falta de obras
  • Prospecção e Impactos IniciaisPesquisas sísmicas com explosivos · Impacto na fauna · Rachaduras em casas · Eneva (MPX)
  • Transparência PúblicaFiscalizacao ANP · Capacidade limitada de fiscalização · Informações produzidas pelas empresas · Argumentos de autoridade vs. ciência
Transcrição133 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

O Ciência Suja tem o selo da Rádio Guarda-Chuva, jornalismo para quem gosta de ouvir.

?Voz B

Nessa época, quando eu era adolescente, esse mês de maio junho e julho era um mês muito frio.

?Voz C

Esse aí é o Paulo Sabá, educador popular e líder comunitário da região de Capinzal do Norte, do interior do Maranhão.

?Voz B

Para a gente dormir em Capinzal, eu particularmente, quando era adolescente, tinha que dormir de camisa de manga comprida, calça, meia, casa trancada e lençol. Hoje já não se tem basicamente isso. É um calor muito intenso durante o dia, especialmente.

?Voz C

Capizal é uma cidade pequena, de pouco mais de 10 mil habitantes e 590 quilômetros quadrados de área. É um daqueles lugares onde quase todo mundo se conhece, onde as pessoas aprendem a medir o tempo pela época da chuva ou pela colheita do caju.

?Voz B

É porque o clima tá meio doido.

?Voz C

Eu ouvi essa frase do Paulo sair da boca de diferentes moradores de lá.

?Voz B

Quando eu era menino aqui em Capizal, eu lembrava que todo mês de junho Era o período do caju. E eu ficava o ano todo esperando a safra. Agora eu vou num pé de caju, ele tá botando. Só que não vou dormir, ele tá botando. O negócio assim meio sinistro.

?Voz C

E não é só o clima que anda meio sinistro por lá. Tem outras coisas acontecendo, como contou o Cléberson de Souza, de uma comunidade quilombola de Capinzal.

?Voz D

Uma varrida passou muito próximo da casa que eu moro. E aí depois da pesquisa, a casa começou a se rachar, né?

?Voz C

E também a socióloga Ravena Araújo Paiva.

?Voz E

Quando eu cheguei na comunidade, a comunidade toda era invadida por um cheiro muito forte de gás. Era assim, eu lembro de ter passado mal por conta desse cheiro e tinha um barulho muito forte das turbinas ali da empresa, do local, da termoelétrica.

?Voz C

Rachaduras nas casas, barulho inquietante de turbinas gigantes. Essas coisas não parecem muito ligadas àquele aumento de temperatura de Capinzal ou ao clima meio doido que o Paulo descreveu. Mas esses sintomas de uma cidade adoecida estão ligados, direto ou indiretamente, a um empreendimento da região. Em Santo Antônio dos Lopes, a poucos quilômetros de Capinzal, fica o polo central do Complexo Termoelétrico Parnaíba, que abriga algumas das maiores termoelétricas a gás natural do país.

Santo Antônio dos Lopes é outra cidade pequena, tem pouco mais de 14 mil habitantes, mas virou o centro de produção de gás natural liquefeito do Maranhão. São das operações desse complexo que vem a barulheira das turbinas e a tremedeira que estaria rachando paredes de casas nessas duas cidades. E é a exploração e o uso incessante de combustíveis fósseis, como o gás natural, que promove o aquecimento global e o calorão cada vez maior em Capinzal do Norte, em Santo Antônio dos Lopes e no resto do mundo.

Mas todo empreendimento desse tipo vem com uma promessa: trazer progresso pra região. Entre 2013 e 2024, Santo Antônio dos Lopes recebeu mais de R$166 milhões em royalties, Vindos da Eneva, a empresa dona do complexo. O valor foi revelado pelo jornalista André Borges, na Folha de São Paulo, em novembro de 2024, com base em dados da Agência Nacional do Petróleo, a ANP. André também revelou que a cidade de Capinzal do Norte recebeu cerca de R$80 milhões.

É dinheiro suficiente para transformar profundamente cidades de pequeno porte como essas.

?Voz B

Mas tem um detalhe: não existe uma obra, uma placa da municipalidade que diga essa obra está sendo construída com recursos que foram adquiridos do governo municipal com os royalties do gás. Se tiver uma placa que diga, só se tiver muito escondida, porque eu desconheço.

?Voz C

O Paulo nasceu em Pedreiras, Mas foi morar em Capinzal ainda na infância.

?Voz B

Desde criança vim, sou criado aqui em Capinzal, tenho 55 anos de idade e desde muito jovem fui militante das causas sociais, de pastorais sociais da minha comunidade católica aqui. Então, Pastoral da Terra, Pastoral da Juventude, Romaria da Terra, tudo isso eu fiquei muito envolvido.

?Voz C

Foi o Paulo que me guiou durante minha visita à cidade. E foi ele também que falou dos problemas estruturais graves que são enfrentados pelos moradores de Capinzal do Norte. É esgoto a céu aberto, descarte irregular de resíduos, baixa cobertura de saneamento básico.

?Voz B

A prefeitura escolhe um local e joga o lixo lá. Não há nenhum tipo de tratamento, mesmo tendo recursos.

?Voz C

Além dos poucos empregos formais.

?Voz B

E aí o impacto aqui gerou muitas expectativas, especialmente quando chegam esses grupos. O que é que a promessa direta? Vai circular muito dinheiro. Circulou dinheiro, a vida vai melhorar.

?Voz C

Mas quando a gente olha para os indicadores econômicos de Capinzal do Norte, aparece uma contradição difícil de ignorar. Ao longo da última década, o município viu o seu Produto Interno Bruto crescer impulsionado pela cadeia do gás natural.

?Voz B

Essa foi a primeira grande, a primeira grande questão. E quando chegou às reuniões, aí tinha várias audiências públicas, reuniões, e aí só se falava nos benefícios. Benefício o quê? Melhorar o aspecto econômico do município.

?Voz C

Mas a riqueza não chegou com a mesma força para a população. Em 2023, o salário médio dos trabalhadores com carteira assinada era de apenas 1,1 salário mínimo. E apenas 436 pessoas tinham um emprego formal em uma cidade com mais de 10 mil habitantes. Esses dados são do IBGE, que é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Mas antes de chegar a Capinzal e antes de conversar com o Paulo, eu já tinha lido muita coisa sobre gás natural.

Relatórios técnicos, pesquisas acadêmicas, estudos ambientais. Também já tinha escutado discursos e teses sobre esse assunto, vindos de empresas, de governos e de políticos também. E uma parte considerável delas repetia a mesma ideia: que o gás natural tem tudo pra ser o combustível da transição energética no Brasil. Uma espécie de ponte entre o petróleo e o futuro abastecido por fontes renováveis. Parece uma boa história. Mas depois de percorrer essas comunidades, uma pergunta ficou rondando minha cabeça por um tempo.

Se o gás natural é tão importante assim, se ele produz tanta riqueza, se movimenta bilhões de reais e se apresenta como motor do desenvolvimento e da transição energética? Por que tanta gente que vive literalmente em cima dessa riqueza toda continua sem acesso a serviços básicos? Onde é que foi parar toda essa promessa de desenvolvimento?

?Voz F

Até chegar nas respostas para essas perguntas, ainda tem muita água para rolar nesse episódio. Água e gás, energia, lobby político, uma pitada de pseudociência, E até uma técnica tão controversa de extração de gás que já foi proibida ou restringida em alguns países, inclusive em certos estados brasileiros. E ainda assim continua sendo apresentada por seus defensores como uma solução científica para o futuro energético. É o fracking, ou fraturamento hidráulico não convencional.

?Voz G

O Luan Mateus Santana, que você tava ouvindo até agora há pouco, é um jornalista socioambiental que atua na fronteira do Piauí e Maranhão. E que participou da nossa chamada de pautas com foco nas eleições. O Luan já esteve aqui no Ciência Suja no começo desse ano, com uma pílula bem legal sobre o sambaquis do Piauí. Ele inclusive vai lançar logo mais o podcast Piranhão, junto com o pessoal do OcorreCast. Vale muito ficar de olho e já ouvir o episódio 0 que está disponível.

E bom, o Luan agora está voltando com uma história que começa como promessa de desenvolvimento, mas termina em conflitos ambientais, disputas territoriais e muitas perguntas sem resposta.

?Voz F

E essa história não conversa apenas com Capinzal do Norte e Santo Antônio dos Lopes, embora isso já fosse mais do que suficiente pra gente abordar aqui. E ela nem é só sobre gás. Por trás do tal fracking tem uma disputa energética acontecendo neste exato momento enquanto você escuta o nosso podcast. Eu sou a Meg Rodrigues.

?Voz G

Eu sou o Téo Rupprecht. E esse é o Ciência Suja, o podcast que mostra que em crimes contra a ciência, as vítimas somos todos nós. Quando a gente fala em exploração de combustível fóssil, acho que a primeira cena que vem na cabeça dos brasileiros são daquelas plataformas gigantes de petróleo no meio do mar. Ou daqueles navios iluminados que aparecem nos telejornais. Mas a história de hoje acontece bem longe do litoral, em uma região de chapadas, babaçoais e comunidades rurais espalhadas entre municípios do médio Parnaíba maranhense, já perto da fronteira com o Piauí.

?Voz F

E antes de continuar, vale explicar uma coisa: o gás natural não brota do chão do nada. Ele precisa ser encontrado, perfurado, captado, processado, transportado, e só depois de ser queimado em termoelétricas que ele vira energia e fumaça poluente. Mas tem outro detalhe importante: existe mais de uma forma de tirar gás debaixo da terra. E aqui nós vamos nos concentrar em uma dessas formas, que é o tal do fracking. Nos últimos anos, essa técnica se tornou alvo de debates científicos, ambientais e políticos em diversos países.

?Voz A

Bom, antes de explicar o que é o fraturamento hidráulico, o fracking, vale a pena entender como o petróleo e o gás natural convencionais que a gente já conhece chegam ao subsolo.

?Voz F

Então, vamos dar dois passinhos para trás e deixar o professor Alessandro Donaire Santana que é doutor em geografia pela Universidade Estadual Paulista, descrever esse processo todo de produção e exploração de gás natural.

?Voz A

Bom, tudo começa há milhões de anos, quando grandes quantidades de matéria orgânica foram sendo soterradas por sedimentos. Ao longo de milhões e milhões de anos, a pressão e o calor transformaram essa matéria orgânica em petróleo e gás natural. Esses recursos, eles se formam dentro de uma rocha chamada rocha geradora.

?Voz F

Essa rocha geradora é cheia de restos de algas, plâncton, plantas e outros organismos que foram depositados muito tempo atrás no fundo de mares, lagos ou outros ambientes. E talvez fique mais fácil de entender essa rocha e a formação do gás natural com uma comparação. Então imagina uma esponja de cozinha. Ela é cheia de furinhos e quando você joga água, ela entra, circula e depois sai com facilidade ao ser apertada. A rocha reservatório é como essa esponja.

Ela tem poros naturais onde o petróleo e o gás ficam armazenados. Quando um poço é perfurado, eles conseguem escoar o combustível fóssil até a superfície com relativa facilidade.

?Voz G

Agora, isso aí é a extração convencional. Então vamos imaginar um outro cenário. Em vez de uma esponja, pensa num bloco de concreto. Ele também pode ter pequenos poros, Mas eles são tão minúsculos e tão pouco conectados que a água praticamente não consegue passar. É assim que funciona o folhelho, uma rocha de baixíssima permeabilidade onde fica o chamado gás não convencional. O gás tá lá dentro, mas ele fica preso nesses poros microscópicos, sem conseguir se movimentar.

Em algumas regiões do mundo, como partes dos Estados Unidos, da Argentina e também aqui do Brasil, O petróleo e o gás estão aprisionados nesses blocos de concreto, entre aspas, e não conseguem sair com facilidade.

?Voz A

É como tentar retirar água de uma pedra extremamente compacta. Apenas perfurar um poço não resolve o problema, porque o gás simplesmente não consegue circular pela rocha. Foi justamente pra superar essa dificuldade que surgiu o fraturamento hidráulico.

?Voz G

Então, no fracking, quando o poço alcança a camada onde está o gás, O pessoal deixa de perfurar pra baixo e começa a avançar horizontalmente por centenas ou até milhares de metros dentro da própria rocha. Depois disso, todo o poço é revestido com tubos de aço e cimento pra isolar ele das demais camadas geológicas.

?Voz A

Na etapa seguinte acontece o fraturamento hidráulico propriamente dito. É injetada uma enorme quantidade de água misturada com areia e aditivos químicos sob altíssima pressão. Essa pressão provoca pequenas fraturas na rocha, que é o fraturamento.

?Voz G

A areia tem um papel importante nessa história. Quando a rocha se quebra, a areia fica presa dentro das rachaduras pra impedir que elas se fechem de novo. É como se ela mantivesse os caminhos abertos pro gás conseguir passar até o poço onde será retirado. No fim das contas, a grande diferença entre a exploração convencional e a não convencional, o fracking, né, Não tá no gás que é extraído, porque o gás é o mesmo. O que muda é o lugar onde ele tá preso e o que precisa ser feito pra tirá-lo de lá.

Pra quem quiser se aprofundar, a gente vai deixar uns links de apoio na descrição do episódio e no material complementar.

?Voz F

Tem ainda uma outra etapa que vem antes de tudo isso, Théo. A prospecção. Que é basicamente uma tentativa de enxergar o que existe debaixo da terra sem precisar escavar ou fraturar ela toda antes, o que geraria prejuízo. Muitas empresas chamam essa etapa de pesquisa, que dá um caráter quase inofensivo e até científico para a coisa, mas ela é igualmente complexa e cheia de riscos. E foram casos de prospecção para um possível fracking que o Luan encontrou lá em Capinzal do Norte.

No começo, as comunidades mal sabiam o que estava sendo pesquisado debaixo dos próprios pés e elas não receberam explicações detalhadas sobre a exploração de gás ou sobre os planos para a região. Mas já diziam estar sentindo os impactos desse processo.

?Voz C

É isso, Mag. O primeiro contato de muitas pessoas com a indústria do gás não aconteceu por meio de uma audiência pública, de uma reunião explicando o projeto. Ou de uma discussão imparcial sobre desenvolvimento. Eu percorri algumas comunidades nessa região e em uma delas eu encontrei o Cleberson de Souza, que você ouviu no começo do episódio. Ele é presidente da Associação de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Ipiranga, uma comunidade quilombola de Capinzal.

Cleberson me falou como foi o primeiro contato dele com a possibilidade de existir gás debaixo da terra onde sua comunidade vive há gerações.

?Voz D

Rapaz, quando a gente ouviu falar pela primeira vez, né, foi quando começou as pesquisas, né, que primeiramente entrou uma empresa que no tempo a gente conhecia ela como Geo Radar. Essa foi que começou as pesquisas dentro do território, aonde eles abriam uma vareta e nessa vareta eles saíam soltando, né, nós conhecemos como bombas, que é uma dinamite, que diz que é as dinamites de pesquisa.

?Voz C

As bombas que o Clebson comentou fazem parte das pesquisas sísmicas. Uma das técnicas de prospecção. As explosões provocadas produzem ondas que atravessam as camadas de rocha e retornam à superfície. Isso permite que geólogos identifiquem possíveis reservatórios de petróleo e gás.

?Voz D

E aí foi daí que começou o histórico da empresa MPX, que hoje a Eneva, né, que comprou os, acho que os direitos da MPX, né.

?Voz C

Então, reforçando: a Eneva controla o Complexo Termoelétrico Parnaíba, que já extrai gás natural com os métodos convencionais e usa esse mesmo gás pra gerar e vender energia na região. E a Eneva já manifesta interesse no uso do fracking aqui no Brasil há pelo menos 6 anos, quando o governo federal lançou um projeto chamado Poço Transparente, por meio do Programa de Parcerias e Investimentos. Esse projeto foi criado durante o governo Bolsonaro, em 2020, e foi pensado para viabilizar a realização do primeiro projeto piloto de fraturamento hidráulico em reservatórios não convencionais do Brasil.

Mas esse debate todo passou longe da comunidade do Clebisson. Por lá não se falava em royalties, muito menos em geração de energia ou transição energética. Mas desde as primeiras pesquisas na comunidade, o que existia era uma sensação de que alguma coisa grande estava chegando. Aos poucos, os moradores começaram a perceber mudanças que, para eles, coincidiam com a passagem das equipes de pesquisa. Até porque essa coisa de pesquisa, de prospecção, parece uma tecnicidade, mas para quem tá ouvindo explosões perto de casa, a experiência era outra.

?Voz D

Dentro da minha comunidade tem alguns relatos que no período das explosões da dinamite As caças que eram caçadas pelos moradores da minha comunidade, elas ficaram em extinção. E aí o pessoal culpa que foi por motivo das bombas, né? Porque também foi feito, se eu não me engano, 3 ou foi 4 pesquisas dentro da nossa comunidade.

?Voz C

Essa percepção não se limita aos animais. Clebson mora há mais de 3 décadas na comunidade. A casa onde ele vive foi construída no início dos anos 2000. Segundo ele, as rachaduras começaram a aparecer só depois do início dessas prospecções.

?Voz D

Uma varejista passou muito próximo da casa que eu moro e aí depois da pesquisa a casa começou a se rachar, né? O piso embaixo tá todo rachado e ela mesma em si toda rachada. E aí eu também já fiz vários investimentos nela e ainda não pude Combater e nem saber por que motivo tá acontecendo isso, dela tá tanto rachada, né? Tanto a minha quanto a do meu vizinho. São as duas casas onde a vareda passou bem no meio.

?Voz C

Essas varedas, ou veredas, que o Clabson fala são caminhos ou corredores estreitos abertos no meio da vegetação pra viabilizar o deslocamento das equipes de pesquisa.

?Voz G

É importante dizer que não existem estudos que comprovem uma relação direta entre as pesquisas sísmicas na região e a redução da fauna local. Mas também não teve um monitoramento detalhado disso e de outros impactos ambientais. Até porque tem um negócio interessante: o fracking nunca chegou a ser usado comercialmente no Brasil pra explorar gás de folhelho, aquele gás não convencional que fica preso nas rochas menos permeáveis.

Embora a Agência Nacional do Petróleo tenha leiloado áreas pra esse tipo de exploração e o país possua grandes reservas de gás não convencional, A técnica encontrou uma forte resistência. Então, como saber dos impactos reais antes que eles, de fato, aconteçam? Quem começou a responder isso pra gente é o economista Luiz Afonso Rosário, consultor e articulador no Brasil de uma organização global, a A350.org. O Afonso acompanha essa discussão desde quando o fracking era praticamente desconhecido.

?Voz H

Fraturamento hidráulico é um... É uma tempestade que nos assombra, né, já desde 2007. Primeira liderança indígena que eu vi falar sobre, eu nem eu tinha ouvido falar sobre fracking, numa entrevista junto à Folha de São Paulo, foi o nosso Tchai, cacique Ninawau Nikuin, lá do Acre, que ele falava sobre os impactos do fraturamento hidráulico junto às comunidades indígenas tradicionais, pescadores e assim por diante.

?Voz G

Desde essa época já tinha prospecção para fracking no Acre, mas naquela época o assunto ainda parecia distante do Brasil como um todo. Aí em 2012 teve aquele leilão da Agência Nacional do Petróleo que eu comentei, envolvendo a exploração de gás em várias regiões do país, e a preocupação dos ambientalistas cresceu.

?Voz H

Então essa discussão A reação veio muito, muito fortemente no sul do país, na região do Paraná, no norte do Paraná, na região de Toledo, que é uma região extremamente rica no agronegócio.

?Voz F

Então, sendo bem pragmática aqui, dá para dizer que o debate sobre o impacto socioambiental do fracking ganhou força porque os blocos colocados para exploração pelo governo coincidiam com áreas de enorme importância econômica. O fracking e a exploração do gás de maneira geral estavam concorrendo com o agro, sacou? Foi aí que começaram a surgir as primeiras grandes mobilizações contra o fracking no Brasil.

?Voz H

E aprovamos uma lei no estado do Paraná, por exemplo, que proibiu a exploração de gás em cima do Aquífero Guarani. Santa Catarina logo depois veio atrás. Isso foi em 2014, 2015, foram uns 3 anos de grande luta.

?Voz F

Até por isso, a gente não tem um case nacional de extração comercial de fracking para além de prospecções. Mas o Afonso e a 350.org vêm acompanhando faz tempo uma região latino-americana em que o fracking já é realidade. Ela fica na Patagônia argentina e se chama Chancó, mas ficou conhecida como Vaca Muerta pela formação geológica onde foi descoberta uma grande reserva de petróleo e gás. E o apagamento da comunidade começa aí, pelo nome da região. Maimari kampuche, maimari puwanui.

?Voz B

Inti ta Fernando Barraza pinguen.

?Voz I

Olá, olá, como estão todas e todos? Como estão amigas e amigos? Meu nome é Fernando Barraza, sou mapuche.

?Voz B

Sou mapuche.

?Voz F

Esse é o Fernando Barraza, comunicador popular indígena mapuche. Como ele fala em espanhol, o nosso Felipe Barbosa vai traduzindo aqui. Bom, o Fernando reivindica o nome originário do seu território, Chaunco.

?Voz I

A primeira coisa que precisa ficar clara é que esse território não se chama Vaca Muerta. Vaca Muerta é uma formação geológica onde foi descoberta uma grande reserva de petróleo e gás. Perderam a sua identidade territorial e passaram a ser conhecidos pelo mundo inteiro inteiro como os habitantes de Vaca Muerta, é a primeira coisa que aconteceu. Foi o nome. É uma questão de identidade.

?Voz B

É nominal.

?Voz F

Não, é uma questão de identidade. É ali em Chancó, que significa o encontro das águas, que os rios Limay e Neuquén se unem para formar o Rio Negro. E pecando pelo óbvio aqui, né, gente? Esse Rio Negro não tem nada a ver com o nosso Rio Negro Amazônico. Ele fica lá embaixo, na Argentina, e é um dos sistemas hídricos mais importantes da Patagônia. Não por acaso, é justamente nessa região marcada pela abundância de água que se concentra uma das maiores explorações de petróleo e gás não convencional do mundo.

Lembra que, além de areia, o fracking depende de muita água para ser injetada em alta pressão e fraturar as rochas?

?Voz I

Para o povo Mapuche, a coexistência cotidiana é com todas as formas de vida. Nós chamamos isso de Qum'efilen, o bem viver. Precisamos contribuir muito para que haja um equilíbrio com o território e todas as suas formas de vida. E vocês devem imaginar que isso gera uma tensão muito grande em relação aos interesses econômicos que circundam o extrativismo.

?Voz G

Então, diante da pressão econômica, Chaunkó deixou de ser vista como um território ancestral e se transformou numa espécie de laboratório latino-americano da exploração de gás não convencional. O Fernando contou que a exploração de gás na província de Neuquén, que faz parte da região, acontecia por meios convencionais até o começo da década de 2010. Mas aí o fracking passou a ocupar o território e mudou profundamente a vida dos mapuche.

O Fernando disse que seu território foi invadido por um monte de poços, caminhões, oleodutos e enormes reservatórios de rejeitos.

?Voz C

O panorama é desolador.

?Voz I

O sistema de extração através do fracking é extremamente invasivo. Se trata da perfuração e explosão do subsolo, destruir e pulverizar a rocha, encher de líquido, e estamos falando de milhares e milhares de litros de água dos nossos rios, que depois voltam cheios de metais.

?Voz G

De acordo com ele, as casas de comunidades como Salsal Bonito estão todas rachadas. O gado vive estressado. As encostas deslizam com maior facilidade e a vegetação foi afetada. Até terremotos teriam se tornado mais frequentes. A gente localizou algumas pesquisas confirmando isso. Uma das mais recentes foi publicada em 2024 e liderada pelo Ryan Schulz, que é pesquisador do Serviço Sismológico Suíço. A pesquisa se baseia em fortes evidências estatísticas que relacionam o momento e a localização dos terremotos com as operações de fraturamento.

As estimativas mais conservadoras deles indicam que cerca de 0,5% dos poços submetidos ao fraturamento hidráulico induziram terremotos, com magnitudes que chegam a 4 na escala Richter. E conforme o Fernando dava o seu relato, cada vez mais o Luan, aqui do episódio, ia pensando no seu Maranhão.

?Voz C

Pois é, Téo. Enquanto ele falava, era impossível não lembrar de algumas histórias que eu ouvi no Maranhão. Claro, são contextos diferentes, mas ouvir o Fernando era, de alguma forma, enxergar uma possibilidade de futuro. Eu pensei nas rachaduras relatadas pelos moradores de Capinzal, nas explosões das pesquisas sísmicas e até na preocupação das comunidades com o uso da água, como Afonso lembrou.

?Voz H

E lá eles têm um problema muito sério, tal quanto no Nordeste também nós temos, que é a questão da água, né? A competição pela água. Esse tipo de atividade petrolífera, esse tipo de atividade de exploração de gás, ela precisa de muita água para poder estimular a saída.

?Voz C

Como a gente já falou, as empresas precisam de muita água para a extração desses combustíveis fósseis, o que pode afetar o abastecimento da região e polui os aquíferos, por exemplo. Só que ainda tem um aspecto cultural. Pros Mapuche, não é apenas um recurso natural. Ela envolve uma relação espiritual.

?Voz I

Os impactos sociais, ambientais e de saúde que trouxe o fracking estão vinculados à enfermidade de um dos espíritos mais importantes do território: a água. A contaminação sistemática das fontes de água trouxe doenças para as plantas, Para os animais e para as pessoas.

?Voz C

E tem ainda outros paralelos aqui com a minha região: as muitas promessas de empregos, desenvolvimento e progresso.

?Voz I

Não para de chegar gente atraída pela promessa de encontrar trabalho. Mas isso não acontece como dizem. Anhelo tem hoje os aluguéis mais caros do país e, ao mesmo tempo, um enorme cinturão de pobreza. Estamos sobre uma das maiores reservas de gás da América do Sul, mas muitas famílias não têm acesso ao gás encanado e dependem de botijões.

?Voz C

A chegada da indústria também trouxe problemas sociais, aumento no consumo de álcool e drogas, prostituição e mudanças profundas na vida das comunidades, ao ponto de o Fernando achar difícil encontrar alguma consequência positiva dessas transformações. Então, depois do intervalo, a gente volta para o Maranhão, para os impactos já vistos do fracking e da exploração do gás natural de maneira geral, e também para os debates sobre o monitoramento dessas atividades.

?Voz F

O Ciência Suja tem apoio do Instituto Serrapilheira, que financia a ciência e a divulgação científica no Brasil.

?Voz G

Além do apoio do Serrapilheira, A gente tem um programa de financiamento coletivo que ajuda a manter o podcast no ar de forma recorrente. Então procura pelo Ciência Suja na Apoia.se, na Patreon ou na Urelo e assina o plano que mais fizer sentido pra você. A gente garante newsletter, episódio antecipado e, até dependendo da categoria, uns brindes e sorteios de livros. Eu queria aproveitar e agradecer especialmente aos apoiadores da categoria Paladinos da Ciência, como a Daniela Zappa, o Gustavo Angeoletto Scramin, o Johnny Martins e o Rômulo Neves.

?Voz F

A gente também queria aproveitar para indicar um parceiro da nossa querida Rádio Guarda-Chuva. É o podcast Afluente, que traz reportagens semanais sobre Amazônia ou a partir dela. O podcast é tocado pelo Bruno Tadeu e tem um episódio duplo muito interessante sobre os indígenas Moura, que estão defendendo o próprio território de gente interessada instalar minas de potássio. Vai do Brasil colônia aos dias de hoje. Vale a pena. Antes do intervalo, a gente tava focando um pouco mais no fracking porque ele parece ser especialmente perigoso.

Mas isso não significa que a extração convencional de gás é inofensiva, tá? Pensando no macro, o principal componente desse combustível é o metano, um gás de efeito estufa extremamente potente. Segundo a Agência Internacional de Energia, o metano já é responsável por cerca de 30% do aquecimento global observado desde a Revolução Industrial. E o setor de petróleo e gás está entre as principais fontes dessas emissões. Nessa cadeia de produção, o metano é liberado quando o gás natural é queimado para gerar energia, mas ele também escapa para a atmosfera durante a extração, o processamento e o transporte.

Ou seja, o problema não começa quando o gás chega à termoelétrica. Ele começa muito antes, ainda no caminho entre o subsolo e a geração de energia. Ah, mas as termoelétricas e a exploração do gás ajudam a desenvolver os municípios onde elas estão. Será mesmo? Não foi isso que o Luan encontrou no Maranhão, não.

?Voz C

É, então lembra do Clebson? Daquela comunidade quilombola de Capinzal, aqui no Maranhão? Então, esse território reúne cerca de 150 famílias distribuídas em 3 localidades. É bastante gente pra enxergar algum avanço vindo do dinheiro da exploração do gás. Mas essa grana, e aqui eu tô falando independente da forma de extração, não parece ter se convertido em desenvolvimento social, porque os serviços básicos continuam precários.

?Voz D

Até o momento não se tem uma obra dentro da comunidade que tenha sido feito pelo município. E se foi feito, o município é que tinha que dizer para a comunidade que esse recurso que foi feito àquela obra era um recurso alocado dos impostos da empresa.

?Voz C

O Cléberson contou que as escolas do território quilombola estão funcionando e que há um acompanhamento de saúde com visitas de profissionais uma vez por mês.

?Voz D

Temos um posto de saúde que foi construído há 10 anos atrás, né, que ele ficou praticamente para ser funcionado. Mas aí a gestão que hoje está em Capinzal não colocou em prática, e o posto tá lá se acabando a cada dia que passa.

?Voz C

O Paulo Sabá, que a gente também apresentou lá na abertura do episódio, acompanha essa história faz tempo. Ele é presidente da Associação da Escola Família Agrícola de Capinzal Irriga Norte, uma instituição que trabalha com formação de jovens agrícolas da região. E essa é, ao que parece, uma das poucas associações que começaram a debater os impactos sociais da exploração do gás na região.

?Voz B

Olha, essa exploração do gás aqui, ela remete aos anos lá pela primeira metade, início da segunda metade dos anos 80, que chegou Uma equipe de prospecção da Petrobras. Tinham 2 helicópteros trabalhando direto aqui. E aí a gente ouvia nessa época, eu adolescente, explosões de dinamite, muitas explosões.

?Voz C

Paulo contou que depois disso rolou uma calmaria de quase 20 anos. E aí as empresas voltaram com um discurso muito parecido.

?Voz B

A promessa direta: vai circular muito dinheiro. Circulou dinheiro, a vida vai melhorar. Esse é o maior atrativo. Já tinha várias audiências públicas, reuniões, e aí só se falava nos benefícios.

?Voz C

É curioso porque essa narrativa aparece em praticamente todas as regiões onde grandes projetos de mineração, petróleo ou geração de energia são instalados. Primeiro vem a promessa do desenvolvimento, depois vem as estimativas, investimentos, arrecadação, crescimento econômico, e isso sempre de empresas que são parciais no debate, né? Só que esses dados vão perdendo a força com o tempo, e uma pergunta começa a aparecer: quem realmente passou a viver melhor depois da chegada do dinheiro do gás? O Paulo me respondeu com outra pergunta: para onde vai esse dinheiro?

?Voz B

Qual tipo de prestação de contas tem? Só em Capinzal, desse de 90 a 100 milhões, O que foi feito? Me diga uma obra, um benefício que foi convertido num benefício coletivo.

?Voz C

Eu procurei a Prefeitura de Capinzal para eles responderem essas perguntas, mas até o momento do fechamento desse roteiro, eles ainda não tinham respondido.

?Voz F

Como você sabe, outro lugar que o Luan visitou e reforça essa história é Santo Antônio dos Lopes. De novo, ali o pepino já começou com a extração convencional de gás mesmo, tá?

?Voz C

Em 2013, a usina termoelétrica Parnaíba obteve a licença de operação, e aí a vida dos moradores do município mudou bastante. Isso ficou particularmente claro com a comunidade rural de Demanda, que fica bem pertinho da termoelétrica. À medida que as obras avançavam, o babaçuau, que garantia a renda das mulheres quebradeiras de coco, foi destruído. Caminhos tradicionais foram interditados, áreas de roça, açudes e locais de criação de animais desapareceram.

O igarapé que abastecia as famílias foi comprometido. E o cotidiano passou a ser marcado pelo cheiro constante de gás e pelo ruído das turbinas da usina. Viver naquele lugar ficou cada vez mais difícil, até que os moradores de Demanda foram forçados a sair do território onde viviam há gerações. O reassentamento aconteceu no final de 2024. A história de Santo Antônio dos Lopes e, particularmente, de Demanda vem sendo acompanhada por alguns estudiosos.

Uma dessas pesquisadoras é a socióloga Ravena Araújo Paiva, doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará. Ela começou a observar essa comunidade em 2014, quando a termoelétrica ainda estava sendo implantada, e transformou essa experiência em pesquisa acadêmica.

?Voz E

Quando eu cheguei na comunidade, a comunidade já estava em atrito, digamos assim, com a empresa, porque ali já tinha um contexto de promessas que foram feitas e não foram cumpridas. Inclusive, eu relato na dissertação que eu fui recebida assim de forma meio hostil, né, porque eles achavam que eu era da empresa.

?Voz C

A Ravena contou que os moradores de Demanda nunca quiseram sair dali. O reassentamento só passou a ser defendido depois que permanecer naquele lugar deixou de ser uma opção viável.

?Voz E

A comunidade toda era invadida, tinha um cheiro muito forte de gás. Era assim, eu lembro de ter passado mal por conta desse cheiro e tinha um barulho muito forte das turbinas ali da empresa, do local da termoelétrica.

?Voz C

Além do barulho permanente e do cheiro de gás, as pesquisas da Ravena destacam dificuldades para manter os modos de vida da população e uma sensação crescente de que o território já não pertencia mais às famílias dali.

?Voz E

Porque eles chegam com promessas e aí lá eles diziam que eles iam ser vizinhos, que eles iam tomar café na casa deles, que eles iam trocar, que isso, que aquilo. E aí depois, mas cercear os caminhos tradicionais, né? Dizer, olha, aqui você pode passar, aqui você não pode. E aí tem aquela coisa dos homens estranhos à comunidade, que as mulheres às vezes não conseguiam passar por determinados caminhos que elas já utilizavam há muito tempo.

Pelo medo mesmo, enfim, eles plantavam e já não dava mais, né? Já ficava, já nascia deformado. O próprio açude que tinha a comunidade, que eles usavam para pescar e lavar roupa, enfim, tava com cheiro muito forte. Foram várias problemáticas que foram se somando até que a comunidade resolveu pelo reassentamento.

?Voz C

Mas mudar de lugar não resolveu o problema. O deslocamento compulsório acabou produzindo uma outra perda. Muito mais difícil de medir em relatórios técnicos: a da destruição das relações sociais que sustentavam a comunidade.

?Voz E

Que a gente sempre chama de deslocamento compulsório, porque as pessoas não queriam, né, sair de lá. E ainda nesse processo de imposição de uma dessa situação, a empresa achou por bem definir condicionantes assim de quem que poderia ir para o novo lugar, de quem que não se encaixava Eles defenderam critérios para esse deslocamento acontecer. Não pode nascer, não pode casar, não pode. Eles fizeram um levantamento dos habitantes, das pessoas que moravam na comunidade num determinado tempo, período, e aí depois dali não poderia entrar ninguém.

?Voz C

O novo território era dividido por uma rodovia e até a disposição das casas passou a ser decidida pela empresa. Na conversa, Ravena insiste numa ideia que aparece poucas vezes quando se fala de grandes obras: território não é apenas um pedaço de terra. É memória, cuidado e uma forma de viver construída por gerações. Quando esses vínculos são rompidos sem qualquer contato, o impacto vai além da mudança de endereço.

?Voz E

O caso da Demanda é muito emblemático porque ele mostra exatamente o que essas grandes obras de desenvolvimento representam para os povos. Povos e comunidades tradicionais. Eles perderam a própria, o lugar que eles viviam, que eles estavam lá mais de 100 anos. E aí chegou uma empresa e aí tornou eles estranhos no próprio território.

?Voz G

Implementar projetos dessa dimensão não afeta apenas quem trabalha no setor de energia. Esses empreendimentos mudam a vida de agricultores, quilombolas, quebradeiras de coco, E ainda assim, muita gente que pode ser diretamente impactada nunca participou de uma conversa aprofundada sobre o assunto. Isso aconteceu com a exploração convencional do gás e agora tá se repetindo com o fracking. Escuta de novo Paulo Sabá, líder comunitário de Capinzal do Norte.

?Voz B

A desinformação aqui, ela é total e plena. Hoje, vai na rua, na feira, aqui em Capinzal, Vai em qualquer escola em Santo Antônio dos Lobos. Gente, você sabe qual é o impacto que o fracking... Não, ninguém sabe.

?Voz G

E o lance é que boa parte das informações que chegam às comunidades vem justamente de quem tem interesse na expansão da exploração do gás. Então o debate acontece de forma profundamente desigual. Quase ninguém ali tá sabendo do caso de Chauncó, na Patagônia argentina, por exemplo. Até por isso, regulações e fiscalizações rigorosas são especialmente importantes. E aí vem outra questão: quem fiscaliza? Quem acompanha? Quem garante que tudo aquilo que tá assegurado nos relatórios realmente acontece no território?

O professor Alessandro Santana, que você já ouviu antes e é doutor em Geografia pela Unesp, deu nome a alguns bois.

?Voz A

Bom, no Brasil essa fiscalização envolve diferentes instituições. A ANP, que é a Agência Nacional do Petróleo, fiscaliza os aspectos técnicos da exploração. Já órgãos ambientais acompanham o licenciamento e as condicionantes ambientais. E aí, dependendo do caso, também participam agências estaduais, Ministério Público e outros órgãos de controle. Beleza, então órgãos para fiscalizar existem, mas o problema é que uma coisa é o que está previsto na legislação, outra é a capacidade real de fiscalizar uma atividade dessa complexidade.

Inclusive, durante minha pesquisa, um representante A própria ANP reconheceu que a fiscalização é um enorme desafio.

?Voz F

Fora que a fiscalização deveria ser feita também por órgãos que focam no meio ambiente e em aspectos sociais, não na produção de gás. Quem trouxe esse ponto da competência da fiscalização foi Urias Marçal, gerente de meio ambiente do Instituto Araiyara.

?Voz J

Nós da Araiyara, pelo conhecimento que temos, acreditamos que a O órgão competente para fazer o licenciamento dessas atividades seria o IBAMA, pela obviedade, pela ampliação que teve o órgão, pela quantidade de técnicos muito competentes, técnicos que já trabalham há décadas com o setor de exploração de petróleo e gás.

?Voz F

O Instituto Arayara acompanha há mais de uma década o avanço do fracking no Brasil e atua no monitoramento de políticas públicas ligadas à exploração de petróleo e gás. E o Urias comentou que concessões complexas de empreendimentos enormes às vezes estão sendo tratadas em âmbito estadual, onde é mais fácil que o poder econômico exerça uma pressão desigual. Segundo ele, essa é uma das maiores fragilidades desse debate. Embora existam órgãos responsáveis pelo licenciamento e pela fiscalização ambiental, a capacidade e a competência são limitadas.

E isso é um problemão, porque boa parte das informações que embasam o licenciamento é produzida pelas próprias empresas interessadas na exploração. Então, sem ter gente boa e em boa quantidade para checar cada linha dos relatórios, o risco de a sociedade mais perder do que ganhar com esses negócios aumenta.

?Voz G

E tem também uma questão de transparência e de desinformação mesmo. Sobre esses empreendimentos. Pega o exemplo do fracking de novo. Hoje, ele tá no banco dos réus. O Superior Tribunal de Justiça tá analisando uma ação que pode definir os rumos da exploração de gás de folhelho no Brasil. A Arayara Dúrias é uma das organizações que atua nesse processo. E segundo ele, o julgamento acabou revelando muito mais do que uma discussão técnica.

?Voz J

É que muitos dos panelistas lá Eles chegam mais com argumento de autoridade do que necessariamente argumentos científicos. É, se você vê apresentação que a gente trouxe, toda ela tá referenciada com danos na saúde, com danos ao meio ambiente, com danos à água superficial, água subterrânea, com má formação congênita em crianças, enfim, nos fetos e tudo mais. E aí o pessoal chega com, ah, eu sou doutor petróleo pela universidade tal, não sei o quê, papapá, e assim vai mais no argumento de autoridade, não se respalda em nenhuma informação científica.

?Voz G

Se ligou como os setores interessados estão tentando vender essa ideia para o poder público? A audiência que o Urias mencionou aconteceu em novembro de 2025. O objetivo era discutir se o fracking, o fraturamento hidráulico não convencional, né, pode ser utilizado no país. De um lado Representantes do Ministério do Meio Ambiente, pesquisadores e entidades ambientalistas defenderam que o fracking representa riscos importantes para os recursos hídricos, para a agricultura, para o clima e para a saúde das populações que vivem próximas às áreas de exploração.

Do outro, integrantes do governo federal ligados à área de energia e representantes do setor de gás sustentaram que a técnica ampliaria a segurança energética do país e estimularia o desenvolvimento econômico. O Alessandro Santana tá de olho nesse processo também e disse um negócio bem interessante: o que tá em disputa são projetos de futuro diferentes pro Brasil.

?Voz A

O fraturamento hidráulico não deve ser avaliado apenas pela promessa de segurança energética ou crescimento econômico. Ele precisa ser analisado a partir dos seus efeitos territoriais concretos. Antes de qualquer decisão, sobre a expansão ou regulamentação no Brasil, seria necessário perguntar: quais bacias sedimentares seriam afetadas? Quais aquíferos estão envolvidos? Quais populações vivem nesses territórios? Que atividades econômicas já existem ali?

?Voz G

E a gente também precisa se perguntar se o risco de contaminação de aquíferos, se o aumento de emissão de gases poluentes, se a insistência nos combustíveis fósseis se essas coisas todas conseguem andar junto dos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil na COP30, a conferência da ONU para as mudanças climáticas que aconteceu em Belém. O Lula e diferentes autoridades gastaram a voz ali, mas é nesses momentos que a gente vai ver como a banda toca.

?Voz J

Tem um interesse do Executivo, tanto por parte da Agência de Petróleo, a pressão que foi feita no IBAMA para que o IBAMA licenciasse do Bloco 59, teve ampliação lá de áreas na Foz do Amazonas nesses últimos certames aí da oferta permanente de concessão. Aí junto a isso veio o desmonte do licenciamento ambiental para facilitar com que empreendimentos de alto impacto poluidor venham se instalar sem a devida discussão, né, sem a devida averiguação.

Então assim, tudo, o cenário do Brasil hoje é extremamente preocupante E tudo indica que há uma tentativa conjunta do Executivo e do Legislativo para que projetos ou técnicas como essa venha a se viabilizar em puramente ganhos econômicos para alguns.

?Voz F

O fracking não avança por causa da tecnologia. Sim, tem muita tecnologia, mas ela não é isenta de riscos. O que tá fazendo essa técnica ser considerada mesmo é uma uma forte articulação política e econômica. Empresas do setor de petróleo e gás, entidades empresariais e parte do próprio governo têm defendido a técnica usando um discurso que combina promessas de desenvolvimento, geração de empregos, segurança energética e até transição para uma economia de baixo carbono.

É daí que nascem estudos, pareceres técnicos, eventos e audiências públicas que sustentam a ideia de que o fraturamento hidráulico seria seguro e necessário para o futuro energético do país.

?Voz A

Nessa perspectiva, a ciência não é produzida em um vazio, ela é produzida tanto dentro de uma sociedade marcada por relações de poder, interesses econômicos e disputas em torno dos recursos naturais. É justamente aí que, na minha avaliação, surgem discursos que se aproximam da pseudociência, ou pelo menos de uma comunicação pseudocientífica.

?Voz F

Não se trata necessariamente de inventar dados ou burlar resultados de pesquisas, mas sim de selecionar parte das evidências científicas ou de tirar essas evidências de contexto.

?Voz A

É como encontrarmos afirmações de que o fraturamento hidráulico é totalmente seguro porque existem tecnologias modernas de cimentação dos poços, monitoramento ambiental e controle operacional. Essas tecnologias realmente existem. O problema é quando essa informação é apresentada isoladamente, ignorando centenas de pesquisas que documentam vazamentos, falhas operacionais, consumo intensivo de água, emissões fugitivas de metano, sismos induzidos, geração de grandes volumes de rejeitos e conflitos sociais em regiões produtoras.

?Voz F

O Urias Marçal, lá do Instituto Araiara, por exemplo, viu bastante desse tecnicismo raso naquela audiência do STJ.

?Voz J

São gabaritos acadêmicos muito bem qualificados, né? Pessoal assim com uma formação invejável. Só que você chega na apresentação deles, eles vão assim mais do que, ah, eu vi tal coisa, eu presenciei tal coisa. Então assim meio que o viés da confirmação para validar a tese deles, né?

?Voz F

Vocês lembram que no começo a gente disse que o Luan chegou aqui no Ciência Suja por meio de uma chamada de pauta sobre eleições, né? Então, e o que tudo isso que a gente discutiu até agora tem a ver com as eleições de 2026?

?Voz G

É, Meg, e a resposta passa por uma constatação importante: o debate sobre o fracking deixou de ser apenas uma discussão científica ou ambiental. Ele também se tornou uma disputa política, como a gente mostrou. Autorizar ou não essa técnica depende de decisões tomadas por governos, órgãos regulatórios, tribunais e também pelo Congresso Nacional. É ali que interesses econômicos, argumentos técnicos e projetos de desenvolvimento passam a disputar espaço na formulação das políticas públicas.

Um exemplo dessa disputa está no Senado Federal. Em maio de 2023, agora, foi apresentado um requerimento propondo a realização de uma audiência pública para discutir o fraturamento hidráulico no Brasil. O documento afirma que o objetivo é debater as oportunidades decorrentes de uma eventual regulamentação da técnica, destacando temas como segurança energética, ampliação de oferta de gás natural, atração de investimentos, geração de empregos e desenvolvimento regional.

Coisa que a gente já falou antes também. O texto cita experiências de países como Estados Unidos e Argentina e defende a necessidade de discutir quais condições regulatórias permitiria uma futura exploração segura e sustentável, entre aspas, desses recursos não convencionais no país. É, a gente viu isso na Patagônia, né?

?Voz F

Uma audiência pública por si só faz parte do funcionamento democrático e não representa um problema. O que chama atenção nesse caso é como esse debate chegou no Senado. Em resposta aos nossos questionamentos, a assessoria do senador Laércio Oliveira informou que o requerimento foi apresentado a pedido da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Petróleo e Gás, a ABPIP, entidade que representa empresas do setor. Segundo a assessoria, o senador não domina especificamente o tema do fraturamento hidráulico, ainda não possui um posicionamento sobre a técnica e pretende utilizar a audiência justamente para ouvir especialistas e formar sua convicção.

A assessoria também informou que o parlamentar tem atuação na área de gás natural, tendo sido relator da Lei do Gás, mas considera o debate sobre o fracking um assunto altamente técnico.

?Voz G

Só que o próprio requerimento revela como essa disputa está sendo construída. Entre os convidados sugeridos aparecem representantes da Casa Civil, do Ministério de Minas e Energia, da Agência Nacional do Petróleo, da Empresa de Pesquisa Energética, da própria ABPIP, do Instituto Brasileiro de Petróleo e, claro, também tem o Ministério do Meio Ambiente, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos e pesquisadores da Universidade de São Paulo.

A proposta é reunir diferentes posições sobre o tema, mas ela também mostra que a discussão sobre o futuro do fracking no Brasil já saiu dos laboratórios e dos territórios afetados. A nossa indústria enfrenta um problema sério e o gás nasce como uma solução. E eu gostaria muito que essa casa se debruçasse sobre esse tema, pela necessidade que o país tem e pela perspectiva de futuro que o Brasil desponta nesse momento.

?Voz F

Esse aí falando sobre o gás natural é o senador Laércio. Apesar de assessoria dele ter afirmado que o senador ainda não formou uma posição sobre o fracking, seus discursos mostram uma defesa recorrente da expansão do gás natural. E é justamente essa narrativa que atravessa boa parte do debate que ouvimos ao longo desse episódio. De um lado, a promessa de crescimento, investimentos e geração de energia. Do outro, pesquisadores, comunidades e organizações que perguntam quem assume os custos sociais, ambientais e climáticos quando esse desenvolvimento chega ao território.

Uma vez que uma comunidade qualquer é transformada por um empreendimento gigantesco como os que exploram gás natural, é muito difícil voltar atrás. Como Paulo Sabá, lá de Capinzal, falou para o Luan, quem fica com passivo não é a empresa, não.

?Voz B

Sendo autorizado, vão usar a técnica, vai deixar um rastro desastroso, exploram, saqueiam os recursos naturais, vai ter um pequeno benefício financeiro, Os poços devem esgotar e vão deixar o lixo do resíduo da exploração. A gente tá tentando, onde vai numa comunidade ou outra, levar a bandeira e conversar. É uma semente. Esse gigante, ele ainda está adormecido.

?Voz G

A Eneva não respondeu nossos questionamentos até o fechamento desse episódio. Caso eles tragam alguma resposta, nós colocaremos no nosso site, o www.cienciasuja.com.br.

?Voz F

Este episódio do Ciência Suja foi apresentado por mim, Maggie Rodrigues, pelo Theo Rupprecht e também pelo Luan Mateus Santana. O Luan fez toda apuração, foi para as comunidades e ainda escreveu o roteiro. Luan, obrigada de novo por fazer um episódio tão importante e sensível.

?Voz C

Oi, Meg, eu que agradeço. É sempre uma honra para mim estar aqui com vocês do Ciência Suja, ainda mais trazendo histórias de povos e comunidades tradicionais que ficam aqui na fronteira do Piauí e do Maranhão, que a gente comumente chama de Piranhão. E eu vou aproveitar essa deixa para fazer aqui um merchan, vender o nosso peixe. É que a partir do dia 3 de agosto, em todas as plataformas de podcast, a gente vai lançar o Piranhão Podcast, que é uma série narrativa que investiga soluções reais para o enfrentamento à crise climática.

Esse é um projeto da plataforma O Corrediário, que conecta ciência acadêmica, saberes ancestrais e experiências territoriais do Piranhão para mostrar como que essas comunidades já estão desenvolvendo respostas concretas e soluções para o enfrentamento à crise climática. Essa primeira temporada vai ser composta por 5 episódios, uma cada segunda-feira de agosto, com histórias que valorizam tanto a ciência produzida na universidade quanto a ciência presente nos modos de vida, nas tecnologias sociais e nas experiências acumuladas por gerações dentro dessas comunidades.

E a gente convida você, que é ouvinte aqui do Ciência Suja, a também acessar e ouvir lá o Piranhão Podcast.

?Voz G

A edição do roteiro é minha, com apoio de todos da equipe. Eu e a Meg gravamos no estúdio Tiranosom. Já o Luan gravou de casa.

?Voz F

As vozes complementares do episódio são do Felipe Barbosa.

?Voz G

O Felipe também fez as ambientações, a edição de som, mixagem, trilhas originais e a masterização. Nesse episódio, nós usamos áudios do canal do senador Laércio Oliveira, do canal da rodagem e do blog do Acele no YouTube.

?Voz F

A Maila Tanferri e o Guilherme Henrique fizeram a arte de capa e o nosso projeto gráfico.

?Voz G

O nosso site foi desenvolvido pelo Estúdio Barbatana. Lá você tem mais informações sobre como consegue ajudar a gente a seguir com o Ciência Suja e os bônus que recebe ao participar do financiamento coletivo. É www.cienciasuja.com.br.

?Voz F

Você encontra mais informações nas nossas redes sociais, que são tocadas pelo Pedro Belo. O Ciência Suja está no Instagram, Facebook, TikTok, Twitter e Bluesky.

?Voz B

Nav Reportagens.

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