Episódios de Ciência Suja

PÍLULA - Um ECA digital para chamar de nosso

21 de maio de 202626min
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O ECA Digital foi construído pra tentar proteger crianças e adolescentes dos perigos que as redes sociais podem trazer. Mas, na realidade, toda a sociedade precisa de salvaguardas parecidas para navegar por esse mundo virtual.

Conheça como essas plataformas, por meio do próprio design, colocam a população em risco — e por onde começar a desatar esse nó.

A Meta respondeu aos nossos questionamentos com a seguinte nota, que também está disponível no nosso site:

Para a Meta, o combate a fraudes e golpes online é uma prioridade. Estamos intensificando nossos esforços utilizando tecnologia de reconhecimento facial e detecção, aplicando políticas rigorosas e oferecendo ferramentas de segurança e alertas. As denúncias de usuários sobre anúncios de golpes caíram mais de 50% entre meados de 2024 e final de 2025. Em 2025, removemos mais de 159 milhões de anúncios fraudulentos por violarem nossas políticas, sendo 92% deles antes de serem denunciados, e também desativamos 10,9 milhões de contas no Facebook e Instagram associadas a centros de aplicação de golpes de criminosos. 

Recentemente, anunciamos novos sistemas de inteligência artificial desenvolvidos por nossos especialistas em combate a golpes, capazes de analisar múltiplos sinais para identificar padrões sofisticados de fraude de forma rápida e em escala. A tecnologia ajuda a detectar golpistas que se passam por celebridades, figuras públicas ou marcas, além de identificar conteúdos que redirecionam usuários para páginas que imitam sites legítimos.

Além do trabalho de identificação e remoção de anúncios violadores em nossas plataformas, iniciamos ações judiciais contra anunciantes fraudulentos que usam imagens de figuras públicas indevidamente.

Sobre o ECA Digital, a Meta já disponibiliza, desde o ano passado, experiências específicas e adequadas à idade para adolescentes no Instagram e no Facebook — as chamadas Contas de Adolescente, que são ativadas automaticamente para usuários de 13 a 17 anos e contam com proteções configuradas por padrão que restringem o conteúdo que eles veem e quem pode entrar em contato com eles. Essas proteções incluem:

  • Contas privadas: Com contas privadas por padrão, os adolescentes precisam aceitar novos seguidores, e pessoas que não os seguem não podem ver seu conteúdo nem interagir com ele
  • Restrições de mensagens: Os adolescentes são colocados nas configurações mais restritivas de mensagens, de modo que só podem receber mensagens de pessoas que eles seguem ou com as quais já estão conectados.
  • Restrições de conteúdo: Os adolescentes são automaticamente colocados na configuração de conteúdo adequado à faixa etária de 13 a 17 anos, que limita o tipo de conteúdo que eles veem em lugares como Explorar, Reels, Stories e resultados de pesquisas.
  • Interações limitadas: Os adolescentes só podem ser marcados ou mencionados por pessoas que eles seguem. .
  • Palavras Ocultas: na conta adolescente é possível que palavras e expressões ofensivas sejam filtradas dos comentários em posts dos adolescentes.
  • Lembretes de limite de tempo: Os adolescentes recebem avisos em tela cheia de que atingiram o limite de 60 minutos de uso por dia.
  • Modo descanso: O modo descanso desativa as notificações das 22h às 7h automaticamente

Neste link você pode ter acesso às medidas da Meta para dar apoio às famílias no Brasil

Por fim, sobre os julgamentos nos Estados Unidos, discordamos respeitosamente dos veredictos e vamos recorrer. Continuaremos a nos defender porque confiamos em nosso histórico de proteção dos adolescentes no ambiente online. "

O Ciência Suja tem apoio do Instituto Serrapilheira, que fomenta a ciência e a divulgação científica no Brasil. 

Para participar do financiamento coletivo do Ciência Suja e conferir o material complementar do episódio, acesse o site: cienciasuja.com.br

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Participantes neste episódio5
C

Clóia Pinheiro

HostProdutora do podcast
P

Pedro Belo

Host
D

Débora Salles

ConvidadoPesquisadora e coordenadora do NetLab
P

Pablo Nunes

ConvidadoPesquisador
S

Sheili Kalef

ConvidadoProfessora de comunicação e oratória
Assuntos6
  • Vício em Redes SociaisVício em redes sociais · Captura de atenção · Uso de dados · Violência sexual na infância · Adultização infantil · Golpes e fraudes online · Desinformação
  • Regulação digital e eleiçõesECA Digital · Regulação de plataformas digitais · Proteção de crianças e adolescentes · Design de plataformas · Meta
  • Privacidade de dados e monetizaçãoColeta de dados · Segurança de dados · Vigilância e autoritarismo · Palantir · Peter Thiel
  • Estratégias da indústria do tabacoParalelos entre indústrias · Lobby e desinformação · Modelo de negócio viciante
  • Ctrl Z e Recuperação da InternetIniciativa Ctrl Z · Plataforma Vasa Big Tech · Denúncias anônimas · Internet para todos
  • Analogia Caverna do DragãoGeração sem internet · Nostalgia dos anos 90 · Reféns do algoritmo
Transcrição70 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

O Ciência Suja tem o selo da Rádio Guarda-Chuva. Jornalismo para quem gosta de ouvir. Antes de começar, um aviso. Esse episódio aborda temas sensíveis, como suicídio e violência sexual. Veja o brinquedo caverno do dragão!

Opa! Que legal! Não estou vendo graça nenhuma. Eu estou gostando. O que está acontecendo?

Se você reconheceu o áudio que tocou agora, provavelmente nasceu ali no finalzinho do século passado. Se não reconheceu, não tem problema. Eu te conto. Esse aí é o comecinho do primeiro episódio do desenho animado Caverna do Dragão, um clássico das manhãs da televisão nos anos 80 e 90. Eu sempre achei a história meio sinistra. Um grupo de crianças entra num brinquedo desses de parque de diversões e de repente é sugado pra uma realidade paralela.

Um universo de fantasia, cheio de dragões e monstros. Eles até recebem umas armas mágicas e uns conselhos bem vagos do mestre dos magos, pra assim tentar encontrar o caminho de volta pra casa. Mas o que eu achava perturbador é que eles nunca conseguem voltar. O que estamos esperando? Vamos, pessoal! Quando eu chegar em casa, eu vou comer a maior pizza do mundo! Boa ideia!

Por um lado, faz parte. Se eles voltam pra casa, a série acaba, né? Mas era um pouco demais. Sempre tinha algo puxando eles de volta. Um inimigo novo, alguém que ficou pra trás, alguma coisa pra resolver. E aquilo me irritava muito. E naquela época, eu ainda nem sabia que ia acontecer algo parecido comigo.

com você aí, que está escutando, também. A gente viveu o mundo totalmente sem internet, né? Na nossa infância foi sem internet, né? E a gente foi muito, me parece, uma geração muito agraciada porque a gente viveu o mundo sem internet. Esse aí é o Pablo Nunes, pesquisador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, o SESEC. Foi ele que trouxe essa analogia da Caverna do Dragão e que me deu a ideia para o Abre desse episódio.

E sim, a gente tem mais ou menos a mesma idade. Eu sou um pouquinho mais velho. E não, a gente não estava tendo uma conversa nostálgica sobre como era crescer nos anos 90. Mas a gente estava falando sobre como naquele tempo havia outras possibilidades.

tinha a possibilidade, e a gente falava isso no nosso vocabulário, a possibilidade de desligar a internet. Você lembra disso? A gente, ah, vou entrar na internet. Ah, não, eu tô saindo da internet. Eu tava conversando com o Pablo sobre os prejuízos que a internet e as redes sociais podem causar na nossa vida e na nossa cabeça.

Eu perguntei se a gente seria, tipo, vítima de como essas plataformas são pensadas, para capturar a nossa atenção, usar os nossos dados e nos manter ali, vendo anúncio entre um vídeo de gatinho e outro. Eu acho que a analogia melhor seria refém. A gente é refém desse algoritmo, né? A gente está preso, muitas vezes, naquelas redes sociais. Quem nunca pegou o celular para resolver alguma coisa bem rápida e se perdeu no feed infinito? Ficou preso ali enquanto precisava trabalhar. Tipo eu, enquanto escrevo esse roteiro aqui.

Pois é, essas redes foram projetadas de propósito para funcionar assim. E esse design das plataformas digitais é central no tema desse episódio aqui. Eu comecei essa apuração para tentar entender como o ECA Digital foi construído para tentar proteger crianças e adolescentes dos perigos que essas plataformas digitais podem trazer. Terminei convencido de que nós adultos, eu, você, meu pai, minha mãe e até minha avó, a gente também está precisando de proteções parecidas para navegar por esse mundo virtual.

que hoje em dia tomou conta de boa parte da nossa vida. O que isso tem a ver com ciência mesmo? Pois é, no primeiro momento a gente até cobria esse assunto meio que indiretamente.

porque as plataformas parecem que não estavam muito aí se os conteúdos de desinformação científica, por exemplo, estavam rolando soltos ou não. Aliás, elas continuam não ligando muito, e ainda ganham bastante dinheiro com isso, o que reforça o tamanho do problema. Mas o foco da discussão toda que levou à atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente no chamado ECA Digital e as condenações contra a Meta e o YouTube por causarem danos à saúde mental de jovens e adolescentes nos Estados Unidos não fica só no conteúdo problemático que circula nas plataformas.

mas também na infraestrutura construída para causar vício, manipular experiências, negar que esses problemas existem e, além de tudo, ainda esconder as evidências que apontavam que esse produto podia, sim, fazer mal. Parece familiar? Eu sou o Pedro Belo e esse é o Ciência Suja, o podcast que mostra que em crimes contra a ciência, as vítimas somos todos nós.

Esse episódio começou com uma conversa com uma ouvinte nossa muito especial. Se você vive cronicamente online nas redes sociais que nem eu, talvez já tenha visto ela por ali. Bom, eu sou a Sheili Kalef, eu sou professora de comunicação e oratória. A minha formação é em direção de teatro. Eu venho do teatro das artes.

E depois comecei a trabalhar no mundo corporativo, treinando executivos, e é o que eu faço até hoje. Eu treino pessoas para falar melhor em público. Desde o começo do Ciência Suja, a Sheili sempre deu maior força para a gente. Ela compartilha os episódios, faz elogios nas redes dela, e às vezes até fala que é o podcast favorito dela, o que para a gente é uma honra. A gente também acompanhava o trabalho dela e foi percebendo que o conteúdo que ela produzia passou a focar numa pauta muito séria.

Só que eu sofri violência sexual na infância. Então, há mais de 10 anos, eu falo sobre violência sexual. Independente se é contra criança, contra adultos, eu falo desse tema há muito tempo. Hoje, a gente tem 68 milhões de adultos que já sofreram violência sexual na infância. 32 em cada 100. É muita gente. E não tinha a internet como a gente tem agora. Então, a tendência é isso piorar demais, né?

Esse número que a Sheily traz é absurdo mesmo. É de uma pesquisa do Datafolha, de 2022, que diz isso. 32%, praticamente um em cada três brasileiros adultos, sofreu violência sexual na infância. E é por isso mesmo que o trabalho que ela faz é tão importante. Para evitar que menos crianças de hoje, essas que nasceram praticamente mergulhadas na internet, sejam adultos com histórico de violência sexual. Mas as mesmas plataformas que ela usa para alertar pais a protegerem seus filhos e para se comunicar com vítimas,

também garantem um anonimato confortável para os criminosos que trabalham escondidos para cometer abusos, espalhar conteúdo ilegal e cometer todo tipo de fraude. Aliás, isso aconteceu com a própria Sheili. Ela teve a conta invadida e usada para aplicar golpes nos seus seguidores e teve que fazer um protesto na sede física da Meta, lá na Avenida Faria Lima, em São Paulo, porque o suporte da plataforma não ajudou a resolver o problema. Isso acontece bastante.

Talvez você já tenha ouvido falar ou conheça alguém que perdeu a conta e não conseguiu mais recuperar, enquanto criminosos aplicavam golpes nos seus seguidores. Existe até uma máfia, entre aspas, que cobra caro para recuperar contas de usuários, mas isso é outra história. Mas voltando aqui, em agosto de 2025, um vídeo do influenciador Felipe Bressanin, o Felca, fez explodir a discussão sobre adultização, um fenômeno que envolve a exploração de imagens de crianças na internet.

O vídeo todo é longo e bem chocante, e escancarou uma tendência muito preocupante que estava rolando solta na cara de todo mundo. O assunto ficou na boca do povo, da imprensa, e chegou a figuras de todo o espectro político, inclusive até o presidente da república.

Teve influência de extrema-direita falando que essa discussão era uma armadilha da esquerda para falar de regulação de redes? Teve. Mas deixa, né? Cada um com a sua consciência aí. Enfim, essa repercussão levou a uma onda de projetos de lei apresentados na Câmara. O núcleo jornalismo mostrou que foram quase 60 em uma semana. E nem precisava desse frenesi todo. Tinha várias outras iniciativas paradas por lá desde 2015.

O PL2628, por exemplo, que virou o ECA Digital em março de 2026, já tinha sido aprovado pelo Senado e estava com a câmera desde 2024. E ele prevê coisas bem básicas, se a gente for ver. Verificação de identidade, controles parentais mais avançados e um grau maior de proteção à privacidade dos dados de usuários menores de idade. Foi um primeiro passo importantíssimo para regular as plataformas digitais no Brasil, que até então só respondiam aos próprios termos de uso, que são bem vagos, dicas de passagem.

Uma espécie de autogoverno, apesar de que o código de defesa do consumidor pode te proteger também em alguns casos. Mas foi mais ou menos nessa época que eu vi a Sheili no Congresso Nacional fazendo uma fala bem chocante.

Quantas crianças precisam morrer para a gente entender que existe responsabilidade das plataformas? Sim, porque na Itália foi uma, na Albânia foi uma. Aqui já foram 57 só em desafios online, fora todas que são exploradas, aliciadas. Quantas? Me deem um número, que eu não aguento mais. Eu falo com as famílias todo dia.

A gente não vai entrar muito em histórias de vítimas aqui, mas eu recomendo assistir o documentário A Anatomia do Post, da Globoplay, para começar a entender o nível do impacto que essas plataformas têm na vida de crianças e pais. Tem história de criança muito nova com problemas com a própria imagem, dificuldades de aprendizado, e a mais triste de todas é sobre um menino que tirou a própria vida depois de ser extorquido por criminosos.

Esse tipo de coisa me fez pensar. Como é que uma criança pode ficar exposta desse jeito? Pois é, as crianças de hoje estão. E não dá pra colocar só os pais como responsáveis pelo que tem nesse ambiente descontrolado das plataformas. O ECA Digital busca justamente responsabilizar também as plataformas pelo que está acontecendo nas plataformas. É justo, não é? Você tem uma padaria.

No final do dia, muitos criminosos vão ali e começam a trocar os produtos dos seus furtos, né? E você dá um cafezinho pra eles, eles gastam um pouco. E você ainda fala, gente, assalta aquele senhor que vem aqui, ó, todo dia às oito da manhã ele vem pegar um pão. Aquele que se veste assim, assim, assim, aquele é bom pra você assaltar. Você tem a ver com esse crime ou não? Você tem a ver. Que é o que o Instagram faz.

E aí eu quero fazer um destaque pra isso que a Sheili falou agora, que é até meio óbvio. Não é só criança que tá exposta a esse tanto de golpista, criminoso, fraudulento nas plataformas. É lógico que as crianças são muito mais vulneráveis, mas é só relembrar a quantidade surreal de anúncios falsos usando a imagem do Drauzio Varela e mirando principalmente idosos, que a gente contou no episódio A Máquina de Drauzio Falsos. Aquilo ali escancará muito bem o tamanho da bucha que vai ser regular esse ambiente.

E eu falo, não importa se a criança nasceu numa família de direito ou esquerda, ela vai ser estuprada igual. A gente tem seis estupros por hora de criança. O criminoso não escolhe esse tipo de coisa. Por isso a gente também não deveria escolher. Só que tem muita desinformação. A principal desinformação que eu sempre combati nesse sentido é que regulação é um tipo de censura.

Em 2023, o PL 2630, que ficou conhecido como PL da censura, não avançou justamente por causa do lobby das gigantes de tecnologia, que contou com o apoio de figuras da extrema direita que conseguiram matar a discussão com esse argumento de que estabelecer regras básicas para o funcionamento minimamente civilizado das redes seria equivalente à censura. Você vai ouvir agora a Débora Salles, pesquisadora e coordenadora do NetLab da UFRJ.

Toda vez que a gente tenta avançar nesse sentido, eles contra-atacam dizendo que não, temos que defender a liberdade de expressão. Mas pedofilia não é liberdade de expressão e isso não está em discussão na sociedade. Então é um espaço em que a contra-argumentação deles não dá conta.

Se você acompanha o Ciência Suja, deve estar sabendo que o NetLab é um laboratório de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e que atua justamente na produção de conhecimento para esse debate de regulação das plataformas digitais no Brasil. Isso não custa lembrar. Os interesses econômicos dessas empresas não necessariamente estão alinhados com o interesse público. E aqui, também é importante a gente falar que um aspecto fundamental para o modelo de negócios dessas plataformas é justamente o design delas.

Essa coisa de rolagem infinita, algoritmos que favorecem conteúdos que geram indignação e polarização e outras características que a gente aborda também no nosso episódio As Redes da Discórdia, que se você ainda não escutou, vai lá escutar depois junto com a máquina dos drausos falsos. Mas enfim, a nova legislação vai abordar isso diretamente.

Eu acho que vale reforçar a importância do ECA digital de estar criando uma regulação baseada no design das plataformas, ao invés de ter uma abordagem focada na moderação de conteúdo puramente. E isso é interessante porque muitos pesquisadores argumentam que a moderação de conteúdo é um sintoma e não a causa.

Quando você tem uma estrutura, uma arquitetura, que é feita para rolagem infinita, notificação excessiva, recompensa, filtros que manipulam imagens, criação de imagens, você tem um ambiente.

perfeito para criação de danos, geração de danos, geração de impactos negativos, você vai necessariamente lidar com conteúdos problemáticos que vão precisar ser moderados. Eu também perguntei para a Débora se é forçar a barra demais dizer que esse design lembra em alguma coisa os produtos da indústria do tabaco.

E ela foi um pouco além, dizendo que as coincidências não ficam apenas no design do produto, que também é pensado para ser viciante. Olha, eu acho que tem alguns paralelos possíveis entre a indústria do tabaco e as big techs. Acho que tem o lobby, que é feito junto a instituições regulatórias para defender seus interesses.

Tem as campanhas de comunicação, muitas vezes baseadas em informações falsas. Então, quantos anos a indústria do tabaco não falou publicamente que não existiam evidências sobre os problemas que o cigarro causava? E a gente vê isso na comunicação corporativa dessas empresas.

E aí a importância do ECA digital. É justamente essa tentativa de começar a botar rédeas no modelo de negócio das plataformas. Que apesar de hoje em dia já estar sendo muito bem questionado, ainda não tem muitos freios. Então elas vão precisar garantir a segurança para as crianças, independente dos interesses econômicos que elas têm com exibição de publicidade. Por mais que essas plataformas queiram manter todo mundo o máximo de tempo ali, elas vão precisar reduzir...

os mecanismos que vão criando vício, que vão manipulando o usuário quando esse usuário é uma criança. Mas ainda tem muita estrada pela frente. A questão da segmentação, por exemplo. Os anúncios segmentados são uma peça fundamental nos modelos de negócios. Então eu tenho um perfil que gosta de futebol, shows de MPB e viagens para a praia, por exemplo.

As plataformas sabem disso por causa da minha interação ali, e usam esses dados para me sugerir mais conteúdos e anúncios sobre esses temas. Do mesmo jeito que já não pode mais o Compre Batom ou Eu Tenho, Você Não Tem, da tesourinha do Mickey Mouse. Esses eram anúncios reais que a gente assistia nos intervalos, por exemplo, da Caverna do Dragão. Mas ainda não está muito claro como essas restrições vão acontecer.

Hoje o ECA prevê que as crianças não vão poder receber publicidade segmentada a partir desse perfil comportamental.

Mas a verdade é que a gente não tem meios hoje para verificar se isso está acontecendo ou não. E falando em meios para verificar, o próprio NetLab publicou um estudo recentemente mostrando como plataformas como o Discord, o Quai, o Pinterest e o WhatsApp não oferecem mecanismos para que os dados de conteúdos de usuários ou de anunciantes sejam avaliados de forma independente.

Vamos, pessoal, anime-se. Não é o fim do mundo.

Puxa vida, foi por pouco, estávamos quase na nossa casa. Eu detesto isto. Eu não quero ficar mais neste mundo. Eu quero mamãe, eu quero papai. Nesse trecho aí do episódio da Caverna do Dragão, tá todo mundo cabisbaixo, depois de mais uma tentativa frustrada de voltar pra casa. Aqui, no chamado mundo real, parece que a gente ainda tá meio longe de conseguir sair da nossa caverna de bolso.

A gente, que está aqui beirando os 40 anos de idade, não passa exatamente batido pelos efeitos nocivos das redes. Mas já tem uma certa casca também. A gente já consegue enxergar o quão problemática essa realidade é. Para as crianças, adolescentes ou jovens em fase de formação ainda, o negócio é muito pior. Como diz o Pablo. A gente sabe que crianças e adolescentes são um público mais sensível a determinados incentivos. Tem um processo ali.

de construção do eu muito sensível e muito, enfim, intenso nesses primeiros anos da adolescência para a juventude e estar numa rede que entrega uma imagem do que seja algo belo, do que seja algo desejável, uma rede que é desenhada.

para que as pessoas tenham ali incentivos em termos de likes, comentários, exposição e tudo mais, faz com que outras preocupações sobre a própria construção da autoimagem sejam colocadas para essas crianças e adolescentes. Mas tem uma outra coisa que é bem preocupante. A segurança e o uso dos dados que a gente deixa diariamente ali nas plataformas. Eu acho importante a gente entender esse mundo em que a gente vive.

Saber quem, como e qual informação está sendo coletada, por quem e como.

Isso, para mim, é fundamental para que a gente possa fazer escolhas. É preciso saber que você, a partir de maio, por exemplo, não vai ter mais as suas mensagens criptografadas pelo Instagram e que a sua DM talvez possa ser acessada facilmente. É importante também saber se, por exemplo, uma rede social abre ou fecha a sua câmera sem que você saiba. Isso é uma coisa que acontece, né? Você vai lá e você instala o Instagram e dá acesso à sua câmera.

Muitas vezes já é feita uma captura dessas suas imagens sem nenhum tipo de informação, sem que você saiba. Tá bom, a plataforma pode até te contar que só usa os dados para te conhecer melhor, construir um perfil e segmentar os anúncios para você. Mas será que dá para confiar? Se o próprio modelo de negócio da empresa inclui fornecer seus dados para criminosos anunciarem seus golpes e trambiques diretamente para você, isso já é meio que um sinal de alerta, não é não?

Mas tem um outro ainda. Os seus dados, inclusive a sua localização, às vezes, estão nas mãos de empresas que estão muito alinhadas com um projeto político bastante autoritário. O segundo governo do Trump nos Estados Unidos. O que essa gestão está fazendo em termos de violações de privacidade, de direitos civis e até de direitos humanos básicos

Não é pouco não. Pro Pablo, esse é um sinal bem claro. Não tem máscara, não tem véus, né? Aquilo é cortado. A gente tá aqui, o nosso plano é esse. Agora, essa semana, saiu o manifesto da Palantir, daquele Peter Thiel. Se você ler aquilo, é um manifesto fascista. É um negócio assustador.

Palantir ou Palantir é uma empresa que processa volumes absurdos de dados e vende eles em pacotes customizados, de acordo com o gosto do freguês. Isso para orientar mercados ou políticas públicas, né? Seria ótimo se isso fosse usado para avaliar quais comunidades, sei lá, tem menos saneamento básico ou precisam de mais escolas.

Mas essa empresa tem auxiliado, por exemplo, a Polícia de Imigração dos Estados Unidos, o ICE, inclusive fornecendo geolocalização de supostos imigrantes ilegais para que eles sejam colocados em campos de detenção e deportados. Nem preciso te falar que está cheio de crianças separadas dos pais nesses campos de detenção também. Você provavelmente já sabe.

E esse manifesto que o Pablo falou é realmente assustador. Lançado lá no X, antigo Twitter, ele já foi visualizado mais de 30 milhões de vezes. E fala em uma nova era de armas de inteligência artificial que já está começando. E ainda joga um tempero de supremacia ao falar que algumas culturas produzem avanços, enquanto outras são regressivas.

O nome Palantir vem das esferas que viam de tudo e sabiam de tudo lá do universo do Senhor dos Anéis. Uma ferramenta de vigilância ali da Terra-média mesmo. Um dos donos da empresa é o Peter Thiel, um cara esquisitíssimo que eu sempre gosto de lembrar, acredita que injetar sangue humano de pessoas mais jovens pode te fazer imortal.

E ele é dessa turminha boa aí, foi um dos primeiros investidores do Facebook, hoje Meta, é parça do Mark Zuckerberg, que também está ali alinhado com essas maluquices. É um negócio assustador. E é esse pessoal que está, por exemplo, com várias licitações do Brasil tomando conta dos dados dos brasileiros. Então assim, que mundo é esse que a gente vive e que a gente empoderou essa galera que tem riquezas maiores do que muitos países?

e que tem construído para si uma imagem de pessoa que está acima das responsabilizações, das regulações e das legislações que são decididas por todos, que são decididas democraticamente.

Mas vamos ter calma aqui e não vamos entrar na paranoia conspiracionista muito bem embasada por evidências materiais. Uma das coisas que me fez procurar o Pablo foi uma foto que eu vi dele, não ironicamente, enquanto estava preso na rolagem infinita do Instagram. Ele estava no lançamento de uma iniciativa nova, a Ctrl Z. Ctrl Z é o comando desfazer no computador, né?

E a ideia deles é justamente essa de desfazer a distopia. Retomar a internet das mãos das gigantes de tecnologia. Além de reunir e auxiliar vítimas de violações das redes, essa organização lançou também, junto com a Sleeping Giants Brasil, uma plataforma para receber denúncias anônimas de dentro dessas empresas, a Vasa Big Tech. A ideia é que funcionários possam depositar informações de interesse público que venham servir para investigações jornalísticas.

Aliás, tem um episódio recente da Rádio Escafandro, nossa parceira aqui de Rádio Guarda-Chuva, detalhando o ambiente profissional dessas empresas depois dessa guinada dos figurões do Vale do Silício para a extrema direita e para o colo do Trump. Busca lá depois de terminar aqui. O nome do episódio é a Fantástica Fábrica de Algoritmos da Meta.

Então, é nessa chave que o Ctrl Z é criado para fazer esse enfrentamento e para recuperar a internet, porque a internet não pode ser ditada, as regras da internet, o que a internet é, não pode ser simplesmente ditada por uma meia dúzia de homens CEOs do Vale do Silício.

que tem seus interesses e que tem seus planos e suas ideologias. Enquanto eu conversava com o Pablo sobre a vida no final dos anos 90 e começo dos anos 2000, ele também falou do privilégio da nossa geração de viver aquele primeiro momento da internet, que parecia um mundo aberto para a criação, para as múltiplas narrativas, e como isso contrasta com a internet de hoje, que é mais plastificada, formatada, mais plataformizada.

Aqui no Ciência Suja, todo mundo é jornalista, mas ao longo dos últimos anos, de uma forma ou outra, a gente acabou tendo que incorporar essa lógica da, abre aspas, produção de conteúdo. Ah, o algoritmo não gosta disso. Os primeiros segundos do vídeo têm que ser muito impactantes para fisgar a audiência. A gente está sempre se preocupando em adaptar o que a gente faz para o que essas plataformas exigem.

e ir para o que o algoritmo prefere, até porque a gente depende consideravelmente delas para distribuir a nossa produção. E aí, por mais contraditório que isso possa ser, a gente acredita em continuar produzindo conteúdo e ocupando as plataformas com o nosso trabalho, mesmo que ele não esteja competindo em pé de igualdade com outros conteúdos mais nocivos ou até criminosos que os algoritmos costumam privilegiar, pelo menos até que a gente consiga sair dessa caverna.

A internet deveria voltar a ser de todos, com possibilidades múltiplas de criação, de cocriação e de autonomia para os sujeitos que habitam a internet. A gente vai continuar cobrindo esse assunto, como você vai ouvir nos próximos episódios.

A gente pediu um posicionamento da Meta, que respondeu dizendo que o combate a fraudes e golpes online é uma prioridade e que está intensificando os esforços utilizando recursos como a tecnologia de reconhecimento facial e detecção. E sobre o ECA Digital, a empresa disse que desde o ano passado já oferece experiências específicas e adequadas à idade para adolescentes no Instagram e no Facebook, as chamadas contas de adolescente. Você pode conferir a nota completa deles na descrição do episódio aqui.

Obrigado por escutar até aqui. Meu nome é Pedro Belo e eu produzi, escrevi e apresentei esse episódio. Eu também contei com a ajuda da Maggie Rodrigues na pesquisa e na produção. A edição do texto ficou com o Théo Rupresti e a edição do áudio com o Caio Santos. Valeu, Caio! O Ciência Suja conta com o apoio do Instituto Serrapilheira. Você também pode apoiar o projeto lá no nosso site, que tem várias opções de planos diferentes para caber no seu bolso. Semana que vem, a gente está de volta com um episódio novo. Valeu, tchau, tchau!

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