Programa 05/05 09h38 GMT
Maria Paula Carvalho
Thaisa Estivanin
Eduardo Roche
Elcio Ramalho
Henry Galsky
Liz Ferré
Lubna Tuma
- Detenção de militantes da flotilha de GazaDetenção e acusação de Tiago Ávila · Acusações de filiação a organização terrorista · Denúncias de maus tratos e tortura · Posição do governo israelense · Posição dos governos brasileiro e espanhol
- Estereótipos em CenaDiálogo entre linguagem e psicanálise · Estereótipos como traços rígidos · Narcisismo como fenômeno social · Relações de poder e linguagem · Aproximação da sociedade brasileira multicultural
- Resistência AntimicrobianaEstudo da evolução e diversidade genética · Mecanismos moleculares e resistência a antibióticos · Sequenciamento genético de bactérias · Transferência de genes de resistência · Adaptação rápida das bactérias
- Estreito de OrmuzBloqueio de portos iranianos · Projeto Liberdade dos EUA · Ataques iranianos e defesa dos EUA · Impacto no preço do petróleo
- Fortuna da família TrumpAumento do patrimônio familiar · Hospedagem de delegações estrangeiras · Presente de avião de luxo · Investigação de conflitos de interesse
Rádio França Internacional. Maria Paula Carvalho. 11 horas e 38 minutos em Paris, são 6h38 em Brasília. Na segunda parte do nosso programa, os jornais franceses analisam o bloqueio no Estreito de Hormuz e o enriquecimento da família Trump desde a volta do republicano à Casa Branca.
No RF convida uma entrevista com Liz Ferré, professora universitária e psicanalista, fala de seu livro Estereótipos em Cena. No programa Saúde em Dia, como a transferência de genes explica a resistência bacteriana? Mas antes, estamos em linha direta com Israel, dois ativistas da flotilha humanitária para Gaza, interceptada por militares israelenses, entre eles o brasileiro Tiago Ávila, seguem detidos. ONGs denunciam maus tratos na prisão em Israel.
Linha direta Elcio Ramalho Israel vai solicitar nesta terça-feira, em audiência judicial, uma prorrogação de seis dias da prisão preventiva de dois ativistas da flotilha de Gaza, o espanhol Saif Abu Keshach e o brasileiro Tiago Ávila.
A informação é da ONG Adalah, que defende os dois ativistas. A audiência judicial está marcada para hoje em Ashkelon, no norte do país, onde eles estão detidos. O tribunal israelense aprovou no domingo uma primeira prorrogação de dois dias da prisão preventiva dos dois ativistas, que faziam parte da flotilha que buscava romper o bloqueio de Israel e do Egito à faixa de Gaza.
No total, 20 embarcações foram interceptadas e todos os ativistas enviados à Grécia, à exceção de Tiago Ávila e de Saif Abu Keshak. Para entender a situação atual, vamos a Israel conversar com o nosso correspondente, Henry Galsky. Olá, Henry, bom dia. Quais são exatamente as razões pelas quais esses dois ativistas estão presos aí em Israel? Saif Abu Keshak é suspeito de filiação a uma organização terrorista.
segundo o Ministério das Relações Exteriores de Israel. Já Tiago Ávila é suspeito de atividade ilegal. Em resposta à RFI, o Ministério das Relações Exteriores israelense declarou que Ávila expressou publicamente apoio a diversas organizações terroristas, incluindo o Hezbollah, o Hamas e o regime iraniano.
Em fevereiro de 2025, Tiago Ávila compareceu ao funeral do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, morto no final do ano anterior por Israel. Ávila foi implicado em múltiplas alegações de corrupção e enfrentou acusações de conduta inadequada com mulheres que participavam da flotilha. Ele também foi detido brevemente para interrogatório nos últimos meses em aeroportos da Bélgica, Panamá, Tunísia e Argentina, declarou o Ministério Israelense.
Em nota, os Ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Espanha descreveram a situação como o sequestro de seus cidadãos. Os governos do Brasil e da Espanha exigem do governo de Israel o retorno imediato de seus cidadãos, com plenas garantias de segurança e que se facilite o acesso consular imediato para sua assistência e proteção.
E, Henry, há relatos de tortura e violência contra o brasileiro. O que você conseguiu apurar sobre essas denúncias? A Adalah, Organização de Direitos Humanos em Israel que defende os dois ativistas detidos, informou que ambos estão sofrendo maus tratos e abusos psicológicos. Segundo os relatos das advogadas da organização, Tiago Ávila contou ter sido submetido a interrogatórios de até oito horas de duração.
Ainda de acordo com Adalah, os interrogadores o ameaçaram explicitamente, afirmando que ele seria morto ou passaria 100 anos na prisão. Os ativistas são mantidos em isolamento total. Suas celas têm iluminação constante de alta intensidade 24 horas por dia, uma prática conhecida do serviço prisional israelense, projetada para induzir privação de sono e causar desorientação.
A RFI conversou com Lubna Tuma, advogada da Adalah, que esteve com Tiago Ávila e que é responsável pela defesa do brasileiro. Segundo ela, a Organização de Direitos Humanos Israelense continua a exigir a libertação imediata dos dois ativistas e o fim dos procedimentos legais.
Tuma explicou também que, segundo a acusação israelense, Tiago Ávila é suspeito de cinco ofensas de segurança que se enquadram na lei antiterrorismo de Israel, como filiação à organização terrorista e assistência ao terrorismo durante período de guerra.
É importante deixar claro que a acusação está buscando enquadrá-lo como alguém realmente perigoso. Isso é uma tentativa de exagerar a situação, explicou. Se a justiça israelense condenar os ativistas, o tempo de prisão pode variar entre 5 a até mais de 20 anos. E Henrique Gauski, qual é a posição oficial de Israel sobre a situação desses dois ativistas?
Sim, em primeiro lugar, diante da abordagem e captura das embarcações em águas internacionais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse à RFI que isso ocorreu devido ao grande número de embarcações e à necessidade de evitar o rompimento de um bloqueio legal. Israel considera que a ação ocorreu em conformidade com o direito internacional.
Sobre a acusação de violência contra os ativistas, o ministério disse à RFI que são alegações falsas e infundadas preparadas previamente e que Tiago Ávila e Saif Abu Keshach não foram submetidos à tortura em momento algum, mas que causaram obstrução física contra funcionários israelenses que, por sua vez, tiveram de agir para impedir tais ações. Ainda de acordo com a resposta de Israel aos questionamentos da RFI,
Todas as medidas foram tomadas em conformidade com a lei. A RFI também entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que, em resposta, afirmou estar prestando toda a assistência consular ao brasileiro e acompanhando as audiências na Justiça. Muito obrigado, Henrique Gauss, que correspondente da RFI em Israel, que participou do Linha Direta de hoje.
Resenha da imprensa francesa. Maria Paula Carvalho. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta reabrir o Estreito de Hormuz, a navegação comercial, sem retirar o bloqueio imposto aos portos iranianos. A estratégia, batizada de Projeto Liberdade, é analisada pelos jornais franceses desta terça-feira.
Segundo a Marinha Americana, dois navios com bandeira dos Estados Unidos foram escoltados, apesar das tentativas do Irã de impedir a manobra. Washington afirma ter repelido drones e mísseis iranianos, os primeiros ataques ordenados por Teirã, desde o início do cessar-fogo, em 8 de abril.
Os jornais destacam que após o fracasso das negociações entre Washington e Teirã, a situação no Estreito de Hormuz voltou a se degradar. Como consequência imediata, os preços do petróleo subiram, alimentando temores sobre o abastecimento global e ampliando a pressão política sobre a Casa Branca. Nos Estados Unidos, cresce a impopularidade de Donald Trump.
Em paralelo à crise no Oriente Médio, o jornal Liberacion chama atenção para outro tema, o crescimento expressivo da fortuna da família Trump desde o retorno do republicano ao poder. Segundo estimativas da revista Forbes, o patrimônio familiar teria aumentado mais de 1,4 bilhão de dólares, chegando atualmente a cerca de 6,5 bilhões de dólares. A reportagem aponta que esse crescimento não se explica apenas pela venda de produtos com a imagem do presidente.
Entre os exemplos citados estão a hospedagem de delegações estrangeiras em hotéis pertencentes à família Trump, com custos elevados, além do avião de luxo que o presidente aceitou como presente do Qatar. Ainda segundo o jornal, Trump também teria financiado negócios de seus filhos.
Diante desse cenário, uma comissão parlamentar pretende investigar possíveis conflitos de interesse, apesar de o presidente não demonstrar preocupação com o tema. Trump também move várias ações judiciais, com pedidos bilionários de indenização contra o Departamento de Justiça, o Fisco Americano, bancos e grandes empresas de tecnologia. RFI convida Adriana Moisés
Hoje a RFI tem o prazer de receber Liz Ferré, pesquisadora e autora de Estereótipos em Cena, lançado no Brasil pela editora Pedro e João, e que chega agora a sua segunda edição, revista e ampliada. Na obra Liz Ferré...
propõe um diálogo entre linguagem e psicanálise para refletir sobre as tensões que atravessam a sociedade brasileira, marcada pelas desigualdades sociais e raciais. Muito bem-vinda, RFI. Muito obrigada. Liz, nesse livro, quando você fala em estereótipos em cena, do que exatamente está falando? Onde esses estereótipos aparecem no dia a dia?
É interessante tomar a noção, primeiramente, pela etimologia. Estérios vem do grego rígido, sólido e tipo...
vem então desse traço. Então a gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa. São representações, mas representações cristalizadas de formas de ver o mundo, fenômenos, pessoas, grupos.
Os estereótipos dentro dessa proposta que eu faço, eles estão no cotidiano, na linguagem cotidiana, na forma como a gente vê as coisas, por exemplo, quando a gente diz o Brasil é o país do futebol. Independente disso ser verdadeiro ou não, não é inclusive essa questão, é que a gente então resgata e fortifica apenas um traço de uma cultura complexa.
O subtítulo do livro fala em um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, o que significa pensar o narcisismo não só no plano individual, mas como um fenômeno social e coletivo.
A palavra sintoma, eu fiz a tentativa de resgatá-la do campo da clínica para pensar mais num campo filosófico, que seria esse mal-estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos.
Então, isso como uma espécie de coesão que faria com que as pessoas se interessassem apenas por aquilo que as representaria, dentro de uma ideia bem fechada, sempre dentro dessa ideia mais rígida, mais cristalizada.
Então, narcisismo no âmbito do social é considerar que algumas formações discursivas fazem com que alguns grupos entrem numa espécie de delimitação das suas posições. A gente vê casos de relações de poder no cotidiano. Agora, você propõe um diálogo entre a análise do discurso...
que é uma questão da linguagem que se usa e que diz respeito a toda a sociedade, e a psicanálise. Agora, o que essa articulação permite enxergar que talvez não aparecesse quando se olha só por um desses lados?
Então, o que acontece? Quando a gente articula essas duas, a gente não apenas se interessa pela construção de sentido, como isso é analisado, mas a gente também observa a possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos.
que criam lugares e que inclusive relegam outros àqueles que não, eventualmente, seriam excluídos. E criam tensões sociais graves, porque é da linguagem que também vem a aceitação do outro, o respeito pelo outro, o reconhecimento pelo outro.
É muito interessante isso que você acabou de dizer, porque é justamente esse o ponto. Numa sociedade hierarquizada, como a brasileira, mas também a francesa, o que revelam os estereótipos sobre nós é justamente essa ideia, talvez, de defender uma imagem de grupo.
No Brasil, eu costumo dizer que a palavra racista, quando jogada você é racista, você cometeu racismo, é como se fosse mais grave do que cometer o ato. Então, essa imagem...
de ser racista é o que justamente a pessoa, não, não, não sou racista, diminui o efeito ou a atenção sobre esse conteúdo que não é então semantizado, que não é elaborado em si e que aparece na linguagem, nos atos falhos, em discursos como, por exemplo, aqueles que dizem assim, ah, não foi o que eu quis dizer. Esses atos falhos que Lacan vai dizer que são atos bem sucedidos,
Esses é que revelam conteúdos que ainda não elaboramos. O contato com o outro, saber sobre o outro, nos faz ter informações para poder, então, movimentar esses discursos e construir uma outra forma de se relacionar com aquela diversidade, com aquilo que para nós ainda era o desconhecido. E assim, depois de toda essa análise, lendo o seu livro...
Tem uma maneira de aproximar mais essa sociedade brasileira tão multicultural como é a nossa? A proposta justamente é de dialogar com essas pessoas que já estão trabalhando nessa questão.
para tentar propor um olhar a partir de outras posições. Olhares com recuo, olhares que trabalhem essa questão narcísica com outras vozes. Digamos assim que a pretensão é justamente de que alguém questione essas posições sobre a realidade do outro. Então abrir para uma alteridade, abrir para a escuta do outro. Muito obrigada, Alice Ferreira e sucesso para o seu livro. Muito obrigada.
Saúde em dia. Thaisa Estivanin.
Olá e sejam bem-vindos ao nosso programa Saúde em Dia. Diretor de pesquisa no Instituto Pastel, em Paris, o cientista português Eduardo Roche estuda a evolução, a diversidade genética e a transferência de genes entre as bactérias. Esses mecanismos moleculares sofisticados são essenciais para compreender e buscar soluções para a resistência aos antibióticos.
Essas análises são feitas a partir de dados de sequenciamento genético, que permitem o estudo detalhado dos genes presentes nos micro-organismos. O cientista compara o genoma de uma bactéria típica a um texto complexo, escrito com um alfabeto formado pelas quatro letras que correspondem às bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA, adenina, citosina, guanina e timina.
O objetivo é entender quais genes estão presentes no genoma e quais elementos regulam a presença e a expressão deles. Podemos comparar os nomes e perceber como é que as bactérias evoluíram no passado e, portanto, como é que vão evoluir no futuro.
Compreender esse processo ajuda a explicar como elementos genéticos móveis permitem a transferência de genes de resistência que impedem a ação dos antibióticos. O nosso foco de interesse é a evolução das bactérias. Por várias razões, são importantes do ponto de vista clínico, claro que algumas provam doenças, muitas são hoje em dia resistentes a antibióticos, elas também fazem boa parte dos nossos processos vitais, digamos assim.
Tentamos perceber como é que as bactérias se vão adaptar e elas conseguem se adaptar muito rápido.
Segundo o cientista, essa evolução acelerada pode ser observada em experiências de laboratório e em análises de amostras clínicas. Podemos fazer experiências em um laboratório em que vemos a evolução da bactéria, que em poucos dias pode ficar, por exemplo, resistente a antibióticos, perder a violência, aumentar a violência. Como agora podemos sequenciar os nomes muito facilmente, podemos traçar exatamente quais foram as modificações nos nomes que levaram ao resultado final.
No laboratório do Instituto Pasteur, a equipe de Eduardo cultiva bactérias em concentrações progressivamente maiores de antibióticos. Em seguida, sequencia o genoma daquelas que sobreviveram para entender o que levou à resistência. Os cientistas buscam mapear essas alterações no genoma.
As bactérias, em particular, têm a capacidade de trocar genes com outras bactérias, de adquirir genes de outras bactérias. É isso que faz que, há 70 anos, todas as bactérias com as quais nós convivemos eram suscetíveis a antibióticos e, hoje em dia, bactérias que são resistentes a quase todos os antibióticos conhecidos foram adquirindo estes genes e isso permite evoluir muitíssimo mais rápido.
Os pesquisadores também analisam amostras de pacientes de pessoas saudáveis. Em um dos estudos, eles acompanharam a flora intestinal de voluntários durante seis meses após um tratamento com antibióticos, para entender reações e modificações que variaram de acordo com vários fatores. É preciso ver o nosso intestino como uma espécie de ecossistema com bactérias diversas e diferentes...
do ecossistema, em função da genética das pessoas, em função da alimentação das pessoas, dos hábitos.
No ano passado, Eduardo Rocha recebeu a medalha de prata do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França por seus trabalhos sobre os elementos genéticos móveis. Esses elementos que estão no centro de sua pesquisa podem ser descritos como parasitas das bactérias e são capazes de transportar genes de uma célula a outra, contribuindo para a evolução dos micro-organismos.
O funcionamento dessas transferências gênicas é particularmente relevante quando as bactérias envolvidas são patogênicas e podem evoluir para formas mais virulentas. Eduardo identificou uma espécie de cadeia hierárquica de relações funcionais entre esses elementos. Seguindo a evolução destes elementos e dos genes de resistência, podemos perceber epidemiologicamente como é que a resistência se espalha na população ou no hospital.
Você ouviu Saúde em Dia. Obrigada pela audiência e até a próxima semana. Você encontra todos os podcasts da RFI no aplicativo RFI Pure Radio.