Episódios de Jornais

Programa 04/05 09h38 GMT

04 de maio de 202619min
0:00 / 19:00
Participantes neste episódio6
D

Daniela Franco

HostJornalista
A

Adriana Brandão

ReporterJornalista
E

Elcio Ramalho

Reporter
G

Gabriel Brust

ReporterCorrespondente
M

Mathieu Doss

ConvidadoTradutor
P

Pedro Frageli

ConvidadoOrganizador
Assuntos4
  • Saída dos Emirados Árabes da OPEPDecisão econômica: produção de petróleo acima da cota da OPEP · Relações tensas com a Arábia Saudita e o Irã · Alinhamento com a administração Trump e a visão sobre a OPEP como cartel · Estratégia de monetização do petróleo e diversificação econômica · Implicações para o Brasil (volatilidade do barril, erosão da coordenação do sul global, lições para países médios)
  • Genealogia e Historia FamiliarDigitalização de documentos do partido nazista · Jornal Die Zeit e acesso aos arquivos · Histórico dos arquivos e sua preservação · Interpretação da filiação ao partido nazista · Perfil do membro do partido nazista
  • Música Cristã BrasileiraTradução inédita de ensaios de Mário de Andrade para o francês · Organização e tradução da obra (Pedro Frageli, Mathieu Doss) · Importância de Mário de Andrade para a música popular brasileira e etnomusicologia · Singularidade da música brasileira e o projeto de construção nacional
  • Candidatura de Jean-Luc MélenchonAnúncio da candidatura para 2027 · Repercussão na imprensa francesa (Libération, Le Figaro, Le Parisien) · Desafios eleitorais e o eleitorado abstencionista · Concorrência com a extrema-direita (Reunião Nacional)
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Rádio França Internacional Daniela Franco

Olá, esse é o segundo bloco do programa da RF Brasil. Na sequência, vamos saber como a imprensa francesa aborda o anúncio da candidatura de Jean-Luc Mélenchon, líder do partido da esquerda radical França em submissa às eleições presidenciais francesas de 2027. Depois a gente ouve uma reportagem sobre um livro lançado aqui em Paris que traz ensaios e críticas de Mário de Andrade traduzidos em francês.

Para terminar, na crônica O Mundo Agora, Tiago de Aragão analisa a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP. Mas antes, no programa Linha Direta, vamos até a Alemanha conhecer uma ferramenta de busca online para a busca de antepassados que integraram o partido nazista. Confira.

Linha direta. Elcio Ramalho. A digitalização de cerca de 13 milhões de documentos do passado estão permitindo a famílias do mundo todo responderem pela primeira vez a uma pergunta incômoda. Será que meus antepassados eram nazistas? As fichas cadastrais dos membros do partido de Adolf Hitler e.

que passaram décadas guardadas, agora estão acessíveis através de uma busca simples no site de um jornal da Alemanha e está causando muito impacto no país. Nós vamos até Düsseldorf falar com o correspondente Gabriel Brust para saber como este arquivo se tornou público e como fazer para ter acesso a ele. Olá, Gabriel, bom dia. Por que esses documentos só vieram à tona agora?

Bom dia. Olha, a verdade é que eles não eram assim tão secretos, mas nunca foram disponibilizados de uma forma que as pessoas pudessem acessar facilmente. O Arquivo Nacional dos Estados Unidos chegou a publicar os arquivos online em microfilme, mas não dava para pesquisar por nome, por exemplo.

O que o jornal alemão Die Zeit fez foi ter acesso a todos os dados e organizar de forma que agora é possível simplesmente digitar um sobrenome e ver a ficha de filiação daquela pessoa ao partido nazista, acompanhada de data de nascimento, cidade de origem, profissão e outros dados também. Ou seja, se as informações baterem, não fica nenhuma dúvida de quem era aquela pessoa.

E Gabriel, por onde andavam esses arquivos até hoje? É uma história bem interessante. Pouco antes do fim da guerra, a liderança do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, que era o nome oficial do partido nazista, ela ordenou a transferência de todos os fichários, coisa aí de 50 toneladas de papel, da sede do partido, a chamada Casa Marrom, em Munique, para uma fábrica de papel no distrito de Freiman.

A ideia era destruir tudo, mas o dono da fábrica, um homem chamado Hans Huber, interrompeu a destruição assim que ele percebeu que tipo de informação tinha ali naqueles papéis. No outono de 1945, os americanos recuperaram esses documentos e levaram tudo para o Centro de Documentação de Berlim. São dois fichários diferentes, um é regional e um é nacional. A estimativa é de que 44% do fichário central...

e 77% do fichário regional sobreviveram a essa literal queima de arquivo. Os dois juntos somam 12,9 milhões de fichas de filiação ao partido nazista. E Gabriel, dá para dizer com certeza que qualquer um que apareça nesses arquivos foi cúmplice das atrocidades cometidas no período nazista?

A resposta para essa pergunta não é simples. As fichas dos registros não trazem informações sobre o motivo da filiação ao partido. Mas o jornal Die Zeit afirma que a data de filiação oferece algumas pistas. Por exemplo, aqueles que se filiaram ao partido antes de janeiro de 1933, quando Hitler chegou ao poder,

se filiaram por convicção política mesmo. Até porque, nos primeiros anos da existência do partido nazista, fazer parte dele trazia até mais desvantagens sociais do que vantagens. Era algo meio mal visto. Isso muda a partir de 1933, quando Hitler chega ao poder, e então muita gente também se junta ao partido, talvez até para obter alguma vantagem.

Tanto que as filiações dispararam a partir desse ano. Não é possível concluir que todas as pessoas que se filiaram participaram ativamente dos crimes nazistas, como a perseguição e exploração da população judaica. Mas há um consenso entre historiadores hoje, o de que ninguém era forçado a se filiar ao partido nazista, como muitos alegaram depois do final da guerra.

E, Gabriel, o que é mais possível descobrir através desses arquivos? A gente fica sabendo ali, por exemplo, que ao longo de 20 anos, 10 milhões e 200 mil pessoas receberam um cartão de filiação ao Partido Nazista. Mas, até 1930, o número de filiados era muito baixo. Eram 82 mil pessoas apenas.

Com a chegada ao poder, o número de filiados dispara, como eu comentei antes, e então ele atinge o seu auge no final da guerra, quando o partido nazista contava com 9 milhões de membros. O perfil típico do membro do partido eram homens jovens, principalmente nascidos entre 1900 e 1915, que vivenciaram a Primeira Guerra Mundial na infância e também na adolescência.

Em geral, eram trabalhadores do setor privado e também do público. Cerca de 60% dos funcionários públicos pertenciam ao partido nazista, além de profissionais liberais também e muita gente com qualificação técnica. Os trabalhadores da indústria eram uma exceção. Eles ainda permaneciam fiéis ao Partido Social Democrata. Enfim, esses documentos trazem um raio-x estatístico que é um prato cheio para os historiadores mergulharem nos próximos anos. É algo realmente inédito.

Muito obrigado, Gabriel Brusti, correspondente da RFM do Seudorf, na Alemanha, que participou do Linha Direta de hoje. A imprensa hoje. Daniela Franco. A imprensa francesa desta segunda aborda o anúncio da candidatura de Jean-Luc Mélenchon às eleições presidenciais francesas de 2027.

O candidato permanente diz o jornal Liberation em sua manchete, referindo-se à quarta vez que o líder do partido da esquerda radical França em submissa se dá o desafio. O diário destaca que o anúncio contradiz a promessa de Melanchon após sua derrota em 2022 de que não voltaria a concorrer ao cargo. Mas, segundo Libé, ele fez de tudo para não ter um sucessor dentro do partido.

O jornal reconhece que as eleições municipais de março na França mostraram que o partido de Jean-Luc Mélenchon tem potencial em cidades historicamente ligadas à esquerda. Por isso, para o diário, o maior desafio dele será convencer o eleitorado abstencionista a ir às urnas.

Essa foi realmente uma surpresa? Questiona o jornal conservador Le Figaro. Saindo de trás da moita, ironiza o diário, Melanchon tenta se desvincular do caos que reina à esquerda, diz citando o interminável balé de pretendentes progressistas.

Le Figaro considera que a principal briga de melanchon será contra o partido da extrema-direita Reunião Nacional, que cresce nas pesquisas, mas enfrenta a incógnita da candidatura de sua líder, Marine Le Pen, condicionada ao veredito da justiça, que sairá em julho, sobre sua inelegibilidade.

Para o jornal Le Parisien, o anúncio da candidatura de Melanchon suscita um gosto amargo à esquerda francesa que patina para se renovar. Um homem branco de 74 anos, abastado, com uma longa carreira, ele não percebe que é a encarnação do passado? Questiona um deputado progressista entrevistado sob anonimato pelo Diário.

Adriana Brandão. O intelectual, escritor e poeta modernista Mário de Andrade foi o pioneiro dos estudos sobre a música popular brasileira. Entre os anos de 1920 e 1940, o autor de Macunaíma coletou e pesquisou cantos, danças e tradições folclóricas em todo o Brasil na busca de uma cultura brasileira autêntica. Pela primeira vez, os ensaios, críticas, matérias e poesias de Mário de Andrade sobre a música brasileira

foram traduzidos em francês e publicados pela editora da prestigiosa Filarmônica de Paris.

O livro, escrito sobre a música popular brasileira de Mário de Andrade, foi organizado por Pedro Frageli, especialista na obra do escritor modernista. A tradução é de Mathieu Doss. A edição é ilustrada com fotografias das expedições de Mário de Andrade pelo Brasil. O organizador Pedro Frageli, que veio a Paris participar do lançamento, ressalta que o livro em francês é único.

A grande maioria dos textos que estão reunidos no volume está publicada no Brasil, em edições disponíveis, algumas edições esgotadas, mas os textos estão espalhados em edições diversas, mas não há um volume que reúna uma parte significativa dos ensaios sobre música ou sobre música popular brasileira mais especificamente.

do Mário de Andrade no Brasil. Então, uma edição como essa falta no Brasil. As traduções para o francês também são inéditas. O tradutor Mathieu Doss ressalta que os ensaios de Mário de Andrade sobre a música também têm a oralidade que marca os textos de ficção do autor. Mário de Andrade tem expressões um pouco originais, ele faz elipses.

Ele também usa às vezes umas palavras que hoje em dia não se usa mais. Quem conhece um pouco a escritura dele, sabe que ele usa uma ortografia muito particular. Ele escreve, por exemplo, si com S e I. Ele não escreve ainda, mas ainda é o Mário de Andrade. No Macunaíma ele também faz isso. Então eu me perguntei, falei, meu Deus do céu, será que eu vou fazer isso em francês? E eu conversei com o Pedro Fragelli.

E o Pedro me disse, olha, eu acho que é melhor a gente não fazer isso, vamos manter o texto num francês, no registro natural. Mesmo assim, eu consegui ali, um ou outro momento, botar um pouco de oralidade em francês, para dar essa impressão aqui do Mário, que é um texto muito generoso, né? O Mário lhe conta, né? Mesmo quando são ensaios que falam da música, que falam de um projeto, assim, de vanguarda brasileira, ele fala com o leitor.

Mário de Andrade fundou a etnomusicologia no Brasil e iniciou uma revolução na produção artística nacional. Ele foi um dos principais expoentes do movimento modernista brasileiro, ao lado de Oswald de Andrade e Sérgio Millier, mas no prefácio, Pedro Fragélia afirma que Mário de Andrade é o intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX.

A meu ver, a intervenção cultural que o Mário de Andrade realiza é incomparável em relação aos outros autores, do ponto de vista da sua abrangência e do ponto de vista da sua influência, até porque a obra do Mário de Andrade é uma obra tentacular, ela ultrapassa os limites da literatura e abrange a música, abrange as artes plásticas, abrange a cultura popular, os costumes, a dança.

Então é uma atuação muito mais ampla e mais vasta que a dos outros modernistas. O conjunto excepcional de documentos sobre a música brasileira, diversa e variada, é um dos principais legados de Mário de Andrade. Segundo ele, a singularidade dos ritmos nacionais era a diferença ou o desvio em relação aos padrões da música clássica ou tradicional europeia.

Mário de Andrade começou a escrever sobre a música brasileira nos anos 1920, quando os músicos e ritmos do Brasil começavam a ser conhecidos no exterior. Mas segundo Pedro Fragelli, a singularidade da música que ele buscava e defendia é muito diferente do exotismo que faz sucesso no estrangeiro.

Isso o preocupava na medida em que ele notava que o que era difundido aqui, em geral, se caracterizava por uma música que realçava de maneira excessiva as características da música brasileira para agradar um gosto europeu pelo exótico. Agora, o projeto de construção da música nacional do Mário de Andrade...

tem em vista a formação de uma música que pudesse contribuir para a música dita universal. Os textos do Mário mostram que a música brasileira é muito mais complexa e muito mais variada e rica do que se imagina por aqui. Ele mostra a possibilidade de desprovincianizar o pensamento nos países de origem colonial.

Por enquanto, o escrito sobre a música popular brasileira só existe em francês, mas Pedro Frageli já está trabalhando em uma versão em português, reunindo em um só volume o trabalho revolucionário de Mário de Andrade sobre o tema. O Mundo Agora. Crônica de Política Internacional.

Na semana passada aconteceu uma das notícias mais importantes do ano em geopolítica e quase ninguém percebeu. Os Emirados Árabes Unidos saíram da OPEP. 58 anos de associação encerrados numa nota de imprensa de três parágrafos.

E o mundo olhou para o outro lado, porque estava preocupado, de uma forma justificada, óbvio, com o estreito de Hormuz, com a viagem de Trump para Pequim e alguns outros temas. Por que isso importa muito mais do que parece, inclusive para o Brasil?

Primeiro, óbvio, os Emirados saíram porque queriam produzir mais petróleo do que a OPEP deixava. A capacidade instalada do país é de quase 5 bilhões de barris por dia. A cota da OPEP limitava em 3 milhões e 600 mil essa produção. Ou seja, 30% da capacidade de produção dos Emirados Árabes Unidos ficava ociosa, parada, paga, gerando frustração todo trimestre.

Essa é a explicação técnica, está nos jornais e é a explicação correta. Mas essa é a parte menos interessante da história. A parte interessante é a seguinte. Em 29 de dezembro do ano passado, aviões sauditas bombardearam o carregamento de armas dos Emirados, no Iêmen, vizinho. Foi a primeira vez na história recente que dois aliados do Golfo se atacaram militarmente. E os Emirados nunca esqueceram esse ataque.

Depois, durante a guerra recente do Irã, mísseis iranianos caíram em território Emirate. E a Arábia Saudita ficou em silêncio. Não houve solidariedade, não houve coordenação militar, não houve apoio diplomático. Para Abu Dhabi, tal dos Emirados Árabes Unidos, ficou claro que aquela aliança era uma ficção. Sair da OPEP, portanto, não é uma decisão só econômica. É uma espécie de divórcio. Um divórcio anunciado em comunicado oficial.

E os Emirados estão dizendo com uma elegância protocolar do Golfo que não vão coordenar política de preços com o país que os bombardeou. Tem mais. Os Emirados saíram exatamente no momento em que a administração Trump diz, em público e em privado,

que considera a OPEP mais um cartel a serviço da Rússia. Preço alto do petróleo significa receita alta para Moscou, e receita alta para Moscou significa mais ataques em Kiev. Ao sair, Abu Dhabi entrega a Washington exatamente o que Washington queria, a capacidade Emirate de derrubar o preço do barril de petróleo a qualquer momento, sem precisar consultar Riad, na Arábia Saudita, nem Putin.

E não é coincidência. Dias antes do anúncio, o secretário do Tesouro americano defendeu no Senado a abertura de linhas de swap de dólar para os Emirados, não para a Arábia Saudita. Quem viveu o suficiente em Washington sabe que essas coisas são combinadas antes.

E tem ainda uma outra camada que talvez seja ainda mais importante. O ministro de Energia dos Emirados disse em 2022 que o petróleo está em modo de declínio, que supor que a centralidade do petróleo é permanente seria um pensamento mágico. E é ele que está dizendo isso, o ministro de Energia de um país que vive de exportar petróleo. A leitura Emirati é direta.

Se o petróleo vai perder relevância nos próximos duas ou três décadas, a estratégia racional é extrair tudo agora, monetizar enquanto há comprador e construir uma economia que não dependa do barril. A OPEP foi feita por um mundo em que o petróleo era escasso e a demanda crescia para sempre.

Esse mundo está acabando. E a Abu Dhabi foi o primeiro Estado membro a admitir isso publicamente. E por que isso importa para o Brasil? Por três motivos. A volatilidade do barril vai aumentar. Para o Brasil, que é exportador de petróleo bruto, mas importador de derivados, o resultado é assimétrico e vai aparecer no preço final do diesel. Segundo, a OPEP era uma das poucas instituições do sul global que funcionava de fato.

Sua erosão sinaliza que a era de coordenação coletiva entre países em desenvolvimento está em recuo. Vale prestar atenção especialmente quando se discute uma estatal brasileira de terras raras. Por último, a lição, que talvez seja mais incômoda, que os Emirados acabam de demonstrar que na competição entre potências, países médios sobrevivem melhor sozinhos, alinhados bilateralmente com Washington.

ou Pequim, do que dentro de blocos coletivos. A OPEP não morreu essa semana, mas a ideia de que o Golfo era uma unidade política coordenada, essa morreu. Daqui a 10 anos, quando alguém escrever a história do fim da ordem energética que organizou o século XX, a data de 1º de maio de 2026 vai aparecer e, por enquanto, está no rodapé das nossas conversas. Tiago de Aragão falando direto de Washington. Rádio França Internacional em sintonia com o mundo.

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