UOL Prime #131: Como o filho de Gilmar Mendes virou o poderoso cartola da CBF
Francisco Schertel Mendes, filho do ministro do STF Gilmar Mendes, é o mais novo e poderoso cartola brasileiro.
O cargo formal que ocupa desde janeiro no ecossistema do futebol parece discreto diante do poder que de fato exerce: vice-presidente da Federação Mato-grossense de Futebol.
Mas foi com esse mandato que Francisco passou a ter assento na assembleia da CBF, direito a voto e influência. Não é só isso. Ele é hoje o único brasileiro membro do comitê disciplinar da Fifa —aquele que anulou o cartão vermelho do jogador americano Balogun após pedido do presidente Donald Trump.
É o que conta a repórter e colunista do UOL Thais Bilenky no novo episódio do podcast UOL Prime, apresentado por José Roberto de Toledo.
- Francisco Mendes na CBFFrancisco Schertel Mendes · Gilmar Mendes · CBF · Federação Mato-Grossense de Futebol · Comitê Disciplinar da FIFA
- Campeonato de Futebol em MaceióLiga Profissional de Futebol do Brasil · Futebol Forte União (FFU) · Libra · Direitos de transmissão · XP Investimentos
- Fair Play Financeiro na CBFFair Play Financeiro · IDP (Instituto da Família Gilmar Mendes) · CBF Academy
- CBF e escândalosGilmar Mendes · CBF · Supremo Tribunal Federal (STF) · Fernando Sarney · Edinaldo Rodrigues
- Polêmicas de arbitragemProfissionalização da arbitragem · FIFA
Onde a arena vai mal, mais um time no Nacional, e onde vai bem, outro também. A frase foi tornada famosa pelo Juca Kifuri e por muitos outros jornalistas e cronistas esportivos e se refere à influência da política no futebol brasileiro. Na época da ditadura, para você, meu caro ouvinte, ter uma ideia, o Campeonato Brasileiro, que hoje tem 20 times, chegou a ter 94. E a CBD, que é a atual CBF, Confederação Brasileira de Futebol, antigamente chamava Confederação Brasileira de Esportes, chegou a ser na época da ditadura comandada por um almirante, Almirante Heleno Nunes.
E foi na gestão dele que o Brasileirão, que na época chamava-se Campeonato Nacional, pulou de 54 para 94 times. Se essa relação do futebol com a política no Brasil vem de décadas, talvez desde que existe o futebol, agora temos uma balance, porque depois de passar pelo Legislativo e pelo Executivo, ela chegou também ao Judiciário e mais especificamente ao Supremo Tribunal Federal. E o nome que tá no pivô dessa novidade é Francisco Scherter Mendes, filho do ministro do Supremo Gilmar Mendes.
Oficialmente, o Francisco Mendes é vice-presidente da Federação Mato-Grossense de Futebol. Na prática, Segundo dirigentes ouvidos pela Thaís Bilenck para uma reportagem no UOL, o Francisco é um pouco mais do que isso, porque ele tem uma influência muito grande dentro da própria Confederação Brasileira de Futebol, dentro da CBF. Mas eu não vou dar spoiler aqui porque vou deixar a Thaís Bilenck contar essa história. Thaís Bilenck, muito bem-vinda de volta ao UOL Prime.
Você com quem temos uma relação semanal no A Hora, agora está me dando a honra de voltar aqui ao Prime.
Obrigada, Toledo, a honra é minha.
Eu sou José Roberto de Toledo e este é o UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL. Thaís Bilenck, vamos direto ao ponto. Eu já dei o título do Francisco Chertel Mendes, mas quem é o Francisco Chertel Mendes no contexto da CBF?
Bom, ele é considerado, Toledo, por dirigentes de várias federações e inclusive pessoas do mesmo grupo da CBF como o cartola mais poderoso do Brasil. Hoje só isso, apenas isso.
Como é que esses poderes se demonstram? Porque, por exemplo, na Copa do Mundo, né, que a câmera focava lá na tribuna de honra, sempre aparecia o presidente da CBF, que é, se eu não me engano, presidente da Federação do Amapá, ou de Roraima, filho de um dirigente de todo, de mil anos, da Federação de Roraima.
Ele próprio não tinha nenhuma relação com o futebol, tinha assim, né, tava lá, era o filho, mas ele é um médico de Roraima que não tava no tabuleiro brasileiro nacional, digamos.
Ele é quem dá a cara, mas quem opera nos bastidores é o Francisco Chertelmeu, Francisco Mendes, vamos chamar ele assim para resumir, né? Conta para gente, de onde vem essa história? O Gilmar é um fanático do futebol? Como é que, por que que ele tá onde tá e por que que ele tem todo esse poder?
Essa história começa lá atrás, na verdade, mas no último ano é que ele se torna essa voz tão influente nessa gestão exatamente do Samir Choudhury, que é o atual presidente, que é quem aparece na foto. É importante mencionar que a CBF, apesar da derrota na Copa e esse ser o assunto do momento, momento, a CBF tá envolvida com, eu diria, 3 grandes discussões. Uma delas enorme, uma segunda bem grande, uma terceira grande. E nessas 3 discussões, a liderança à frente desse debate é o Francisco. Daí essa relevância toda dele.
Quais são as 3? Agora que você deu a dica, deixa a história para depois.
A gigante questão que tá colocada é sobre a Liga Profissional de Futebol do Brasil para organizar o Campeonato Brasileiro, que é uma discussão que tem décadas e chegou a ter o dos 13 e tal, mas não durou muito. E agora parece que o Futebol Forte União, que também chegou a ter uma boa maioria de times, quase os 40 times da Série A e B, e por um esforço inclusive da CBF, esse grupo tá sendo desfeito aos poucos, mas continuamente.
A discussão da liga, ela parte do seguinte pressuposto, assim: os grandes países onde o futebol é um esporte importante, um mercado econômico importante, esses países têm ligas profissionais que funcionam paralelamente às federações nacionais, às confederações.
Tipo Inglaterra, por exemplo, tem a Premier League que cuida do campeonato inglês, e você tem a Confederação Inglesa de Futebol, que é quem é responsável por convocar a seleção, etc.
Isso, uma coisa não tem a ver com a outra. Da mesma forma, a La Liga na Espanha, a Bundesliga na Alemanha, até a MLS dos Estados Unidos tem modelos desse tipo. É uma empresa, né, que é uma empresa, entidade privada, e que gere os direitos de transmissão, que é a grande fonte de receita dos clubes hoje, é o direito de transmissão na televisão, as placas de estádio, a publicidade.
E agora, principalmente na internet, como o Kazé TV demonstrou, né?
Então, e a Kazé TV pertence à empresa que tem também a grande participação no Futebol Forte União, FFU, mais precisamente no Condomínio do Futebol, que é quem gere essa tentativa de liga que eu vou chamar aqui de FFU para simplificar, que tem investimento da XP e de outros bancos. Eles fizeram uma articulação massiva nos últimos 3, 2 anos mais ou menos, conseguiram chegar a agregar quase 30 e tantos times dos 40 e fizeram todos esses clubes assinarem contratos.
Porém, esses contratos têm uma previsão de duração de 50 anos, que é muita coisa para o futebol, considerando sobretudo as transformações dos direitos de transmissão que da televisão estão migrando para internet, e com uma cláusula lá que deixa os clubes basicamente nas mãos do investidor. E por conta dessa avaliação, a CBF falou: não, isso aqui não pode prosperar.
Tá aí, você sabe que eu sou meio lento, né? Então eu vou voltar um pouquinho para ver se eu entendi. São 40 times, 20 na primeira divisão, 20 segunda, na segundona. E desses 40 times, 30 e muitos, né, estão já fechados com essa empresa, vamos chamar assim, não sei se é uma empresa ou se essa, desse projeto de liga que envolve grandes investidores do mercado financeiro, como esses que você citou, e a empresa que é dona da Kazé TV, que compra os direitos de transmissão e usufrui deles e ganha dinheiro com isso.
Vários clubes que aderiram já saíram. O negócio já está em franca decomposição, eu diria. Tem uma outra liga, tentativa de liga, que no fundo essas duas ligas, que é a FFU e a Libra, se tornaram, por não conseguirem fazer uma chapa única, vamos chamar assim, se tornaram blocos de negociação. Então alguns clubes aderiram à FFU e outros à Libra. E a Libra também ainda tem alguns clubes.
Você sabe quais, assim, dos principais estão em qual? Quais estão em quais?
A Libra é Flamengo, sobretudo, que é a maior torcida. Porque o critério do tamanho da torcida, ele importa na divisão dos recursos dos direitos de transmissão. Então quando um grande clube tipo Palmeiras abandonou a FFU e o movimento do Palmeiras puxou a linha para vários outros também pelo tamanho das torcidas.
E o Palmeiras saiu da FFU, mas não aderiu à Libra.
Não.
E o Palmeiras recebeu bem a tentativa da CBF fazer um bloco único. Essa é a grande discussão agora na CBF, que a tentativa de formar uma liga única dos 40 times que negociem com a mediação da CBF, mas sem a dependência. Seria uma coisa independente, mas a partir de uma mediação da CBF que, nos argumentos da CBF, priorizará o interesse dos clubes em detrimento de investimentos estrangeiros, externos, enfim.
E o Francisco Mendes está à frente desse processo pelo lado da CBF?
Ele oficialmente não tá em nada. Não, não.
Só para eu entender, o Francisco Mendes, filho do Gilmar Mendes, não tem cargo na CBF, ou tem?
Não tem cargo, não tem cargo.
Ele é só vice-presidente presidente da Federação Mato-Grossense, mas é ele que tá nos bastidores coordenando esse trabalho de tentar juntar os 40 times da primeira e da segunda divisão para, com a coordenação da CBF, escapar um pouco dessas outras duas que já existiam.
É porque o que acontece, o argumento dentro da CBF é que o fato de esses grandes investidores financeiros estarem amarrando os clubes num contrato que é vantajoso para esses investidores e não necessariamente para os clubes, por conta dessa leitura, e é uma uma atitude muito agressiva da FFU, a CBF decidiu reunir os clubes. Já aconteceram várias reuniões com os 40 clubes, que é uma coisa inédita na história do futebol, e promover debates e mostrar através de advogados, através de gestores, através de vários quadros técnicos do IDP, que é o Instituto da Família Gilmar Mendes, ou seja, fundado pelo ministro, cujo diretor-geral é o Francisco Mendes.
Então vários quadros do IDP sentando na mesa com os clubes estão mostrando que esse acordo não é vantajoso para eles. Agora, Por que que é o IDP fazendo isso? Não é à toa, não é do além. É porque o IDP tem uma parceria com a CBF desde 2023. E ele é quem gere a CBF Academy, que é o braço de ensino da CBF. De cursos do esporte, do futebol, de arbitragem, de várias coisas. Tem mestrados, tem uma gama grande de cursos.
Quer dizer, não é só... O IDP não se restringe ao saber jurídico. Ele se estendeu também ao saber administrativo/futebolístico.
Sim, sim. Ele tem cursos profissionais. Que são oferecidos pela CBF Academy. E a partir desta parceria, desse acordo assinado em 2023, muitos quadros do IBDP passaram a ter postos, posições dentro da CBF. Então alguns dos postos dos mais relevantes, até aqueles de baixo escalão, ou seja, eles forneceram quadros mesmo. O próprio Samir Choudhury, presidente da CBF, é egresso da CBF Academy, do IBDP. Vários diretores, vice-presidentes, enfim.
Isso é uma revolução, né? Porque historicamente os clubes e um grupo de poder que vem desde o João Havelange, que foi presidente da Confederação Brasileira de Esportes, depois presidente da FIFA, criou o monstro FIFA, falando em termos empresariais, né, os contratos bilionários da FIFA, transformou o futebol no negócio bilionário. Depois foi sucedido pelo Genro e sempre manteve-se essa linha de influência tal. Agora você tem um novo polo de poder surgindo e surgiu através da academia.
Isso, isso até quem é crítico dessa gestão reconhece, que o padrão era muito baixo, intelectual, acadêmico, enfim.
Era baseado em mesadas, né, que se davam aos dirigentes. Quer dizer, era um clientelismo explícito.
Então você vê até essas federações que agora estão no poder na CBF, Roraima, Amapá, Pará, e mesmo as do Sudeste, enfim, não eram federações que primavam pela excelência dos seus quadros. E a partir do momento que o IDP começa a fornecer quadros, alguns debates como este da Liga, que estavam atravancados há décadas no futebol brasileiro, começaram a se desenrolar. No caso da Liga, só para a gente encerrar esse capítulo, você pergunta se o Francisco Mendes está à frente dessa negociação.
Não. Então ele tem quadros próximos a ele ou ligados ao IDP estão em postos-chave nessa discussão na CBF, mas a CBF já fez duas missões internacionais para mostrar ligas profissionais para os clubes brasileiros. A primeira delas aconteceu no início desse ano na Europa. Eles foram para La Liga na Espanha, eles foram para Premier League na Inglaterra, eles foram para Bundesliga na Alemanha. E o Francisco Mendes fez doutorado lá na Alemanha, ele é fluente no idioma, ele conhece o país.
Então ele foi uma pessoa importante ali até para ajudar na comunicação dos clubes brasileiros com os alemães. E ele foi lá oficialmente como representante da Federação Mato-Grossense, porque o Cuiabá tá na segunda divisão, o clube.
Bom, então traduzindo em miúdos para os dirigentes nacionais o que que é uma liga internacional de sucesso. Quais são as outras duas discussões? Mas não responda agora, só depois do intervalo.
Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama.
Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do Se o Bolsonaro não tivesse perdido a eleição, ela não seria presidente do PL Mulher.
Michele tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu contar.
Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade.
Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de Michele.
Os filhos não consideram a madrasta como família.
Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou, e eu não tinha feito nada contra ele.
Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime, disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas as plataformas de podcast.
Voltando no intervalo, Thaís Bilencki. E quais são as outras duas discussões em que o Francisco Mendes está metido e que são vitais aí para o futebol e para a CBF?
A segunda grande discussão é o fair play financeiro, que são medidas saneadoras que a CBF tá colocando para os clubes tentarem diminuir seus endividamentos e terem gestões financeiras mais saudáveis. E aí, por fair play, entenda-se regras que sejam justas e leais entre os clubes e menos autofágicas, vamos chamar assim.
Porque tinha uma briga histórica por: eu tenho mais torcida, eu tenho direito a uma cota maior, você tem uma cota menor, e por aí vai. Estão tentando botar ordem na zona.
É, e o fair play já foi implementado. A pessoa que cuidou dos debates e da implementação disso na CBF, uma pessoa egressa do IDP muito próxima, que foi braço direito do Francisco Mendes no IDP, é braço direito dele lá, e hoje é quem preside a agência que monitora e regula o fair play financeiro. E essa é a grande entrega da gestão. A gestão tem pouco mais de um ano e já fez esse avanço, que é algo que empatou, né, o desempenho dos times economicamente, historicamente, nos últimos anos e décadas.
E o terceiro tema?
Terceiro tema, que eu disse que é o menor de todos eles, mas é muito importante para o futebol brasileiro também, é a profissionalização da arbitragem. Isso ainda não tá 100% entregue, mas eles estão criando uma carreira para o árbitro com um salário fixo com bônus por desempenho, enfim, condições para que ele seja um profissional com autonomia, com independência e estabilidade, e investir na carreira dessa forma.
Isso é inspirado também em ligas estrangeiras, é uma regulamentação ou é uma jabuticaba?
Não, todas essas iniciativas têm diálogo com as melhores práticas internacionais, enfim, o há algum tempo no Brasil é afiliado ao sistema FIFA, até para poder apitar jogos fora do Brasil. Então tem relação sim com outros países.
Agora, pequeno probleminha: Brasil teve a pior, pior desempenho na Copa do Mundo de Estados Unidos, México e Canadá em décadas e saiu muito cedo da competição. Isso atrapalhou a vida política do Francisco Mendes junto com a vida do atual presidente da CBF?
Definitivamente, né? Primeiro que o presidente da CBF, uma vez começada a Copa, começaram a vazar custos que ele pagou com o dinheiro da CBF. Em tese ele disse que não, mas os extratos que apareceram eram disso, com custos de viagens dele com a esposa e de viagens dele com outras amigas custeados pela CBF. Então já desde o início da Copa o noticiário para ele teve esse aspecto negativo, e a má trajetória do, o mau desempenho, né, do lá acentuou as críticas.
E a resposta que eles estão dando é que eles assumiram há menos de um ano, já fizeram tudo isso que a gente acabou de descrever, e a aposta é que para a próxima Copa vai dar tudo muito melhor.
E os clubes, como é que estão? Você falou, fato inédito, conseguiu reunir os 40, etc., mas sempre tem o Flamengo, os times de maior torcida em geral não topam essas uniões com muita facilidade, porque tem, né, sempre tem esse argumento, falar, minha torcida é muito maior que a do outro time, né? Então, do Corinthians é muito maior que a da Matonense, a do Flamengo é muito maior do que a do Olaria, do Palmeiras, enfim. Como é que eles estão resolvendo essa questão? É esse fair play financeiro aí que você mencionou ou tem outras alternativas?
É, o fair play financeiro é o primeiro passo para a formação de uma liga, porque coloca os times em pé de igualdade, não necessariamente em receita, mas, né, com saúde o bastante para negociar. E ainda tem outras coisas para os times, para os clubes resolverem, para ficarem de pé e que consigam fazer a liga acontecer. Não se sabe ainda quanto isso vai dar certo ou não, porque tá travado há muito tempo, mas tem projetos de lei no Congresso já apresentados na Câmara dos Deputados, por exemplo, propondo a criação de uma liga profissional.
Quer dizer, no limite, se os clubes não chegarem a um entendimento, a bancada da bola pode eventualmente fazê-lo, tá?
Voltando então a minha pergunta original, que a gente atropelou, eu já entendi que que o caminho de acesso do Francisco Mendes foi o IDP. Agora, como é que o Gilmar Mendes, o pai do Francisco, chegou nessa relação com a CBF? Pergunto isso porque dirigentes esportivos e muitos dirigentes de clubes, alguns deles chegaram a ser presos já, né? O caso do Onayreves Moura, que foi presidente da Federação Paranaense de Futebol, não é o único, né?
Então você tem um juízo supremo intervindo nesse campo, sem trocadilho, não é uma coisa neutra, né? Isso tem preso, porque eventualmente um desses caras pode vir a ser julgado pelo Gilmar Mendes, né?
Então, o Gilmar Mendes já tomou algumas decisões em relação à CBF que foram importantes, inclusive nessa trajetória. Mas o Francisco Mendes não atua a mando do pai, porque ele próprio, ele tem uma trajetória dele. Inclusive, ele tem um início de carreira no Senado Federal como consultor legislativo. E é curioso, porque o Senado são 27 estados, né, unidades da federação, 81 senadores, 3 por unidade. Todos os votos valem a mesma coisa.
E na CBF, as federações também, elas têm peso 3 e valem a mesma coisa. Então, em conversas que ele tem assim reservadamente com amigos e tal, ele sempre faz esse paralelo entre o que ele aprendeu no Senado e o que acontece hoje na CBF. Então, a carreira dele tem a sua própria trajetória, e ele firma o acordo com a CBF em 2023 depois que a AGV, Fundação Getúlio Vargas, recusa esse acordo para gerir a CBF Academy. Aí, gente lá da CBF foi procurar o IDP, e esse acordo precisava de R$8 a R$9 milhões para começar a valer, porque tinha alguns custos da CBF que ela não tava conseguindo para implementar os cursos.
Então é um grande investimento que não dá dinheiro num primeiro momento, o da CBF Academy. Isso acontece em 2023, mas veja, em 2021 o Francisco Mendes já tinha sido indicado para ser o representante do Brasil no Comitê Disciplinar da FIFA pelo Rogério Caboclo, que era o presidente da CBF na época, que saiu acusado de assédio moral e sexual num escândalo lá atrás. Em 2025, o mandato dele nesse comitê é renovado até 2029. Então ele já tava se aproximando da CBF já em 2021.
Em 2023, ele faz esse acordo, que é um acordo que abre as portas da CBF para o IDP, claro, fazer esses cursos. E aí acontece em 2024, 25, uma grande mudança, que é o que consolida esse novo grupo no poder. Em 2024, o Edinaldo Rodrigues é o então presidente da CBF. Começam a ter problemas internos com opositores lá dentro, entram com várias ações contra ele, mas ele consegue fazer um acordo. E em 2025, ele se reelege presidente da CBF.
Só que, Toledo, ele traiu uma pessoa, a pessoa errada. Que ele traiu Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney, que é vice-presidente da CBF desde 2004. Ele tira o Fernando Sarney...
Porque ele é da Federação do Maranhão.
É, que tá sem comando, que tá uma confusão. Então, assim, ele tem muito poder, mas no futebol... Enfim. Ele tira o Fernando Sarney da chapa sem avisar, porque eles tinham combinado na chapa à reeleição que ele estaria lá. No que ele tira, o comando foi dado. O próprio Fernando Sarney e outros entraram no Supremo contra a reeleição por causa dessas ações que estavam paradas lá. Uma delas, o próprio Gilmar Mendes tinha dado uma liminar para o Edinaldo Rodrigues permanecer na presidência da CBF.
A favor do Edinaldo Rodrigues, que foi quem traiu o Fernando Sarney, que foi quem traiu o Fernando Sarney.
Depois, e aí outro processo, tem uma confusão de um monte de ações no Supremo, outro processo cai lá no Gilmar Mendes. E ele, depois dessa questão, ele manda esse processo para o Rio. Só que o Tribunal de Justiça do Rio já tinha decidido em desfavor do Edinaldo antes. Então quando ele manda, já se esperava.
Quer dizer, é uma decisão contra o Edinaldo. O simples ato de remeter o processo já é uma sentença contra o então presidente que tinha traído o Sarney. Aliás, Sarney e Gilmar Mendes sempre foram próximos.
É, eles são amigos, enfim, tem uma relação. E tem os dois filhos ali que estavam já na CBF, né?
Entendi. Quer dizer, essa história, eu fui buscar o Onayreves Moura, mas eu fui longe demais, né? Podia ter vindo para o ano passado, aqui o ano retrasado, que Efeito, efetivamente, o fato de o cara ser filho do Ministro do Supremo, mesmo que o Gilmar não faça nada, tá na cabeça de todo dirigente esportivo do país.
Eu diria que é mais isso do que qualquer outra coisa. Alguns dirigentes falando para mim, eles não falam publicamente isso, mas eles falam que só o sobrenome já intimida, independentemente da influência ou não do pai. O fato é que o filho carrega o sobrenome dele.
Bom, Thaís Bilenck, o que você conta é uma história que tá em desenvolvimento, né? Todas essas discussões, elas ainda estão acontecendo, umas estão mais avançadas, outras estão mais atrasadas. Então eu vou cobrar que você continue cobrindo essa história. E uma parte você vai contar aí numa hora, mas uma parte você vai voltar aqui para contar em detalhes, porque dá para a gente explorar mais esses bastidores. Bom, as pessoas vão querer ler a sua reportagem com mais detalhes. E onde é que elas podem encontrar?
Elas podem entrar no site do UOL e lá no UOL Prime, a matéria vai estar lá, uol.com.br/prime.
E aí vocês leem tudo que a Thaís Bilenk escreveu e escreverá sobre esse assunto. Muito obrigado, Thaís Bilenk, já está convocada aqui, não, antes da Copa, tá?
Muito obrigada.
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Confira lá em assine.uol.com.br. Eu sou José Roberto Toledo e faço a apresentação do podcast UOL Prime, Conversei hoje com Thaís Bilencki, minha colega de A Hora, colunista e repórter do UOL. O roteiro é da Clara Raelstab. A operação de vídeo é do Henrique Villarrazo. A montagem é do Lucas Zacarias. A trilha sonora original foi composta por João Pedro Pinheiro. A coordenação é da Lígia Carriel e da Laura Kapiliushnik. Coordenação de operações é do Danilo Esperandil e do Eduardo Bonavita.
A foto de capa é da Daniela O podcast é um produto do UOL Prime. A diretora de política e economia é Renata Agostini. A supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.