Episódios de UOL Prime

Michelle #2: Êxodo

14 de julho de 202637min
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Ao chegar ao Palácio do Planalto, Michelle Bolsonaro deixou de ser apenas a esposa do presidente para construir um espaço de poder próprio. Neste episódio, mostramos como ela fortaleceu sua influência entre o eleitorado evangélico e passou a disputar protagonismo dentro do bolsonarismo. Também investigamos os conflitos nos bastidores da família Bolsonaro e como eles revelam as tensões por poder no principal grupo político da direita brasileira. #PodcastMichelle #ep02

Participantes neste episódio9
S

Speaker B

HostJornalista
S

Speaker A

Convidado
S

Speaker C

Convidado
S

Speaker D

Convidado
S

Speaker E

Convidado
S

Speaker F

Convidado
S

Speaker G

ConvidadoMinistro da Saúde
S

Speaker H

ConvidadoProfessora de relações internacionais
S

Speaker I

ConvidadoJogador de futebol
Assuntos6
  • A ascensão de Michelle Bolsonaro e sua influênciaTrajetória de Michelle Bolsonaro · Imagem pública de Michelle · Interesse pela comunidade surda · Libras · Depressão pós-mudança para o Rio · Igreja Universal · Vitória em Cristo
  • Rompimento FamiliarRelação com os filhos de Jair Bolsonaro · Escândalo dos cheques (Micheque) · Fabrício Queiroz · Rachadinha · Tensão com Carlos Bolsonaro · Oportunismo de Michelle
  • O papel de Michelle na posse presidencialDiscurso em Libras na posse · Comunidade surda · Família Bolsonaro · Causa das pessoas com deficiência · Damares Alves
  • Posicionamento de Michelle BolsonaroEstratégia de campanha de Bolsonaro · Eleitorado feminino · Protestos contra Bolsonaro · Discurso de Michelle sobre Bolsonaro · Eleitorado evangélico
  • Transformação e MudançaMudança de postura de Michelle · Campanha de reeleição de Bolsonaro · Lançamento da candidatura de Bolsonaro pelo PL · Novo visual de Michelle · PL Mulher
  • Evangélicos e PolíticaDeclaração de apoio a Edir Macedo · Símbolos evangélicos em propaganda · Silas Malafaia · Jair Bolsonaro · Michele Bolsonaro
Transcrição94 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Conheça agora Michele Bolsonaro, mulher forte e sensível, dedicada à causa das pessoas com deficiência e que estará junto com Jair Bolsonaro trabalhando pelo Brasil.

?Voz B

Michelle entrou na campanha de Jair Bolsonaro faltando 3 dias para o segundo turno das eleições de 2018. Bolsonaro estava à frente nas pesquisas contra Fernando Haddad, do PT, entre homens e mulheres, mas a vantagem dele era menor no eleitorado feminino. Menos de um mês antes, em 29 de setembro, milhares de mulheres tinham ido às ruas do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa protestar contra Bolsonaro. Somos mulheres, milhões e diversas! Bolsonaro é tudo o que o Brasil não precisa. Por isso dizemos: ele não!

?Voz C

O protesto ele não atravessou os oceanos e chegou até Lisboa.

?Voz A

Infelizmente nunca votei em 15 anos e pela primeira vez nessa eleição eu vou votar.

?Voz D

Ele não! Ele não!

?Voz B

A ideia era lembrar às eleitoras o que Bolsonaro pensava e enfatizar suas polêmicas, incluindo a fraquejada, termo que ele usou para se referir ao nascimento da filha que teve com Michele depois de ser pai de 4 homens. Michele então foi à TV dizer que não era nada daquilo. Ela reforçou uma versão que a campanha de Bolsonaro tentava emplacar, de que ele era espontâneo, dizia o que vinha à cabeça, gente como a gente.

?Voz A

O Jair, ele tem um brilho no olhar diferenciado. Ele é um cara humano, ele é um cara que se preocupa com as pessoas. Ele é muito brincalhão, muito natural, muito dado. Ele é um ser humano maravilhoso. Quem conhece, quem convive, sabe que ele é assim. É o meu amor, né?

?Voz B

Tinha uma razão a mais para Michelle estrear na campanha do marido. O entorno de Jair Bolsonaro teve notícias de que em grupos de evangélicos no WhatsApp surgiram críticas ao fato de ele ser católico. Questões morais e religiosas ganhavam cada vez mais destaque no debate público. O crescente eleitorado evangélico já era um fator de desequilíbrio no jogo político da nação com o maior número de católicos do mundo. A declaração de apoio a Gegê Macedo, líder da Igreja Universal, pouco antes do primeiro turno, Tinha dado uma aliviada na reputação de Bolsonaro junto aos evangélicos, mas era preciso mais.

Em algumas cenas da propaganda, Michele aparece usando uma camiseta preta com o desenho de uma cruz vazia.

?Voz E

Quando a gente fala desse crucifixo, que ele é típico das igrejas evangélicas, que você não tem uma representação nem de santos, é a mesma ideia de Jesus crucificado. São vários símbolos que a Michele vai lá e ela representa muita coisa.

?Voz B

Essa é a jornalista Ana Virgínia Balussier. Pra entender a importância dos símbolos evangélicos na eleição de 2018, eu resolvi pedir ajuda dela, que sabe tudo do assunto. Então, desci dois lances de escada e cheguei à redação da Folha de São Paulo, que fica no mesmo prédio do UOL.

?Voz E

Pode sim ter essa sinalização de que, olha, Jair não é, tá quase lá, mas eu sou a auxiliadora dele.

?Voz B

Os dias em que Michele Bolsonaro duvidou da própria fé ao ouvir do marido que queria ser presidente da República decididamente tinham ficado para trás. Agora ela tava no jogo. Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde o fim do mandato do marido, ela não sai do noticiário. Da esquerda à direita, há um consenso sobre Michele. Sua imagem não condiz com a de Bolsonaro. Se o ex-presidente é conhecido como um homem tempestivo, que fala o que vem à cabeça, quase descontrolado, Michele é reputada como sóbria e enigmática.

Por isso, resolvemos mergulhar na história dessa mulher. Queremos entender o trânsito de Michele pelas igrejas evangélicas, E por que, depois da atitude inédita de fazer um discurso na posse do presidente da República, ela não cumpriu a expectativa de ser uma primeira-dama com luz própria? Queremos descobrir como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Eu sou Adriana Negreiros, repórter especial do UOL, e este é Michele, um podcast original UOL Prime.

Episódio 2: Êxodo. O anúncio oficial da campanha de Bolsonaro foi em março, quando ele se filiou ao PSL, um partido pequeno e irrelevante até então. Foi um movimento discreto que já indicava o tom de uma campanha que se apresentava como antissistema. Naquele momento, o Brasil ainda enfrentava a crise política que se arrastava desde as manifestações de junho de 2013. O avanço da Operação Lava Jato e a prisão de Lula em 2018 aprofundaram ainda mais a polarização.

Havia um sentimento difuso de rejeição à política tradicional. Bolsonaro ocupou esse espaço. Praticamente sem tempo de televisão, a campanha aconteceu principalmente nas redes sociais. Era uma comunicação sem mediação que ajudava a construir a imagem de alguém acessível. No começo de setembro, as pesquisas davam pouco mais de 20% de votos para Bolsonaro quando ele foi esfaqueado durante uma agenda de campanha em Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais.

Michele contou detalhes desse dia no canal do jornalista Alexandre Garcia no YouTube.

?Voz A

Quando eu cheguei na Santa Casa, eu abri a cortina e realmente ele estava irreconhecível. Ele Olhou para mim e falou, Mi, olha o que fizeram comigo. E eu olhei para o teto do hospital e fiz uma oração. Falei para Deus, Senhor, eu sei que não cai um fio da nossa cabeça e nem uma folha da árvore sem o seu consentimento.

?Voz B

Depois da facada, Bolsonaro não compareceu aos debates eleitorais e a comoção em torno do ataque deu um gás à campanha dele. Jair Bolsonaro, do PSL, ficou em primeiro lugar com 46,03% dos votos. Isso representa mais de 49 milhões de pessoas. No segundo turno, a estratégia de campanha permaneceu a mesma: sem participação em debates e com foco nas redes sociais. A diferença era que agora ele tinha o mesmo tempo de televisão de Haddad.

E foi por isso que Michele pôde tratar de tantos assuntos naquela estreia no horário eleitoral. Um dos temas foi o seu interesse pela comunidade surda.

?Voz A

Minha mãe, ela foi sempre uma pessoa que nos ensinou que a gente não deveria negar água e comida para ninguém. E a gente cresceu com isso, né? Eu tenho um tio surdo e ele plantou essa sementinha na minha vida e me despertou o amor pela Libras. Eu comecei a estudar sozinha e esse amor foi aumentando.

?Voz B

O tio a quem Michele se refere é Gilberto Firmo. Depois, quando ele foi preso por guardar pornografia infantil, Michele disse que não tinha uma relação próxima com ele. Apesar de remeter o interesse por Libras à infância, fazia pouco tempo que Michele dominava o idioma, estimulada pela vida comunitária na igreja.

?Voz A

Eu casei e vim morar no Rio. E aqui foi bem complicado. Eu saí da minha terra natal. A cultura daqui é bem diferente de Brasília. Os hábitos, né? Então isso me entristeceu um pouco. Então eu comecei a ter depressão porque eu me casei em Brasília, vim para o Rio, só que o meu marido me deixava no Rio e ia trabalhar em Brasília.

?Voz B

Foi essa depressão que levou Michele a procurar uma nova igreja na cidade maravilhosa.

?Voz A

Eu consegui ir numa igreja universal e dali o pastor começou a me acompanhar e em seguida eu encontrei a minha igreja, que era a Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

?Voz B

Na Assembleia de Deus, Michele conheceu Sóstenes Cavalcanti, que hoje é deputado federal pelo PL do Rio e na época era pastor. Eu conversei com ele em Brasília.

?Voz F

Na verdade, não era ainda nem Vitória em Cristo, porque o pastor Silas não tinha assumido a igreja. Era a Assembleia de Deus da Penha, que tinha uma filial na Barra da Tijuca, na Avenida das Américas. Ela era membro ali. Eu trabalhava com o pastor Silas Malafaia e visitando a igreja, eu com minha esposa conhecemos, ela já era esposa do deputado Jair Bolsonaro.

?Voz B

Em 2010, com a morte do sogro, pastor José Santos, Malafaia assumiu o comando da igreja.

?Voz F

Essa igreja foi transferida da Avenida das Américas para Lúcio Costa, bem próximo do condomínio onde eles moravam, ali na Rua da Praia, na Barra da Tijuca.

?Voz B

Nessa época, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia já tinham se aproximado, como a gente mencionou no episódio passado. Ana Virgínia dá mais detalhes.

?Voz E

Na metade dos anos 2000, alguns fatores levaram o Malafaia a se aproximar do Jair, que pode ser sobretudo assim o combate ao que, visto como assim o Plano Nacional de Direitos Humanos de algum tempo antes, e também o PL 122, que era o PL anti-homofobia, que foi encarado como um ataque às igrejas evangélicas, por exemplo, que falavam que dependendo da interpretação daquele texto você poderia prender um pastor por ler a Bíblia. E se de fato você pega a Bíblia, dependendo da tradução que você encontrar, você vai ter claramente frases, versículos falando, por exemplo, um homem que se deita com um homem é uma abominação que pode ser punida até com pena de morte.

Se essa frase isolada, qualquer pessoa que lesse uma frase dessas e falasse não é da Bíblia, poderia falar isso é homofobia. E aí pastores começaram a falar: se você aprovar esse texto, a gente pode ser preso, o meu pastor pode ser preso, e isso eu não vou deixar.

?Voz B

Silas Malafaia encontrou no então deputado federal Jair Bolsonaro um aliado para barrar o projeto no Congresso, e na esposa dele, Michele, uma aliada para as questões do dia a dia evangélico. O que não tava encaixando ali era Jair não participar desse dia a dia com Michele. Então ela pediu ajuda à sócia Nisca Valkandi.

?Voz F

Eu me lembro que uma das primeiras, uma das conversas que a gente fez foi justamente ela falando, se aproxima do Jair, eu quero que ele também se torne um evangélico junto comigo, você pode me ajudar nisso?

?Voz B

Olha, então se eu bem entendi, deputado, o senhor se aproximou primeiro da ex-primeira-dama Michele?

?Voz F

Sim, sim, a minha amizade primeiro foi com ela. Eu e minha esposa a conhecemos aí antes mesmo de eu ser deputado. Depois, quando eu fui candidato a deputado, que ganhei a eleição, encontramos ela e foi quando ela me fez esse pedido com a minha esposa: Ó, já que você vai para lá, aproxima do Jair, vamos tentar fazer ele firmar na Igreja, é uma pessoa boa, meu marido.

?Voz B

O projeto deu certo em partes.

?Voz F

Eu sempre digo que o Bolsonaro, ele talvez seja o evangélico mais católico que eu conheço, né? Porque ele se declara católico, mas poucas vezes eu vi o presidente Bolsonaro em igreja católica. Se você me perguntar quantas vezes eu vi ele em igreja evangélica, Algumas dezenas, né? Algumas dezenas. E aí eu tenho certeza que isso é muita influência da Michele.

?Voz E

O Jair Bolsonaro é o que a gente pode chamar de pancristão, um camarada que tanto agrada, do tipo, ele tem o bônus, isso quem fala é o sociólogo Paul Freshton, assim, que ele tem o bônus da identidade evangélica, ele não é um evangélico, mas ele é amigo de tantos evangélicos, ele se identifica tanto com elementos evangélicos, mas ele não tem o ônus. De ser o presidente crente. Ele não é esse presidente. Então ele é um pã-cristão que agregaria tudo isso.

?Voz B

A transformação de Jair Bolsonaro nessa figura pã-cristã que a Ana Virgínia está descrevendo aí tem as digitais de Michele, que transita pelas igrejas evangélicas desde Ceilândia. Além do aspecto religioso, quando a gente fala de Igreja Batista, está falando também de construção de rede e mobilidade social. Isso quem me contou foi a antropóloga Jaqueline Moraes Teixeira. Ela pesquisa pentecostalismo há mais de 20 anos. Para Jaqueline, a igreja foi importante na ascensão de Michele desde o começo da carreira, quando ela conseguiu um trabalho na Vinícola Aurora, longe da comunidade pobre onde vivia.

?Voz G

O próprio modo como ela chega a trabalhar nessa vinícola já é certamente atravessado por uma série de contatos e de agenciamentos que são possíveis a partir de você estar numa localidade em que você tem uma comunidade de fé que te permite rede. Eu acho que o fato dela ter ido para a Igreja Batista no começo foi muito significativo para começar a rede. Ela pode ser pensada como uma comunidade de fé que produz agenciamentos.

?Voz B

Embora seja comum na população evangélica essa errância em relação às igrejas, até em função da oferta de templos que só cresce, a Jaqueline observou que as escolhas religiosas de Michele estão ligadas aos rumos políticos do marido. Como eu te contei no começo do episódio, a primeira igreja dela no Rio foi a Universal, liderada pelo Bispo Edir Macedo, ainda num período em que o Bolsonaro era pouco conhecido nacionalmente. Conforme ele se esforçava para aumentar sua projeção política, a vida religiosa da família também foi se modificando.

?Voz G

O modo como a Universal pensa política e apoia seus políticos, não teria produzido o mesmo efeito de apoio ao Bolsonaro que o Silas Malafaia produz. Então não faria muito sentido, demoraria mais tempo para o Bolsonaro atingir o apoio que ele atingiu do Malafaia se ele entrasse no contexto, na linguagem política da Igreja Universal.

?Voz B

Isso explica o fato de ela ter ficado tão pouco tempo na Universal. Naquela época, Edir Macedo ainda era próximo a Lula. Em 2010, ele declarou apoio à candidatura de Dilma Rousseff e divulgou uma carta negando que ela fosse favorável ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já Bolsonaro pensava diferente. Embora tenha apoiado Lula em 2002, ele foi para a oposição assim que o PT assumiu o governo. O Bispo e sua Universal só dariam apoio a Bolsonaro muito tempo depois, quando ele já era uma figura central na polarização política.

Quando a família Bolsonaro se aproximou de Malafaia, ele não tinha o tamanho de Egir Macedo, mas já crescia entre as lideranças religiosas.

?Voz G

A Assembleia de Deus Pentecostal não só em plena mas em plenas condições de disputar politicamente qualquer coisa, né? E que consequentemente, né, além de ela ter talvez encontrado uma sensação de reconhecimento e de importância que ela não deve ter encontrado diretamente na Igreja Universal, também encontrou uma possibilidade de uma igreja aberta minimamente a apoiar o Bolsonaro. Mesmo que ele não necessariamente viesse a ser da Igreja.

?Voz B

Essa é novamente a antropóloga Jaqueline Moraes Teixeira. No episódio passado, a gente contou que Michele deixou a Igreja de Malafaia, Assembleia de Deus, depois de se chatear com ele pelas críticas feitas ao marido. O pastor cobrou Bolsonaro por não tê-lo defendido quando foi alvo de uma operação da Polícia Federal. As duas famílias reataram os laços, Mas Michele escolheu permanecer na igreja para onde tinha se mudado a Atitude.

?Voz G

Porque de alguma maneira ela vai para uma igreja que é uma igreja grande, de classe média, classe média alta, que tem uma incidência política significativa, mas não tem uma liderança nacional que as pessoas vão vinculá-la a essa liderança, que ela vai ter que aparecer, vai ter que ficar pagando pedágio para essa liderança.

?Voz B

O cotidiano da Igreja Atitude não é centralizado em uma figura famosa, como Índio Macedo ou Malafaia, e a instituição tem muitos projetos voltados para a juventude, o que dá certo destaque para figuras como Michele. Michele, por sua vez, dá destaque à igreja. É uma relação mais ganha-ganha.

?Voz G

E é claro, não tô dizendo que isso é intencional, vou para lá para acontecer isso, mas é porque é um fluxo mesmo de como as redes estão sendo constituídas. Então fico imaginando que ali ela também consegue encontrar de alguma maneira uma configuração importante para respaldar o lugar, né, de ser primeira-dama, mas sem necessariamente— e é isso que eu acho interessante— sem necessariamente estar vinculada, vincular a figura dela à figura de um grande pastor.

Porque se ela tivesse ficado no Malafaia, isso ia acontecer. O Malafaia ia virar o mentor dela.

?Voz B

Não tem um bônus de estar vinculada a uma figura polêmica como o Malafaia.

?Voz G

Exato. Na verdade, as pessoas começam até a— a igreja começa até a aparecer mais por causa dela.

?Voz B

A reta final da campanha de 2018 foi marcada pelo sentimento de já ganhou do lado de Bolsonaro e de uma aceitação da derrota entre os eleitores de esquerda. No dia 28 de outubro, veio a confirmação. Bolsonaro fez um discurso messiânico, com referências religiosas e promessas de combate à corrupção e mudança na vida dos brasileiros. Michelle permaneceu ao lado dele, mas recuada, com a mão de unhas vermelhas repousada no ombro direito do marido.

Ao longo do discurso, ela pronunciou algumas vezes baixinho a palavra amém. A gente volta depois de um rápido intervalo.

?Voz H

Assombrações que aparecem de repente em uma loja de conveniências. Serão fantasmas do além ou memória de pessoas conhecidas.

?Voz D

Em que medida uma história muito pessoal reverbera na história da humanidade?

?Voz C

Para algumas culturas, o rio, a montanha, o sol eram pessoas, era vida.

?Voz D

Eu tô contando a história que é coletiva, né?

?Voz H

Porque aceitar o esplendor é também aceitar o horror. Eu sou a cantora Sheyna Eu sou Laila França e esta é a segunda temporada do Em Obras, o podcast da Fundação Bienal de São Paulo. Nesta edição, partimos da 36ª Bienal, que coloca uma pergunta simples e ao mesmo tempo decisiva: o que significa praticar a humanidade?

?Voz B

Ouça no UOL, no YouTube do UOL Prime, no site da Bienal e em todas as plataformas de podcast. Na tarde de 1º de janeiro de 2019, Michele Bolsonaro surge de pé no tradicional Rolls-Royce conversível da presidência, avançando lentamente pela Esplanada dos Ministérios em Brasília, sob o forte esquema de segurança que envolveu a cerimônia de posse de seu marido Jair. Com vestido rosê e ombros à mostra, ela acena à multidão. Um detalhe naquele passeio de carro escapa ao protocolo e ajuda a contar outra história.

Do banco de trás, quase colado ao pai, está Carlos Bolsonaro, então vereador do Rio. A gente vai falar sobre a relação de Michele com os filhos de Jair daqui a pouco. Na época, o irmão O irmão Eduardo Bolsonaro, que acompanhou a cerimônia junto aos outros filhos do presidente eleito, disse que o vereador pegou carona no veículo por ser o pitbull da família. Se para a família de Jair não faltaram convites para posse, poucos parentes de Michele estiveram presentes na ocasião.

Gilberto, o tio surdo que a inspirou a estudar Libras, talvez tenha visto a homenagem que a sobrinha fez deficientes auditivos pela televisão.

?Voz A

Eu me reuni com as minhas duas líderes da igreja, que são intérpretes de Libras, e falei, eu vou fazer um discurso.

?Voz B

Michele contou na entrevista para o Alexandre Garcia que decidiu discursar de última hora.

?Voz A

E aí aconteceu que eu fiz esse discurso 2 dias antes da posse, treinei de madrugada, então de treino mesmo um dia.

?Voz B

Ela diz que só revelou a Bolsonaro que discursaria pouco antes do casal sair em direção à cerimônia.

?Voz A

A gente foi fazer a limpeza e ele deitado. Eu falei, amor, eu queria te pedir 5 minutos do seu tempo de discurso. Aí ele falou, claro, desprovido, né? Você vai falar?

?Voz G

Eu falei assim, vou, vou falar.

?Voz A

Mas eu prometo que são 5 minutos, não vai passar. Ele, não, tudo bem.

?Voz C

Não quis saber o teor da fala.

?Voz A

Não quis saber. Eu tava fazendo a limpeza, ele não podia falar nada também, né? Senão eu deixava ele ali.

?Voz D

Brincadeira.

?Voz B

Naquele dia, Michele escreveu seu nome na história do Brasil com um ineditismo.

?Voz F

Pela primeira vez, uma primeira-dama discursou durante a cerimônia de posse de um presidente da República, e o discurso foi em Libras. Libras, que é a língua brasileira de sinais.

?Voz B

Michele prometeu se empenhar para ajudar a comunidade surda, agradeceu a Deus por estar ali e também ao Enxado Carlos pelo apoio ao pai na recuperação posição da facada. Atendendo a um pedido do público, também deu um beijo na boca do marido. O ineditismo do discurso fez com que muita gente achasse que no governo Michele Bolsonaro seria uma primeira-dama com luz própria.

?Voz C

Eu assisti a posse e vi, assim como a maioria dos brasileiros, a dona Michele pela primeira vez fazendo aquele discurso em Libras.

?Voz B

Esse é André Costa, braço direito de Michele Bolsonaro. André é coronel da reserva da PM e esteve à frente da Secretaria de Comunicação Social durante o governo Bolsonaro.

?Voz C

Isso realmente marcou. Eu tinha um conhecimento da necessidade de Libras para comunicação com a comunidade surda e na Presidência da República eu só tive o meu contato com ela assim que assumi a SECOM. Minha primeira reunião de trabalho na SECOM foi com ela, que quis ali apresentar a causa que ela defendia.

?Voz B

É comum que primeiras-damas escolham uma bandeira para levantar durante o governo de seus maridos e geralmente é ligada a questões sociais. Michelle optou pela causa das pessoas com deficiência e doenças raras.

?Voz C

Então, por exemplo, na questão dos surdos, ela fazia questão de colocar, isso era um, no início era uma coisa totalmente nova para o cerimonial, então fazia questão de colocar o intérprete ao lado do presidente, ao lado dela, ao lado do ministro que tivesse ali discursando no Palácio. Então ela tinha muito esse tipo de atuação, mas jamais de intervenção, era sempre de ensinar e convencer.

?Voz B

Mas nem sempre convencer era fácil, e a postura de Michele, que parecia distanciá-la da atuação de outras primeiras-damas, foi minguando ao longo do mandato. Segundo André, Michele tentou recorrer a outra mulher no governo, Damares Alves, na época ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

?Voz C

Ela perguntou, Damares, por que que a causa das doenças raras não tá na pauta dos governos? Por que que os governos nunca olharam para isso? Damares, que é uma pessoa já experiente no Congresso, falou, Michele, porque essa é uma pauta cara, custa muito dinheiro.

?Voz B

De novo, a antropóloga Jaqueline Moraes Teixeira.

?Voz G

Eu tenho pesquisas e textos e tal que vai fazendo levantamento dos desenhos das primeiras políticas. Como é que essas políticas vai tendo um arrefecimento dos enfrentamentos, o dinheiro destinado para essas políticas não vão aparecendo, né? E o quanto de alguma maneira ela vai sendo mais impedida de aparecer em alguns espaços, né?

?Voz B

A Damares e a Michelle.

?Voz G

Isso.

?Voz B

E a gente pode dizer até que elas duas foram vítimas de machismo dentro do governo.

?Voz G

Totalmente, dentro e fora, né? A Damares nunca foi uma unanimidade e a Michelle também nunca foi mononimidade. O que me chamava atenção é que é muito comum, na verdade, as primeiras-damas ficarem a cargo da questão social, né? E também me chamava atenção, na verdade, quase que um desinteresse do partido em relação ao que ela fazia. Então, como ela não entrava no enquadramento do partido, várias dessas coisas que ela produziu nesses primeiros 4 anos não entraram também no enquadramento da mídia.

Quando é que a Michelle aparecia? Por conta de alguma roupa, por conta de algum gasto. Ela foi sempre muito retratada nesse período pela mídia como alguém que não tinha muita voz e que era consequentemente quase que uma extensão de um escândalo, e um escândalo muito performatizado no lugar dela de gênero. De primeira-dama, de novinha.

?Voz B

A Michele do ineditismo, fora do script, se perdeu. E o escândalo que mais colou na primeira-dama nesse período foi o que garantiu a ela uma marca, um apelido dado pela oposição: Micheque.

?Voz D

O ex-assessor Fabrício Queiroz e a mulher dele, Márcia Aguiar, depositaram R$89 mil em cheques na conta bancária da primeira-dama Michele Bolsonaro.

?Voz B

Fabrício Queiroz era ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2020, uma quebra de sigilo bancário revelou que Michele recebeu R$72 mil em diferentes cheques de Queiroz entre 2011 e 2018 e mais R$17 mil da mulher dele, Márcia. Bolsonaro chegou a defender a esposa, dizendo que se tratava do pagamento de um empréstimo. Na época, Flávio estava sendo investigado pelo Ministério Público do Rio por chefiar um suposto esquema de rachadinha quando era deputado estadual.

A rachadinha é o nome que se dá à prática em que parlamentares ficam com parte dos salários de seus assessores, e Queiroz era acusado de ser o operador financeiro da rachadinha. Tanto o caso dos cheques quanto das rachadinhas foram arquivados pela Justiça. Apesar de envolvidos no mesmo escândalo, a relação de Michele com os filhos de Jair nunca foi de união. Muito pelo contrário. Não é segredo para ninguém que eles não se bicam.

Quem é próximo da família evita tratar desse tema publicamente. Mas uma dessas pessoas, o Silas Malafaia, nos deu uma pista da natureza do conflito. Porque aí também imagino que tem uma delicadeza, porque é questão familiar. Que a gente sabe que não é fácil, né? Madrasta com enteados.

?Voz I

E você sabe, você sabe que madrasta não é família. Isso, eu sou psicólogo, isso é, isso é fato, isso é real. Os filhos não consideram a madrasta como família. Isso é da natureza, tá lá no inconsciente, tá lá no psicológico. Aquela mulher tá ocupando o lugar da sua mãe. Então existe uma questão psicológica inconsciente nisso aí.

?Voz B

E aí isso realmente deve resvalar naturalmente para a política.

?Voz I

Isso gera tensões. São 3 filhos homens, maiores de idade, certo? Isso não é brinquedo, isso gera tensões, com certeza.

?Voz B

Fontes próximas aos herdeiros de Bolsonaro que a gente ouviu para esse podcast dizem que eles nunca aceitaram Michele no clã. A colunista do UOL, Mariana Sanches, tem essa apuração.

?Voz D

Então, até mesmo pelo Flávio e pelo Eduardo, com quem a madrasta sempre teve uma relação menos problemática, ela também sempre foi vista como oportunista, alguém que não gostava de verdade do Jair, mas do que ele poderia oferecer, alguém que estaria em busca de uma certa ascensão social e política e que enxergou no capitão essa possibilidade. Eu ouvi de uma fonte muito próxima à família que o Jair se deixou seduzir ali. Eles até usaram para mim uma expressão mais chula, que é uma questão do chá da Michele, o chá que ela serviu ao Jair Bolsonaro e que acabou levando a que ele se apaixonasse e não conseguisse se desvencilhar dela.

?Voz B

Durante a presidência de Bolsonaro, a tensão entre Michele e os filhos, principalmente Jair, Renan e Carlos, rendeu boas anedotas em Brasília. Em uma delas, revelada pelo portal Metrópoles, o presidente Jair Bolsonaro foi impedido de acessar a própria adega por ordem de Michele. Bolsonaro queria presentear uma visita com um vinho. Viu o cômodo trancado, achou aquilo muito esquisito e pediu a chave para um funcionário. Ele disse que não podia dar, por ordens da primeira-dama.

Motivo: Jair Renan, o filho caçula, andava secando a adega sem autorização de Michele. A solução encontrada: privar todos os moradores do acesso às garrafas. Enfurecido, Jair Bolsonaro resolveu a situação a seu modo. Arrombou a porta da adega na frente do convidado, que saiu de lá meio assustado, mas com um presente na mão. Só que as sucessivas brigas familiares acabaram respingando politicamente em Bolsonaro e abalaram momentos importantes da campanha à reeleição.

?Voz D

Teve um atrito entre a Michele e o Carlos Bolsonaro. Ele já acumulava uma série de desentendimentos disputando a proximidade com o Jair. E na semana em que Bolsonaro e Lula debateram pela primeira vez antes do segundo turno a disputa presidencial de 2022. O Carlos, a essa altura, já estava impedido de entrar no Palácio da Alvorada por ordem de Michele e ficou irritado tentando furar o bloqueio. A briga aconteceu enquanto o Jair tava se preparando para enfrentar o Lula no debate, em um dos momentos mais tensos da campanha dele.

E a Michele exigiu a retirada do Carlos do local, que se enfureceu e decidiu não acompanhar o pai no debate. E o conflito abalou Bolsonaro, que acabou tendo um desempenho ruim naquela noite.

?Voz B

Essa ruptura que afetou o debate político não se explica somente por desafeto no campo familiar. Foi o estopim de algo que estava sendo disfarçado publicamente até então e que tem a ver com uma gradual mudança de postura de Michele. Ela foi de uma primeira-dama tímida e subordinada ao clã a uma figura cada vez mais central no futuro político de Jair Bolsonaro e passou a reivindicar protagonismo. Se no governo a atuação de Michele foi sufocada, seja por falta de verba para os projetos que defendia ou por machismo, na campanha pela reeleição o jogo ficou um pouquinho diferente.

Vamos cantar pro presidente! É o capitão do povo que vai vencer! Domingo, 24 de julho de 2022. Michele usa um conjunto verde em tecido acetinado, de camisa com mangas bufantes e calça pantalona, e uma sandália dourada de salto alto para ir ao Maracanã. Ela não estava lá para ver o Flamengo, seu time de coração. O destino de Michele nem era o estádio, que naquele dia estava cercado de bandeiras do Brasil, mas sim o Maracanãzinho, a arena coberta que fica ao lado do estádio principal.

Ali acontecia o evento do PL, o Partido Liberal, que preparava o lançamento oficial da candidatura à reeleição de Jair Bolsonaro. Que eu possa quebrar o protocolo. O coração do seu marido está nela confiado. Ela só lhe faz bem e não mal, e todos os dias da sua vida. Então quero passar a palavra à primeira-dama, senhora Michele. Fisicamente, ela parecia outra pessoa. Os cabelos longos e loiros foram substituídos por um curtinho castanho escuro com nuca batida.

Era uma Michelle mais madura, mais madura, mais suave e que não parecia ter medo de multidões. O ginásio, com capacidade para 12 mil pessoas, estava lotado. Aquela Michele não lembrava em quase nada a jovem tímida que em outubro de 2018 apareceu pela primeira vez na propaganda eleitoral do marido. Ela pegou o microfone.

?Voz A

Obrigada. Obrigada pelo carinho, pelo apoio, obrigada pelas orações.

?Voz B

Aquela moça tava diferente e deixando muita gente para trás. Na semana que vem, no próximo episódio de Michele, a gente vai mergulhar nas intrigas que implodiram a família Bolsonaro.

?Voz I

Bom, se o Bolsonaro não tivesse perdido a eleição ela não seria presidente do PL Mulher.

?Voz D

Isso é revelador de uma certa tensão que existe sobre quem é o titular desse sobrenome, quem é que tem direito a usá-lo e aproveitar dele na sua máxima extensão. Quando foi conversando com essas mulheres conservadoras, a gente começou a entender que um nome que vinha para elas como uma mulher feminista era o da Michele Bolsonaro. Os filhos do Jair a veem como uma feminista antagonista que deturparia o sobrenome da família estando em cargos políticos.

?Voz G

E ela, de alguma maneira, tá que foda-se, né? Ela segue fazendo os rolês dela contra os filhos e contra ele.

?Voz B

Assine o UOL para ouvir o episódio no Spotify. Michelle é um podcast original UOL Prime. A apresentação é de Adriana Negreiros. A reportagem é de Adriana Negreiros, Juliana Fadu e Mariana Sanches. O roteiro é de Clara Reustab e Adriana Negreiros. O tratamento de roteiro é de Laura Kapelusznik. A coordenação é de Lígia Carriel e Laura Kapelusznik. A montagem, desenho de som e finalização são de João Pedro Pinheiro. Trilha sonora original de João Pedro Pinheiro.

Trilhas adicionais do Epidemic Sound. A direção de arte é de Gisele Pungan. A arte de capa é de Yasmin Ayumi. O podcast é um produto do UOL Prime, com edição de Luiz Weber e Vanessa Batista. A gerência geral é de Irineu Machado. A supervisão é de Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Esse episódio usou áudios do UOL, do Poder 360, da Mídia Ninja, do canal de Alexandre Garcia, da TV Brasil, da Rede Super de Televisão e da TV Globo.

Michelle #2: Êxodo | Castnews Index — Castnews Index